domingo, 22 de dezembro de 2019

QUEREMOS QUE VOCÊS SE LASQUEM, OTÁRIOS! (os donos do poder não podem dizer isso)


A opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem.



A opinião explícita que temos sobre nós mesmos tende a ser a mera justificativa da vida que levamos ou a mera repetição de chavões da mídia e da indústria cultural.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro ‘A classe média no espelho’, editora Estação Brasil, págs. 58/59/60 (título e destaques acima são da edição deste blog)



(...)



Os donos do dinheiro e do poder não podem simplesmente dizer ao restante da sociedade: “Nosso intuito é deixar todos vocês, otários, sem propriedade e sem poder, apenas com a roupa do corpo, trabalhando nas condições mais favoráveis para mim”. Não é assim que acontece. Caso contrário, teríamos revolta e revolução. Não há dominação de poucos sobre muitos sem o recurso à mentira e ao engano. Em consequência, a opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem.



Tão importante quanto notar devidamente a dimensão simbólica da sociedade é compreender a interconexão entre moralidade e poder, ou entre aprendizado efetivo e mera justificação de privilégios injustos. A infantilização e o bloqueio da capacidade de reflexão se dão seja pela construção de mitos nacionais vira-latas, contos de fadas para adultos, seja pela instalação de uma oposição simplista entre o bem e o mal. O resultado é a difusão da crença de que existem pessoas do bem, de um lado, e pessoas do mal, de outro.



Esse é o mundo das novelas, dos romances best-seller recheados de clichês, dos telejornais da Rede Globo, dos programas de rádio patrocinados por bancos, etc. Na realidade, não existem pessoas que incorporam unicamente a virtude absoluta ou o mal absoluto. Algumas podem ser muito boas e outras muito más. Porém mesmo esses casos limítrofes são muito raros. A grande parcela da humanidade, cerca de 99% das pessoas, é uma mescla de ambas as coisas no comportamento concreto e cotidiano, e cada um de nós faz o que pode para separar o joio do trigo.



O bem e o mal, portanto, estão “dentro de nós”, assim como estão “dentro de nós” as fontes morais, historicamente construídas, que definem o que é a virtude e o que é o vício. Como vimos, na cultura ocidental o bem e a virtude são definidos tanto como controle das emoções pelo espírito quanto pela expressão verdadeira dessas mesmas emoções. Isso implica que ser virtuoso, segundo nossos próprios termos, é uma aventura contraditória e conflituosa, seja na dimensão existencial, seja na dimensão pública da vida política.



Usando a linguagem popular, viver a vida de todo dia “não é fácil para ninguém”. Essa dificuldade é, ao mesmo tempo, existencial e política. Somos dilacerados por demandas valorativas conflitantes. Além disso, somo coagidos pela antiga demanda moral que caracteriza a tradição judaico-cristã ocidental: devemos, afinal, escolher seguir os valores morais ou optar pelo interesse egoísta de ocasião?



A primeira dificuldade é cognitiva e se refere ao desafio de compreender as fontes morais que nos comandam. Como esses valores sociais comuns são inarticulados e inconscientes, imaginamos, infantilmente, que criamos subjetivamente os valores que nos servem de guia. As consequências disso, como veremos, são de difícil comprovação empírica. Apesar de tais valores serem invisíveis – ou melhor, apesar de serem tornados invisíveis à nossa reflexão consciente pelos podres poderes que nos dominam -, seus efeitos no comportamento prático são facilmente observáveis e comprováveis.



Basta observar o mais importante, ou seja, o comportamento prático, e não as opiniões explícitas que as pessoas mantêm sobre si mesmas. A opinião explícita que temos sobre nós mesmos tende a ser a mera justificativa da vida que levamos ou a mera repetição de chavões da mídia e da indústria cultural. Como amamos justificar o que somos, exatamente por conta disso costumamos odiar a verdade.



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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

VIOLÊNCIA NA BOLÍVIA JOGA OS “GOLPES BRANDOS” PARA A HISTÓRIA


(Foto: Ronald Schemidt/AFP - reproduzida do Página/12)
Grupos paramilitares – gangues armadas violentas – foram a vanguarda dos chefes golpistas bolivianos, reforçados pelas Forças Armadas e também pelas forças policiais.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente (baseado em artigo de Washington Uranga, do jornal Página/12).

