segunda-feira, 27 de agosto de 2018

JESSÉ SOUZA: PATRIMONIALISMO, A TEORIA QUE INVISIBILIZA O INIMIGO


Com o endeusamento dessa teoria, a real e efetiva privatização do Estado, aquela feita pelos interesses organizados do mercado sob a forma de cartéis e oligopólios, e sob a forma de atuação dos atravessadores financeiros, se torna completamente invisível conceitualmente.
Transcrição do livro A elite do atraso (o título e destaque acima são da edição deste blog)
A noção de patrimonialismo (demonização da política e do Estado – não do mercado -, em especial quando o Estado é governado por líderes populares) é falsa por duas razões: primeiro as elites que privatizam o público não estão apenas e nem principalmente no Estado, e o real assalto ao Estado é feito por agentes que estão fora dele, principalmente no mercado. A elite que efetivamente rapina o trabalho coletivo da sociedade está fora do Estado e se materializa na elite do dinheiro, ou seja, do mercado, que abarca a parte do leão do saque.
A elite estatal e política fica literalmente com as sobras, uma mera percentagem, mínima em termos quantitativos, dos negócios realizados. Cria-se aí a corrupção dos tolos, que vemos hoje no Brasil. A atenção se foca na propina, nos “3% dos Sérgio Cabral” da vida, e torna invisível o assalto ao trabalho coletivo como um todo em favor de meia dúzia de atravessadores financeiros. O principal efeito da noção de patrimonialismo é tornar esse dado, que é o mais importante, literalmente invisível; depois o patrimonialismo como privatização do bem público, suprema “viralatice”, é percebido como singularidade brasileira, como se o Estado apenas aqui fosse privatizado.
Na verdade, o Estado é privatizado em todo lugar, e a noção de patrimonialismo apenas esconde mais esse fato fundamental, possibilitando uma dupla invisibilização: dos interesses privados que realmente dominam o Estado; e do rebaixamento geral dos brasileiros, que passam a tratar não apenas os estrangeiros, mas os interesses estrangeiros, como superiores e produto de uma moralidade superior. A atual destruição da Petrobras – sob acusação de corrupção patrimonialista, como se as petroleiras estrangeiras que irão substituí-la também não o fossem e em grau seguramente muito maior – é um perfeito exemplo prático dos efeitos vira-latas dessa teoria.
O cidadão, devidamente imbecilizado pela repetição do veneno midiático, pensa consigo: “é melhor entregar a Petrobras aos estrangeiros do que ela ficar na mão de políticos corruptos”. Tudo como se a suprema corrupção não fosse entregar a uma meia dúzia a riqueza dos todos que poderia ser usada, como estava previsto o pré-sal, para alavancar a educação de dezenas de milhões.
De resto, a oposição entre o público e o privado assume a forma do senso comum que percebe apenas o Estado como uma configuração de interesses organizados. Assim se oporia ao Estado e representaria a esfera privada apenas os sujeitos privados, pensados como instância de uma intencionalidade individual. Sendo a esfera privada percebida como individual, o homem cordial de Sérgio Buarque (de Holanda), então o mercado capitalista e competitivo é tornado literalmente invisível na sua positividade e eficácia. A partir de Raymundo Faoro, inclusive, o mercado é percebido como o verdadeiro céu na terra, prenhe de virtudes democráticas que apenas o Estado não permite florescer.
Em resumo, a real e efetiva privatização do Estado, aquela feita pelos interesses organizados do mercado sob a forma de cartéis e oligopólios, e sob a forma de atuação dos atravessadores financeiros, se torna completamente invisível conceitualmente. Melhor legitimação dos piores interesses de uma elite do saque e da rapina do trabalho coletivo me parece impossível. No entanto, boa parte da esquerda – além de toda a direita obviamente – tem esses autores e suas ideias como interpretações intocáveis e irretocáveis para o Brasil de hoje.
De ‘A elite do atraso – Da escavidão à Lava Jato – Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão’, de autoria do sociólogo brasileiro Jessé Souza (páginas 136/137) – editora Casa da Palavra/LeYa.

