sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A GRANDE FAÇANHA DO PODER: FAZER UM POBRE VOTAR NUM BOLSONARO (parte 2)

Dois livros que podem ajudar a entender o fenômeno: ‘A elite do atraso’, do sociólogo brasileiro Jessé Souza, e ‘A formação da mentalidade submissa’, do professor espanhol Vicente Romano.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro

O fator essencial na formação do povo brasileiro são os 350 anos da escravidão negra - “o núcleo explicativo de nossa formação” -, conforme ensina Jessé Souza, em ‘A elite do atraso’, um de seus últimos livros, onde procura explicar os fundamentos da crise política atual que desembocou no golpe de Estado de 2016.

“Por conta disso – diz ele -, até hoje, reproduzimos padrões de sociabilidade escravagistas, como exclusão social massiva, violência indiscriminada contra os pobres, chacinas contra pobres indefesos que são comemoradas pela população, etc”.
Daí eu recorrer aos seis estudos para tentar entender “a grande façanha da direita (ou do PODER)”, como me referi na primeira parte do artigo, ao fazer um negro votar num Bolsonaro da vida; ou fazer um pobre votar num milionário, ou o oprimido votar no opressor, ou o cara optar “livremente” pela defesa dos interesses que não são os seus.
São centenas de anos de história, de formação cultural, servindo de adubo, de caldo de cultura, para chegarmos à tragédia atual, com grande parcela da população, inclusive dos setores populares, incensando uma candidatura presidencial que exala ódio e violência (fascismo) por todos os poros. Além de comprometida com tudo o que há de antipopular e antinacional.
A influência desta nódoa escravagista, no entanto, foi substituída nos estudos de nossa formação por teorias como o patrimonialismo (herdado dos portugueses e restrito à corrupção apenas no Estado e nunca no mercado) e o populismo (a estigmatização das camadas populares e seus líderes), segundo Jessé Souza.
Ele desbanca tais teorias, apesar delas terem dominado soberbamente o pensamento da academia e intelectualidade do país desde o início do século passado e serem hegemônicas até hoje no imaginário dos brasileiros. Tais teorias – desprovidas de base científica, na avaliação de Jessé – são reforçadas no dia a dia dos brasileiros, especialmente através da mídia hegemônica.
Seus principais mentores foram Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, acatados até hoje tanto no espectro político à direita (o que seria óbvio) como à esquerda (o que seria surpreendente).
“A classe poderosa nunca se apresenta de cara descoberta”
Outro livro que ajuda a entender o que chamo “a grande façanha do poder” - as pessoas adotarem ideias e posições contrárias ao seu próprio interesse, ou no caso específico: trabalhador, mulher, gay, pobre ou negro votar em Bolsonaro - é ‘A formação da mentalidade submissa”, de Vicente Romano, uma das grandes autoridades europeias no estudo da Comunicação.
Como o título indica, o professor espanhol mostra, didaticamente, como os donos do mundo e da “verdade” trabalham, conscientemente, para formar (e deformar) a cabeça das pessoas, através da manipulação da mídia hegemônica, do sistema educacional (ele destaca em especial o ensino da Economia), da publicidade e das religiões.
Não há edição brasileira. Conheci o livro numa edição venezuelana e depois, através da Internet, numa de Portugal.
Com muita satisfação, encerro meu artigo passando a palavra a Valdimiro Lustosa, meu velho companheiro de lutas democráticas e sindicais na Bahia, que me comentou sobre o livro num email de agosto do ano passado:
“Estou em Portugal, exatamente em Lisboa. Há poucos dias acessei o facebook e vi um comentário seu sobre o livro A Formação da Mentalidade Submissa, de autoria do espanhol Vicente Romano. Fui a uma livraria e comprei-o. Já li.

De fato, ele traça uma radiografia das mentalidades do povo e diz sem meias palavras o papel que a mídia exerce nas pessoas, persuadindo-as, pregando notícias bombásticas e ocultando os fatos reais. Por outro lado, traça um perfil do papel das igrejas (um câncer com seus dogmas - comentário meu).

