terça-feira, 24 de setembro de 2019

NOVA ETAPA DO CAPITALISMO DEIXA ESQUERDA SEM RUMO: “O NORTE DA CONSTRUÇÃO DUM NOVO MODELO DEVE SER A LUTA CONTRA A DESIGUALDADE” (parte 4/final)

Sérgio Gabrielli: "Quando estávamos encontrando as respostas, as perguntas mudaram" (Foto: Smitson Oliveira)

A burguesia brasileira não tem projeto. É preciso identificar o que unifica mais gente contra o poder. Não adianta uma frente só de esquerda. O PT tomará um rumo de completa parlamentarização ou caminhará para liderar uma frente da sociedade?

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

Concluímos com esta matéria a cobertura da palestra/debate com o professor de Economia José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, evento ocorrido em Salvador no dia 27 de julho último e já objeto de várias matérias deste blog. O contexto continua: o declínio do desenvolvimento baseado na indústria e a hegemonia do capitalismo financeiro. Diante das mudanças estruturais no mundo empresarial e no mundo do trabalho, as forças democráticas e populares buscam definir tática e estratégia para enfrentar o governo de extrema direita presidido por Jair Bolsonaro.
GABRIELLI COM A PALAVRA:
“Precisamos encontrar o que unifica mais gente contra o poder. Não adianta ter uma frente somente de esquerda”

“Precisamos pensar em formas de luta e vitórias, porque se não tivermos vitórias, na próxima luta vamos ter menos gente do que nas lutas atuais. Temos que acumular vitórias e, para isso, precisamos encontrar aquilo que unifica mais gente contra o poder. Como o poder de direita ampliou sua base, nós estamos isolados. Temos que disputar esse meio (forças que não apoiam a extrema direita), porque não adianta ter uma frente somente de esquerda para enfrentar o governo Bolsonaro.

Uma frente só de esquerda terá no Parlamento uns 100 deputados dentre 513 (se tiver, aí incluindo PDT, PSB, PCdoB, PSOL, além do PT). E na sociedade vai ter os 20%/30% que nos acompanham. É insuficiente para enfrentar Bolsonaro.

Uma frente com a burguesia brasileira? Não, porque eu acho que, estruturalmente, a burguesia brasileira não tem projeto, ela não vai entrar numa frente contra Bolsonaro. Pelo contrário, ela está na esperança vã de que o governo Bolsonaro vai criar condições para que os melhores se salvem (acho que não vai acontecer isso, mas é essa a esperança que a direita tem hoje).

Então, onde podemos ampliar? Nos segmentos médios: profissionais liberais, pequenos comerciantes, dentro das questões regionais entre os que têm esperança de expansão do mercado interno – isso é fundamental”.

Não há alternativa hoje de centro-esquerda sem o PT. Ou ele tomará um rumo de completa parlamentarização ou caminhará para liderar uma frente da sociedade

“Nesse processo, qual o papel dos partidos? Infelizmente, para quem não gosta, está crítico – ou felizmente, para quem está a favor -, não há como ter alternativa hoje de centro-esquerda, sem o PT, não há como. O PT tem 2 milhões de filiados, é o único partido que tem de fato estrutura nacional, vai ter agora eleições (internas, o PED – Processo de Eleições Diretas) em 3 mil municípios (de 5 mil e 500), vai ter agora renovação de diretórios. (Tal processo já foi iniciado).

Queiramos ou não, o PT é o único instrumento – é uma enxada enferrujada, cheia de dentes? mas é a única enxada que nós temos e essa enxada está num processo ainda autofágico (o outro palestrante do dia, o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, também petista histórico como Gabrielli, tinha feito uma metáfora comparando o PT com uma enxada que está precisando ser afiada).

Mas vai sair daí (do processo de renovação dos dirigentes) alguma coisa positiva. Acho que até o final do ano vai começar a definir um rumo para o partido: ou ele vai tomar um rumo de completa parlamentarização ou caminhará para ser um partido que vai liderar uma frente da sociedade disposta a enfrentar as pretensões de Bolsonaro”.

O centro de nossa ação deve ser a luta contra a desigualdade, pela redução da pobreza e pela melhoria das condições de vida do povo

“Eu tenho seguido a lógica do (Antonio) Gramsci (pensador comunista italiano – 1891-1937): precisamos ser pessimistas na razão, mas temos que ser otimistas na prática, otimistas na ação. Para sermos otimistas na ação, temos que fortalecer a estrutura partidária, tentar avançar no diagnóstico da situação e na identificação de quais são os temas e as formas que podem mobilizar o máximo possível o nosso povo.

