quinta-feira, 30 de junho de 2011

EVANGELISTA DA SÉ PAULISTANA (dois vídeos)




Ecos da minha última passagem por São Paulo, em junho/2011: um dos muitos pregadores do Evangelho que fazem ponto na Praça da Sé, no centro velho da capital paulista.

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS ARQUIVOS DA DITADURA QUE OS MILITARES BRASILEIROS QUEREM OCULTAR

O ex-chanceler Azeredo da Silveira com o ex-secretário de Estado
 dos EUA, Henry Kissinger (Foto: Reprodução)

Por Dario Pignotti, do jornal argentino Página/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 27/06/2011)


“O ex-presidente argentino Juan Perón esteve na mira dos serviços de Inteligência brasileiros. Isso é quase um fato. Participei de reuniões com ele, se pressentia que nos vigiavam. Se abrirem os arquivos da ditadura, como quer a presidenta Dilma, surgirão mais provas disso”.

A afirmação é de João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Melchior Goulart, Jango, amigo do general argentino por mais de duas décadas. Transcorridos 47 anos da derrubada de Jango e 38 de seus últimos encontros com Perón, provavelmente espionados por agentes brasileiros, “é hora de terminar com esse longo silêncio, ainda vivemos de costas para a história dos anos 70 devido às pressões de grupos ligados ao terrorismo de Estado”, lamenta João Vicente.

Dilma Rousseff parece compartilhar essa preocupação e, na semana passada, instruiu seus ministros, em particular a titular de Direitos Humanos, Maria do Rosário, para que convençam o Congresso a aprovar imediatamente o projeto sobre a Comissão da Verdade, contra o qual se insubordinaram os chefes das forças armadas em dezembro de 2009.

“Certo dia estava em um hotel de Madri, com papai, atendi o telefone e alguém me disse: “Quero falar com Janguito, diga que sou o general Juan Perón. Eu não podia acreditar, mas era verdade. Perón estava do outro lado da linha para convidar Jango para uma conversa na residência da Porta de Ferro. Creio que era o início de 1973”, relatou Goulart ao Página/12.

“Em uma ocasião, falou-se da possibilidade de haver um acordo. Meu pai (fazendeiro) venderia carnes no marco de um plano trienal que iria ser implementado pelo governo peronista, mas que fracassou por influências do bruxo”, apelido pelo qual era conhecido José López Rega. “Ocorreram mais reuniões com Perón, outra foi em Buenos Aires. Lembro que algumas pessoas nos diziam que os serviços de Inteligência estavam rondando por ali”.

Algo parecido ocorria com o ditador Ernesto Geisel, que se referia ao argentino como a “Múmia” e o excluiu de sua cerimônia de posse, no início de 1974, da qual participaram o chileno Augusto Pinochet, o boliviano Hugo Banzer e o uruguaio Juan María Bordaberry. Geisel iniciou um período de mudanças na política externa, conhecido como “pragmatismo responsável”, caracterizado pela abertura de relações com países do Terceiro Mundo e menor alinhamento com os Estados Unidos. Este giro não implicava o fim da estratégia de contenção do comunismo. Outra marca de sua política externa foi a intensa, e por vezes contraditória, relação com o secretário de Estado, Henry Kissinger. Nenhum chanceler teve mais sintonia com Kissinger do que Francisco Azeredo da Silveira, que esteve no cargo durante o quinquênio de Geisel.

Antes disso, Azeredo comandou a embaixada na Argentina, “onde foi um pioneiro do terrorismo de Estado regionalizado; em 1970 foi o responsável pelo sequestro em Buenos Aires e transporte ilegal ao Brasil do coronel Jefferson Cardin, um militar nacionalista e brizolista que foi meu companheiro na prisão do Rio de Janeiro”, diz Jarbas Silva Marques, prisioneiro político entre 1967 e 1977. “Jefferson Cardin me disse na prisão do Rio que Azeredo da Silveira, sendo chanceler, sabia tudo sobre a Argentina e certamente sabia dessa possível espionagem sobre Perón e mandava a embaixada colaborar com os golpistas”.

“Essa é uma história pesada, estamos falando do chefe da diplomacia brasileira entre 1974 e 1979. De uma política de Estado. Até hoje há gente querendo esconder essa história debaixo do tapete, há muita pressão. Vemos o presidente do Senado, José Sarney, fazendo lobby a favor dos militares para impedir que Dilma abra os arquivos”, disse Silva Marques ao Página/12.

É impossível fazer uma reconstrução acabada de todos os movimentos da diplomacia brasileira e seus pactos com os golpistas argentinos, devido à falta de documentação suficiente. Da leitura de centenas de papéis em poder do Página/12 fica claro que os contatos eram frequentes, e grande a afinidade com aqueles que perpetrariam o golpe de 1976. A guerra suja já lançada então contra a “subversão” era aprovada.

O telegrama “secreto” enviado pela embaixada brasileira no dia 3 de setembro de 1975 dá conta de uma “longa conversa” com os “comandantes Jorge Videla e Eduardo Massera”, que expressaram seu interesse em “estimular por todos os meios a aproximação das Forças Armadas” de ambos os países. Em outra mensagem “confidencial”, de 19 de fevereiro de 1975, fala-se sem eufemismos da coordenação repressiva. A nota relata um encontro oficial de diplomatas brasileiros com o ministro da Defesa argentino, Adolfo Savino, quando se tratou com “total franqueza da necessidade de um profundo entendimento de nossos países frente aos inimigos comuns da subversão”.

Durante sua conversa com o Página/12, o filho de João Goulart e Jarbas Silva Marques lamentaram o “atraso” histórico do Brasil frente a Argentina, o Chile e o Uruguai, onde “houve um ajuste de contas com a história e a verdade”, mas manifestaram esperança de que essa situação possa ser revertida. Eles, assim como vários organismos de direitos humanos, confiam no compromisso com a verdade assumido por Dilma Rousseff, vítima de prisão e torturas durante o regime militar, assim como na pressão internacional. Citam o exemplo da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro por não julgar os crimes da ditadura.

Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 27 de junho de 2011

MEMÓRIA BRASILEIRA: SIGILO OU VERGONHA?


Por Frei Betto (Reproduzido do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 27/06/2011)


Há 141 anos terminou a Guerra do Paraguai. Durou de 1864 a 1870. Ao longo de seis anos, Brasil, Argentina e Uruguai, instigados pela Inglaterra, combateram os paraguaios. O pretexto era derrubar o ditador Solano López e impedir que o Paraguai, país independente e sem miséria, abrisse uma saída para o mar.


O Brasil enviou 150 mil homens para o campo de batalha. Desses, tombaram 50 mil. Do lado paraguaio foram mortos 300 mil, 20% da população do país. E o Brasil abocanhou 40% do território da nação vizinha.


Até hoje o acesso aos documentos do conflito estão proibidos a quem pretende investigá-los. Por quê? Talvez o sigilo imposto sirva para cobrir a vergonhosa atuação de Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, que comandou nossas tropas na guerra. E do Conde D’Eu, genro de Dom Pedro II, que sucedeu o duque no massacre aos paraguaios.


Os arquivos ultrassecretos do Brasil podem permanecer sigilosos por 30 anos. O presidente da República pode prorrogar o prazo por mais 30, indefinidamente. Eternamente.


Em 2009, Lula enviou à Câmara dos Deputados projeto propondo o sigilo eterno periodicamente renovado. Cedeu a pressões dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. Os deputados federais o aprovaram com esta emenda: o presidente da República poderia renovar, por uma única vez, o prazo do sigilo, e os documentos considerados ultrassecretos seriam divulgados em, no máximo, 50 anos.


O projeto passou ao Senado. Caiu em mãos da Comissão de Relações Exteriores, cujo presidente é o senador Fernando Collor. E, para azar de quem torce por transparência na República, ele próprio assumiu a relatoria. E tratou de engavetá-lo. Não deu andamento ao debate nem colocou o projeto em votação.