O fragmento do livro a ser postado em seguida será sobre o populismo – “o desprezo secular e escravocrata pelas classes populares”.

Já foi postado aqui neste Blog Evidentemente:

JESSÉ SOUZA: O LIBERALISMO CONSERVADOR COLONIZOU TAMBÉM A ESQUERDA







terça-feira, 21 de agosto de 2018

IMPRESSIONANTE A SIMPATIA DO "POVÃO" POR LULA

Outro dia falei da impressão que me causou ver a simpatia, a identificação do chamado povão com Lula. Não vão pras ruas se manifestar por Lula, não se rebelam coletivamente contra o golpismo que tirou Dilma da presidência e botou Lula na prisão, o que não deixa de ser o grande trunfo da direita. Mas o diabo - para a direita - é que o povão gosta de Lula e certamente quer votar em Lula. Daí a perseguição ao líder popular, que se evidencia especialmente no noticiário da TV Globo e demais meios de comunicação hegemônicos. Se evidencia também, escancaradamente, nas "decisões" dos órgãos do Poder Judiciário.

Mas é impressionante! A maioria do povo, aquela parcela mais carente, mais excluída na desigual divisão das riquezas materiais, parece que não come reggae. A maioria simpatiza com Lula e quer votar em Lula. Parece até que, como defendem vários teóricos, o fato dele estar preso aumenta o grau de solidariedade, de identificação, de apoio. Afinal, o "povão" sempre foi considerado a parte podre pelos "donos" do mundo, pela imprensa, pela Justiça, pela polícia. Será!!!???

Essa coisa de ficar impressionado me bateu há uns dias atrás, quando acompanhei, na Estação da Lapa, aqui em Salvador, uma panfletagem feita por Lula Livre, Lula presidente, etc, etc, com a participação de pequeno número de militantes. O número de militantes era pequeno (uma dezena, mais ou menos), mas as milhares de pessoas que transitam pela Estação da Lapa, no final da tarde, representam muito. Só vi duas pessoas que se manifestaram contra Lula.

Esta mesma impressão repetiu-se no último sábado, por volta do meio-dia, quando uns 300/400 militantes promoveram um trompetaço, na mesma Lapa, em defesa de Lula e sua complicada candidatura. Uma belezura! Diga-se de passagem: complicada e até agora exitosa, vamos ver em que vai dar, vamos ver os torpedos que os golpistas ainda vão disparar contra a estratégia petista.

O jogo está sendo jogado, a cada dia novos lances. Acompanhamos não só através da Globo golpista e companhia, mas também, através, claro, da mídia contra-hegemônica - blogueiros progressistas e etc. E vamos pras ruas, a luta continua.

O trompetaço começou e terminou na Lapa (espaço em frente da entrada do metrô), com um passeio - sempre bem aplaudido - pelos espaços e corredores do Shopping Piedade. As fotos acima são do companheiro Rodrigo Yamashita. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A REVOLUÇÃO É FEMINISTA (Somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar)

Foram meses de grande mobilização das argentinas pela descriminalização do aborto, mas o projeto de lei, aprovado na Câmara dos Deputados, foi derrubado no Senado na última madrugada (Foto: Página/12)

Precisamos de soberania sobre nossos corpos e nossas vidas para não sermos cidadãs de segunda classe. Se não podemos decidir sobre nossos corpos, como disse Simone de Beauvoir, somos simplesmente escravas.

Por Marta Dillon – trechos traduzidos de artigo do jornal argentino Página/12, de 09/08/2018 (o complemento do título e o destaque acima são da edição deste blog)

