terça-feira, 21 de abril de 2009

Pérolas da Caros Amigos

De Curitiba (PR) - A Caros Amigos é a minha revista predileta. Durante sua leitura mensal, fico sempre matutando, será que meus amigos leram isto, será que compraram a Caros Amigos deste mês? Bem, resolvi botar alguma coisa no meu blog do número de março. Quem não comprou está perdendo muita coisa interessante.

1 – Vão aí pequenos trechos do artigo Sociologia do Vale de Lágrimas, de Gilberto Felisberto Vasconcellos. Ele assina como sociólogo, jornalista e escritor. Geralmente não curto muito seus artigos, acho um cara meio doidão, ou melhor, não entendo bem a maioria de suas opiniões e argumentos. É defensor do nacionalismo de Getúlio, Jango, Brizola e Darcy Ribeiro e normalmente mete o pau no PT.

Transcrevo algumas afirmações de Gilberto Vasconcellos que transmitem, segundo sua interpretação, posições expostas no livro póstumo de Álvaro Vieira Pinto, Sociologia dos Países Subdesenvolvidos, editado por César Benjamin, intelectual e ativista de esquerda. São instigantes:

GENEROSO CORAÇÃO DOS RICOS - “Eis alguns tópicos - diz Vasconcellos - sobre o hegemônico Vale de Lágrimas, ou de como o banco pode ganhar as eleições com a caridade para os pobres. A chamada política do possível consiste em pedir ajuda aos países ricos. Os dominados devem se convencer de sua fraqueza, na expectativa de que não lhes falte o bom e generoso coração dos ricos”.

Mais adiante: “Purificar a classe dominante e submeter culturalmente os pobres com programas de tevê e jogos de futebol. Afinal, o homem não passa de um animal corinthiano. Tudo deve ser equacionado pelo critério da ética, em que sobressai a bondade dos ricos”.

“A única ciência que decide a verdade é a do mercado, o marketing. Há que rezar para o desenvolvido desenvolver o subdesenvolvido com o dinheiro filantrópico. O capital estrangeiro é amistoso”. E mais à frente: “A vantagem de ser pobre é poder receber caridade”.

2 – O PATRIARCA E SUA VELHA MÃE - Joel Rufino dos Santos, historiador e escritor, em sua coluna Amigos de Papel, faz referência no artigo Marihuana contra Göering a passagens inesquecíveis da ficção latino-americana. Uma das que ele lembra de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Marques:

“...no banquete de gala em que se comemora o desembarque de fuzileiros navais ianques em defesa da ordem nacional, quando Bendición (a camponesa Bendición Alvarado, a velha mãe do Patriarca) vê o Patriarca em traje de gala, medalhas de ouro, luvas de cetim, não contém o orgulho e exclama ante o corpo diplomático: ‘Se eu tivesse sabido que meu filho ia ser presidente da república eu o teria mandado à escola, senhor’”.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Pé na estrada (de ônibus)

De Curitiba (PR)

No rojão habitual das viagens na rodoviária de Palmas

Estou em Curitiba há mais de um mês, mas tenho mais algumas lembranças, anotações e fotos que quero compartilhar com vocês। Fazem parte da travessia deBelém à capital paranaense, passando por Palmas, Goiânia e Campo Grande.

É muito chão. Foram 61 horas de ônibus, mas eu, sabidamente, fui parando cerca de quatro dias em cada uma dessas três capitais.
Em Belém, onde peguei o agitadíssimo Fórum Social Mundial (fiz matérias para este blog e o Mídia Baiana_ Fórum Social até debaixo d'água , Pioneirismo da nova Constituição boliviana , Viva a diversidade! , Da resistência armada ao Eco Sexy ), fiquei pouco mais de duas semanas।

Vinha de Manaus, a simpática capital da região amazônica, à margem do Rio Negro (que os paraenses me desculpem por passar por cima de Belém). Convivi quase três meses com os manauaras e, engraçado, a gente vai demorando numa cidade e vai se afeiçoando aos lugares e pessoas. Me pego, às vezes, curtindo saudades daquela terra tropical (qualquer dia desses escrevo alguma coisa sobre o tacacá, o guaraná e frutas típicas da região, tenho muitas fotos).

Voltando à rápida passagem pelas capitais de Tocantins, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Normalmente me hospedava em hotéis próximos à estação rodoviária e diariamente dava caminhadas pelas ruas e praças mais centrais, quase sempre durante o dia, pois a neurose da falta de segurança nos acompanha em todos os grandes centros urbanos (creio que Havana, Cuba, é exceção)। Por volta das 8, 9 horas da noite já estamos refugiados nos quartos dos hotéis। É uma merda!

