domingo, 1 de dezembro de 2019

PODER MODERADOR DA GLOBO


“...indica punição e prisão a adversários políticos, mesmo sem provas, perdoa corrupção e crime de aliados políticos...”

Por Antonio Negrão de Sá – reproduzido de Espaço do Leitor, do jornal A Tarde, de hoje, dia 01/dezembro (destaque acima e disposição dos parágrafos são da edição deste blog)

Poder Moderador foi criação da monarquia e conferia ao imperador “vigiar a Constituição” e harmonizar outros poderes. Se sobrepõe ao legislativo, judiciário e executivo.

Esse tem sido o papel da Globo nas últimas cinco décadas na política e na economia. Não é legal, mas cultural e real, devido o monopólio dos meios de comunicação.

Destitui ou elege governos, influi na indicação e julgamento dos ministros da Suprema Corte, impõe reformas econômicas neoliberais, indica punição e prisão a adversários políticos, mesmo sem provas, perdoa corrupção e crime de aliados políticos, concede anistia a torturadores do Estado, apoia candidatos e elege torturadores e matadores de pobres.

Usa a seguinte estratégia nesse momento: holofote para Rodrigo Maia nas reformas neoliberais, investigação do Coaf ao Ministério Público e polícia para manter os Bolsonaros como reféns.

Enfim, sobrepõe e controla os poderes.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A FALTA DE UM PROJETO ALTERNATIVO DELIBERADO AJUDA A EXPLICAR AS FALHAS DO PT


“Na falta de um projeto articulado e de uma TV pública com conteúdo plural, a presidenta (Dilma) viu-se forçada a deixar que a Rede Globo, braço midiático do próprio rentismo, explicasse a luta política à população nos seus próprios termos”.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro A classe média no espelho (páginas 157/158), editora Estação Brasil (título e destaque acima são da edição deste blog)



O fato de o Partido dos Trabalhadores ter desenvolvido, a partir do carisma do ex-presidente Lula, o “lulismo”, na expressão marcante de André Singer (no livro Os sentidos do lulismo, da Companhia das Letras, 2012), como política de amparo aos mais pobres e marginalizados deve-se mais ao tino e à astúcia política do grande líder popular do que a um projeto partidário articulado e consciente. A lealdade conquistada nesses setores, antes os grotões mais conservadores da política brasileira, foi o ganho mais duradouro de uma política que, apesar de virtuosa, não soube mobilizar nem se proteger.



Apesar das conquistas históricas na luta contra a desigualdade abissal, a falta de um projeto alternativo deliberado explica boa parte da colonização do partido popular pelo discurso elitista do moralismo de fachada. Explica também boa parte do seu comportamento errático e hesitante em questões fundamentais, como, por exemplo, em relação ao aparato jurídico-policial do Estado.



Muitos, até pessoas inteligentes e argutas politicamente, não entendem claramente este ponto. A maioria acha que basta ter um projeto econômico alternativo e mais inclusivo que, espontânea ou magicamente, as pessoas vão compreender seu significado e seu benefício. Não se percebe a importância crucial de elaborar uma narrativa, ou seja, um projeto articulado alternativo ao elitista. Sem tal projeto convincente de longo prazo, não se sabe em que sentido, por exemplo, reformar o Estado, o Judiciário ou a política.



A inexistência desse projeto alternativo impossibilita um ataque ao núcleo do rentismo e da expropriação elitista, como corajosamente procurou fazer a ex-presidente Dilma. Na falta de um projeto articulado e de uma TV pública com conteúdo plural, a presidenta viu-se forçada a deixar que a Rede Globo, braço midiático do próprio rentismo, explicasse a luta política à população nos seus próprios termos.



Sem um projeto político de longo prazo, é possível promover a ascensão social de setores sociais inteiros, como parcelas dos pobres e da massa da classe média, mas se perde a narrativa da paternidade deste esforço para igrejas e outros atores sociais nas cidades do Centro-Sul. Sem um projeto articulado se faz, também, last but not least, o serviço para o inimigo, como fez o Ministério da Justiça da ex-presidenta Dilma, urdindo o aparato legal para as leis de exceção utilizadas mais tarde pelos inimigos para golpear a própria presidenta e a democracia.