Enfim, um excelente livro. Mostra o porquê as pessoas são envolvidas pelas notícias.

Diz o autor (a edição é portuguesa) que a história demonstra que a classe poderosa nunca se apresenta de cara descoberta. Cobre-se com o manto das religiões, do patriotismo e do bem comum. A burguesia proclama como coisa boa para todos o que somente é bom para ela. É o que está acontecendo, por exemplo, no Brasil”.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

FAÇANHA DO PODER É FAZER UM NEGRO POBRE VOTAR NUM BOLSONARO (parte 1)


Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro)

Esta é a grande façanha da direita (ou do PODER): fazer um negro pobre votar num Bolsonaro da vida (um amigo meu disse no Facebook que mulher, negro ou gay votar em Bolsonaro é o cúmulo da burrice).

Ou fazer um pobre votar num rico, um rico assim como o “garoto milionário” ACM Neto ou no “gestor” Dória; o oprimido votar no opressor, o explorado votar no explorador, o escravo puxar o saco do senhor, o cara optar “livremente” pela defesa dos interesses que não são os seus.

Esta é a grande façanha do PODER, assim com maiúsculas para tentar tirar o verdadeiro poder das sombras. Agir à margem da lei é a sua grande especialidade (no espanhol nossos hermanos latino-americanos usam o termo “poderes concentrados”).

No Brasil de hoje quais seriam tais poderes? Vamos tentar apontar (quem sempre toca nisso é o professor Fábio Konder Comparato – é preciso desconstruir a falsa percepção de que o presidente da República manda tudo, pode tudo):

Primeiro, o mais poderoso dos poderes atualmente – banqueiros, rentistas e especuladores, cujos interesses estão entrelaçados com o capital internacional/império estadunidense (não é à toa que quase a metade do orçamento da União é destinada ao pagamento da chamada dívida interna);

Depois vêm grande empresariado, narcotráfico, mineradores, agronegócio (faltou algum ramo importante do mundo empresarial?).

Como atuam na clandestinidade na nossa democracia representativa, seus interesses aparecem e são exercidos através do pensamento e ação dos poderes formalmente constituídos – Executivos, Parlamentos e Justiça -, nos quais se trava uma  complexa luta intestina, cujo resultado depende dos avanços, recuos e ziguezagues da badalada correlação de forças em cada conjuntura.

Temos que levar em conta fatores fundamentais, hoje, no Brasil, num momento em que forças e manifestações de claro viés fascista avançam e fortalecem uma candidatura como a de Bolsonaro :

Os monopólios dos meios de comunicação (gosto de chamá-los mídia hegemônica) – sempre identificados com os interesses antipopulares e antinacionais -, numa orquestração afinadíssima com a militância político-partidária de juízes, procuradores e policiais da PF entrincheirados na Operação Lava Jato.

Quadro que é agravado pela atuação de um STF e um TSE acovardados/acuados.

Para agravar a situação, do ponto de vista das forças de esquerda e centro-esquerda, temos também o fortalecimento de partidos de direita no Congresso, mesmo levando em conta o bom desempenho do PT que saiu da eleição ainda com a maior bancada.

E para coroar o quadro de dificuldades, temos um fenômeno novo na conjuntura eleitoral: o protagonismo cada dia mais às claras de oficiais superiores das Forças Armadas.

Queria neste artigo dar uma ideia de como se entrelaçam as engrenagens subterrâneas com as engrenagens formais do jogo do poder. E como tais engrenagens fazem a cabeça e o coração dos brasileiros, levando um pobre, um trabalhador, um desempregado, um excluído a votar num Bolsonaro.