O recente golpe de Estado que derrubou Evo Morales na Bolívia veio com um ingrediente novo, levando em conta o modus operandi que vinha predominando nas últimas duas décadas na América Latina: o chamado “golpe brando” (ou “suave”).

Foi como as forças da direita – instrumentalizadas pelas grandes corporações econômicas, os donos do dinheiro e verdadeiros donos do poder, aliadas às suas ramificações internas - derrubaram Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Manuel Zelaya em Honduras (2009).

Os protagonistas mais visíveis nos casos de Lugo e Zelaya foram o Congresso Nacional e o Judiciário, com o respaldo fundamental da mídia hegemônica e ajuda das Forças Armadas.

Agora, na Bolívia (outubro/novembro/2019), a marca predominante foi a violência, deixando um rastro de mortos e feridos (o próprio Evo Morales esteve na iminência de ser assassinado). Esqueça o  “golpe brando” (e também os antiquados golpes militares dos anos 1960/1970, também violentos).

Grupos paramilitares – gangues armadas violentas – foram a vanguarda dos chefes golpistas, reforçados pelas Forças Armadas e também pelas forças policiais (no caso destas últimas, um protagonista relativamente novo no cenário latino-americano – esta observação é deste blogueiro que vos fala).

Com o apoio escancarado do governo dos Estados Unidos e da OEA (Organização dos Estados Americanos), organismo que voltou a incorporar o papel de capacho do império, fazendo jus ao antigo apelido de Ministério das Colônias (adendo da Casa Branca para cuidar do “quintal” latino-americano). E que, por isso, vem perdendo prestígio dia a dia.
(Foto: da Internet)
Quem nos alerta para esta diferença ocorrida no golpe boliviano é o analista político Washington Uranga (jornalista uruguaio que vive na Argentina), do excelente jornal argentino Página/12.

No artigo intitulado ‘Alertas’, do último dia 13/novembro, ele lembra, ironicamente, que este golpe sangrento contra o governo de Evo Morales foi executado sob o argumento da “defesa da democracia”, como expressou, sem um pingo de vergonha, o presidente Trump.

Continuando sua análise, Uranga observa que no caso boliviano não se usou o lawfare (“mentira apoiada em falácias jurídicas”) que levou ao golpe contra Dilma Rousseff no Brasil (2016).

O mesmo lawfare que levou ainda à prisão e proibição da candidatura de Lula e à perseguição ao ex-presidente equatoriano Rafael Correa, cujo substituto, Lenín Moreno, eleito pelas forças políticas de Correa, bandeou-se para a direita, traindo seus eleitores.

O mesmo lawfare que foi usado para perseguir a ex-presidenta Cristina Kirchner. Na Argentina, porém, as urnas se encarregaram de consertar o rumo, logrando-se uma contundente vitória eleitoral sobre o direitista Mauricio Macri, defenestrado da presidência a partir de ontem, dia 10/dezembro.

Uranga estende mais sua análise focando o seu país, Argentina, mencionando a permanente ofensiva do império estadunidense e seus tentáculos neoliberais contra a Venezuela.

Lembra que até parece que todos os métodos tentados para impedir que os povos decidam seu próprio destino são insuficientes.

Me lembrei da clássica proclamação de Simón Bolívar, cognominado o Libertador (lembrado amiúde pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez): “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher de fome e miséria a América em nome da liberdade”.

Link para ler o artigo de Washington Uranga na íntegra (em espanhol):

domingo, 8 de dezembro de 2019

A REVOLTA LATINA, A CRISE AMERICANA E O DESAFIO PROGRESSISTA


Bandeira do povo indígena Mapuche como símbolo da rebeldia dos chilenos
Mesmo quando contestados, os EUA e o capital financeiro internacional mantêm o seu poder de vetar, bloquear ou estrangular economias periféricas que tentem uma estratégia de desenvolvimento alternativa e soberana, fora da camisa de força neoliberal, e mais próxima das reivindicações desta grande revolta latino-americana.


Por José Luís Fiori (linguista, professor da USP) – do portal Carta Maior, de 30/11/2019 (destaque acima, intertítulos e disposição dos parágrafos são da edição deste blog)


Num primeiro momento, pensou-se que a direita retomaria a iniciativa, e se fosse necessário, passaria por cima das forças sociais que se rebelaram, e surpreenderam o mundo durante o “outubro vermelho” da América Latina.