Ainda assim, tem muita gente boa que não vê a importância de se articular, ponto a ponto, tal projeto alternativo. Obviamente, essa incapacidade mostra até que ponto somos dominados pela hegemonia dessa visão de mundo liberal-chique, que se torna, com o golpe, uma visão de mundo crescentemente “neoliberal-tosca”.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

GABRIELLI: OPOSIÇÃO BRASILEIRA DEVE TER COMO CENTRO A LUTA CONTRA A DESIGUALDADE (FOTOS DE PALESTRA EM SEABRA)


LULA LIVRE: José Sérgio Gabrielli com o grupo de seabrenses no auditório da UNEB
Fazemos um pequeno repique de palavras do nosso palestrante para divulgar imagens do evento no auditório da UNEB/Campus XXIII (Fotos de Smitson Oliveira)

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

A luta por um Brasil menos desigual é um dos pontos mais realçados pelo professor José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que fez palestras em Seabra (Chapada Diamantina), interior da Bahia, no dia 17 de outubro último, conforme várias matérias já postadas neste blog:



“Temos que manter como o centro de nossas atividades a luta contra a desigualdade, pela redução da pobreza e pela melhoria das condições de vida do nosso povo. Esse é o norte da construção dum novo modelo. Esse norte implica um papel essencial para o Estado, este Estado que está sendo destruído, desmontado pelo Bolsonaro.



Não temos que fazer uma defesa intransigente do que é o atual Estado, mas fazer uma defesa intransigente das concepções de um Estado que seja capaz de colocar a distribuição da renda como a razão fundamental do seu ser, do seu significado, de sua função”.



Gabrielli está muito bem acompanhado na sua avaliação. O ex-presidente Lula, no histórico discurso feito no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no último sábado (dia 9), um dia depois de sair da prisão, deixou claro a importância da luta, na conjuntura atual, contra o aprofundamento da pobreza e da desigualdade.



Na visão de Lula, a única saída para a crise econômica é a distribuição de renda e a geração de empregos.



Palavras da ex-presidenta Dilma, em Buenos Aires, durante recente reunião do Grupo de Puebla: “A questão da desigualdade está em primeiro plano, ainda mais em um país como o Brasil, onde 56% da renda nacional fica nas mãos de 10% da população".

E Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, no mesmo encontro, destacou também a desigualdade como um grande problema a ser resolvido: "Ninguém que se diz progressista, socialista, peronista ou comunista pode viver pacificamente com a desigualdade”.
Seleção de fotos com os participantes que fizeram intervenções durante os debates:
Adair Machado, presidente do PSOL/Seabra
Djalma Novais, o popular Piau, aposentado da Petrobras
Goiano (José Donizette), idealizador do evento, que contou com o apoio e participação da UNEB, IFBA, CES, Projeto Universidade para Todos, Colegiado do Território da Chapada Diamantina, APLB-Sindicato, Levante Popular da Juventude, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e dos dirigentes municipais dos partidos PT, PCdoB e PSOL.
Lauro Roberto (Professor Lauro), vereador do REDE
Adriana Oliveira de Souza, dirigente da APLB-Sindicato
Professor Jorge Rabelo participou dos debates (na foto, expondo seu livro ambientado na Chapada Diamantina/Morro do Pai Inácio)
Professor Henri Dourado Almeida
Maristônia Oliveira (Tânia), dirigente da APLB-Sindicato
Jornalista Edilson Félix
Ludmila Agostinho, do Levante Popular da Juventude
Fernando Monteiro, da direção municipal do PSOL
Mais fotos do encontro no auditório da UNEB, que reuniu em torno de 300 pessoas, a maioria estudantes e professores:
Pintor Pedro Lima, presidente do PT/Seabra; na outra ponta, Jean Mota, diretor da escola de Bebedouro
Leonardo Teixeira, da UNEB, conduziu os trabalhos no plenário, auxiliado por Antônia Araújo, da APLB/Sindicato; atrás, Edilson Félix, na ponta à direita, este repórter Jadson Oliveira 
Na frente: Ludmila, Jadson e Goiano
Atrás, à direita, engenheiro Jorginho Oliveira
Êmille, do Levante Popular da Juventude
Rubia Oliveira e Alberto Souza, velho militante do movimento sindical bancário na década de 1970
Gabrielli posando com participantes da palestra/debate
Com Ana Catarina e Ludmila, do Levante
Com Carol Campos, do PT (à esquerda)
Esta foto é do salão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, lotado durante outra palestra de Gabrielli em Seabra, no mesmo dia 17 de outubro, pela manhã 

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

AMÉRICA LATINA: DE GOLPE EM GOLPE


(Foto: AFP/Página/12)
De Zelaya em Honduras a Evo na Bolivia (passando por Lugo no Paraguai, Lula e Dilma no Brasil e Correa no Equador), o modus operandi apoia-se nos meios de comunicação, justiça e  militares. Com respaldo do império estadunidense.