Para concluir, queria apresentar dois livros que li recentemente e que me ajudaram a entender um pouco essas tais engrenagens: ‘A elite do atraso’, do sociólogo brasileiro Jessé Souza, e ‘A formação da mentalidade submissa’, do professor espanhol (já morto) Vicente Romano. Espero concluir antes da eleição num segundo artigo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O IMPONDERÁVEL TE PRIVOU DO SUPREMO PRAZER DE VOTAR EM BOLSONARO


Amigo é amigo... e uma verdade filosófica que me é cara: ninguém é Santo o tempo todo e, também, ninguém é Satanás o tempo todo.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro

Meu amigo Vicentão,

Ando todos os dias pelas ruas e becos das imediações da Piedade, centro de Salvador, espio a mesa vazia “de Dominguinho” no bar do Zequinha, busco, instintivamente, logo abaixo de cada cabelo branco que vislumbro entre o burburinho de gente um rosto que não encontro mais.

Um rosto, uma cumplicidade alimentada nos 34 anos de convivência no jornalismo e nos bares/botecos da cidade, uma imensa saudade...

Um sentimento contraditório me bate nestes tempos em que os valores humanistas são golpeados por um candidato a presidente da República e seus seguidores, momentaneamente vitoriosos; nestes tempos em que uma expressiva parte dos brasileiros e brasileiras - muitos, acredito, levados pela desinformação - aderem ao partido do ódio e da intolerância.

Nesta sexta, dia 19, você estaria fazendo 78 anos. Será que nossa amizade resistiria a estes tempos? Creio que sim... Afinal, nos últimos anos já havíamos diminuído bastante nossas “brigas”.

“Brigas” que, na verdade, nunca levaram a nada. Desde os velhos tempos do teu malufismo exacerbado – “para ser presidente do Brasil o cara tem de ser bandido”, você dizia.

“Um cara direitista desse, como é que você aguenta beber toda noite com um cara desse?”, se indignavam alguns amigos.

Às vezes eu tentava amenizar um pouco: “Bem, você tem razão, mas uma coisa eu garanto: ele nunca foi carlista; além disso, tem uma pequena fase de sua vida em que ele foi brizolista, são atenuantes que a gente tem de considerar”.

Amigo é amigo... e uma verdade filosófica que me é cara: ninguém é Santo o tempo todo e, também, ninguém é Satanás o tempo todo.

Mas é difícil te defender, meu amigo.

Sei e posso afirmar com segurança: muitos anos antes de um Bolsonaro pintar no horizonte, você já era racista, machista, homofóbico; defender os direitos humanos, os direitos dos trabalhadores, mais oportunidades para os pobres? Nem pensar!

E “bandido bom é bandido morto”. Quantas vezes a gente discutiu na redação da Tribuna da Bahia quando você reproduzia aqueles clichês das matérias policiais dando conta de que “o bandido morreu ao trocar tiros com a polícia”.

- Vicente, você sabe mais do que eu que na maioria das vezes isso é mentira.

- Oh Jadinho, você quer defender bandido, é?

Daí que pra você seria uma delícia viver num tempo em que Bolsonaro ensaia publicamente o fuzilamento de “petralhas”. Você adorava este termo “petralha”. Quer dizer, era bolsonarista antes de Bolsonaro.

Valeria a pena tentar te convencer a não votar em Bolsonaro? Não digo votar em Haddad, isso nem pensar, mas pelo menos não votar.

Estimo em 99% se tratar duma missão impossível, mas, porém, todavia... deixo aí 1% de esperança por conta do teu espírito solidário/humanista nos momentos mais difíceis dos nossos colegas caídos em necessidade.

Além do mais, Haddad não é mais Lula, é Haddad mesmo; não é mais candidato do PT, mas da Frente Democrática; e sua cor não é mais o vermelho, mas as cores da nossa bandeira.

De qualquer forma, sei que não vamos mais “brigar” e não verei mais teu rosto bonito arrodeado de cabelo branco. Ficam as últimas e pungentes lembranças:

- Não quero que ela me visite, estou muito feio.

- Jadinho, me ajude a morrer.  

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

SEABRA: FORÇAS PROGRESSISTAS SAEM DA ELEIÇÃO FORTALECIDAS


Em Seabra, a “capital” da Chapada, os candidatos a deputado federal da esquerda e centro-esquerda (PT, PCdoB e PSB) conseguiram mais votos do que os de direita (“golpistas”), forças políticas que tradicionalmente mandavam no interior.

