quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ponha um ônibus na praça



Se você é motorista, está desempregado, tem algum dinheiro (um capital razoável) ou crédito, você pode comprar um ônibus e ir para a batalha. É isto mesmo.

Foto: Deta (arquivo)
Na Venezuela, uma pessoa física pode botar um ônibus para rodar numa linha de transporte coletivo, num processo semelhante ao que ocorre no Brasil com os táxis। A pessoa tem de comprar o ônibus, comprar uma vaga (aqui se chama “cupo”, seria o equivalente brasileiro da compra do taxímetro) e se associar ao que se chama “sociedade civil”, que tem a concessão para explorar determinadas linhas। Pronto, o dono do carro vai ser patrão de si mesmo e pode contratar um ou mais auxiliares, podendo possuir ainda mais de um ônibus.



Cesar Mujica, 47 anos, casado, dois filhos, é dono de um ônibus (na verdade, quase todos os que rodam aqui em Caracas são pequenos, lembrando o que chamamos na Bahia de lotaçãओ) O nome mais geral é autobus, mas os menores são chamados também de buseta e camionete). Ele calculou o preço de um ônibus (já usado) em torno de 100 mil bolívares fortes (pela cotação oficial mais de 50 mil dólares e no mercado paralelo, hoje, uns 30 mil). Já o “cupo” está ao redor dos 60 mil bolívares. Mujica roda na linha Baruta-Trinidad-Chacaito e é associado à Sociedade Civil União Baruta, Chacaito e Hatillo, que tem a concessão para explorar a Linha Sul Leste (usam assim separadas, Linea Sur Este).


O secretário de Organização da sociedade, José Melo, informou que 80% do transporte público de Caracas é operado por sociedades civis deste tipo, enquanto o restante está sob a forma de cooperativas e “companhias” (esta terceira forma equivale a nossas empresas)


Isto sem computar os carros do que se chama “metrobus”, ônibus (todos grandes) vinculados ao sistema do metrô, que é estatal। No caso da sua sociedade, são 170 ônibus, o que aparentemente é muito pouco, já que se trata de uma área grande, estendendo-se até El Silencio, no centro da capital (abrange rotas que percorrem quatro municípios de Caracas: Libertador, Chacao, Baruta e El Hatillo। Fica de fora só Sucre)। A explicação de Melo é que outras sociedades exploram também os mesmos roteiros, com algumas variações, uns incluem determinados bairros, etc। Tais sociedades funcionam sob as normas das prefeituras (alcaldías) e do Instituto Nacional de Transporte e Trânsito Terrestre (Inttt)। Elas garantem assistência médica aos associados।



Particularidades
- A passagem de ônibus, em relação à de Salvador, é muito barata। Custa 1 bolívar forte (equivalente a 60/80 centavos do nosso real)
- Aos sábados e domingos, aumenta para 1,10 bolívar, o mesmo valor cobrado às vezes em qualquer dia, a depender de alguma variação na रोता -Para se entender isso, é necessário lembrar que o combustível aqui, para nossos padrões, é quase de graça। Um litro de gasolina custa 0,70 e 0,97 (tipo especial) bolívar। Significa que o tipo comum, de menor custo, equivale, hoje, a 57 centavos do real (R$ 0,57 – em Salvador um litro de gasolina está em R$ 2,75)।
-No sistema metrô/metrobus é ainda mais barato. Uma passagem no metrô (chamado aqui metro, sem acento) é 0,50 bolívar. Detalhes: não há cobrador, o motorista recebe o dinheiro na entrada do passageiro; o passageiro desce tanto pela porta dianteira, como pela traseira; não há catraca;
-o dinheiro que vai sendo arrecadado fica exposto numa caixa aberta sobre o capu, uma prova de que não há tanto assalto a ônibus como em Salvador; não existe aquela proibição quanto a sentar-se no capu, já vi motorista convidar passageiro a instalar-se no dito cujo।


Foto: Deta (arquivo)


Quanto aos táxis, há uma complicação: não se usa taxímetro.

O passageiro tem que negociar o preço da corrida com o taxista.



Bem, para o visitante que não conhece a cidade, é um horror। Como se discute o preço se não se conhece o roteiro, a distância? Por exemplo, quem chega pela primeira vez no aeroporto vai pagar, fatalmente, 150 bolívares para qualquer ponto de Caracas। Depois, se aprende que não é bem assim, o preço pode variar de 80 a 120 bolívares, a depender do local, do momento, da negociação. Falando do setor transporte, o que mata mesmo o cidadão são os engarrafamentos. Não sei se podemos comparar a São Paulo. Em relação a Salvador (uma cidade com a metade da população de Caracas), os daqui são 10 vezes piores.




Bolívar forte – Muita gente deve estar intrigada com essa coisa de “bolívares fortes”. Lembram da época de inflação alta, quando o Brasil vivia cortando zeros e trocando o nome da moeda? (Venezuela ainda sofre um dos mais altos índices de inflação da América, foi 22,5% em 2007).

É o seguinte: desde primeiro de janeiro deste ano que a moeda venezuelana, que se chamava simplesmente “bolívar”, perdeu três zeros e passou a se chamar “bolívar forte”.

Isto somente até 30 de junho, seis meses durante os quais circula também o bolívar antigo, com os três zeros. A partir de primeiro de julho, acaba o bolívar antigo e fica apenas o “bolívar forte”, o qual pode voltar a ser tratado como “bolívar”, simplesmente, sem o “forte”. Entenderam? Me esforcei bastante.

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Notícias da América Latina


Por: Jorge Botero / La Jornada
1) Morre Manuel Marulanda, o “Tirofijo” (nome verdadeiro Pedro Antonio Marín), principal fundador e chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Segundo o anuncio oficial, no domingo, dia 25, feito através de vídeo enviado à Telesur, ele morreu de enfarto no dia 26 de março. Tinha 78 ou 80 anos (foram veiculadas duas datas de nascimento), mais de 50 anos dedicados à luta armada nas selvas colombianas.