A presidente Dilma decidira sancionar a lei do fim do sigilo eterno a 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Naquela data, o relator Collor foi a plenário e declarou ser “temerário” aprovar o texto encaminhado pela Câmara dos Deputados.


Na véspera de ser empossada ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti declarou que Dilma estaria disposta a atender pedidos dos senadores José Sarney e Fernando Collor, e patrocinar no Senado mudança no decreto para assegurar sigilo eterno a documentos oficiais. A única diferença é que, agora, o sigilo seria renovado a cada 25 anos.


O Congresso está prestes a aprovar a Comissão da Verdade, que irá apurar os crimes da ditadura militar. Como aprovar esta comissão e vetar para sempre o acesso a documentos oficiais? Isso significa impedir que a nação brasileira tome conhecimento de fatos importantes de sua história.


Collor e Sarney não gostam de transparência por razões óbvias. Seus governos foram desastrosos e vergonhosos. Já o Ministério das Relações Exteriores alega que trazer à tona documentos, como os da Guerra do Paraguai, pode criar constrangimentos com países vizinhos. Com países vizinhos ou com nossas Forças Armadas e personagens que figuram como heróis em nossos livros didáticos?


O sigilo brasileiro a documentos oficiais não tem similar no mundo. Se não for quebrado, a presidente Dilma ficará refém da chamada base aliada. Ontem foi o “diamante de 20 milhões de reais”, hoje o sigilo eterno, amanhã…


Na terça, dia 14 de junho, retornaram ao Brasil os arquivos do livro “Brasil Nunca Mais” (Vozes), que relata os crimes da ditadura militar brasileira. A publicação, patrocinada pelo Conselho Mundial de Igrejas, foi monitorada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright.


O mérito do “Brasil Nunca Mais” é que não há ali nenhuma notícia de jornal ou depoimento de vítima da ditadura. Toda a documentação se obteve em fontes oficiais, retirada, por advogados, de auditorias militares e do Superior Tribunal Militar. Microfilmada, foi remetida ao exterior, por razões de segurança. Agora retorna ao Brasil para ficar disponível aos interessados. Muitas informações ali contidas não constam da redação final do livro, da qual participei em parceria com Ricardo Kotscho.


Os arquivos da Polícia Civil (DOPS) sobre a ditadura militar já foram abertos e se encontram à disposição no Arquivo Nacional. Falta abrir o arquivo das Forças Armadas, o que depende da vontade política da presidente Dilma, ela também vítima da ditadura. As famílias dos mortos e desaparecidos têm o direito de saber o que ocorreu a seus entes queridos. E o Brasil, de conhecer melhor a sua história recente.


Um país sem memória corre sempre o risco de repetir, no futuro, o que houve de pior em sua história.


(Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. Artigo publicado originalmente na página da Caros Amigos).




sábado, 25 de junho de 2011

JÁ SÃO MAIS DE 200 OS REPRESSORES ARGENTINOS CONDENADOS

Enorme cartaz com fotos de milhares de desaparecidos políticos
carregado pelos argentinos em manifestações públicas
(Fotos: Jadson Oliveira)
“A Comissão Nacional da Verdade é mais uma etapa no longo caminho da construção de uma autêntica democracia. Composta por expressivas personalidades, com poder para requisitar documentos e convocar testemunhas, com assessores qualificados e apoio da sociedade civil, terá condições de reconstruir com objetividade as violações de direitos humanos ocorridas, passar a limpo nossas instituições civis e militares e recolocar, na agenda política do Brasil, o compromisso com a memória e a verdade, nos alinhando aos demais países latino-americanos” (o destaque em negrito é meu) - do manifesto do Comitê Baiano pela Verdade (CBV), lançado em Salvador no dia 15/junho (matéria postada neste blog no dia 17/junho).


De Salvador (Bahia) – Mais de duzentos repressores que cometeram crimes de lesa humanidade durante a ditadura argentina (1976-1983) já foram levados ao banco dos réus, condenados e estão na cadeia. Alguns deles com mais de uma condenação. É o caso, por exemplo, do ex-ditador e ex-general Jorge Rafael Videla, 86 anos, com duas condenações: uma de 25 anos e outra de prisão perpétua. O ex-comandante do 3º. Exército (sede em Córdoba), Luciano Benjamin Menéndez, 84 anos, tem seis condenações, todas à prisão perpétua.


A militância pelos direitos humanos se concentra em frente aos
tribunais federais quando da leitura de sentenças contra
repressores da ditadura
Familiares das vítimas do terrorismo de Estado estão sempre
nas ruas exigindo a verdade e a Justiça
Destas condenações, cerca de 40 já estão transitadas em julgado. Mais de 30 foram condenados por apropriação de recém-nascidos – bebês que foram sequestrados com os pais ou nasceram durante o cativeiro e foram criados/adotados por repressores ou amigos de repressores (a estimativa é que chegue a cerca de 500 o número de crianças tiradas dos presos políticos – 103 já tinham sido identificadas até o final de maio último).


Atualmente está em torno de 800 o número dos que estão sendo processados em todo o país acusados de crimes de lesa humanidade (sequestro, tortura, estupro, desaparecimento/assassinato e roubo de bebês) cometidos durante o período ditatorial, ou, como é sempre mencionado na Argentina, durante o terrorismo de Estado. A maioria dos réus são ex-militares, ex-policiais e ex-agentes penitenciários. Ultimamente vêm se intensificando esforços no sentido de levar ao banco dos réus civis que foram cúmplices do regime militar e/ou se beneficiaram dele, especialmente integrantes do Poder Judiciário.


Ao redor da metade das condenações – 110 – se deram durante o ano de 2010, marcando o pico dos processos. Entre os processados no ano passado, nove foram absolvidos.


Tais dados estão baseados em informações da Unidad Fiscal de Coordinación y Seguimiento, órgão do Ministério Público de Justiça da Argentina, e foram divulgados num balanço feito pelo jornal argentino Página/12 quando da passagem do Dia Nacional da Memória, da Verdade e da Justiça, 24 de março de 2011, aos 35 anos do golpe militar, feriado nacional, quando os argentinos foram às ruas para execrar a ditadura e exigir a continuidade e ampliação dos processos contra os repressores e seus cúmplices civis.


(No momento em que os lutadores sociais brasileiros e a militância pelos direitos humanos reivindicam ao Congresso Nacional a aprovação da Comissão Nacional da Verdade e o consequente alinhamento do Brasil com os “hermanos” latino-americanos, sugiro ainda a leitura do artigo “Direitos Humanos: Brasil na vanguarda do atraso”, publicado neste meu blog em 24/05/2010. Clique aqui).


MOBILIZAR PARA DEMOCRATIZAR A COMUNICAÇÃO


(Segue, na íntegra, a Carta do II Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas, realizado em Brasília de 17 a 19/junho. Reproduzida do sítio do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, de 20/06/2011. O título acima é deste blog).


“Desde o I Encontro Nacional dos Blogueir@s Progressistas, em agosto de 2010, em São Paulo, nosso movimento aumentou a sua capacidade de interferência na luta pela democratização da comunicação, e se tornou protagonista da disseminação de informação crítica ao oligopólio midiático.


Ao mesmo tempo, a blogosfera consolidou-se como um espaço fundamental no cenário político brasileiro. É a blogosfera que tem garantido de fato maior pluralidade e diversidade informativas. Tem sido o contraponto às manipulações dos grupos tradicionais de comunicação, cujos interesses são contrários a liberdade de expressão no país.


Este movimento inovador reúne ativistas digitais e atua em rede, de forma horizontal e democrática, num esforço permanente de construir a unidade na diversidade, sem hierarquias ou centralismo.


