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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cuba: crepúsculo ou alvorecer?

O Pilha pura, blog inventado e comandado por Joaninha (Joaninha para os íntimos, minha respeitável editora, a jornalista baiana Joana D’Arck), abriu um debate sobre a sempre polêmica Cuba, a festejada e criticada “ilha de Fidel”. Um saudável debate. Vários “pilheiros” e “pilheiras” têm se manifestado. Há links (que palavra modernosa!) para artigo do jornalista Samarone Lima, que lançou recentemente o livro Viagem ao crepúsculo, e para outro do nosso Frei Betto, falando da blogueira cubana Yoani Sánchez.


Participo do debate com um depoimento (Crepúsculo ou alvorecer?) sobre lembranças dos meus oito meses cubanos. É o Pilha Pura ( http://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/) inovando, entrando numa seara que não era a sua, já que sempre foi um espaço mais chegado a amenidades, espaço do qual também tenho participado “con mucho gusto”. É sempre bom variar um pouco, já que costumo escrever mais sobre temas considerados “sérios”.

Aproveito para registrar que algumas das matérias deste meu blog, sobre as eleições bolivianas do dia 6 de dezembro, foram postadas no Fazendo media: a média que a mídia faz, um blog do Rio de Janeiro que conheci através do trabalho do jornalista Marcelo Salles, da revista Caros Amigos. Fiquei muito contente em chegar aos leitores do Fazendo media, pois o tenho em alto conceito. Também o blog Ananindeua Debates, da região metropolitana de Belém, vem publicando matérias minhas aqui de La Paz. Sob os auspícios do companheiro Rui Santana (chamado lá Rui Baiano), foi criado no blog o espaço intitulado Diário de um blogueiro (o blogueiro sou eu, claro).

Quando minha editora estiver postando estes últimos textos de La Paz, estarei aqui arrumando a sacola e a mochila para voar rumo ao verãozão da Bahia, depois de um ano e pouco por Manaus, Belém, Palmas, Goiânia, Campo Grande, Curitiba, Assunção e La Paz. Agora sim, os amigos podem sentir inveja: vou “de férias” para “Salvador de Bahia”, onde “sou amigo do rei” e durmo com “aquela mulher” que quero.

(Somente um senão. Vinha ultimamente avisando aos amigos que no próximo final de semana tomaríamos umas no bar de David, o predileto entre os prediletos. “Se o imponderável não meter o bedelho”, eu acrescentava sempre. Pois não é que o desgraçado do imponderável meteu o bedelho? Já soube que nosso David está passando por uma curta temporada de tratamento médico. Temos então que transferir o ansiado encontro para outro lugar. Que jeito?).

Bem, me desculpem o charme, “de férias” na Bahia não costumo escrever. Até um dia!

Números da grande vitória de Evo



A Corte Nacional Eleitoral (CNE) chegou ontem, segunda-feira, dia 14 - oito dias após as eleições -, aos quase 100% dos votos da vitória do presidente Evo Morales. A computação dos sufrágios chegou aos 99,23%. Eis os números: Evo e seu Movimento Ao Socialismo (MAS): 64,08% dos votos(10 pontos percentuais acima da sua eleição em 2005), enquanto o segundo e terceiro colocados ficaram com 29,5% e 5,6%.

A maioria de 2/3 do congresso foi confirmada. No Senado, onde o MAS é atualmente minoria, e pela nova Constituição passará a ter 36 membros, o placar ficou assim: governo 26 e oposição 10. Na Câmara dos Deputados, o MAS elegeu 87 (ou 88, um ainda está pendente) dos 130 deputados. Dos 327 (ou 328) municípios, os governistas tiveram maioria em 269.

Nos nove departamentos (estados), Evo teve vitórias esmagadoras em três (La Paz, Oruro e Potosí); frentes folgadas em dois (Cochabamba e Chuquisaca); uma vitória equilibrada em Tarija; e derrotas, com votação equilibrada, em três (Santa Cruz, Beni e Pando). Estes quatro últimos departamentos são aqueles da famosa Meia Lua, que era considerado bastião inexpugnável da direita, onde os massistas conseguiram finalmente penetrar. Só para ilustrar: a representação dos senadores nos quatro “estados” está dividida meia a meio.

