quarta-feira, 31 de julho de 2013

OCUPAÇÃO DA PREFEITURA DE BH TEVE RÁPIDO DESFECHO E BONS RESULTADOS



Barracas de acampados em frente ao prédio da prefeitura, na Avenida Afonso Pena
De Belo Horizonte (MG) – Finalmente dei as caras com uma pequena mostra dos movimentos sociais da capital mineira. Militantes e famílias que lutam por moradia, em torno de 100 pessoas (segundo os manifestantes, de 100 a 150 pessoas), ocuparam a sede da prefeitura, onde despacha o prefeito Marcio Lacerda, do PSB (um prédio na Avenida Afonso Pena, no centro da cidade, a umas três quadras da Praça Sete, considerada o ponto central da capital).

Entraram na segunda, dia 29, pela manhã, e saíram na noite da terça, dia 30. No início da manhã de ontem, terça, a ocupação ganhou mais destaque na imprensa e repercussão entre os moradores da cidade, porque uma parte dos manifestantes – os que acamparam na frente da prefeitura – resolveu fechar o trânsito da avenida (a Afonso Pena é uma das mais importantes vias da região central).

O motivo do bloqueio: é que, segundo alguns dos manifestantes, o pessoal da prefeitura estava impedindo que os que estavam dentro do prédio (ocupantes) recebessem comida. Então, forçaram a negociação: por volta das 11 horas da manhã, quando estive lá, o fluxo de carros já estava normal através da metade da pista e os ocupantes já estavam sendo abastecidos de comida, segundo me contaram. Não houve repressão.
(As três primeiras fotos: Jadson Oliveira)
Conforme me informaram, a razão do movimento era barrar ordens judiciais de despejo contra comunidades que ocupam áreas no município. Falaram de seis comunidades sob risco de serem desalojadas, abrangendo em torno de 10 mil famílias (o déficit habitacional de BH seria de mais de 100 mil casas populares). Citaram a ocupação Eliana Silva, alvo duma recente liminar autorizando o despejo.

Relataram que há três semanas representantes das famílias se reuniram com o prefeito e este tinha garantido negociar e não forçar ações de despejo. A ocupação da prefeitura e os protestos na porta do prédio tinham, portanto, o propósito de cobrar o cumprimento de tal posição. Quando deixei o local, por volta do meio-dia – a imprensa não tinha tido acesso ao interior do prédio -, a expectativa era um encontro com o prefeito, que estava previsto para a tarde.

Reivindicações atendidas pelo prefeito

À noite, consultei o sítio da Internet do Estado de Minas, o jornal mais forte e tradicional do estado (um dos maiores sobreviventes do antigo império de comunicação organizado nos Diários Associados, do ex-barão da mídia Assis Chateaubriand): segundo seu noticiário (matéria assinada por Lucas Rage e Valquiria Lopes), a reunião aconteceu, o pessoal desocupou a sede da prefeitura e Marcio Lacerda prometeu cumprir três exigências dos manifestantes:
(Estas duas fotos são de Jair Amaral, do jornal Estado de Minas)
1 - Suspensão de liminares de reintegração das ocupações em áreas públicas;

2 - Criação de comissão de negociação, que avaliará a situação de oito comunidades formadas a partir de ocupações (será formada pelo Ministério Público, defensoria pública, prefeitura e integrantes dos movimentos populares);

3 - E, posteriormente, a transformação das ocupações em Áreas Especiais de Interesse Social (AEIS), o que possibilitará a regularização e urbanização dos espaços.

Como se vê, a matéria do EM fala de oito ocupações (e não seis): além da Eliana Silva, cita as comunidades Camilo Torres, Irmã Dorothy, Dandara, Zilah Spósito, Guarani Kaiowa, Rosa Leão e Vila Cafezal. Informa que os ocupantes (não usa os termos “invasão” e “invasores”, vou checar no jornal impresso) eram “cerca de 50 pessoas”.

De acordo com declarações de manifestantes na porta da prefeitura e com inscrições em camisetas e em cartazes, podia ser notada a participação de movimentos organizados como Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Brigadas Populares e Central Sindical e Popular (CSP) – Conlutas (central ligada ao PSTU).

Intervenção cultural

Transcrevo o final da matéria do sítio do jornal Estado de Minas:

“Uma intervenção cultural toma a Avenida Afonso Pena no sentido Centro/Mangabeiras, em frente à PBH, na noite desta terça. Organizada no Facebook pelo grupo Sarau Vira-Lata, o encontro estava marcado para as 20h e contava com 563 confirmações na rede social. No momento (início da noite), cerca de 200 pessoas ocupam a via, e o trânsito no trecho continua interrompido”.

Presumo (digo eu, este repórter/blogueiro) que tal interrupção se refere à metade da pista em frente à sede da prefeitura, pois o trânsito só foi interrompido realmente no início da manhã, como mencionei acima. Depois, fluiu dentro de relativa normalidade pela outra metade da pista da Afonso Pena, uma avenida bastante larga. 