Por Eduardo Febbro (de Paris) – reproduzido do jornal argentino Página/12, de 14/11/2019 (destaque acima, disposição dos parágrafos e intertítulos são da edição deste blog)




América Latina tiene la derecha más depravada, pusilánime, corrupta e iletrada del mundo. Está dispuesta a quemar en la hoguera a un país entero con tal de no ceder ni un céntimo de sus ya monumentales beneficios.

Respaldada por Washington, aliada al militarismo golpista y embebida de una ideología involutiva, las derechas continentales actúan como si los países de los cuales extraen sus riquezas fueran para ellas un mero exilio y no la patria original.


El destino de golpes y destierros de seis presidentes latinoamericanos de orientación socialdemócrata es un retrato fantasmagórico de la carga destructiva que las castas oligarcas de América Latina están dispuestas a activar.


Manuel Zelaya en Honduras, Fernando Lugo en Paraguay, Lula da Silva y Dilma Rousseff en Brasil, Rafael Correa en Ecuador y ahora Evo Morales en Bolivia han sido los tótems malditos de un ala ultraconservadora que no dudó en desparramar muerte y represión para apartar del poder a una opción política que, más allá de sus retóricas, se asemejaba más a una socialdemocracia con perfil redistributivo que a una revolución socialista.


Honduras


El expresidente norteamericano Barack Obama fue el primero en inaugurar el siglo y entregar envuelto en papel castrense un golpe de Estado. Ocurrió en Honduras, en 2009. En junio de ese año, con la pueril excusa de una supuesta “traición a la Patria”, Manuel Zelaya terminó destituido, expulsado y exiliado (República Dominicana) por las fuerzas armadas en cumplimiento de una orden de la Corte Suprema de Justicia.


Se trató de una obscena patraña cuyo único objetivo consistía en impedir, entre otras cosas, que Zelaya llevara a cabo un plebiscito sobre una Asamblea Nacional Constituyente.


Con Honduras se inauguró la fase del nuevo golpismo a través de la construcción masiva de un relato contaminante. Los medios (meios de comunicação) y las redes sociales adquirieron en Honduras el perfil que hoy le conocemos: se volvieron armas de disuasión masiva armadas con falsedades.

El 28 de junio de 2009, Zelaya, en ropa interior, fue sacado a la fuerza de su residencia por los militares y expulsado del país. No le perdonaron su plebiscito ni su alianza con el eje liderado por el difunto presidente venezolano Hugo Chávez.


Paraguai


Fernando Lugo, en Paraguay, corrió una suerte similar. El “obispo de los pobres” había sido el segundo presidente de izquierda que llegó al poder después del corto periodo presidencial de Rafael Franco (1936-1937), otro desterrado. Ganó la presidencia en abril de 2008 y terminó destituido en junio de 2012 por un voto mayoritario de la Cámara de Diputados por un supuesto “mal desempeño” de sus funciones.


Como en Honduras, la caída de Lugo resultó de un relato armado con minuciosa eficacia a partir de hechos reales pero alterados en beneficio de la destitución.


Equador


En Ecuador, Rafael Correa gobernó por un periodo de 10 años, entre enero de 2007 hasta mayo de 2017. Su plataforma política, económica y social, así como su interlocución con la población indígena de Ecuador, hicieron de Correa un presidente de ruptura con respecto a los anteriores.


Tampoco se lo perdonaron, sobre todos los medios hegemónicos acostumbrados a manipular todo el espacio de la comunicación y los negocios. Su ya famosa “revolución ciudadana” trascendió las fronteras de Ecuador hasta volverse el argumento central de partidos de la izquierda radical europea como fue el caso de Francia Insumisa (Jean-Luc Mélenchon).


Pero las castas no admiten procesos de transformación profundos. Correa sacó a millones de personas del marginamiento (según el Banco Mundial, la tasa de pobreza en Ecuador pasó del 36,7% en 2007 al 22, 5% en 2014), otorgó derechos a las personas LGBT+, modificó la relación de fuerzas de los medios, multiplicó por cinco los gastos en sanidad, amplió la asistencia a los discapacitados, rehusó que Estados Unidos siguiera contando con una base militar en Ecuador y le brindó asilo a Julian Assange en la embajada ecuatoriana de Londres.


Correa dejó el poder en mayo del 2017. Fue reemplazado por su exvicepresidente, Lenín Moreno, quien se convirtió en un aliado de la venganza de las castas contra Correa. En 2018, la oposición de Correa al referéndum constitucional para reformar la Constitución le valieron los dardos de la justicia.


