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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Desafio boliviano: é esquerda ou esquerda

Foto: Deta





Partidários de Evo fazem comício em Miraflores (bairro da capital)

De La Paz (Bolívia) – A direita por aqui agoniza, atestam o andar da carruagem, os observadores, as pesquisas de opinião. Sua voz ainda se escuta, teimosa e afônica, porque é para isso que existem os meios privados de comunicação. Mas para ela, só resta o passado, um passado eivado de vilanias. O presente e o futuro estão na esquerda. Para o bem, para o mau, para o melhor. Espero que para o melhor.








Pedro Montes e Frank Taquichiri no escritório central da COB



O processo de “cambio” (mudança), sob a liderança do presidente Evo Morales, avança com o apoio decidido dos movimentos sociais, especialmente os povos originários (indígenas) - a maioria dos 9 milhões de habitantes - e a legendária Central Obrera Boliviana (COB).

Depois de consolidado entre os setores historicamente excluídos da área rural, o governo ganha terreno entre a classe média das cidades e nos quatro departamentos (estados) da chamada Meia Lua, os quais, liderados por Santa Cruz, empreenderam no ano passado a rumorosa tentativa separatista, mascarada com a bandeira da autonomia, sob o patrocínio dos interesses do império dos Estados Unidos.






Evo Morales em campanha



Na última pesquisa da Ipsos Apoyo, Opinión y Mercado, divulgada em 26 de outubro, a dupla do Movimento ao Socialismo (MAS) – Evo e o vice Álvaro García Linera – já é apontada como vitoriosa em sete dos nove departamentos, ou seja, já incluindo dois da Meia Lua – Pando e Tarija. Os números indicaram derrota do MAS somente em Santa Cruz e Beni. No geral, Evo se situa com 58% dos votos válidos e outros três candidatos oposicionistas com 24%, 14% e 3%. São oito na corrida presidencial, os demais não chegam a aparecer entre os votados.


Foto:Deta








O pequeno
"militante"
nas ruas de La Paz








Foto:Deta

As mulheres presentes na luta pelo "proceso de cambio"



A PRESIDÊNCIA NÃO ESTÁ EM DISPUTA - A pesquisa apenas confirma uma certeza: a cadeira do presidente não está efetivamente em disputa. O governo se empenha, na verdade, para conseguir a maioria do Congresso (atualmente é minoria no Senado), para desatar os nós institucionais do “proyecto de cambio”. A meta seria obter 2/3 na futura Assembléia Legislativa Plurinacional, denominação oficial do Congresso segundo a nova Constituição aprovada em
janeiro último.














El Alto, a "cidade/subúrbio" que circunda La Paz


É inegável o êxito do MAS nos quase quatro anos de governo, apesar das dificuldades impostas, principalmente no ano passado, pelas ricas oligarquias do rico departamento de Santa Cruz, sempre com o apoio do império estadunidense. Seria bastante lembrar a exploração soberana dos recursos naturais do país, especialmente gás e petróleo, em proveito dos mais pobres, numa política agressiva destinada a reverter os índices de miséria do país. Nesse curto tempo logrou também incluir a Bolívia no restrito clube dos países da América Latina que erradicaram o analfabetismo.

Mas não só. Nos chamados indicadores macroeconômicos, tão exaltados nos meios capitalistas, o governo Evo mostra que, também, vai muito bem. Há poucos dias, por exemplo, um informe apresentado aqui em La Paz pelo Fundo Monetário Internacional - o famigerado FMI, que apesar de baleado pela crise do capitalismo, ainda exibe certa sobrevida – situa o país como o primeiro, dentre 31 países da América Latina e Caribe (exclui Cuba), na previsão de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), neste ano – em torno de 3%.
Na campanha eleitoral, os porta-vozes do governo têm apontado como prioridades, nos próximos cinco anos de Evo Morales, além do aprofundamento e ampliação dos programas sociais, a industrialização dos recursos naturais, acrescentando ao gás e petróleo minerais como o lítio, do qual a Bolívia detém as maiores reservas; a construção de obras de infraestrutura, como estradas, uma deficiência muito sentido no país; e também a continuidade da política de integração soberana da América Latina e da luta pelo socialismo, nos marcos da Revolução Democrática e Cultural.


MOVIMENTAÇÃO NAS ENTRANHAS DO PODER - Parece, portanto, que tudo vai bem entre os partidários do processo de “cambio”, tendo à frente o carismático líder Evo Morales Ayma, que acaba de completar 50 anos. Entretanto, nas entranhas do poder, no seio das forças governistas (aqui chamadas oficialistas), começa a germinar uma movimentação política que logo após as eleições pode resultar num novo desafio para a esquerda boliviana.

