sábado, 25 de julho de 2020

“NOM OMNE QUOD LICET HONESTUM EST” (Nem tudo que é legal é honesto)

Valdimiro Lustosa: "Pensemos melhor e tenhamos ação" (Foto: Facebook)

“As instituições políticas, religiosas e educativas contribuem para gerar a ideologia que confunde o interesse da classe capitalista dominante com o interesse geral”.

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical bancário, bacharel em Direito

Em determinados momentos da conjuntura de um país, as instituições perdem totalmente a sua importância. Elas passam a existir somente para referendar o que os donos do poder querem. Vejamos a situação do Brasil: para que serve mesmo o legislativo? Para fazer leis, dirão os deputados e senadores. Mas, que leis? A formação da lei já vem com defeito de origem. É a elite que faz a lei. Escreve-a a seu gosto, voltada para seus principais interesses.

Para tanto, banca a eleição dos seus deputados e senadores. Por isso é que se ouve falar da bancada ruralista ou bancada do boi, da bancada evangélica ou bancada da bíblia, da bancada da bala etc. Da mesma forma, pergunta-se: para que serve o judiciário? Para julgar à luz das leis elaboradas por um legislativo corrupto e representante da elite. Ora, na realidade o judiciário serve mesmo é para referendar os interesses da burguesia. Assim também se pode dizer do mesmo papel que exercem a Polícia Federal e o Ministério Público. Todos atendem aos interesses dos homens do dinheiro.

Quando o cidadão comum procura a justiça, ela não atende ou leva anos a fio para dizer, invariavelmente, NÃO ao pleito do suplicante. Claro que existem exceções. Há juiz e juiz ou como diz a frase: ainda há juízes em Berlim, frase atribuída ao moleiro que havia herdado do seu pai o moinho de vento intitulado moinho de Sans-Souci (episódio ocorrido na Prússia no Século XVIII, quando o Rei Frederico II tentou remover o moleiro das suas terras para ampliar o palácio).
   
O segmento da justiça que ainda atendia um pouco melhor os anseios do hipossuficiente era a Justiça do Trabalho, logo ajustada aos interesses do patronato (vide reforma trabalhista).  É só olharmos a redução de processos demandados nos TRTs Brasil afora. Por conta disso, centenas de escritórios de advocacia trabalhista encerraram suas atividades. Quantos ficaram desempregados! E o povo o que diz de tudo isto? Nada, absolutamente nada. Por quê? No meu entendimento, vários fatores contribuem para tanto. Primeiro, a mídia alimenta o discurso do governo ao apoiar os seus projetos, a exemplo das reformas trabalhista e previdenciária, porque os jornais e TVs são pagos para isto; por outro lado, o governo usa as igrejas concedendo-lhes benefícios (isenções fiscais) para que elas defendam  a política do governo.

Assim, elas avocam o nome de Deus para amortecer uma possível revolta das pessoas.  E os fiéis podem até passar fome, mas não deixam de pagar o dízimo porque são iludidos pelos pregadores do evangelho que prometem o reino do céu. Uma pregação que já faz mais de 2.000 anos e ninguém conhece ninguém que tenha alcançado o reino do céu e que viesse aqui na Terra dizer como é o reino do céu aqui prometido.

A burguesia se delicia com tudo isso. Aliás, ela nunca vem de cara limpa falar diretamente com o povão. A História demonstra que a classe poderosa nunca se apresenta de cara descoberta tal como é. Cobre-se com as bandeiras da religião ou do patriotismo. Acontece que, apenas reconhece e proclama como bom para todos, aquilo que é bom para ela. Por detrás do Estado existe toda uma malha doutrinal, de valores, mitos, instituições e outras tantas formas de iludir.

As instituições políticas, religiosas e educativas contribuem para gerar a ideologia que confunde o interesse da classe capitalista dominante com o interesse geral, justificando as relações de classe existentes como as únicas naturais e, portanto, perpétuas e inalteráveis. Todas essas instituições se conjugam na criação de uma consciência uniforme, para conferir unidade ao pensamento burguês.

Para preservar o sistema que os favorece, os ricos e poderosos investem muito na persuasão. É nesse contexto geral que intervêm nos meios de comunicação de massa e na capacidade dos pregadores do evangelho que têm um poder de persuasão muito eficiente. O governo, que é representante da burguesia, faz “dobradinha” com as igrejas e até usa o espaço físico religioso como comitê de um futuro partido político. Enquanto isso, a promessa do reino do céu continua nas pregações das igrejas. Até quando não se sabe. O reino do céu fica parecendo as tabuletas dos armazéns e bares do interior do nosso país: FIADO SÓ AMANHÃ! Haja paciência!

Baudelaire em um dos seus textos, assim se expressou:

É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

O poeta tinha razão. Como enfrentar tamanha perversidade? Acho que temos que nos embriagar mesmo de virtude, de coragem e fazermos como fez o povo do Chile que já nos apontou o caminho. Pensemos melhor e tenhamos ação. O que  estamos  vendo no Brasil é algo assustador. Não sabemos quando isto terá fim. Alea jacta est!

terça-feira, 21 de julho de 2020

“AUTORITARISMO FURTIVO” (OU “DEMOCRACIA HÍBRIDA”)

André Singer, cientista político (Foto: da Internet)

“É muito difícil para a sociedade perceber o que está acontecendo, porque aparentemente as instituições estão funcionando, existe uma fachada legal...”

(Meus amigos me sacaneiam porque não uso Whatsapp e ainda uso e-mail. Mas o que eu quero mesmo é voltar a usar cartas).

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

Caro companheiro Lustosa (Valdimiro Lustosa, também chamado Guri),

Há dias tento escrever alguma coisa sobre ‘A tão falada democracia... uma falácia”, espicaçado por seu artigo (‘reflexões’) aqui publicado no último dia 24/junho.

(É pena que este meu Blog Evidentemente é pouco visitado. Seu artigo teve apenas 91 acessos até hoje. Merecia mais).

Mas esse Corona, com o flagelo do confinamento mal feito e o genocídio anunciado, tem me deixado de saco cheio e me tirado a parca inspiração.

