segunda-feira, 30 de junho de 2014

FUNDOS-ABUTRE: EVO MORALES CONCLAMA OS TRABALHADORES A RECHAÇAR AS ANARQUIAS FINANCEIRAS

Evo Morales (Foto: Telesur)
O presidente da Bolívia assegurou a sindicalistas de vários países que "enquanto governem banqueiros e empresários", continuará a luta dos trabalhadores contra "o capitalismo e o imperialismo". A América Latina apoiou a Argentina no caso dos Fundos-Abutre.

Do sítio web da Telesur, de 30/06/2014

"Un nuevo mundo sin oligarquías, jerarquías, monarquías es posible y, además, sin anarquías financieras", aseguró este lunes (nesta segunda-feira) el presidente de Bolivia, Evo Morales, a representantes sindicales de varios países que se encuentran desde este lunes (esta segunda) en Cochabamba (centro-oeste) analizando su unidad contra el capitalismo.

Durante la reunión que se lleva a cabo en el auditorio de sindicalistas convocados por la Central Obrera Boliviana (COB), Morales comentó que mientras (enquanto) existan esos sistemas políticos y la anarquía financiera, "mientras (enquanto) gobiernen banqueros y empresarios", continuará la lucha de los trabajadores contra "el capitalismo y el imperialismo".

Al encuentro asisten (participam) representantes de sindicatos de Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Ecuador, México, Egipto, Estados Unidos, Grecia, India, Perú, Irán, Sudáfrica, Rusia, Uruguay y Venezuela, entre otros, quienes estarán en el país hasta el miércoles (até quarta-feira), según los organizadores.

El mandatario boliviano expresó además el respaldo del encuentro a Venezuela porque sufre una "agresión política" del "imperio" y a Argentina porque afronta una "extorsión económica" por los "fondos buitre" (fundos-abutre, especulativos).

En el acto de este lunes (desta segunda) también intervino el secretario general de la Federación Sindical Mundial (FSM), el griego George Mavrikos, quien señaló que los sindicatos se encuentran en un momento "muy crucial por la agresividad imperialista" en países como Ucrania, Irak, Siria, Malí, África Central y hacia (e contra) gobiernos como los de Venezuela y Cuba.

"Sabemos muy bien que el principal objetivo del imperialismo no es la democracia, ellos son hipócritas cuando dicen que sus intervenciones son por la democracia", indicó Mavrikos. Añadió (Acrescentou) que frente a esta situación, los sindicatos del mundo tienen como arma "la solidaridad y el internacionalismo".

CHILE: POLÍTICOS HOMENAGEIAM ALLENDE E PROPÕEM UMA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE

Salvador Allende (Foto: Prensa Latina)
Santiago do Chile, 30 junho (Prensa Latina) - Personalidades da política no Chile defenderam uma Assembleia Constituinte como parte das homenagens a Salvador Allende, por ocasião do 106 aniversário de seu nascimento.

Em um ato realizado no mausoléu de Allende, no cemitério nacional, foi recordada a figura do presidente, derrocado no dia 11 de setembro de 1973 por um sangrento golpe de Estado comandado pelo general Augusto Pinochet.

Esteban Silva, presidente da recém criada Fundação Constituinte XXI, promoveu, antes, um seminário para aprofundar o tema, sob a ideia de um socialismo chileno do novo milênio, visando alterar a carta magna.

Silva falou sobre o Allendismo e o socialismo do século XXI no contexto de um movimento que surge para refundar o país.
 

No ato realizado no cemitério desta capital estiveram presentes Julio Louis, da Esquerda em Marcha, da Frente Ampla do Uruguai; e Rafael Araya, do Partido MILES da Argentina.

Além disso, estiveram presentes Patricio Guzmán, do Socialismo Revolucionário, e Rubén Yocelevzky, dirigente do Movimento do Socialismo Allendista e autor do livro "Salvador Allende na memória de seus irmãos de partido".

Uma das promessas de campanha da presidenta da República, Michelle Bachelet, foi a de reformar a Constituição pois a mesma foi desenhada pela Junta Militar de Pinochet.

Leonardo Soto, deputado socialista, disse hoje que o movimento pela criação de uma Assembleia Constituinte só cresce, e declarou que se trata de uma iniciativa que requer uma consulta popular.

EMILIANO JOSÉ: A VEJA FICOU MUITO MENOR



(Foto: reproduzida do site de Emiliano)
Temos é que celebrar a alegria dessa Copa, o sucesso dela, e com isso demonstrar o quanto a mídia hegemônica distorce a realidade para atingir seus objetivos políticos.