Ofensiva do governo brasileiro


E de fato, no início do mês de novembro, o governo brasileiro procurou reverter o avanço esquerdista, tomando uma posição agressiva e de confronto direto com o novo governo peronista da Argentina.


Em seguida interveio, de forma direta e pouco diplomática, no processo de derrubada do presidente boliviano, Evo Morales, que havia acabado de obter 47% dos votos nas eleições presidenciais da Bolívia.


A chancelaria brasileira não apenas estimulou o movimento cívico-religioso da extrema-direita de Santa Cruz, como foi a primeira a reconhecer o novo governo instalado pelo golpe cívico-militar e dirigido por uma senadora que só havia obtido 4,5% dos votos nas últimas eleições.


Ao mesmo tempo, o governo brasileiro procurou intervir no segundo turno das eleições uruguaias, dando seu apoio público ao candidato conservador, Lacalle Pou – que o rejeitou imediatamente – e recebendo em Brasília o líder da extrema-direita uruguaia que havia sido derrotado no primeiro turno, mas que deu seu apoio a Lacalle Pou no segundo turno.


Expansão da “onda vermelha”


Mesmo assim, ao fazer-se um balanço completo do que passou no mês de novembro, o que se constata é que uma expansão da “onda vermelha” havia se instalado no mês anterior no continente latino-americano.


Libertação de Lula


Nessa direção, e por ordem, o primeiro que aconteceu foi a libertação do principal líder da esquerda mundial, segundo Steve Bannon, o ex-presidente Lula, que se impôs à resistência da direita civil e militar do país, graças a uma enorme mobilização da opinião pública nacional e internacional.


Levante na Bolívia


Em seguida aconteceu o levante popular e indígena da Bolívia, que interrompeu e reverteu o golpe de Estado da direita boliviana e brasileira, impondo ao novo governo instalado a convocação de novas eleições presidenciais com direito à participação de todos os partidos políticos, incluindo o de Evo Morales.


Grande vitória no Chile


Da mesma forma, a revolta popular chilena também obteve uma grande vitória com a convocação, pelo Congresso Nacional, de uma Assembleia Constituinte que deverá escrever uma nova Constituição para o país, enterrando definitivamente o modelo socioeconômico herdado da ditadura do General Pinochet.


E mesmo assim, a população rebelada ainda não abandonou as ruas e deve completar dois meses de mobilização quase contínua, com o alargamento progressivo da sua “agenda de reivindicações” e a queda sucessiva do prestígio do presidente Sebastian Piñera, que hoje está reduzido a 4,6%.


Neste momento, a população segue discutindo nas praças públicas, em cada bairro e província, as próprias regras da nova constituinte, prenunciando uma experiência que pode vir a ser revolucionária, de construção de uma constituição nacional e popular, apesar de ainda existirem partidos e organizações sociais que seguem exigindo um avanço ainda maior do que o que já foi logrado.


Governo do Equador acuado


No caso do Equador, o país que se transformou no estopim das revoltas de outubro, o movimento indígena e popular também obrigou o governo de Lenin Moreno a recuar do seu programa de reformas e medidas impostas pelo FMI, e aceitar uma “mesa de negociações” que está discutindo medidas e políticas alternativas junto com uma agenda ampla de reivindicações plurinacionais, ecológicas e feministas.


Surpreendente avanço na Colômbia


Mas além de tudo isso, o mais surpreendente acabou acontecendo na Colômbia, o país que vem sendo há muitos anos o baluarte da direita latino-americana e é hoje o principal aliado dos Estados Unidos, do presidente Donald Trump, e do Brasil do capitão Bolsonaro, no seu projeto conjunto de derrubada do governo venezuelano e de liquidação dos seus aliados “bolivarianos”.


Depois da vitória eleitoral da esquerda, e da oposição em geral, em várias cidades importantes da Colômbia, nas eleições do mês de outubro, a convocação de uma greve geral em todo o país, no dia 21 de novembro, deslanchou uma onda nacional de mobilizações e protestos que seguem contra as políticas e reformas neoliberais do presidente Ivan Duque, cada vez mais acuado e desprestigiado.