Foi substituído no comando por Alfonso Cano (nome verdadeiro Guillermo León Sáenz Vargas), 59 anos, antropólogo que aderiu à guerrilha depois do assassinato de milhares de companheiros que atuavam na oposição institucional, na década de 1970। Graças à eficiência da “inteligência” imperial, os membros das Farc são conhecidos hoje como “narco-guerrilheiros”. Certamente, quando passar a era do presidente Álvaro Uribe (se passar), serão reconhecidos como lutadores do povo.
2) Os anti-chavistas foram às ruas no domingo, dia 25, para marcar o primeiro aniversário do fechamento da Rctv, do mega-empresário das comunicações Gustavo Cisneros।
A emissora vai ao ar apenas em canal por assinatura। Ela foi acusada de participação no golpe de Estado de 11 de abril de 2002 (Hugo Chávez voltou ao poder dois dias depois por pressão popular) e quando venceu o prazo de sua concessão, em maio de 2007, ela não foi renovada pelo governo.

Vestidos com camisetas brancas (os chavistas usam sempre o vermelho), os oposicionistas, apesar do dia chuvoso, promoveram passeata e concentração, com direito à cobertura ao vivo da TV privada Globovisión (os partidários de Chávez a chamam “Globoterror”). Expressaram livremente seu protesto contra a falta de liberdade de expressão.

3) A maioria dos “especialistas” que pontificam (ou pontificaram), nas telas das TV's internacionais, analisando a guerra no Iraque não passa de picaretas, devidamente instruídos pelo Pentágono.

Eles são custeados, de uma maneira ou de outra, pelas empresas contratadas pelo governo estadunidense para prestar serviços na “reconstrução” do país destruído pelas bombas imperiais. Manipulação da informação é isso aí. A revelação não foi feita por nenhum jornal esquerdista, mas pelo The New York Times, conforme matéria publicada pelo diário venezuelano Últimas Noticias.

4) Criada, em reunião dos chefes de Estado dos 12 países da América do Sul, realizada no Brasil, na sexta-feira, dia 23, a União das Nações Sulamericanas (Unasul)। Mesmo com a ação desagregadora da Colômbia, aliada incondicional do império (Álvaro Uribe não quis avalizar a proposta de criação do Conselho de Defesa da região, de autoria do governo de Lula), o processo de integração soberana da América Latina vai em frente.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Democracia participativa

Na quinta-feira, dia 22, pela manhã (até mais ou menos 13 horas), testemunhei quatro manifestações de rua no centro de Caracas. Trata-se praticamente de uma rotina essa ebulição social, um protagonismo popular que caracteriza a democracia participativa, bem diferente, por exemplo, da democracia representativa existente no Brasil.


Sempre que vou ao miolo da cidade, me deparo com tais movimentações, como se pode ver em outras matérias deste blog. E um aspecto fundamental: não há repressão. Os policiais, em número aparentemente excessivo, estão sempre presentes, mas nada de bater e prender manifestantes.

O protesto mais expressivo dessa manhã foi feito por empregados da prefeitura
(alcaldía) de Libertador, o principal dos cinco municípios de Caracas. Umas 200 pessoas se juntaram num cruzamento das avenidas Universidad e Barald, com faixas e cartazes, para exigir melhorias salariais, fechando o trânsito em duas vias das mais importantes do centro (aqui se usa a expressão “trancar la calle”, trancar a rua, um tipo de protesto muito comum e que geralmente dá resultado, forçando as autoridades a tomar algum tipo de providência). Os policiais “ajudam” no sentido de organizar o fechamento das ruas, impedindo a passagem dos carros e desviando-os para outras alternativas. As vias foram fechadas a partir de 9 horas e continuavam “trancadas” ainda por volta das 13 horas. Até que hora a rua vai ficar fechada?, perguntei a um dos manifestantes. Até que sejamos atendidos, foi a resposta.

As demais manifestações foram:


um grupo de defensores dos animais aglomerado diante da Assembléia Nacional (Congresso), com cartazes, nos quais se podia ler: Associação de Resgate da Fauna, Associação Protetora de Animais da Ilha de Margarita, Fundação Josefina Narvaez, Proteger a fauna silvestre é deixá-la em liberdade, Exigimos Lei de Proteção Animal, agora!, Não à briga de galo, briga de cachorro, não às touradas, etc, etc.;



outra foi uma passeata dos empregados do Metrô, reivindicando também melhorias salariais, através de contrato coletivo;


e na quarta manifestação, em torno das 8 horas da manhã, um grupo, armado com megafone, debatia na área de entrada do Tribunal de Justiça, local que está sempre tomado por filas na parte da manhã (não apurei o tema da discussão).

Sem repressão policial – Especialmente sobre o fechamento das ruas, conversei com o sargento Oscar Chacón, da Polícia Metropolitana (agora, me informou, vinculada ao Ministério do Interior e Justiça, antes era ligada à prefeitura). Quando fui anotar seu nome, ele hesitou um pouco, em seguida concordou: “Não, aqui não há repressão, nada de bater (golpear) com cassetetes (palos), usar balas de borracha, gás lacrimogêneo. Aqui é uma democracia participativa, estamos aqui para proteger as pessoas, todos têm o direito de expressar seus sentimentos. Pertencemos à revolução graças ao nosso presidente Chávez. Nosso lema é Pátria, socialismo ou morte – venceremos”. Fiquei assim duvidando daquele discurso tão certinho, decorado. Perguntei aos três policiais que estavam com o sargento, todos de serviço, com motos, armados, bem tranquilos, fechando a avenida Universidad: “Ustedes están de acuerdo con eso?” Os três disseram que sim.

Uma visita muito especial – Estava comigo e acompanhou o início do trancamento das ruas o casal Paolo Marconi e Luísa Amélia. Passaram por Caracas indo para a Ilha de Margarita, o destino turístico mais famoso na Venezuela. E aproveitaram para visitar o velho amigo sumido da Bahia nos últimos 11 meses, uma visita cheia de amizade e carinho. Um prazer da porra! (ou do carajo, como diriam por aqui). Paolo é antigo companheiro das lides jornalísticas e Luísa nos conhecemos em 1969, quando ambos trabalhávamos no finado Baneb (Banco do Estado da Bahia). Passeamos por aquele centro caótico de Caracas, do qual tanto gosto, e, ao final, tomamos duas cervejinhas geladíssimas e duas doses de ron no San Vicente, meu bar caraquenho predileto. Combinamos um reencontro, em breve, no Confraria (Pituba, Salvador), bar dos queridos Navarrinho e Popóia.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Proibição de Os Simpsons e matriz de opinião (1)


A “notícia” sobre a suposta proibição da série estadunidense Os Simpsons, determinada pelo governo da Venezuela, correu o mundo em meados do mês de abril. Conforme registra Javier Adler, em Kaosenlared.net, na Internet apareceram matérias com títulos como

“Venezuela não verá mais Os Simpsons”,
“Chávez censurou Os Simpsons”,

“Chávez 'estrangula' Os Simpsons”,
“Hugo Chávez ataca até os desenhos animados”,

Adler anota também títulos da imprensa espanhola considerada “séria”:

“Os Simpsons, proibidos para crianças na Venezuela” (jornal El País),
“O governo venezuelano proíbe a emissão de Os Simpsons e em seu lugar passará Os Vigilantes da Praia”

(La Vanguardia, que se refere ao nome em espanhol da série Baywatch, também norte-americana, que a TV Globo apresentou no Brasil, às 17 horas, com o nome SOS Malibu),

“Os Vigilantes da Praia, mais educativos que Os Simpsons” (El Mundo).