Barraca de dona Pedrita, de comidas típicas, em Palmas

ESTRANHA SENSAÇÃO DE LIBERDADE - Mas deu para sentir o clima do centro das cidades, procurando restaurantes mais em conta e, especialmente, um barzinho mais aconchegante। Às vezes, até dava para uma esticada num ponto turístico, como aconteceu em Goiânia, onde visitei o Parque Vaca Brava (o turismo, na verdade, não me desperta interesse).


Parque Vaca Brava, em Goiânia

Monumento às Três Raças, na Praça Cívica, centro de Goiânia

Em Campo Grande, pensei em conhecer algum museu ou coisa parecida relacionada com o Pantanal, mas era período de carnaval, estava tudo fechado.

Interessante você andar por uma cidade desconhecida. Melhor dizendo, não é que a cidade seja desconhecida, você é que é desconhecido naquela cidade (temos o centro do mundo plantado no nosso umbigo).

Bem, você anda com a certeza de que não encontrará qualquer conhecido, não adianta olhar o rosto do transeunte। Você não será identificado por ninguém. Dá uma sensação estranha de liberdade. Gosto disso.

Tomando uma tequila no Shopping Araguaia, em Goiânia
Porém (sempre há um porém), às vezes bate uma vontade danada de conversar। Aí, companheiro, companheira, a salvação - pelo menos para os freqüentadores de bares - está nos garçons e garçonetes. Creio que os viajantes sozinhos têm uma dívida imensa com tais personagens. Mas, pensando bem, agüentar papo de freguês solitário já deve estar incorporado às suas pesadas tarefas. Além disso, eventuais colegas de copo geralmente estão abertos a uma conversação, o famoso papo de pé de balcão.

Ainda no capítulo bar, melhor buteco, pelo qual transito com peculiar paixão, quando comecei a andar por Palmas, pensei logo: iiiihhhh, acho que não vou encontrar um buteco por aqui. Não fui com a cara da cidade, aquela coisa planificada, insossa, sem história, sem alma. Pois não é que me equivoquei? Após uma busca desesperançada, localizei um butequinho da pior qualidade, uma beleza! Junto, para completar o achado, ainda tinha uma barraca de comidas típicas.

TIRIRICA E SEU BALDE - E, pasmem, foi ainda em Palmas que topei uma daquelas figuras de sarjeta, a cara empapuçada, os pés um pouco inchados, dava pra ver logo que se tratava de um cachaceiro, mas não estava maltrapilho, como se poderia supor. Encontrei-o num ponto de ônibus (íamos à rodoviária), ele estava cantando o motorista pra viajar de graça. Sem problema, parecia já ser bastante popular na área. Apresentou-se a mim como “Tiririca e seu balde”. Tinha um balde de plástico pendurado no braço, depois é que fui entender (pena que eu estava sem a máquina fotográfica).

“Eu estava internado e o médico me proibiu a cachaça. Agora tô bom. Foi por causa de corno, eu capei a mulher, depois ela ficou saliente...” Tiririca tinha a língua solta e não escondia seu calvário. Contou que tinha cinco filhos, onde estão? “Não sei, tão pelo mundo, a mulher também deixou eles, sei lá...” Disse que morava em Imperatriz (Maranhão), e agora está morando em Rio Sono, cidadezinha a 150 quilômetros de Palmas.

“Minhas coisas ficam na rodoviária, lá com os motoristas, são tudo amigo meu”, explicou. No ônibus, depois de me dizer “sou o rei do pagode”, sacou do balde e começou a cantar e batucar umas músicas altamente apelativas. Falavam de “mulher boazuda” e de “bicho feio cabeludo, mas é saboroso”. Um senhor que estava ao seu lado no banco, cioso da moral e dos bons costumes, mudou rapidinho de lugar. Já na rodoviária, nos despedimos com um aperto de mão. E cada um seguiu adiante.

GUARDADOS E ANOTADOS – Não imaginei que tantos males poderiam nos acompanhar: depressão, desunião, dívidas, solidão, drogas, medo, miséria, maldição, alcoolismo, enfermidade, dor de cabeça, vê vultos, brigas, vícios, insônia, problema familiar, espiritual, angústia, pesadelo, impotência, separação e desemprego. São os problemas listados num folheto que me deram ao passar diante da “Igreja Viva 24h – A potência do Norte”, lá em Palmas.