Na preparação do II Encontro Nacional, isso ficou evidenciado com a realização de 14 encontros estaduais, que mobilizaram aproximadamente 1.800 ativistas digitais, e serviram para identificar os nossos pontos de unidade e para apontar as nossas próximas batalhas.


O que nos une é a democratização da comunicação no país. Isso somente acontecerá a partir de intensa e eficaz mobilização da sociedade brasileira, que não ocorrerá exclusivamente por conta dos governos ou do Congresso Nacional.


Lula participou da abertura do encontro em Brasília
(Foto: Reprodução)
Para o nosso movimento, democratizar a comunicação no Brasil significa, entre outras coisas:


a) Aprovar um novo Marco Regulatório dos meios de comunicação. No governo Lula, o então ministro Franklin Martins preparou um projeto que até o momento não foi tornado público. Nosso movimento exige a divulgação imediata desse documento, para que ele possa ser apreciado e debatido pela sociedade. Defendemos,entre outros pontos, que esse marco regulatório contemple o fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação privados no Brasil.


b) Aprovar um Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) que atenda ao interesse público, com internet de alta velocidade para todos os brasileiros. Nos últimos tempos, o governo tem-se mostrado hesitante e tem dado sinais de que pode ceder às pressões dos grandes grupos empresariais de telecomunicações, fragilizando o papel que a Telebrás deveria ter no processo. Manifestamos, ainda, nosso apoio à PEC da Banda Larga que tramita no Congresso Nacional.


c) Ser contra qualquer tipo de censura ou restrição à internet. No Legislativo, continua em tramitação o projeto do senador tucano Eduardo Azeredo de controle e vigilância sobre a internet – batizado de AI-5 Digital. Ao mesmo tempo, governantes e monopólios de comunicação intensificam a perseguição aos blogueiros em várias partes do país, num processo crescente de censura pela via judicial. A blogosfera progressista repudia essas ações autoritárias. Exige a total neutralidade da rede e lança uma campanha nacional de solidariedade aos blogueiros perseguidos e censurados, estabelecendo como meta a criação de um “Fundo de Apoio Jurídico e Político” aos que forem atacados.


d) Lutar pelo encaminhamento imediato do Marco Civil da Internet, pelo poder executivo, ao Congresso Nacional.


e) Fortalecer o movimento da blogosfera progressista, garantindo o seu caráter plural e democrático. Com o objetivo de descentralizar e enraizar ainda mais o movimento, aprovamos:


- III Encontro Nacional na Bahia, em maio de 2012.


A Comissão Organizadora Nacional passará a contar com 15 integrantes:


- Altamiro Borges, Conceição Lemes, Conceição Oliveira, Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim, Renato Rovai e Rodrigo Vianna (que já compunham a comissão anterior);


- Leandro Fortes (representante do grupo que organizou o II Encontro em Brasília);


- um representante da Bahia (a definir), indicado pela comissão organizadora local do III Encontro;


- Tica Moreno (suplente – Julieta Palmeira), representante de gênero;


- e mais um representante de cada região do país, indicados a partir das comissões regionais (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte). As comissões regionais serão formadas por até dois membros de cada estado, e ficarão responsáveis por organizar os encontros estaduais e estimular a formação de comissões estaduais e locais.


Os blogueir@s reunidos em Brasília sugerem que, no próximo encontro na Bahia, a Comissão Organizadora Nacional passe por uma ampla renovação.


f) Defender o Movimento Nacional de Democratização da Comunicação, no qual nos incluímos, dando total apoio à luta pela legalização das rádios e TVs comunitárias, e exigindo a distribuição democrática e transparente das concessões dos canais de rádio e TV digital.


g) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs.


h) Declarar nosso repúdio às emendas aprovadas na Câmara dos Deputados ao projeto de Lei 4.361/04 (Regulamentação das Lan Houses), principais responsáveis pelos acessos à internet no Brasil, que são responsáveis pelo acesso de 45 milhões de usuários segundo a ABCID (Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital).


Brasília, 19 de junho de 2011”.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

FRANKLIN RELATA AS PERIPÉCIAS DO “CAMARADA JÚLIO”

De Salvador (Bahia) - A livraria LDM, na Piedade, centro da capital baiana, ficou cheia na noite da última sexta-feira, dia 17. Mais de 100 veteranos militantes políticos foram aplaudir e abraçar um velho companheiro de luta e também comprar mais um livro que estava lançando: “Camarada Júlio, confissões sinceras de uma militância”.


O velho companheiro é Franklin Oliveira Jr. e o livro é uma autobiografia de algumas décadas de militância sindical e partidária no enfrentamento da ditadura e nas tentativas de construção do socialismo, décadas de sacrifício, de desprendimento, de sonhos, de alguns acertos e de muitos equívocos, com aquela visão crítica adquirida com o olhar para trás carregado de maturidade. Aquelas intermináveis reuniões, aquelas infindáveis discussões, aquele voluntarismo, aquela falta de apreensão da realidade. Dentre os da nossa geração, quem não pecou que atire a primeira pedra.


Franklin conta tudo nas confissões do “Camarada Júlio”. Ou quase tudo, conta muito nas 500 páginas, incluindo muitas situações curiosas e divertidas.


Ele é músico, professor, pós-graduado em História. Militou em organizações tidas como revolucionárias e clandestinas nos obscuros (e obscurantistas) tempos da ditadura (1964-1985). No seu caso, foram a Ação Popular (AP) e a Organização Comunista Democracia Proletária (OCDP). Com a abertura, atuou no PT e depois no PSOL. E teve uma notável atuação no Sindicato dos Músicos e na CUT. .

Seguem fotos do lançamento:
Franklin e o ex-governador Waldir Pires
Cantor e compositor Wilson Aragão


terça-feira, 21 de junho de 2011

O QUE A GRANDE IMPRENSA NÃO REVELA

Por Washington Araújo (Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa e reproduzido de Carta Maior, de 26/04/2011)


Na quinta-feira (14/4), o sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu um artigo que, sendo a política um alentado jogo de xadrez, desarrumou completamente as peças do tabuleiro. Nem seus leais admiradores e amigos de longa data se atreveram a parabenizá-lo em público. Obviamente isto deve ter doído fundo na alma do autor que é referido por 10 entre 10 pessoas que o conhecem como o próprio "príncipe da vaidade".

E por que o artigo mexeu com os brios de gente aliada e forneceu munição pesada a tantos de seus críticos contumazes? Por uma questão apenas: seu partido não deveria lutar pelo povão e sim buscar respaldo na emergente classe C, aqueles que desenvolveram um senso crítico acima da média e deram início não a uma vida pautada pela cidadania e sim pelo consumo.

Façamos um exercício mental deixando um pouco ao largo a questão político-partidária e trazendo à frente a questão da imprensa. E se verdades antes apenas pressentidas passassem a ser declaradas com todas as vogais (e consoantes) por quem detivesse autoridade, por quem – como dizem os que estudam análise de conteúdo – exercesse autoridade no lugar da fala? Sem muito esforço, após ter passado os últimos anos analisando as idas e vindas da grande mídia e seu real papel como mediadora da informação junto à sociedade brasileira, logo percebi que ao menos umas doze afirmações teriam o poder de desarrumar, com igual contundência, o tabuleiro em que se espalham as peças da nossa vistosa imprensa.