Tal movimentação é materializada no documento “Historia de la Central Obrera Boliviana y coyuntura actual frente al proceso de cambio”, que subsidia a discussão interna entre os membros da COB e a discussão com o governo. Tal documento já começa a circular pela Internet. Seu autor é o advogado Frank Taquichiri, assessor trabalhista da COB, 42 anos, há cerca de 20 anos vinculado à entidade (especialista em “legislación laboral”, autor de vários livros na área, é credenciado pela Organização Internacional do Trabalho – OIT).


No documento, o presidente Evo Morales é tratado como “irmão indígena”, sendo lembrada sua condição de líder sindical (dos cocaleiros) e filiado à Central. Mas, basicamente, é defendida uma posição clara: “A COB não pode cometer os mesmos erros que a história nos mostra. O processo de mudança (“cambio”) é um trabalho que incumbe a todos os explorados e excluídos. A COB, se bem já assumiu seu papel histórico, agora deve, além disso, ser protagonista do seu próprio destino e do destino dos trabalhadores em particular e do povo boliviano em geral”.

A que erros históricos se refere? Vamos chegar lá. Até esta parte conclusiva do documento, Frank Taquichiri percorreu um longo caminho desde a insurreição popular de 1952, quando foi criada, com base nos poderosos sindicatos mineiros e sob a direção de Juan Lechin Oquendo, a Central Obreira (Operária) Boliviana, “a entidade matriz e histórica da maior organização e única dos trabalhadores da Bolívia”.

É uma organização sui generis. Além dos mineiros, base da economia e da violenta exploração colonialista/imperialista – lembremos das riquíssimas minas de prata de Potosí -, fazem parte da COB não só os operários dos demais setores, mas também os estudantes e amplos setores populares como os camponeses. Diz o “asesor laboral” da COB: “La historia de la Central Obrera Boliviana es la historia de Bolívia, en los últimos más de 57 años. No se comprendería lo que ocurrió en este país, sin la acción de la COB, sin la acción de los trabajadores organizados, que dieron vida a los momentos más importantes de este tiempo”.
SÃO NESSES “MOMENTOS MAIS IMPORTATES”, numa história de muita luta, vitórias, derrotas e muita repressão, que Frank Taquichiri identifica os erros históricos:

1 – Na Revolução de 1952, depois dos trabalhadores terem vencido o Exército, com o sacrifício de milhares de vidas, os dirigentes operários entregaram o poder de mão beijada (“en bandeja de plata”, como disseram os mineiros) a Victor Paz Estensoro, do então ascendente Movimento Nacionalista Revolucionário, que após medidas progressistas, como a reforma agrária, enveredou-se pelos tortuosos caminhos da conciliação de classes e a traição.

2 – Nos anos 80, logo após o triunfo da União Democrática e Popular, apoiada pela COB, regressa ao poder Hernán Siles Suazo e surge nova oportunidade dos trabalhadores assumirem a co-governança do país, conforme proposta do próprio presidente. “Em uma reunião – conta o advogado no documento – a COB propõe (assumir) 51% (do governo), e Siles pergunta se foi a COB quem ganhou as eleições”.

Não houve acordo, se rompeu o diálogo e a COB passou à oposição, enfraquecendo o governo, o que deu espaço a um golpe da direita. Resultado: 21 anos de governos neoliberais, de entrega dos recursos naturais da nação aos interesses imperialistas e de repressão contra as forças democráticas e populares.

3 – Nas jornadas populares de setembro e outubro de 2003, na chamada Guerra do Gás, os movimentos sociais – com participação destacada da população de El Alto (uma espécie de subúrbio, que na verdade constitui uma cidade de um milhão de habitantes, a maioria pobre, nos morros e altiplanos que circundam La Paz) – impuseram mais uma vez seu protagonismo e derrubaram o governo presidido por Gonzalo Sánchez de Lozada.
Mais uma vez o poder ficou com a chamada classe política, mas a insurreição terminou levando a um “proceso de cambio”, cujo resultado foi a eleição três anos depois de Evo Morales, com o apoio da COB, para a presidência da República.

HOJE, A COB VOLTA A SE COLOCAR A QUESTÃO: ser sustentador do governo ou ser co-governo? “Agora temos um irmão indígena, filiado à COB, que abraçou e fez seu este processo de mudança, com maior razão a COB não pode cometer os mesmos erros”, diz Frank em seu documento. E finaliza: “É a agenda de outubro/2003 que até hoje, se bem se quer desenvolver, termina por não fazê-lo, já que os verdadeiros atores do processo não estão assumindo seu papel protagonista”.