Por Emiliano José (jornalista, escritor, deputado federal pelo PT-Bahia) – de sua página na Internet www.emilianojose.com.br, de 26/06/2014

Soube que Guzzo, chefão de Veja, fez uma autocrítica envergonhada sobre a Copa (leia matéria abaixo). Confessou que Veja errou rotundamente ao prognosticar – eu diria desejar – o fracasso da Copa. Ah, é? A Veja deve considerar que lida com um leitorado composto de idiotas. Pensa que engana. Ela pretendeu fazer o teste de hipótese. Dessem certas as suas previsões apocalípticas, e atingiria o seu óbvio objetivo de desgastar o governo e contribuir com a fragilizada oposição e seus frágeis candidatos. Veja não lida com fatos. Não faz jornalismo. Exerce a chefia do partido-mídia na área do jornalismo impresso. Os fatos, às vezes, a esbofeteiam e ela é obrigada a se retratar. Envergonhadamente.

Os aeroportos ficaram prontos, funcionam melhor que os europeus. Os turistas são recebidos com imenso carinho pelo povo brasileiro. Não houve problemas na mobilidade urbana. Os estádios são excepcionais, foram entregues a tempo, são belíssimos, e lotam a cada jogo. Estes, no desprezo de Veja pelos fatos, terminariam em 2038!

O mundo reconhece: é uma das mais bem-sucedidas copas da História. Essa foi e está sendo uma obra do povo brasileiro, de sua capacidade de trabalho, de sua criatividade, generosidade, capacidade de acolher a todos. E foi e está sendo fruto do trabalho do governo, da capacidade de Dilma, da luta do Lula para trazer a Copa para o Brasil. É mais uma afirmação do País diante do mundo.

Veja ficou muito menor. A autocrítica ruborizada não a redime. Temos é que celebrar a alegria dessa Copa, o sucesso dela, e com isso demonstrar o quanto a mídia hegemônica distorce a realidade para atingir seus objetivos políticos.

A famosa capa da Veja em que a revista previu que os estádios para a Copa só ficariam prontos em 2038 (Foto: reproduzida do site 247)
Chefão da Abril: “Imprensa pecou feio. É a vida”

Do site 247, de 29/06/2014

A revista Veja deste fim de semana traz um mea culpa de um dos homens fortes da Editora Abril, o jornalista José Roberto Guzzo, que já dirigiu Veja e Exame, pertence ao conselho editorial da casa e é um dos responsáveis pelas políticas editoriais do grupo. O texto, chamado "Errando à luz do sul", confirma a tese da presidente Dilma Rousseff, que na sexta-feira, falou que a imprensa nacional errou bastante ao prever um desastre na Copa (leia mais aqui).

Sem rodeios, Guzzo vai direto ao ponto. "É bobagem tentar esconder ou inventar desculpas: muito melhor dizer logo de cara que a imprensa de alcance nacional pecou de novo, e pecou feito, ao prever durante meses seguidos que a Copa de 2014 ia ser um desastre sem limites. O Brasil, coitado, iria se envergonhar até o fim dos tempos com a exibição mundial da inépcia do governo para executar qualquer projeto desse porte, mesmo tendo sete anos para entregar o serviço", diz ele.

"Deu justamente o contrário. A Copa de 2014, até agora, foi acima de tudo o triunfo do futebol", diz ele. "Para efeitos práticos, além disso, tudo funcionou: os desatinos da organização não impediram o espetáculo, os 600 000 visitantes estrangeiros acharam o Brasil o máximo e 24 horas depois de encerrado o primeiro jogo ninguém mais se lembrava dos horrores anunciados durante os últimos meses. É a vida", lamenta.

Guzzo reconhece ainda o risco das apostas erradas, como fez Veja ao prever que os estádios só ficariam prontos em 2038. "A Copa de 2014 é uma boa oportunidade para repetir que a imprensa erra, sim - mas erra em público, à luz do sol, e se errar muito acabará morrendo por falta de leitores, ouvintes e telespectadores. Ao contrário do governo, que jamais reconhece a mínima falha em nada que faça, a imprensa não pode esconder suas responsabilidades".

Na última linha, porém, ele faz um alerta. "Esperemos, agora, a Olimpíada do Rio de Janeiro". Será que Veja vai liderar o movimento #naovaiterolimpiada?

ARGENTINA: UM ABUTRE PODE OCULTAR OUTROS



Axel Kicillof (Foto: Urgente24/Carta Maior)

Entenda o que são os fundos-abutre


Ainda que seja uma ilegalidade do ponto de vista do direito norte-americano, desobedecer as sentenças dos tribunais nova-iorquinos é uma necessidade.