A verdade é que sempre tive pouca consideração pela tal da democracia. Um substantivo difícil de digerir. Me falta sempre um adjetivo para temperá-la.

Nos velhos tempos de militante comunista, era mais fácil. A gente tascava logo a “democracia burguesa” e estava consumada a condenação perpétua à dita cuja. Navegávamos em ilusões, utopias, escudando-nos nas certezas com as quais a juventude nos brindava. Éramos militantes, otimistas, mais alegres e mais felizes.

Agora, em se falando de Brasil, já entrando no declinar do lavajatismo – arrastando para a lama da história o bolsonarismo, seu filho dileto -, continuamos a nos debater em busca dum adjetivo.

Às vezes, também, dum substantivo: é o caso da mídia hegemônica (monopólios tradicionais dos meios de comunicação, Globo & Cia). Para eles, os monopólios, é mais simples: se os governantes são contra o império estadunidense, trata-se duma ditadura. Estão aí Venezuela, Cuba, Irã, China, Coreia do Norte;

Se são alinhados com o império, trata-se duma democracia: Brasil, Israel, Colômbia, Arábia Saudita, pra não falar no próprio Estados Unidos, “a maior (ou melhor?) democracia do mundo”.

RESSURGE A DEMOCRACIA: manchete de O Globo anunciando a vitória do golpe de 1964

Há ainda fascismo, viés fascista, autoritarismo, neoliberalismo, liberal fascista. Uns tresloucados por aí (extrema-direita, terraplanistas?) ainda falam, atualmente, no Brasil, da existência de comunismo no Estado brasileiro (certamente implantado ou incrementado pelo petismo). Santa ignorância! nesses tempos de notícias mentirosas aos milhões, instantâneas (fake news).

E mais: a conexão com o capitalismo. Você mesmo, companheiro,  no seu artigo referido acima, destaca “os escandalosos lucros dos bancos brasileiros ou dos estrangeiros que operam no Brasil”, ao falar da nossa cruel realidade marcada pela desigualdade.

Destaca ainda no seu segundo artigo aqui postado no último dia 13 – ‘A ironia da Folha de S.Paulo’ -, ao se referir à Revolução Francesa. Você lembra que o “Terceiro Estado (a plebe), que era a maioria, sustentava os outros dois” (o primeiro e o segundo – o clero católico e a nobreza, respectivamente). “Assim é o capitalismo”, arremata.

Tal conexão está também em comentários de companheiros nossos/leitores do blog: Osvaldo Laranjeira: “Como alguém disse: "precisamos desmistificar um caminhão de ilusões da democracia capitalista". Creio que o problema está no adjetivo "capitalista". Pois enquanto o capitalismo vigorar jamais teremos uma democracia participativa e que mereça a velha formulação: do povo, pelo povo e para o povo. Também nunca veremos o tal Estado democrático de direito”.

Irenio Viana: “A democracia, verdadeiramente, é uma falácia mesmo, é a moneycracia”; Rubia Oliveira: “Democracia SÓ para os ricos. Pobre só tem O VOTO, mesmo assim, ERROU feio”; e Téo Chaves observa que “a democracia está submissa às armas, à ignorância, à desigualdade...”

Isso bate com uma reflexão que sempre me ocorre: não seria mais justo, mais esclarecedor, se ressaltar a vigência do sistema capitalista, ao invés do desgastado sistema democrático? Lembremos da memorável manchete do jornal O Globo, logo após o golpe militar de 31 de março de 1964: RESSURGE A DEMOCRACIA (foi dia 1º de abril ou 2 de abril?).

Mas, porém, todavia, companheiro Lustosa, volto aos adjetivos. (Não esquecer que, oficialmente, vivemos na chamada “democracia representativa”, doente terminal há décadas. Característica central: os eleitores votam e escolhem seus representantes de quatro em quatro anos. E adeus: na próxima eleição, nos vemos novamente).

Confesso ter uma simpatia especial pela chamada “democracia participativa” (ou “direta” – alô, companheiro Laranjeira). Conheci-a, um pouco, nas duas temporadas que passei em Caracas, 2008 (três meses) e 2012 (cinco meses): eleição todos os anos, dispositivo constitucional revogatório de mandato presidencial, povo nas ruas permanentemente, milícias populares, comunas populares, mídia contra-hegemônica a todo vapor contra os monopólios privados de comunicação.

Autoritarismo incremental, aplicado por dentro das leis e conduzido por líderes democraticamente eleitos

Centrando na conjuntura atual brasileira: golpe contra Dilma, governos Temer/Bolsonaro e, principal, descalabro  resultante do genocídio sanitário e da crise econômica e política. Com o agravante: incapacidade da esquerda (ou centro-esquerda) – baleada pela campanha do suposto combate à corrupção - de interagir com as massas populares.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos cunhou uma conceituação que, pelo que entendi, é bem esclarecedora para nossos dias: “democracia híbrida”. É uma meia democracia e meia ditadura. Com as características da alternativa abaixo, acho que dá pra entender (queria deixar um link aqui, mas não consegui localizar pelo Google. Vale a pena ler).

Outra, que achei espetacular, é dum grupo de estudiosos brasileiros, conforme um deles, o cientista político André Singer. Chama-se “autoritarismo furtivo”. Segue o resumo do próprio Singer (baseado em postagem do site Brasil247):

1 – “O autoritarismo furtivo é incremental, ele vai se dando continuamente, pouco a pouco. Todos os dias o Poder Executivo vai tentando alargar seus poderes e suprimir os contrapoderes. Vai tentando se sobrepor até o momento em que você imperceptivelmente cai em uma ditadura.

2 - A segunda característica é que ele justamente se dá por dentro das leis, não rompendo com as leis. Um exemplo bem fácil para nós aqui no Brasil é o impeachment da ex-presidente Dilma, porque eles usaram uma brecha que existia dentro das leis. O que esse processo gerou foi uma ruptura de democracia por dentro das leis.

3 - A terceira característica é que esse processo de autoritarismo furtivo é conduzido por líderes democraticamente eleitos, então não vem com uma força de fora do sistema político, como as Forças Armadas.

