quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Bar dos Cornos


Depois da viagem de barco a Parintins, a cidade do boi-bumbá, Gervásio Uriaiê estava deslumbrado com o mundo de água do Rio Amazonas. “Rio Amazonas não, corrigiu, o Amazonas e seus paranás, igarapés e igapós...” Certo, que sujeito chato! Já está ficando bêbado. Botou os pés em Manaus, foi logo avisando: “Bebi pouco em Parintins e agora quero conhecer os botecos daqui”.

Fez um périplo por vários bares e ancorou na Choparia São Marcos, eleito seu bar predileto na capital amazonense. Já estava na quinta dose, misturando, como sempre, uísque, chope, vodka, cachaça e campari. “Estou com quase 50 anos, quando chegar lá, não se preocupem, vou moderar”, dizia à guisa de atenuante. Dizia e repetia, sinal da embriaguez.

Tela feita pelo artista plástico Afrânio de Castro, em homenagem à filha de Dona Maria, fundadora do Bar.

- Zezinho (já sabia o nome do garçon), hoje tive um dia muito proveitoso. Vim para o centro da cidade caminhando, 50 minutos. Saí lá da Rua do Arsenal, na Colônia (Machado Oliveira, Zona Sul), desci para o Mercado da Panair, diz-se portuguesmente pa-na-ir, tomei um mingau de mugunzá defronte, subi ali pelo Amarelinho, antiga zona boêmia da classe média, agora mais popular, passei pela ponte de Educandos, no Igarapé dos 40, e cheguei neste miolo, o lugar mais simpático de Manaus.

Gervásio Uriaiê adorou o centro de Manaus, aquele imenso acampamento de ambulantes. A Choparia São Marcos fica numa esquina da Avenida Floriano Peixoto com a Rua Quintino Bocaiuva, na esquina em frente está o Garajão (edifício para estacionamento de automóveis).


Naquele dia ele já tinha passado no Bar Jangadeiro, no do Porto e no do Armando, este um pouco mais afastado, na Praça São Sebastião (juntinho do badalado Teatro Amazônia, cartão postal da cidade). O bar tinha sido distinguido, inclusive, pela revista Veja, o que lhe valia uma certa antipatia.

- Não esqueça de contar – acrescentou – que já bebi também umas no bar do Carlos, lá perto do Palácio Rio Negro, no do Ceará, em Betânia, e no da Lene, no Morro da Liberdade, nos dois últimos com os amigos da Aeronáutica. Além do boteco de seo Vivaldo, lá na Colônia, aquele senhor gentil torcedor fanático do Flamengo. Lembra? Ele ficava, a todo momento, interrompendo a conversa para atender o celular. Dizia que eram garotas, meninas jovens, piscava o olho insinuante. É viúvo...

- E as mulheres, seo Gervásio? Já pegou alguma manauara? Perguntou o garçon, aproveitando a deixa.

- Ih... aí tô mal... resmungou nosso herói, meio ensimesmado. Decididamente não era assunto de sua predileção. Não se sabe bem o porquê. Algum trauma?
Mas, cinco doses circulando pela corrente sanguínea...

- Sabe, Zezinho? Anteontem mesmo... me dá a saideira aí, por favor, vodka... Retomou pouco depois: “Anteontem à noite fui com um amigo, aliás o amigo me levou, a uma boate, um inferninho, não sei como chamam por aqui, me esqueci do nome, lá perto do Teatro Amazônia, aquelas moças seminuas, depois nuas, dançando e se esfregando no tablado, uns movimentos que me vem à mente a imagem de vacas se estatelando no matadouro। Tinha uma novinha, se apresentava como Patrícia, uma belezura, tinha uma coroa grandona, uma bunda imensa, coisa horrível... mas esse negócio de pagar mulher, não tá com nada”.

- Mas sem mulher também não dá, né seo Gervásio?