Sou uma pessoa socialista, não sou cristão e sou marxista. Não acredito que o socialismo esteja em nosso horizonte, não está no horizonte romper com a propriedade privada no Brasil, não temos a mínima acumulação de forças para isso.

Assim, temos que manter como o centro de nossas atividades a luta contra a desigualdade, pela redução da pobreza e pela melhoria das condições de vida do nosso povo. Esse é o norte da construção dum novo modelo. Esse norte implica um papel essencial para o Estado, este Estado que está sendo destruído, desmontado pelo Bolsonaro.

Não temos que fazer uma defesa intransigente do que é o atual Estado, mas fazer uma defesa intransigente das concepções de um Estado que seja capaz de colocar a distribuição da renda como a razão fundamental do seu ser, do seu significado, de sua função”. 

PS 1: A análise que Gabrielli nos apresentou em Salvador estará presente nos debates dos quais está participando no âmbito do PT e outros partidos e movimentos sociais, a nível nacional, durante este semestre, em busca de resoluções políticas das forças progressistas.


PS 2: Gabrielli fará palestra em Seabra, na Chapada Diamantina (interior da Bahia), no próximo dia 17 de outubro. Este blog vai se encarregar da cobertura jornalística. Aguardem detalhes.

Mais intervenções durante a fase de debates e outras fotos (clicadas por Smitson Oliveira, de Seabra/Chapada):
Pedro Barbosa, combativo militante da esquerda nos chamados “anos de chumbo”, integrou a diretoria do Sindicato dos Bancários pós pelegos da ditadura (1981-1984). Ele lembrou a contribuição de Olívio Dutra na luta dos bancários baianos, exaltou o papel da utopia e o trabalho desenvolvido por Maria Lúcia Fattorelli, através da Auditoria Cidadã da Dívida. Condenou a cultura da violência, criticando neste particular a ação de governos estaduais, inclusive os do PT, como é o caso da Bahia. E defendeu a importância da defesa da Amazônia, conclamando a esquerda a se incorporar à luta ecológica.
Tonga aproveitou o momento para homenagear o reitor da UFBA, João Carlos Salles, que foi reconduzido ao cargo e é o novo presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Germino falou sobre o domínio da burguesia nos órgãos de imprensa e nos meios de produção. Fez uma proposta no sentido de se criar uma emissora de TV, um meio de comunicação de massa com capacidade de enfrentar os monopólios da mídia, dominados pela direita. Sua ideia é que a empresa seria financiada pelas pessoas interessadas em defender os setores populares e democráticos, tornando-se assim acionistas. 
Daniel, arquiteto, abordou (como fez Pedro Barbosa) a importância do trabalho de Maria Lúcia Fattorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida. E destacou como fundamental para as lutas sociais a participação popular, através de conselhos independentes.
Neri Clademir: como gaúcho (mora na Bahia há muitos anos), elogiou a atuação de Olívio Dutra como dirigente sindical dos bancários no Rio Grande do Sul. Lembrou a militância "dessas cabeças brancas" na luta histórica contra a ditadura, condenando o que chamou "pacto de esquecimento" dos crimes cometidos durante o período pós golpe de 1964. Falou ainda dos estragos feitos pelas chamadas fake news no processo político atual e exaltou os postulados do internacionalismo.
Cristiano levantou a questão da formação de frentes políticas para enfrentar o governo Bolsonaro e criticou a política de conciliação de governadores do Nordeste, a exemplo de Rui Costa na Bahia, cujos parlamentares da chamada base aliada votaram a favor da Reforma da Previdência.
Moisés Bebé (de camisa azul, velho militante de esquerda, fez parte da diretoria do Sindicato dos Bancários pós pelegos da ditadura - 1981-1984) na plateia com Neri Clademir (no meio) e Iuri Ramos (camisa branca).
Participantes e organizadores do evento, com os dois palestrantes (Olívio e Gabrielli), manifestam-se pela bandeira Lula Livre.
Os organizadores (Goiano/José Donizette, Valdimiro Lustosa Soares e Osvaldo Laranjeira) preparam pose para foto com os palestrantes. 
O êxito do evento ficou patente na superlotação (em torno de 250 pessoas) do auditório do Sindae (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente da Bahia).



segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O QUE IMPORTA, DAQUI A 40 ANOS, A GLOBO PEDIR DESCULPA PELA FARSA DA LAVA JATO?