Pergunto: que significa isso, na prática? a COB pode compor o novo ministério, tem quadros preparados para compor uma bancada parlamentar e para aspirar, por exemplo, a presidência da República daqui a cinco anos quando terminará o mandato de Evo?
Frank Taquichiri é cauteloso: “A COB está conversando com o governo, Evo é um hermano, sindicalista, filiado à COB, temos tudo para chegar a um acordo. Quanto a quadros preparados, claro que temos, basta lembrar Pedro Montes, o principal dirigente da COB”. Refere-se ao atual secretário executivo da Central, um mineiro de 44 anos, há quatro liderando o seu Comitê Executivo Nacional (CEN).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

“O sol nas bancas de revista...”

De La Paz (Bolívia) – “...nos enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia...”



video



Pois é, grande Caetano Veloso, mas que “sol”?
O cantado e “trescantado” astro-rei, sem o qual a vida fica muito sem graça?
Ou “O Sol”, o primeiro ou um dos primeiros jornais alternativos da rica safra pós-golpe de 1964?

Era do Rio de Janeiro, acho que teve vida efêmera, não cheguei a conhecê-lo, sei que estava vivo quando da execução de Che Guevara nas selvas bolivianas, outubro de 1967. O pessoal do jornal conta, meio como piada, que “O Sol” teve o mérito de não reconhecer a morte do Che. Quando ela foi anunciada, em meio a algumas dúvidas, os editores do jornal optaram (é o tal do “pensamento desejoso”) por uma manchete daquelas em que a gente fica em cima do muro, mais ou menos assim: “Che pode estar vivo”. (Manchete com o verbo “pode” tem variadas serventias, me lembra o nosso Marco Antonio Boaventura Moreira, o Marquinho, mancheteiro de primeira, mas aí são outras histórias).

Dizia eu, que “sol”? Eis a questão que um documentário sobre o dito jornal (dentre outros aspectos) tentou elucidar। O “tentou” vai por conta de uma leitura minha, toda particular। É que toda a parte do filme dedicada a discutir esta questão está dirigida no sentido de demonstrar que “o sol” a que Caetano se refere na música é “O Sol”, o jornal.


Dentre os participantes da discussão, me lembro apenas dos dois mais conhecidos: Caetano e Gilberto Gil. Caetano, com aquele jeitão de iluminado, cheio de vai-e-vem, não dizia claramente nem que sim, nem que não, era como se dissesse “deve ser”, “certamente”... Gil, no seu jeito de santo, de guru oriental, sempre condescendente, chegava a conclusões, a meu ver, sem qualquer evidência aparente, dizia “claro”, “tá vendo aí? é isso mesmo...” Alguém lembrou inclusive que a então namorada de Caetano, Dedé (que veio a ser sua primeira mulher, o nome é este mesmo, não é?), trabalhava no jornal.

Assisti ao documentário em Cuba, não me lembro se durante o Festival de Cinema, dezembro de 2007 (estava lá na época, um dos eventos culturais mais badalados da “ilha”. Deta estava lá comigo nesse período, me lembro que ela assistia a três filmes por dia, toda empolgada. Eu, que nunca fui muito chegado a cinema, via um por dia, achando que já era demais).

Pois bem, conclusão. Saí do cinema com a certeza absoluta, irremovível, que Caetano se referiu, na música, ao nosso sol do dia-a-dia, ao nosso querido astro-rei. Porra nenhuma de “O Sol”, o jornal. Exatamente o contrário da tese “demonstrada” no filme. Racionalmente talvez eu até não consiga explicar o por quê, mas a razão, como sabemos, nem sempre explica tudo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cadê o nome do presidente?