E em algum momento dos 20 dias da travessia Belém/Curitiba, anotei numa folha de papel: melancólico, misantropo, taciturno, triste, sorumbático, sombrio, depressivo, deprimido, abatido, esmorecido, desalentado, desanimado, entediado e macambúzio.
Haja melancolia!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ainda abusos da mídia na TV

De Curitiba (PR)


Aproveito um pouco mais, com estas notas, o debate do domingo na TV Paraná Educativa, mediado por Beto Almeida (ver matéria, logo abaixo, Abusos da mídia escancarados na TV):
ACM CHOROU – O ex-governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, o ACM, chorou quando da primeira prisão da dona da Daslu, Eliana Tranchesi, apanhada na Operação Narciso da Polícia Federal. O fato foi lembrado por Leandro Fortes (Carta Capital), ao se criticar durante o debate a recente capa da revista IstoÉ, com a empresária e a manchete "Exagero ou Justiça?", condenando a Justiça por ter aplicado a pena de 94 anos de prisão contra tão reluzente figura da elite brasileira.
Fortes comentou que a mídia evitou explicar em seu noticiário que os 94 anos são, na verdade, um somatório das diversas condenações em decorrência dos diversos crimes praticados pela loura empresária।

DIREITA É PALAVRÃO? – Por falar no ACM, há muito tempo me intriga um detalhe no noticiário da grande imprensa brasileira: nunca há referência explícita ao "líder da direita", ao "político direitista". Parece até que não existe direita na política nacional (ainda mais agora que o maior representante da direita virou Democrata, DEM). Isto em se tratando de político brasileiro. Quando os jornalões falam de política internacional, aí as expressões "direita" e "direitista" aparecem, no material distribuído pelas agências.
Fui despertado para isso lendo, há uns três anos, um jornal argentino, pela Internet, onde havia uma referência ao nosso ACM como "líder da extrema-direita"। Bingo, caíu a ficha! Pois então, no debate da TV Paraná Educativa, o Leandro Fortes (foto) lembrou tal particularidade da nossa mídia.



DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS – O repórter da Carta Capital chamou a atenção também para a diferença de tratamento nos casos do atual diretor da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, e do ex Paulo Lacerda (ex também da Agência Brasileira de Inteligência - Abin).
O primeiro, acusado de torturar a doméstica Ivone da Cruz em matéria, bem fundamentada, da Carta Capital, foi poupado, até agora, pela "mídia gorda" (como chama Mylton Severiano, de Caros Amigos)। E pelo governo. O segundo, vítima de uma estranhíssima acusação ligada a um suposto grampo até hoje não comprovado, foi linchado pela mídia e demitido pelo governo.


A VOZ DO DONO – Alípio Freire (Brasil de Fato), outro dos jornalistas debatedores, contou ter ouvido de um político, mais ou menos assim: "Como posso denunciar a imprensa? Vou ficar dois meses fora da mídia!?" Ferino, Freire comentou que, para o político, dois meses sem mídia seria pior do que o pau-de-arara. Falava-se de tortura, ao se levantar o constrangedor episódio da "ditabranda" da Folha de S.Paulo. Ele falou da forte reação à posição do jornal , inclusive da manifestação na frente do prédio da Folha, onde – denunciou – compareceram poucos jornalistas e poucos parlamentares. (Pergunto eu: são, respectivamente, simples empregados e reféns?)
A propósito, Leandro Fortes disse que atualmente os jornalistas não têm mais coragem de falar fora de seus veículos, quando falam se referem apenas ao "jornalismo" de seus veículos, não mais à profissão no sentido universal। Comentou mais adiante, no decorrer da discussão, que alerta sempre a seus alunos (é também professor de Comunicação) para os "cursinhos de monstrinhos", cursos dados pelas empresas aos seus repórteres. Lamentou que os estudantes não tenham hoje parâmetros de boa imprensa e bons jornalistas.

INFLUÊNCIA DA INTERNET – Luiz Carlos Azenda (Rede Record e blog Vi o Mundo) ressaltou a influência crescente da Internet, lembrando a importância de blogs como os de Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim। No caso da cobertura internacional – revelou – a Internet já dribla bastante o monopólio das agências de notícias.

