quarta-feira, 3 de julho de 2013

BAIANOS NAS RUAS: O 2 DE JULHO NO TEMPO DOS PROTESTOS



"Tarifa zero já", "Lutar não é crime, libertem nossos presos": as bandeiras das atuais manifestações abriram o desfile deste ano do 2 de Julho (Fotos: Jadson Oliveira)
Da Lapinha à Sé: os manifestantes descem da área do Barbalho e sobem em direção ao Santo Antônio
De Salvador (Bahia) – Creio que muita gente pensou: a festa do 2 de Julho deste ano da graça de 2013 vai ser incrementadíssima. Afinal, estamos num tempo extraordinário: desde o início do mês de junho a juventude brasileira desencantou, foi pras ruas reclamar contra um Brasil de tanta desigualdade, de tanta injustiça social e também contra os gastos e “a ditadura da Fifa” da Copa do Mundo/2014.

Os avanços da era Lula/Dilma/PT sumiram na poeira da memória. Muito pique e sinais de mudança, os políticos e autoridades apavorados e também muita confusão política e ideológica (a mídia hegemônica, pra variar, tentando dar o norte pra direita): seria o fim do lulismo e a busca duma nova era de protagonismo popular, finalmente?

Bem, vamos tirar o superlativo, digamos que foi um pouco mais incrementada (parece que muita gente preferiu não levar a sua indignação a uma festa oficial e de tom festivo, embora marcada pelo viés popular): as primeiras fotos mostradas abaixo – umas 15 mais ou menos – são tipicamente das manifestações que varrem atualmente as ruas do país - “passe livre”, “soltem nossos presos”, “abaixo a repressão”, “abaixo a corrupção”, “abaixo a Rede Globo”, “mais dinheiro para saúde e educação”, por aí.

Depois seguem as fotos documentando a incrível quantidade e variedade de queixas e postulações, que podem ser consideradas normais em todo 2 de Julho baiano. Claro que, de qualquer forma, temperadas com e pelas bandeiras do novo tempo dos protestos. Estão registrados ainda partidos políticos, movimentos sociais, entidades culturais e recreativas, filarmônicas e fanfarras.

Também foi incrementada, devido ao novo tempo, a presença da Polícia Militar, mas não houve repressão e violência, pelo menos no circuito principal da manhã – o desfile do Largo da Lapinha até o Pelourinho/Terreiro de Jesus/Praça da Sé, no centro histórico da cidade, objeto da cobertura deste meu blog. As vaias ao prefeito da capital e ao governador do estado são também normais, não importa, neste tempo de desencanto e revolta, se o primeiro é do direitista DEM e o segundo é do PT, que se quer “de esquerda”, mas sabemos que nem tanto.

Repito: é uma incrível quantidade e variedade de protestos e reivindicações, um retrato perfeito do estado de revolta da população, mas – desafortunadamente – uma demonstração cabal da falta de unidade e da desorganização do que chamaríamos movimento democrático e popular, que ainda não há que mereça nome tão pomposo.

Selecionei uma centena de fotos, tiradas durante a segunda metade da manhã, no trecho próximo ao Barbalho. Quem se der o trabalho de reparar nelas, terá um relatório da contundência e mixórdia dos reclamos. Fica muita coisa de fora da cobertura: a saída da Lapinha, o desfile do Santo Antônio até a Praça da Sé (considero a passagem pelo Pelourinho particularmente bonita) e, na parte da tarde, da Sé até o Campo Grande.

Conciliação das elites: até quando?

É o 2 de Julho que os baianos tanto curtem, embora os brasileiros não baianos desconheçam. Neste ano a data passou a ser uma referência histórica nacional, mas continua sendo uma “idiossincrasia” baiana (o colega Elieser César tem um excelente livrinho - livrinho porque é pequeno - sobre o tema, chamado "Guerreira da Lapinha", a personagem principal chama-se Maria Quitéria). 

Vi à noite, no telejornal da Record News, o jornalista Heródoto Barbeiro, que pratica um noticiário bem didático, explicando o significado do 2 de Julho: o Brasil ficou independente com o chamado Grito do Ipiranga em 7 de setembro de 1822, mas tropas portuguesas, aquarteladas na Bahia, não aceitaram tal declaração de independência. Foram vencidas, numa luta marcada pela participação do povo, culminada pela entrada em Salvador no dia 2 de julho de 1823.