De La Paz (Bolívia) – A VII Cumbre (reunião de cúpula) da Alba, Aliança Bolivariana para os povos da nossa América, realizada nos dias 16 e 17 de outubro, em Cochabamba, capital do departamento (estado) do mesmo nome no centro da Bolívia, foi fato jornalístico da maior importância na pauta dos meios de comunicação bolivianos. Desculpe, estou abrindo a matéria realçando uma obviedade.
Mas, nem tanto. Para o El Diario (sem acento, em espanhol), o mais antigo e um dos quatro principais jornais editados em La Paz, as conclusões do encontro de nove países da América Latina e Caribe (1) mereceram duas materinhas, no pé da página, uma na editoria Internacional e outra na de Economia, ambas abrindo com o mesmo enfoque, o tema ecológico: "Alba defenderá na ONU os direitos da Mãe Terra" e "Cumbre da Alba terminou com declaração sobre mudança climática".
(Tecnicamente, nos meus tempos de editor, isso era considerado uma falha: duas matérias sobre o mesmo assunto numa mesma edição, em duas editorias, ainda mais com o mesmo enfoque)।
Fora esses "estranhos" critérios de edição, que certamente interessam mais aos profissionais do jornalismo, o que mais chama a atenção na "cobertura" do tradicional El Diario é a ausência da citação de qualquer um dos nomes dos presidentes participantes do evento. Numa das matérias a coisa é mais gritante: são citadas, em dois parágrafos, declarações literais do presidente Evo Morales, entre aspas, mas é omitido o seu nome. Aparece só "o presidente da Bolívia". Intolerância? Rancor?
JOGO DE OMISSÕES E INTERESSES - Ao invés de se explicitar algum nome ou nomes dos chefes de Estado presentes, aparecem "os líderes latino-americanos", "os líderes do bloco", "os mandatários e representantes". Outro detalhe: não se mencionam os Estados Unidos quando se fala da má vontade dos países ricos em contribuir na luta contra a poluição, como a não assinatura do Protocolo de Kyoto. A menção é sempre genérica, "países industrializados", "países desenvolvidos".

No mais, os textos são sóbrios, não trazem outras sacanagens (está achando pouco?). Dão algumas informações corretas das decisões adotadas na Cumbre e uma das matérias tem até uma foto da mesa de reunião (pequena, ao pé do pé da página). Curioso sobre os meandros e idiossincrasias dos jornais, atividade à qual estou ligado há 35 anos – desde outubro/1974 -, fui pesquisar nos editoriais da mesma edição do El Diário. Ah, aí o nome Evo Morales é citado com todas as letras, para tomar pau, claro.
TEMPOS DE AGITAÇÃO POLÍTICA E CULTURAL - Os outros três jornais diários, editados em La Paz, informativos, "sérios", fizeram uma cobertura que podemos considerar normal, até onde pude acompanhar, com muitas limitações. Não li todos todos os dias, espiava as primeiras páginas nas bancas, comprava um ou dois. O La Razón, que dizem ser o mais lido, e o La Prensa sempre estão fustigando o governo, dentro daquela linha "normal" da imprensa privada contra as forças de esquerda, mas não notei nenhuma apelação especial.
Quanto ao Cambio (sem acento, em espanhol), não é preciso falar de sua linha editorial, é estatal, criado no início deste ano pelo governo Evo Morales. (Um detalhe: apenas o El Diario é naquele formato grande, standart, todos os demais por aqui são tamanho pequeno, moderno, tipo tabloide).
Além dos quatro, há diários que circulam por aqui editados em cidades como Santa Cruz e Cochabamba (presumo que tenham também circulação nacional). Temos ainda, não poderiam faltar, vários outros daqueles chamados "populares", dedicados a bundas e peitos, futebol, crime e ti-ti-ti de novelas e celebridades.
E uma variedade grande de publicações semanais e mensais, a maioria abordando temas políticos, econômicos e culturais, o que reflete a agitação pela qual o país atravessa nestes tempos de Revolução Democrática e Cultural, como é chamado oficialmente o processo de mudança ("cambio") na Bolívia.
(1) Além de convidados e observadores, participaram presidentes, chefes de Estado e representantes da Bolívia (Evo Morales, o anfitrião), Cuba, Venezuela, Equador, Honduras (representante de Manuel Zelaya, presidente que resiste a um golpe de Estado), Nicarágua e as ilhas caribenhas: Dominica, São Vicente e as Granadinas e Antigua e Barbuda.

Todo ano Cuba faz tudo sempre igual

Parafraseando nosso grande Chico Buarque ("todo dia ela faz tudo sempre igual..."), todos os anos Cuba entra com um projeto de resolução nas Nações Unidas, condenando o bloqueio imposto à ilha pelo império dos Estados Unidos। E todo ano, por esmagadora maioria, os quase 200 países que compõem a ONU aprovam a resolução.

Este ano, na última quarta-feira, dia 28, o placar foi mais ou menos a mesma coisa: 187 votos a favor (ou seja, contra o bloqueio), três contra e duas abstenções (entre os votos contra, estão sempre, infalivelmente, Estados Unidos e Israel, e os demais são daqueles países que a gente não consegue memorizar os nomes).