En julio, la jueza ecuatoriana Daniella Camacho dictó una orden de prisión preventiva contra el ex mandatario y hasta solicitó a Interpol que fuera arrestado. El presidente que más hizo por su país vive exiliado en Bélgica.


Brasil


Lula da Silva y Dilma Rousseff en Brasil son el anteúltimo peldaño del infierno al cual las derechas latinoamericanas están dispuestas a someter a los dirigentes socialdemócratas para apartarlos del camino. Los escándalos de corrupción de su partido, el PT, sirvieron como frase inaugural del gran relato desconstructor del lulismo emprendido por los abanderados históricos de la corrupción brasileña.


Atrás quedaban los programas sociales, la inversión en salud, educación, justicia, desarrollo, así como los millones de brasileños que salieron de la pobreza. Con un tejido de acusaciones respaldadas por un relato hegemónico, Lula fue arrestado el 4 de marzo de 2016 en el marco de la operación anti-corrupción Lava Jato, teledirigida por el juez Sergio Moro.


Lula fue condenado a nueve años y medio de cárcel acusado de recibir sobornos de la constructora OAS a cambio de contratos millonarios y Dilma Rousseff destituida en septiembre de 2016 al cabo de 13 años de gobiernos progresistas.


Bolívia


Evo Morales cerró en Bolivia la serie negra iniciada hace casi 15 años antes en Honduras. Las condiciones de su renuncia, la brutalidad, la violencia y la ilegitimidad de los actores políticos e institucionales que intervinieron sembraron la imagen de una venganza sangrienta.


Fueron dos de las fuerzas menos creíbles que existen en América Latina, las más corruptas, la policía y el ejército, quienes decidieron el destino político de una Bolivia que vivió sus años más prósperos y orgullosos bajo el mandato de Evo Morales.


Las circunstancias con las que se acorraló al presidente a la renuncia, el odio y la violencia liberadas en las calles, su partida al exilio mexicano, el silencio de las grandes democracias de Occidente y la pasividad retórica de los vecinos quedarán en la historia como una de las grandes heridas de nuestra América.


No es la hegemonía de un medio la que hace titubear la democracia sino la hegemonía de su mala fe. De Manuel Zelaya en Honduras a Evo Morales en Bolivia, la mecánica de la destitución ha sido similar: una casta oligarca que se apoya en los medios para viciar el relato, en la justicia y los militares. En cada caso se buscó arrancar del poder a opciones políticas reformistas, nacionalistas y con un fuerte ánimo redistributivo.


Ninguno de estos seis expresidentes ha sido un dictador, o un revolucionario violento, ninguno reprimió, amordazó a su pueblo, sentencio la libertad de expresión, ni derramó sangre en las calles.


Llegaron para abrir el juego político, social y económico en países cautivos de una casta explotadora, no para llenar las cárceles o los cementerios. Sus enemigos sí. Nuestras derechas cavernícolas jamás atravesaron el Siglo de las luces. Siguen ancladas en los tiempos de la barbarie ideológica y la obscuridad.


Lo acaban de probar en Bolivia, amparadas, una vez más, en la protectora dependencia de Washington. La Casa Blanca siempre ha estado a la vera de todas las hecatombes políticas de América Latina. Ha sido el capacitador ideológico y operativo de los golpes de Estado militares del Siglo XX como lo es ahora de los golpes cívico militares que promueve desde el inicio del Siglo XXI.

domingo, 3 de novembro de 2019

É A MÍDIA DE ENTRETENIMENTO, ESTÚPIDO!


Não são apenas noticiários manipulados da mídia hegemônica que fazem a cabeça e o coração do povo, são sobretudo os Datena, os Huck, Hollywood, novelas e congêneres.

Por Fabiano Viana Oliveira – professor na área de Ciências Sociais – do livro ‘Em busca da verdade II – Bioética, Hipocrisia e Antipetismo’ – págs. 96/98 (título e destaque acima são deste blog)

(...) Outro erro do PT foi acreditar que o apoio de uma parte importante da mídia, especialmente a Globo, seria perene e fiel. Esses grupos de mídia não têm fidelidade a ninguém. Quando as verbas de publicidade estatal foram diluídas em um número muito maior de grupos, especialmente de Internet, isso incomodou os representantes das grandes mídias tradicionais. Se o que está previsto na constituição de 1988 sobre regulamentação e revisão das concessões de mídia tivesse sido efetivado desde o primeiro governo de Lula, quando tinha amplo apoio popular, talvez as coisas hoje fossem diferentes.