O que teria acontecido realmente? Qual seria a notícia? Pura e simplesmente, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), órgão encarregado do setor, determinou à Televen, emissora de TV privada que transmite a série, que mudasse o horário do programa, fora do período considerado apropriado para crianças e adolescentes (entre as 7 e 19 horas), em atendimento a reclamações de telespectadores. (Uma orientação comum adotada pelos países ditos civilizados, como o Brasil, por exemplo). A série ia ao ar às 11 horas da manhã. A Televen a substituiu por Os Vigilantes da Praia (Baywatch) e logo depois passou a exibi-la às 19 horas.

Se isso houvesse ocorrido em outro país “normal” (como certamente ocorre), não seria nem notícia. Mas na Venezuela de Hugo Chávez... tudo vira um Deus nos acuda! Por que? Porque a Venezuela lidera hoje um processo de integração soberana dos povos da América Latina, com a perspectiva do socialismo como alternativa ao capitalismo. (Além do olho grande nas imensas reservas de petróleo). E isso bate de frente com os interesses de um inimigo poderoso, o império estadunidense, que necessita, a todo custo, desqualificar o principal líder de tal processo. Então, utiliza, dentre suas ferramentas, uma poderosíssima: a manipulação da informação. E para que a coisa funcione bem, os laboratórios da “inteligência” dos Estados Unidos (a CIA e seus tentáculos nos meios de comunicação) fabricam o que se chama “matriz de opinião”

No Brasil, o terror contra o MST
(Foto de Rodrigo Valente -Correio da Cidadania)


O que é isso? Emissoras de rádio e TV e jornais batem quase todos os dias numa mesma tecla e aquela “informação”, sempre repetida, com um mesmo viés, termina se transformando num senso comum na cabeça das pessoas. Então, acabam acreditando na “notícia”: Hugo Chávez proibiu que os venezuelanos assistam às aventuras de Os Simpsons. Porque já está implantada, na cabeça das pessoas, uma matriz de opinião, segundo a qual o presidente venezuelano é capaz de tudo, aquele ditador, truculento (quiçá um terrorista!), apesar de ter vencido uma dezena de eleições. (Guardadas as proporções, é um processo semelhante ao que a grande imprensa brasileira fez com o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

Uma vez, discutindo com um amigo, ele me disse: quero ver você defender o MST quando ele invadir e tomar seu apartamento. Invadir e tomar meu apartamento?!).

Não é por acaso que a discussão sobre matriz de opinião, terrorismo midiático e guerra de quarta geração (2) faz parte do dia-a-dia na terra da revolução bolivariana.

Assim, enquanto os venezuelanos continuam a ver as peripécias da família Simpsons, às 19 horas, através da Televen, quantas pessoas pelo mundo têm hoje a falsa informação de que a série está proibida no país? A “notícia” transforma a determinação de mudança de horário em proibição total, evolui para envolver o presidente “despótico” e chega até a insinuar que tem o dedo do governo na troca por Os Vigilantes da Praia, o que seria risível, já que esta tem um conteúdo ideológico muito mais dentro do padrão dos “heróicos estadunidenses”, conforme analisa o professor Fabiano Viana Oliveira (meu ilho).

Los Vigilantes de la Playa (SOS Malibu) - Ele diz que Baywatch mostra o cotidiano de um grupo de salva-vidas nas praias de Malibu (Los Angeles), “área nobre cheia de pessoas louras, saradas e ricas”. “O grande chamariz da série – avalia - sempre foram os heróis (homens e mulheres) correndo em câmera lenta de short ou maiô vermelhos pela praia. As histórias tendem a ser bobas, e vez por outra abordam problemas sérios, como drogas, alcoolismo, etc, com tom moralista”.

Quanto aos Simpsons, os temas são basicamente ironia com os padrões familiares e valores sociais dos estadunidenses. Fabiano diz que eles abusam dos estereótipos quando se trata de estrangeiros, mas normalmente se interpreta isso como uma crítica ao modo como as pessoas de lá tendem a ver todos os outros como estereótipos: japonês assim, francês assado... Fala-se de poluição ao meio ambiente, de magnatas desalmados que soltam cachorros sobre mendigos, etc. “O chefe da família (Homer) está sempre bebendo e mentindo para a esposa. Bart, o filho, é um sujeito cheio de crueldades e artimanhas. Porém, é claro, no final a família fica sempre junta e se perdoa para o próximo episódio”, comenta o professor.


(1) “Para se gerar uma matriz de opinião, deve-se comunicar massivamente todos os dias e em todos os jornais, emissoras de rádio e TV possíveis, de uma determinada comunidade, uma idéia ou um pensamento específico (não importa que seja uma simples conjectura ou especulação), com o tom e da forma conveniente para que as pessoas de tal comunidade, ao serem bombardeadas incessantemente pelos meios de comunicação, acreditem firmemente até ao ponto de nem sequer perguntar-se se será certo ou não” - professor Oscar González (http://www.aporrea.org/).

(2) Neste blog há alguns artigos opinativos e matérias sobre tais temas, que envolvem sempre a manipulação deliberada da informação. Veja

Escutando Noam Chomsky

O fato pouco importa, importante é a versão

Paraguai: pendência histórica
Imprensa alternativa/comunitária
Papel das rádios e Tv's comunitárias

A peste da cultura contemporânea

A voz dos patrões e do “mercado”

OEA pode analisar imprensa brasileira

sábado, 17 de maio de 2008

Conversa no San Vicente

Vitali, num dia de menos caña...