Ponto em comum: rejeição das políticas neoliberais



A agenda proposta pelos movimentos populares varia em cada um desses países, mas todas elas têm um ponto em comum: a rejeição das políticas e reformas neoliberais, e sua intolerância radical com relação às suas consequências sociais dramáticas - que já foram experimentadas várias vezes através de toda a história da América Latina – e que acabaram derrubando o seu próprio “modelo ideal” chileno.


Frente a esta contestação quase unânime, duas coisas chamam muito a atenção dos observadores:


a primeira é a paralisia ou impotência das elites liberais e conservadoras do Continente, que parecem acuadas e sem nenhuma ideia ou proposta nova, que não seja a reiteração de sua velha cantilena da austeridade fiscal e da defesa milagrosa das privatizações que vêm fracassando por todos os lados;


e a segunda é a relativa ausência ou distanciamento dos Estados Unidos frente ao avanço da “revolta latina”.


Porque mesmo quando tenham participado do golpe boliviano, fizeram com uma equipe de terceiro time do Departamento de Estado, e não contaram com o entusiasmo que o mesmo departamento dedicou, por exemplo, à sua “operação Bolsonaro” no Brasil.


Ao mesmo tempo, este distanciamento americano tem dado maior visibilidade ao amadorismo e à incompetência da nova política externa brasileira, conduzida pelo seu chanceler bíblico.


(...)


O Brasil pode se transformar num pária continental


Não é necessário repetir que não existe uma única causa, ou alguma causa necessária, que explique a “revolta latina” que começou no início do mês de outubro.


Mas não há dúvida de que esta divisão americana, junto com a mudança da geopolítica mundial, tem contribuído decisivamente para a fragilização das forças conservadoras na América Latina.


Tem contribuído também para a acelerada desintegração do atual governo brasileiro e a perda de sua ———— dentro do continente latino-americano, com a possibilidade de que o Brasil se transforme brevemente num pária continental.


(...)


Para ler o artigo na íntegra:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-revolta-latina-a-crise-americana-e-o-desafio-progressista/4/45999

sábado, 7 de dezembro de 2019

JESSÉ SOUZA: “NINGUÉM INVENTA OS PRÓPRIOS VALORES MORAIS”


Todo indivíduo já nasce dentro de um contexto moral. Ilusões a respeito moldam pessoas dóceis e tradicionalistas e também consumidores ávidos, submissos aos black friday da vida.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro ‘A classe média no espelho’ (editora Estação Brasil), páginas 30/31 (título e destaque acima são da edição deste blog)



...tendemos a achar que as ideias morais são criadas por nós individualmente, como se cada pessoa tivesse seus próprios valores morais, tal como cada um tem sua bicicleta, seu carro ou apartamento. O liberalismo dominante nada de braçada nessas ilusões objetivas. Para os egos infantilizados e inflados, ele reforça a ideia de que cada indivíduo define sua vida, seu conceito de felicidade e seus próprios valores. O resultado concreto disso são indivíduos dóceis e tradicionalistas na esfera pessoal e pública – e também consumidores ávidos num mercado que sempre oferece algum produto certo para acalmar a ansiedade e a insegurança existenciais.



Imaginar que os valores são criações individuais, como fazemos no dia a dia, é uma bobagem facilmente criticável e passível de refutação empírica. Ora, a moralidade é, por definição, social, ou seja, pressupõe ao menos duas pessoas com expectativas recíprocas de comportamento. Nesse sentido, todo indivíduo já nasce dentro de um contexto moral, o qual ele incorpora de modo insensível e irrefletido pela socialização familiar, e depois escolar, como algo afetivo e sagrado, uma vez que transmitido por pessoas próximas e amadas. Daí advém a força emotiva das demandas morais, as quais, quando descumpridas, inexoravelmente despertam sentimentos de culpa, de ressentimento e de altodesvalorização.



Esses inevitáveis “sentimentos morais” – como culpa, remorso, ressentimento, raiva ou inveja – comprovam que o “social” e sua força moral estão “dentro” – e não apenas “fora” – de nós, e precisamente por conta disso essa força é tão acentuada. Ninguém inventa os próprios valores morais. No máximo, enquanto indivíduos, podemos reagir de modo peculiar ao enorme impacto de uma moralidade social que, por sua vez, nos oprime e nos molda quase por completo. As reações individuais à moralidade social, quando não se tornam força social e política, tendem a ser uma teimosia descontínua, subjetiva e desprovida de consequências práticas.