Houve 5,1 milhões de eleitores inscritos. O comparecimento às urnas foi récorde: mais de 90%, um percentual que faz morrer de inveja as mais badaladas democracias ocidentais. Os votos brancos ficaram na casa dos 3% e os nulos, 2%. No exterior (primeira vez que houve votação), onde 170 mil foram habilitados a votar (número irrisório, há mais de 2 milhões de bolivianos fora do país), o MAS ganhou disparado, especialmente na Argentina, onde votaram mais de 50% dos 170 mil; e no Brasil, com 94,95% dos votos (estavam inscritos 18 mil em São Paulo). Ganhou também na Espanha e perdeu nos Estados Unidos, onde se inscreveram apenas 11 mil pessoas.

O tal do regime autonômico está definitivamente vigente na Bolívia. O “sim” às autonomias teve vitórias contundentes, sempre em torno dos 80%. A consulta foi feita em cinco departamentos (quatro já tinham optado pela autonomia naquele processo conturbado do ano passado), na região do Gran Chaco, do “estado” de Tarija, e em 12 municípios, a chamada autonomia indígena. Somente em um destes 12 municípios, o "não" venceu numa votação apertada (não sei o porquê desta solitária e estranha manifestação).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adeus Bolívia!


Paseo El Prado (foto de Deta)


De La Paz - Que significa Bolívia? “Bolívia é um amor desenfreado”. Esta definição é do libertador da hispano-américa, Simón Bolívar (o nome do país, claro, vem do nome do libertador, que foi o seu primeiro presidente após a independência, em 6 de agosto de 1825). Já ouvi a frase algumas vezes, citada pelo presidente da Venezuela (terra de Bolívar), Hugo Chávez, o principal líder anti-imperialista da América Latina, um dos alvos preferenciais da mídia capitalista.



Falando em anti-imperialismo, li outro dia aqui no Cambio, jornal estatal (é bom ter à disposição, todos os dias, um jornal estatal de um governo revolucionário), uma verdade lapidar: vivemos, os latino-americanos, sob cerco militar e midiático. Verdade lapidar. Para resistir, só o povo mobilizado e organizado, o povo nas ruas, a insurgência popular. Sem isso, estamos f...ritos.



Bem, pra mim, Bolívia (estou pensando em La Paz) são duas coisas: revolução e altura. Revolução porque (para usar uma linguagem simples, poderíamos dizer, jornalística), o país tem um presidente - o “furacão Evo”, como chamou o La Prensa, um dos principais jornais bolivianos, em manchete de 7 de dezembro, dia seguinte às eleições – que “manda obedecendo”.



Todo presidente manda obedecendo. A alguém, a alguma coisa, tudo bem.O diabo é que grande parte dos presidentes manda obedecendo aos mais ricos, às empresas transnacionais (as que mandam ou querem mandar no mundo, sem que para isso tenham se submetido a qualquer tipo de consulta ao povo), enfim, para abreviar, ao império dos Estados Unidos.

 Alto, vista de La Paz (foto minha)


Mas o “índio” Evo Morales Ayma manda obedecendo aos mais pobres, aos movimentos sociais, aos seus “hermanos” povos originários/camponeses, aos mineiros, aos trabalhadores. Você duvida? Eu acredito. E pude sentir aquele gostinho da velha e maltratada utopia na Praça Murillo, na festa da vitória, na noite de 6 de dezembro, milhares de bolivianos e bolivianas aplaudindo seu presidente, pulando, dançando e gritando: “Socialismo... socialismo... socialismo”.



Revolução porque eu estava ali na multidão, emocionado, de vez em quando me lembrava que virei repórter depois de aposentado, e tirava um “papelito” do bolso e anotava alguma coisa. Mas... teve uma hora, no decorrer da festa, que o animador de auditório começou a homenagear os diversos “hermanos” latino-americanos ali presentes. Quando citou os brasileiros, não vi ninguém se manifestar, levantei o braço direito, punho fechado, naquele gesto significativo, recebendo sorrisos de simpatia ao meu redor.

La Paz, vista de El Alto (foto de Deta)


Revolução e altura. Altura porque os 3.600 metros acima do nível do mar de La Paz maltrataram bastante o meu coração (em El Alto, a cidade de um milhão de habitantes que é, de fato, um grande subúrbio de La Paz, é pior, são 4.000 metros). Que saudade da minha velha e boa saúde! É um baticum desenfreado do coração, sangramento pequeno, mas constante da mucosa nasal, pele e lábios ressecados, um cansaço dos diabos, deixei de dar minhas caminhadas, acho que não engordei porque o apetite também não é lá grande coisa. Além da pressão alta (controlada), me apareceu até pressão baixa.