"Ah! Estávamos tomando 'caña clara', mas tomamos o que aparece, cerveja, ron... o importante é comer, comendo não há problema algum. Não, não bebemos todos os dias”. (Estamos numa mesa do Bar e Restaurante San Vicente, clientela popular, na parte central, antiga, de Caracas, a uns 100 metros do palácio presidencial Miraflores, na tarde de um domingo qualquer. Fala James Betancourth, disse que tem 49 anos, mas tem cara de pelo menos 60, garçon, agora desempregado. Fala também por seu amigo Paulo Vitali, 68 anos, vendedor de revistas, que está quase ausente devido ao sono da embriaguês. Ambos descasados. Quando os vi pela primeira vez, numa tarde de sábado, estava com minha fotógrafa predileta. Vitali, menos bêbado, um modelito de cabelo incrível. Os dois, sentados ao balcão, dividiam uma cerveja e, às escondidas, se passavam uma garrafinha de líquido claro, semelhante à nossa cachaça. Agora eu sei, era a 'caña clara').

"Todos os dias, não, tomamos uns tragos de vez em quando” (o dono do bar me disse que estão lá quase todos os dias). “Sou de San Cristóbal, capital do estado Táchira, vim para Caracas com 15 anos, me casei aqui e fui com minha família para Maracay (estado de Aragua), fiquei lá 15 anos. Trabalhei de garçon na lanchonete e restaurante do Círculo Militar. Tenho três filhas, Génifer, Geraldine e Geralda, duas moram em Maracay e uma aqui. Me separei e voltei para Caracas. As mulheres têm muita influência em nossa vida. É um ímã, quando te agarra, para soltar é negativo o procedimento” (não sei se entendi bem esta expressão).

“Não, não gosto de política. Político não é uma pessoa sincera. Eu sou sincero 100%, político não é. Política é 100% hipocrisia. Vitali, se ele gosta? Pode ser...” (Respondeu, diz ele que em italiano e traduziu logo). “Vitali nasceu aqui mesmo no centro de Caracas, na Paróquia San Juan (paróquia aqui é como se fosse um bairro), tem dois filhos, um vive em Maracay, é motorista de carreta, o outro é médico cirurgião, vive no México. Ele é descendente de italiano, sua avó era italiana. Gosto do italiano. Não gosto é de português, nem das pessoas e nem do idioma, aqui tem muito português, já trabalhei muito pra eles”.

Roberto Carlos e Rei Pelé - (Vitali suspira, balança a cabeça, deliciando-se com a música, volume alto, Betancourth continua). “É Tito Rodriguez, música romântica. Não sei se é venezuelano, creio que é portorriquenho”. (Outro dia escutei aqui Bienvenido Granda, cantor, acho que mexicano, que fez sucesso no Brasil na década de 60, comentei). “Ah! O bigode que canta, conheço bem, gostamos de música romântica. (Vitali, apesar da aparência, não está dormindo. Abre os olhos e diz: Roberto Carlos, Roberto Carlos, um cantor importante). “É um cantor brasileiro, não é? Não conheço nada do Brasil, não tenho nenhuma idéia do que seja o Brasil, nem sequer de filmes, não tenho idéia. Mas trabalhando como garçon, já encontrei muitos turistas brasileiros”. (Me disponho a pegar outro ron e pergunto a Betancourth se quer uma cerveja, comentando que Vitali não deve beber mais pois já está cheio. Ele se agita rapidamente e grita: não, eu também quero).

“Nós moramos num 'sitio' (sítio?), sim, uma casa bem grande ao lado do Congresso (Assembléia Nacional), pertinho daqui, temos um quarto, que dividimos com outro amigo. Moram na casa várias pessoas, famílias. Não, não pagamos nada, mas qualquer serviço que o proprietário necessite, nós fazemos, ajudamos”. (E este sobrenome Betancourth, de onde vem, seria parente do ex-presidente da Venezuela, Rómulo Betancourt, pergunto). “Sim, 'a lo mejor' sim” (Trata-se de uma expressão curiosa, os cubanos também a usam, significa 'talvez', literalmente seria 'ao melhor').

“Esporte eu gosto, beisebol, natação, caminhar na montanha, trotar... futebol não gosto, quem gosta muito de futebol são os brasileiros e italianos”. (Vitali mais uma vez dá o ar de sua graça e diz, repetidas vezes, Rei Pelé, Rei Pelé, Rei Pelé... E acrescenta naquela voz pastosa de bêbado: Maradona também é um astro...).

(Observação: Rómulo Betancourt foi presidente da Venezuela duas vezes, nos períodos 1945/1948 e 1959/1964; Tito Rodriguez é realmente de Porto Rico; e Bienvenido Granda é cubano, mas adotou a nacionalidade mexicana, depois de viver em alguns países da América do Sul, inclusive no Brasil durante um ano. Os três já morreram).



terça-feira, 13 de maio de 2008

Fazendo turismo em Caracas

Teleférico de Mérida

Finalmente fiz um passeio turístico em Caracas. Pensei não haver turismo na capital venezuelana, mas me equivoquei. Há o Parque Ávila Mágica, com o moderno teleférico agora chamado (depois que voltou às mãos do Estado) Warairareparo, como os indígenas se referiam à bela região. (Sabia de alguns destinos turísticos na Venezuela, como os altos montes andinos de Mérida, onde estive durante três dias com Deta, a badalada Ilha de Margarita, o Delta do Orinoco, a Península de Paraguaná, a cidade de Carúpano, no estado Sucre, etc, etc. Mas, especificamente, Caracas, eu não sabia).

Foi no domingo, dia 11, Dia das Mães. Um passeio tranquilo, saudável e barato. Meio de transporte: ônibus, metrô e caminhar, um dos meus esportes preferidos. A estação do teleférico fica no final da Avenida Principal de Maripérez (aqui parece haver o costume de usar 'Principal' em nomes de avenidas importantes). Tal avenida está em área da Paróquia El Recreo, um bairro grande e populoso do município Libertador, com muitos conjuntos habitacionais de padrão classe média baixa. Ambiente popular, dá para comparar com o bairro da Liberdade, em Salvador.