O resultado é que é muito difícil para a sociedade perceber o que está acontecendo, porque aparentemente as instituições estão funcionando, existe uma fachada legal, uma fachada de normalidade que é feita de propósito”.

É isso aí, Lustosinha, um forte abraço. Espero ajudar no seu esforço de reflexão. Agradeço por manter respirando este meu blog nesse malfadado confinamento. O qual, infelizmente, deve romper no tempo, pois o tal do distanciamento social segue capenga, sob os auspícios do (des)governo Bolsonaro/Guedes. 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A IRONIA DA FOLHA DE S.PAULO

Jair Bolsonaro: eleito com a ajuda da chamada grande imprensa (Foto: Internet)

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018.

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical, bacharel em Direito

Há poucos dias li nas páginas do jornal da família Frias, o chamamento apelativo: “Use amarelo pela democracia”! Seria uma réplica do movimento das diretas já de 1983/1984? Seja como for, sabemos que a Folha de S.Paulo, até mesmo nas diretas já só veio a se manifestar a favor quando o movimento já estava forte. Até lá o jornal ficou omisso. Quando viu que a onda era crescente não hesitou e apoiou. Oportunismo?

Agora, decorridos 36 anos, vem com a campanha do “Use amarelo pela democracia”! Cheira à ironia. Um jornal que apoiou o golpe  de 1964, compactuou com o regime militar, fez campanha cerrada para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, foi linha de frente na campanha de Bolsonaro contra Haddad e agora, porque a maré não lhe está sendo favorável, deita falação contra o presidente, deixando a entender que foi enganado e que não era isto que esperava da sua política econômico-social. A imprensa brasileira sempre agiu assim. Sabia perfeitamente, quem era Bolsonaro, mas por ódio, por capricho ou por interesses outros, apoiou o modelo que está aí.

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018. A imprensa que sempre defendeu os projetos da burguesia quer vestir o povo de amarelo com um novo slogan: “Um jornal a serviço da democracia”. Em 1961 o slogan era “Um jornal a serviço do Brasil”.
A elite que depôs Dilma Rousseff do poder em 2016 foi quem colocou o Bolsonaro na presidência com o apoio irrestrito da mídia. Todos se lembram do pato amarelo da FIESP, órgão ultrarreacionário que patrocinou as campanhas do desmonte da CLT que albergava direitos dos trabalhadores, retirando praticamente todos os direitos trabalhistas, bem como apoiou firmemente a reforma da previdência que restringiu o direito de aposentadoria. Ora, depois de tanta perversidade, veste-se de amarelo para enganar os incautos, pregando um nacionalismo manjado. Que nacionalismo é este que entrega de mão beijada as empresas nacionais, que queima a floresta amazônica para vender madeira e plantar capim para criar gado? Ora, quem comprou seu carvão molhado que o abane! Eu não comungo desse tipo de nacionalismo. Nacionalismo na essência seria preservar nossas riquezas, investir em pesquisas científicas, na educação, na geração de empregos para o nosso povo, não essa manobra oportunista das cores nacionais.

A mesma mídia que critica OPORTUNISTICAMENTE, o governo Bolsonaro é a mesma que apoia as reformas trabalhista e previdenciária; que apoia a política de desmonte da riqueza nacional com a venda, ou melhor, com a entrega das nossas empresas ao capital estrangeiro a preço de banana. Uma lástima! Conclamar o povo para vestir amarelo e liderar um futuro governo sem a participação popular. Esse é o projeto. Já assisti a esse filme. A campanha das diretas já gorou! O que sobrou para o povo? Nem o bagaço da laranja. Não entro mais nessa. Os tempos são outros, mas parece que ainda continuamos iludidos. Qualquer mudança na política institucional do país só beneficia a classe dominante que, em associação com as igrejas, espolia os trabalhadores. Seria muito bacana se o povo entendesse essas manobras para, no momento certo, dar o troco, votando em seus verdadeiros representantes e não nos representantes dos segmentos burgueses da sociedade.

Se tomarmos como exemplo a Revolução Francesa, estribada no lema “Liberté, Égalité, Fraternité”, podemos ver que sempre a plebe fica a ver navios, ou seja, na hora da luta, a massa vai à frente, mas na hora de repartir os benefícios... Na França foram criados três estados:  o Primeiro Estado representado pelo clero e câmaras diocesanas; o Segundo Estado representado pela nobreza; o Terceiro Estado era, conforme Eric Hobsbaum, representado por uma entidade fictícia destinada a todos os que NÃO eram nobres e nem membros do clero, ou seja, a plebe. O Terceiro Estado, que era a maioria, sustentava os outros dois! Assim é o capitalismo. O Primeiro Estado e o Segundo Estado não pagavam impostos e tinham uma série de privilégios, enquanto a plebe tinha que se virar para ter seus representantes.

Assim é como tudo funciona no capitalismo. Há pouco tempo quiseram destruir o Partido dos Trabalhadores. A elite não aceita de jeito nenhum que os trabalhadores tenham seus representantes, mas ela banca a campanha dos seus parlamentares para fazerem leis que atendam os seus desejos. Desta forma a burguesia se perpetua no comando das nações, seja aqui, ali, alhures, sempre foi assim, até um dia, até talvez, até quem sabe.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A TÃO FALADA DEMOCRACIA... UMA FALÁCIA!