Para que isso? Certamente para fins de notícia e propaganda. Porque, na verdade, nada muda, fica tudo sempre igual. Cuba, bloqueada, se virando. E o império, bloqueando e falando em democracia e auto-determinação dos povos.
Até quando, dona ONU? (Quosque tandem...?)।

É semelhante à situação de Israel e Palestina। Quantas resoluções (umas 400?) a ONU já aprovou condenando o holocausto (para usar uma palavra tão cara aos judeus) quase diário dos palestinos, massacrados pelo governo israelense, com o apoio do império estadunidense? Nada muda, os massacres se repetem.

Até quando, dona ONU?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Argentina: monopólios da mídia em baixa

De La Paz (Bolívia) - A direita argentina - especialmente através dos seus mais reluzentes porta-vozes, os meios de comunicação de massa – gritou, esperneou, mas não teve jeito: os monopólios da mídia perderam uma guerra que se desenrolou nos últimos seis meses e o chamado espectro radioelétrico (onde transitam os sinais de rádio e televisão), que é na verdade propriedade do povo, do Estado, vai passar a ser usado de forma igualitária entre o setor privado, o estatal e o comunitário – 33% para cada um. (Atenção, isto é na Argentina, que distância da situação do nosso Brasil!).

O Grupo Clarín, um dos maiores conglomerados de mídia da América do Sul, que pode ser comparado às “nossas” Organizações Globo (creio que, proporcionalmente, o monopólio da Globo é bem maior), fez o diabo para conservar seus privilégios, estribado no velho discurso da defesa da liberdade de expressão (liberdade deles, dos empresários)।

A nova legislação argentina atinge em cheio os monopólios privados. Impede, por exemplo, que um só grupo detenha a propriedade de TV aberta e TV a cabo, limita a abrangência territorial das emissoras e ordena que as concessões para explorar rádio e televisão sejam revisadas no prazo de 10 anos (no Brasil, tais concessões são, na prática, eternas, passam de pais para filhos, para netos, uma maravilha!)
SESSÃO NO SENADO DUROU 20 HORAS - A presidenta (no espanhol se usa assim “presidenta”, no nosso português fica feio, não?) Cristina
Kirchner (foto
) mandou o projeto ao Congresso no dia 27 de agosto, depois de uns quatro meses de debates pelo país. Nos 44 dias de tramitação nas duas casas legislativas (a aprovação final deu-se em 10 de outubro), os meios políticos e midiáticos viveram uma verdadeira maratona, com audiências públicas que atravessavam horas e horas. A última sessão para votação do projeto, já no Senado, durou 20 horas.
Durante a tramitação, as forças governistas promoveram cerca de 200 modificações no projeto original, o que propiciou o alargamento da aliança entre os setores democráticos, populares e de esquerda, visando o enfrentamento e a vitória sobre os grupos direitistas, defensores, óbvio, das corporações privadas da mídia.

ARGUMENTO ETICAMENTE FORTE DA DIREITA - A direita, alinhada na oposição ao governo, tinha, na minha opinião, um argumento eticamente forte. É que as forças governistas saíram das últimas eleições legislativas bastante enfraquecidas, perderam a maioria. A oposição, então, argumentava que a nova Lei de Comunicação Audiovisual, de fundamental importância para os destinos do país, deveria ser votada a partir de dezembro próximo, com a posse dos novos legisladores.

POR QUE MANTER UMA LEI DA DITADURA? - Já o governo, que neste embate estava apoiado pela esquerda, tinha pressa (ia ficar mais fraco na próxima legislatura) e manejava também um argumento forte: por que esperar se a legislação a ser substituída é indefensável, anti-democrática, elaborada em 1980 pela ditadura militar?

A nova lei terminou aprovada na Câmara dos Deputados por 147 votos favoráveis, quatro contra e uma abstenção। A grande diferença é porque uns 100 deputados oposicionistas deixaram o plenário no momento da votação (este detalhe é muitas vezes omitido nas publicações favoráveis ao projeto, o que esconde o equilíbrio das forças e a dificuldade para sua aprovação)। Já no Senado, o placar foi mais favorável - 44 a favor e 24 contra।

Cristina Kirchner não perdeu tempo। Sancionou logo o novo estatuto legal e na quarta-feira, dia 21, assinou decreto criando a Autoridade de Aplicação da Lei de Comunicação Audiovisual। O órgão é constituído pelo Poder Executivo, com representantes da oposição, das empresas de comunicação, dos trabalhadores do setor e também do meio acadêmico.