Dia, mês, ano


1. A imprensa deveria deixar de informar à opinião pública e trabalhar apenas para formar "a sua" opinião pública;

2. A imprensa deveria deixar de buscar o interesse dos leitores em geral e escrever apenas para os empresários, os anunciantes atuais e também os potenciais e para a classe de jornalistas que entende ser formadora de opinião;

3. A imprensa deveria transformar em escândalos reais todo e qualquer indício de corrupção que viceje no entorno da presidenta Dilma Rousseff;

4. A imprensa deveria aproveitar uma reunião de sua Associação Nacional de Jornais e aprovar a criação de um Partido da Imprensa Brasileira, tendo como missão maior manter no poder por pelo menos 30 anos governos inteiramente dóceis aos seus interesses financeiros e comerciais;

5. A imprensa deveria aparelhar a sociedade brasileira com novos avatares: o MST da Imprensa, a CUT da Imprensa, a UNE da Imprensa, os Blogues Amarrotados da Imprensa, as ONGs da Imprensa, a Bancada Ruralista da Imprensa, a Bancada da Bala da Imprensa e assim por diante;

6. A imprensa deveria pressionar o governo a presentear cada beneficiário potencial da transposição de águas do rio São Francisco e cada futuro proprietário de moradia do programa Minha Casa, Minha Vida com a assinatura de duas revistas semanais – Veja e Época – e dois jornais de circulação nacional impressos em São Paulo e no Rio de Janeiro;

7. A imprensa deveria continuar pressionando determinados governos estaduais a adquirirem milhares de assinaturas de jornais e revistas para ampla distribuição aos professores de suas redes públicas de educação;

8. A imprensa deveria continuar mobilizando certos atores sociais para influenciar membros do Congresso Nacional a aprovarem uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional) dando nova redação ao artigo 225 da Constituição Federal, tornando absolutamente secundário o papel do Estado no processo de concessão de emissoras de rádio e de televisão;

9. A imprensa deveria transformar o Instituto Millenium em Universidade Nacional do Brasil com o objetivo de reformular inteiramente o conteúdo dos cursos de Comunicação Social ora existentes no país, fornecendo-lhes uma nova visão do fazer jornalístico e elencando novas fronteiras do conhecimento neoliberal;

10. A imprensa deveria encampar de forma aberta e inequívoca a defesa intransigente de causa popular que seja conducente à supressão da política de cotas raciais para acesso nas universidades públicas;

11. A imprensa deveria possuir a sua própria Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vasculhando, sempre que for o caso, biografias de esquerdistas notórios do Brasil dos anos 1960-1970 para subsidiar alentadas reportagens sobre aqueles que hoje posam de democratas e que em passado recente não passavam de perigosos terroristas;

12. A imprensa deveria continuar orquestrando ações midiáticas de desmerecimento de políticas públicas nos doze meses anteriores aos pleitos presidenciais, começando sempre com a mobilização de "formadores de opinião" com espaço cativo em rádios de amplitude nacional, passando para aqueles que detêm espaço diário na imprensa escrita e desaguando no espaço editorial do principal telejornal do país.

Infelizmente boa parte destes itens são levados à ação mesmo sem que sejam precedidos por qualquer forma de declaração ou anúncio. E é tarefa para muitas mentes, das tão-somente medianas àquelas mais brilhantes, correlacionar cada um desses enunciados com a ilustração do fato do dia, do mês, do ano, conforme a prática de nossa imprensa.

Garanto, leitores, que estou lhes sugerindo um interessante exercício mental. Ao menos para aqueles que consideram suas mentes minimamente... arejadas.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org - wlaraujo9@gmail.comEmail

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CERCA DE 100 BAIANOS PARTICIPAM DA MARCHA NACIONAL DA LIBERDADE

De Salvador (Bahia) – Como estava previsto para ocorrer em mais de 30 cidades do país, os baianos participaram da Marcha da Liberdade, no último sábado, dia 18. Mas, segundo noticiário de alguns portais na Internet, apenas cerca de 100 pessoas, a maioria jovens, foram às ruas de Salvador manifestar sua insatisfação diante de variados temas, como questões ecológicas, a administração do prefeito João Henrique, do PP, e a luta pela descriminalização do uso da maconha.


Este último tema foi que deu origem ao movimento que cresceu a partir da proibição e repressão à inicialmente Marcha da Maconha, depois batizada de Marcha pela Liberdade de Expressão e, em seguida, Marcha da Liberdade. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a proibição, entendendo ser direito dos cidadãos defender publicamente a legalização do consumo da droga.


Não houve qualquer incidente com a polícia. Os manifestantes, exibindo cartazes, se concentraram no Campo Grande, em frente ao Teatro Castro Alves, e a partir das 15 horas se deslocaram, através do Corredor da Vitória, até o Farol da Barra.


Reproduzo algumas fotos:


Nova manifestação dos funcionários do jornal A Tarde. Quem diria? Saiu nA Tarde nem sempre é verdade

Manifestação agora à tarde (segunda, 20-06), na Avenida Tancredo Neves e dentro do Jornal A Tarde, contra o 0% de reajuste. Fotos e vídeo de autoria do colega Márcio Venâncio. Mais


sexta-feira, 17 de junho de 2011

LANÇADO O COMITÊ BAIANO PELA VERDADE: “A VERDADE É O ÚNICO CAMINHO PARA A JUSTIÇA”


Maria do Rosário defendeu o papel dos comitês pela verdade
visando esclarecer os crimes de lesa humanidade cometidos
durante a ditadura (Fotos: Jadson Oliveira)
Mais de 100 pessoas encheram o auditório do Conselho Estadual
de Cultura na noite de quarta-feira, dia 15, em apoio à luta pela
memória, pela verdade e pela Justiça
De Salvador (Bahia) – A frase acima é da ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, ao discursar no ato de lançamento do Comitê Baiano pela Verdade (CBV), na noite de quarta-feira, dia 15, na capital baiana, O tom enfático da ministra, reafirmando o compromisso da presidenta Dilma Rousseff com o tema, coroou as diversas intervenções aplaudidas por mais de 100 pessoas que encheram o auditório do Conselho Estadual de Cultura, num anexo do Palácio da Aclamação.


Um cartaz, ladeado pelas bandeiras da Bahia e do Brasil, proclamava: “Justiça não é revanche – Queremos nossos mortos – Queremos a história – Queremos Justiça”.Embora sem esconder as dificuldades que o governo enfrenta quando se trata de mexer na lama dos crimes de lesa humanidade cometidos pela ditadura de 1964/1985, Rosário defendeu a agilização da aprovação do projeto de lei 7376/10, enviado ao Congresso Nacional pelo então governo Lula em maio do ano passado, propondo a criação da Comissão Nacional da Verdade; destacou o importante papel que jogarão os comitês pela verdade (até agora, já são 16 em todo o país) no trabalho de mobilização dos brasileiros, mobilização que será imprescindível para o êxito do processo.

E ao lado de coisas de praxe que todo ministro tem que dizer, tocou com clareza em abordagens delicadas: contou que, ao chegar para a solenidade, um repórter lhe perguntou, insistentemente, sobre a apuração de crimes dos “dois lados” (a nossa velha mídia sempre jogando contra as causas democráticas e populares, isto ela não disse, digo eu). A ministra, no seu discurso, esclareceu como via os “dois lados”: de um, o terrorismo de Estado, e do outro, a resistência dos lutadores sociais. Aliás – poderia até acrescentar -, massacrados pela superioridade militar dos repressores.

“Tortura como prática de Estado” continua em vigor pelo Brasil

Tocou ainda nas torturas que continuam vigentes nas delegacias de polícia – “tortura como prática de Estado” - e nos cinco recentes assassinatos de ambientalistas na região amazônica. E, claro, na impunidade: são dois mil processos policiais parados no Pará, Amazonas e Rondônia, revelou.

Emiliano José, Diva Santana (da Comissão de Mortos e Desaparecidos
Políticos) e Lídice da Mata
Emiliano José, deputado federal do PT-BA, ex-preso político que sabe no próprio corpo da dor da tortura, autor de vários livros mostrando aquela fase tenebrosa, martelou firme, lembrando os centros de tortura que funcionaram na Bahia, como os dos quartéis do Exercito no Barbalho (hoje quartel da PM) e em Amaralina. Como parlamentar, falou das negociações visando a aprovação da Comissão Nacional da Verdade, assunto também abordado pela senadora Lídice da Mata, do PSB-BA, ex-líder estudantil calejada nas batalhas contra a ditadura, saudada como a primeira mulher prefeita de Salvador e senadora baiana.