(…) uma história que conserva a memória do genocídio das bruxas e que se rebela contra a morte gritando: somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar. Porque em algum momento (a las mujeres) nos queimaram por tomar decisões sobre nossos corpos, nos queimaram porque nos reuníamos entre nós mesmas, porque nossa capacidade reprodutiva necessitava ser apropriada para reproduzir somente força de trabalho. Não nos esqueçamos disso. É o mesmo poder que agora pressiona a mais rançosa –rançosa porque cheira mal – da liderança política para que decida  contra as mulheres. O mesmo poder que sempre esteve contra todas as liberdades. A Igreja Católica e as igrejas evangélicas pretendem falar por nós; usam seu poder de veto porque se sentem ameaçadas, porque não têm como sustentar a moral que proclamam quando sua instituição está corrompida pela pedofilia, pelos abusos contra as freiras, pela organização patriarcal onde as mulheres não têm nenhum poder. Pretendem nos arrebatar nossas vidas, nossos prazeres, nossos desejos; pretendem ocultar o que é uma evidência concreta: a maternidade tem que ser desejada e é por isso que abortamos. O fizemos por muitos anos com vergonha, com temor devido à criminalização, com medo de não saber se estávamos nas mãos de quem sabia o que fazia. O fizemos, abortamos na clandestinidade, porque isso é defender nossa liberdade. E a liberdade não se pede, se toma, se busca. Mas já não queremos mais por em risco nossa vida, não tem sentido, nossa insubmissão é essa: defender nossas vidas como cada vez que dizemos #NiUnaMenos. Basta de femicídios. Basta de femicídios de Estado, que isso e não outra coisa é cada mulher que morreu ou que morre agora mesmo por ter que recorrer a um aborto inseguro.

Que argumento puderam colocar os defensores dos antidireitos? Que argumento de peso se pode (pôde) escutar, nestes meses de debate, que tivesse a força suficiente para contradizer que nós precisamos de soberania sobre nossos corpos e nossas vidas para não sermos cidadãs de segunda classe? Se não podemos decidir sobre nossos corpos, como disse Simone de Beauvoir, somos simplesmente escravas.

(...)

Porque à clandestinidade não se volta, aborto se diz em voz alta, as maternidades serão desejadas ou não serão. E a revolução que estamos gestando, sem dúvida, é feminista.


Para ler o texto na íntegra, em espanhol:


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A VOTAÇÃO HOJE, NA ARGENTINA, PELA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO E SEU IMPACTO NA AMÉRICA LATINA

(Foto: jornal Página/12)

Por Lucía Cholakian Herrera e Carla Perelló, da redação do portal NODAL – Notícias da América Latina e Caribe, de 08/08/2018 (tradução de apenas dois parágrafos)
  
Hoje, 8 de agosto, está em debate no Senado argentino o projeto de lei de Interrupção Voluntária da Gravidez, que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 14 de junho último. A lei, que legalizaria o aborto no país, colocou na agenda uma discussão muito esperada: a dos direitos sexuais e reprodutivos não só na Argentina como também em muitos países da América Latina.
(…)

A reivindicação pelo aborto legal na América Latina não está ligada apenas ao pedido de garantia por parte do Estado de práticas de interrupção voluntária da gravidez seguras e salubres, mas também à descriminalização das gestantes e pessoas envolvidas. Além disso, a clandestinidade do aborto dificulta o acesso a cifras que mostrem o panorama da situação. O tabu é tal que em alguns países nem sequer existem estimativas sobre mulheres recebidas em hospitais por complicações nem os Estados tentam levar adiante uma política que visibilize esta prática. Enquanto isso, as mulheres abortam apesar das condenações contidas nas leis e apesar do risco da morte. Leis que, em muitos casos, tampouco são efetivas e só põem um manto de obscuridade sobre as decisões que tomam as mulheres e pessoas envolvidas no aborto.

(…)

Além da situação na Argentina, a matéria de Nodal, em espanhol, cujo link vai abaixo, fala da luta das mulheres no Brasil, Paraguai, Peru, México, Costa Rica, Equador, Honduras e Venezuela.

https://www.nodal.am/2018/08/la-votacion-en-argentina-por-el-aborto-legal-y-su-impacto-en-america-latina/

terça-feira, 7 de agosto de 2018

JESSÉ SOUZA: O LIBERALISMO CONSERVADOR COLONIZOU TAMBÉM A ESQUERDA


A demonização da política e do Estado (patrimonialismo) e a estigmatização das classes populares (populismo) constituem o alfa e o ômega do conservadorismo da sociedade brasileira cevado midiaticamente todos os dias.