(...)

domingo, 1 de dezembro de 2019

PODER MODERADOR DA GLOBO


“...indica punição e prisão a adversários políticos, mesmo sem provas, perdoa corrupção e crime de aliados políticos...”

Por Antonio Negrão de Sá – reproduzido de Espaço do Leitor, do jornal A Tarde, de hoje, dia 01/dezembro (destaque acima e disposição dos parágrafos são da edição deste blog)

Poder Moderador foi criação da monarquia e conferia ao imperador “vigiar a Constituição” e harmonizar outros poderes. Se sobrepõe ao legislativo, judiciário e executivo.

Esse tem sido o papel da Globo nas últimas cinco décadas na política e na economia. Não é legal, mas cultural e real, devido o monopólio dos meios de comunicação.

Destitui ou elege governos, influi na indicação e julgamento dos ministros da Suprema Corte, impõe reformas econômicas neoliberais, indica punição e prisão a adversários políticos, mesmo sem provas, perdoa corrupção e crime de aliados políticos, concede anistia a torturadores do Estado, apoia candidatos e elege torturadores e matadores de pobres.

Usa a seguinte estratégia nesse momento: holofote para Rodrigo Maia nas reformas neoliberais, investigação do Coaf ao Ministério Público e polícia para manter os Bolsonaros como reféns.

Enfim, sobrepõe e controla os poderes.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A FALTA DE UM PROJETO ALTERNATIVO DELIBERADO AJUDA A EXPLICAR AS FALHAS DO PT


“Na falta de um projeto articulado e de uma TV pública com conteúdo plural, a presidenta (Dilma) viu-se forçada a deixar que a Rede Globo, braço midiático do próprio rentismo, explicasse a luta política à população nos seus próprios termos”.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro A classe média no espelho (páginas 157/158), editora Estação Brasil (título e destaque acima são da edição deste blog)



O fato de o Partido dos Trabalhadores ter desenvolvido, a partir do carisma do ex-presidente Lula, o “lulismo”, na expressão marcante de André Singer (no livro Os sentidos do lulismo, da Companhia das Letras, 2012), como política de amparo aos mais pobres e marginalizados deve-se mais ao tino e à astúcia política do grande líder popular do que a um projeto partidário articulado e consciente. A lealdade conquistada nesses setores, antes os grotões mais conservadores da política brasileira, foi o ganho mais duradouro de uma política que, apesar de virtuosa, não soube mobilizar nem se proteger.



Apesar das conquistas históricas na luta contra a desigualdade abissal, a falta de um projeto alternativo deliberado explica boa parte da colonização do partido popular pelo discurso elitista do moralismo de fachada. Explica também boa parte do seu comportamento errático e hesitante em questões fundamentais, como, por exemplo, em relação ao aparato jurídico-policial do Estado.



Muitos, até pessoas inteligentes e argutas politicamente, não entendem claramente este ponto. A maioria acha que basta ter um projeto econômico alternativo e mais inclusivo que, espontânea ou magicamente, as pessoas vão compreender seu significado e seu benefício. Não se percebe a importância crucial de elaborar uma narrativa, ou seja, um projeto articulado alternativo ao elitista. Sem tal projeto convincente de longo prazo, não se sabe em que sentido, por exemplo, reformar o Estado, o Judiciário ou a política.



A inexistência desse projeto alternativo impossibilita um ataque ao núcleo do rentismo e da expropriação elitista, como corajosamente procurou fazer a ex-presidente Dilma. Na falta de um projeto articulado e de uma TV pública com conteúdo plural, a presidenta viu-se forçada a deixar que a Rede Globo, braço midiático do próprio rentismo, explicasse a luta política à população nos seus próprios termos.



Sem um projeto político de longo prazo, é possível promover a ascensão social de setores sociais inteiros, como parcelas dos pobres e da massa da classe média, mas se perde a narrativa da paternidade deste esforço para igrejas e outros atores sociais nas cidades do Centro-Sul. Sem um projeto articulado se faz, também, last but not least, o serviço para o inimigo, como fez o Ministério da Justiça da ex-presidenta Dilma, urdindo o aparato legal para as leis de exceção utilizadas mais tarde pelos inimigos para golpear a própria presidenta e a democracia.