Gervásio Uriaiê concordou com a cabeça. “É uma merda, seo Zezinho!” E foi se abrindo, pediu a última saideira (no dia seguinte não ia se lembrar de nada).
“Minha terra lá na Bahia é terra de cabra macho. Você já ouviu falar em Jeremoabo?” Zezinho disse que não, nunca. “E de Lampião, capitão chefe dos cangaceiros?” “Aí sim, já ouvi...”

- Pois é! Exaltou-se. “Fique sabendo, tá na História com 'H' maiúsculo, que Jeremoabo foi a cidade escolhida pelos sobreviventes do cangaço para se entregarem à Justiça depois da morte do capitão. Claro que eles foram traídos pelas autoridades, mas não vamos entrar nesses detalhes”, discorreu professoralmente.

- Sim, seo Gervásio, a gente tava falando das mulheres...



- Não, Zezinho, peraí! Só queria reforçar que minha terra é terra de cabra macho. Acontece que – continuou em tom menos exaltado – quando deixei meu sertão seco pra conhecer esta terra de água e floresta, eu tava meio chateado, tinha me separado da mulher. E um amigo meu, um filho da puta cachaceiro de lá, andava me sacaneando, espalhando que houve chifre na história, coisa e tal. Porra nenhuma! A moça é uma santa mulher, a separação tinha sido por minha culpa.

- Aliás – prosseguiu com a conhecida loquacidade etílica - você vai me desculpar, mas tenho notado que os manauaras são picados por essa coisa de corno. As brincadeiras, as piadas... Outro dia vinha num táxi e o locutor da Rádio Difusora FM dando uma notícia da instalação de mais uma filial da Associação dos Ex-cornos do Paraguai. E acrescentava: em Manaus ainda não foi possível criar uma sede da associação, porque não há local suficientemente amplo para abrigar tantos sócios.

- Seo Gervásio, por favor não vai se aborrecer comigo, mas eu tenho a impressão que o senhor está no lugar certo, disse o garçon com um brilho moleque no olhar.

- Como assim? Não entendi.

O garçon Zezinho apontou para a parede. Nosso embriagado viajante mirou para um quadro pendurado. Não dava pra ler tudo. Foi lá, trocou de óculos, leu tudo. Era uma página de jornal, tamanho standart, com moldura e tudo, no centro uma foto grande de dona Maria, a matriarca fundadora do bar há 70 anos, título em duas linhas, de fora a fora: “Da tradicional choparia de Manaus: Bar dos Cornos”.

Gervásio Uriaiê estava bêbado, mas deu pra entender. “Bar dos Cornos!? Meu bar preferido!?” Encabulado, pediu a conta, pagou.


- É brincadeira, seo Gervásio. Coisa do passado, hoje ninguém nem fala mais disso - Zezinho tentava atenuar o golpe.

- Pelo sim, pelo não, não sei se volto mais aqui, respondeu se afastando, cambaleante, acenando em despedida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Andanças de um viajante quase errante

De Palmas(TO)



Antigo Paço Municipal, onde está o Museu de Arte de Belém
Como amanheceu chovendo nesta sexta-feira, dia 13, aproveito para falar de minhas andanças. Depois de dois meses e meio em Manaus e 17 dias em Belém, onde acompanhei o Fórum Social Mundial, estou em Palmas, capital do Tocantins. Já com passagem comprada, de ônibus, para Goiânia. Até o final do mês pretendo estar em Curitiba, onde penso em me fixar por alguns meses.

O roteiro de Belém a Curitiba está saindo ao sabor da conveniência do traçado das linhas de ônibus. Por exemplo, planejei passar uns dias em Cuiabá e terminei desistindo, pois não achei passagem diretamente pra lá. Vou descendo (olhando o mapa) praticamente em linha reta, pela Belém/Brasília – Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás. Vamos ver se dou uma quebrada até Campo Grande (MS), ou não.

Mercado Ver-o-Peso e parte da Baía do Guajará, clic do Forte do Presépio (Belém)

Fiquei até tentado a usar o verso cantado por Zeca Pagodinho - “deixa a vida me levar” -, pois parece que entrou em moda. Vi outro dia na imprensa na boca do nosso novo líder Gedel e, logo em seguida, foi usado pela presidenciável lulista Dilma. Mas não vou me utilizar dele, foi só uma tentação.