Por Renaud Vivien (*), no portal Carta Maior, de 29/06/2014
 
A Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou o recurso do Estado argentino contra a decisão de um tribunal de Nova York, que o condena a pagar US$ 1.33 bilhão a dois fundos abutres: NML e Aurelius.

Visando geralmente aos paraísos fiscais, os fundos abutres são fundos de investimento especulativo que aproveitam a crise para recomprar títulos da dívida dos Estados a preços bastante reduzidos. O objetivo é coagi-los pela via judicial para que sejam reembolsadas a um preço alto, ou seja, o montante inicial das dívidas, mais os juros, sanções, além dos diversos custos judiciais.

O mais-valor que estes fundos acumulam é fenomenal. Para exemplificar, o NML recomprou, em 2008, os bônus da dívida pública argentina, cujo valor nominal era de US$ 222 milhões. Ao passo que o fundo gastou apenas 48 milhões de dólares para adquirir estes títulos da dívida, agora pede à Argentina o pagamento de 222 milhões de dólares, mais os chamados juros de mora ou acréscimos legais.

Ao todo, o Estado argentino precisa pagar US$ 1.33 bilhão ao NML e ao Aurelius, segundo decisão dos juízes de Nova York, ratificada pela Suprema Corte. A jurisdição dos tribunais nova-iorquinos, extremamente protetora dos credores, deriva de um grave erro cometido pelo governo argentino no momento das negociações que manteve com seus credores privados em 2005 e 2010 – negociações as quais os fundos abutres se recusaram a participar.

Voltemos um pouco no tempo. Com a suspensão unilateral do pagamento de sua dívida em 2001, o governo argentino pôde reverter a seu favor a relação de forças e obter, de uma imensa maioria desses credores privados (93%), uma redução de 70% de sua dívida comercial. Porém, ao longo das negociações, renunciou a uma parte de sua soberania ao confiar aos tribunais de Nova York a competência para resolver litígios com seus credores, em vez de optar pelos tribunais argentinos. É esta a lacuna que o NML e o Aurelius utilizaram para poder perseguir o Estado argentino em território norte-americano. E a história ainda não terminou...

Ao rejeitar o recurso da Argentina, a Suprema Corte dos Estados Unidos abre caminho para outras sentenças condenatórias, pois os demais fundos abutres que não quiserem negociar sem dúvidas vão perseguir a Argentina. Assim, a fatura poderia aumentar em 15 bilhões de dólares! Insustentável para a economia e para o povo argentino. Desobedecer essa sentença é uma necessidade, ainda que seja uma ilegalidade do ponto de vista do direito norte-americano. Recordemos, entretanto, que a Argentina tem, assim como os demais Estados, obrigações com sua população, que são superiores a qualquer outra, como a de pagar seus credores.

Em sua relação com os fundos abutres, a Argentina recebeu apoio formal de credores “tradicionais”, como o FMI, o Banco Mundial, assim como de vários Estados integrantes do Clube de Paris, grupo informal que reúne os 19 Estados credores mais ricos (do qual a Bélgica faz parte). Todos aparentemente condenam os fundos abutres, mas todos têm uma grande responsabilidade nesta situação. Em primeiro lugar, estes fundos ganham nos tribunais, visto que sua ação é legal! Entretanto, seus procedimentos não são novos. Neste caso, o NML já obteve do Peru, em 1999, o pagamento de 58 milhões de dólares por uma dívida que o fundo tinha recomprado por somente 11 milhões de dólares. Os Estados devem multiplicar suas leis para deter a ação dos fundos abutres nos países do Sul e também na Europa, onde a Grécia e o Chipre foram atacados.

Em segundo lugar, os credores “tradicionais” endividaram enormemente os países do Sul com a cumplicidade dos governos devedores. Estes créditos recomprados pelos fundos abutres frequentemente são dívidas odiosas em sua origem. É este o caso da dívida argentina, que foi declarada nula pela Suprema Corte argentina no julgamento Olmos de 2000. Os juízes argentinos identificaram 477 crimes na formação dessa dívida, antes da chegada dos fundos abutres inclusive.

Estes credores “tradicionais” que pretendem apoiar a Argentina contra os fundos abutres são também os que extorquem o povo argentino, fazendo com que paguem uma dívida fraudulenta, vinculada, em parte, à ditadura argentina que eles apoiaram.

Os Estados-membros do Clube de Paris chegaram inclusive a um acordo com a Argentina em 29 de maio, que previa o reembolso dessa dívida odiosa. Há três anos a Argentina tinha cessado o pagamento ao Clube de Paris. O acordo prevê o pagamento de 9.700 milhões de dólares, dos quais 3.600 correspondem a juros de mora por atraso! Os abutres são muito mais numerosos do que nós pensávamos.