A influência da mídia nas mentalidades coletivas é algo amplamente estudado tanto pelas teorias quanto pela sociologia da comunicação. Pode-se inclusive responsabilizar em parte as mídias corporativas mundiais pela criação e manutenção do sentimento anti-esquerda que hoje se vive. Explica-se: independente de partidos e instituições, o sentimento que pode chamar de esquerda é aquele que pretende construir um mundo mais justo e igualitário. Dentro deste sentimento há linhas mais moderadas como a social democracia no estilo alemão com o Estado cuidando do bem estar dos cidadãos com alta carga de impostos e menor desigualdade social. E há linhas mais radicais que creem numa suposta revolução socialista que levaria ao fim da distinção entre classes econômicas.

O que se faz crer dentro da existência dessa ideologia que afeta as crenças pessoais é que isso é uma utopia, um desejo impossível ou um fruto de doutrinação ideológica de esquerda. Os conteúdos midiáticos (jornais, livros, filmes, séries, músicas, novelas, shows) apresentam um modelo de conduta social que direta ou indiretamente induz o espectador a crer que todo e qualquer discurso pró-esquerda é errado. Esse erro pode ser por ingenuidade: “isso é utópico!” - ou por pura maldade: “eles querem tirar tudo que é seu!”. Basta ver quanto o período de guerra fria entre USA e URSS criou todo um conteúdo de indústria cultural que tornava os americanos e ingleses em heróis defensores da liberdade e da democracia (Ex.: James Bond; Flint e outros) e os russos comunistas em terríveis e temíveis cerceadores das liberdades individuais.

Para além dessa (essa sim) doutrinação ideológica anti-esquerda, advinda dos conteúdos midiáticos de entretenimento, há também o esforço “jornalístico” da mídia corporativa mundial de desqualificar qualquer esforço um pouco mais à esquerda de produzir sociedades mais justas e menos desiguais. Basta resgatar todo esforço de parte da mídia americana e brasileira também de apresentar tudo sobre a ilha de Cuba nos últimos 50 anos como sendo um grande terror ditatorial. Que existem problemas políticos inerentes a um regime autocrático e personalista, tanto por influência soviética quanto das tradições latino-americanas, é inegável. Mas admitir esses problemas não pode reduzir as conquistas do pequeno país caribenho a apenas o ruim; como muito se faz por aqui e pelos EUA.

Um exemplo de uso estranho do nome de Cuba, apenas como apreensão pejorativa por parte do cinema de hollywood dos tempos da guerra fria, foi de ter o vilão do filme de James Bond, Goldfinger (também nome do filme), dizer no final do mesmo que está fugindo para Cuba, deixando subentender que a ilha comunista de Fidel serve de refúgio para vilões e bandidos internacionais. Tal suposição é das mais ridículas, pois o que o regime de Fidel fez com os criminosos comuns foi justamente expulsar do país. A nação que sempre teve por tradição atrair e refugiar bandidos é o Brasil. Esses conteúdos simbólicos ficam gravados em nosso subconsciente e quando a mídia jornalística resgata esse imaginário, fica fácil atribuir qualquer coisa de negativo a um país sobre o qual de fato não sabemos quase nada.

(...)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

SEABRA: AVANÇO DAS FORÇAS PROGRESSISTAS NA AMÉRICA DO SUL NO ROTEIRO DE PALESTRAS DE GABRIELLI

José Sérgio Gabrielli (palestra em Seabra, último dia 17. Foto: Smitson Oliveira)
Da desigualdade histórica ao aumento dessa desigualdade nos governos Temer e Bolsonaro: previsão de crescimento da insatisfação popular e de vitórias eleitorais na Bolívia, Argentina e Uruguai. “Vamos reagir”, augurou Gabrielli.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

De Seabra/Chapada/Bahia – Quem assistiu as palestras de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, em Seabra (Chapada Diamantina), no último dia 17, viu e ouviu a previsão de avanço das forças progressistas, em especial na América do Sul.

Para um público em torno de 300 pessoas, a maioria jovens, reunidas no auditório do campus XXIII da Uneb, ele sublinhou o tremendo desastre do governo de Mauricio Macri na Argentina, cuja agenda econômica foi semelhante à do governo Bolsonaro. Mais exatamente, à do ministro Paulo Guedes.

Gabrielli, que é professor titular de Economia (aposentado) da UFBA, falou da previsão – já bastante alardeada, depois das prévias eleitorais e repetidas pesquisas – de vitória contundente de Alberto Fernández/Cristina Kirchner. Vitória confirmada, no primeiro turno, no último domingo, dia 27.