Palmas é uma cidade totalmente diferente dentre as que conheço. Pra começar não tem história, ou melhor, tem uma história de apenas 20 anos. Foi construída especialmente para ser a capital do novo estado, criado pela Constituição de 1988. Quer dizer, não tem nada antigo, é um troço meio asséptico. (Deve ter alguma semelhança com Brasília, pelo que ouço e leio, não conheço Brasília).

As avenidas e ruas (endereços com quadras, zonas e lotes) são largas, pistas duplas, a todo momento há uma rotatória, que chamam “queijo” ou “queijín”, “queijinho”. Prédios modernos, pouquíssimos de três, quatro andares, uma cidade horizontalizada, com imensos vazios, ora com áreas verdes, ora vazio mesmo. Para quem gosta de andar a pé, as distâncias são enormes e é até difícil encontrar gente pra pedir uma informação. São apenas 174 mil pessoas numa área muito extensa.


Avenida JK na moderna Palmas, capital do Tocantins

Parece ser muito organizada. Há uma grande praça, chamada Girassol, onde se concentram os prédios dos três poderes (Executivo – Palácio Araguaia -, Judiciário e Legislativo). Nas proximidades estão os órgãos públicos – todas as secretarias, Ministério Público, Tribunal de Contas, etc, etc. Na entrada (para quem vem do Norte), há o belo Lago da Usina Lajeado, formado por barragem no Rio Tocantins, com uma bonita ponte de sete quilômetros e praias (muito acanhadas para os padrões baianos).

O trânsito funciona que é uma belezura. Decididamente, creio que aqui não há uma epidemia chamada engarrafamento. Poucos semáforos. Experimentei o prazer de atravessar uma avenida, junto com outras pessoas, sem semáforo, na faixa de pedestre. Pois não é que os automóveis, e até motos, diminuíram a marcha para o pessoal passar?!


Palácio Araguaia, do governo do estado (Palmas)



Que diferença, por exemplo, de Belém, com aqueles soberbos monumentos na Cidade Velha e a vista majestosa da Baía do Guajará! O Antigo Paço Municipal, com o Museu de Arte, a Igreja de Santo Alexandre, com o Museu de Arte Sacra, o Forte do Presépio (ou do Castelo), a Casa das 11 Janelas, etc. E, sobretudo, o mercado popular Ver-o-Peso, um local onde você vê e sente o que são as gentes de um lugar, sua alma, seu coração, seu cheiro. Impossível encontrar em Palmas um lugar semelhante. Só daqui a uns 200 anos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Rio Amazonas não é um, são muitos


O belo espetáculo do Encontro das Águas

Gervásio Uriaiê acordou de uma noite mal dormida por volta das 6 horas, no retorno a Manaus. Deixou a rede, o corpo doendo, e subiu ao convés superior do Parintins, barco de linha entre a cidade do mesmo nome e a capital amazonense.
O sol já estaria aparecendo se não fosse o tempo nublado, resto do temporal do dia anterior। "Oh, quié isso? o Rio Amazonas ficou mais estreito e as águas estão escuras parecendo o Rio Negro!", estranhou।

- Aqui não é o Amazonas, é um dos braços do rio, o Paraná da Eva, o curso do Amazonas está pra lá daquelas matas, respondeu um homem que olhava a bela paisagem em companhia de duas crianças. Nosso viajante limpou os óculos, esfregou os olhos, mirou para o lado apontado - água, terra e mata, água outra vez, outro bloco de terra e mata mais longe - buscando entender.
Vista do centro de Manaus quando o barco vai se afastando do porto

- Paraná, igarapé, igapó, é água demais, o grande rio mesmo não dá pra ver daqui, cismou Gervásio Uriaiê, tabaréu do sertão baiano de Jeremoabo, besta com tanta água, saboreando as novas palavras de seu vocabulário। "O Amazonas propriamente dito tem quê largura?", quis saber pra continuar a conversa.