CONSTRUTORES DE UMA REALIDADE CAPCIOSA - Para dar uma idéia das discussões: o senador governista, Nicolás Fernández, defendendo a aprovação da nova lei, declarou que é necessário “romper com a ditadura” das empresas jornalísticas, acrescentando que os meios de comunicação “devem ser o veículo da realidade” e não “construtores de uma realidade capciosa”.
Já a senadora da Coalizão Cívica, Maria Eugenia Estensoro, oposicionista, disse que “com esta lei se propõe uma televisão com fronteiras para os meios privados, porém a única que não vai ter fronteiras é a voz do governo”.
(As informações são baseadas, sobretudo, em matérias do sítio da TV Telesur – http://www.telesurtv.net/ ).

domingo, 25 de outubro de 2009

Façanha boliviana

Fila para registro no Paseo El Prado, a dois dias do encerramento
De La Paz (Bolívia) – As eleições de 6 de dezembro na Bolívia têm um componente inédito, a adoção de um tal registro biométrico dos eleitores. Nas últimas duas semanas, o “padrón biométrico” (uma tecnologia moderníssima, com digitais, fotos e assinaturas digitalizadas) rendeu seguidas manchetes de primeira página em todos os jornais daqui. Até o dia 17, já que o prazo para inscrições encerrou-se no dia 15, lá para a meia-noite.

Mas é claro que o destaque não é por causa da tecnologia moderna, mas pela luta política que envolveu o tal padrão. Ele foi adotado por exigência da oposição, numa espécie de chantagem para tentar inviabilizar o pleito de dezembro, previsto na nova Constituição aprovada em janeiro deste ano. Os oposicionistas, que têm maioria no Senado, argumentaram que só aprovariam a realização das eleições com o novo registro dos eleitores, já que o então existente estava cheio de irregularidades, o número de inscritos inchado – chegaram a dizer que estavam votando pessoas já mortas e recém nascidos. Daí – denunciavam -, a vitória de Evo Morales nas urnas.

Diziam mais: que o novo registro ia mostrar que os aptos a votar não passariam dos 3 milhões (os inscritos estavam em 3,8 milhões. A população do país é mais de 9 milhões – encontrei na Internet 9,2 milhões e 9,6 milhões). A oposição jogava com a certeza de que era impossível fazer toda a reformulação das inscrições num prazo de dois a três meses e ainda faltava dinheiro para o trabalho. Houve um impasse. O presidente Evo Morales chegou a fazer uma greve de fome, lembram?

EVO “DESVIA” US$ 40 MILHÕES DA COMPRA DE AVIÃO - Quase todos concordavam que era impossível introduzir o novo padrão. O governo hesitou e, afinal, decidiu: topou o desafio. Evo Morales chegou a “desviar” 40 milhões de dólares, que seriam para a compra de um novo avião presidencial, para custear a trabalheira.

Pois bem. O número de eleitores, no badalado padrão biométrico, à medida que ia se aproximando o prazo fatal, dia 15, ultrapassou os 3 milhões (sonhados pela oposição), chegou aos 3,8 milhões (meta considerada ideal) e foi, foi subindo até bater, no final, nos praticamente 5 milhões (4.997.172). Na última semana, tinha manchete de jornal todo santo dia. Eu mesmo cheguei a fazer uma referência ao número de eleitores, aqui no blog, em torno de 4,5 milhões. (Está em curso agora um trabalho de depuração, revisão, para corrigir possíveis irregularidades).
Nos 5 milhões estão incluídos 170 mil registrados em nove cidades de quatro países (pela primeira vez vão votar bolivianos residentes no exterior): Argentina, Espanha, Estados Unidos e Brasil, onde houve inscrições somente em São Paulo – 18.618 votantes.

José Antonio Costas (foto reproduzida do jornal La Razón)


“UM MILAGRE DESTE PAÍS” - O presidente da Corte Nacional Eleitoral (CNE), José Antonio Costas, um dos herois da façanha, em entrevista ao jornal La Razón (privado, considerado o mais lido da Bolívia), declarou: “Eu creio que é um milagre deste país”. E após algumas considerações, acrescentou: “...e digo que é um milagre apesar de ser engenheiro, porque normalmente somos os mais descrentes”. (Talvez parte do ”milagre” possa ser atribuída às virtudes da mobilização popular numa democracia participativa).
A entrevista - onde Costas diz ter folgado, nos últimos meses, apenas “uns quatro domingos”, nenhum sábado, com jornadas sempre acima das 12 horas – está num caderno especial da edição do dia 16, cuja manchete é “Êxito” (já disse que o La Razón é privado, tem posição crítica diante do governo).