Ainda assim, tem muita gente boa que não vê a importância de se articular, ponto a ponto, tal projeto alternativo. Obviamente, essa incapacidade mostra até que ponto somos dominados pela hegemonia dessa visão de mundo liberal-chique, que se torna, com o golpe, uma visão de mundo crescentemente “neoliberal-tosca”.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

GABRIELLI: OPOSIÇÃO BRASILEIRA DEVE TER COMO CENTRO A LUTA CONTRA A DESIGUALDADE (FOTOS DE PALESTRA EM SEABRA)


LULA LIVRE: José Sérgio Gabrielli com o grupo de seabrenses no auditório da UNEB
Fazemos um pequeno repique de palavras do nosso palestrante para divulgar imagens do evento no auditório da UNEB/Campus XXIII (Fotos de Smitson Oliveira)

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

A luta por um Brasil menos desigual é um dos pontos mais realçados pelo professor José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que fez palestras em Seabra (Chapada Diamantina), interior da Bahia, no dia 17 de outubro último, conforme várias matérias já postadas neste blog:



“Temos que manter como o centro de nossas atividades a luta contra a desigualdade, pela redução da pobreza e pela melhoria das condições de vida do nosso povo. Esse é o norte da construção dum novo modelo. Esse norte implica um papel essencial para o Estado, este Estado que está sendo destruído, desmontado pelo Bolsonaro.



Não temos que fazer uma defesa intransigente do que é o atual Estado, mas fazer uma defesa intransigente das concepções de um Estado que seja capaz de colocar a distribuição da renda como a razão fundamental do seu ser, do seu significado, de sua função”.



Gabrielli está muito bem acompanhado na sua avaliação. O ex-presidente Lula, no histórico discurso feito no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no último sábado (dia 9), um dia depois de sair da prisão, deixou claro a importância da luta, na conjuntura atual, contra o aprofundamento da pobreza e da desigualdade.



Na visão de Lula, a única saída para a crise econômica é a distribuição de renda e a geração de empregos.



Palavras da ex-presidenta Dilma, em Buenos Aires, durante recente reunião do Grupo de Puebla: “A questão da desigualdade está em primeiro plano, ainda mais em um país como o Brasil, onde 56% da renda nacional fica nas mãos de 10% da população".

E Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, no mesmo encontro, destacou também a desigualdade como um grande problema a ser resolvido: "Ninguém que se diz progressista, socialista, peronista ou comunista pode viver pacificamente com a desigualdade”.
Seleção de fotos com os participantes que fizeram intervenções durante os debates:
Adair Machado, presidente do PSOL/Seabra
Djalma Novais, o popular Piau, aposentado da Petrobras
Goiano (José Donizette), idealizador do evento, que contou com o apoio e participação da UNEB, IFBA, CES, Projeto Universidade para Todos, Colegiado do Território da Chapada Diamantina, APLB-Sindicato, Levante Popular da Juventude, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e dos dirigentes municipais dos partidos PT, PCdoB e PSOL.
Lauro Roberto (Professor Lauro), vereador do REDE
Adriana Oliveira de Souza, dirigente da APLB-Sindicato
Professor Jorge Rabelo participou dos debates (na foto, expondo seu livro ambientado na Chapada Diamantina/Morro do Pai Inácio)
Professor Henri Dourado Almeida
Maristônia Oliveira (Tânia), dirigente da APLB-Sindicato
Jornalista Edilson Félix
Ludmila Agostinho, do Levante Popular da Juventude
Fernando Monteiro, da direção municipal do PSOL
Mais fotos do encontro no auditório da UNEB, que reuniu em torno de 300 pessoas, a maioria estudantes e professores:
Pintor Pedro Lima, presidente do PT/Seabra; na outra ponta, Jean Mota, diretor da escola de Bebedouro
Leonardo Teixeira, da UNEB, conduziu os trabalhos no plenário, auxiliado por Antônia Araújo, da APLB/Sindicato; atrás, Edilson Félix, na ponta à direita, este repórter Jadson Oliveira 
Na frente: Ludmila, Jadson e Goiano
Atrás, à direita, engenheiro Jorginho Oliveira
Êmille, do Levante Popular da Juventude
Rubia Oliveira e Alberto Souza, velho militante do movimento sindical bancário na década de 1970
Gabrielli posando com participantes da palestra/debate
Com Ana Catarina e Ludmila, do Levante
Com Carol Campos, do PT (à esquerda)
Esta foto é do salão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, lotado durante outra palestra de Gabrielli em Seabra, no mesmo dia 17 de outubro, pela manhã 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