Valdimiro Lustosa (Foto: da página do autor no Facebook)

“Era de se esperar um mundo mais humano em busca do bem-estar social, da harmonia entre os povos, de uma distribuição de renda menos perversa, em busca de dias mais felizes.” (Como brinde, ‘Números’, uma preciosidade do poeta italiano Trilussa)

REFLEXÕES

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical, bacharel em Direito (título principal e destaque acima são da edição deste blog)

Tenho aproveitado o período de isolamento social para me dedicar um pouco à leitura e fazer reflexões sobre o momento da pandemia e o momento político brasileiro. Assim, deparei-me com textos altamente esclarecedores, dignos de análises profundas do porquê estamos passando por momentos tão cruéis. Não que em outras eras o mundo tenha sido uma maravilha. Em absoluto. Vivemos momentos tão desastrosos com guerras, crises, escravidão etc. Todavia estamos no Século XXI e parece que ainda não saímos do Século XIX.  Era de se esperar um mundo mais humano em busca do bem-estar social, da harmonia entre os povos, de uma distribuição de renda menos perversa, em busca de dias mais felizes. No entanto o que vemos é a correria pela maximização do lucro (vide os escandalosos lucros dos bancos brasileiros ou dos estrangeiros que operam no Brasil). Os trabalhadores perderam seus direitos que foram arrancados por uma LEI CRIADA para, segundo os magnatas do poder, gerar mais empregos. O que vimos e estamos a assistir é um verdadeiro massacre com perdas de empregos que já somam no momento mais de 24 milhões de pessoas desempregadas. Que reforma é esta?!! O que vimos foi a destruição da previdência para ninguém poder se aposentar como antes. Depois falam em DEMOCRACIA. É UMA FALÁCIA! Aliás, sobre o tema democracia, gostaria de falar a posteriori. Vendem-se as empresas brasileiras e assim não teremos mais empregos. Esta é a proposta dos homens do dinheiro que bancam candidaturas e têm seus representantes no Congresso Nacional para elaboração de leis que interessem somente a eles. Pedem e pregam o NEOLIBERALISMO, ou seja, o Estado deve ficar fora das decisões econômicas, contudo, quando há uma crise como a que estamos passando e que afeta em cheio a economia notadamente, as pequenas empresas e os mais pobres, a burguesia não contribui com um real para salvar os mais necessitados. Todos esperam e cobram do governo. Neste momento ninguém quer ser liberal!

O que é a liberdade

Nas democracias o povo parece fazer o que quer, mas a liberdade política não consiste nisso. Num Estado, isto é, numa sociedade em que há leis, a liberdade não pode consistir senão em poder fazer o que se deve querer e em não ser constrangido a fazer o que não se deve desejar.
Deve-se ter em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem: se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder.

Os versos de Trilussa

Trilussa, poeta italiano cujo verdadeiro nome era Carlo Alberto Salustri, viveu no tempo de Mussolini e ousou escrever fábulas criticando ferinamente o regime fascista. Segundo Paulo Duarte, tradutor de sua obra, Trilussa reuniu cinquenta poemas em Libro muto (Livro mudo), cuja edição logo se esgotou: “O fascismo, como sempre acontece em momentos tais, só descobriu que o Livro mudo era um protesto violento escarnecedor e mordente quando o livro já estava na rua”. Mas também explica que Mussolini, no seu tempo de socialismo e boêmia, foi amigo de Trilussa, o que talvez justifique sua complacência com o poeta. Se bem que não se pode negar um certo oportunismo perante tão ilustre personalidade, famosa no mundo inteiro. Quando um escritor perguntou a Mussolini a respeito da censura rigorosa que fazia calar toda crítica, ele teria retrucado: “Abolição da liberdade? E Trilussa?...”

                                    Números

Eu valho muito pouco, sou sincero,
Dizia o Um ao Zero,
No entanto, quanto vales tu? Na prática
És tão vazio e inconcludente
Quanto na matemática.
Ao passo que eu, se me coloco à frente
De cinco zeros bem iguais
A ti, sabes acaso quanto fico?
Cem mil, meu caro, nem um tico
A menos nem um tico a mais,
Questão de número. Aliás é aquilo
Que sucede com todo ditador
Que cresce em importância e em valor
Quanto mais são os zeros a segui-lo.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

“VOU SER FUZILADO DAQUI A POUCO (...) NÃO QUERO QUE O FRIO ME FAÇA TREMER”

A execução aí na foto (da Internet) não tem relação com a da carta abaixo

“Assumi meu lugar no Exército de Libertação, e morro quando a luz da vitória já começa a brilhar”.
Por Spartaco Fontanot – soldado voluntário da luta antifascista na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial.
“Querida mamãe: De todas as pessoas que conheço, a senhora é a única que vai sentir mais, por isso meus pensamentos são para a senhora. Não culpe ninguém mais por minha morte, porque eu mesmo escolhi minha sorte.
Não sei como lhe escrever, porque, mesmo tendo a cabeça clara, não consigo encontrar as palavras certas. Assumi meu lugar no Exército de Libertação, e morro quando a luz da vitória já começa a brilhar (...) Vou ser fuzilado daqui a pouco com 23 outros camaradas.
Depois da guerra a senhora deve exigir seus direitos a uma pensão. Eles lhe entregarão minhas coisas na prisão, só que estou ficando com o colete de papai, porque não quero que o frio me faça tremer (...) Mais uma vez, digo adeus. Coragem!
Seu filho,
Spartaco”.
Spartaco Fontanot, metalúrgico, 22 anos, membro do grupo resistente de Misak Manouchian, 1944, in Lettere (1954, p.306)
PS: Transcrito do livro ‘Era dos Extremos – O breve século XX – 1914-1991’, autor Eric Hobsbawm, página 144, editora Companhia das Letras.
Conforme pesquisa na Internet, Spartaco Fontanot nasceu na Itália em 1922 e foi fuzilado no Forte Mont-Valérien, na França, em fevereiro de 1944, quando a Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. Participava como voluntário da resistência contra o fascismo/nazismo na França ocupada.
Misak (ou Missak, como encontrei na Internet) Manouchian, o nome do grupo de resistência, foi um poeta e militante comunista do povo armênio, nascido na Turquia.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

“HERÓI NÃO É SOMENTE AQUELE QUE DERRAMA SEU SANGUE NO CAMPO DE BATALHA”

(Foto: da Internet)

A década de 1950 não sai da memória daquele menino. Nem os “intelectuais” que faziam sua cabeça, a partir dos ensinamentos do Instituto Ponte Nova: Raimundo Viana, Jeová Queiroz e outros e outras.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente

Eram os nossos intelectuais. Para os que ficavam na terra, pobres mortais! e os viam ora partir ora chegar, sentados nos bancos do caminhão pau de arara, rapazes e moças cheios de juventude e beleza, cantando canções alegres, boleros – “eu também me perdi, vou vagando passo a passo, na esperança de um dia encontrar uma nova ilusão...” -, restava uma pontinha de inveja. Será que um dia também chego lá?