É espantosa a vocação da história oficial brasileira para chancelar a conciliação das elites anti-povo. Mesmo que para isso tenhamos que inventar fantasias e embustes. Vale tudo para embotar a justa ira do povo brasileiro, em especial das camadas mais pobres e injustiçadas (representadas na festa baiana pelas figuras do caboclo e da cabocla). 

Então, temos o exemplo do povo em armas, vitorioso, expulsando o opressor colonialista. E jogamos isso para um cantinho da história, mais um “folclore” baiano. E adotamos historicamente o fantasioso grito de “Independência ou Morte”, muito mais provável um espasmo provocado por distúrbios intestinais do Príncipe Regente após comer uma feijoada na casa da amante, a Marquesa de Santos.

Até quando essa nefasta vocação? Vamos às ruas:
Deputados no bloco do PCdoB: Alice Portugal, Daniel Almeida e Álvaro Gomes
O governador Jaques Wagner, no meio do povo, mas cercado de auxiliares e seguranças
Uma reivindicação já recorrente nos 2 de Julho: cansados de repeti-la, alguns diziam, tocados pelo entusiasmo da onda de protestos: "Temos que ir lá e mudar o nome na marra"
A bandeira sacramentada pela presidenta Dilma está nas ruas
O velho e provado democrata Waldir Pires, sempre festejado nas ruas por populares: depois de deputado várias vezes, lutador contra a ditadura, exilado, governador da Bahia, ministro não sei quantas vezes, é hoje vereador da capital: admirável figura política.
Esta e mais cinco fotos seguintes são da Marcha das Vadias
Joviniano (ao fundo) e Zanetti, do Comitê Baiano pela Verdade (fiz há cinco anos, aqui no meu blog, uma singela homenagem à militância política simbolizando-a no Joviniano. Transcrevi depois ao pé duma matéria com o próprio. Quem quiser ler, clique aqui)
Até os animais!!!???
"Os formigões", grupo do bairro de São Caetano, fecharam o cortejo
   

2 comentários:

Joana D'Arck disse...

O Grito do Ipiranga é uma fraude! Parece conto da Carochinha, da forma como é repassada nas escolas, como você bem coloca, ignorando o protagonismo do povo que pressionou e lutou, para destacar a figura do príncipe regente. Mas já passou da hora do povo brasileiro acordar, de resgatar a sua história real para ter uma referência verdadeira e muito mais estimulante para novas lutas. Essa história de ser o povo mais pacífico do mundo é coisa passada pela elite para nos orgulharmos da submissão e da apatia. O protagonismo do povo na luta pela independência é ocultado de tal forma, que desrespeitam as até as nossas poucas homenagens procurando marcar a nossa história, como fizeram com a mudança do nome do aeroporto de Salvador, para homenagear o filho do coronel.
Há 11 anos que o projeto para devolver o nome Dois de Julho ao aeroporto de Salvador está emperrado na Câmara dos Deputados, claro que por várias manobras do PFL (DEM) do coronel falecido, o senador Antônio Carlos Magalhães. Mas uma das dificuldades para aprová-lo é a
falta de conhecimento sobre o real significado da data (pasmem!). Tanto que a senadora Lídice da Mata alegou, quando era deputada federal, que uma dos obstáculos para convencer os colegas sobre a mudança do nome do nosso aeroporto era o fato dos “nobres” deputados e senadores desconhecerem a importância da data para a Bahia e o Brasil. Eu até registrei isso na minha página do portal Luís Nassif (http://luisnassif.com/profiles/blogs/baianos-revivem-luta) e no nosso blog Pilha Pura.
O projeto continua tramitando e já tem parecer favorável, aprovado na Comissão de Educação , que até recentemente respondia também pelos assuntos de Cultura. Agora, com a criação da comissão específica de cultura, o projeto foi para esse colegiado. Vamos pressionar pela aprovação final. Vamos por um fim a esse desrespeito à nossa história.

Joana D'Arck disse...

Desculpe pelo tamanho do comentário. assunto me empolga. Quero dizer que curti muito a sua cobertura.