Conclusão: resisti bravamente até as eleições, valeu, porém La Paz nunca mais! Nunca mais um passeio pelo Paseo El Prado, meu ponto predileto por aqui, nunca mais o olhar para o alto, para El Alto, para os morros ao redor, com suas casas e edifícios de tijolo sem reboco, a paisagem que mais me impressionou em La Paz (vista lá de cima, de El Alto, La Paz fica num buraco).



“Entonces”, nunca mais! Adeus Bolívia! Longa vida à Revolução Democrática e Cultural do insurgente povo boliviano!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Bolívia rumo à refundação do Estado

De La Paz (Bolívia) – Enquanto o lento processo de computação dos votos vai confirmando a grande vitória do presidente Evo Morales, com ampla maioria no congresso – ontem, dia 8, dois dias após as eleições, a Corte Nacional Eleitoral (CNE) divulgou os números oficiais de 31% dos sufrágios -, o governo e os movimentos sociais avançam rumo à estruturação de um novo Estado.

O toque de avançar foi dado pelo próprio Evo, o indígena Aymara de 50 anos, que era líder sindical dos cocaleiros e foi reeleito com mais de 60% dos votos. Ele disse em discurso na noite do dia 6, na festa da vitória: “Ter 2/3 de senadores e deputados nos obriga a acelerar o ‘proceso de cambio’ (mudança)”. E seu vice, também reeleito, o intelectual Álvaro García Linera, 47 anos, ex-preso político, em entrevista ao jornal estatal Cambio, apontou a tarefa do momento: construir o novo Estado.

Que seria isso? Em que direção navegaria o novo Estado Plurinacional dos bolivianos, sob o timão da chamada Revolução Democrática e Cultural do Movimento Ao Socialismo (MAS)? As declarações das autoridades governamentais – e dos líderes vinculados à Central Obreira Boliviana (COB) e da Coordenação Nacional para o Cambio (Conalcam) – não deixam dúvidas.

MAIS INCLUSÃO SOCIAL E IGUALDADE - Será um Estado marcado por mais inclusão social e igualdade entre os povos; por um papel predominante e determinante na economia (a ênfase é a industrialização dos recursos naturais: gás, petróleo, lítio, etc); pelo combate à corrupção; pela modernização das leis que regem os sistemas judicial e eleitoral; e pela institucionalização dos chamados estatutos autonômicos, inclusive indígenas.

Tudo isso já está chancelado na nova Constituição Política do Estado (CPE), aprovada em referendo popular com 62% dos votos, em janeiro/2009 – fato inédito na história da Bolívia e raríssimo na história das Américas. O problema era que a maioria direitista no Senado engavetava os projetos visando a regulamentação dos dispositivos constitucionais (alguma similitude com o congresso brasileiro emperrando a aplicação da nossa Constituição “cidadã” de 1988?).

Os comentaristas políticos falam de 100 a 200 projetos de lei enterrados lá pelo Senado. O mais notório deles propõe uma luta radical contra a corrupção, a chamada Lei Marcelo Quiroga Santa Cruz - em homenagem ao líder socialista que foi assassinado em 1980, num massacre de uma dezena de políticos de esquerda quando da implantação da ditadura militar de Luis García Meza, atualmente enfermo e cumprindo pena de prisão em La Paz.

(O atual presidente do Senado, Óscar Ortiz, do departamento – estado - de Santa Cruz, ficou muito conhecido por sua liderança na reação ao “proceso de cambio” e, claro, pelo engavetamento dos projetos considerados progressistas. Castigo exemplar das urnas: não foi reeleito).

O GOVERNO DE EVO TEM PRESSA - E o governo tem pressa em discutir e aprovar as novas leis na Assembleia Legislativa Plurinacional, novo nome do congresso a partir da legislatura a ser iniciada em janeiro/2010 (este “plurinacional” tem razão de ser: a Bolívia agora, oficialmente, é composta por 36 povos, incluídas aí as várias nações indígenas).

Parece exagero, mas na segunda-feira, dia 7 – dia seguinte às eleições, com festa da vitória entrando pela madrugada – Evo Morales reuniu seu ministério ampliado (ministros, vice-ministros e dirigentes das empresas estatais) para começar a decidir sobre os projetos prioritários a serem encaminhados ao novo congresso.