- Uma média de dois quilômetros, mas se você considerar todo o conjunto, de uma margem à outra dá uns 100 quilômetros, disse o morador da região. E falou muito mais: dos barcos, de ferro e de madeira, dos riscos de temporais nesta época de inverno, da criação de búfalos nas margens – animais precoces em relação aos "brancos", quer dizer, os bois (o búfalo é preto).


O emaranhado de redes em um dos convés

Enquanto isso, o barco - o maior da linha Parintins/Manaus, de ferro, quatro "pisos", "andares" – matracava seus dois motores naquele arrastar de paquiderme, levando pouco mais de 400 passageiros (capacidade para 615)। São em torno de 20 quilômetros por hora, em média 20 horas de viagem descendo o rio e 24 subindo. De uma cidade à outra, 420 quilômetros pelo leito sinuoso das águas (369 quilômetros em linha reta).

Mas é assim। Ou então de avião. Porque não há rodovia, tampouco para Belém. "Ah, estrada de carro agora temos pra Itacoatiara" (cidade a 286 quilômetros da capital por rodovia, 204 quilômetros em distância fluvial), uma novidade deveras fascinante na região, as pessoas logo se referem a isso quando o assunto é viagem.

A visita a Parintins, a cidade turística do boi-bumbá, grande festança no mês de junho, foi na verdade a desculpa usada por Gervásio Uriaiê para conhecer a controvertida viagem de barco. Seu plano era descer o rio até Belém ao findar a temporada em Manaus, mas seriam quatro dias numa rede, naquele bolo de gente, seria demais! Decidiu encurtar a aventura. Ao invés de quatro, um dia. Daí Parintins.

Comprou passagem, a rede e as cordas। "Não esqueça as cordinhas para amarrar a rede", não faltou quem avisasse, é fundamental.
Detalhe importante: durante toda a preparação para a sonhada viagem de barco pelo Rio Amazonas a imprecisão de informações, como horários, distâncias, etc, é impressionante। Aliás, informação correta não é o forte das pessoas.
O Príncipe do Amazonas, barco de madeira com capacidade para 262 passageiros, só zarpou de Manaus por volta das 14 horas e ainda ficou retido mais meia hora pela inspeção da Capitania dos Portos। Na passagem, a saída estava marcada para 10 horas। Saiu às 12:30 horas do porto principal e, logo em seguida, 300/400 metros adiante, atracou no cais de Manaus Moderna, sempre embarcando mais carga e mais gente.

É normal, ninguém reclama। Cada um trata de amarrar sua rede – ou pedir a alguém que o faça, como foi o caso do nosso viajante, sem problema – e se instalar, o mais confortavelmente possível, se se pode falar em conforto naquele emaranhado de redes. A demora é tanta que não faltam os camelôs dos mais diversos produtos, inclusive "quentinhas", pois neste caso o barco só fornece jantar e café da manhã.

O porto e o centro da cidade de Manaus foram se afastando lentamente. Meia hora após Gervásio Uriaiê pôde apreciar o belo espetáculo do Encontro das Águas – seis quilômetros em que os rios Negro (águas negras) e Solimões (barrentas) correm juntos, resistindo em perder sua individualidade para dar origem ao Amazonas (ver neste blog A Magia do Encontro das Águas).
O nascer do sol com o céu ainda nublado, depois de um dia de temporal

A partir daí é usufruir a paisagem grandiosa das águas, as margens com a floresta soberba ficam na maioria das vezes distantes। Final de tarde, início de noite, a fila para o jantar: frango assado, feijão, arroz, macarrão, salada e aquela farinha grossa amarelada. Um exercício de vida coletiva, cujo visual mais patente são as redes entrelaçadas nos convés.

No caso do Príncipe do Amazonas, que todos chamam simplesmente Príncipe, há uma média de quatro banheiros (dois com chuveiros e dois com vaso sanitário) para 100 passageiros, para uso inclusive dos que ocupam quatro pequenos camarotes। (No Parintins, o barco da volta, maior, há mais banheiros, com chuveiro e vaso no mesmo compartimento. Há também alguns camarotes com banheiro exclusivo, tudo apertadinho. Nos dois barcos, há ainda uma suíte, que estava desocupada).