Se os credores querem realmente ser levados a sério em seu apoio à Argentina, devem, de um lado, aprovar leis contra os fundos abutre e, de outro, anular totalmente e sem condicionantes, todas as dívidas odiosas, ilegais e ilegítimas da Argentina.


(*) Renaud Vivien é co-secretário geral do CADTM (Comitê para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo)
- Bélgica.

A tradução é de Daniella Cambaúva.

domingo, 29 de junho de 2014

FUNDOS-ABUTRE: A GLOBALIZAÇÃO COMO GOLPE DE ESTADO FINANCEIRO



Foto da capa do jornal Página/12 de ontem, dia 28, ilustrando a manchete "El piquete de Griesa", sobre a sentença do juiz de Nova Iorque, Thomas Griesa, contra o Estado argentino e em favor dos chamados fundos-abutre ("fondos buitre")
Na Argentina, ‘el Megacanje’ (a Megatroca), ‘el Blindaje’ (a Blindagem) e agora a sentença do tribunal norte-americano a favor dos fundos-abutre são um claríssimo exemplo deste mecanismo que obriga as gerações à exclusão generalizada.

Algum dia, a história e seus propulsores falarão dos intelectuais nos meios de comunicação hegemônicos, advertindo sempre sobre o “espectro” populista enquanto preparavam o caminho dos centuriões e dos lobos.

Por Jorge Alemán (*) – reproduzido do jornal argentino Página/12, edição de 27/06/2014                          

A globalização foi o argumento histórico que acobertou a verdadeira situação do capitalismo financeiro: o estado de exceção sem o clássico golpe de Estado. A teoria que tentava mostrar a globalização como uma rede que se expandia sem limite e sem centro foi tão somente um recurso ideológico para obstruir o sempre difícil pensamento emancipatório. Para dificultar uma vez mais a inteligibilidade de sua lógica.

A dívida é o instrumento político deste terrorismo de Estado de novo cunho. Em outros termos, o golpe financeiro no século 21 é um golpe que se realizou com a cumplicidade dos Estados dominantes e seus aparatos jurídicos, todos eles pertencentes ao que chamamos a “racionalidade” neoliberal. O “estar endividado” é o dispositivo com que se extorque a população para fazê-la renunciar à sua responsabilidade política. Uma população excluída da responsabilidade política é uma população reduzida aos protocolos da avaliação e contabilidade, instrumentos que reduzem a pessoa à sua pura vida desnuda.

Na Argentina, ‘el Megacanje’ (a Megatroca), ‘el Blindaje’ (a Blindagem) e agora a sentença do tribunal norte-americano a favor dos fundos-abutre são um claríssimo exemplo deste mecanismo que obriga as gerações à exclusão generalizada. No entanto, essa exclusão, paradoxalmente, continua sendo produtora de mais-valia, inclusive no desemprego e na desocupação permanente, na medida em que o consumo de publicidade é incessante. É a nova realidade do indivíduo de massa que, ainda que esteja despossuído, continua sendo um potencial consumidor de todos os artefatos técnicos que promovem as estruturas midiáticas.

Os esforços do governo kirchnerista em seu intento de manter a soberania ficarão para a história como um testemunho singular do esforço de um governo democrático para não perder o rumo do seu legado histórico de emancipação frente aos dispositivos de endividamento neoliberal. Algum dia, a história e seus propulsores falarão dos intelectuais nos meios de comunicação hegemônicos, advertindo sempre sobre o “espectro” populista enquanto preparavam o caminho dos centuriões e dos lobos.

Apesar do ceticismo que este panorama infunde, ainda se pode pensar que o presente é injusto, porém a história é o lugar onde a verdade retorna. Por isso, aqueles pregadores da ética nos meios de comunicação hegemônicos salpicados de sangue, aqueles experts em economia cúmplices do pior, que lembram sempre as “reformas estruturais inevitáveis”, aqueles zelosos da “racionalidade” que advertem dia após dia sobre o demônio populista, aquelas esquerdas pseudo republicanas, pseudo socialistas das “belas almas” reunidas que gostam de denunciar o caráter prosaico do mundo, que não pensem que a coisa vai ser tão fácil para eles, porque são muitos os que teceram uma memória comum, que os recordarão em sua traição.

* Psicoanalista e escritor. Conselheiro cultural na Embaixada da Argentina na Espanha.