Transcrito do livro A elite do atraso (o título e destaque acima são deste blog)

Todo o discurso elitista e conservador do liberalismo brasileiro está contido em duas noções que foram desenvolvidas na USP (Universidade de São Paulo) e que depois ganharam o Brasil: as ideias de patrimonialismo e de populismo. Ganhar o mundo não significa que os intelectuais e o campo científico passam a estudá-las seriamente e tê-las como referência em seus trabalhos. Embora isso também aconteça, não é nem de longe o aspecto mais significativo. Significativo é que a esfera pública passa a pensar o país a partir dessas categorias.

Isso não acontece, como aliás nada no mundo social, espontaneamente. Isso só ocorre porque a grande imprensa irá reverberar essas categorias em praticamente todas as análises e torná-las consagradas, ou seja, ideias evidentes para além de debate e discussão. É assim que se consegue transformar uma ideia em uma arma política letal: quando ela passa a ser aceita como evidência não refletida, inclusive, por quem não tem nada a ganhar com ela.

As principais pessoas ligadas ao surgimento dessas ideias já comprovam nossa tese de sua influência avassaladora: Sérgio Buarque (de Holanda) como criador da noção de patrimonialismo – continuada por Raymundo Faoro e vários outros – entre nós, e Francisco Weffort, um pouco mais tarde, como adaptador da ideia de populismo ao contexto brasileiro. Que essas ideias conservadoras passam a dominar tanto a direita como a esquerda do espectro político fica claro como a luz do Sol. É do livro clássico de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil, que o PSDB, o partido orgânico das elites paulistanas, hoje associado ao rentismo, retira todo o seu ideário e seu programa partidário. Ao mesmo tempo, a sala nobre da Fundação Perseu Abramo, do PT, tem também seu nome. Maior símbolo da colonização da esquerda pelo liberalismo conservador da elite conservadora parece-me impossível.

Francisco Weffort, que foi também um dos fundadores do PT – como o próprio Sérgio Buarque – e depois ministro da cultura de FHC, sistematizou entre nós a outra ideia-força do liberalismo conservador: a do populismo como categoria explicativa do comportamento das classes populares na política. Como a ideia de patrimonialismo e de corrupção apenas estatal, a ideia de populismo também é pensada, inicialmente, para estigmatizar o legado de Vargas. Por extensão ela será usada para estigmatizar qualquer presença das massas na política.

Efetivamente, adornado com o prestígio científico da noção de populismo, o desprezo secular e escravocrata pelas classes populares ganha uma autoridade inaudita e passa a ser usado com pose de quem sabe muito. Juntas, a demonização da política e do Estado e a estigmatização das classes populares constituem o alfa e o ômega do conservadorismo da sociedade brasileira cevado midiaticamente todos os dias desde então.

Além dessas similitudes entre seus criadores que navegam com o mesmo impulso na direita e na esquerda, as duas ideias possuem outra semelhança que salta aos olhos: ambas não valem um tostão furado sob o ponto de vista científico.

De ‘A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato – Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão’, de autoria do sociólogo brasileiro Jessé Souza (páginas 134/135/136) – editora Casa da Palavra/LeYa.

Depois farei mais duas postagens: uma sobre o patrimonialismo e outra sobre o populismo. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

VENEZUELA: FALHOU, MAS A TENTATIVA DE MATAR O PRESIDENTE FOI TELEVISIONADA

(Foto: EFE/Página/12)