Fotos de protesto em São Paulo

Publico aqui algumas fotos do protesto desta terça-feira, dia 30, pelo centro novo de São Paulo, em especial na Avenida Rebouças, sentido da Avenida Paulista, conforme material divulgado através do sítio do Yahoo Notícias. Houve repressão policial e quebra-quebra. 

Segundo a matéria, assinada por Daniel Mello, da Agência Brasil, a manifestação foi contra o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, da Rocinha, Rio de Janeiro (veja matéria postada abaixo sobre o assunto) e contra a militarização da polícia.




 

 

 



DESAPARECIMENTO DO PEDREIRO AMARILDO MOBILIZA COMUNIDADE DA ROCINHA



O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão
O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15a. DP (Gávea), ainda sem conclusão

Por Anne Vigna, com agência Pública, do Rio de Janeiro (do Correio do Brasil, de 30/07/2013)

Não é preciso passar muito tempo junto à família de Amarildo (primeira das fotos acima) para entender que a UPP da Rocinha se envolveu em um problema bem grande. Amarildo não é uma pessoa que poderia desaparecer sem que sua família perguntasse por ele, não é o pai de quem os filhos esqueceriam facilmente, não é o sobrinho, tio, primo, irmão, marido por quem ninguém perguntaria: onde está Amarildo?

Neste pedaço bem pobre da Rocinha, onde nasceu, cresceu, viveu e desapareceu Amarildo, “muitos são de nossa família”, diz Arildo, seu irmão mais velho, apontando os quatro lados da casa. Em uma caminhada pela comunidade na companhia de um sobrinho de Amarildo, a repórter da Pública conheceu algumas primas, depois umas sobrinhas, tomou um café com as tias lá em cima, de onde desceu acompanhada de irmãos e filhos de Amarildo. De todos ouviu a descrição de Amarildo como “um cara do bem” que, por desgraça, tornou-se famoso – e não por sua característica mais marcante, o bom coração.

As casas são ligadas por escadas antigas, feitas possivelmente por seus avós que vieram da zona rural de Petrópolis para o Rio com os três filhos ainda bem pequenos. “A Rocinha nessa época ainda era mato e poucas casas de madeira, uns barracos como se diz, e nada mais”, diz Eunice, irmã mais velha de Amarildo.

Para ler mais:

ANIVERSÁRIO E LUTO DO CINEASTA BUÑUEL SÃO REMEMORADOS NO MÉXICO





México, 29 jul (Prensa Latina) - O cineasta espanhol Luis Buñuel (foto) será lembrado hoje (segunda-feira, dia 29) e em sucessivas jornadas pelo aniversário 30 de sua morte na Cidade do México, onde viveu 36 anos e filmou 20 de seus 32 filmes.

Nesta segunda-feira, a Cinemateca Nacional e a Casa Buñuel terão uma função especial do filme O Alucinado (1952), drama psicológico considerado um dos filmes com melhor bilheteria realizados pelo artista, entre os 10 melhores filmes mexicanos, e com uma das melhores atuações da carreira do ator Arturo de Córdova.

Na casa onde viveu o cineasta aragonês no México, localizada na Colônia del Valle e em processo de restauração para ser convertida em museu, serão apresentados seus emblemáticos filmes Os Esquecidos e Viridiana.

Em 2014 a mansão passará a ser um centro cultural dedicado ao cinema, ainda que esta semana está previsto que seja usada para uma oficina de cinema com o espanhol Jonás Trueba.

A cinemateca da Universidade Nacional Autônoma do México também projetará o ciclo Buñuel mexicano: 30 anos de sua morte, no qual abordará a presença do artista na importante filmografia do país.

Serão várias comemorações que diversas instituições culturais e cinematográficas realizarão até os primeiros dias de agosto, incluindo projeções especiais, conferências e oficinas para prestar homenagem ao artista.

Para alguns estudiosos de sua obra, como José Antonio Valdés, chefe de informação da Cinemateca Nacional, Buñuel encontrou no México seu verdadeiro lar.

O chamado Alquimista do Cinema nasceu em 22 de fevereiro de 1900 em Aragão, Espanha, e desenvolveu sua longa carreira na França, Espanha, Estados Unidos e México, onde viveu quatro décadas e fez o cinema que quis, sempre com muito pouco recursos.

Faleceu um dia como hoje de 1983 na Cidade do México aos 83 anos de insuficiência cardíaca, hepática e renal provocada por um câncer.

terça-feira, 30 de julho de 2013

ESSA É MARIA RAIMUNDA, LÍDER DO MST NO PARÁ, AMEAÇADA DE MORTE



Sem medo de assumir a frente do Movimento dos Sem Terra em um estado onde eles são mortos pelos fazendeiros, Maria Raimunda segue em frente (Foto: Edinaldo Souza)


Por Ismael Machado, Diário do Pará/Agência Pública, de 29/07/2013



A frase foi dita em uma reunião entre latifundiários de Marabá, a 685 quilômetros de Belém: para enfraquecer o movimento dos Sem Terra no sudoeste do Pará bastava tirar quatro pessoas do caminho. Uma delas era Maria Raimunda César de Souza.