Tradução: Jadson Oliveira

ALÍ RODRÍGUEZ: “AVANCEMOS NAS AÇÕES CONCRETAS” (Parte 3/final)



Alí Rodríguez (Foto: Página/12)
Entrevista com o venezuelano Alí Rodríguez, secretário geral da Unasul.

Foi multiministro de Hugo Chávez e hoje ocupa na Unasul o mesmo posto inaugurado por Néstor Kirchner. Alí Rodríguez Araque explicou numa entrevista ao Página/12 que só com mais integração a América do Sul poderá competir com as corporações gigantescas que se sustentam mediante o processo de concentração econômica. O papel dos trabalhadores. Um plano para controlar os recursos naturais.

Por Martín Granovsky, no jornal argentino Página/12, edição de 15/06/2014 (a parte 1 foi postada no domingo, dia 22, e a parte 2 na quinta-feira, dia 26)

Chávez e Kirchner (continuação)

Como exemplo de integração concreta, Rodríguez – que com Chávez foi ministro da Energia Elétrica, da Energia e Minas, da Economia e Fazenda, chanceler e presidente da Petróleos da Venezuela Sociedade Anônima (Pdvsa – estatal) – narrou que em abril de 2004 estava visitando Montevidéu, na refinaria de La Teja, quando recebeu um telefonema de Chávez. “Alí, vá a Buenos Aires”, ordenou. “Se é necessário levar a refinaria de Paraguaná, leva-a”, disse. Paraguaná, na Venezuela, é o segundo maior complexo de refinação do mundo.

“Falei muito com o presidente Néstor Kirchner e muito rapidamente chegamos a conclusões bem óbvias. A Argentina era uma potência na produção de alimentos e tinha saldos exportáveis. A Venezuela era uma potência na produção de energia e tinha saldos exportáveis. Venezuela tinha falta de alimentos. Argentina tinha falta de energia. Essa situação na política internacional é uma das formas da assimetria. Nós diagnosticamos que as economias eram complementares e convertemos essa dedução em políticas de colaboração. O que parecia ser uma desvantagem se converteu em uma vantagem. As famosas assimetrias serviram e muito rapidamente, nos primeiros dois ou três anos, um comércio de 140 milhões de dólares chegou aos 2,4 bilhões. Por exemplo, os estaleiros do Rio Santiago estavam paralisados. O acordo a que chegamos previu que a Venezuela mandaria os barcos de sua frota aos estaleiros, e isso foi um alívio para os trabalhadores, que tinham muitas dúvidas sobre qual seria o seu futuro. Se por um momento imaginamos que isso ocorre entre todos os países da América do Sul, e entre todos os da América Latina e Caribe, aparecerão centenas de possibilidades nada mais do que por um simples fato: por ver com outros olhos distintos dos meramente mercantis os processos de intercâmbio entre nossos países e entre nossos povos.”

–Washington assinou tratados de livre comércio por exemplo com o Peru, Colômbia e Chile, porém não conseguiu fazê-lo com o Brasil, Venezuela e Argentina, que são três dos quatro (juntando com a Colômbia) maiores países da América do Sul.

–É um fato importante, mas não deixemos de prestar atenção aos TLCs, porque como diz a frase popular “del abogado aunque sea el sombrero” (tradução literal: “do advogado ainda que seja o chapéu”). Na medida em que mais países se somem aos TLCs e estabeleçam zonas de livre comércio, aonde chegaremos no final das contas? Um aspecto a se levar em conta é que o fato de ter sido derrotado o “fast track” de George Bush em Mar del Plata não quer dizer que os Estados Unidos tenham renunciado a criar uma zona de livre comércio. Fracassado o intento da ALCA não abandonaram o espírito dessa política. Querem alcançar os objetivos através dos tratados de livre comércio com distintos países e regiões. A essência dos TLCs é a mesma da ALCA.

–Você era chanceler da Venezuela em novembro de 2005, durante a cúpula de Mar del Plata que impediu (“que le puso bolilla negra”) a criação da Área de Livre Comércio das Américas.

–Uma grande vitória.

–Oito anos e sete meses depois não lhe pergunto o que teria acontecido com a ALCA. Lhe pergunto o que aconteceu sem a ALCA.

–Se quer, pode fazer também a primeira pergunta. Pergunte aos mexicanos o que lhes aconteceu com o Nafta, a área de livre comércio com os Estados Unidos e o Canadá. Veja o que aconteceu com os produtores de milho.

–O que aconteceu?

–Estão arruinados. Não escolhi esse exemplo por acaso. É mais que um pequeno dado: a tortilha (feita de massa de milho) é a base da alimentação mexicana.

Tradução: Jadson Oliveira