Ilustração reproduzida da Internet

Comentário sobre decisão judicial que, 16 ANOS DEPOIS, obrigou o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, a publicar uma página desdizendo ofensas e calúnias assacadas contra o então governador gaúcho Olívio Dutra, conforme postagem na página do Facebook de Valdimiro Lustosa Soares. Link: http://blogdejadson.blogspot.com/2019/09/apos-16-anos-decisao-judicial-determina.html
Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente
Companheiro Lustosa, a decisão judicial mostra o que nós – os que, de alguma maneira, conhecem verdadeiramente nosso companheiro de luta Olívio Dutra – sabemos: é um cara sério, de valor, sob todos os aspectos.
Vou postar no meu Blog Evidentemente, pelo prazer de compartilhar do justo reconhecimento, conforme você expressou no seu comentário.
Mas quero aproveitar para denunciar o engodo que há nessa coisa de esperar, por exemplo, 16 anos, para desmascarar uma calúnia, uma acusação (tornada “verdadeira” de imediato pela imprensa hegemônica), contra um político como Olívio, na época da acusação governador petista do Rio Grande do Sul.
Veja bem a sacanagem, urdida para incidir na conjuntura política de então, início dos anos 2000, quando Olívio estava no seu mandato de governador. Olívio vivia massacrado pela mídia hegemônica (TV, rádio, jornais – o Zero Hora à frente). Esta aí foi mais uma denúncia, acusação, calúnia, etc. 
Estava tão desgastado – perante a opinião pública e/ou publicada e alcançando, claro, os eleitores – que não conseguiu nem ser indicado pelo seu próprio partido (o PT) para se candidatar à reeleição. Se não me engano – não estou muito seguro dos detalhes históricos -, o candidato do PT foi Tarso Genro (que era prefeito da capital), que não foi eleito.
O essencial do que quero argumentar é que a acusação, a calúnia, incidiu na conjuntura política da época. Fez a sua parcela de estrago na honra e na imagem pública de Olívio.
Enquanto esta decisão de agora, 16 anos depois, não tem mais qualquer poder de influência na conjuntura. Politicamente, na prática, não vale mais nada, não teve qualquer efeito. A conjuntura hoje é outra, o que está em discussão são outros temas, os protagonistas são outros.
Atrevo-me mesmo a conjecturar que a Justiça – que não merece este J maiúsculo – não chegaria a tal decisão se o tempo não a tornasse irrelevante. Trata-se, em suma, de um jogo cruel, desumano, injusto, sempre ganho pelos que verdadeiramente manejam o poder de fato.
Claro que tem a coisa da verdade histórica, mas – insisto – é irrelevante na prática da luta política. Quando ela, a tal da verdade, vem à tona, ninguém sabe nem quer saber o que estava em jogo na época. Avançando um pouco mais: sem termos uma mídia contra-hegemônica poderosa, estaremos sempre à mercê desse jogo sujo.
O mesmo raciocínio você pode desenvolver em outros casos notórios:
O que adianta, na prática, a Rede Globo pedir desculpas, 40 ANOS DEPOIS, por seu apoio à ditadura militar? Qual a influência desta atitude na conjuntura atual? A conjuntura é outra, os protagonistas – a não ser a própria Globo - são outros. O que importa daqui a 40 anos a Globo pedir desculpas por ter sido peça fundamental na farsa da Lava Jato?
O que adianta, na prática, o pessoal do império estadunidense (Departamento de Justiça?) “desclassificar” (é isso que sai publicado) documentos de 40 ANOS ATRÁS (ou 50?) revelando verdades escondidas todo esse tempo? Ou sabidas por um punhado de gente?
Por exemplo: há pouco tempo “desclassificaram” documentos com a declaração do ex-ditador brasileiro Geisel dizendo que “essa coisa de matar (os opositores) é uma barbaridade, mas tem de ser assim mesmo” (desculpem as aspas, não deve estar literal, mas o sentido foi isso mesmo).
E aí? Qual a influência disso na conjuntura política atual? Os temas agora são outros, os protagonistas mudaram, o próprio Geisel já se foi há muito, até a Globo já pediu desculpas pelo apoio à ditadura. Qual o meio de comunicação do Brasil vai jogar essa declaração na cara do presidente Bolsonaro quando ele defende a ditadura militar? Aliás, a conjuntura mudou tanto que hoje uma parcela de uns 10% da população – o núcleo duro do bolsonarismo – assume que o correto é matar mesmo.

Valdimiro Lustosa Soares (comentário no Facebook):

Jadson Oliveira companheiro, vc foi no cerne da questão. Uma justiça com “j”, minúsculo mesmo, que toma decisão desse jaez não se pode considerar como justiça. O estrago já fora feito. Ou seja, a Inês já está morta. É claro que, de propósito, a decisão é tomada tardiamente, não produz nenhum efeito prático-politico. É o país em que estamos vivendo, infelizmente! As decisões são sempre assim: inócuas. Não mais interessa, a não ser como efeito histórico. Uma lástima!