Maria Raimunda não ficou surpresa ao ouvir o veredito dos fazendeiros dias depois da reunião. Aos 39 anos, já foi ameaçada de morte e teve a prisão decretada em algumas ocasiões e sabe que é uma pedra no sapato deles. Afinal, ela é a diretora nacional do MST no Pará.

Em 2008 recebeu de um amigo um recado: era para se afastar de ações no município vizinho de Parauapebas. Um policial militar havia sido sondado para executar Maria Raimunda e outras três lideranças do MST na região. O policial a conhecia e não topou a empreitada. Pediu para avisá-la do risco que corria.

Viver sob esse tipo de tensão não é novidade para Maria Raimunda. Ela nasceu em Marabá, mas cresceu em Brejo Grande do Araguaia, a 100 km de Marabá. Era o auge da Guerrilha do Araguaia e a cidadezinha vivia com medo. “Quem mandava era o Exército. Toda a cidade era vigiada. Todos tinham que dormir em esconderijos subterrâneos por causa dos ataques de bomba. Eu fui crescendo nesse ambiente”, lembra.

No auge do conflito, a casa de farinha no quintal da casa em que morava com os pais foi escolhida pelo Exército para servir de alojamento aos soldados. Com o fim dos combates a residência passou a ser apoio de padres e freiras, principalmente dominicanos. O temido major Curió era presença constante em Brejo Grande do Araguaia. Junto aos ex-guias do Exército durante a campanha de combates aos guerrilheiros, Sebastião Curió impunha o terror.

“Minha opção de vida foi escolher entre o medo de calar e a defesa dos direitos humanos. Optei pela segunda via”, diz Maria Raimunda. A decisão veio cedo. Com menos de 12 anos, na primeira metade dos anos 80, já participava das comunidades eclesiais de base da igreja católica. 

Acompanhou marchas e mobilizações num período em que os crimes de pistolagem e a luta pela posse da terra atingiram o ápice no sul e sudeste do Pará.

Em 1993, Maria Raimunda mudou para Marabá para cursar Letras na Universidade Federal do Pará. Um ano depois ingressou no Diretório Central dos Estudantes (DCE). Era uma época de embates entre o MST e os latifundiários. Em Parauapebas, a fazenda Palmares era uma das primeiras ocupações em que o MST e as milícias organizadas pelos fazendeiros se enfrentaram. “Dávamos apoio a essas manifestações e aos poucos fui conhecendo o pessoal que fazia parte do movimento”.

Em 1996 ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás. Sangue, retaliações, violências. Maria Raimunda sentia que havia algo se modificando dentro dela e na situação agrária do Pará. Em 1998 ingressou no MST e, de cara foi enviada a Belém para atuar no escritório político da organização. Ficou seis anos em Belém. Acompanhou de perto as tensões envolvendo os assentamentos João Batista, em Castanhal, distante a duas horas de carro de Belém e as diversas ações de despejo e resistência do assentamento Mártires de Abril, no distrito do Mosqueiro. Tornou-se forte, acostumada à tensão e à resistência.

“Em Marabá ficou mais pesado. As ameaças são mais fortes. E é uma ameaça a toda luta. Os fazendeiros ‘fazem o serviço’. Eles querem ver o sangue derramar. Várias vezes recebi avisos de que poderia morrer. Muitas mensagens, gente dizendo para me cuidar, não viajar à noite, evitar ônibus, barzinhos, a não me expor”. Às vezes o telefone toca e do outro lado, só o silêncio ou uma respiração profunda. Pressão psicológica.

E há a pressão oficial. Desde 2006 Maria Raimunda assumiu a direção do MST. Todos os processos de ocupação de terra, todos os embates e confrontos com a polícia, fazendeiros ou mesmo com a Justiça, têm o nome dela à frente. Por conta disso, já teve pelo menos três prisões decretadas. “Tive de passar três meses foragida, de canto em canto, com a minha prisão preventiva decretada na região”.

A última foi no governo petista de Ana Júlia Carepa, depois do fechamento de pista na Curva do S, local do massacre de Eldorado dos Carajás, em protesto contra as milícias armadas nas fazendas do controverso banqueiro Daniel Dantas, espalhadas pelo sudeste do Pará.

Mas ela diz que sente ainda mais medo quando a situação parece mais tranquila.  “Quando baixa a poeira dessas tensões é que eu tenho mais medo. É na calmaria que os pistoleiros agem mais, quando estamos de guarda baixa. Mas o que a gente pode fazer? Não dá para parar a vida, deixar de viver. Tem que seguir em frente e é isso que eu faço”.