domingo, 26 de janeiro de 2020

O ANTISSEMITISMO DE HITLER E O ANTIPETISMO DE MORO


Fabiano Viana Oliveira (Foto: da Internet)
Ressalvadas as proporções quanto à relevância histórica, o ódio aos judeus, que seriam culpados por tudo de ruim sofrido pela Alemanha, pode ser comparado à campanha contra o PT encetada a partir da Lava Jato.



Por Fabiano Viana Oliveira – professor na área de Ciências Sociais – trechos do livro ‘Em busca da verdade II – Bioética, hipocrisia e antipetismo’, páginas 77/78 e 86/87/88 (título e destaque acima são da edição deste blog)



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Em um paralelo histórico, que trago aqui mais por ser assustador que por ser acurado, o antipetismo pode ser identificado com o movimento antissemita dos anos 1920-1930. Note que a história do antissemitismo era (ou é) bem mais antiga e profunda, pois suas origens remontam ao Império Romano, mas o interessante como paralelo é o ódio gerado por conta de certos aspectos, em geral não justificáveis. Por exemplo, considerar os judeus como invasores recai na hipocrisia de negar que historicamente todos os povos foram ou são também invasores.

No caso específico da época em análise, a prática antissemita levou ao extremo do ódio e desumanização com os campos de concentração, de trabalhos forçados e de extermínio. Os judeus foram responsabilizados pelo discurso nazista por tudo de ruim que acontecera com a Alemanha, especialmente a crise econômica e a derrota na Primeira Guerra Mundial. Por mais que houvesse judeus ricos, banqueiros e financistas, que com certeza tinham se beneficiado dos processos sócio-econômicos correntes na época, não quer dizer que todos os judeus fossem automaticamente os responsáveis pelas mazelas da Alemanha no período entre guerras. Lembra um pouco também as expressões de Xenofobia que têm ocorrido no mundo de hoje (2018): sírios sendo hostilizados na Europa; mexicanos e árabes sendo hostilizados nos Estados Unidos; e venezuelanos e haitianos sendo hostilizados no Brasil.

Então, seguindo nosso paralelo, do mesmo modo foi sendo construído ao longo dos anos, especialmente dos últimos seis anos (2012-2018), a ideia de que tudo de errado que existe no Brasil é por culpa do PT: crime, violência, corrupção, inflação. Seria inclusive uma inviabilidade prática todos os males serem de responsabilidade de um único grupo, já que devido até à complexidade da sociedade brasileira, muitos são os grupos políticos que estão no poder ao mesmo tempo. Tentar reduzir tudo a só um grupo também causa a cegueira ou miopia em ver que outros grupos praticam as mesmas ações, já que grande parte dessas ações são integrantes de uma cultura político-administrativa tão intricadamente presentes na via institucional brasileira quanto a própria burocracia.

Pode-se hipocritamente também generalizar e culpar toda classe política, como é muito comum nestes tempos de desencantamento com a política e com os políticos e partidos. Mas já sabemos a essa altura que isso não resolve o problema, apenas o varre para debaixo do tapete. Pois estamos todos nós envolvidos com as práticas e costumes da política e da corrupção institucional no Brasil. Duvida? Essa declaração lhe ofende? Vamos então tentar analisar alguns exemplos históricos e trazer a antropologia e a literatura brasileira para por em questão a veracidade ou não do que afirmei.

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Quando Adorno e Horkheimer apontam a manutenção do pensamento mítico-religioso mesmo num ambiente de discurso científico predominante, isso faz lembrar o quão pouco realmente civilizados somos. Falando especificamente do Brasil, só uma argumentação nessa linha para se conseguir lidar com o comportamento coletivo dos brasileiros nos últimos 5 ou 6 anos (2012 – 2018), pois há uma similaridade muito incômoda entre este status vivente e o período de ascensão e supremacia do Nazismo na Alemanha entre os anos 1930 e 1940. Como já comparamos antes o antipetismo e o antissemitismo, talvez não seja preciso repetir os argumentos.


O discurso mítico embutido nos dois movimentos históricos em comparação mostra que há uma grande carência civilizacional em ambos os momentos. E note que são povos de características extremas de desenvolvimento técnico socialmente partilhado. Enquanto a Alemanha estava no topo ou auge de sua expressão técnica, à frente de todos os demais países em vários aspectos; o Brasil sempre foi e continua sendo a expressão do atraso grandioso, isto é, uma eterna promessa de grandiosidade reduzida à mediocridade por uma série de fatores históricos e culturais. Para saber mais sobre esses aspectos gerais da civilização brasileira, como expressão do atraso e da submissão a outros povos, sugiro a leitura de ‘O Povo Brasileiro’, de Darcy Ribeiro, e do mais recente ‘A Elite do Atraso’, de Jessé Souza.