APÓS 16 ANOS, DECISÃO JUDICIAL DETERMINA NOTA EM REPARAÇÃO À HONRA DE OLÍVIO DUTRA

Olívio Dutra (Foto: Smitson Oliveira, de 27/07/2019, quando Olívio participou de palestra/debate em Salvador)

Do site Sul21, de 20/11/2018 – (matéria divulgada no último dia 11 na página do Facebook de Valdimiro Lustosa Soares)
O jornal Zero Hora publicou, nesta terça-feira (20), uma página inteira em reparação à honra do ex-governador Olívio Dutra (PT), por um texto de 16 anos atrás, que constava na sessão ‘Apedido’, escrito pelo advogado Paulo de Couto Silva. Na publicação, o advogado acusava Olívio de “conivência e interesse com a prática do jogo do bicho”, além de chamá-lo de “um dos maiores mentirosos que já passaram pelo Estado do Rio Grande do Sul”.
A reparação ocupou toda a página 13 do jornal e trouxe algumas partes relevantes da decisão judicial, tomada pela 8ª Vara Cível do Foro de Porto Alegre, que apontaram que houve ofensa e calúnia no texto escrito por Couto. O advogado ainda se manifestou de forma semelhante em um programa do Canal 20, na mesma época. “Não há como negar que ambas as ocorrências causaram dano na esfera moral do autor, maculando-lhe a imagem de cidadão, quanto mais de homem público”, diz a decisão.
Em 2004, o advogado já havia sido condenado a pagar uma indenização de 80 salários mínimos a Olívio devido às ofensas. Couto, à época, também entrou com um pedido de impeachment de Olívio, então governador, na Assembleia Legislativa, alegando o não cumprimento de acordos feitos no governo anterior para a implantação da Ford no Rio Grande do Sul. Ele chegou ainda a lançar um livro intitulado “O Impeachment de Olívio Dutra e o Estado Democrático de Direito”.
Comentários feitos no Facebook:
Valdimiro Lustosa Soares Um homem simples de caráter, de conduta ilibada. Conheço Olívio desde os anos 70 do Século Passado e tenho orgulho de privar da sua amizade.
Há pouco mais de um mês, a nosso convite, esteve aqui em Salvador onde palestrou no SINDAE, nos Barris, para cerca de 250 pessoas e foi aplaudido de pé.
A verdade pode demorar muito tempo, mas vem à tona. Olívio é um homem digno. Militou no movimento sindical, foi prefeito de Porto Alegre, foi Governador do Estado e Ministro de Estado no governo Lula, outro injustiçado.
Um abraço, companheiro Olívio.
“Veritatis simplex oration”!
Sândalo Nogueira de Souza: “Cara sério!”
PS 1: Um comentário feito por Jadson Oliveira, editor deste blog, será postado aqui no blog logo em seguida, junto com outro comentário de Valdimiro Lustosa Soares.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

NOVA ETAPA DO CAPITALISMO DEIXA ESQUERDA SEM RUMO: POR QUE TEMOS DIFICULDADE DE MOBILIZAÇÃO? (parte 3)

Sérgio Gabrielli: “Quando estávamos encontrando as respostas, as perguntas mudaram” (Fotos: Smitson Oliveira)

O mundo empresarial mudou e o mundo do trabalho também. Como ficam então os partidos e sindicatos? Perdemos base na sociedade. A utopia não mobiliza. A direita nos encurralou e só agora estamos saindo das cordas.
Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente
Ampliamos aqui a cobertura da palestra/debate com o professor de Economia José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, evento ocorrido em Salvador no dia 27 de julho último e já objeto de várias matérias deste blog. O assunto continua: o declínio do desenvolvimento baseado na indústria e a hegemonia do capitalismo financeiro, também chamado capitalismo improdutivo. Diante da nova realidade estrutural, as forças democráticas e populares buscam definir tática e estratégia para enfrentar o governo de extrema direita presidido por Jair Bolsonaro.
GABRIELLI COM A PALAVRA:
“A Petrobras está sendo desmontada”

“A Petrobras era o centro duma política industrial, ia construir um núcleo de conteúdo nacional utilizando o pré-sal brasileiro, ia construir uma indústria nacional forte, 1 milhão de postos de trabalho associados aos investimentos da Petrobras, iria gerar recursos para financiar a educação.

Então, o que resta deste modelo? Nada. A Petrobras está encolhendo, sendo desmontada. As empresas de conteúdo nacional estão quebradas e o fundo social com recursos que seriam usados para a educação está se desmontando”.