Enfatizou ainda a perspectiva de realização neste ano da Conferência Nacional de Comunicação. Tal encontro, pelo qual as entidades ligadas aos meios de comunicação alternativos e comunitários vêm brigando há algum tempo, abre possibilidades de se debater um assunto tabu na política nacional – a renovação (hoje uma espécie de direito eterno adquirido) das concessões de rádio e televisão. O governo federal "ameaça" levar avante o projeto, já sob o fogo cerrado da grande mídia.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Abusos da mídia escancarados na TV


Pois é. Não é sempre que vemos um órgão de imprensa, ainda mais uma emissora de TV, discutir os abusos da própria imprensa. A TV Paraná Educativa exibiu no domingo, dia 5, no programa Brasil Nação, apresentado pelo jornalista Beto Almeida, um rico debate sobre as peripécias da nossa grande mídia. Teve a participação dos jornalistas Luis Carlos Azenha (da Rede Record e do blog Vi o Mundo), Leandro Fortes (da revista Carta Capital) e Alípio Freire (do jornal Brasil de Fato).

Temas quentes apareceram na tela, tanto pelas perguntas do apresentador como de telespectadores. Como a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, que resultou na prisão e condenação do banqueiro Daniel Dantas, com destaque para a perseguição ao delegado Protógenes Queiroz e as repetidas declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes.

PUBLICAÇÃO DE PAUTAS E NÃO DE NOTÍCIAS - Ao falar do processo de criminalização contra Protógenes, articulado pela grande imprensa, Fortes apontou um fenômeno que chamou “publicação de pautas e não de notícias”. Ou seja, não há compromisso com os fatos, mas com campanhas definidas a partir de interesses específicos pelos donos e/ou seus agentes dentro das redações, sempre com um determinado viés político e ideológico. Não por acaso se diz que a grande mídia é o verdadeiro partido de direita no Brasil.

Azenha, que já foi repórter da Globo, reforçou tal visão ao confirmar a articulação entre grandes veículos, como a revista Veja e a TV Globo, para orquestrar tais campanhas. Falou do “jogo político articulado, com uma lógica própria”, lembrando que às vezes o assunto de capa da próxima semana da Veja já saía no Jornal Nacional do sábado.

O assunto veiculado, dentro de uma mesma orientação editorial, ganha então as páginas e as telas dos demais veículos durante a semana, formando uma corrente de pensamento único por todo o país, induzindo mentes e corações, com foros de verdade absoluta, numa torrente de opiniões indiscutíveis (óbvio que com as devidas limitações, pois pelo menos no caso dos chamados jornalões, os debatedores acreditam que “cada vez mais eles falam para si próprios”. Também foi lembrada a influência crescente de blogs e sites na Internet).

Esse fenômeno da “publicação de pautas”, explicou o repórter da Carta Capital, foi muito claro quando do chamado Mensalão, na efervescência das CPIs, e seu aparecimento mais recente deu-se justamente na fritura do delegado Protógenes. Fortes lembrou que a suposta gravação de uma conversa, sem qualquer importância especial, entre Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), motivo de tantos estragos, até hoje não foi comprovada – e não será, acredita ele. No entanto, continua como fato indiscutível entre os articulistas da grande imprensa.

CONTROLE DAS VERBAS DE PUBLICIDADE - Debateu-se também sobre a necessidade de controle, pela sociedade, das verbas públicas empregadas nos anúncios na grande imprensa, assunto levantado por Alípio Freire (só do governo federal chegaria à soma de 1,5 bilhão de reais anualmente, sem incluir, claro, os gastos dos governos estaduais e municipais. Beto Almeida comentou que o governo do Paraná tem custo zero com a grande mídia).

O representante do Brasil de Fato foi enfático ao denunciar os abusos. Disse que antes se dizia que a imprensa dependia das grandes empresas, dos anúncios, era financiada pelas corporações para defender seus interesses. “Agora não, agora a grande mídia é sócia do grande capital”, frisou, explicando que as empresas de comunicação fazem parte de grandes grupos empresariais, entrelaçadas em diversas atividades econômicas e financeiras. Ou seja, como vão defender o interesse público, mito que elas alimentam dia-a-dia?

Dentre vários outros temas abordados em uma hora e meia de programa, Leandro Fortes abordou ainda a grave denúncia contra o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, acusado em matéria de sua autoria na Carta Capital, com todas as provas cabíveis numa matéria jornalística, de torturar uma doméstica (ela sofria de diabetes e acabou cega) quando delegado da PF no Rio Grande do Sul. Não houve até agora qualquer repercussão na grande mídia, nem qualquer providência do governo federal.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Novo sistema político para enfrentar a crise


De Curitiba (PR)

Enquanto os setores atrelados às grandes corporações internacionais, através da grande imprensa, tentam meter em nossas cabeças que só o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pode dar um jeito nos estragos causados pela crise financeira mundial (não seria melhor chamar “crise do capitalismo”?), divulgo aqui, para meus poucos leitores, uma visão diferente.