No mesmo caderno, há uma materinha esclarecedora. É com o ex-presidente da CNE, José Luis Exeni, que renunciou ao cargo (alegando “razões pessoais”) 15 dias depois do Congresso ter autorizado o pleito de 6 de dezembro, com o padrão biométrico. Na verdade, só há uma frase de Exeni: “Não vou fazer nenhum comentário ainda”.

Mas na matéria é lembrado que, na época da polêmica sobre a adoção do novo registro, o então presidente da Corte tinha declarado, baseado em cálculos muito otimistas, que a trabalheira com o novo padrão só estaria concluída, na melhor das hipóteses, lá para o dia 8 de janeiro de 2010, mais de um mês, portanto, após a data das eleições.

Igual, igualito

Um anúncio numa rua central de La Paz:
“Maestro (mestre) consejero Don Justo
Lee su suerte
En: coca, naipe, alcohol y cigarro
Para: negocio, trabajo, viaje, matrimonio, amor y general (geral)”.

Peço licença para um PARÊNTESE EXISTENCIAL

A solidão, a morte e a filosofia

Não importa se estamos sós ou cercados de amigos e familiares, a morte é um anti-ato de solidão extrema.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Avança a integração soberana

Mais de 35 mil pessoas no encontro dos movimentos sociais
De La Paz (Bolívia) – O processo de integração soberana da América Latina avançou mais um pouco com a VII Cumbre da Aliança Bolivariana para os povos da nossa América (Alba), realizada nos dias 16 e 17 últimos, em Cochabamba, Bolívia, sob a presidência do anfitrião Evo Morales। A Alba hoje é uma espécie de vanguarda, no âmbito institucional, da luta por justiça social e contra o império dos Estados Unidos, entre os povos normalmente referidos como latino-americanos (embora haja alguns pequenos países, a maioria ilhas do Caribe, vindos da colonização inglesa, e o Suriname, da holandesa).


A Alba foi criada em dezembro de 2004 pelos governos de Cuba e Venezuela, com o nome de "alternativa" (depois virou "aliança"), porque era uma alternativa à Alca (Área de Livre Comércio das Américas), patrocinada pelo império (leia-se "livre" para eles, os que se locupletam com a política das empresas transnacionais)।
PRIMEIRA BATALHA DO SÉCULO 21 - Hugo Chávez, presidente venezuelano, conta que o velho Fidel Castro (ainda totalmente na ativa) lhe dizia: "Chávez, nossa primeira grande batalha do século 21 é contra a Alca, vamos derrotar a Alca"। Chávez ficava assim meio cabreiro, tinha suas dúvidas, pois estava passando por Cuba vindo de uma cumbre (reunião de cúpula) onde tinha sido uma voz solitária contra o império.


Mas, já eram tempos de mudança na América Latina ("cambio", sem acento, em espanhol, palavra que virou bandeira)। Fidel acertou. O movimento contra a Alca cresceu, inclusive com a participação do Brasil, já com o presidente Lula, e o "livre comércio" de Bush empacou. Os povos da Latino-américa e do Caribe agradecem.

Chávez, Evo, Daniel Ortega e Ralph Gonsalves (São Vicente)

A Alba que se reuniu em Cochabamba também já está bem mais crescida। Tem nove membros, se contamos com Honduras, que resiste há mais de três meses a um golpe de Estado (o presidente deposto, Manuel Zelaya, vinha adotando posições progressistas, uma delas justamente a adesão à Alba). Além dos fundadores (Cuba e Venezuela), temos ainda: Bolívia, Nicarágua, Equador e as ilhas caribenhas: Dominica, São Vicente e as Granadinas e Antigua e Barbuda (forma uma população em torno de 75 milhões).