Eram um rasgo de alegria e futuro. Estudar no Instituto Ponte Nova (na hoje cidade de Wagner), lá pela década de 1950, era o grande sonho da classe média e elite de Seabra – então uma  cidadezinha, hoje pomposamente chamada “a capital da Chapada”. De Seabra e também de muitas outras cidades da região e até de mais longe, até de Santa Maria da Vitória, lá no Sudoeste do estado – que o diga nosso companheiro Valdimiro Lustosa Soares, o popular Guri, que lá estudou e depois foi pra Lençóis estudar (e jogar bola).

Não sei se soa muito grandiloquente chamá-los de intelectuais. Na nossa cabeça, dos pobres mortais, eram sim, enchiam nossos olhos, corações e mentes. Não quero nem falar nos talvez (na minha cabeça) mais proeminentes: Ivan e Iovane, dos Oliveira dos Fabrício.

Guardei na memória a bela frase que dá título a esta crônica: “Herói não é somente aquele que derrama seu sangue no campo de batalha”. Foi a abertura dum discurso de Raimundo Viana, de Iraquara, então estudante de Ponte Nova, filho de seo Zezinho e dona Guió, neto do velho Honório e dona Pianga, sobrinho de Prisa, irmão de Rui e Reinaldo (doutor Reinaldo), além de outros e outras mais.
Raimundo Viana, na faixa dos 50 anos, com sua mãe Dona Guió (Guiomar Azevedo) (Foto: do arquivo de familiares)

O aluno Raimundo Viana discursava numa solenidade em Seabra (certamente relacionada com alguma homenagem ao Instituto Ponte Nova), no prédio principal da cidade de então (hoje, creio, é sede do gabinete do prefeito). Ele fazia o elogio ao chefe da missão presbiteriana estadunidense (Dr. Baker? Fundação Baker?), dirigente da instituição mantenedora do Instituto (me parece que o tradicional Colégio 2 de Julho, hoje Faculdade, em Salvador, também foi cria dos mesmos presbiterianos).

O contexto da frase de Raimundo é óbvio: herói era também o missionário, que não derramou o sangue numa guerra, mas desbravou os rincões sertanejos da Bahia para implantar uma escola que traria a luz da educação para os baianos.

Outro dos que chamo intelectuais: Jeová Queiroz (filho de seo Franklin e dona Donana, irmão do nego Robério e da professora Marilande, além de outros e outras mais).

Tão “intelectual” que, certa vez, sentado no batente do bar de Osvaldo Sales (o mais importante da cidadezinha), com uma rapaziada de nós, pobres mortais, caiu na temeridade de usar o termo “contusão” durante trivial papo sobre um jogador machucado durante algum jogo (certamente do Flamengo ou Vasco, times pelos quais a rapaziada torcia, graças às emissoras de rádio do Rio de Janeiro, nossos únicos meios de comunicação de massa: Mayrink Veiga, Nacional e Globo).

Contusão?! – espantamos nós. Todos na roda desconheciam tal palavra. O nosso amigo, apesar da áurea de estudante de Ponte Nova, devia estar equivocado: não seria “confusão”? Confusão! - não tem nada a ver, o jogador está contundido, explicou Jeová meio perplexo. Mas, diante da incredulidade geral, desistiu. Fez uma cara assim como pensando (sem falar): “São uns bocós, imbecis...” (ou coisa parecida).
Jeová Queiroz, já com 68/69 anos, na praia de Porto de Galinhas (Pernambuco) (Foto: do arquivo de familiares)

Foi Jeová que, certa vez, me revelou a existência dum troço importante do organismo humano: o sistema imunológico. Me disse que era bom a gente usar uma pomada, por exemplo, quando tinha algum ferimento, porque iria fortalecer o “exército” de defensores do corpo. Eu achei uma novidade simplesmente espetacular. (O assunto foi badaladíssimo quando do auge do HIV e volta à berlinda agora nestes tempos do coronavírus).

Foi Jeová, também, que ensinou a mim e a meu irmão um pouco mais velho (Stimison) a jogar futebol de salão. Com uma particularidade: a gente achava que Jeová, com aquela cara de  gozador, estava nos enrolando e nunca conseguiríamos ganhar dele, pois a todo momento, a depender do lance do jogo, ele “inventava” uma regra que o favorecia.

Já falei em outras crônicas sobre Ponte Nova (lembranças da década de 1950) e tenho muito a falar ainda. Por enquanto, registro logo que o Ginásio Municipal de Seabra, que começou a funcionar em 1958, foi uma consequência, mais ou menos natural, da existência do Instituto Ponte Nova.

É bastante lembrar as primeiras (e queridas) professoras (e um querido professor) que iniciaram o ginásio, todas saídas de Ponte Nova: Marilande Queiroz (diretora), Darcy Queiroz (secretária), Iovane Oliveira (professor de Matemática), Dilcinha Abreu (Português), Nog Sena (Francês), Zenilde Moreira (Geografia).

Será que esqueci alguém deste grande time?

PS: O Instituto Ponte Nova foi criado por presbiterianos dos Estados Unidos, em 1906, na hoje cidade de Wagner, a 390 quilômetros de Salvador (era Itacira, distrito de Lençóis). Além dos serviços prestados à educação, em especial na região da Chapada, teve papel relevante na área da saúde (a missão incluía um hospital). Teve influência também na cultura: além do aparecimento dos “protestantes” (ou “crentes”), lembro, por exemplo, com certa nostalgia, que a gente jogava beisebol.

Apesar de ter ficado na minha memória o nome “Dr. Baker”, vi no Wikipédia que o missionário presbiteriano norte-americano chamava-se William Alfred Waddell. Ainda segundo o Wikipédia, a escola foi subsidiada pelos estadunidenses até 1971.

Pela década de 1950, época de minhas recordações, o diretor do Instituto era “doutor Jaime”, como era conhecido entre nós. Trata-se do pastor presbiteriano Jaime Wright, que tornou-se conhecido nacionalmente como defensor dos direitos humanos. Nos anos 1970/1980, colaborou com a equipe do arcebispo Dom Evaristo Arns na feitura do dossiê sobre os crimes da ditadura militar (tortura e assassinato de oposicionistas), trabalho que resultou no livro ‘Brasil: Nunca Mais’.