O conceito de categoria de trabalhadores mudou. Como ficam os sindicatos? Por que temos dificuldade de mobilização?

Ao falar da redução da atividade industrial e do número de operários no ABC paulista (assunto já tratado em matérias anteriores), Gabrielli registra que “entre os metalúrgicos do ABC paulista, a direita ganhou as eleições” e continua:

“Se nós imaginarmos que a maioria dos trabalhadores não será de uma categoria única, a não ser, talvez, o que resta da categoria dos funcionários públicos, porque a maioria vai mudar de categoria, vai haver uma rotatividade alta.

Então, o conceito de categoria, que é a base do movimento sindical, se altera. Como é que vamos pensar na mesma forma de organização sindical que tínhamos antes se a base real da categoria dos trabalhadores é outra?
Auditório do Sindae lotado: os dois palestrantes do dia, Gabrielli e Olívio Dutra, na frente no canto à esquerda
Alan, um dos que participaram do debate, levantou as questões da geopolítica e do avanço do imperialismo, lembrando o papel dos EUA na atuação da Operação Lava Jato
Bira (Ubiratan Félix), do Sindicato dos Engenheiros, destacou a destruição do setor de engenharia pelas forças hoje dominantes no Brasil, denunciando o desrespeito à legalidade democrática
Tião falou de suas preocupações com as próximas eleições, alertando para a necessidade do trabalho corpo a corpo em prol da educação política da militância; denunciou o conluio da Justiça, banqueiros, grande mídia, militares e evangélicos contra os interesses populares. Para ele, o povo tem que tirar Lula da cadeia na tora
Marli Carrara, do movimento pela moradia popular, defendeu o trabalho de base nos locais de trabalho, nos espaços de convivência; fez críticas ao governo da Bahia, lembrando que o governador Rui Costa nunca recebeu representantes do movimento; apoiou a união dos governadores do Nordeste, elogiou a disposição de Olívio Dutra por fazer uma conferência nacional na condição de ministro das Cidades e disse ser fundamental hoje duas bandeiras: a da defesa do meio ambiente e Lula Livre

Se imaginarmos a realidade do trabalho em casa, do trabalho virtual, da uberização das relações de trabalho, nós vamos entender que há muitas perguntas novas que devemos responder.

Não acho que é apenas porque estamos longe do trabalho de base, do trabalho cotidiano, que nós estamos com dificuldade de mobilização. É também porque não temos propostas para essa nova forma de trabalho, é também porque não temos proposta de como organizar a sociedade diante dessas novas características”.

Qual o papel dos partidos? Experiências de frentes envolvem movimentos e partidos

Depois de destacar o declínio da indústria e a hegemonia do capitalismo financeiro – a explosão dos fundos de investimento, com patrimônio que chega a 4,2 trilhões de reais, operando 19 trilhões de reais por ano (3 vezes o PIB brasileiro) -, assunto também tratado em matérias anteriores, Gabrielli observa: “Temos aí um conjunto de questões do capital que afeta o trabalho e muda a relação do capital com o trabalho”. E continua:

“Nesse quadro, qual é o papel dos partidos? Infelizmente não encontramos ainda substituto à altura dos partidos. É verdade que muitos dos movimentos sociais do mundo caminham para serem movimentos de frentes. Recentemente temos aí um grande movimento crescente de frentes, frentes que articulam movimentos e enfrentam o poder dominante. (Citou o Podemos, na Espanha, o movimento de esquerda na Irlanda, o Syriza, na Grécia, a Geringonça, em Portugal). São experiências que estão avançando, que estão além dos partidos, envolvem movimentos e partidos”.

A direita conseguiu mobilizar gente e nos encurralou. Estamos saindo das cordas agora

“Qual é a situação hoje no Brasil? Há a questão de Frente Popular Democrática ou Frente Ampla. A questão é que tivemos uma derrota estratégica na eleição e esta derrota não foi só na eleição, foi uma derrota estratégica que nos isolou da sociedade.

Não que não éramos fortes, porque continuamos fortes no movimento sindical, fortes no movimento das mulheres, no movimento estudantil – digo nós como a esquerda em geral. Estamos fortes no movimento organizado, mas perdemos base na sociedade. E a direita botou a cara na sociedade, a direita se afirmou, passou a ter coragem de se afirmar, conseguiu ter base de massa, conseguiu mobilizar gente e nos encurralou.

E nós estamos saindo das cordas agora. Estamos num processo de reconstrução, não com relação ao movimento social clássico. As perguntas têm que ser outras e as respostas têm que ser outras, frente aos novos movimentos da sociedade”.