Mas já na estação do teleférico a paisagem muda bastante. Vê-se logo que as pessoas vieram de carro próprio ou táxi. O estacionamento está lotado e pouco antes do meio-dia os carros começam a ser estacionados nas ruas próximas. Muita gente, a grande maioria famílias venezuelanas. Tudo organizado no teleférico. Tarifa 25,00 bolívares fortes, estudantes 15,00, crianças 10,00 e maiores de 60 anos, grátis (grátis?! que beleza!). O sistema existe desde a década de 50, porém ficou fechado do final dos anos 70 até 2000, retornando devidamente modernizado.

São 63 cabines (pequenas, para até oito pessoas, mas normalmente viajam só cinco, seis), mais 10 vips, duas 'aranhas' (serviço de manutenção) e uma ambulância. O percurso, 15/20 minutos para subir ou descer, mede 3,5 quilômetros, e a estação no alto, junto ao Pico El Ávila, está a 2.150 metros (Comparando: o teleférico de Mérida, considerado o mais extenso e alto do mundo, tem 12,5 quilômetros e 4.765 metros de altura). Ao lado, está o imponente Hotel Humboldt, atualmente fechado para hóspedes, recebendo apenas visitas turísticas.

Lá no alto, bem mais frio, claro (15/16 graus ao meio-dia do domingo), os visitantes são bem recebidos: restaurantes, lanchonetes (comi finalmente a tal da cachapa, mais saborosa do que a arepa), barracas dos mais variados artigos e serviços, telescópios à disposição para quem quer apreciar a bela paisagem em torno (montanhas encobertas por exuberantes matas ou pedaços de Caracas lá embaixo). E até uma animada exibição de dança, com as jovens e algumas não tão jovens bailando, requebrando-se, enquanto os homens apreciavam ao redor (as mulheres sempre mais lutridas, aqui também!).


sábado, 10 de maio de 2008

Escutando Noam Chomsky


"Os líderes políticos norte-americanos pensam há muito tempo que são proprietários do mundo. Mas a área de domínio dos Estados Unidos está diminuindo, inclusive em seu centro.


Em anos recentes, a América do Sul deu uma série de passos para escapar do controle dos Estados Unidos. Os países da região estão se movendo rumo à integração, um requisito para a independência, ao mesmo tempo em que encaram alguns severos problemas internos, o mais importante o tradicional domínio de uma minoria rica sobre uma maioria submetida à miséria e ao sofrimento.

As relações Sul-Sul também estão se fortalecendo, vinculando o Brasil, África do Sul e a Índia, entre outras interações. E como na África e Oriente Médio, o aumento do poder econômico da China está propiciando alternativas ao domínio ocidental.

Durante alguns anos, a economia internacional foi tripolar, com os centros mais importantes na América do Norte, Europa e Ásia.

Estados Unidos reina(1) supremo em uma dimensão: a da violência. Gasta em armas aproximadamente tanto como o resto combinado do mundo, e é tecnologicamente muito mais avançado. Porém, em outros aspectos o mundo está se tornando mais diverso e complexo.

As duas formas tradicionais de controle por parte dos Estados Unidos são a violência e a estrangulação econômica. Talvez esses métodos estejam perdendo sua eficácia, mas de nenhum modo foram abandonados”.

Observação – Este trecho foi tirado de um artigo do renomado linguista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês) e estudioso da política imperial estadounidense (foto). Foi publicado sob o título Postergando o dia do Juízo Final, no jornal venezuelano Últimas Noticias. É muito mais abrangente, fala do desafio da sobrevivência no nosso mundo em meio às armas nucleares. Usei só a parte que se refere diretamente à América do Sul.

(1) Vamos acabar com esse negócio de botar no plural o verbo que tem como sujeito os Estados Unidos, afinal de contas trata-se de UM PAÍS (imperial, mas um país). O saudoso professor de Português Raul Sá, mestre de gerações de baianos, sempre defendia esta tese. No espanhol e no inglês é assim, por que no português não?


Viva a Caros Amigos

Estou retornando, pouco a pouco, ao nosso português, chegando quase ao final desta etapa da eterna aprendizagem de vida. Além de usá-lo (o português) no blog e tê-lo sempre disponível na Internet, li esta semana, de cabo a rabo, a Caros Amigos de fevereiro (revista que vem se mantendo há 10 anos, apesar de imensas dificuldades financeiras). Espetacular a entrevista com Marcos Bagno, da nova geração de linguistas brasileiros, dando uma sova homérica nos senhores gramáticos com sua “cultura dos erros”. “Como é que não sabíamos disso?”, admira-se um dos entrevistadores. Ele responde, está lá. Outra coisa: não me lembro de ter lido uma denúncia tão contundente, e ao mesmo tempo engraçada, como a contida no artigo de Cesar Cardoso (pág. 36). Que figura esse Paulo Patarra (eu não conhecia), o inventor da inesquecível revista Realidade! Uma restriçãozinha: nossa querida Marilene Felinto usou seu espaço para transcrever a letra de Ouro de Tolo, de Raul Seixas. Nada contra o irreverente e genial baiano, mas... “nada se tem a dizer?”

Talvez tenha sido o último número sob a direção do grande Sérgio de Souza, a quem os amigos chamavam Serjão. No número que está circulanhdo, já soube, não li ainda, há uma entrevista com ele. Tive o privilégio de trabalhar sob sua chefia no final da década de 70, em Salvador, no antigo Jornal da Bahia. Uma aula de competência e ética para os então jovens jornalistas baianos. Obrigado Sérgio, obrigado Caros Amigos.


Salário mínimo na América do Sul

Veja o valor atual, em dólares, do salário mínimo nos países da América do Sul (sem incluir Surinam, Guiana e Guiana Francesa), segundo anúncio publicitário do governo venezuelano, que, por sua vez, dá como fonte o Banco Central dos respectivos países: Venezuela (372 dólares), Argentina (310), Chile (266), Brasil (248), Colômbia (229, vigente desde janeiro), Paraguai (216), Peru (186, vigente desde janeiro), Ecuador (170), Uruguai (129) e Bolívia (78, vigente desde janeiro). Salário mínimo médio na região – 212 dólares.