Mas de calejados na luta contra a repressão o auditório e a mesa dirigente estavam repletos. A maior parte democratas sinceros (o adjetivo é necessário porque depois da ditadura todo mundo virou, automaticamente, “democrata”, até gente da Arena e do PFL), socialistas e comunistas, cujas rugas e cabelos brancos testemunham muita tensão, muitos sonhos, muitas decepções e também muitas alegrias pelos êxitos e, particularmente, por se sentirem cidadãos à altura do seu tempo. Talvez à vista de tantos sessentões, a deputada estadual Fátima Nunes, do PT-BA, tenha se lembrado de ressaltar, como fez, a importância da juventude brasileira se apropriar da memória “daqueles tempos”.

“Mais uma etapa no longo caminho da construção de uma autêntica democracia”


Presidindo a mesa estava o professor Joviniano Neto, veterano militante da luta pela anistia na década de 70, hoje presidente do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM-BA). Também na mesa representantes da Ordem dos Advogados do Brasil – secção Bahia (OAB-BA), Coordenação Ecumênica de Serviços (Cese), Ação Social Arquidiocesana de Salvador (Asa) e do Centro de Estudos Victor Meyer. As cinco entidades compõem a coordenação do CBV. Dentre outros, estava ainda o secretário da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Almiro Sena, representando o governador Jaques Wagner.

Mesa presidida pelo professor Joviniano Neto (no meio, entre
Maria do Rosário e Almiro Sena)
Joviniano anunciou que a programação da noite incluía a leitura do manifesto do comitê, mas para abreviar um pouco o ato, a leitura foi suprimida. Transcrevo um parágrafo: “A Comissão Nacional da Verdade é mais uma etapa no longo caminho da construção de uma autêntica democracia. Composta por expressivas personalidades, com poder para requisitar documentos e convocar testemunhas, com assessores qualificados e apoio da sociedade civil, terá condições de reconstruir com objetividade as violações de direitos humanos ocorridas, passar a limpo nossas instituições civis e militares e recolocar, na agenda política do Brasil, o compromisso com a memória e a verdade, nos alinhando aos demais países latino-americanos”.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Joviniano Neto: do Comitê Baiano pela Anistia ao Comitê Baiano pela Verdade (vídeo)

                                  

De Salvador (Bahia) - O professor Joviniano Neto, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais e da coordenação do Comitê Baiano pela Verdade (CBV), lançado ontem, dia 15/junho, na capital baiana, fala da luta pela anistia na década de 70 e, agora, a luta pela verdade e pela justiça, visando avançar na apuração dos crimes de lesa humanidade cometidos pelos repressores durante a ditadura (1964-1985).

Na ordem do dia a mobilização dos brasileiros para pressionar pela aprovação da Comissão Nacional da Verdade, cujo projeto foi enviado pelo então governo Lula ao Congresso Nacional em maio do ano passado.

O novo CBV, um dos 16 já instituídos no Brasil, nasceu sob as palavras-de-ordem: Justiça não é revanche - Queremos nossos mortos - Queremos a história - Queremos Justiça.

(Amanhã este blog publica postagem mais ampla sobre o lançamento do novo comitê baiano) 




terça-feira, 14 de junho de 2011

TRABALHADORES DO JORNAL A TARDE FAZEM CURTAS PARADAS EM BUSCA DE REAJUSTE SALARIAL


Os empregados, em assembléia no pátio do prédio do jornal, 
aprovam nova paralisação para hoje à tarde
(Foto: Reprodução)
Marjorie Moura, presidente do Sindicato dos
 Jornalistas: processo de desgaste com reajustes
ínfimos e/ou não reajuste (Foto:Jadson Oliveira)
De Salvador (Bahia) – Os trabalhadores de A Tarde, o jornal mais influente da Bahia, iniciaram um processo de curtas interrupções diárias do trabalho em busca de negociação visando reajuste e melhorias salariais. Reivindicam 12% de aumento, a título de recomposição, além de outros benefícios chamados salários indiretos (veja abaixo). O processo iniciou-se na terça-feira, dia 7. Ontem, dia 13, eles pararam das 16:30 horas até 19 horas, aguardando uma negociação que não houve, e hoje está prevista uma paralisação entre 14 e 16 horas, quando decidirão os próximos passos do movimento.

Como estava programado, ontem o pessoal desceu da redação e dos outros setores para o pátio do prédio, situado na região do Iguatemi - atualmente a área mais movimentada da capital baiana – e, logo em seguida, a comissão dos empregados encarregada de negociar com o patrão se juntou aos trabalhadores. Nenhum dirigente da empresa apareceu para negociar. Que fazer? Descaso? Descrença no poder de mobilização dos assalariados envolvidos - 150 jornalistas, 250 pessoas da administração e uns 30 gráficos? Diante de alguma frustração, alguma revolta e muitas dúvidas, especialmente quanto às dificuldades e incertezas de uma greve (já está decretado o estado de greve), decidiram por nova parada de duas horas hoje.

Flávio Oliveira (diretor do Sindicato dos Jornalistas), João Mauro,
Genivaldo Taquari (presidente do sindicato da área administrativa)
e Marjorie Moura (Foto: Jadson Oliveira)
Início da reunião no pátio do prédio (Foto: Jadson Oliveira)
Marjorie Moura, 17 anos de repórter e editora substituta do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia desde setembro do ano passado, informou que os trabalhadores vêm de um processo de desgaste ao longo dos últimos anos, com reformas e projetos editoriais que não deram certo e com reajustes ínfimos e/ou não reajuste: em 2009, foi 0%; em 2010, eles conseguiram 5% através de dissídio coletivo, ou seja, pela via judicial; e este ano a direção da empresa quer repetir o 0%. (O salário inicial de repórter está em R$ 2.400,00). A dirigente sindical considera satisfatória a mobilização, mas se mostra prudente sobre os novos passos a serem dados.

De qualquer forma, a reação dos jornalistas e demais categorias dos empregados demonstra que ventos mais frescos sopram no outrora bastião do conservadorismo baiano – o “vespertino” A Tarde (começava a circular no início da tarde, daí o nome), que no próximo ano vai se tornar centenário. É o mais antigo e de maior circulação na Bahia. Ostentou por muito tempo o título de maior jornal do Norte e Nordeste, mas cedeu o posto para o Jornal do Commércio, de Recife/Pernambuco. Hoje é tido como um dos três ou quatro maiores diários da região. O grupo empresarial tem ainda o jornal “popular” Massa! e a rádio A Tarde FM.

Em fevereiro deste ano esses novos tempos já haviam marcado sua presença. O pessoal da redação se levantou e paralisou os trabalhos para exigir a readmissão do repórter Aguirre Peixoto, cuja demissão foi considerada injustificável pelos colegas. O movimento obteve êxito. Um episódio impensável nas décadas em que a redação era dirigida por Jorge Calmon, tratado com a devida reverência pelos empregados da casa, inclusive os jornalistas, como “doutor Jorge”.

Salários indiretos

De acordo com o blog Pilha Pura, que reproduziu matéria do Blog do Brown, do jornalista José Bonfim, a direção da empresa mantém em 0% o reajuste salarial e oferece os seguintes ganhos indiretos:

* Aumento de R$ 6,50 para R$ 7,00 no valor do tíquete-refeição;


* Acréscimo de R$ 10,00 no valor do auxílio-óculos, atualmente de R$ 150,00;


* Mais R$ 5,00 no valor do auxílio-creche, que passaria de R$ 90,00 para R$ 95,00;


* Descontos no comércio lojista local;


* Compensação do passivo do banco de horas com folgas e com pagamento das horas trabalhadas a partir de 1º de maio de 2011.