“Hoje nós temos uma outra juventude”

“As nossas juventudes de hoje não são iguais às do nosso tempo, a situação de hoje é diferente do que foi o movimento estudantil há 60 anos atrás. A situação etária do país era outra, hoje nós temos uma outra juventude. E não só isso, também a relação entre a juventude e os mais velhos mudou. A proporção entre quem tem menos de 15 anos e quem tem mais de 60 mudou no país. Temos hoje uma população mais idosa, temos hoje uma população jovem menos homogênea, muito mais heterogênea do que era antes”.
Professora Celi Taffarel destacou que o conteúdo da palestra de Gabrielli - financeirização da economia - ajuda a entender o quanto é nefasta a proposta do governo Bolsonaro para a educação, o chamado Future-se. Condenou a militarização das escolas como quer Bolsonaro. Como petista, reclamou que o PT tem que assumir as responsabilidades pelos seus erros (posição também defendida por Olívio Dutra). E foi veemente ao pregar a necessidade de se resistir aos chamados ajustes, política central aplicada pelo ministro Paulo Guedes.
Áttila Barbosa, dirigente do Sindipetro, discorreu sobre o processo de desindustrialização da Bahia, decorrente da destruição da Petrobrás. Para ele, é fundamental defender a nossa estatal do petróleo: "Temos que ser sujeitos da história", disse
Denilson Nazareth, engenheiro, ex-dirigente sindical, abordou aspectos dos postulados marxistas, da luta de classes, realçando a importância da teoria revolucionária e dizendo-se "parte da classe proletária"
Na mesa, Valdimiro Lustosa, Osvaldo Laranjeira (dois dos organizadores do debate, o outro foi Goiano/José Donizette) e Gabrielli 
Jornalista Joana D'Arck e Olívio posam ao lado de Abelardo de Oliveira (ex-presidente da Embasa, ex-dirigente do Sindae e ex-secretário de Saneamento do Ministério das Cidades) e de Manoel Barretto (ex-presidente do CPRM)

É possível indústria de conteúdo nacional sem ter uma Petrobras?

“Então, se nós não conseguirmos construir um projeto... porque foi um projeto que nos levou ao governo: um projeto de aumento do mercado interno, com inclusão social e distribuição de renda e utilizando o Estado para aumentar a distribuição de renda.

Este projeto é viável agora? Temos que rediscutir. É possível expandir o mercado interno sem ter indústria? É possível indústria de conteúdo nacional sem ter engenharia no Brasil? É possível sem ter uma Petrobras? É possível você basear a expansão do país na criação de emprego e renda industrial? Como incorporar o setor de serviços, a expansão dos direitos das empregadas domésticas no processo de distribuição de renda?

Como é que vamos manter a política de distribuição dos recursos públicos, que passam a ser os elementos centrais na disputa da renda nacional, sem ter decisões institucionais?

Precisamos então repensar o modelo, uma proposta global para a sociedade, porque nós não temos tal proposta. Isso não vai ser fruto de intelectuais – vai ser fruto do próprio movimento, do amadurecimento da compreensão do que está acontecendo. Este é o primeiro elemento da questão”.
Goiano (de chapéu) com Evaldo e Mauro Geosvaldo
Lustosa (no meio) com seu filho Pedro, sua mulher Edna, sua irmã Dina e Olívio
Antonio Carlos Pereira dos Santos, economista, aposentado do Banco do Nordeste, integrou a oposição sindical bancária que militou nos duros anos de 1970 e terminou assumindo a direção do sindicato em 1981 

As pessoas não se mobilizam se elas não acreditam que podem ganhar. A utopia não mobiliza

“O segundo elemento: é importante ver os instrumentos subjetivos. As pessoas não se mobilizam se elas não acreditarem: primeiro no que querem – precisam saber o que querem; segundo, é preciso que elas acreditem que podem ganhar, porque se você não tiver esperança de ganhar... a utopia não mobiliza, a utopia leva você à paranoia, à depressão, porque você não consegue realizar a utopia e termina imobilizado.

Daí que precisamos criar as condições de retomar a chance de vitória, precisamos criar mais forças de união que sejam capazes de derrotar o adversário. Adversário que está dividido, porém, é um adversário que tem núcleos poderosos e fortes, ideologicamente muito bem definidos, com base militar, nunca tivemos tantos militares no governo (a não ser no governo militar pós golpe de 1964)”.

PS 1: A análise que Gabrielli nos apresentou em Salvador – que merecerá ainda deste blog uma parte 4 -, estará presente, de alguma forma, nos debates dos quais está participando no âmbito do PT e outros partidos e movimentos sociais, a nível nacional, durante este semestre, em busca de resoluções políticas das forças progressistas.