Em comentário neste blog sobre a cobertura do Primeiro de Maio em Caracas, alguém (identificou-se como “fala sério”) disse que no governo de Lula o Brasil tem avançado muito neste assunto. De fato. Me recordo que na época do presidente Fernando Henrique o desafio era chegar aos 100 dólares. Comentava-se então que o mínimo brasileiro era menor do que o do Paraguai, um país marcado por elevados índices de pobreza.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O fato pouco importa, importante é a versão

Protesto dos contrários ao referendo sobre autonomia de Santa Cruz
(Foto publicada na Folha de São Paulo/ Andres Stapff/Reuters)



A população de Santa Cruz, província oriental da Bolívia, pronunciou-se no domingo, dia 4, a favor da sua autonomia, através de referendo promovido pelo governo local e o Comitê Cívico. As primeiras projeções apontam que mais de 80% votaram “sim”, enquanto pouco mais de 10% optaram pelo “não”. As autoridades e lideranças do departamento, o mais populoso e rico do país, festejaram a vitória, destacando o início de uma verdadeira revolução na região, “revolução em paz”, frisaram. Houve conflitos durante o processo de votação e manifestações pelo país contra a consulta. O presidente Evo Morales, que classifica o referendo como ilegal e inconstitucional, avalia que o processo redundou “em fracasso”, diante da reação dos bolivianos, em especial os povos indígenas.

Este deve ter sido o enfoque predominante do noticiário, no dia seguinte ao referendo realizado em Santa Cruz, Bolívia, na grande maioria dos meios de comunicação internacionais, inclusive na Bolívia, Venezuela (nos meios privados) e, certamente, no Brasil. No caso de jornais impressos, a manchete de primeira página poderia ser “Derrotado Evo Morales no referendo autonômico” (venezuelano El Universal) ou “Província boliviana vota a favor da autonomia” (idem El Nacional), ambos anti-chavistas. Na Internet, o jornal boliviano El Diario dava: “O 'sim' ganhou com mais de 84% de votos em consulta autonômica”, citando no texto os demais números: 11,5% do 'não', 1,3% de brancos e 2,5% de nulos; e outra nota dando: “Organizações se mobilizam contra o referendo de Santa Cruz”, destacando as manifestações em La Paz, Cochabamba, Oruro e Patosí.

Há um folclore no Brasil dando conta de que um político mineiro (falam em Pedro Aleixo, mas penso que poderia ser qualquer outro) dizia, sabidamente, que o importante não é o fato, mas sim a versão. Há algum tempo, mesmo antes de entrar em contato com essa guerra midiática, guerra de versões aqui em Caracas (chamam aqui terrorismo midiático e guerra de quarta geração), eu defendia a tese de que é secundário o que um governante faz no exercício de seu mandato, o fundamental é como ele aparece na mídia. Daí a incrível submissão de políticos a caprichos e chantagens de jornalistas, comunicadores e donos de mídia, sujeitando-se, às vezes, a verdadeiros achincalhes públicos, como ocorre em alguns programas de TV.

Todo este arrazoado (nariz de cera, diria um jornalista) é para chamar a atenção das omissões e distorções contidas no noticiário acima. Reparem bem: de que se trata realmente? Trata-se de uma tentativa de separar a parte mais rica da Bolívia (especialmente em petróleo), já que Evo Morales ganhou eleições no país, tem o apoio da maioria da população (60% indígenas), e, supremo pecado, insiste, persiste e não desiste de usar as riquezas naturais bolivianas em benefício de seu povo pobre. Além disso, outro pecado, é um camponês indígena e a “elite branca” (expressão que fez sucesso no Brasil na boca do ex-governador paulista Cláudio Lembo) não aguenta essa afronta. Como não aguenta um Lula operário falando o português “errado” ou um Hugo Chávez com traços de indígena - “el cholo”, como designam, pejorativamente, o mestiço. Portanto, a palavra “separatismo” tinha que aparecer no texto, mas é cuidadosamente escondida.

Mais: quem está patrocinando, quem vai tirar vantagens da separação? Além da oligarquia local, as transnacionais, o império estadounidense. Ah! lá vem, tudo é o império, os Estados Unidos!, diriam enfadados. Mas o diabo é que é mesmo, não tem por onde fugir. Sua embaixada e agentes deixam suas digitais em todo canto. E isso também, claro, não aparece no noticiário da “imprensa livre”. Como não aparecem os números da abstenção, ao redor de 40%, as pressões, a violência contra os partidários do presidente (mais de 20 feridos e falam em pelo menos uma morte, mas ainda sem comprovação), as denúncias de fraude – a Telesur, emissora de TV estatal, mostrou a apreensão de cédulas de votação marcadas previamente com o “sim”.

Também não se esclarece que esses números, no fundo, no fundo, não têm qualquer garantia de veracidade, pois o processo de votação e contagem está nas mãos dos próprios separatistas. A suposta garantia viria de uma Corte Departamental e de entidades e fundações privadas, de antecedentes já manjados. Reparem bem: o órgão oficial boliviano encarregado de eleições (equivalente ao nosso TSE) ficou de fora; nenhum país (nem mesmo os Estados Unidos, pelo menos oficialmente) mandou observadores; e não houve representantes de nenhum órgão internacional, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), União Européia e Nações Unidas (ONU). Todos respaldaram a unidade territorial do país e o governo de Evo Morales, deixando claro que o processo está à margem da lei. Mas esses “pequenos detalhes” são omitidos na cobertura de nossa imprensa.


domingo, 4 de maio de 2008


Primeiro de maio é vermelho


“O povo continua na rua, agora rumo ao socialismo”. A consigna, inscrita em muitas das camisetas vermelhas, dá o tom do estado de espírito dos milhares de venezuelanos que inundaram ruas de Caracas para comemorar o primeiro de maio. A concentração dos chavistas (ou bolivarianos, como eles preferem) foi iniciada no bairro La Bandera, por volta das 8h da manhã, e deslocou-se pelas avenidas Nueva Granada e Fuerzas Armadas até a Urdaneta (a mesma usada para lembrar o golpe de abril de 2002), esquina Las Carmelitas, a duas quadras do palácio presidencial Miraflores, no centro da cidade. Com grupos musicais, bandeiras, cartazes e, claro, discursos, a manifestação foi até o início da noite. No imenso palco, as palavras de ordem: “Trabalhadores anti-imperialistas. Pela soberania e pela paz. Unidos construiremos o socialismo”.

O ato serviu também para festejar os 30% de reajuste do salário mínimo, anunciado na véspera pelo presidente Hugo Chávez, destacando que agora a Venezuela tem o maior piso salarial da América Latina. Passou para o equivalente a 372 dólares (para propiciar as comparações), sem incluir o tíquete de alimentação (Segundo o sítio da Telesur, o mínimo da Argentina está em 310 dólares e o do Chile em 266). No Brasil, deve estar agora em torno de 240 dólares, certo?