Gervásio Uriaiê estava preocupado com a noite। Sabia que não conseguiria dormir toda a noite, ainda mais em rede. Não podia ler, pois quase todas as luzes foram apagadas. E agora, que fazer? "Vou lá no convés superior onde tem um bar e um televisor, não acredito que este povo daqui vai deixar de pegar as novelas da Globo...", matutava subindo os estreitos degraus.

Não deu outra। "Apesar do contraste com meu sertão de Jeremoabo, aqui também é Brasil", constatou. Estava assim de gente assistindo à novela e era uma sexta-feira, último capítulo das maldades de Flora e das bondades de Donatela. Achou que o final do dramalhão foi uma merda, mas não se considera uma opinião confiável no particular.

Em seguida seria o Big Brother, apresentado pelo "biógrafo" de Roberto Marinho. Nosso indômito viajante imaginou que iria conhecer o badaladíssimo programa. Finalmente! Mas errou. Final de A Favorita, a grande maioria desceu rumo às suas redes, e os tripulantes do pedaço botaram no ar DVDs com shows musicais, repletos de bundas e também, claro, bandas, a maioria, parece, regionais. Desfilaram a Banda da Lourinha, Segura a Pizada, Gata Assanhada, as duplas Victor & Leo e Pedro & Thiago.

O autor/personagem devidamente "acomodado" em sua rede

Lá pras 10/11 horas da noite, depois de comer um sanduíche no bar/lanchonete – onde pode-se tomar uma cervejinha de lata -, Gervásio Uriaiê empreendeu a tentativa de dormir. Tateou entre as redes em busca da sua, ralando em um, ralando em outro, deitou-se. Mas não se pode dizer que acomodou-se. A todo momento o companheiro ou companheira ao lado pode lhe tocar, involuntariamente, devido à proximidade. Nosso herói chegou a receber de um vizinho um chute na cara. Bem de leve, sem qualquer dano.

Um amigo acostumado a tais viagens, vendo as fotos das redes, exclamou: "Ah, estava vazio!" De fato, lotado realmente, deve ser um pouco pior. Não por acaso, havia espalhado pelas paredes um aviso no qual se advertia que homem e mulher deviam manter o respeito, "cada um em sua rede"। Acrescentava que somente mãe e filhos podiam ocupar uma mesma rede.

Paisagem a partir do barco Príncipe do अमजोनस
Porém, que o leitor não pense o contrário। O tabareu de Jeremoabo, quase 50 anos na carcunda, criador de cabras na caatinga, estava feliz por ter deixado sua terra para conhecer tanta água e tanta floresta, sua terra cuja glória histórica é estar mesclada com as façanhas insuperáveis de Antônio Conselheiro e Lampião।

"Que coisa! - se admirava Gervásio Uriaiê -, o autor está pirado. Como é que lembra da caatinga, de Conselheiro e de cangaceiro diante de um marzão deste? Certamente ele inventa essas doideiras e mistura com os relatos de suas viagens para torná-las mais glamurosas. Na próxima, vou pedir pra aparecer conhecendo o mar, meu sonho maior. Dizem que é mais água do que o Amazonas. Só vendo!"

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Da resistência armada ao Eco Sexy

Moça e cartazes da campanha do sexo em defesa da floresta
Estou cansado, há muito tempo não trabalho tanto. Garanti à nossa editora Joana D'Arck que faria matéria diariamente neste Fórum Social Mundial (FSM) de Belém do Pará. E estou cumprindo o trato. Bem, vou conversar informalmente com vocês, para descontrair.Não sabia o tamanho da loucura que é o FSM. Você transita de temas fundamentais hoje para o destino da humanidade até coisas que, pelo menos aparentemente, não seriam tão sérias. Mas pode ter aí uma boa dose de preconceitos da esquerda mais ortodoxa, onde eu talvez me encaixe. Como disse no título, transitei neste sábado, dia 31, da luta armada ao sexo em defesa da floresta, passando pelo drama das nações e povos sem Estado, pela Marcha da Maconha e pelo Abraço Grátis. Confira nas fotos.