A soma dos candidatos progressistas mais votados chega a 7.953 (PT – 5.363, PCdoB – 1.689 e PSB – 901), enquanto a dos direitistas vai a 6.283: Cláudio Cajado – 3.393 (era do DEM, mas nesta eleição passou para o PP, base do governador Rui Costa) e Leur Lomanto (DEM ) – 2.890.

Cajado e Leur são o tipo de políticos que dominavam a votação pelo interior, o tipo de lideranças que compunham partidos como a Arena/PFL da ditadura militar, marcados pela política eleitoral clientelista, do toma lá, dá cá. Individualmente ainda aparecem bem votados, mas perderam aquela hegemonia tradicional.

São apoiados por políticos locais, geralmente prefeitos e ex-prefeitos, que de modo geral não demonstram, do mesmo jeito que seus deputados, qualquer compromisso com  o interesse público, a democracia e a soberania nacional e popular. No caso, Cajado foi apoiado pelo prefeito atual Fábio Lago Sul e pelo ex-prefeito Dálvio Leite. Já Leur, foi apoiado pelo ex-prefeito Rochinha.

Os candidatos mais votados do campo das esquerdas foram: Jorge Solla (PT) – 1.635; Daniel Almeida (PCdoB) – 1.613; Caetano (PT) – 1.328; Afonso Florence (PT) – 1.254; Lídice (PSB) – 882; Zé Neto (PT) – 590; e Carlos Martins (PT, não eleito) – 411 (entre os mais votados está também Otto Filho, do PSD – 1.270).

A comparação acima é pertinente, porque no interior a votação dos deputados federais é utilizada, normalmente, como o principal critério para medir o prestígio eleitoral das lideranças locais do município.

Apoiadores de Solla comemoram

As forças políticas e sociais que apoiaram a campanha de Jorge Solla em Seabra têm três motivos para comemoração: ele foi o terceiro federal mais votado no município; foi o primeiro entre os progressistas; e, no estado, foi muito bem votado, ficou em quinto lugar (135.657 votos) dentre os 39 federais da Bahia.

(Só para registrar: em Seabra, Rui Costa obteve 94% dos votos válidos, enquanto Zé Ronaldo ficou com 5%; Haddad – 80% e Bolsonaro – 10%).

Com quantos linchamentos se faz um bolsonário

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

QUILOMBOLAS REFORÇAM CAMPANHA PETISTA NA CHAPADA

Professor Fábio, em montagem com os candidatos (Fotos: Fábio/Facebook)

Os contatos que lideranças do PT e movimentos sociais vinham mantendo com comunidades quilombolas da Chapada, no interior da Bahia, devem resultar em dividendos eleitorais.

É o caso, por exemplo, do quilombo Mato Preto, no município de Iraquara, cujos representantes declararam apoio ao deputado federal Jorge Solla, em campanha pela reeleição, e ao ex-deputado Luiz Alberto, que disputa vaga na Assembleia Legislativa.

Eles se reuniram, no próprio quilombo, com militantes do PT e Goiano Sousa, do Projeto Velame Vivo, que coordena o comitê de campanha de Solla em Seabra. Mais de 20 pessoas da comunidade participaram do encontro, na sexta-feira passada.

Entre as lideranças da comunidade estavam a presidente da Associação Quilombola de Mato Preto, Valterlice Dourado, conhecida como Té, e a do Grupo Cultural Professor Manoel Teles, Cláudia Sá Teles, além do professor José Fábio Carvalho, presidente da associação do quilombo vizinho (Renascimento dos Negros, antes chamado Os Morenos).

Fábio é diretor do Departamento de Reparação Racial da Secretaria de Ação e Desenvolvimento Social da prefeitura de Iraquara, cargo para o qual foi eleito pelas comunidades quilombolas do município.
Goiano (primeiro à esq.) e militantes posam para foto com membros da comunidade após a reunião