A carência dos alemães naquele momento advinha da sua derrota na 1ª Guerra Mundial, mesmo estando em vantagem tecnológica, e, pior ainda, a imposição das nações vencedoras de uma indenização que determinaria a queda da autoestima de todo um povo, por questões geopolíticas anteriores à própria guerra, e que expunha muito mais a mesquinharia dos vencedores que a fragilidade dos perdedores. O discurso mítico nazista trazia um alento ao sofrimento e, sem dúvida, a convincente ideia de que havia um culpado: o outro. E de todos os outros, o mais fácil de ser responsabilizado: o povo judeu, mas mesmo que de fato banqueiros judeus tivessem lucrado com a derrota na guerra, não fazia sentido culpar todos os judeus pela crise e miséria do povo alemão.

Do mesmo modo que tão facilmente se convenceu que o PT e os petistas são os responsáveis por tudo de ruim no Brasil. Um discurso mítico tão injusto e falacioso quanto o do antissemitismo ou xenofóbico. Pois, por mais que existam petistas corruptos, não são somente estes, pois todo sistema burocrático brasileiro se mostra frágil à corrupção, desde muito antes de existirem o PT e os petistas. Só que diferente dos alemães, a nossa carência por lideranças parece advir de uma falha de projeto democrático, o qual foi sempre realizado de cima para baixo. Consultar e confiar nas escolhas populares sempre resvala no medo elitista de se perder o controle da máquina estatal para entes estranhos a essas próprias elites. Em parte, o antipetismo como expressão desse ódio de classe pode também ser identificado como ódio mais amplo à democracia.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

GABRIELLI ESTÁ ENTRE OS IMPRESCINDÍVEIS


José Sérgio Gabrielli (Fotos de diversas páginas do Facebook)
A banda progressista da Bahia fez expressivo ato de desagravo, na Reitoria da UFBa, contra a perseguição bancada pelo governo obscurantista de Bolsonaro, o lavajatismo e a mídia hegemônica.



Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do Blog Evidentemente



O serviço de som estava ruim e o ar condicionado não ajudava a amenizar o calor do verão baiano – reflexo da asfixia financeira imposta pelo governo Bolsonaro às universidades federais. Mas, mesmo assim, o professor José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, foi objeto de consagradora homenagem na noite da quarta-feira, dia 22, no auditório da Reitoria da UFBa, em Salvador.



Foi um baita desagravo. Vítima de perseguição política, por supostas irregularidades na direção da estatal do petróleo, ele teve sua aposentadoria como professor titular da Faculdade de Ciências Econômicas da UFBa suspensa pelo governo federal.



(Irregularidades nunca comprovadas, mas também nunca desmentidas, como é do modus operandi da Operação Lava Jato e os alvos prediletos do suposto combate à corrupção. Com suas ramificações no Judiciário e mídia hegemônica, tendo à frente a Globo).



Aposentou-se depois de 36 anos e dois meses de trabalho. Era, portanto, uma medida totalmente descabida e a Justiça restabeleceu logo seu direito. Mas amplos setores progressistas da sociedade baiana fizeram questão de mostrar publicamente sua indignação.



O ato, intitulado ‘Por Gabrielli, pela democracia’, foi puxado pela APUB (sindicato dos professores das universidades federais da Bahia) e Sindipetro (sindicato de petroleiros da Bahia). E o manifesto, que ressalta o “total e irrestrito apoio” a Gabrielli, foi assinado também por outras dezenas de entidades do movimento social e político.



Muita gente representativa da resistência democrática, popular, de esquerda e nacionalista estava lá – em torno de 350 pessoas (infelizmente, pouquíssimos jovens!). Em especial, gente do meio acadêmico e político, bem como ligada à Petrobras, como, por exemplo, Guilherme Estrella, destacado servidor da empresa que dirigiu trabalhos de pesquisa e exploração que levaram à descoberta do pré-sal. Ele veio a Salvador especialmente para participar do evento.

Emiliano José
Foi uma bela e sincera exaltação duma vida de militância política, iniciada desde a adolescência no movimento estudantil e continuada na criação e lutas seguintes do PT e da CUT. Resultando na formação dum notável quadro da esquerda brasileira, testado, lapidado e reconhecido nacionalmente quando dirigente da Petrobras durante os governos Lula e Dilma.



Foi o jornalista e ex-deputado Emiliano José quem conseguiu arrancar os gritos de entusiasmo da plateia e da mesa – às vezes, eles, os gritos (“por Gabrielli, pela democracia”), ficam contidos à espera duma oportuna provocação – ao citar os célebres versos de Bertold Brecht, para fechar o relato sobre a militância do homenageado:



“Há homens que lutam um dia e são bons,

há outros que lutam um ano e são melhores,

há os que lutam muitos anos e são muito bons.

Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”.



Palavras, aliás, que servem muito bem para o próprio Emiliano e, também, para grande parte dos presentes: homens e mulheres de cabelos grisalhos/brancos, uns carecas, outros barrigudos, na faixa dos 60/70 anos, que ainda parecem acreditar num mundo melhor, menos injusto e menos desigual.



Emiliano lembrou um lado publicamente pouco conhecido de Gabrielli: é que ele começou a “ganhar a vida”, como se diz, como jornalista, trabalhando na equipe que iniciou o jornal Tribuna da Bahia, em 1969, nos tempos da ditadura – a institucionalizada, a escancarada, a da censura governamental (e não a dos patrões).



Emiliano contou alguns episódios interessantes sobre as frequentes prisões de Gabrielli, entrelaçadas com o dia-a-dia da redação do jornal e de encontros casuais com chefes militares que comandavam a repressão. Certamente serão incluídos – se já não o foram – nas memórias que anda escrevendo e deliciando os antigos colegas. (Emiliano começou no jornalismo também na Tribuna, um pouco depois, em outubro/1974, logo após sair da prisão).



A institucionalidade é o que atravanca o movimento popular



O político mais graduado que apareceu por lá foi o senador Jacques Wagner, do PT, o homem que ostenta o galardão de acabar com o “reinado” na Bahia do velho ACM (ex-governador Antonio Carlos Magalhães), na eleição de 2006.



Com sua empolgante oratória, o ex-governador baiano despertou repetidos aplausos ao dar seu testemunho sobre esta grande figura que é Gabrielli. E, claro, sobre este triste momento em que a extrema-direita executa o processo de destruição dos avanços sociais que vinham sendo conquistados nos governos liderados pelo PT.



En passant, Wagner aproveitou para fazer um pouco de autocrítica quanto à forma de atuação das forças progressistas, na medida em que subiam – a partir dos anos 80 - os diversos degraus do poder político, chegando inclusive à Presidência e ao governo da Bahia: a prioridade que a esquerda e centro-esquerda passaram a dar à institucionalidade, em detrimento dos movimentos sociais e da ligação com as bases populares.

Jacques Wagner
Colégio Estadual Odorico Tavares chegou a ser ocupado por cerca de 35 estudantes, da tarde de terça-feira, dia 21, até em torno da meia-noite (Esta foto é de autoria de Betto Jr., reproduzida do site brasil.europalatina.com)
                      

Mas, ali mesmo no salão da Reitoria, estava patente a discrepância entre o discurso e a reformulação da prática política (nada como um choque de realidade!): uma tímida comissão de estudantes do Colégio Estadual Odorico Tavares, que chegou a ser ocupado durante umas 10 horas pelos alunos em protesto contra o seu fechamento, não chegou sequer a ter sua presença registrada pelos condutores do evento.



O governador é Rui Costa, do PT, ligadíssimo a Wagner, que estava condenando em discurso as distorções da institucionalidade. Os estudantes bateram de frente e perderam para o aparato institucional do governo baiano. (Líderes dos alunos acusaram Rui Costa de não dialogar, de ser autoritário, enquanto o governo alegou que o objetivo é matriculá-los em colégios mais próximos às suas moradias).

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O ANTIPETISMO É UMA EXPRESSÃO DO ÓDIO À DEMOCRACIA?


Parece que a maioria das classes médias e altas passou a odiar o PT por conta de fatores como: o próprio PT, a conjuntura mundial anti-esquerda e, principalmente, a influência da mídia.



Por Fabiano Viana Oliveira (professor na área de Ciências Sociais) – do livro ‘Em busca da verdade II – Bioética, Hipocrisia e Antipetismo’, páginas 91/92/93 (título e destaque acima são da edição deste blog)



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Se o antipetismo é uma expressão do ódio à democracia, como afirma a autora da citação feita anteriormente (Stella Santos, artigo ‘A destituição do Estado republicano e os movimentos populares’, no livro ‘Contra o Golpe’), então carrega muitos dos aspectos da hipocrisia que tratei no capítulo anterior, pois o mesmo foi construído com base num discurso de corrupção e ineficiência que a simples observação histórica demonstra no mínimo ser imprecisa. O que os fatos mostraram nesses últimos 20 anos é que a corrupção sempre existiu junto aos poderes públicos brasileiros, sempre incitada pelos corruptores do grande capital privado. Na verdade foi nos governos petistas que se fizeram (ou que parece pelo menos) mais investigações e combates à corrupção que em qualquer outro antes. E quanto à ineficiência, do mesmo modo os indicadores oficiais (que também podem ser questionados, é claro) mostram que os três períodos foram muito bons do ponto de vista macro econômico. Se tudo estava atrelado a um mercado financeiro fadado à implosão é outro aspecto, pois independe da eficiência do governo.