A mobilização foi organizada pelas forças sindicais mais ou menos alinhadas com a União Nacional dos Trabalhadores (UNT), uma entidade que tentou unir os sindicatos e federações próximos ao chavismo, a partir de 2003. Tentou, mas ao que parece perduraram muitas dificuldades. Atualmente, em meio à natural polêmica, os dirigentes sindicais mais identificados com o governo reorganizam a UNT e criam uma nova central, a Força Socialista Bolivariana dos Trabalhadores (FSBT). Participaram do ato os partidos governistas (eles chamam oficialistas), como o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), recém criado por Chávez e presidido por ele, o Partido Comunista (PCV) e o Pátria Para Todos (PPT).

Central anti-Chávez – Houve outra manifestação, bem menor do que a dos bolivarianos, mas também expressiva. Iniciou-se na praça Morelos, bairro de Bellas Artes, seguindo a marcha pela avenida México até a esquina São Francisco, também no miolo de Caracas. Com grande diferença visual – a maioria usava camisetas brancas – e palavras de ordem com severas críticas à atuação do presidente, inclusive considerando irrisório o aumento do salário mínimo. Foi organizada por sindicatos ligados à Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), central antiga que resistiu e resiste ao chavismo, contando com a participação de partidos oposicionistas, como Un Nuevo Tiempo (UNT), Justicia Primero (JP), que são jovens, e antigos como Acción Democrática (AD) e Copei (dos democratas cristãos), que dominaram a cena política do país na segunda metade do século passado.



Depoimentos de “camisas vermelhas”



Jesús Pérez, 31 anos, casado, um filho - “Vivemos um momento significativo para o país, quando o presidente se empenha em melhorar o bem-estar dos venezuelanos. É um momento importante para a Venezuela, mudou a política de exploração, o presidente tem cortado a parte negativa do capitalismo, não há hoje o jugo como no Brasil e outros países. Não, não é que eu seja chavista, há outras maneiras de pensar, há 40 anos aqui não havia essa política de bem-estar social e segurança alimentar, então temos que agradecer. Não sou filiado a sindicato, nem a partido político, sou católico praticante (estava com camiseta vermelha, com a inscrição “Jesus em ti confio”), da Congregação Coração de Jesus. Acho positivo o aumento de 30% do salário mínimo, foi o único presidente que fez isso na história do país”.

Alirio Freites, 37, solteiro, um filho - “Acompanho o processo dirigido por Chávez, sua atuação é boa, importante, incentiva muito o povo. O reajuste do mínimo foi magnífico, com este salário e a diminuição do desemprego, vamos sair da pobreza. Não sou ligado a sindicato ou partido, pertenço ao Conselho de Trabalhadores, é mais importante do que sindicato, que só faz reclamar salário, nós não, nós atuamos na cultura, com os produtores, com o povo, com os conselhos comunais. Acho que a outra manifestação é necessária para equilibrar o movimento e assim temos mais força. É necessário que exista a oposição”.

Aidée Alvarez, 45, casada, dois filhos; e Elismar López, 28, casada, um filho (são da Corporação Venezuelana Agrária, CVA, sediada no Estado Lara, vieram a Caracas para o primeiro de maio, com o que uma falava a outra concordava) - “Não somos de sindicato, nem partido, estamos aqui porque o governo trabalha pelo desenvolvimento da agricultura. O governo Chávez é bom para a gente necessitada, a gente do povo” (Em suas camisetas, estava “Terras e homens livres”).

Braulio Aular, 57, “ajuntado”, quatro filhos com a primeira mulher e dois com a atual, oficial de segurança da prefeitura (alcaldía) de Libertador, onde trabalham mais de 70 mil pessoas, está filiado ao Sindicato dos Operários Bolivarianos - “A outra manifestação é dos contrários ao sistema revolucionário, dos que atuam na contra-revolução. O presidente Chávez trabalha pelo povo, inclusive de outros países, na sua ação internacional. Agora estamos reorganizando o movimento sindical, antes os sindicatos eram patronais. Os que querem trabalhar pela Venezuela, tudo bem, mas a maioria da oposição é contra a Venezuela. Ficamos uns 40 anos de joelho diante do império, agora estamos tirando esse jugo, lutando pela integração da América Latina. Devemos ficar de joelhos unicamente diante de Deus, mas na Terra não ficamos de joelhos perante ninguém” (contou que foi da marinha mercante, já esteve em Salvador e Rio de Janeiro e gosta muito da música brasileira. Citou, nesta ordem, Vinicius, Tom Jobim, Luis Bonfá, Gal, Simone, Bete Carvalho, Elis Regina, Ari Barroso, Altemar Dutra, Chico Buarque, Roberto Carlos, Milton Simonei (se existe, não conheço), Milton Nascimento e Clara Nunes).


Depoimentos de “camisas brancas”


Orlando Ribas, 52, dirigente sindical há 30 anos, é secretário geral do Sindicato Único da Construção de Caracas, Miranda e Vargas (dois estados), com oito mil filiados - “As duas manifestações são fruto de distintas correntes, uma independente e a outra que apóia Chávez, nós não temos ligação com partidos políticos. O aumento de 30% do salário mímino temos que aceitar por obrigação, mas não corresponde às expectativas, porque a inflação devora rapidamente. (Venezuela tem um dos maiores índices de inflação da América Latina, no ano passado chegou a 22,5%). A CTV vai continuar existindo, enquanto a UNT vai ser substituída por outra central, a FSBT, que apóia Chávez. Nossas bandeiras de luta você pode ver aí nas faixas e cartazes: contra o alto custo de vida, pela liberdade sindical (sem intervenção do governo), pela discussão das convenções coletivas, pagamento de indenizações a aposentados e debate sobre o currículo escolar” (há uma polêmica aqui sobre a implantação de um novo currículo).

Carlos Eduardo, 34, solteiro, uma filha, trabalhador social - “Aqui estamos reivindicando, para que não se imponha o projeto socialista, nem o currículo escolar bolivariano. Queremos a construção de uma Venezuela para todos. Chávez é totalitário, tem um projeto comunista marxista que não queremos. O aumento de 30% é insignificante, porque a inflação até março chegou a 42%, não é justo. Não sou de nenhum sindicato, nem de partido, defendo o bem-estar social e mais segurança”.