Do economista e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (Iela) da Universidade Federal de Santa Catarina, Nildo Ouriques, que defende a necessidade de novo sistema político para enfrentar a situação. Interpretando suas palavras, digo que só conseguiremos sair bem da crise, do ponto de vista da nação – da maioria da população, dos movimentos sociais -, se tivermos forças para superar a podre democracia representativa brasileira e, em seu lugar, lograrmos construir uma democracia participativa.

Transcrevo um resumo de sua palestra no seminário Crise – Desafios e Soluções na América Latina, promovido pelo governo do Paraná, nos dias 25, 26 e 27 de março, em Foz do Iguaçu, no Espaço das Américas, local privilegiado de onde se descortinam as fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai. A transcrição é feita com base na cobertura do site da Agência Estadual de Notícias (AEN), do governo paranaense.

Para quem não sabe da guerra travada diariamente entre o governador Roberto Requião e a grande mídia, registro que os debates – com destacadas pessoas do Brasil e de outros países latino-americanos (ver abaixo) – não mereceram a cobertura da imprensa brasileira, inclusive a do Paraná. Presumo que publicações como Carta Capital e Caros Amigos devam publicar alguma matéria a respeito. A cobertura aqui no Paraná fica por conta da TV e rádio Educativa (estatais), trincheiras de luta de Requião.

RESUMO DA PALESTRA do professor Nildo Ouriques (mantenho as aspas apenas nos trechos usados pelo repórter da AEN como citações literais):

O novo sistema político da América Latina deve ir no sentido de um “novo constitucionalismo”, a exemplo do que estão fazendo países como Venezuela, Equador e Bolívia. A redefinição seria baseada principalmente na mudança da ideologia adotada pelos capitalistas, a qual defende o livre comércio, a autorregulação do mercado, das finanças e da produção.
“Aqueles que defenderam essas ideias estão se defrontando com a árdua tarefa de ver o mundo derretendo diante de seus olhos, a partir de práticas advindas de uma ideia que era popular, de fácil aceitação, que ganhou o mundo político, do jornalismo e dos intelectuais com rapidez. Agora este modelo é responsável por mostrar a irracionalidade do sistema capitalista. Portanto, não podemos ceder no juízo teórico e político que estamos fazendo sobre esta crise”.

O sistema político baseado nessas ideias “é incapaz de resolver os grandes problemas, de enfrentar esta crise, mas é parte da crise”. Por isso seria necessária a adoção de um novo sistema. “É preciso pensar a crise desde a economia política. É necessário superar o caráter tecnocrático que o debate sobre a economia adquiriu no Brasil e no mundo nos últimos anos, de forma a evitar ilusões sobre o alcance do problema”.

Os políticos devem mudar suas posturas neste momento. “Estamos precisando de um novo tipo de político, porque o político tradicional ajudou a criar esta crise e não está disposto a enfrentá-la, com suas conseqüências devastadoras. Portanto, faz parte da feição do novo político enfrentar este debate com a grandeza que ele tem, colocando todas as ideias, inclusive as que, à primeira vista, podem nos parecer absurdas”.

PARTICIPAÇÃO POPULAR - A democracia liberal “não dá mais conta do assunto”. O novo sistema político, que está em curso no Equador, Bolívia e Venezuela, coloca que as grandes decisões nacionais devem passar por votação popular. “Não dá para deixar essas discussões para o Congresso Brasileiro, que não é mais capaz de representar e de encontrar uma saída para a crise”.

DEPRESSÃO – O mundo vive uma depressão, “muito mais grave, profunda e, provavelmente, mais prolongada que a de 1929. Não podemos passar por ela como se fosse uma pequena turbulência, como se fosse a crise das bolsas de valores de 1997. Estamos em uma crise sistêmica e é o momento de pensar as grandes alternativas, as novidades e aquilo que foi proibido de ser pensado”.

A crise não pode ser resolvida com medidas anticíclicas.