PS 2: Gabrielli fará palestra em Seabra, na Chapada Diamantina (interior da Bahia), no próximo dia 17 de outubro. Este blog vai se encarregar da cobertura jornalística. Aguardem detalhes.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

NOVA ETAPA DO CAPITALISMO DEIXA ESQUERDA SEM RUMO: O QUE FAZER? “TEMOS QUE DISPUTAR OS SEGMENTOS MÉDIOS DA SOCIEDADE” (parte 2)

José Sérgio Gabrielli (Fotos: Smitson Oliveira - Seabra/Chapada)
A ampliação do apoio entre segmentos médios pode viabilizar uma alternativa ao domínio absoluto do capitalismo financeiro. Alianças de novo tipo e brechas ainda existentes na burguesia do Nordeste.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente
A financeirização da economia brasileira, com o declínio da indústria e a explosão dos fundos de investimento, foi o conteúdo básico apresentado pelo professor de Economia Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, em palestra/debate em Salvador, conforme reportado na parte 1 da cobertura deste blog.
Mas grande parte das 250 pessoas que superlotaram o auditório do Sindae (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente da Bahia), no dia 27 de julho, queria mesmo eram respostas à intrigante pergunta: “o que fazer?”
Quem desatou o nó da ansiedade foi logo o primeiro militante a falar na fase dos debates: Paulo Pontes, ex-preso político que ganhou grande visibilidade por ter sido preso, em 1971, junto com Theodomiro Romeiro, que ficou na história como o primeiro civil condenado à morte no Brasil republicano (pena depois comutada).
Pontes, que lançou recentemente suas ‘Memórias da Resistência’, foi direto ao ponto: queria saber o que as esquerdas, as forças de oposição, vão fazer diante da ascensão da extrema direita, configurada no governo Bolsonaro. Como lutar? Como resistir?
Porque parecia – explicou – que o domínio do capital financeiro, com a derrota dum projeto de inclusão social que vinha sendo construído nos governos do PT, de acordo com a exposição de Gabrielli, era uma fatalidade decorrente da evolução do capitalismo no Brasil.
Paulo Pontes: seria fatalidade viver sob o tacão do capitalismo financeiro?
250 pessoas participaram e/ou assistiram os debates no auditório do Sindae
Reinaldo Marinheiro propôs luta mais radical, a exemplo de greve geral
Zilton Rocha  se disse alarmado com a desinformação das pessoas e pregou ação política a partir das bases: "o que fazer? só fazendo de baixo para cima"
- E nós estaríamos condenados a viver sob o tacão do capitalismo financeiro, continuou Pontes, que poderia ter enfatizado: que não produz nada, não emprega quase ninguém e não tem compromisso com qualquer projeto nacional.
Em suma, Paulo Pontes, seguido de outras falas/perguntas da militância, buscava alternativas de luta, pois “precisamos continuar resistindo”.
“Temos que ir para a política”
- Para falar sobre ‘o que fazer?’ temos que ir para a política, observou Gabrielli ao retomar a palavra após algumas intervenções da plateia (antes ele tinha falado sobre as mudanças estruturais na forma de organização do capitalismo brasileiro, concentrando-se na análise do empresariado, conforme matéria publicada neste blog em 21/08/2019: ‘Nova etapa do capitalismo deixa esquerda sem rumo: quando estávamos encontrando as respostas, as perguntas mudaram’ – parte 1).
(Política foi o tema do outro palestrante do dia: Olívio Dutra, ex-governador gaúcho, também quadro histórico do PT como Gabrielli, falou como um militante político altamente qualificado, conforme matéria publicada neste blog em 30/07/2019: ‘Olívio exalta a política, mas política onde o povo é sujeito e não objeto’).
Gabrielli discorreu então sobre o crescente isolamento do governo Dilma a partir de 2011/2012, quando ela enfrentou o capital financeiro - baixou as taxas de juros, tentou fazer uma reforma tributária mais progressista - e foi derrotada.
Vieram em seguida os movimentos de rua de 2013, em aliança com o capital financeiro, o impeachment de 2016 e o segundo golpe com a prisão do ex-presidente Lula – “tiraram o jogador principal do campo e aí Bolsonaro ganha”, disse Gabrielli.
Os dois palestrantes: Gabrielli e Olívio 
Humberto Guanais, o popular Cocão
O isolamento político se reflete no Congresso Nacional com a existência de apenas 120/130 deputados dos partidos do campo progressista. Bolsonaro tem em torno de 100 e, no meio, há uma grande maioria de quase 300 parlamentares de direita e centro-direita.
GABRIELLI COM A PALAVRA
Seguem palavras mais ou menos textuais do professor Gabrielli, com indicações que podem ajudar a enfrentar os atuais desafios da oposição (e das esquerdas):
Há empresários no Nordeste que ainda têm alguma veleidade de programa nacional
“Há um fenômeno político estrutural: as burguesias no Brasil não são homogêneas, a burguesia gaúcha não é a mesma da baiana, nem é a mesma da paulista. Temos uma composição de forças do empresariado que no Nordeste tem ainda alguma veleidade de programa nacional. Os governadores do NE têm empresários nas suas bases políticas, grandes agricultores, empresários da engenharia. As burguesias regionais ainda não estão integradas nacionalmente. Daí que as alianças em 2018 no NE foram amplas e nos deram a vitória na região. Esta situação não se repete nacionalmente, porque do ponto de vista do que é dominante na burguesia brasileira, não há mais espaço para uma aliança, eles não querem uma aliança conosco”.
A ampliação por segmentos médios pode viabilizar uma alternativa ao domínio absoluto do capitalismo financeiro
(Depois de falar que temos 120/130 votos na Câmara dos Deputados e Bolsonaro tem 100) “E tem um meião que representa espaço em disputa, que não é necessariamente o empresariado. Nós temos que disputar médicos pela democracia, juristas pela democracia, profissionais do setor público, segmentos médios, pequenos empresários, pequenos escritórios, igrejas, são segmentos em disputa. É a ampliação por esses segmentos médios que pode viabilizar uma alternativa ao domínio absoluto do capitalismo financeiro, que não é uma fatalidade... movimentos estruturais (...) se alteram na conjuntura, inclusive às vezes um personagem tem um papel importantíssimo na história”.
“O que fazer, para mim, significa fortalecer os 120 deputados, ampliar para ganhar 100, cento e tantos, 200 no Congresso e, principalmente, ampliar nos segmentos médios da sociedade - porque na burguesia nós não vamos ter caminhos – e nos segmentos regionais onde a burguesia possa nos apoiar”.
O professor Carlos Freitas, com um grupo de jovens (suas alunas?)
Goiano (de chapéu) e sua mulher, Mila Novaes, posam com conterrâneos de Seabra (Chapada): Smitson Oliveira, Ana Gomes, Edelson Ferreira, Marcelo Libório, Jorge Tadeu e este repórter Jadson Oliveira (Jorge Lessa, o primeiro da esq.p/dir., é de Brumado)