Foi uma tentativa de assassinar o presidente Nicolás Maduro, como várias vezes foi denunciado que podia ocorrer, de acordo com planos descobertos.
A Venezuela é o alvo número um dos Estados Unidos no continente. Seu aliado subordinado principal é a Colômbia. A partir dali continuarão os preparativos de ataques num cenário onde nenhuma possibilidade pode ser descartada. Todos vimos na tela da televisão.
Magnicidio televisado: la operación que no lograron
Por Marco Teruggi (*) – Transcrito do jornal argentino Página/12, de 05/08/2018 (o título e destaque acima são deste blog)
Quisieron asesinar a Nicolás Maduro. La operación fue realizada durante un desfile por el 81 aniversario de la Guardia Nacional Bolivariana en el centro de Caracas. El presidente daba un discurso cuando dos drones cargado con material explosivo -habría sido C4- fueron interceptados. El estallido activó el mecanismo de seguridad presidencial y provocó un momento de dispersión del desfile. La transmisión televisiva fue cortada. Siete Guardias resultaron heridos.
La confirmación de lo sucedido vino por parte del ministro de comunicación y del mismo presidente. Explicó en cadena nacional los hechos, elevó la autoría intelectual del intento de asesinato a nivel internacional, señaló a Juan Manuel Santos como responsable. Colombia, la principal base de acción de los Estados Unidos (EEUU) en el continente, nuevamente en el centro del escenario.
La acción fue reivindicada por sus supuestos autores. Un comunicado fue leído desde Miami por la opositora Patricia Poleo, defensora de la tesis de que solo se podrá terminar con el chavismo mediante la violencia armada. La acción llevaría por nombre Operación Fénix, dirigida por oficiales, suboficiales, soldados activos y en reserva de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana (Fanb) Desde otra cuenta de Twitter, @soldadosdfranela, también hubo una adjudicación del hecho, bajo una acción que habría sido civil y militar.
Fue un intento de magnicidio, como varias veces se había denunciado que podría darse, según planes descubiertos.
***
El hecho resultó sorpresivo, a la vez que era una posibilidad dentro de las lógicas/formas del conflicto en Venezuela. El repertorio de acción de quienes buscan terminar con el chavismo abarca todos los métodos: ataque/bloqueo sobre la economía, aislamiento y criminalización diplomática, cerco mediático, elecciones, golpe de Estado desde sectores de la Fanb, insurrección con despliegue paramilitar combinado con un quiebre militar, preparación de un escenario de intervención internacional conjunta.
La posibilidad electoral quedó descartada luego de la última victoria presidencial de Maduro, las hipótesis apuntaban y apuntan hacia intentos de fuerza por las tres vías: Fanb, grupos irregulares, internacional, una combinación de las formas.
Un repaso de los últimos meses indica que se habían desactivado intentos al interior de la Fanb, así como de grupos armados compuestos de civiles y desertores. En el primer caso un hecho notorio fue la desarticulación del Movimiento de la Transición al Pueblo en marzo de este año, que tenía epicentro en batallones claves de la Fanb, como el Batallón Ayala, en pleno Caracas. Otro fue la acción dada a conocer a posteriori por el portal Bloomberg, la Operación Constitución, que, afirmaron, debió haberse realizado antes de las elecciones presidenciales para impedir los comicios y secuestrar al presidente.
Un recorrido por los últimos tres años muestra cómo de manera periódica son desarticuladas tramas golpistas desde dentro de la Fanb, siempre con una conexión internacional, una triangulación principal EEUU-Colombia-Venezuela. 
En el segundo caso, grupos armados desarrollados por fuera de las Fanb, el hecho más notorio fue el de Oscar Pérez, quien había aparecido en julio del 2017 con un ataque con granadas desde un helicóptero sobre el Ministerio de Interior y Justicia, y el Tribunal Supremo de Justicia. Él, junto al grupo que lideraba, cayeron a principios de este año: estaban en su escondite con armas robadas en varias acciones militares -la última a finales del 2017- y dispararon contra los cuerpos de seguridad del Estado que fueron a detenerlos. Fue presentado como héroe y mártir por la prensa internacional.
Oscar Pérez murió, no así el intento de construcción de un brazo armado que tiene múltiples conexiones, en particular con el paramilitarismo infiltrado durante años que, entre abril y julio del año pasado, entró en acción y asaltó cuarteles militares, comisarías, pueblos enteros durante días.
El intento de magnicidio podría ser una combinación de ambas variables: desde dentro de la Fanb, así como con despliegue de los grupos entrenados y financiados para acciones de este tipo. Ya han comenzado a darse arrestos.
***
El hecho se dio en una etapa donde la derecha venezolana atraviesa una de sus más profundas crisis. Incapaz de volver a ponerse de pie luego de la derrota política que le implicó la Asamblea Nacional Constituyente hace un año y pocos días, ha perdido elección tras elección, y ahondado su falta de credibilidad dentro de su misma base social. Líderes sin liderazgo, unidades rotas, incapacidad de retomar las calles, de acertar en la estrategia.
Una acción de este tipo podría pensarse como desencadenante de otras en caso de lograr el objetivo, una oleada de voluntad ahí donde ha sido quebrada, una activación de asaltos ante el “vacío de poder” hasta acceder al Palacio de Miraflores. La derecha necesita un episodio que vuelque el curso de los acontecimientos que, de seguir así, anuncian la permanencia del chavismo en el gobierno por el tiempo que dure el mandato electoral. La hipótesis del estallido popular debido a la presión de las variables económicas es una posibilidad lejana, puede no llegar nunca. No pueden descansar en esa variable.
El intento de magnicidio no logró su objetivo. Fortaleció allí donde existían dudas: se había nombrado varias veces el intento de una acción de este tipo. Esta vez el lobo llegó.
Resulta clave comprender la lógica del conflicto para anticiparse a lo que pueda suceder. ¿Cuántas acciones similares a esta logró desactivarse antes de que se accionaran? El chavismo se enfrenta a una estrategia que combina todas las formas posibles de ataques, las que en otros países del continente aparecen solo en una o dos de sus dimensiones. En Venezuela golpean por asaltos, de forma conjunta, separada, por etapas, por todos los ángulos. Los drones sobre el presidente fueron una más, una alerta con alta carga simbólica.
Venezuela es el blanco número uno de los Estados Unidos en el continente. Su aliado subordinado principal es Colombia. Desde allí seguirán las preparaciones de ataques en un escenario donde ninguna posibilidad puede ser descartada. Todos lo vimos en pantalla.
(*) Sociólogo argentino radicado en Venezuela