Mas não só Argentina. Lembrou a possibilidade das forças de centro-esquerda ganharem também as eleições presidenciais da Bolívia (dia 20) e Uruguai (também dia 27).

De fato, Evo Morales foi reeleito para seu quarto mandato consecutivo. Não tão folgadamente como em 2006, 2009 e 2014, mas ganhou no primeiro turno (com mais de 10% de votos na frente do segundo colocado, conforme reza a Constituição do país).

No Uruguai, o campo progressista, aglutinado na Frente Ampla que está na presidência há 15 anos, também conseguiu o primeiro lugar. Mas terá que disputar um difícil segundo turno, onde as principais alas de direita (e extrema-direita) prometem marchar unidas.

Realçando o quadro, tivemos a vitória do levante popular no Equador (mencionada por Gabrielli na UNEB/Seabra), forçando o governo a revogar medidas de “ajuste” receitadas pelo FMI. E as grandes jornadas de protesto no Chile, que estouraram a partir do dia 18.
Bandeira do povo indígena mapuche como símbolo dos protestos chilenos: para o Brasil, são muito simbólicas tais manifestações, pois o receituário das medidas anti-povo que o ministro Paulo Guedes está adotando teve como laboratório o modelo econômico da ditadura de Pinochet (Foto: da Internet)
Levando em conta, portanto, que nos últimos cinco/seis anos as forças populares e democráticas da América Latina vinham amargando recuos expressivos – a “restauração conservadora”, como chamou o ex-presidente equatoriano Rafael Correa -, tais vitórias e manifestações significaram um alento: “saímos das cordas”, disseram alguns.

Aliás, Álvaro García Linera, “eterno” vice-presidente de Evo Morales (intelectual comprometido com o movimento popular, estudioso da realidade indígena), sempre minimizou a força dos reacionários latino-americanos. Dizia que a nova “onda” neoliberal não seria duradoura, não tinha fôlego.

Houve ainda mais uma eleição, também no último domingo (dia 27), em “nossa Pátria Grande” (sonho de Simón Bolívar, cognominado o Libertador, repetido à saciedade pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez): foi na Colômbia (eleições chamadas regionais – governadores, prefeitos, vereadores...).

Esta não foi mencionada por nosso palestrante, mas se encaixa nas suas previsões de avanço dos partidos e movimentos sociais do espectro das esquerdas (ou, talvez melhor, da centro-esquerda).

Então: também na Colômbia, o principal enclave do império estadunidense na América Latina – país bastião da ultradireita, do paramilitarismo e do narcotráfico -, as forças progressistas avançaram. O maior perdedor da jornada eleitoral foi o ex-presidente Álvaro Uribe, o mais notório líder da extrema direita na região, a quem é ligado o atual presidente colombiano Ivan Duque.

O professor Gabrielli enfocava, em sua palestra na UNEB, a marca cruel da desigualdade durante a história do povo brasileiro: desde a abolição formal da escravidão negra, passando pelo desenvolvimento da indústria a partir da Revolução de 1930 e chegando aos nossos dias com a hegemonia do capitalismo financeiro. E, por consequência, o aumento cada vez maior da desigualdade.

Falava do começo da construção dum Estado mais inclusivo socialmente nos governos de Lula e Dilma, seguindo-se, a partir daí, o processo de destruição dos mecanismos estatais indutores dum desenvolvimento menos desigual, nos governos Temer e Bolsonaro.

E fez a previsão de avanço – plenamente confirmada - das forças progressistas, em especial na América Latina, ao ressaltar a capacidade de luta dos povos. “Vamos reagir”, augurou Gabrielli, com certa dose de otimismo (ou realismo?).

Digo eu: vamos ver quando e como chegam ao Brasil os ventos refrescantes que começam a soprar por nuestra América.

sábado, 26 de outubro de 2019

ARGENTINA: VENTOS DE MUDANÇAS SAUDÁVEIS PARA OS POVOS SOPRAM EM NUESTRA AMÉRICA


Cristina Kirchner e Alberto Fernández (Foto: da Internet)
Trechos pinçados deLa lucha electoral en la Argentina y el ciclo progresista en América Latina y el Caribe’ – Por Paula Klachko, do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 25/10/2019

Vientos de cambios oxigenantes para los pueblos asoman en Nuestra América

El próximo nuevo gobierno y el ciclo progresista en América Latina y el Caribe

Por todo eso, el próximo nuevo gobierno de Alberto Fernández y Cristina Fernández de Kirchner - impulsado por esta última -, sin duda va a oxigenar al ciclo progresista del siglo XXI en América Latina que se encontraba en reflujo o cierto estancamiento, pero que de ninguna manera estaba agotado (como algunas y algunos analistas se empeñaron en señalar).