Participaram observadores de vários países, a exemplo do secretário geral do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, Nicolai Pátrushev.
Declaração de Rafael Correa, presidente do Equador, ao chegar para o encontro: "Aqui estamos para dar um passo mais pela integração de nossos povos, por uma integração de irmandade, de fraternidade, não de competição, não de mercado, não de consumo, uma integração para construir uma só sociedade, uma só nação".
RESTO DO IMPÉRIO BRITÂNICO - Durante a reunião, o primeiro-ministro de São Vicente e as Granadinas, Ralph Gonsalves, fez uma veemente denúncia contra a influência colonialista da Inglaterra. Pediu aos países da Alba que acompanhem o movimento no seu país, visando organizar um referendo para mudar a situação. "De minha parte, não quero seguir vivendo em território colonial nem um minuto mais", declarou.
AS PRINCIPAIS DECISÕES DA CUMBRE de Cochabamba, dentre mais de uma dezena de iniciativas em diversas áreas:
1 – Implantar, se possível já a partir de 2010, o Sistema Unitário de Compensação Regional de Pagamentos (Sucre, sigla que é, significativamente, o nome do Marechal Antonio José de Sucre, assassinado aos 35 anos, um dos libertadores da América do Sul, ao lado de Simón Bolívar e outros). Trata-se de uma espécie de moeda que vai substituir o dólar nas operações comerciais dentro do bloco. O Banco da Alba, que já começou a operar, terá o papel de banco central para administrar o uso do Sucre.
2 – Ainda na área econômica, firmaram-se os princípios do Tratado de Comércio dos Povos (TCP), baseado na complementariedade; acertaram a constituição da Empresa Grannacional de Importações e Exportações; e mais duas empresas, uma para cuidar do alumínio e outra para o ferro e aço.
3 – Foi criado o Comitê Permanente de Soberania e Defesa da Alba, que tem entre seus objetivos a formação da Escola de Dignidade e Soberania das Forças Armadas. É, na verdade, uma tentativa de se contrapor à doutrinação dos comandos militares na América Latina, ministrada pelo Pentágono e serviços de inteligência estadunidenses, cujo resultado desastroso (para as forças populares e democráticas) é a identificação dos movimentos sociais como inimigos da nação.
4 – Foram dados passos iniciais rumo à criação de uma Radio del Sur (Rádio do Sul) e uma Agência de Notícias, além de uma Escola de Televisão e Cinema, visando incrementar ações para furar o cerco midiático exercido pelos meios privados de comunicação. A Venezuela, juntamente com outros países da América do Sul, tem uma iniciativa bem sucedida neste setor que pode servir de modelo, a TV Telesur (Telesul).
SINTONIA COM OS MOVIMENTOS SOCIAIS – O encerramento do encontro se deu numa grande festa com as organizações sociais (em se tratando da Bolívia, especialmente o movimento indígena, que representa 60% da população do país), que realizaram, em paralelo, a Primeira Cumbre de Movimentos Sociais. Viu-se a sintonia com as forças populares (Não esquecer a consigna de Evo Morales: "Mandar obedecendo". Aos povos e seus legítimos interesses e não aos "donos do mundo", as corporações multinacionais).
Sala das reuniões: "Coca não é cocaína"

Os presidentes e chefes de Estado, vestindo ponchos e devidamente enfeitados com grinaldas de folha de coca ("Coca não é cocaína", dizia um arranjo floral na sala de reuniões), se confraternizaram com mais de 35 mil pessoas, incluindo delegados de movimentos de mais de 40 países (segundo números de Cambio, jornal estatal da Bolívia).

O dirigente da Federação Departamental (estadual) de Camponeses de Cochabamba, Cupertino Mamani, falando em nome das 36 nacionalidades do país (a Bolívia chama-se hoje, oficialmente, Estado Plurinacional de Bolívia), conclamou a se construir a unidade dos povos e governos da América Latina e a se respeitar os direitos da Pachamama (Mãe Terra): "Se não respeitamos a Mãe Terra não vai haver vida para os povos, façamos com que essa demanda receba o apoio da América Latina e do mundo, companheiros"।

A VIII Cumbre será em Cuba em dezembro próximo, quando a Alba estará completando cinco anos. Chávez comentou que, nesse encontro, espera contar com a presença de Fidel Castro, "porque ele é o pai da Alba".

"O lugar mais estimulante do mundo"

"A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os Estados Unidos derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo".
Quem fala aí é o respeitado pensador e linguista estadunidense Noam Chomsky, em recente entrevista ao jornal mexicano La Jornada. Segue só mais um parágrafo, quem quiser mais (tem muito mais) é só entrar no sítio da Agência Carta Maior:
"O Brasil é um exemplo interessante. No princípio dos anos 60, os programas de (João) Goulart não eram tão diferentes dos de Lula. Naquele caso, o governo de Kennedy organizou um golpe de Estado militar. Assim, o estado de segurança nacional se propagou por toda a região como uma praga. Hoje em dia, Lula é o cara bom, ao qual procuram tratar bem, em reação aos governos mais militantes na região. Nos Estados Unidos, não se publicam os comentários favoráveis de Lula a Chávez ou a Evo Morales. Eles são silenciados porque não são o modelo".