Pensar uma política de aliança de tipo novo, com propostas também de tipo novo
“Acho que é uma política de aliança de tipo novo, que vai exigir formas novas de propostas, porque do jeito que as coisas vão estão fora de possibilidade qualquer perspectiva de redução da pobreza, qualquer perspectiva de diminuição da desigualdade e qualquer perspectiva de desenvolvimento de mercado interno de massa. Estamos com cerca de 13 milhões de desempregados, miséria crescendo, problemas em todas as áreas (ainda não havia estourado na mídia a devastação da Amazônia) e desmonte do Estado brasileiro”.
“A resposta não vai ser dada apenas pelo movimento sindical, por mais esforço que faça a CUT (Central Única dos Trabalhadores), por mais esforço que faça cada dirigente sindical (alguns militantes tinham falado na luta dos trabalhadores, propondo inclusive greve geral). Ou nós ampliamos nosso apoio para os segmentos médios – e a disputa política e ideológica é fundamental e debates como este são importantes – ou nós vamos ficar isolados, perguntando o que fazer”.
PS 1: A análise que Gabrielli nos apresentou em Salvador, que está sendo reportada por este blog, estará presente, de alguma forma, nos debates dos quais participará no âmbito do PT e outros partidos e movimentos sociais, a nível nacional, durante este semestre, em busca de resoluções políticas das forças progressistas.

PS 2: Foi fundamental para o êxito do evento o suporte do Sindae, em especial dos seus diretores Danillo Assunção (coordenador geral) e Edmilson Barbosa (diretor de imprensa), bem como do assessor de imprensa Sinval Soares. O vídeo das palestras e debates pode ser acessado a partir do Google: vídeo Sindae Bahia - Conjuntura Política e Econômica – Gabrielli e Dutra.

PS 3: Os organizadores foram Osvaldo Laranjeira, Valdimiro Lustosa e Goiano (José Donizette), velhos militantes e dirigentes do sindicalismo bancário que continuam atuantes, de uma forma ou de outra, no movimento popular e democrático.