Então, se o antipetismo é realmente ódio de classe, posto no título do capítulo (ANTIPETISMO: ÓDIO DE CLASSE OU FEZ A FAMA AGORA DEITA NA CAMA?), e propalado pelos próprios petistas, então é um ódio contra si mesmo. O antipetista parece não gostar de ver que tem uma certa identidade com o PT ou porque acreditava no discurso do partido e se sentiu traído ou enganado em algum momento, aí passou a odiar tudo que o partido prega, isto é, passou a rejeitar o discurso e qualquer outro semelhante causa desgosto, o que acaba por reforçar a esquerdofobia hoje existente no mundo. Ou simplesmente porque enxerga nos supostos desvios de corrupção do partido algo que a si mesmo merecia também se beneficiar; esse sentimento parecendo bem típico de pessoas ou grupos que se sentiram prejudicados com a ascensão do partido, mas muito mais que discordar ideologicamente do mesmo, gostaria de estar junto nos ganhos de capital do período de apogeu do petismo lulismo (entre 2005 e 2010).



Esses dois modelos de ressentimento antipetista parecem ser predominantes em classes médias e altas, talvez presente também em alguns intelectuais. Mas neste caso fica difícil perceber um puro ódio de classe, já que os componentes dos quadros do PT são da mesma classe média, apenas talvez com um discurso pró-classes baixas, verdadeiro ou demagógico não importa. A questão é que se alega que as classes médias e altas odeiam os pobres e como o PT ajudou muitos pobres a saírem da pobreza, acabou por transformar os antigos espaços de exclusividade dessas classes (médias e altas) em espaços compartilhados com os ex-pobres: shoppings, aeroportos e restaurantes, por exemplo.



Se essa alegação é correta, então as classes médias e altas no Brasil são extremamente mesquinhas. Prefiro acreditar que a maioria dessas classes passou a odiar o PT por conta de outros fatores, tais como: o próprio PT, a conjuntura mundial anti-esquerda e, principalmente, a influência da mídia.



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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

OS INVISÍVEIS: ONDE ESTÃO? QUE POEMA HABITAM?


(Foto: da Internet)
“Aqueles que se enrolam em roupas, saem de casa pela madrugada nas carrocerias e trazem a pele lapeada”.


INVISÍVEIS – Donizete Galvão


    Sobre um livro de Fernando Braga da Costa

Homens como
arrebenta-pedra
que insiste
em existir
no estreito
espaço das
frestas
das calçadas

Uns teimosos
que vestem
macacões
cor de laranja
e andam pela
rua correndo
atrás do
caminhão.

Uns com
uniformes
gastos
que dormem
nas calçadas,
na folga do almoço,
em frente ao prédio
em construção.

Outros
que carregam
baldes,
vassouras,
limpam banheiros,
lavam calçadas
e mesas
de escritório.

Aqueles que
se enrolam
em roupas,
saem de casa
pela madrugada
nas carrocerias
e trazem a pele
lapeada.

        Onde estão?
        Que poema habitam?



(Extraído do site poesia.net, editado por Carlos Machado)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

AS CLASSES SUBALTERNAS JÁ SE PERCEBEM COMO INFERIORES


...por não terem acesso aos mesmos símbolos de status e de bom gosto. Nem é preciso escrever na lei que essas pessoas são gente de menor valor, pois elas próprias estão convencidas disso, na prática cotidiana...



Por Jessé Souza (sociólogo – autor de ‘A elite do atraso’) – Transcrito do livro ‘A classe média no espelho – Sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade’ (editora Estação Brasil), páginas 67/68 (título e destaque acima são da edição deste blog)



(...)



O decisivo aqui é constatar a forma pela qual se dá a legitimação e justificação dos privilégios injustos da classe média e da elite em detrimento das classes populares, seja dos trabalhadores, seja dos marginalizados. A “superioridade” das classes do privilégio positivo, herdada do berço, não precisa estar escrita na lei jurídica, pois está inscrita em nosso comportamento prático corriqueiro. A lei formalizada nos códigos normalmente se curva à lei prática de uma sociedade. Mais ainda, aparece como superioridade óbvia sem estar escrita em nenhuma parte, o que dificulta sua crítica e facilita sua difusão em todas as classes.