“Esta parece ser a fé dominante, que implica em uma brutal desvalorização da riqueza, na precarização ainda maior do trabalho e dos trabalhadores, com desemprego massivo em primeiro lugar, que será a face mais evidente da crise, além de uma superexploração dos trabalhadores nos países centrais e nos periféricos, que têm 2/3 dos trabalhadores sem carteira assinada। Em escala global, alguns países sairão com mais poder e riqueza que outros। Teremos um sistema mais desigual do que este que nós temos”।

A crise não se limita ao sistema financeiro, mas afeta também a produção e o comércio.
“Segundo Pascoal Lamy, responsável pela Organização Mundial do Comércio, o comércio retrocederá entre 8% e 9%। A crise afetou a saúde dos bancos, destruiu o sistema bancário dos Estados Unidos e comprometeu de maneira irremediável o sistema europeu, mas não se limita a este mundo. Grandes empresas, antes mesmo da crise, que eram símbolo do capitalismo, como a General Motors e a Chrysler, já apresentavam problemas seríssimos que as comprometeram”.

VULNERABILIDADE – O Brasil é vulnerável à crise e apresenta “um desarme intelectual e político brasileiro para enfrentá-la”. Esta vulnerabilidade vem da “aventura especulativa” de um conjunto de empresas e exportadores brasileiros, como Sadia, Votorantin e Aracruz. “Eles lançaram mão das benesses da compra de capital liberada e se endividaram no exterior, em dólar, em curto prazo, deixando um rombo desconhecido pelo Estado brasileiro. Em dezembro, este era um problema seríssimo e forçavam-se as empresas no limite a fazer um ataque especulativo contra a moeda nacional”.

O modelo baseado na economia exportadora, que atrofia o mercado interno e supõe a integração com um país mais desenvolvido, caiu por terra.

“O grande dilema brasileiro é que, enquanto o governo federal busca tomar medidas de austeridade, diante de um mercado de trabalho com problemas, das pequenas e médias empresas com dificuldades e de um mercado interno atrofiado, tem uma elite empresarial que está mandando dinheiro para fora”।

Em 2004, o volume dos depósitos no exterior alcançou 95 bilhões de dólares। Em 2008, chegou a 155 bilhões de dólares.
É impensável do ponto de vista político e econômico aceitar que, enquanto vamos impor medidas de austeridade para a grande maioria da população, que sofre com desemprego e com baixa de salários, uma parte da elite brasileira continua se protegendo em dólar, com depósitos no exterior, fruto de uma ruptura que não ocorreu do modelo que embalou a economia brasileira e que começou em 1994, com o Plano Real”.

É preciso controlar estas remessas de lucros e dividendos, porque as multinacionais americanas só recompõem suas taxas de lucro, como demonstrado nos últimos oito anos. “Elas se defenderam auferindo lucros no mercado financeiro e também pela remessa feita pela periferia, uma parte significativa - em alguns casos, esta forma foi responsável por 40% da recomposição da taxa de lucro, segundo dados do governo dos Estados Unidos. Não temos autoridade para pedir sacrifícios para o povo latino-americano, se não pusermos rígidos controles para redução de capitais e remessas de lucros e dividendos”.

INTEGRAÇÃO – O Brasil precisa pensar na integração da América Latina, com uma “drástica redefinição da política externa, cedendo soberania para ganhar poder”. Só assim poderá ser protagonista no mercado mundial. Para isso, é preciso configurar novas estratégias empresarias e estatais que reconstruam o Estado, depois do pesadelo neoliberal, de baixo para cima, dando legitimidade popular, com vontade coletiva.

A integração deve estar no centro da política brasileira. “Precisamos de uma ‘latino-americanização’ do Itamaraty, do político brasileiro, entendendo que a integração tem que ganhar formas concretas”.

Dilma Rousseff entre os palestrantes

Os ministros brasileiros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) fizeram palestras durante o seminário. Também o governador Roberto Requião deu sua visão sobre a crise na abertura do encontro.

Já os participantes dos debates, além de Nildo Ouriques, foram: os professores Wilson Cano (Unicamp) e José Carlos de Assis (presidente do Instituto Desemprego Zero e assessor da presidência do BNDES), Renato Rabelo (presidente do PC do B), Bernardo Alvarez (presidente do Banco Alba – Alternativa Bolivariana para as Américas), Cristina Pasin (gerente de Acordos Internacionais do Banco Central da Argentina), Gerardo Licandro (gerente de Investigações Econômicas do Banco Central do Uruguai) e Gustavo Soverina (do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai).

Todo o material jornalístico, produzido pela AEN, pode ser acessado nos sites http://www.aenoticias.pr.gov.br/ e http://www.crise.pr.gov.br/.