Nações sem estado

É a primeira vez que o FSM, agora na sua nona edição, tem um espaço específico para a luta dos povos por sua autodeterminação. Foi o tema que mais me atraiu (ver matéria anterior sobre o povo Mapuche, do Chile, pegando o gancho da nova Constituição da Bolívia). Me concentrei um pouco nele, pois o Fórum abarca uma gama imensa de assuntos e a gente fica meio perdido, ainda mais levando em conta o calor e a chuva nesta época, além das distâncias dentro dos dois campi das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA).


O organizador da iniciativa foi o Centro Internacional Escarré para as Minorias Étnicas e as Nações (Ciemen), da Catalunha, um dos mais de 30 povos listados como sem Estado. Quer dizer, são nações, povos, com sua língua, história, território, cultura, costumes, etc, etc, que não estão organizados em Estado. Muitos lutam pela emancipação política, pela independência, ou por direitos coletivos, em uns casos mais amplos, em outros mais limitados, cada um dentro de determinada realidade.


Os da Catalunha, por exemplo, são um dos três povos que vivem tal situação na Espanha. Os outros são os bascos e os galegos (País Basco e Galícia). No território hoje da França há cinco situações semelhantes: além de parte dos catalões e bascos, há ainda a Córsega, Bretanha e Occitània (nome francês, não sei como é em português).


A tragédia dos palestinos

O mais conhecido caso é a Palestina, na mídia todos os dias devido à constante agressão israelense। Os palestinos tiveram seu território usurpado em 1948 para a criação do Estado de Israel, cujo povo, espalhado por todo o mundo, vinha da tragédia do holocausto. Desde então, os palestinos têm de sustentar uma guerra desigual contra um exército superarmado pelo império dos Estados Unidos.


Marta Rovira (Catalunha), Oier Imaz (País Basco) e Yousef Habash (Palestina)

O representante da Palestina, Yousef Habash, fez um relato dramático durante os debates, destacando o massacre de crianças e mulheres na última investida contra a Faixa de Gaza. Defendeu, claro, o direito de seu povo à resistência armada, assunto que gerou uma extensa discussão. A maioria dos debatedores expressou-se claramente em favor da resistência armada, quando falta o espaço para a palavra. Foi lembrada a famosa constatação, segundo a qual, "a guerra é a continuação da política por outros meios" (não sei o autor).

Não cabe, portanto, chamar de terrorista a quem apela para as armas para defender sua nação. Até individualmente, matar em defesa da própria vida é justificável. O problema, no caso dos palestinos e de outros – argumentaram – não é reconhecer o direito ou não ao uso de armas, tal direito está patente. O caso são as condições para isso, a necessidade de se evitar os massacres, o genocídio, as tragédias.



Arnau Flores, da Catalunha
O problema de começar a falar dos palestinos é ter de parar. Vamos em frente, ainda neste tema geral. Os curdos (Curdistão) são hoje a maior população entre as nações oprimidas, sem Estado próprio. São 40 milhões de pessoas que vivem em territórios de quatro países: Turquia, Irã, Iraque e Síria, conforme informou Arnau Flores, um catalão que atendia aos visitantes no estande do Ciemen.

Há a situação dos povos indígenas dos Andes, na América Latina, que são maioria entre os habitantes da Bolívia e Equador e têm forte presença no Peru, México e Chile. Ainda os aborígenas australianos. Na América Latina, há também os casos da Guiana Francesa e das ilhas caribenhas Guadalupe e Martinica (restos da colonização francesa). Porto Rico é outra ilha do Caribe que faz parte dos Estados Unidos. Há ainda vários casos, como o Tibet (China), Chechênia (Rússia), Escócia (Reino Unido), a situação especialíssima dos ciganos, povo nômade espalhado pelo mundo, etc, etc, etc.

Pista interna do campus da UFRA, onde tudo acontece

Carnaval da Bahia?