Já se discute um amplo pacote de leis. As que ganharam mais repercussão nos meios de comunicação foram as que se referem ao combate à corrupção, como a que faculta a investigação de grandes fortunas e a que ameaça acabar com o sigilo bancário para políticos, ocupantes e ex-ocupantes de cargos públicos (durante a campanha eleitoral, Evo e Álvaro Linera fizeram divulgar comunicado aos órgãos pertinentes da área financeira abrindo mão do seu, deles, sigilo bancário. E desafiaram os candidatos da oposição a fazerem o mesmo. mas estes desconversaram e esqueceram o incômodo assunto).

QUE TAL VOTAR EM GILMAR MENDES? - Estão na pauta vários outros projetos, como a reformulação da previdência social, incluindo aumento no valor dos proventos e pensões; universalização da assistência à saúde; reforma educacional; funcionamento do próprio congresso; reforma do sistema eleitoral (por exemplo, ampliar a participação dos bolivianos residentes no exterior nas eleições), etc, etc, tudo nos marcos da nova Constituição.

Um tema que vai incendiar mentes e corações será a modernização do sistema judicial. Ele está incluído na nova legislação prevista para aprovação nos primeiros 180 dias de atuação do novo congresso, conforme determina a nova Carta Magna. Um detalhe lembrado pela senadora eleita por La Paz (o MAS elegeu todos os quatro senadores do departamento de La Paz), Ana María Romero, cotada para presidir o Senado: a nova Constituição diz que os magistrados do Tribunal Constitucional devem ser eleitos pela população (já imaginou o nosso presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, sendo submetido ao crivo dos eleitores brasileiros?).

Toda essa expectativa deixa os oposicionistas com pedras na mão. O mínimo que dizem é vaticinarem o enterro definitivo da democracia e tacharem o presidente de ditador, de totalitário. Que fazer? A maioria no congresso parece assombrar a baqueada direita boliviana e acender o entusiasmo da esquerda. O analista político Gonzalo Trigoso exalta o momento histórico vivido por seu país e decreta: o povo boliviano deu um cheque em branco a Evo Morales.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Evo festeja a grande vitória

(Fotos do site http://www.abi.bo/)





De La Paz (Bolívia) – A Corte Nacional Eleitoral (CNE) não divulgou à noite nenhum número da apuração dos votos da eleição de ontem, dia 6, mas as pesquisas de boca-de-urna e a festa dos partidários do presidente Evo Morales apontam para uma grande vitória do Movimento Ao Socialismo (MAS), que incluiria a obtenção da maioria de 2/3 do congresso, a meta principal do governo.

Evo, cuja reeleição nunca foi posta em dúvida, aparece nas sondagens de boca-de-urna sempre acima dos 60% de intenção de votos, enquanto Manfred Reyes Villa, do Plano Progresso para Bolívia – Convergência Nacional (PPB-CN), se mantém em pouco mais de 20%, e Samuel Doria Medina, da Unidade Nacional (UN), na faixa dos 10%.

Ainda segundo a boca-de-urna, o presidente e seu “proceso de cambio” (mudança) conseguem finalmente penetrar e neutralizar o antigo reduto da direita, os quatro departamentos (estados) do oriente, a chamada Meia Lua (ou Nação Camba) – Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija -, onde no ano passado houve a tentativa de separatismo e golpe de Estado. As pesquisas indicam que Evo ainda perde nos três primeiros, mas por diferenças pequenas, e já ganha no quarto.

MAIORIA DE 2/3 NO SENADO - Tanto assim que os massistas preveem dividir as vagas (são quatro por cada departamento) no Senado com a oposição nos quatro departamentos (na noite do domingo, dois candidatos de Santa Cruz do MAS deram entrevista numa emissora de TV já falando como senadores eleitos).

Ao discursar na festa que entrou pela madrugada de hoje, dia 7, o ex-líder sindical dos cocaleiros deixou claro a certeza de que vai chegar ou ultrapassar os 2/3 no Senado, onde o MAS teve que amargar uma minoria nos quatro anos de governo. Pelas contas de Evo, que citou um a um todos os nove departamentos, os governistas vão ocupar, no mínimo, 26 das 36 vagas. Nos demais cinco departamentos, segundo suas palavras, o MAS só deixa escapar duas vagas: vai eleger três senadores em Chuquisaca e Cochabamba, e todos os quatro em Oruro, Potosí e La Paz (o departamento, onde está a cidade de La Paz e a de El Alto).