E os sindicalistas encarregados da negociação aceitariam considerar tal proposta se fossem incluídos os seguintes itens:

* Oferta de cesta básica mensal no valor de 1/2 salário mínimo;


* Redução do desconto em salário do vale-transporte, passando de 6% para 5%;


* Tíquete-refeição para quem ganha até cinco salários mínimos, sem qüinqüênio;


* Inclusão no acordo coletivo de cláusula de Participação de Resultados e Lucros (PRL);


* Ampliação do prazo do benefício do auxílio-creche, atendendo a crianças de até 9 anos;


* Pagamento parcelado do saldo do Banco de Horas e pagamento de horas-extras;


* Ampliação do tempo de licença-maternidade;


* Ampliação do prazo de estabilidade para quem vai se aposentar, de 24 para 36 meses;


* Redução do valor pago pelo funcionário como co-participação no plano de saúde.




domingo, 12 de junho de 2011

DE CONVERSA FIADA PARA CONVERSA AFIADA


Paulo Henrique Amorim falou sobre Domocratização da Mídia e
Marco Regulatório (Fotos: Joana D'Arck)

Por Joana D’Arck (Reproduzido do blog Pilha Pura, de 11/06/2011)


De Salvador (Bahia) - O Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas, aberto ontem, dia 10, à noite, no Hotel Fiesta, bem que poderia levar para o 2º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em Brasília, nos próximos dias 17, 18 e 19, dentre outras coisas a proposta de retirar do nome do evento esse adjetivo “progressista”, que chegou a ser questionado no primeiro encontro nacional, no ano passado, em São Paulo. Votei pela retirada, por achar esse adjetivo muito identificado com a direita brasileira envergonhada. Fui derrotada, mas volto a insistir. Por que não, "Encontro de Blogueiros Sujos”? (blogs dos chamados “blogueiros progressistas” foram tachados de “sujos” pelo então candidato demotucano José Serra. A partir daí, alguns deles, ironicamente, passaram a se auto-denominar de “sujos”).

O próprio jornalista Paulo Henrique Amorim, um dos membros do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé - entidade que idealizou e promove o encontro nacional -, faz a gente achar que é esse o nome, quando repete inúmeras vezes “encontro de blogueiros sujos”. Foi assim ontem à noite, na palestra de abertura do encontro baiano, quando falou sobre Democratização da Mídia e Marco Regulatório.


O “blogueiro sujo”, ex-global, é responsável pelo site Conversa Afiada, que uma amiga do lado brincou cochichando, chamando de “conversa fiada” (viva o humor! Essa criatura tem cada tirada, algumas impublicáveis (rsrs)... Nem adianta que não vou contar).


No encontro de blogueiros baianos foi anunciada a presença
do ex-presidente Lula na abertura do Encontro Nacional,
nos próximos dias 17, 18 e 19, em Brasília.
 
Sem perder a rebeldia: colegas da recém-criada Secom (ex-Agecom)
se juntam no fundo do auditório
 
Falando sério, Paulo Henrique Amorim tem o mérito de falar sobre coisas de peso, importantíssimas, sem nos cansar, usando o tom descontraído, muitas vezes escrachado mesmo. Mas é enfático quando denuncia a perseguição de políticos, empresários e gente graúda do Poder contra blogueiros que ousam denunciá-los por desmandos e todo tipo de crime, que a gente precisa refletir e se mobilizar para mudar (o próprio palestrante tem 39 processos judiciais nas costas, movidos por gente do tipo Gilmar Mendes, o ex-senador do Demo do Piauí, Heráclito Fortes, e o banqueiro Daniel Dantas).


Amorim frisou especialmente a necessidade de se instituir a banda larga universal e neutra, que atinja os rincões mais distantes do país, como também defendeu uma legislação que proíba a propriedade cruzada de meios de comunicação (as conhecidas redes, em que um só grupo detém o poder sobre televisão, rádio, jornal impresso e sites); e a exploração dos veículos de comunicação por políticos e/ou “laranjas” deles.


(No sábado, dia 11, a programação previa debates com os palestrantes Robinson Almeida, secretário de Comunicação Social da Bahia, Secom; Altamiro Borges, presidente do Centro Barão de Itararé; Sérgio Teles, economista, e Paula Marcondes, jornalista, membros da Rede Liberdade (RJ); Emiliano José, deputado federal do PT-BA e membro da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e pelo Direito à Comunicação; Penildon Silva Filho, professor da Universidade Federal da Bahia; Marcos Dantas, professor de Comunicação da PUC/RJ; e Vicente Aguiar, gestor de Projetos da Colivre, Bahia. Na última plenária, se daria a discussão sobre a Associação de Blogueiros e a Carta de Blogueiros da Bahia).



sexta-feira, 10 de junho de 2011

POLÍCIA ARGENTINA ATUA DESARMADA NOS “CONFLITOS SOCIAIS”


(Todas as três fotos: Reprodução)
De Salvador (Bahia) - Movimentos sociais da juventude de São Paulo que ganharam maior visibilidade a partir da Marcha da Liberdade, dia 28/maio (publiquei três postagens neste meu blog sobre o assunto nos dias 29, 30 e 31/maio), prometeram realizar um debate sobre “Violência policial na periferia e ‘armamento menos letal’ em manifestações”, dentro do processo de mobilização rumo à Marcha Nacional da Liberdade, convocada para o próximo dia 18, um sábado. Conforme vem sendo divulgado em sítios na Internet, estão previstas manifestações em 33 cidades brasileiras, inclusive Salvador/Bahia.


Como subsídio para o debate, registro aqui as mudanças ocorridas na Argentina sobre o desarmamento dos policiais no enfrentamento dos chamados “conflitos sociais” – protestos de rua dos movimentos sociais e populares, disputas sindicais/trabalhistas, luta por moradia, etc. (Eu estava passando uma temporada em Buenos Aires na ocasião, tendo inclusive tratado do tema em algumas de minhas matérias). Tais mudanças se deram no início deste ano, logo depois da criação do Ministério da Segurança (na verdade, foi desmembrado do Ministério da Justiça).


Os integrantes da Polícia Federal, subordinada ao governo federal, que fazem o policiamento da capital Buenos Aires – atuação equivalente às nossas Polícias Militares, subordinadas aos governos estaduais – passaram a enfrentar os “conflitos sociais” sem armas de fogo, incluindo a não utilização de balas de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo e spray pimenta.


A nova orientação foi enquadrada dentro da política de Direitos Humanos do governo da presidenta Cristina Kirchner. A ministra da Segurança, Nilda Garré, proclamou ao assumir o novo ministério que “conflitos sociais” passariam a ser resolvidos através do diálogo. Os políticos de oposição colocados à direita no espectro político-ideológico e a maioria dos meios privados de comunicação vociferaram críticas, defendendo uma ação mais “enérgica” da repressão e apelando para a necessidade de “ordem” – ou seja, repressão violenta contra os movimentos sociais -, mas o governo argentino, até agora, vem mantendo sua orientação de caráter democrático e participativo.


Diante, portanto, da violência repressiva das PMs brasileiras contra os movimentos sociais – a de São Paulo talvez seja uma das mais em evidência (acima, imagens recentes da PM paulista em ação) -, é interessante se discutir a experiência dos “hermanos” argentinos.