Bom, chega de "assunto sério"? Pois bem. Por volta das 15 horas deste sábado, deixo a tenda do Espaço pelos Direitos Coletivos dos Povos, com a cabeça cheia dessas discussões, a maioria falando espanhol e inglês (havia tradução simultânea), e tomo a via interna do campus da UFRA, onde parece que tudo acontece, em meio a um imenso acampamento, ambulantes, indígenas, figuras exóticas, gringos, negros, carros de bombeiros, ambulâncias, bicicletas.

Um baiano vivendo por aqui já tinha me dito. "Ás vezes quando estou no Fórum me sinto como se estivesse no carnaval da Bahia". Verdade. Faltam o barulho infernal dos trios e a chatice do axé-music, além, claro, da violência. E há o fato de milhares de pessoas pelas diversas tendas debatendo a busca de caminhos para uma vida melhor, sem as mazelas do capitalismo. Mas que parece, parece.

Ia eu, dizia, pela pista interna do campus, bebendo um suco de cupuaçu... e topo com uma moça seminua, sentada junto de cartazes, cercada de curiosos. Numa faixa, "fuckforforest.com", que, no meu inglês limitado, pensei que estavam mandando a floresta pra porra. Mas não, é "fazer sexo pela floresta, em favor da floresta". Outra: "Saving the planet is sexy" (Salvar o planeta é sexy). Me explicaram que é uma campanha pelo reflorestamento. Não entendi bem. Quem quiser saber mais, entre na Internet.


Quando resolvo ir para o campus da UFPA, onde está a Casa da Comunicação (esquema à disposição dos jornalistas) – ainda tinha que almoçar -, me deparo com a Marcha da Maconha. Muita animação, com palavras de ordem em favor da legalização da droga, inclusive apelos ao presidente Lula. Durante o desfile, dentro do próprio campus, foi recomendado, segundo os organizadores, que os participantes não fumassem.


Um pouco mais cedo, houve também uma turma muito simpática que circulou pela mesma pista, ostentando o cartaz Abraço Grátis e, óbvio, patrocinando um festival de amigável confraternização. Quando estava almoçando numa barraquinha em frente à entrada da UFPA, ainda me apareceu uma novidade, umas mil pessoas participavam de uma corrida, uma maratona pela Avenida Perimetral. Não tive disposição de tirar a máquina para fotografar. Fico devendo esta.

Viva a diversidade!

O Fórum Social Mundial (FSM) é, por excelência, o espaço para se exercitar a diversidade. O número e a variedade de idéias em circulação nos campi das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA), em Belém do Pará, nestes seis dias de FSM, são impressionantes.
Os depoimentos a seguir, colhidos de alguns participantes nesta sexta-feira, dia 30, dão uma pequena amostra dessa realidade:


Boaventura de Souza – (O repórter teve a ventura, sem trocadilho, de topar com o renomado professor e sociólogo português que acabava de palestrar sobre “Crise civilizatória e utopia para o século 21”. Havia uma pequena fila para se dar uma palavrinha com ele ou mesmo tirar uma foto ao seu lado. Como uma celebridade! Entrei na fila e perguntei: “Professor, por que participar do Fórum Mundial?”

Sua resposta: “O Fórum é um espaço onde podemos ventilar idéias e, sobretudo, criar condições para uma aliança entre os movimentos sociais. Muitos conhecimentos circulam por aqui e isso é importante”.


Jair dos Santos, 45 anos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas (SP): “Nós, metalúrgicos de SP, participamos de todas as edições do Fórum. Entendemos como um espaço de diálogo global, o que permite conviver com as mais diferentes culturas e ideologias, numa perspectiva de que um outro mundo é possível”.

Jéferson Soares, 25 anos
, estudante de Jornalismo, gaúcho, blogueiro, está participando e cobrindo: “É importante estar por dentro das discussões sobre nossa realidade, do Brasil e da América Latina”.