De fato, nestes três últimos departamentos, as pesquisas de boca-de-urna apontam triunfo esmagador do MAS, assim, a grosso modo, na base de uns 70% contra uns 20% para dividir com os demais sete candidatos (na verdade, para o segundo e terceiro colocados, pois os demais cinco candidatos têm votação inexpressiva). A senadora eleita por La Paz, Ana Maria Romero, comentou que o governo vai eleger também todos os deputados do departamento (devem ser mais de 20 dos 130 que vão compor a Câmara dos Deputados, onde os massistas já têm maioria).

A grande vitória da Revolução Democrática e Cultural, como é chamado o processo de mudanças na Bolívia, não se delineou apenas nos números citados por Evo Morales quanto à futura composição do Senado. Estava também no sentido geral de seu discurso, aplaudido a todo momento pelos entusiásticos seguidores que lotavam a Praça Murillo, onde fica o Palácio do Governo (“Palacio Quemado”) e a sede do congresso.

CAMINHO ABERTO PARA AS MUDANÇAS - Ele falou do balcão do palácio. Disse que agora o governo tem o “caminho aberto” para aprofundar as mudanças no país em benefício do povo boliviano, dando, mais uma vez, as boas-vindas aos profissionais, intelectuais e setores da classe média que se somaram ao “proceso de cambio”. E, também mais uma vez, destacou as virtudes do seu programa de governo para os próximos cinco anos (com ênfase na industrialização) e seus vínculos com os movimentos sociais.

Terminou com vivas à Central Obreira Boliviana (COB) e à Conalcam (Coordenação Nacional para o Cambio). E o grito de guerra “Pátria ou Morte!”, com a resposta da multidão: “Venceremos!” Logo em seguida, o grupo Kollamarka (toca músicas folclóricas nacionais) atacou com uma tal de “Morenada”, canção que parece conhecidíssima por aqui, e os massistas caíram na festa, inclusive as autoridades lá do balcão do palácio.

A ANIMAÇÃO, PORÉM, ESTAVA CÁ NA PRAÇA: fogos de artifício, bandeiras do MAS (predominância da cor azul), ou com as cores da bandeira nacional (vermelho, amarelo e verde), ou as “wiphalas” do movimento indígena (com quadradinhos coloridos, foto), cartazes exaltando o socialismo, retratos do Che, bonecos dançantes e muita alegria depois de um dia de uma eleição marcada por grande comparecimento às urnas (não sei ainda os índices). Depois, muitas das autoridades, incluindo o vice-presidente Álvaro García Linera (reeleito), desceram para a praça e entraram diretamente na dança.

(Topei, na multidão, com o ministro de Relações Exteriores, David Choquehuanca , que participou muito animadamente da festa, e tentei aproveitar a oportunidade. Mostrei meu crachá fornecido pela Corte Nacional Eleitoral e perguntei: “Ministro, está garantida mesmo a maioria de 2/3?” Ele escorregou, disse: “Amanhã, amanhã vai ser divulgado”).

(Manchete de hoje, dia 7, da primeira página do jornal La Razón, considerado o mais lido da Bolívia: “Reeleito e com mais poder”, sustentada pelo texto: “Pela primeira vez nos 27 anos de democracia, o presidente Evo Morales é reeleito através do voto cidadão (62,5%) e obtém o controle da Assembleia Legislativa Plurinacional” (congresso). Destaques: “O MAS consegue 24 senadores e 84 deputados. Podem ser mais”; “Evo se sente obrigado a acelerar o ‘proceso de cambio’”; “Manfred e Samuel, 5 anos mais na trincheira da oposição”; “Os observadores destacam a transparência da eleição”).

O equilíbrio das "cholitas"




Acrescentei em comentário no texto A fogueira dos insurgentes que estive em El Alto, na mega-concentração do MAS, e me chamou a atenção a quantidade imensa de “cholitas” – as típicas indígenas, mestiças bolivianas, com saias rodadas, chales coloridos e aqueles chapéus redondos na cabeça (ficam quase soltos, não sei como não caem a todo momento, cheguei a perguntar um dia se são amarrados, assim como o de Indiana Jones, mas não são). E outro detalhe curioso: muitas com o filho amarrado às costas.


Como havia prometido, aí estão algumas fotos.
















quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A fogueira dos insurgentes

De La Paz (Bolívia) - Na matéria “Onde erramos? (ficcao e realidade), falei na talvez última tentativa da direita em tentar reduzir o tamanho do triunfo de Evo Morales e seu “proceso de cambio” (mudança) nas eleições de domingo próximo, dia 6. Foi através da Corte Nacional Eleitoral (CNE), que fez uma espécie de depuração nos 5,1 milhões de eleitores inscritos, colocando 400 mil na condição de “observados”, cujos registros no novo padrão chamado biométrico teriam indícios de irregularidades na documentação. Então, foi dado o prazo até o dia 3 para que os “observados” comprovassem sua habilitação ao voto no dia 6. Tal decisão da CNE ocorreu faltando uns 15 dias para o pleito. Falei que no sábado, dia 28, 93 mil dos 400 mil já tinham regularizado sua situação.