O “professor Jairo” (de Educação Física) era muito badalado pelos estudantes por ser o organizador do time de futebol do colégio. Um time respeitadíssimo na região. Havia inclusive um craque famosíssimo chamado Pedro Hora, o qual, na sua opinião, jogava mais do que Pelé. “Não é brincadeira, não”, me advertiu ele próprio um dia, muito seriamente (isso é tema para outra crônica).

segunda-feira, 30 de março de 2020

CUBA SALVA


(Foto: reproduzido da Internet)
O grande paradoxo é que, enquanto os barcos com petróleo e alimentos contratados por Cuba são perseguidos pelos Estados Unidos, os barcos com os enfermos que ninguém quer em seus portos recebem solidariedade e respeito em Cuba.



Por Rosa Miriam Elizalde (*) – publicado em 20/03/2020 pelo portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe – Tradução: Jadson Oliveira (editor do Blog Evidentemente)



O navio cruzeiro MS Braemar, com cinco casos confirmados de Covid-19 e mais de mil pessoas a bordo, atracou pouco antes do amanhecer do último dia 18 no Porto de Mariel, a 40 quilômetros de Havana. O corredor de evacuação aeroportuária rumo à pista do Aeroporto Internacional José Martí, a partir do qual quatro aviões do Reino Unido transportaram os evacuados, funcionou com notável precisão.

Enquanto o mundo sentiu o alívio e ainda é impossível prever as consequências da pandemia, Cuba foi destaque pelo transbordo dos mais de mil passageiros e tripulantes do Braemar, os quais, desde 8 de março, estavam confinados num buque fantasma no Caribe.

A odisseia começou quando o cruzeiro da companhia britânica Fed Olsen chegou a Cartagena (Colômbia), onde desembarcou uma estadunidense diagnosticada pouco depois com coronavírus. A partir daí, cinco portos caribenhos negaram a entrada do navio e as famílias dos passageiros apelaram aos meios de comunicação para expressar temor pela sorte de seus seres queridos e a possibilidade de se verem obrigados a percorrer o longo caminho de regresso à Europa, expostos ao contágio massivo e talvez a uma morte em escala industrial antes que o navio pudesse chegar à Grã Bretanha.

O alarmismo e a morbidez midiática que predominam nestes dias em que se vive com o novo coronavírus converteram os passageiros e tripulantes numa espécie de empestados. Anthea Guthrie, de 68 anos, passageira britânica do Braemar, mostrou em sua página do Facebook um vídeo do momento em que o cruzeiro era abastecido a 25 milhas de um dos portos onde não pôde atracar. Um barco rebocou uma segunda barcaça rudimentar, sem motor nem tripulantes, para fazer chegar ao Braemar sacos de arroz e cachos de banana, que integrantes da tripulação britânica fizeram subir a bordo no meio da noite, como fugitivos de algum tipo de expedição pirata.

O testemunho desse momento foi divulgado por Anthea depois de conhecida a boa notícia de que Cuba os receberia. Ela postou outro vídeo em que os passageiros, já relaxados sobre a coberta, agradeciam o gesto solidário da ilha e faziam brindes à saúde dos cubanos. Como uma veterana nas redes sociais, não só reportou os fatos a partir do barco, como criou o hashtag #DunkirkSpirit (Espírito Dunkerque), que alude à evacuação de 330 mil soldados aliados – a maioria britânicos – das costas francesas em maio de 1940, no início da Segunda Guerra Mundial, quando Adolfo Hitler parecia invencível.

Para nós Dunkerque não fala apenas de heroísmo, mas também de humanidade. Significa que há saídas na pior das circunstâncias e, desta vez, temos que agradecer a Cuba, comentou Anthea, aliviada com a notícia de que o cruzeiro atracaria na ilha.

A decisão de Havana de permitir a entrada do MS Braemar, depois da solicitação dos governos de Reino Unido e Irlanda do Norte, não surpreendeu os cubanos, que têm uma longa tradição de colaboração médica e humanitária. Desde os inícios da década de 1960, milhares de trabalhadores da saúde têm colaborado com quase todos os países pobres do mundo. Mais de 35 mil estudantes de Medicina de 138 países formaram-se gratuitamente na ilha. Depois dos devastadores terremotos no Paquistão (2005) e Haiti (2010), ou durante a crise do ebola na África ocidental, em 2014, os médicos cubanos foram os primeiros a chegar aos territórios marcados pela devastação.

A colaboração cubana na área da saúde e seus indiscutíveis resultados científicos, particularmente no campo da biotecnologia, têm provocado a ira venenosa nos privilegiados de sempre e a simpatia e afeto nos carentes de sempre. A verdade, porém, é que Cuba, tábua salvadora para muitos durante a pandemia do Covid-19, vem sendo distinguida com expressões de carinho dirigidas ao exército dos coletes brancos. Os governos latino-americanos que sob pressão de Washington expulsaram os médicos, hoje vivem o duplo calvário do coronavírus e da reclamação de seus povos por tal ato de soberba e estupidez. Uma fila de nações reclama a colaboração médica e os medicamentos da ilha, que demonstraram eficiência no tratamento dos enfermos.

O grande paradoxo é que, enquanto os barcos com petróleo e alimentos contratados por Cuba são perseguidos pelos Estados Unidos, os barcos com os enfermos que ninguém quer em seus portos recebem solidariedade e respeito em Cuba. O regime de Trump, por certo, se negou a receber o Braemar, segundo noticiou o jornal inglês The Independent.

As duas palavras mais repetidas logo depois do socorro ao MS Braemar no Twitter foram ‘Cuba salva’. Nenhuma casualidade.


(*) Jornalista cubana, editora do site Cubadebate.

sábado, 7 de março de 2020

“NÃO MATAMOS GENTE. MATAMOS JUDEUS, CIGANOS E INIMIGOS DA PÁTRIA E DO FÜHRER”


(Foto da Internet: usada na edição deste blog)
“Lá em Auschwitz, os que matavam judeus eram tão racionais, tão brilhantes, tão inteligentes, professor Müller, como aqueles que, dentre eles o senhor, lecionavam nas universidades”.