Assim, o sonho de toda criança das classes marginalizadas é ter um tênis Nike ou um iPhone, produtos corriqueiros entre os filhos da classe média real. As classes subalternas já se percebem como inferiores por não terem acesso aos mesmos símbolos de status e de bom gosto. Desse modo, nem precisa escrever na lei que essas pessoas são gente de menor valor, pois elas próprias estão convencidas disso, na prática cotidiana, pela impossibilidade de ter acesso a mercadorias que são mais um símbolo de distinção social do que algo para uso concreto.



Nesse sentido, as classes médias no Brasil usam de subterfúgio semelhante ao das classes médias de outros países – invalidando a sociologia do planeta verde-amerelo, corrupto por natureza, que herdamos de nossos “pensadores”. A forma de exercício do privilégio é semelhante. A concepção vira-lata do jeitinho brasileiro serve para outros fins, como veremos adiante. Mas, sem apelar a esse vira-latismo, há de fato entre nós uma singularidade da dominação social na relação entre as classes privilegiadas e as classes populares.



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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

JESSÉ SOUZA: “É IDIOTA A NOÇÃO DE QUE EXISTIRIA UM JEITINHO BRASILEIRO”


Sociólogo Jessé Souza (Foto: Internet)
A classe média brasileira não se comove com a morte ou mesmo o massacre de milhares de pobres, os quais são vistos como “gente inferior”.



Quem consome cachaça ou cerveja barata e come bife gorduroso no almoço é percebido como sendo “menos gente” por todos das classes privilegiadas.



Por Jessé Souza (sociólogo) – Extraído do livro ‘A classe média no espelho’ (editora Estação Brasil), páginas 64/65 (título e destaques acima são da edição deste blog)



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O consumo de vinhos caros, roupas elegantes, iguarias requintadas, acompanhado de formas específicas de comportamento social, expressas no modo de andar, de falar ou de se dirigir às outras pessoas, criam os vínculos mais sólidos de solidariedade de classe, conferindo uma sensação de superioridade àqueles que participam desse estilo de vida. A classe do privilégio pode se reconhecer facilmente na rua ou num evento social, constituindo uma espécie distante e, sobretudo, superior de ser humano.



As amizades, os casamentos – 99% das pessoas casam dentro de sua classe social -, os relacionamentos pessoais e de negócio, tudo será facilitado pela percepção imediata do compartilhamento de um mesmo estilo de vida, baseado num gosto comum. Essa sensação de pertencimento de classe social não é consciente nem explícita. É uma sensação prática, que transmite a certeza emotiva de se estar diante de um igual, “gente como a gente”, o que gera simpatia e empatia imediatas.



A classe média brasileira não se comove com a morte ou mesmo o massacre de milhares de pobres, os quais são vistos como “gente inferior”. Mas se comove muito com o drama humano de um único indivíduo de sua classe, quando é sequestrado ou morto.



Esse tipo de solidariedade e empatia imediata entre os membros de uma classe se contrapõe ao preconceito em relação aos que não fazem parte do mesmo mundo social. Assim, quem consome cachaça ou cerveja barata, come bife gorduroso no almoço, veste camiseta regata e bermuda e fala com erros de português, sem demonstrar o menor senso estético, é percebido como sendo “menos gente” por todos das classes privilegiadas. Isso não exclui o contato social, quando, por exemplo, entram nas casas de classe média para fazer a faxina ou consertar algo. Mas com essa gente não se travam amizades reais, não se casam, não se fazem negócios.



É assim que o mundo social se mantém desigual apesar da pretensão formal de igualdade jurídica entre as pessoas. É assim que o pertencimento de classe efetivamente atua em nosso cotidiano. E isso acontece em todas as atuais sociedades capitalistas, seja na periferia do sistema, como no México e no Brasil, seja no centro, como nos Estados Unidos e na França.



Aqui se nota como é idiota – não há termo melhor, pois faz de imbecis aqueles que nisso acreditam – a noção de que existiria um jeitinho brasileiro, só nosso, um planeta vira-lata e verde-amarelo só dos brasileiros. Em todas as sociedades modernas, são essas ligações emotivas e personalíssimas que estão por trás de todo tipo de privilégio.



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domingo, 22 de dezembro de 2019

QUEREMOS QUE VOCÊS SE LASQUEM, OTÁRIOS! (os donos do poder não podem dizer isso)


A opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem.



A opinião explícita que temos sobre nós mesmos tende a ser a mera justificativa da vida que levamos ou a mera repetição de chavões da mídia e da indústria cultural.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro ‘A classe média no espelho’, editora Estação Brasil, págs. 58/59/60 (título e destaques acima são da edição deste blog)



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Os donos do dinheiro e do poder não podem simplesmente dizer ao restante da sociedade: “Nosso intuito é deixar todos vocês, otários, sem propriedade e sem poder, apenas com a roupa do corpo, trabalhando nas condições mais favoráveis para mim”. Não é assim que acontece. Caso contrário, teríamos revolta e revolução. Não há dominação de poucos sobre muitos sem o recurso à mentira e ao engano. Em consequência, a opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem.