(Depois de um ano de temporadas entre São Paulo e Buenos Aires, estou retornando a Salvador/Bahia e tentando garimpar informações sobre a participação baiana na Marcha Nacional da Liberdade, prevista para 18/junho).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

MARCOS BAGNO: DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA


(Reproduzido do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 19/05/2011)


Na semana passada, o site IG noticiou que o Ministério da Educação comprou e distribuiu, para 4.236 mil escolas públicas, um livro que “ensina o aluno a falar errado”. Os jornalistas Jorge Felix e Tales Faria - do Blog Poder On Line, hospedado no portal – se basearam em exemplos de um capítulo do livro Por Uma Vida Melhor para afirmar que, segundo os autores da coleção organizada pela ONG Ação Educativa, não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Calçaram sua tese no seguinte trecho de um capítulo que diferencia o uso da língua culta e da falada:”Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar os livro?”. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. O fato de haver outros capítulos, no mesmo livro, que propõem a leitura e discussão de obras de autores como Cervantes, Machado de Assis e Clarice Lispector e ensinam modos de leitura, produção e revisão de textos, não foi citado. Mas a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito esquentou, principalmente após o colunista da Folha de S. Paulo Clóvis Rossi vociferar, no último domingo, que tal livro é “criminoso”.


Por Marcos Bagno, no seu site, via Carta Capital


Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.


Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).


Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.


Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.


Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.


Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantadas para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.


A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.


Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).


Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.


Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assisti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).


O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?


(*) Marcos Bagno é escritor, tradutor, lingüista, professor da Universidade de Brasília (UnB). Matéria reproduzida do blog Vi o mundo.


COMENTÁRIOS


Comentário de Samuel Velasco


Em 19/05/2011 às 11:41


Tive contato com o trabalho do Marcos Bagno em 2007 e foi uma das melhores leituras daquele ano. A professora de “Redação I” do curso de jornalismo da UEPG havia decidido à revelia do departamento de jornalismo nos ensinar linguística, ao invés do aporrinhamento da pirâmide invertida. Linguista de formação, nos apresentou 3 livros do Bagno e com certeza ajudou na formação de jornalistas melhores.

Agora, na Unicamp, infelizmente não vejo nenhuma iniciativa deste tipo. Frequento aulas em 4 institutos, dentre estes, o de Filosofia e Ciências Humanas e o de Pedagogia. Em nenhum destes a ciência linguística parece ter adentrado. Os professores ainda são em seu discurso extremamente elitistas (mesmo os pedagogos-doutores) no que diz respeito às variações linguísticas, a ponto de proferir disparates em sala de aula, como a “reforma ortográfica idiotizar mais ainda os jovens” e assim vai, exemplos cada vez mais cabeludos… O doutorado não faz o intelectual, definitivamente.


Parabéns ao Marcos Bagno, por ser fundamentalmente um intelectual orgânico e não mais um burocrata de botequim que calhou de estar na folha de pagamento do estado, como muitos charlatões obscurantistas que difundem sua ignorância em ensaios “científicos” sobre o “falar certo”.


Comentário de Jadson Oliveira


Em 20/05/2011 às 4:19


Conheci as ideias do Marcos Bagno através da revista Caros Amigos. Pra mim foi um achado precioso.

Sou invocado (ainda se usa esta palavra?) com a mania que ultimamente invadiu nossa imprensa, a de usar “de o” e “de a” no lugar das contrações “do” e “da”. Não sei bem o porquê, mas tenho ojeriza a isso.

Tanto que uma vez fiz uma consulta ao Bagno (repito seu nome pra ver se decoro, não consigo lembrar este Bagno), meu linguista predileto. Para minha enorme satisfação, veja aí sua resposta (guardo até hoje seu e-mail):

“Sobre o “de o”, “de a”, também acho a maior babaquice do mundo. Na gramática do Bechara, ele dá uma bela explicação sobre o fenômeno da contração, homologando o uso de “do” e “da”. Isso só comprova que os puristas querem ser mais realistas do que o rei”.




segunda-feira, 6 de junho de 2011

BOCA DE URNA: HUMALA VENCE DE VIRADA E ENCERRA CICLO NEOLIBERAL NO PERU

Ollanta Humala: vitória confirmada na contagem oficial - com 88,3%
dos votos computados, tinha 51,27% contra 48,72% obtidos por
Keiko Fujimori 
(Reproduzido de Carta Maior, de 06/06/2011)


O Peru que foi às urnas neste domingo (dia 5) para rejeitar a continuidade da política neoliberal personificada em Keiko Fujimori registrou a maior taxa de crescimento da América Latina no ano passado: 9%. A média de expansão do seu PIB tem sido elevada, da ordem de 7%. Em 2010, sua economia atraiu mais investimentos estrangeiros do que a Argentina. O presidente Alan García, no entanto, deixa o cargo com uma das taxas de popularidade mais baixas das Américas: cerca de 26% -- inferior à de George Bush, por exemplo, que encerrou o mandato em meio a uma hecatombe financeira e desacreditado pela guerra do Iraque.


A explicação para o paradoxo, responsável pela vitória de Ollanta Humala, segundo as pesquisas de boca de urna, é o modelo de crescimento adotado nos últimos anos. O Peru desde os anos 90 cresce sem políticas públicas para redistribuir a riqueza em benefício da sociedade, sobretudo de sua vasta maioria pobre constituída de indígenas, que formam 45% da população (brancos são 15%). Foram deles os votos decisivos que garantiram a virada da candidatura de centro-esquerda.


Basicamente exportadora de minérios, a economia peruana beneficiou-se fartamente da valorização dos preços das commodities nos últimos anos. A opção política, porém, foi por um modelo de crescimento de recorte neoliberal, feito de desregulação máxima para os mercados e direitos sociais mínimos para a população. A riqueza gerada nessa engrenagem não circula na sociedade, concentrando-se numa órbita restrita de beneficiados que gostariam de eleger Keiko Fujimori para afastar o risco de mudanças.


A ausência de carga fiscal sancionou e acentuou as polarizações decorrentes dessa dinâmica. A receita do Estado peruano é de 15% do PIB, inferior até mesmo à média latino-americana e caribenha que já é acanhada, oscilando em torno de 18% do PIB, contra 39,8% da União Europeia, onde a rede de contrapesos sociais está consolidada. O governo Alan García poupou as mineradoras peruanas de uma taxação correspondente aos lucros fabulosos acumulados no atual ciclo de alta das matérias-primas. O mercado naturalmente cuidou de seus próprios interesses e o Estado não reuniu fundos para investir em educação, saúde, habitação e segurança alimentar.


No crepúsculo do ciclo neoliberal, a renda per capita no Peru é de US$ 5.196, bem inferior à de outros países da região, como Uruguai, Chile, Brasil e México. A realidade, no entanto, é ainda pior que isso. Com 2/3 da mão-de-obra na informalidade, a sociedade peruana não dispõe de uma estrutura de direitos trabalhistas; a população rural, formada sobretudo pelos indígenas, vegeta; uma professora ganha cerca de R$ 200,00 por mês. É esse modelo de crescimento, que ao gerar riqueza amplifica a desigualdade e polariza toda estrutura social, que foi rejeitado agora nas urnas.




“OS QUE NÃO QUEREM A VERDADE SÃO AQUELES QUE DERAM AS ORDENS”


Por Carlos Noriega – jornal Página/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 04/06/2011)


“Vou ganhar amanhã”, diz Ollanta Humala. Ele está tranquilo, confiante. O candidato da Frente Progressista Ganha Peru, que neste domingo disputa o segundo turno da eleição presidencial com a direitista Keiko Fujimori, concedeu uma entrevista exclusiva ao Página/12, abrindo um espaço em sua agitada agenda. Humala tinha acabado de rechaçar, em uma entrevista coletiva, a acusação lançada por Roger Noriega, subsecretário de Estado para a América Latina da administração de George W. Bush, de que Hugo Chávez estaria financiando a sua campanha. “Isso é uma mentira, uma calúnia. Não há nenhuma prova para essa afirmação”, disse Humala.


Na conversa com o Página/12, o candidato falou de suas principais propostas, do que seria um eventual governo seu sem maioria parlamentar, de direitos humanos, de sua rival Keiko Fujimori e do papel que a Unasul (União das Nações Sul-americanas) teria em sua política externa.