“Dizíamos a eles que teriam de tomar uma chuveirada. Nós os colocávamos em galpões. Em vez de água, o que saía dos chuveiros era gás. Morriam aos milhares”.



Por José Pablo Feinmann (filósofo argentino) – trecho do livro ‘A sombra de Heidegger’, editora Planeta, pág. 153/4/5/6 (título e destaques acima são da edição deste blog).



(...)



Não matamos gente. Matamos judeus, ciganos e inimigos da pátria e do Führer. Dez mil por dia? Esse número lhe parece impraticável ou aterrador?



Por ora, impraticável.



Não é assim. Veja, nossa glória reside em nossa eficiência. Não fomos monstros irracionais nem desumanos. Monstros assim não teriam conseguido planejar as coisas com tão extraordinária  precisão. Lá em Auschwitz, os que matavam judeus eram tão racionais, tão brilhantes, tão inteligentes, professor Müller, como aqueles que, dentre eles o senhor, lecionavam nas universidades. Apenas a inteligência pode levar a cabo semelhante façanha. Tínhamos uma ordem: matar. Matar milhões de pessoas. Como fazê-lo? Nossa racionalidade de alemães, nossa tradição de povo instruído, nossa esmerada inteligência, professor, encontrou uma saída para tanto. Outro povo não o teria conseguido. Não por convenções morais, mas pela formação intelectual deficiente. Serei breve: dizíamos a eles que teriam de tomar uma chuveirada. Nós os colocávamos em galpões. Em vez de água, o que saía dos chuveiros era gás. Morriam aos milhares. O problema era outro. O problema que obrigou nossa razão, nossa inteligência, a elevar-se acima do irrealizável foi outro: como eliminar os cadáveres? Também resolvemos isso. Devo contar?



Posso imaginar.



Não, não pode. O senhor não consegue imaginar. O senhor foi um homem de ideias. As ideias requerem a ação. E a ação requer homens como eu. O senhor e eu fomos partes de uma mesma causa. No entanto, a parte mais árdua, a que mais requereu nosso patriotismo, coube a mim e aos meus. Por isso esperamos por Eichmann. O melhor de todos nós. Quanto aos números que talvez o atormentem, professor, evite-os. Vez por outra, lembre-se do que eu lhe disse: não eram gente.

(Foto da Internet)


Os chuveiros.



A foto que tenho diante de mim mostra um homem ao ser levado para lá. Não o arrastam. Não o empurram. Vai, sozinho e nu, para a morte. Vê-se seu membro viril. Um ponto branco no púbis excessivo, superdimensionado pela má qualidade da foto, que acentua o preto e o cinza – sobretudo, o preto. É um homem tão magro, tão descarnado, que, em rigor, já não o é. É uma coisa. Werner Rolfe se equivocava. Não matavam judeus, ciganos nem inimigos do Reich. Era impossível decifrar a condição do homem da foto. Seus olhos eram enormes. Fato que induzia a erro. A achar que ele olhava com terror. Não, já não olhava. A dilatação daqueles olhos – produzida pela fome e pelo sofrimento – era uma forma de cegueira. As maçãs do rosto também eram enormes, brotando do rosto esquelético. Lembro-me (com brutalidade, subitamente) de uma frase de Gabriel Marcel: “A cada dia nos parecemos mais com o cadáver que seremos”. Esse homem, esse que agora caminha para o chuveiro de gás, era já o cadáver que seria.



Rolfe não se equivocava: não matavam pessoas, matavam coisas. Matavam mortos. Antes, muito antes, de metê-los sob os chuveiros de gás, eles os haviam esmigalhado como pessoas. Eles os tinham submetido à tarefa essencial do campo: extirpar a identidade. Matar a subjetividade. Matá-los como sujeitos.



Esse homem, com seus olhos enormes, me olha. Porque viu a câmera. Viu o carrasco que se dedicou a registrar essa nova façanha de nosso país. E o olhou. Sei que não viu nada. Sei que já nada via.



Agora, porém, vê a mim.



Olha-me.



Não tenho nem uma só resposta para dar-lhe.



Sei que não somos os únicos monstros deste mundo. Sei que os bolcheviques matam milhões em seus campos gelados. Sei que os americanos se saíram como carniceiros em Hiroshima e Nagasaki com tanta eficácia quanto nós em nossos campos. Sei que Mussolini, no final, nos entregou judeus aos milhares. Sei que os franceses foram dóceis ao ponto da cumplicidade. Sei que Churchill foi um carrasco em Dresden. Sei, portanto, que ninguém pode julgar-nos. O deserto cresce, apropria-se da terra, e nada terá sentido.



Não tenho a quem pedir perdão.



Mas preciso fazê-lo.



Peço perdão a ele. A essa ruína humana que caminha para a câmara de gás. A esse morto que vai morrer. A esse ser de olhos imensos que nada vêem. A esse pobre cego. A essa vítima eu peço perdão. Sei que algumas coisas que fiz ou que não fiz, que disse ou que não disse, que soube mas preferi ignorar, sei que certas ideias que apoiei covardemente, sem questioná-las, sem medir as consequências, sem perguntar a que serviam, levaram-te até aí, onde estás agora, só, nu, a poucos passos de uma morte premeditada com feroz racionalidade, só, sem identidade possível, pois não sei nem é possível saber quem és, se és um judeu, um polonês, um cigano, um inimigo do Reich ou um cão magro, sujo, maltratado e comido pelas pulgas da peste. Nu entre homens de uniforme. Aí estás. A eles o uniforme dá identidade, poder. Tua nudez é anônima. Tua identidade não existe. Tu és lixo e morrerás em meio ao lixo. A ti peço perdão. Diante de ti sou culpado. Sou o que fizeram de ti. Sou o lixo que és. Ou sou pior. Porque sou um cúmplice, que se achava inocente, que preferia não saber, ignorar, o que faziam de ti em meu nome, em nosso nome, em nome da Alemanha. Portanto morrerei contigo, como lixo e no lixo, sem redenção.