Tão importante quanto notar devidamente a dimensão simbólica da sociedade é compreender a interconexão entre moralidade e poder, ou entre aprendizado efetivo e mera justificação de privilégios injustos. A infantilização e o bloqueio da capacidade de reflexão se dão seja pela construção de mitos nacionais vira-latas, contos de fadas para adultos, seja pela instalação de uma oposição simplista entre o bem e o mal. O resultado é a difusão da crença de que existem pessoas do bem, de um lado, e pessoas do mal, de outro.



Esse é o mundo das novelas, dos romances best-seller recheados de clichês, dos telejornais da Rede Globo, dos programas de rádio patrocinados por bancos, etc. Na realidade, não existem pessoas que incorporam unicamente a virtude absoluta ou o mal absoluto. Algumas podem ser muito boas e outras muito más. Porém mesmo esses casos limítrofes são muito raros. A grande parcela da humanidade, cerca de 99% das pessoas, é uma mescla de ambas as coisas no comportamento concreto e cotidiano, e cada um de nós faz o que pode para separar o joio do trigo.



O bem e o mal, portanto, estão “dentro de nós”, assim como estão “dentro de nós” as fontes morais, historicamente construídas, que definem o que é a virtude e o que é o vício. Como vimos, na cultura ocidental o bem e a virtude são definidos tanto como controle das emoções pelo espírito quanto pela expressão verdadeira dessas mesmas emoções. Isso implica que ser virtuoso, segundo nossos próprios termos, é uma aventura contraditória e conflituosa, seja na dimensão existencial, seja na dimensão pública da vida política.



Usando a linguagem popular, viver a vida de todo dia “não é fácil para ninguém”. Essa dificuldade é, ao mesmo tempo, existencial e política. Somos dilacerados por demandas valorativas conflitantes. Além disso, somo coagidos pela antiga demanda moral que caracteriza a tradição judaico-cristã ocidental: devemos, afinal, escolher seguir os valores morais ou optar pelo interesse egoísta de ocasião?



A primeira dificuldade é cognitiva e se refere ao desafio de compreender as fontes morais que nos comandam. Como esses valores sociais comuns são inarticulados e inconscientes, imaginamos, infantilmente, que criamos subjetivamente os valores que nos servem de guia. As consequências disso, como veremos, são de difícil comprovação empírica. Apesar de tais valores serem invisíveis – ou melhor, apesar de serem tornados invisíveis à nossa reflexão consciente pelos podres poderes que nos dominam -, seus efeitos no comportamento prático são facilmente observáveis e comprováveis.



Basta observar o mais importante, ou seja, o comportamento prático, e não as opiniões explícitas que as pessoas mantêm sobre si mesmas. A opinião explícita que temos sobre nós mesmos tende a ser a mera justificativa da vida que levamos ou a mera repetição de chavões da mídia e da indústria cultural. Como amamos justificar o que somos, exatamente por conta disso costumamos odiar a verdade.



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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

VIOLÊNCIA NA BOLÍVIA JOGA OS “GOLPES BRANDOS” PARA A HISTÓRIA


(Foto: Ronald Schemidt/AFP - reproduzida do Página/12)
Grupos paramilitares – gangues armadas violentas – foram a vanguarda dos chefes golpistas bolivianos, reforçados pelas Forças Armadas e também pelas forças policiais.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente (baseado em artigo de Washington Uranga, do jornal Página/12).

O recente golpe de Estado que derrubou Evo Morales na Bolívia veio com um ingrediente novo, levando em conta o modus operandi que vinha predominando nas últimas duas décadas na América Latina: o chamado “golpe brando” (ou “suave”).

Foi como as forças da direita – instrumentalizadas pelas grandes corporações econômicas, os donos do dinheiro e verdadeiros donos do poder, aliadas às suas ramificações internas - derrubaram Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Manuel Zelaya em Honduras (2009).

Os protagonistas mais visíveis nos casos de Lugo e Zelaya foram o Congresso Nacional e o Judiciário, com o respaldo fundamental da mídia hegemônica e ajuda das Forças Armadas.

Agora, na Bolívia (outubro/novembro/2019), a marca predominante foi a violência, deixando um rastro de mortos e feridos (o próprio Evo Morales esteve na iminência de ser assassinado). Esqueça o  “golpe brando” (e também os antiquados golpes militares dos anos 1960/1970, também violentos).

Grupos paramilitares – gangues armadas violentas – foram a vanguarda dos chefes golpistas, reforçados pelas Forças Armadas e também pelas forças policiais (no caso destas últimas, um protagonista relativamente novo no cenário latino-americano – esta observação é deste blogueiro que vos fala).