- Você disse que o presidente Alan García apoia a candidatura de Keiko Fujimori. Confia na limpeza do processo eleitoral?


Humala – Nós vamos respeitar a vontade popular e vamos defendê-la. Há indícios que trazem preocupação quanto à transparência do processo eleitoral. Há uma clara intervenção do presidente García em favor do projeto autoritário de Keiko Fujimori. A Diroes (quartel policial onde está detido Alberto Fujimori) é o principal local de campanha do fujimorismo, desde onde Alberto Fujimori, que está preso por corrupção e violação dos direitos humanos, decide a estratégia de seu partido. Outro fato preocupante é a denúncia feita sexta-feira pelo jornal La República sobre a interceptação de minhas conversas e as de meus familiares e assessores políticos. Nós reconhecemos essas conversas e algumas delas foram feitas na sede do partido e não por telefone. A única instituição com capacidade de fazer essas interceptações é o serviço de inteligência e para que faça isso precisa ter a luz verde do presidente da República. O governo deve explicar isso.


- Se você ganhar a eleição, será por uma margem estreita e em um país polarizado e dividido em dois, sem maioria no Congresso...


Como força política responsável e com memória entendemos a mensagem que a população deu no primeiro turno, quando o povo nos deu a primeira maioria, mas não uma maioria absoluta, como um pedido para que ampliássemos nosso programa, o que implica um governo de concertação nacional, capaz de consensuar algumas propostas. Neste esforço de concertação conseguimos o apoio de forças sociais, trabalhistas e políticas importantes, como o partido Peru Posible (do ex-presidente Alejandro Toledo), com o qual podemos garantir a estabilidade democrática no Congresso, já que com essa força podemos ter maioria parlamentar, o que a congressista Fujimori não pode conseguir, uma vez que não tem maioria. No grupo dela, há gente que trabalhou diretamente com Fujimori e, quando não tiveram maioria, fecharam o Congresso.


- Você falou de fazer concessões para conseguir essa concertação. Até onde vão essas concessões em suas propostas? O que não é negociável?


Não vamos retroceder em fazer com que o crescimento econômico venha acompanhado de inclusão social. Para que haja inclusão social temos que assegurar políticas sociais como o Programa Pensão 65, para os maiores de 65 anos que não têm uma pensão; um programa de nutrição infantil nas escolas; um programa de creches; defender os direitos trabalhistas; elevar o salário básico de 600 para 750 soles (cerca de 220 dólares) no primeiro ano de governo; um aumento de salário aos policias para melhorar a segurança; investir na infraestrutura, como aeroportos, portos, estradas, escolas, hospitais, ferrovias - o país tem hoje um déficit de 40 bilhões de dólares em infraestrutura pública -, por meio de parcerias público-privadas. Queremos consolidar o processo de descentralização para melhorar o investimento público; ampliar o programa Juntos (que paga 35 dólares mensais aos setores mais pobres) de cerca de 500 mil beneficiários para 900 mil; ampliar os orçamentos dos programas sociais de restaurantes populares e do copo de leite. Queremos entregar bolsas aos melhores estudantes das escolas públicas para que tenham acesso a uma carreira universitária; desenvolver uma política para o retorno dos três milhões de peruanos que vivem no exterior, a maioria em situação ilegal. Não vamos retroceder em nossa disposição de implementar essas políticas sociais.


- Como ex-militar, qual sua posição frente aos julgamentos de militares por violações de direitos humanos?


Para que haja reconciliação, primeiro é preciso que se conheça a verdade. As autoridades devem dar todas as condições à Justiça para que se esclareçam as denúncias e se saiba a verdade. Os soldados que combateram com honra querem que as denúncias sejam esclarecidas, porque quando se suspeita de um se suspeita de todos. Os interessados em que não se conheça a verdade são aqueles que deram as ordens para violar os direitos humanos. Nunca mais devemos regressar à ditadura fujimorista, na qual desapareceram estudantes, na qual se matava, se esterilizavam mulheres contra sua vontade. O que foi feito no país em matéria de direitos humanos foi uma vergonha. O Estado tem uma dívida com sua população em matéria de direitos humanos. Nós defendemos os direitos humanos.


- Em sua opinião, como seria um futuro governo de Keiko Fujimori?


Ela traz consigo as mesmas pessoas que governaram com seu pai. Com ela está o doutor Alejandro Aguinaga, que fazendo lembrar o tempo da Alemanha nazista, como ministro da Saúde de Fujimori, esterilizava as mulheres contra sua vontade. Mais de 300 mil mulheres pobres foram esterilizadas contra sua vontade. Sua porta-voz de direitos humanos (MIlagros Marayi) coordenava no governo de Fujimori, com Vladimiro Montesinos (braço direito de Fujimori e encarregado dos trabalhos sujos), o trabalho de como livrar a cara do regime em função das acusações de violações dos direitos humanos. Ela mesma reivindica seu pai como o melhor presidente do Peru. E a menção ao governo de seu pai ocorreu apenas agora na campanha do segundo turno.


- Alberto Fujimori goza de uma série de privilégios no quartel policial onde está preso. O que seu governo faria diante desta situação?


Ninguém deve ter privilégios. Quando uma pessoa é condenada deve ir para a prisão e não para um quartel policial.


- Quais serão as prioridades de sua política internacional?


Vamos participar com entusiasmo da consolidação da unidade latino-americana. O fortalecimento da Unasul será uma prioridade de nossa política externa. Nós vemos com muito interesse a consolidação da Unasul. Vamos estreitar as relações políticas e econômicas e de integração com os países da região. Não vamos ideologizar as relações internacionais, mas sim vamos construir uma agenda positiva com todos os países irmãos.


- Você tem ressaltado suas concordâncias com o presidente Lula. O Brasil é um modelo a seguir por seu governo?


O do Brasil é um modelo exitoso, mas o Peru é diferente do Brasil. Temos economias distintas, realidades diferentes. Da experiência do Brasil, queremos resgatar uma condução prudente e adequada da política econômica, e um crescimento econômico que permita a inclusão social e a diminuição da desigualdade social.


- O acordo do Arco do Pacífico (acordo de cooperação econômica do Peru com o Chile, a Colômbia e o México) firmado pelo presidente García ainda não foi ratificado. Você pretende levá-lo adiante ou revisá-lo?


Os acordos firmados pelo Estado têm que passar pelo Congresso e aí precisam passar por um debate para serem ratificados. Este acordo terá que ser debatido no Congresso.


- Como você vê o governo de Cristina Kirchner?

É um governo democrático que vem resolvendo seus problemas, Nós queremos melhorar nossas relações com a Argentina, respeitando a política interna do governo argentino. Parte da boa vizinhança é não se meter nos assuntos internos de outros países.


- Por que você quer ser presidente?


Eu sou pai de família. Tenho três filhos, o menor de cinco meses, e me coloco na posição de milhões de peruanos que estão iniciando uma família e que querem que seus filhos tenham oportunidades por meio de uma educação de qualidade e de uma boa saúde, e que quando saiamos para a rua com nossas famílias não sejamos assaltados. E se nos roubarem queremos encontrar justiça. Não queremos um país corrupto. Quero ser presidente porque quero que o crescimento econômico se converta em qualidade de vida. Quero construir o futuro.

- Você pensava em ser presidente desde que era oficial do exército?

Não, eu queria ser comandante geral do exército. A circunstância que mudou minha vida foi o levante que fiz em Locumba contra a ditadura fujimorista. Foi um levante dentro de um processo de convulsão social no qual o povo peruano tinha se levantado contra a ditadura. Depois disso, inclusive quis recuperar minha carreira militar e estive no exército até o ano de 2004 como militar na ativa. Quando me passaram para a reserva decidi reorganizar minha vida e foi aí que ingressei na política.

Tradução: Katarina Peixoto