(...)

domingo, 1 de março de 2020

“SERÁ QUE NÃO TEM UM GENERAL DE VERRRRGONHA PRA DAR UM JEITO NESTE PAÍS!?”


Corina, Fabrício e Adelino: irmãos dos Oliveira dos Fabrício de Seabra
A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: a década de 1950 tem um recorte especial na mente do cronista.



Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente



Perguntava indignado Adelino Oliveira, lá pela segunda metade da década de 1960, em Seabra, então uma cidadezinha menor e mais atrasada que as vizinhas Palmeiras e Lençóis. Hoje – graças ao empurrão da BR-242 (Bahia-Brasília) – é considerada a capital da Chapada.



“Será que não tem um general de verrrrgonha pra dar um jeito neste país!?” – se indignava seo Adelino, ex-escrivão de Coletoria estadual, caçula do clã dos Oliveira dos Fabrício. (Irmão de Fabrício d’Oliveira, rábula e chefe político, neto do irmão do afamado coronel Manuel Fabrício de Oliveira, de Campestre/Seabra).



O general aí vem por conta da vigência da ditadura militar. Mas não só. A família Oliveira dos Fabrício, liderada por Fabrício d’Oliveira, lá pela década de 1950, era oposição na política seabrense. E, então, ligada à velha UDN (União Democrática Nacional), nacionalmente sempre pobre de votos e chegada aos militares e aos golpes (ou tentativas de).



Não era à toa que seo Adelino ansiava por um “general de verrrrgonha” (nunca passaria pela cabeça dele a possibilidade do protagonismo popular). O candidato a presidente dos sonhos da família, nesses tempos de hegemonia do getulismo/trabalhismo, era o brigadeiro Eduardo Gomes, nunca emplacado no veredito das urnas.



E sua grande estrela, como não poderia deixar de ser, o famigerado Carlos Lacerda, ex-comunista que “costeou o alambrado” (expressão ao gosto do velho Brizola, virou a casaca, passou para o lado do inimigo) e tornou-se virulento líder direitista, a serviço do império estadunidense.



Na Bahia, a família seguia o general Juracy Magalhães, tenente interventor da Revolução de 30 que tomou gosto pelo poder e virou chefe político. Tornou-se superconhecido nacionalmente como chanceler da ditadura, quando disparou a célebre sentença: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” (Bolsonaro tem aí um notável precedente).



Mas, pelo menos na visão do clã dos Fabrício, localmente nós éramos os “bons”: sérios, bem intencionados, oposicionistas, pobres. Eles eram os “maus”, os donos do poder, representados entre as autoridades locais pelo prefeito e o delegado de polícia.



Os seus líderes: Manoel Teixeira Leite (pai do ex-prefeito Dálvio Leite), Sílvio Almeida, Jorge Alves de Oliveira (de Jatobá/Baraúnas, pai do querido companheiro Jorginho Oliveira), Aloísio Rocha (pai de Aloisinho, jornalista, cantor/compositor, mora em Belo Horizonte), Walter Coutinho (de Parnaíba/Iraporanga/Iraquara, pai do hoje vice-prefeito de Iraquara Nino Coutinho) e o jovem (na época) deputado Osvaldo Teixeira (filho de Sílvio Almeida), do PR (Partido Republicano), velho partido do cacique Manoel Novaes.



(Osvaldo é um dos poucos que podem confirmar ou contestar as informações disseminadas por aqui: dos protagonistas citados, é o único vivo).



Pela década de 1950, Waldemar Santos (“Preto” de Zé de Cabocla) circulava pelas ruas da pequenina cidade, durante as campanhas eleitorais, alardeando pelo serviço de alto-falante instalado num jeep: era a voz da “coligação PSD/PTB/PR” em disputa com a UDN (PSD – Partido Social Democrata e PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, ambos fundados a partir da liderança de Getúlio).



A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: ainda na década de 1950 (exatamente 1958), seo Adelino foi candidato a prefeito e “quase ganha”, dizem;



Em 1952, quando da morte de Eva Perón, a fada dos “descamisados” argentinos, ele teve relevante papel na cobertura “jornalística” da trágica perda popular, pelo menos a nível local: instalou um rádio (daqueles radjão de madeira, com um grande “olho mágico” verde) numa das janelas da frente de sua casa, a todo volume. De modo que os seabrenses que passavam por ali puderam acompanhar, “ao vivo”, os lances do fascinante velório de repercussão internacional;



Em 1954, quando do suicídio de Getúlio, um outro membro do clã, conhecido como Zeno (Naziozeno José de Oliveira), foi visto pelas ruas da cidade, chorando, secando as lágrimas com um lenço e lastimando: “Um homem tão bom...” (contraditoriamente, porque não eram chegados ao getulismo/trabalhismo).



Seo Adelino se foi aos 81 anos. E o ansiado “general de verrrrgonha”, pelo jeito, ainda não apareceu. Para consolo, resta incensar com o comentário lisonjeiro de um conterrâneo: “Seo Adelino é um homem de sabença” (Na verdade, o elogio foi motivado pela suposta excelência dos nomes que escolheu para os primeiros filhos: Stimson, Jadson, Esthônia e Smitson).



PS 1: Quem merece mesmo uma crônica (de fato, várias) é o chefe político da família, Fabrício d’Oliveira, um genuíno humanista, defensor dos direitos humanos. E um respeitado rábula, com quem tive o privilégio de aprender o sábio preceito jurídico: In dubio pro reo (‘Na dúvida, em favor do réu’, a valiosa presunção da inocência, estuprada pelo lavajatismo).



PS 2: Um pouco antes do período focado, foram destaques na política de Seabra: Tito Luna Freire, primeiro prefeito eleito (1948/1951), pai do nosso cantor/compositor Hugo Luna; e o tenente Silvino Pires (com sua mulher, dona Santinha), juracisista roxo, aliado dos Fabrício.



PS 3: No próximo 2 de maio (um sábado), os descendentes dos Fabrício farão seu segundo encontro de confraternização em Seabra. O primeiro, realizado no ano passado (9/fevereiro), foi um sucesso. (ESTE ENCONTRO DO DIA 2 DE MAIO FOI CANCELADO DEVIDO À CRISE DO CORONAVÍRUS).