Renato Cinco, 34 anos, sociólogo, do Rio, dirigente da Marcha da Maconha, ligada ao movimento Marijuana Global March, criado em Nova York em 1999 (para este sábado, dia 31, às 15 horas, está programada a marcha propriamente dita no campus da UFRA): “O Fórum é importante para a articulação e politização do nosso movimento – inserir o debate dentro da discussão geral visando a transformação da sociedade. Nosso objetivo principal é a legalização da maconha, para diminuir a violência e eliminar as prisões e as mortes do povo pobre, os que realmente pagam o preço da cr
iminalização”.

Terezinha Maglia, 52 anos, funcionária pública, de Brasília, estava distribuindo panfletos: “Trabalho com os povos indígenas e estou no Fórum fazendo uma atividade de divulgação sobre os dispositivos contidos na Constituição brasileira referentes a eles”.

Le Cocq Alain, 68 anos, francês da cidade de Rennes, morando há quatro meses na Guiana Francesa, membro de uma comunidade religiosa: “Estou com um grupo de 60 pessoas, ligado ao Cáritas France. Tenho grande prazer em conhecer outras idéias, outros pontos de vista. Realmente é impressionante ver a capacidade de entendimento dos jovens, buscando a transformação do mundo”.

Priscilla Sabajo, 26 anos, secretária, da Guiana Francesa: “O Fórum é um momento apropriado para se expandir os conhecimentos, a visão das coisas do mundo. Encontramos muitas pessoas com problemas semelhantes, como os de imigração e de destruição das florestas”.




Alejandra Scampini, 35 anos, uruguaia, do movimento de mulheres Action Aid Américas: “Participei de todos os fóruns, como feminista é importante que um outro mundo seja possível, com empoderamento das mulheres e equidade de gêneros. Desde 2001, da primeira edição do FSM, está claro que a construção de alternativas só poderia ser feita com alianças através dos movimentos. O Fórum desde ano é importante especialmente pelo momento histórico na América Latina, devido a governos mais progressistas em alguns países, como Venezuela, Equador, Bolívia, Paraguai e Brasil. É importante também o encontro em Belém, devido a questões como a Amazônia, os povos indígenas e os afrodescendentes”.


Virgínia Bertino, Lya Moret e Mariana Dias, todas com 19 anos, do Rio, estudantes de Geografia, da Uerj: “Nosso objetivo aqui é trocar experiências e adquirir conhecimentos. Assistimos a palestras sobre assuntos que nos interessam, como segregação social e criminalização dos movimentos sociais. É importante trocar idéias com pessoas de todos os lugares. Já participamos de debate sobre recursos hídricos na Amazônia, protesto da população ribeirinha contra barragens no Rio Madeira e vimos uma palestra do professor Boaventura sobre a crise do neoliberalismo”.

Baianos no FSM de Belém

A jornalista Zoraide Vilasboas, do Movimento Paulo Jackson, fez uma exposição na quinta-feira, dia 29, sobre os graves problemas socioambientais causados pela exploração do urânio no município de Caetité, no sudoeste da Bahia, dentro do tema Nuclearização na América Latina – A volta de um velho fantasma?

Ela denunciou irregularidades cometidas pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), incluindo a falta de observância das exigências do Ibama, bem como a ocorrência de acidentes, tratados sempre pela empresa como “rotinas operacionais”. A contaminação provocada pela ação da INB vem sendo objeto de denúncias do Greenpeace.

Já nosso cantor e compositor Wilson Aragão, conhecido do grande público pela parceria com Raul Seixas, no sucesso Capim Guiné, dá uma mostra de seu talento no encerramento do debate sobre a produção literária alternativa, na noite desta sexta-feira, dia 30, no campus da UFPA. A coordenação do evento é do também baiano Rui Santana (conhecido em Belém como Rui Baiano), que teve expressiva atuação na Bahia como sindicalista e produtor musical.

Outro baiano presente no Fórum Social em terras do Pará é o professor Jonicael Cedraz, velho lutador em prol do desenvolvimento das rádios e Tvs comunitárias. Ele é dirigente da Abraço-Ba (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária) e vem trabalhando para a realização da Conferência Nacional de Comunicação.