Esta posição da CNE, que foi aplaudida pela oposição, provocou uma reação fortíssima do governo: o próprio Evo, que não usa malabarismos verbais para dourar ataques aos adversários - fala direto como fala o povo -, chegou a dizer que Antonio Costas, o presidente da CNE, é o verdadeiro chefe de campanha da oposição; o Cambio, jornal estatal, fez um editorial tachando a atitude da Corte de “genocídio político”, uma tentativa de matar a cidadania de 400 mil bolivianos.

E aqui, ao contrário do Brasil, quando você fala de reação do governo, você está falando de reação dos movimentos sociais, dos indígenas/campesinos, dos “obreros” (obreiros, operários, mineiros, trabalhadores). Para quem tem olhos habituados à pasmaceira social brasileira, é de certo modo inacreditável (não quero desmerecer os esforços dos movimentos sociais do Brasil – os méritos do nosso MST, por exemplo, são reconhecidos internacionalmente -, mas em termos de capacidade de mobilização (de “convocatória”, como dizem por aqui), a diferença é imensa. Na minha modesta opinião, como dizem os argumentadores mais jeitosos, está aí a chave do êxito do processo revolucionário na Bolívia atual, ao contrário do jogo deprimente da política de elite no Brasil, por exemplo. Não se sente o cheiro de povo na política brasileira, no que pese – tento não ser injusto – um certo diferencial e relativo sucesso do nosso presidente Lula).

Mas voltando, ia me perdendo na digressão:
Os movimentos sociais se mobilizaram e os “observados”, os eleitores que seriam excluídos (era muita gente para ser habilitada em tão pouco tempo), correram para as filas, sobrecarregaram as linhas telefônicas da CNE: queriam porque queriam votar no dia 6.

Atenção: falei que no sábado, dia 28, já eram 93 mil os “observados” habilitados a votar. Pois, na segunda, dia 30, o número dos habilitados já chegava a 274 mil, em torno de 68% dos 400 mil “observados”.

Desfecho: na terça-feira, dia primeiro, pela manhã, a CNE decidiu revogar sua decisão: não há mais “observados”, todos estão habilitados a votar no dia 6.

Ouvi a notícia na TV por volta das 13:30 horas do mesmo dia primeiro. Logo em seguida fui à sede central da Corte (para me credenciar a cobrir as eleições e a contagem dos votos). A rua em frente ao prédio da CNE estava cheia de indígenas (uns 300), com aqueles ponchos (é assim mesmo o nome? aquelas mantas coloridas) e chapéus característicos, uma grande faixa de uma federação campesina. Gritavam: “Qué queremos, carajo?” Respondiam: “Habilitación”.

Perguntei a uma policial: “Mas a Corte não já decidiu habilitar todo mundo?” Ela me respondeu: “É, mas eles não sabem ainda”. Minha impressão é que “eles” (a grande massa do que poderíamos chamar de insurgentes populares, a maioria pobre) não querem nem saber, não acreditam no que divulgam os meios de comunicação.

À noite, vi na TV que os manifestantes, no final, lá mesmo em frente ao portão da Corte Nacional Eleitoral, fizeram uma fogueira com as listas distribuídas pela CNE contendo os nomes dos 400 mil “observados”.

(Manchete de primeira página de hoje, quarta-feira, dia 2, do jornal La Razón, considerado o de maior circulação da Bolívia: “Fim da incerteza; todos os observados podem votar”. Destaques: “Antonio Costas diz que a pressão não foi fator decisivo”; “O governo valoriza a decisão e manda uma advertência à CNE”; “A oposição duvida da transparência nas eleições”.

Observação minha: uns 300 observadores internacionais acompanham o pleito, a maioria da União Européia (UE) e Organização dos Estados Americanos (OEA). Até agora, nenhum levantou qualquer suspeita quanto à lisura do processo).

(Escrevi isso aí pensando em botar nos comentários do meu blog. Ao acabar, porém, gostei da coisa e decidi: vou arranjar um título e pedir à minha querida e desprendida editora – me sinto importante quando falo “minha editora” – para postar como matéria).