Mariela Ramos, 51, casada, três filhos - “Não, não estou participando da manifestação, aqui realmente as pessoas são contra o presidente Chávez, eu o apóio em algumas coisas. Sou militante da Igreja Católica” (Na verdade, estava distribuindo figurinhas da Madre Candelaria de San José, beatificada no início da semana em Caracas, para angariar donativos. Pregou uma no bolso da minha camisa, mas dei uma desculpa para não dar dinheiro e ela desistiu numa boa).

José Zambrano, 41, solteiro, dois filhos, supervisor escolar, é filiado ao Sindicato dos Operários Educacionais e ao partido político Copei - “Apóio Chávez em algumas coisas, como na área de seguro social, as pensões para pessoas da terceira idade. Porém, condeno a qualidade da educação, que baixou cerca de 40%; ele diz que vai eliminar a burocracia, mas agora ela está pior; a família Chávez agora é dona de terras (um deputado fez recentemente uma denúncia neste sentido), enquanto os pobres continuam pobres”.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Socialismo de contrabando?

Esta expressão é da lavra da oposição a Hugo Chávez, a qual não se cansa de denunciar que o presidente perdeu o referendo de 2 de dezembro último, sobre a institucionalização do socialismo na Venezuela, e não pára de fazer propaganda do novo regime, implantando-o em cada ação do governo. Ou seja, “de contrabando”, porque rejeitado pela consulta popular. A irritação dos oposicionistas tem sentido. Nos últimos dois meses, o líder da revolução bolivariana já nacionalizou e/ou expropriou e/ou comprou algumas empresas. Citando os casos mais rumorosos: as três maiores da indústria de cimento (uma mexicana, outra francesa e a terceira suíça); uma empresa agrícola, responsável por 37% da produção de leite e derivados; várias fincas (fazendas, chácaras), cujas terras serão entregues a agricultores para um tipo de exploração coletiva; e antes havia sido comprada a CanTV, uma das maiores na prestação de serviços no ramo de informática. (Para não falar nos conselhos comunais, às quais Chávez às vezes se refere como comunas socialistas).

A última, cuja desapropriação foi aprovada nesta terça, dia 29, pela Assembléia Nacional, foi uma grande siderúrgica chamada Sidor, que era do Estado, foi privatizada na onda neoliberal antes de Chávez e agora estatizada novamente. O governo estava negociando para comprar, mas como não chegaram a um entendimento quanto ao preço, foi feita a desapropriação, alegando-se a existência de irregularidades na empresa. Sempre que o presidente anuncia tais ações, diz mais ou menos assim: “Esta agora será uma empresa so-ci-a-lis-ta”, assim, marcando as sílabas. Em seguida, explica, didaticamente, as diferenças entre o capitalismo e o socialismo. Joga todo o peso de seu carisma e sua popularidade para massificar as vantagens do socialismo e a perversidade do capitalismo. E isso, ao vivo a cores, em TV e rádio estatais. Em várias ocasiões, em cadeia nacional de rádio e TV.

Os oposicionistas não se conformam e os oficialistas (o nome mais comum aqui para os governistas) parecem não ligar muito, pois não se vê esforços para justificar a ofensiva do governo. Ultimamente, Chávez referiu-se à denúncia da oposição. Argumentou que não há contrabando algum, que toda ação governamental está contida nos limites da Constituição (e mostra o livrinho azul, folheia, lê um artigo ou outro). Comentou que se a reforma constitucional fosse aprovada em 2 de dezembro (lamenta que “perdemos, por uma diferençazinha... Bem, mas perdemos”), os conselhos comunais, por exemplo, já podiam fazer parte do orçamento do país. E segue adiante, na sua pregação incansável: “O socialismo...” E no final, levanta o braço esquerdo (é canhoto), mão fechada: “Pátria, socialismo ou morte!” A platéia grita em resposta: “Venceremos"






X

Sem pobreza à vista (Conhecendo Caracas)

Nesta terça-feira, dia 29, fiz uma extensa caminhada. Me lembrou as aventuras de grande caminhador, em companhia de (e muitas vezes instigado por) Deta, a parceira de quase 13 anos. Mas desta vez fui sozinho mesmo. Foram três horas, das 10h às 13h. Seriam em torno de 15 quilômetros, já que meu ritmo está ao redor de 5 quilômetros/hora, mas deve ser menos porque havia muita subida. Andei do centro de Baruta ao de El Hatillo, dois dos cinco municípios que formam Caracas. Foi uma ação meio temerária. O trecho não é apropriado para caminhadas: além das subidas, há partes sem passeio e desertas, isto é, só passam carros, muitos carros, o trânsito é sempre intenso.

O que motiva o título é a ausência de casas pobres por todo o percurso. São centenas de edifícios de luxo, blocos de edifícios com entradas devidamente vigiadas, privativas. Mansões encravadas nos morros (já disse algumas vezes que Caracas está num vale e se expandiu entre montanhas) e muita área verde. Há também muitos centros comerciais. Um “paraíso” da classe média alta. Não é por acaso que os prefeitos (alcaldes) dos dois municípios são da oposição a Chávez. Decididamente, ali não é lugar para os chavistas. A capa asfáltica das ruas é sempre muito boa. Pelo caminho, ainda no território de Baruta, há placas onde o prefeito informa que 82% das vias estão sem buracos. Uma saudável, cansativa e instrutiva caminhada. O retorno foi de ônibus, com direito a um copo de shop (aqui chama-se sifón) na Taberna Sagres (centro de Baruta), de um português muito simpático, onde se pode beber, comer e assistir (e apostar) a corridas de cavalo (carreras).

“A arepa fica quadrada”

Esta é mais para os jornalistas (editores, tituleiros, mancheteiros). Os leitores deste blog já conhecem a arepa, a mais venezuelana das comidas, que tem forma circular (veja postagem anterior). O título é a manchete principal da primeira página do Últimas Notícias, o jornal mais lido do país, e foi motivado pelo aumento de preço da farinha de milho, o ingrediente básico do alimento. Está assim em espanhol: “La arepa se puso cuadrada” (literalmente, seria “a arepa se pôs quadrada” ou “ficou quadrada”). Gostei. Cultivo essa mania de jornalista, ficar nas bancas espiando as manchetes dos periódicos.