AMÉRICA LATINA: DE GOLPE EM GOLPE


(Foto: AFP/Página/12)
De Zelaya em Honduras a Evo na Bolivia (passando por Lugo no Paraguai, Lula e Dilma no Brasil e Correa no Equador), o modus operandi apoia-se nos meios de comunicação, justiça e  militares. Com respaldo do império estadunidense.

Por Eduardo Febbro (de Paris) – reproduzido do jornal argentino Página/12, de 14/11/2019 (destaque acima, disposição dos parágrafos e intertítulos são da edição deste blog)




América Latina tiene la derecha más depravada, pusilánime, corrupta e iletrada del mundo. Está dispuesta a quemar en la hoguera a un país entero con tal de no ceder ni un céntimo de sus ya monumentales beneficios.

Respaldada por Washington, aliada al militarismo golpista y embebida de una ideología involutiva, las derechas continentales actúan como si los países de los cuales extraen sus riquezas fueran para ellas un mero exilio y no la patria original.


El destino de golpes y destierros de seis presidentes latinoamericanos de orientación socialdemócrata es un retrato fantasmagórico de la carga destructiva que las castas oligarcas de América Latina están dispuestas a activar.


Manuel Zelaya en Honduras, Fernando Lugo en Paraguay, Lula da Silva y Dilma Rousseff en Brasil, Rafael Correa en Ecuador y ahora Evo Morales en Bolivia han sido los tótems malditos de un ala ultraconservadora que no dudó en desparramar muerte y represión para apartar del poder a una opción política que, más allá de sus retóricas, se asemejaba más a una socialdemocracia con perfil redistributivo que a una revolución socialista.


Honduras


El expresidente norteamericano Barack Obama fue el primero en inaugurar el siglo y entregar envuelto en papel castrense un golpe de Estado. Ocurrió en Honduras, en 2009. En junio de ese año, con la pueril excusa de una supuesta “traición a la Patria”, Manuel Zelaya terminó destituido, expulsado y exiliado (República Dominicana) por las fuerzas armadas en cumplimiento de una orden de la Corte Suprema de Justicia.


Se trató de una obscena patraña cuyo único objetivo consistía en impedir, entre otras cosas, que Zelaya llevara a cabo un plebiscito sobre una Asamblea Nacional Constituyente.


Con Honduras se inauguró la fase del nuevo golpismo a través de la construcción masiva de un relato contaminante. Los medios (meios de comunicação) y las redes sociales adquirieron en Honduras el perfil que hoy le conocemos: se volvieron armas de disuasión masiva armadas con falsedades.

El 28 de junio de 2009, Zelaya, en ropa interior, fue sacado a la fuerza de su residencia por los militares y expulsado del país. No le perdonaron su plebiscito ni su alianza con el eje liderado por el difunto presidente venezolano Hugo Chávez.


Paraguai


Fernando Lugo, en Paraguay, corrió una suerte similar. El “obispo de los pobres” había sido el segundo presidente de izquierda que llegó al poder después del corto periodo presidencial de Rafael Franco (1936-1937), otro desterrado. Ganó la presidencia en abril de 2008 y terminó destituido en junio de 2012 por un voto mayoritario de la Cámara de Diputados por un supuesto “mal desempeño” de sus funciones.


Como en Honduras, la caída de Lugo resultó de un relato armado con minuciosa eficacia a partir de hechos reales pero alterados en beneficio de la destitución.


Equador


En Ecuador, Rafael Correa gobernó por un periodo de 10 años, entre enero de 2007 hasta mayo de 2017. Su plataforma política, económica y social, así como su interlocución con la población indígena de Ecuador, hicieron de Correa un presidente de ruptura con respecto a los anteriores.


Tampoco se lo perdonaron, sobre todos los medios hegemónicos acostumbrados a manipular todo el espacio de la comunicación y los negocios. Su ya famosa “revolución ciudadana” trascendió las fronteras de Ecuador hasta volverse el argumento central de partidos de la izquierda radical europea como fue el caso de Francia Insumisa (Jean-Luc Mélenchon).