Com o apoio escancarado do governo dos Estados Unidos e da OEA (Organização dos Estados Americanos), organismo que voltou a incorporar o papel de capacho do império, fazendo jus ao antigo apelido de Ministério das Colônias (adendo da Casa Branca para cuidar do “quintal” latino-americano). E que, por isso, vem perdendo prestígio dia a dia.
(Foto: da Internet)
Quem nos alerta para esta diferença ocorrida no golpe boliviano é o analista político Washington Uranga (jornalista uruguaio que vive na Argentina), do excelente jornal argentino Página/12.

No artigo intitulado ‘Alertas’, do último dia 13/novembro, ele lembra, ironicamente, que este golpe sangrento contra o governo de Evo Morales foi executado sob o argumento da “defesa da democracia”, como expressou, sem um pingo de vergonha, o presidente Trump.

Continuando sua análise, Uranga observa que no caso boliviano não se usou o lawfare (“mentira apoiada em falácias jurídicas”) que levou ao golpe contra Dilma Rousseff no Brasil (2016).

O mesmo lawfare que levou ainda à prisão e proibição da candidatura de Lula e à perseguição ao ex-presidente equatoriano Rafael Correa, cujo substituto, Lenín Moreno, eleito pelas forças políticas de Correa, bandeou-se para a direita, traindo seus eleitores.

O mesmo lawfare que foi usado para perseguir a ex-presidenta Cristina Kirchner. Na Argentina, porém, as urnas se encarregaram de consertar o rumo, logrando-se uma contundente vitória eleitoral sobre o direitista Mauricio Macri, defenestrado da presidência a partir de ontem, dia 10/dezembro.

Uranga estende mais sua análise focando o seu país, Argentina, mencionando a permanente ofensiva do império estadunidense e seus tentáculos neoliberais contra a Venezuela.

Lembra que até parece que todos os métodos tentados para impedir que os povos decidam seu próprio destino são insuficientes.

Me lembrei da clássica proclamação de Simón Bolívar, cognominado o Libertador (lembrado amiúde pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez): “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher de fome e miséria a América em nome da liberdade”.

Link para ler o artigo de Washington Uranga na íntegra (em espanhol):

domingo, 8 de dezembro de 2019

A REVOLTA LATINA, A CRISE AMERICANA E O DESAFIO PROGRESSISTA


Bandeira do povo indígena Mapuche como símbolo da rebeldia dos chilenos
Mesmo quando contestados, os EUA e o capital financeiro internacional mantêm o seu poder de vetar, bloquear ou estrangular economias periféricas que tentem uma estratégia de desenvolvimento alternativa e soberana, fora da camisa de força neoliberal, e mais próxima das reivindicações desta grande revolta latino-americana.


Por José Luís Fiori (linguista, professor da USP) – do portal Carta Maior, de 30/11/2019 (destaque acima, intertítulos e disposição dos parágrafos são da edição deste blog)


Num primeiro momento, pensou-se que a direita retomaria a iniciativa, e se fosse necessário, passaria por cima das forças sociais que se rebelaram, e surpreenderam o mundo durante o “outubro vermelho” da América Latina.


Ofensiva do governo brasileiro


E de fato, no início do mês de novembro, o governo brasileiro procurou reverter o avanço esquerdista, tomando uma posição agressiva e de confronto direto com o novo governo peronista da Argentina.


Em seguida interveio, de forma direta e pouco diplomática, no processo de derrubada do presidente boliviano, Evo Morales, que havia acabado de obter 47% dos votos nas eleições presidenciais da Bolívia.


A chancelaria brasileira não apenas estimulou o movimento cívico-religioso da extrema-direita de Santa Cruz, como foi a primeira a reconhecer o novo governo instalado pelo golpe cívico-militar e dirigido por uma senadora que só havia obtido 4,5% dos votos nas últimas eleições.


Ao mesmo tempo, o governo brasileiro procurou intervir no segundo turno das eleições uruguaias, dando seu apoio público ao candidato conservador, Lacalle Pou – que o rejeitou imediatamente – e recebendo em Brasília o líder da extrema-direita uruguaia que havia sido derrotado no primeiro turno, mas que deu seu apoio a Lacalle Pou no segundo turno.


Expansão da “onda vermelha”


Mesmo assim, ao fazer-se um balanço completo do que passou no mês de novembro, o que se constata é que uma expansão da “onda vermelha” havia se instalado no mês anterior no continente latino-americano.