Por el contrario, ahora de la mano del nuevo gobierno popular en México, de la resistencia de la Revolución Bolivariana en Venezuela, si es que vuelve a triunfar el progresismo en Uruguay y la Revolución Cultural y Democrática en el Estado Plurinacional de Bolivia y permanecen resistiendo y construyendo revolución en Cuba (como hace 60 años) y también Nicaragua, pues, entonces, hay muchas condiciones para re-impulsar el ciclo progresista y restablecer el camino de la unidad latinoamericana.

Para salir del neoliberalismo en Argentina: lucha de calles y lucha institucional, antes y después de las elecciones

A pesar del actual momento de debilidad en que nos encontramos como pueblo hambreado y desocupado, con miedo a perder el trabajo - que es la mayor de las extorsiones del sistema -, las luchas de calle en Argentina no han cesado.

Han estado siempre presentes a lo largo de estos 4 años de neoliberalismo con el FMI a la cabeza. Pueden estar más visibles en determinados momentos, pero no han cesado ni un solo día de estar diferentes fracciones sociales en la calle.

Las y los maestros, trabajadores estatales, mujeres, trabajadores de la economía popular o desocupados y desocupadas, los sindicatos, federaciones y centrales sindicales mas importantes, entre otros. Se han desarrollado 5 huelgas generales con masivas movilizaciones en su mayoría, como también numerosas huelgas regionales o por rama.

El argentino es un pueblo con una sólida tradición de lucha en las calles y esto afortunadamente es parte de un patrimonio que ni las oligarquías con sus terrorismos de estados pudieron extirpar del todo sin que nuevos retoños asomaran venciendo todo tipo de mecanismos de disciplinamiento.

La perspectiva de lucha contra el neoliberalismo es posible en nuestra Argentina de la mano de la permanencia de los gobiernos populares en varios países de nuestra América y el retorno de las fuerzas populares - la mayoría desalojadas de los gobiernos por golpes de estado - a otros tantos, para poder librar la guerra superestructural contrahegemónica desde la imprescindible complementariedad que nos dará retomar la senda de la unidad latinoamericana y caribeña.

Sin duda las elecciones en Argentina traerán buenas noticias para nuestros pueblos y darán impulso a un nuevo momento de ascenso del ciclo progresista en Nuestra América.

Link para ler todo o artigo:

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O ESTUPRO LEGAL NO PAÍS DO CARNAVAL


Carlos Nascimento (Foto: do site Blitz Conquista)
 “Não é direito de homem algum infringir “misérias” à mulher ou a quem quer que seja. O corpo feminino não está disposto à violação inconsentida, assim como o povo deste país não deve estar exposto às estocadas a ele deferidas sob o pretexto de um bem maior”.

Por Carlos Nascimento - bacharel em Administração e mestre em Ciências da Comunicação – artigo de 12/09/2019 (destaque acima e disposição dos parágrafos são da edição deste blog)

Quando aguardava pelo nascimento de minha primeira filha, um amigo, pai de uma recém-nascida, perguntou: “E aí? É homem ou mulher?”. Respondi que seria uma menina e, de imediato, recebi um tapa nas costas acompanhado de uma profecia em tom jocoso: “Pois é. Vamos pagar por todas as misérias que fizemos com as filhas desses sujeitos por aí!”. Um pouco assustado com a sentença, retruquei dizendo que não me recordava de já ter violentado alguém e que, o pouco que havia “aprontado” na vida, o fizera de comum acordo com as “aprontandas”. Logo, quando chegasse a vez de minha filha namorar, que o fizesse em paz e com a alma leve. Afinal, sexo é bom, e assim deve ser para todos.

Sempre que faço esta reflexão, penso na aceitação do papel do macho como violador. É ele, varão, o responsável pelo deflorar da mulher, importando pouco o desejo e o prazer da fêmea vitimada. Este mesmo homem, que entende poder transgredir a idealizada inocência feminina, tem também a obrigação de proteger e castrar a sexualidade de suas herdeiras. Causa e efeito do medo que forja o imaginário masculino. Quando tratamos de estupro, vale pensar nesta expressão como algo que transcende o ato físico.