Pero las castas no admiten procesos de transformación profundos. Correa sacó a millones de personas del marginamiento (según el Banco Mundial, la tasa de pobreza en Ecuador pasó del 36,7% en 2007 al 22, 5% en 2014), otorgó derechos a las personas LGBT+, modificó la relación de fuerzas de los medios, multiplicó por cinco los gastos en sanidad, amplió la asistencia a los discapacitados, rehusó que Estados Unidos siguiera contando con una base militar en Ecuador y le brindó asilo a Julian Assange en la embajada ecuatoriana de Londres.


Correa dejó el poder en mayo del 2017. Fue reemplazado por su exvicepresidente, Lenín Moreno, quien se convirtió en un aliado de la venganza de las castas contra Correa. En 2018, la oposición de Correa al referéndum constitucional para reformar la Constitución le valieron los dardos de la justicia.


En julio, la jueza ecuatoriana Daniella Camacho dictó una orden de prisión preventiva contra el ex mandatario y hasta solicitó a Interpol que fuera arrestado. El presidente que más hizo por su país vive exiliado en Bélgica.


Brasil


Lula da Silva y Dilma Rousseff en Brasil son el anteúltimo peldaño del infierno al cual las derechas latinoamericanas están dispuestas a someter a los dirigentes socialdemócratas para apartarlos del camino. Los escándalos de corrupción de su partido, el PT, sirvieron como frase inaugural del gran relato desconstructor del lulismo emprendido por los abanderados históricos de la corrupción brasileña.


Atrás quedaban los programas sociales, la inversión en salud, educación, justicia, desarrollo, así como los millones de brasileños que salieron de la pobreza. Con un tejido de acusaciones respaldadas por un relato hegemónico, Lula fue arrestado el 4 de marzo de 2016 en el marco de la operación anti-corrupción Lava Jato, teledirigida por el juez Sergio Moro.


Lula fue condenado a nueve años y medio de cárcel acusado de recibir sobornos de la constructora OAS a cambio de contratos millonarios y Dilma Rousseff destituida en septiembre de 2016 al cabo de 13 años de gobiernos progresistas.


Bolívia


Evo Morales cerró en Bolivia la serie negra iniciada hace casi 15 años antes en Honduras. Las condiciones de su renuncia, la brutalidad, la violencia y la ilegitimidad de los actores políticos e institucionales que intervinieron sembraron la imagen de una venganza sangrienta.


Fueron dos de las fuerzas menos creíbles que existen en América Latina, las más corruptas, la policía y el ejército, quienes decidieron el destino político de una Bolivia que vivió sus años más prósperos y orgullosos bajo el mandato de Evo Morales.


Las circunstancias con las que se acorraló al presidente a la renuncia, el odio y la violencia liberadas en las calles, su partida al exilio mexicano, el silencio de las grandes democracias de Occidente y la pasividad retórica de los vecinos quedarán en la historia como una de las grandes heridas de nuestra América.


No es la hegemonía de un medio la que hace titubear la democracia sino la hegemonía de su mala fe. De Manuel Zelaya en Honduras a Evo Morales en Bolivia, la mecánica de la destitución ha sido similar: una casta oligarca que se apoya en los medios para viciar el relato, en la justicia y los militares. En cada caso se buscó arrancar del poder a opciones políticas reformistas, nacionalistas y con un fuerte ánimo redistributivo.


Ninguno de estos seis expresidentes ha sido un dictador, o un revolucionario violento, ninguno reprimió, amordazó a su pueblo, sentencio la libertad de expresión, ni derramó sangre en las calles.


Llegaron para abrir el juego político, social y económico en países cautivos de una casta explotadora, no para llenar las cárceles o los cementerios. Sus enemigos sí. Nuestras derechas cavernícolas jamás atravesaron el Siglo de las luces. Siguen ancladas en los tiempos de la barbarie ideológica y la obscuridad.


Lo acaban de probar en Bolivia, amparadas, una vez más, en la protectora dependencia de Washington. La Casa Blanca siempre ha estado a la vera de todas las hecatombes políticas de América Latina. Ha sido el capacitador ideológico y operativo de los golpes de Estado militares del Siglo XX como lo es ahora de los golpes cívico militares que promueve desde el inicio del Siglo XXI.