sábado, 4 de agosto de 2018

JESSÉ SOUZA: TELEJORNAIS E DEBATES DA TV BRASILEIRA SÃO FRAUDE


Não tivemos no Brasil a experiência europeia da televisão pública. Aqui, o interesse unicamente comercial de grandes conglomerados na área da comunicação foi a regra.
A ausência de pluralidade de informações e opiniões na grande imprensa gera seres humanos facilmente influenciáveis e manipuláveis e incapazes de pensar por si mesmos.
Transcrito do livro A elite do atraso (o título e destaque acima são deste blog)
A televisão europeia e, em pequena parte, até a norte-americana, é marcada pelo advento da televisão pública.
A televisão pública não se confunde com televisão estatal, embora a maioria das televisões públicas europeias tenha surgido como televisões estatais. Considerações como as que preocupavam Habermas (Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão), como a independência do conteúdo televisivo de interesses políticos e econômicos de ocasião, foram fundamentais para que as televisões estatais pudessem se transformar em televisões pública. Essa passagem se deu em praticamente todos os países de democracia mais sólida como França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal. O fortalecimento da democracia e da cidadania, no pós-guerra, impôs o controle público, a participação da sociedade na gestão das emissoras e a criação de conselhos de representantes de partidos, associações e igrejas diversas.
As televisões públicas quase sempre possuem estrutura semelhante a grêmios ou conselhos, que controlam a empresa e o conteúdo de sua programação. Esses conselhos, e isso é essencial para seu caráter público, independentemente do Estado e do mercado, refletem uma pluralidade social onde todo tipo de interesse significativo, patronal e dos trabalhadores é representado. Esses interesses são defendidos por múltiplos sindicatos, partidos, representantes religiosos, representados na direção da televisão pública. Essa é a origem de televisões públicas como a BBC inglesa, a TVE espanhola, a France Televisón, a RAI italiana, a RTP de Portugal, a ARD e a ZDF, alemãs, entre outras. Os EUA e o Candá também têm TVs públicas, a PPS e a CSA, respectivamente.
Esse, infelizmente, não foi o desenvolvimento da imprensa e da televisão no Brasil moderno. Aqui, o interesse unicamente comercial de grandes conglomerados na área da comunicação foi a regra. Todo o poder de fogo, de pressão e de ameaça e chantagem do poder político foi utilizado para destruir no nascedouro, por exemplo, uma televisão pública entre nós. Presa unicamente do interesse comercial, sem a concorrência de televisões públicas como no contexto europeu, esse tipo de imprensa, em vez de ser instância de mediação da esfera pública, assegurando a circulação dos argumentos em disputa, pode (pôde) então transformar-se em arregimentadora e instrumento de interesses privados que são expostos como se fossem públicos. A Rede Globo vicejou nesse contexto.
Desse modo, o círculo discursivo se quebra no seu primeiro e principal elo da transmissão pública dos argumentos. O público de pessoas privadas perde a possibilidade de construir uma opinião autônoma e independente a partir da pluralidade dos argumentos em debate. Os telejornais e programas de debate da TV Globo e outros canais com pessoas que refletem a mesma opinião criam uma fraude evidente. A semelhança de opiniões visa criar, em um público sem padrão de comparação, um arremedo de debate. Abre-se caminho para todo tipo de manipulação midiática como a que ocorreu recentemente entre nós.
A colonização da esfera pública pelo dinheiro evita aquele tipo de racionalidade que permite a união entre verdade e justiça. Só a pluralidade de informações e de opiniões assegura aproximações sucessivas à verdade. E apenas esse esforço de aproximações sucessivas para restaurar a verdade factual permite escolha autônoma, ou seja, moralidade refletida como um atributo dos sujeitos envolvidos nessa forma de aprendizado coletivo. A ausência de pluralidade de informações e opiniões na grande imprensa gera seres humanos facilmente influenciáveis e manipuláveis e incapazes de pensar por si mesmos. É o que temos hoje entre nós.
(...) Como nos programas de debate da TV Globo, tudo funciona como se houvesse debate, ou seja, opiniões divergentes em disputa, quando, na verdade, temos a ver uma farsa, um teatro, precisamente como na esfera pública feudal. A elite do atraso construiu a esfera midiática adequada a seus fins.
De ‘A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato – Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão’, de autoria do sociólogo brasileiro Jessé Souza (páginas 126/127/128) – editora Casa da Palavra/LeYa. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