É bom lembrar que, invasões ao direito e à privacidade das mulheres estão presentes em atitudes diversas, e permanecem a se alojar nos mais corriqueiros costumes, absorvidos e repassados também por estas, uma vez que educadas a partir de conceitos machistas, entendidos e aceitos como normatizadores sociais. (In)consciência coletiva que se projeta em irrupções que vão para além das relações genitais, pois, o ato e o discurso estuprador legitimam a imagem do homem frente a uma sociedade patriarcal e reacionária.

Visível consequência disto aparece no questionamento normalmente feito pela sociedade quanto à inocência da mulher vítima de violência sexual. A atitude sensual, a forma de vestir, a exposição a lugares impróprios ou o “pecado” de gostar de sexo são usualmente colocados como atributos culposos a esta. Forma disfarçada, mas consciente, de manutenção do discurso estuprador.

A feminista negra (e negra) Djamila Ribeiro descreve com propriedade como o domínio do Estado (machista) sobre o corpo da mulher é determinante para esta cultura. Em ‘Quem tem medo do feminismo negro?’ (Companhia das Letras, 2018), relata, através da crítica a fatos cotidianos, como a manutenção destes (pré)conceitos permanece viva e impregnada no dia-a-dia das pessoas. Em particular, discorre sobre a posição da mulher negra, tratada como subumana, disposta à sociedade e ao mercado de trabalho como serviçal doméstica e sexual. Pior dos reflexos do escravagismo que ainda não se desprendeu de nossa formação. Tudo isso é violência, é invasão, é estupro.

Em tempos recentes, um deputado federal declarou em público a quem preferia (ou não) estuprar. Escolha honrosamente negada à colega de plenário a quem entendia estar ofendendo. Além de imperdoável, sua afirmação reflete (e incentiva) a ideia de que o estupro é um direito legítimo do homem. Pensamento não diferente do explicitado na postura do ministro da Economia que, ao defender a retomada da CPMF, afirmou que: se esta for “pequenininha, não machuca”. Seu “humor” exemplifica o como estas expressões machistas estão encrustadas em nossa cultura, sendo corriqueiramente usadas sem qualquer preocupação semântica. Talvez importe lembrar ao ministro que, em uma relação entre iguais (democrática), o penetrar, seja do tributo grande ou do pênis pequeno, deve ser negociado, não imposto.

Na contramão destes discursos, a paulista Ana Cañas canta seu sexo explícito de forma violenta. Uma poesia carnal, agressiva e necessária. Que ofende homens e assusta mulheres, justamente por fazer o caminho inverso, violentando o universo machista que não aceita este direito quando posto à voz feminina. Sabe-se que, muitas das músicas que fazem sucesso nas rádios e na internet, descrevem mulheres sexualizadas e submissas, convocadas a “sentar”, “chupar”, “ajoelhar”, “rebolar”, mas nunca a gozar. O ato estuprador não é entendido como parte da natureza feminina e, por isso mesmo, a arte de Cañas é fundamental ao Brasil de hoje.

Em campo distinto, mas em reflexão análoga, o escritor e psicanalista Contardo Calligaris descreve o Brasil como um lugar eternamente disposto ao estupro. Em seu livro ‘Hello Brasil’ (Editora Escuta, 1991), analisa a relação dos colonizadores portugueses com esta terra prometida e disposta à exploração eterna. Calada, pronta ao deleite de seu conquistador, ela não tem o direito de reação e é desprezada como uma prostituta, sob os bravios de “este país não presta”. Trazer as percepções de Calligaris a este escrito se faz importante, pois demonstra o quanto o patriarcado, o falo que fala, naturaliza a violação da terra e da sociedade. Por isso mesmo, sua comparação com a violação da mulher reforça a indissociabilidade entre o feminismo e a política.

Reivindicar o direito ao sexo e ao corpo (ridículo ainda se falar nisso em pleno século XXI), se estende para além de questões de gênero. A inviolabilidade do corpo feminino é um marco fundamental para o entendimento de que o Estado (não macho) deve o mesmo respeito a todos, e que a construção de uma sociedade democrática passa pela percepção da igualdade nas diferenças.

Retomando o diálogo motivador deste texto, não é direito de homem algum infringir “misérias” à mulher ou a quem quer que seja. O corpo feminino não está disposto à violação inconsentida, assim como o povo deste país não deve estar exposto às estocadas a ele deferidas sob o pretexto de um bem maior. Em ambos os casos, corpos e vidas são invadidos, e os resultados desta “relação” apontam sempre para um gozo unilateral e explícito, mas muitas vezes distante da percepção geral de suas vítimas.

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