Libertação de Lula


Nessa direção, e por ordem, o primeiro que aconteceu foi a libertação do principal líder da esquerda mundial, segundo Steve Bannon, o ex-presidente Lula, que se impôs à resistência da direita civil e militar do país, graças a uma enorme mobilização da opinião pública nacional e internacional.


Levante na Bolívia


Em seguida aconteceu o levante popular e indígena da Bolívia, que interrompeu e reverteu o golpe de Estado da direita boliviana e brasileira, impondo ao novo governo instalado a convocação de novas eleições presidenciais com direito à participação de todos os partidos políticos, incluindo o de Evo Morales.


Grande vitória no Chile


Da mesma forma, a revolta popular chilena também obteve uma grande vitória com a convocação, pelo Congresso Nacional, de uma Assembleia Constituinte que deverá escrever uma nova Constituição para o país, enterrando definitivamente o modelo socioeconômico herdado da ditadura do General Pinochet.


E mesmo assim, a população rebelada ainda não abandonou as ruas e deve completar dois meses de mobilização quase contínua, com o alargamento progressivo da sua “agenda de reivindicações” e a queda sucessiva do prestígio do presidente Sebastian Piñera, que hoje está reduzido a 4,6%.


Neste momento, a população segue discutindo nas praças públicas, em cada bairro e província, as próprias regras da nova constituinte, prenunciando uma experiência que pode vir a ser revolucionária, de construção de uma constituição nacional e popular, apesar de ainda existirem partidos e organizações sociais que seguem exigindo um avanço ainda maior do que o que já foi logrado.


Governo do Equador acuado


No caso do Equador, o país que se transformou no estopim das revoltas de outubro, o movimento indígena e popular também obrigou o governo de Lenin Moreno a recuar do seu programa de reformas e medidas impostas pelo FMI, e aceitar uma “mesa de negociações” que está discutindo medidas e políticas alternativas junto com uma agenda ampla de reivindicações plurinacionais, ecológicas e feministas.


Surpreendente avanço na Colômbia


Mas além de tudo isso, o mais surpreendente acabou acontecendo na Colômbia, o país que vem sendo há muitos anos o baluarte da direita latino-americana e é hoje o principal aliado dos Estados Unidos, do presidente Donald Trump, e do Brasil do capitão Bolsonaro, no seu projeto conjunto de derrubada do governo venezuelano e de liquidação dos seus aliados “bolivarianos”.


Depois da vitória eleitoral da esquerda, e da oposição em geral, em várias cidades importantes da Colômbia, nas eleições do mês de outubro, a convocação de uma greve geral em todo o país, no dia 21 de novembro, deslanchou uma onda nacional de mobilizações e protestos que seguem contra as políticas e reformas neoliberais do presidente Ivan Duque, cada vez mais acuado e desprestigiado.

Ponto em comum: rejeição das políticas neoliberais



A agenda proposta pelos movimentos populares varia em cada um desses países, mas todas elas têm um ponto em comum: a rejeição das políticas e reformas neoliberais, e sua intolerância radical com relação às suas consequências sociais dramáticas - que já foram experimentadas várias vezes através de toda a história da América Latina – e que acabaram derrubando o seu próprio “modelo ideal” chileno.


Frente a esta contestação quase unânime, duas coisas chamam muito a atenção dos observadores:


a primeira é a paralisia ou impotência das elites liberais e conservadoras do Continente, que parecem acuadas e sem nenhuma ideia ou proposta nova, que não seja a reiteração de sua velha cantilena da austeridade fiscal e da defesa milagrosa das privatizações que vêm fracassando por todos os lados;


e a segunda é a relativa ausência ou distanciamento dos Estados Unidos frente ao avanço da “revolta latina”.


Porque mesmo quando tenham participado do golpe boliviano, fizeram com uma equipe de terceiro time do Departamento de Estado, e não contaram com o entusiasmo que o mesmo departamento dedicou, por exemplo, à sua “operação Bolsonaro” no Brasil.


Ao mesmo tempo, este distanciamento americano tem dado maior visibilidade ao amadorismo e à incompetência da nova política externa brasileira, conduzida pelo seu chanceler bíblico.


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O Brasil pode se transformar num pária continental


Não é necessário repetir que não existe uma única causa, ou alguma causa necessária, que explique a “revolta latina” que começou no início do mês de outubro.


Mas não há dúvida de que esta divisão americana, junto com a mudança da geopolítica mundial, tem contribuído decisivamente para a fragilização das forças conservadoras na América Latina.


Tem contribuído também para a acelerada desintegração do atual governo brasileiro e a perda de sua ———— dentro do continente latino-americano, com a possibilidade de que o Brasil se transforme brevemente num pária continental.


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Para ler o artigo na íntegra:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-revolta-latina-a-crise-americana-e-o-desafio-progressista/4/45999