URUGUAY: PEPE MUJICA RENUNCIARÁ AL SENADO PARA DEDICARSE A “LA BATALLA DE IDEAS”


“Hasta siempre”: Mujica renunciará al Senado el próximo 14 de agosto, para dedicarse a “la batalla de ideas”
Matéria transcrita do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 03/08/2018
El ex presidente, y senador del MPP (Movimento de Participação Popular, partido integrante da Frente Ampla uruguaia), José Mujica anunció que dejará el Senado el próximo 14 de agosto, en diálogo con Telenoche, durante el cual explicó que viajará a Argentina, España, Italia y Francia en las próximas semanas, y optó por renunciar a su banca en la Cámara Alta.
“En lugar de pedir licencia, decidí retirarme, porque siento que no voy a tener energía para atender el Parlamento y esos requerimientos que tengo y no puedo eludir. No significa un abandono de la actividad política. Tampoco significa salir a pelear por mi candidatura, pero sí participar en la batalla de ideas”, explicó, según consigna Montevideo Portal.
Su renuncia será presentada el 14 de agosto, dado que el 21 de este mes partirá de viaje.
Sobre su futuro político, señaló que, pese a haber declinado ser precandidato a la Presidencia, “es posible que vaya en alguna lista. Siempre dije que, por la edad que tengo, me voy acercando al tiempo de la nostalgia, y como tal, me gustaría retirarme en la Cámara de Diputados”.
Consultado sobre sus preferencias para la candidatura del Frente Amplio a las elecciones de 2019, Mujica dijo que el pasado miércoles se reunió con el ministro de Trabajo Ernesto Murro, que cuenta con su aval para presentarse. Señaló que las trabas constitucionales las dirimirá “la Academia”, pero apuntó que, “el Frente, en el futuro, tiene el problema con los cambios generacionales, que cada vez participan mucho más, inciden más, generaciones que no vivieron el costoso problema de la unidad de la izquierda, que costó mucho. Y como el hombre es un animal que tropieza varias veces con la misma piedra, me gustaría encontrar candidatos independientes, para no sectorizar tanto el Frente”.
Para ler mais sobre Mujica: