sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CRESCE A MOBILIZAÇÃO CONTRA O AUMENTO DE ÔNIBUS EM SP

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Os manifestantes, que se concentraram inicialmente junto ao Teatro
Municipal, fizeram uma passeata por várias ruas do Centro Velho
e encerraram o protesto na frente da prefeitura.
(Fotos e vídeo de Jadson Oliveira)
De São Paulo (SP) – O número oficial adotado pelos organizadores foi 6 mil, mas uma estimativa menos entusiasmada aponta para cerca de 4 mil o número de manifestantes que saíram nesta quinta-feira, dia 24, às ruas do centro de São Paulo para protestar, pela sétima vez desde o início de janeiro, contra o aumento da passagem de ônibus (de 2,70 para 3,00 e, no caso do metrô, de 2,65 para 2,90). Quatro vezes mais, portanto, do que as mil pessoas que participaram da manifestação da quinta-feira anterior, quando houve uma violenta repressão policial.


Desta vez a Polícia Militar esteve sempre presente com um contingente de uns 150 a 200 homens, incluindo cerca de 40 do pelotão de choque – na frente da prefeitura, no controle do trânsito, filmando tudo da rua e de um caminhão dos bombeiros e acompanhando tudo de helicóptero -, porém não ocorreu qualquer choque. O momento mais tenso foi quando o desfile sinalizou que ia entrar no terminal de transportes do Parque Dom Pedro II. A polícia fez uma barreira para impedir a entrada, mas terminou cedendo diante da pressão. Os manifestantes – a maioria jovens estudantes universitários e secundaristas – atravessaram eufóricos a área do terminal gritando “vem, vem, vem pra rua vem, contra o aumento” para o grande número de passageiros aguardando nas filas (estes, sim, os potenciais beneficiários e realmente necessitados de uma redução das tarifas – veja enquete abaixo).


O prefeito Gilberto Kassab foi lembrado a todo
momento nos cartazes e gritos de guerra.
Alguns jovens apelaram para o estilo dos hoje meio esquecidos
zapatistas mexicanos.
Passeata pelas ruas do centro da capital paulista já durante a noite
(Reprodução: foto de Eduardo Anizelli/Folhapress)
Como o leitor já percebeu, ao contrário do ato da quinta-feira passada, o protesto não se restringiu a uma concentração no Viaduto do Chá, na frente do prédio onde despacha o prefeito Gilberto Kassab. Começou ali pertinho, na Praça Ramos, junto ao Teatro Municipal, a partir das 5 horas da tarde, e cumpriu um esticado itinerário pelas ruas do Centro Velho da enorme cidade paulistana, para encerrar, já mais de 9 horas da noite, de volta no Viaduto do Chá. O itinerário: Teatro Municipal, frente da prefeitura (com parada especial para “falar” ao prefeito), Rua Cásper Líbero, Largo de São Francisco, Praça da Sé, Praça João Mendes, Avenida Rangel Pestana, Parque Dom Pedro II, e retornando por roteiro mais ou menos semelhante, pegando o Pátio do Colégio e a Rua Boa Vista.


O Carnaval paulista terá um novo bloco: “Dança Kassab”


Agitando bandeiras e cartazes, às vezes pulando e às vezes se sentando no asfalto, alguns cobrindo quase todo o rosto no estilo que lembra os hoje meio esquecidos zapatistas mexicanos, com a ajuda de batucadas e algumas vuvuzelas e já roucos de tanto gritar suas consignas – “mãos ao alto, três reais é um assalto”, “o povo na rua, Kassab a culpa é sua”, “chega de aumento pra deputado, e pro povo só ônibus lotado”, “dança Kassab, dança até o chão, aqui é o povo livre contra o aumento do busão” -, os manifestantes fecharam o ato na frente da prefeitura.


Um ia falando ao megafone e os demais repetindo frase por frase. Se deram parabéns pela manifestação “com 6 mil pessoas” – muitos responderam “amanhã vai ser mais”; festejaram o aumento da mobilização: “pensaram que com a repressão ia diminuir a disposição do nosso movimento, mas estamos aqui em maior número e teremos atos ainda maiores”; homenagearam o estudante e servidor público municipal Vinicius Figueira, que foi espancado no protesto anterior e teve o nariz quebrado; e marcaram nova manifestação na próxima quinta, dia 3, desta vez na Praça do Ciclista (cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação). Como estará se iniciando o Carnaval, prometeram um bloco com o nome “Dança Kassab”.


“O reajuste da tarifa de ônibus é inconsistente, é ilegal”


Integrantes do Comitê de Luta contra o Aumento da Passagem (participam várias entidades, como a Associação Nacional dos Estudantes – Livre, Anel, os sindicatos dos Metroviários e dos Ferroviários da Zona Sorocabana e a Juventude do PT) esperam que o crescimento da mobilização popular force a prefeitura a ficar mais flexível nas negociações, as quais até o momento não andaram quase nada, depois de alguns encontros infrutíferos na semana passada. Mariana Toledo, formada em Ciências Sociais e mestranda em Sociologia, militante do Movimento Passe Livre, informou que foi protocolada, na segunda-feira, dia 21, uma carta pedindo negociação, e ontem os dirigentes do movimento receberam a resposta da Secretaria de Transporte do município, marcando uma reunião para o próximo dia 4.


Mariana Toledo (falando ao megafone), militante do Movimento
Passe Livre, informou que deve haver reunião de negociação
no próximo dia 4.
Para o vereador José Américo, do PT, que foi vítima de agressão no protesto anterior e estava na passeata de ontem ainda com um dedo enfaixado (foi fraturado numa trombada com um escudo da tropa de choque), a negociação é difícil, mas o movimento tem que insistir. Ele diz que “o reajuste da tarifa de ônibus é inconsistente, é ilegal”, e aponta irregularidades em alguns itens constantes na planilha de custos, como no preço do óleo diesel e no custo do quilômetro rodado. Informou que a bancada de vereadores do seu partido entrou com uma ação judicial, há uns 10 dias, pedindo uma liminar contra o aumento, e espera uma decisão até o final da próxima semana.


Quase todos no terminal apoiam os manifestantes


Numa rápida enquete feita entre passageiros no terminal do Parque Dom Pedro II, a maioria deles na fila enquanto os manifestantes passavam, quase todos apoiam a principal reivindicação. “É realmente um abuso, a tarifa é cara demais e não há um transporte que vale a pena”, respondeu Pedro Oliveira, segurança e corretor de imóveis, que esperava ônibus para retornar a Guaianazes, “depois de Itaquera, levo 40 minutos na vinda pela manhã e agora, na volta, de uma e meia a duas horas”, explicou. “Justo, justíssimo (o protesto), três reais é um roubo, se eu não estivesse aqui trabalhando, estava lá também (participando)”, apoiou com entusiasmo uma empregada (mais duas se juntaram reforçando a declaração da colega) da lanchonete Ryco Express, instalada no terminal.


André Luiz dos Santos afirmou que também apoia, “mas não participo por falta de coragem, tenho medo de represália da polícia”. Ilustrou suas palavras indicando a presença dos policiais acompanhando o desfile. Ele disse que estuda para ser analista de informação, está no segundo ano, e aguardava coletivo para Ermelino. E Adauto Silva, que esperava na fila de Itaim Paulista (zona leste) e se identificou como modelista de calçados, afirmou: “Apoio, três reais é muito mesmo, se tivesse pelo menos condução boa, podia até ser...”


Só um senhor, numa fila, todo vestido de negro, pronunciou-se contrário à manifestação:


- O senhor apoia a turma aí na rua contra o aumento?


- Não, disse secamente.


- Por que?


- Sou crente – e não foi mais possível tirar uma palavra de sua boa. Insisti um pouco, ele ficou olhando para o lado.


Passagem de ônibus em Buenos Aires custa 60 centavos de real


O transporte coletivo na Argentina é fortemente subsidiado pelo governo federal. Daí, uma passagem de ônibus em Buenos Aires custa 1,25 peso, o equivalente a cerca de 60 centavos de real, enquanto a de metrô custa 1,10 peso, que equivale mais ou menos a 50 centavos de real. Atualmente 1 real corresponde a 2,2 pesos argentinos. (Já que estamos na área e a catraca é sempre citada nos protestos como algo negativo, lembro que nos ônibus portenhos não há catraca).


O prédio da prefeitura esteve sempre protegido por uma barreira
de policiais (além de uma cerca de grades) durante todo o protesto.
Para continuar as comparações com nossos vizinhos argentinos (estou passando uma temporada por lá), cito mais um detalhe que me vem logo à cabeça quando vejo nossos PMs cheios de armas, especialmente durante a violência da quinta-feira passada, dia 17. Há uns dois ou três meses, o recém criado Ministério da Segurança (na verdade, foi desmembrado do Ministério da Justiça) proibiu o uso de armas pelos policiais que atuam nos chamados “conflitos sociais” – manifestações populares, de trabalhadores, ocupações de terreno, prédios, etc. Eles usam apenas, em casos mais graves, canhões com jatos de água, por sinal colorida (vi com água azul, não sei se há outras cores). A ministra da Segurança, Nilda Garré, avisou logo quando tomou posse: conflitos sociais se resolvem com negociação. (Outra “arma” muito utilizada pelo governo nos “conflitos sociais” são os processos judiciais, mas com tramitação bastante rápida).


O trabalho que é feito no Brasil pelas PMs, subordinadas aos governadores, é feito, pelo menos no caso de Buenos Aires, pela Polícia Federal, subordinada ao governo federal. A oposição de direita tem reclamado contra a atuação da polícia desarmada, contando para isso com o apoio da maioria dos meios privados de comunicação, mas o governo de Cristina Kirchner, que se proclama governo dos Direitos Humanos, tem sustentado a posição, a qual, aliás, é corriqueira nos países geralmente considerados mais civilizados da Europa.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

TURISMO SE EXPANDE NA AGRICULTURA FAMILIAR DO PERU

Tasso, com um chapeuzinho de turista: “Visitar uma família de
 camponeses na zona rural é uma lição de vida” (Foto: BJÁ)

Por Tasso Franco, de Bahia Já, www.bahiaja.com.br (17/02/2011)


Parte do interior do Peru se parece muito com o Sertão Nordeste da Bahia. Terreno semiárido, muita pedra, pouca chuva e uma imensa população vivendo da agricultura familiar.

Nesse universo de meu Deus, que lembra a região de Canudos, na Bahia, muita luta e pobreza na sobrevivência, o Peru introduziu um novo ingrediente nesse contexto, promovendo atividades produtivas no turismo, fazendo com que algumas dessas famílias localizadas em roteiros de sítios arqueológicos (e são dezenas deles no país) obtenham ganhos com o turismo.

É como se você fosse a Canudos visitar o sítio da "Guerra do Fim do Mundo", por sinal encantado na pena de Vargas Llosa, o peruano vencedor do Nobel de Literatura, ano 2010, e fosse recebido numa pequena propriedade da zona rural por sitiantes, com a oferta de um lanche, um almoço, um teiú moqueado e a venda de peças artesanais e assim por diante.

Ao visitar o Complexo Arqueológico de Sallustani, Sul do Peru, distante uns 50 km de Juliaca, uma cidade que mais parece com aqueles povoados de filmes de "farwest", com ruas sem calçamento e gente que vem da Bolívia e do Equador fazer todo tipo de negócios, e de vez em quando acontecem alguns bang-bangs nas ruas, tive a oportunidade de visitar a residência de uma família de campesinos, típica do Peru, gente pobre, porém, digna, nariz em pé, orgulhosa do seu espaço e das coisas que cercam suas atividades.

A guia nos levou eu e a senhora Bião de Jesus para conhecer a casa de Pilar Sanches e do seu irmão José, e mais uma sobrinha de Pilar que de tão envergonhada e tímida com nossa presença não consegui saber seu nome.

Uma visita programada, sendo recebidos com uma mesa posta com iguarias modestas num espaço de pedras, com queijo andino, batatas cozidas (produto muito consumido no país), maiz (milho de dois tipos), pimientos e um molho cor de terra, delicioso, ainda que com a cara de poucos amigos.

Um espaço de menos de uma tarefa cercado de pedras, todas as cercas dessa região são de pedras porque não existe madeira, três casinhas, sendo cada uma delas ocupada por essas três pessoas, tudo simples, modestíssimo, limpo, e mostrado a nós com um imenso prazer.

Dois tourinhos no portal de entrada do sítio, com uma escada e uma cruz, aponta uma tradição local dando conta de que haverá prosperidade, subir na vida (e a escada simboliza isso) com fé no Cristo (na cruz).

A casa de Pilar só tem uma prateleira, uma cama, algumas fotos na parede e nada mais. Pilar só tem um sapato, o que é considerado uma tradição e normal entre os moradores da zona rural, só usado no dia em que vai a cidade de Juliaca ou Puno, pois, no seu dia-a-dia, na zona rural, só usa alpercatas. E eu a imaginar que a senhora Bião tem mais de 20 sapatos! Que ironia.

Claro que também conheci a cozinha onde Pilar prepara as iguarias, utilizando estrume de llamas, brinquei com o perro (cachorro) da casa, tirei foto com as alpacas, e comi de tudo um pouco.

De quebra, como não poderia sair com as mãos abanando, e aí é que entra a atividade produtiva, comprei um tapete no valor de 80 soles, algo como 60 reais, produzido por José, artesanalmente, com a lã retirada de meia dúzia de llamas que cria em redor das casitas, presas em cabrestos.

E saímos dali felizes da vida, nós por entender o mundo melhor vendo que é possível viver com tão pouco e com felicidade, e eles porque tiveram um ganho para melhorar suas qualidades de vidas, e por receber estrangeiros com tanta amabilidade.


Tasso Franco é jornalista baiano, velho companheiro de labuta em Salvador, meu chefe em algumas redações.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

MOVIMENTO LGBT LUTA PELA CRIMINALIZAÇÃO DA HOMOFOBIA

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De São Paulo (SP) - O movimento LGBT está lutando pela aprovação do projeto de lei 122/2006, que "pretende tornar crime a discriminação cometida contra lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros (LGBT) ou mesmo heterossexuais, bem como contra pessoas com deficiência e idosos", conforme dizem em panfletos militantes paulistas da causa gay. Esclarecem: "A recente onda de ataques homofóbicos demonstra a necessidade desse projeto de lei, que não fere a liberdade de ninguém, pois não existe um direito de ofender, intimidar, humilhar, discriminar ou destratar outro ser humano por motivo algum".

Os panfletos foram distribuídos durante manifestação realizada no último sábado, dia 19, na Avenida Paulista, em São Paulo, com a presença de cerca de mil pessoas. Participaram a senadora Marta Suplicy (PT-SP) e os deputados federais do PSOL, Ivan Valente (SP) e Jean Wyllys (RJ). Os militantes se concentraram, a partir das 3 horas da tarde, na Praça do Ciclista (cruzamento da Paulista com a Rua da Consolação), onde representantes de entidades fizeram rápidos discursos.

Em seguida, desfilaram pela Paulista até o número 777, local onde recentemente houve uma agressão física contra jovens homossexuais, cometida por jovens de classe média (o motivo, segundo o noticiário, seria simplesmente intolerância, preconceito e discriminação). Aí, houve nova concentração e novos pronunciamentos. (No vídeo acima, o primeiro discurso é sobre a importância de se lutar pela instituição no Brasil do chamado casamento igualitário, tendo sido lembrada sua aprovação pelo Congresso da Argentina, no final do ano passado).   

Seguem fotos da manifestação:

Marta Suplicy entre Jean Wyllys (de óculos escuros, meio encoberto
pelo braço de Marta) e Ivan Valente

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O EGITO É AQUI E MUBARAK ALCKMIN FOI ELEITO


Vinicius Figueira ao ser dominado por um grupo de policiais. Segundo
noticiário da imprensa, o espancamento resultou na fratura do nariz.
(Foto: Ernesto Rodrigues/AE)
fevereiro 18th, 2011 by mariafro


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Nos portais de ontem Vinícius aparecia como ‘manifestante ferido durante protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo‘, e fotos semelhantes a esta da Agência Estado foram estampadas em vários portais.

Talvez se a vítima ganhar nome, se soubermos quem é, conhecermos um pouco de sua história, a violência policial que os governantes de São Paulo fazem uso diário nos tire desta letargia.


Hoje soube, por meio de um e-mail da esposa de Vinícius, que ele está internado e passará por uma cirurgia.


O Egito é aqui e Mubarak foi eleito. Cidadãos de São Paulo estão completamente abandonados. Cadê Ministério Público para enquadrar um prefeito e um governador que lidam com manifestações pacíficas utilizando força tática? Cadê punição para governantes que com o uso da violência institucionalizada levam para a mesa de cirurgia os cidadãos desta cidade?


Segue o mail de sua esposa:


CAROS,


Meu companheiro Vinícius, assistente social, servidor público no município de SP, mestrando em Serviço Social na PUC-SP, militante do PCB e do movimento de saúde, foi cruelmente espancado por cerca de 8 policiais hoje, 17/02/2011, em protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, organizado por vários movimentos sociais. Está internado no Hospital do Servidor Público Municipal e fará cirurgia amanhã. As fotos elucidam o abuso feito pela polícia militar.


Solicitamos às organizações e movimentos sociais que encaminhem moções de repúdio às atitudes dos policiais militares e solidariedade ao nosso companheiro, para que tal fato seja investigado e que a polícia militar seja responsabilizada.


Abaixo seguem os links das notícias e fotos: aqui e aqui


As moções podem ser enviadas para o e-mail marxista82@yahoo.com.br


Vanessa Faro Chaves
Esposa, Militante PCB, Assistente Social


(Reproduzido neste blog na forma, inclusive o título, que me foi encaminhado por um amigo, via e-mail).

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

REPRESSÃO POLICIAL ATIÇA PROTESTO CONTRA AUMENTO DE ÔNIBUS

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Vídeo gravado antes da repressão policial. A moça que aparece falando ao megafone é Clara Saraiva, estudante de Serviços Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela é da Executiva Nacional da Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre (Anel).
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Gravado durante a repressão. Aparecem vereadores do PT, com manifestantes, enfrentando a tropa de choque e sendo agredidos.



De São Paulo (SP) – Se a polícia não tivesse atacado os manifestantes, a maioria estudantes secundaristas e universitários, certamente seria mais um protesto de rua – e não dos maiores e mais relevantes – contra o reajuste das tarifas de ônibus e do metrô em São Paulo, movimento que pretende ter caráter nacional, já que vem ocorrendo em outras capitais importantes do país. Ontem, quinta-feira, dia 17, foi o chamado Dia Nacional de Luta pelo passe livre e contra o aumento das tarifas e os estudantes se concentraram, a partir das 5 horas da tarde, no Viaduto do Chá, em frente da prefeitura.


Nos primeiros 90 minutos (mais ou menos) foi uma manifestação pacífica, em torno de mil pessoas, dentro do tom costumeiro em tais eventos, com os jovens destilando energia e entusiasmo, com seus cartazes e bandeiras, seus ousados slogans e chamamentos: “Vem também pra rua contra o aumento, vem!”, “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar”, “Sai do chão, sai do chão, contra o aumento do busão”, “Três, três, três reais não dá, eu quero passe livre, passe livre já!” (no dia 5 de janeiro a passagem de ônibus passou de 2,70 para 3,00, enquanto a do metrô, no dia 13 de fevereiro, subiu de 2,65 para 2,90). Deram um jeito de atear foto a uma catraca, semelhante às usadas nos ônibus, para simbolizar a luta pelo passe livre. Um dos líderes, que agitavam a massa com rápidos discursos pelo megafone, profetizava: “Só as ruas podem retirar este aumento”.


Antes da violenta repressão, os manifestantes estavam contidos
por barreiras policiais (além da cerca de grades) pela frente e por
trás. O trânsito no Viaduto do Chá estava livre. (Todas as fotos
e vídeos são de Jadson Oliveira)

A queima da catraca simbolizou a luta pelo passe livre

Os ataques do pelotão de choque atiçaram o ânimo dos estudantes:
eles corriam pelo Viaduto do Chá, xingavam e voltavam no meio das
nuvens de fumaça das bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. 
Mas, aparentemente, o prefeito Gilberto Kassab e/ou outras autoridades acharam um desaforo esta forma democrática (e pacífica) da sociedade se manifestar publicamente. “Afinal, para que temos o poder de polícia?”, devem ter pensado. E os policiais, incluindo um pelotão de choque, investiram contra os manifestantes, na base de golpes de cassetete, spray com gás pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral (entre os manifestantes corria a informação de que a PM teria feito também disparos com balas de borracha). Foi aquela correria aos gritos de “covardes, covardes!” e “filhos da puta, filhos da puta!”. Um rapaz reagiu, entrou em luta corporal com os repressores, deu uns murros em alguns e terminou dominado e algemado por uns três ou quatro PMs.


O vereador José Américo leva a mão aos olhos atingidos pelo
ardor do gás de pimenta.
Três vereadores petistas – José Américo, Antônio Donato e Juliana Cardoso – entraram na confusão tentando aplacar a fúria dos policiais. Sofreram muitos empurrões e algumas bordoadas. José Américo, o mais destemido, passou maus momentos com jatos de gás pimenta na cara. Ficou com os olhos inchados, mas se manteve firme. Anunciou aos jornalistas que faria uma representação contra o comando da operação, lembrando inclusive que os agentes da repressão se negaram a se identificar. (Sobre o gás pimenta, sobrou um pouco para mim: tive uma incômoda sensação de ardor nos olhos, mas passou rápido. Depois, não sei bem como e por que, fiquei sentindo ardor nas pernas – estava de bermuda -, como se tivesse sofrido uma queimadura leve).


Outro vereador, também do PT, conhecido como Alfredinho (Alfredo Alves Cavalcante), esteve presente em toda movimentação. Teve, porém, uma reação mais acomodada. Falei com ele sobre a situação do rapaz preso e algemado, o qual ficou pelo menos uma meia hora sentado junto ao prédio da prefeitura, na frente, no espaço dominado pelos policiais, ao qual os manifestantes não tinham acesso (a frente do prédio esteve o tempo todo protegida com uma cerca de grades, além da barreira formada pelos PMs, atrás das grades). Perguntei a Alfredinho, que estava sempre no espaço dos policiais, isto é, atrás das grades, qual era o nome do rapaz. Disse que não sabia.


- Mas o rapaz está ali sentado este tempo todo, algemado, como é que fica? Ele vai ser levado pra prisão?


- Tem um advogado que está cuidando dele, disse o vereador.


- Quem é o advogado, como é o nome dele?


- Não sei, é um advogado do pessoal aí, respondeu, referindo-se aos manifestantes e comentando que ele seria levado a um hospital para ser medicado.


Depois de uns 30 minutos, o rapaz, sempre algemado, foi levado num carro da polícia. Seu nome é Vinicius Figueira, estudante, estava com a camisa manchada de sangue. Um repórter da revista Carta Capital conseguiu falar com ele quando entrava na viatura e me passou sua identificação.


 Sequência de quatro fotos da prisão do estudante Vinicius
Figueira: grupo de policiais contra ele. 
Aparecem as pernas do estudante, já derrubado no chão.
Os policiais o dominam, enquanto um deles leva a mão ao revólver.
Vinicius já preso e algemado
A partir do ataque da polícia, os estudantes – havia entre eles, em pequeno número, metroviários e ferroviários – se espalharam pela rua, sempre em frente da prefeitura, mas então cortando o trânsito de carros no Viaduto do Chá. Até a repressão policial, o trânsito não havia sido impedido, pois os manifestantes estavam contidos entre as grades e outra barreira de policiais, com motos, no início do asfalto. Ou seja, o trânsito no Viaduto do Chá estava livre. Isto contradiz um oficial da PM que, ainda no meio da confusão, tentava explicar aos vereadores que “a manifestação é legítima”, mas eles não podiam permitir que a população fosse impedida de se locomover na cidade.


A partir também da repressão policial, os estudantes, óbvio, se exaltaram mais, alguns lançaram objetos contra os PMs, como sacos de lixo e até um guarda-chuva, coisas sem qualquer relevância do ponto de vista de agressão ou ataque. E entraram pela noite, com toda energia que a natureza sabe brindar à juventude, pulando, fazendo barulho, com batucada e vuvuzelas. E lançando seus gritos de guerra, aos quais acrescentaram mais um: “Kassab, vai tomar no c...” Enquanto isso, os policiais mantinham sua barreira na frente do prédio e o pelotão de choque se afastou um pouco, perfilando-se no início da Praça do Patriarca. O quadro era este já passando das 9 horas da noite.


Dentro do prédio, no salão da entrada, seis estudantes faziam um protesto singular, segundo relatavam os companheiros: se mantinham desde a manhã acorrentados às catracas que dão acesso aos elevadores do edifício (o jornal Folha de S.Paulo noticiou hoje que os seis encerraram o protesto e deixaram o prédio da prefeitura por volta das 10 horas da noite). De acordo com os estudantes, foram divulgadas fotos dos acorrentados no sítio do Facebook da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel).


E os milhares de transeuntes daquela movimentadíssima área da capital paulista foram para casa ontem com panfletos falando da luta, da importância da participação do povo e da tentativa de negociação (até ontem frustrada). Além da Anel, assinam os panfletos entidades como Comitê de Luta contra o Aumento da Passagem, Movimento Passe Livre, DCE-Livre da USP, Secretaria Municipal de Juventude do PT, Sindicato dos Metroviários, Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana, Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) e Intersindical.




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A COLONIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE

Por José Pablo Feinmann (*)


A História se faz com sangue. Como diz celebremente Marx no não menos célebre capítulo XXIV de O Capital: o capital vem ao mundo jorrando sangue e lodo. Em suma, a violência joga na História um papel central. Freud fala de uma patologia das comunidades culturais. Hobbes diz seu célebre dito: homo homini lupus (o homem é o lobo do próprio homem). E Hegel – com essa genialidade olímpica que o caracteriza – sentencia: a história avança por seu lado mau. Uma das grandes conquistas da revolução comunicacional tem sido nos acostumarmos com o horror da história. Podemos estar fazendo qualquer coisa, estar em qualquer parte, e veremos na TV ou na primeira página de um jornal alguma imagem atroz. Ou crianças que morrem de fome ou Saddam Hussein a ponto de ser enforcado ou as torturas em Guantánamo ou em Abu Ghraib. Seguiremos na nossa. No máximo, se pensa, depois se verá melhor e com mais calma na Internet. Mas Internet é a morte da emoção. É o reino da errância. Ninguém se detém em nada. É uma navegação infinita rumo a uma meta inalcançável e incognoscível em meio a um universo virtual dentro do qual nada significa nada. Este escamoteio do sentido, este aplanamento de tudo que existe (“tudo está na Internet”), esta impossibilidade de construir verdades num universo em que tudo se afoga com a informação, com o ir de um lado a outro, com o rodopio insensato dos links, é a essência do homo Internet, e que ninguém se engane com as redes de solidariedade ou com essa incontinência de subjetividades solitárias que são os blogs, tudo isso dura pouco. Os seres humanos nasceram para se comunicar um em presença do outro (ou, sem dúvida, esta comunicação é mais rica do que a virtual), olhar-se nos olhos e para tocar-se e até para sentir o alento.


Esta liquação, este dissipar da História, esta insensibilidade, esta indiferença ou esta pavorosa acomodação ante o horror é um dos grandes triunfos do poder. Deveria haver bastado a foto daquela menina vietnamita correndo desnuda por uma estrada e chorando aos gritos porque o Napalm lacerou suas carnes para que o ser humano se detivesse e se perguntasse uma, ao menos, das grandes perguntas: para que? Para que? Para impor nossos projetos, para ganhar dinheiro, para derrotar a vontade dos outros, para idiotizá-los, para impedir o surgimento de uma subjetividade verdadeira, para dominar o mundo e dominá-lo para que nossos negócios não sofram impedimentos, não se detenham por barreiras absurdas. Estados Unidos diz: “Se no século XIX matamos dezenas de milhares de índios foi porque esse era o custo que o Progresso exigia”. Quanto a essa pobre menina, não nos façam repetir o que todos sabem: seu pranto é um hino elevado em honra da democracia e da liberdade pelas quais nós lutamos neste país. Em suma, o capital segue chegando ao mundo jorrando sangue e lodo ou abandonando milhões à fome e às pestes ou gerando uma nova barbárie à qual se teme e à qual se castigará sem piedade: os de fora, os que querem entrar onde não se deve porque assim o decidiram os poderosos, os triunfadores, os que chamam “imigrantes indesejados” aos milhões que querem ser incluídos na sociedade civil, submeter-se aos rigores do Leviatã, mas viver dentro, e não nos descampados do não-futuro. A eles, o rigor de uma lei que deverá ser cada vez mais dura. O fracasso do socialismo nas terríveis, dolorosas experiências que instituiu no século passado, chegando quase a matar a mesmíssima ideia que alentou em seus teóricos (em cujos textos se adivinhavam já os erros que estalaram depois), abriu as portas a este capitalismo que, sob a desculpa da luta contra o terror, tornou-se ele mesmo terrorífico. Só nos resta esperar que o eterno Eros triunfe na sua eterna luta contra a pulsão da morte, são as palavras finais de Freud em O mal-estar na cultura (1930). Se em 1930 o mestre vienense duvidava desse triunfo, hoje, já transcorrida a primeira década do século XXI, só resta esperar que a humanidade do capital se detenha em sua guerra contra a vida e contra o planeta em que vivemos. Onde está a esperança? Não precisamente nos terrenos do inimigo mortal do Ocidente, o Islã. Aí ainda se apedreja as mulheres. É como se a menina do Vietcong seguisse correndo e gritando de dor. América Latina ensaia uma unidade de autodefesa. Se protege. Veremos. Por agora, a missão de cada um dos que amam a vida e os valores que a sustentam deverá ser a de entregar-se a uma nobre tarefa: evitar a brutalidade dos criminosos, lutar para que, ao menos, nem tudo seja tão terrível, que tudo seja menos brutal. Reduzir a brutalidade de uma História desenfreada não será pouco. Isso, por agora.


(*)José Pablo Feinmann é pensador argentino. Pequeno trecho do ensaio Crítica da Razão Imperial – Livro I – A colonização da subjetividade (título adotado por este blog para o trecho publicado) – O poder midiático e a construção do sujeito-Outro – Por que o poder busca a submissão do sujeito? (Tradução: Jadson Oliveira)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

MUBARAK SE FOI E TODOS FESTEJARAM SUA DERRUBADA

Mubarak está dizendo: "Não renunciarei ao meu helicóptero"
(Ilustração de Daniel Paz - primeira página do Página/12)

Egito: quando o povo começa a acreditar na própria força, vai
para a rua, os tiranos tremem e as coisas começam a mudar.
(Foto: Reprodução)
Por Robert FiskPágina/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 13/02/11)


De repente todos começaram a cantar. E a rir, chorar, gritar e rezar, ajoelhando-se na rua e beijando o pavimento sujo na minha frente, dançando e agradecendo a Deus por livrá-los de Hosni Mubarak – um gesto generoso, pois foi sua coragem mais do que a intervenção divina o que livrou o Egito de seu ditador. Era como se cada homem e mulher fossem recém-casados, como se a alegria pudesse apagar todas as décadas de ditadura, dor, repressão, humilhação e sangue. Para sempre se conhecerá a Revolução Egípcia de 25 de janeiro – o dia em que começou a revolta – e para sempre será a história do povo que ressuscitou.

O velho se tinha ido finalmente, entregando o poder não ao vice-presidente, mas sim – curiosamente, ainda que os milhões de revolucionários não violentos não estivessem em condições de apreciar isso à noite – ao conselho do exército do Egito, a um marechal de campo e um monte de generais, garantidores por ora de tudo pelo qual os manifestantes pró democracia tinham lutado e, em alguns casos, morrido. E até os soldados estavam felizes. No momento mesmo em que a renúncia de Mubarak se expandia como fogo entre os manifestantes no lado de fora da estação de televisão estatal no Nilo, o rosto de um jovem oficial explodiu de alegria. Todos os dias, os manifestantes disseram aos soldados que eram irmãos. Bem, veremos se isso é verdade.

Falar de um dia histórico de alguma maneira não expressa a verdade sobre o que a vitória da noite de sexta realmente quer dizer para os egípcios. Com o mero poder da vontade, com coragem frente à odiosa polícia de segurança de Mubarak, com a compreensão de que às vezes é preciso lutar para derrubar um ditador com algo mais do que palavras e facebooks, com o ato de lutar com punhos e pedras contra policiais com armas, gás lacrimogêneo e balas de chumbo, conseguiram o impossível: o fim – e devem pedir ao seu Deus que seja permanente – de quase 60 anos de autocracia e repressão, 30 deles com Mubarak. Os árabes, difamados, amaldiçoados, abusados racialmente no Ocidente, tratados como atrasados e sem educação por muitos dos israelenses que queriam manter o governo às vezes selvagem de Mubarak, decidiram se rebelar, abandonaram seu temor e derrubaram o homem que o Ocidente considerava um líder “moderado” que fazia o que quisessem a um preço de 1,5 bilhão de dólares por ano. Não são apenas os europeus do leste que podem tolerar a brutalidade.

O fato de que este homem – menos de 24 horas antes – tivesse anunciado em um momento de loucura que queria proteger seus “filhos” do “terrorismo” e que permaneceria em algumas funções do governo, fez com que a vitória fosse muito mais valiosa. Na quinta-feira à noite, os homens e mulheres que exigiam democracia no Egito brandiam seus sapatos no ar para mostrar sua falta de respeito pelo decrépito líder que os tratava como crianças, incapazes de dignidade política e moral. Logo, no dia seguinte, ele simplesmente fugiu para Sharm el Sheik, um lugar de descanso de estilo ocidental às margens do Mar Vermelho, um lugar que tem tanto em comum com o Egito quanto Marbella ou Bali.

Assim, a Revolução Egípcia estava à noite nas mãos do exército do país, enquanto uma série de declarações confusas e contraditórias do exército indicavam que os marechais de campo, os generais e os brigadeiros do Egito competiam entre si pelo poder nas ruínas do regime de Mubarak. Israel, de acordo com várias famílias importantes do Cairo, tratava de persuadir Washington para que promovesse seu egípcio favorito – o ex “capo” dos serviços de inteligência e vice-presidente Omar Suleimán – para a presidência, enquanto que o marechal de campo Tantawi, ministro da Defesa, queria que seu chefe de Estado Maior, o general Sami Anan, governasse o país.

Quando Mubarak e sua família foram enviados para Sharm el Sheik, na tarde de sexta-feira, só se confirmou que sua presença era mais irrelevante do que provocativa. As centenas de milhares de manifestantes na praça Tahrir sentiam o cheiro da mesma decadência de poder e até Mohamed el Baradei, o ex-inspetor de armas da ONU e ambicioso Prêmio Nobel, anunciou que o “Egito ia explodir” e que “o exército devia salvar o país”.

Os analistas falam de uma “rede” de generais dentro do regime, ainda que ela seja mais uma teia de aranha, com uma série de altos oficiais competitivos cuja própria fortuna pessoal e privilégios zelosamente guardados foram ganhos por servir ao regime, cujo líder de 83 anos agora aparece tão demente como senil. A saúde do presidente e as atividades dos milhões de manifestantes pró democracia no Egito são, portanto, menos importantes que as selvagens lutas internas do exército.

Mas, embora tenham se desligado do presidente, o alto comando do exército está formado por homens da velha ordem. A maioria dos oficiais de patente mais alta do exército foi absorvida pelo núcleo do poder do regime. Durante o último governo de Mubarak, o vice-presidente era um general, o primeiro ministro era um general, o vice-primeiro ministro era um general, o ministro da Defesa era um general e o ministro do Interior era um general. O próprio Mubarak era comandante da força aérea. O exército levou Nasser ao poder e apoiou o general Anwar Sadat. Apoiou o general Mubarak. O exército introduziu a ditadura em 1952 e, agora, os manifestantes acreditam que se converterá na agência da democracia. Haja esperança!

Portanto – tristemente – o Egito é o exército e o exército é o Egito. Ou, pelo menos, é essa imagem que se procura transmitir. Por isso deseja controlar - ou “proteger”, como reiteram constantemente os comunicados do exército – os manifestantes pedindo que Mubarak se vá. Mas as centenas de milhares de revolucionários democráticos do Egito – furiosos pela negativa de Hosni Mubarak de abandonar a presidência na quinta à noite – começaram seu próprio golpe militar no Cairo no dia seguinte, ultrapassando os limites da praça Tahrir, não só na direção do edifício do Parlamento, mas também para as margens do Nilo, onde está a televisão estatal e as centrais de rádio, e por onde passa a estrada que leva à luxuosa residência de Mubarak no caro bairro de Heliopolis. Milhares de manifestantes em Alexandria chegaram às portas de um dos palácios de Mubarak, onde a guarda presidencial entregava água e comida em dócil gesto de “amizade” para com o povo. Os manifestantes também tomaram a praça Talaat Haab no centro comercial do Cairo, enquanto centenas de professores das três principais universidades da cidade marchavam para Tahrir pela manhã.

Após a fúria expressa durante a noite pelo paternalista e profundamente insultante discurso de Mubarak – quando falou enormemente sobre si mesmo e seu serviço na guerra de 1973 e se referiu só vagamente aos deveres que supostamente deveria passar para seu vice-presidente, Omar Suleimán -, as manifestações da sexta começaram em meio a um clima de humor e de uma extraordinária civilidade.

Se os partidários de Mubarak esperavam que sua quase suicida decisão de quinta-feira provocaria a violência dos milhões de manifestantes pela democracia em todo o Egito, estavam equivocados: ao redor do Cairo, os jovens homens e mulheres que eram a base da Revolução Egípcia se comportavam com a moderação que o presidente Obama havia pedido no dia anterior. Em muitos países, teriam queimado edifícios do governo após o desmedido discurso presidencial de Mubarak; na praça Tahrir, leram poesia. E logo escutaram que seu desgraçado antagonista tinha ido embora.

Mas o verso árabe não ganha revoluções e cada egípcio sabia, na sexta-feira, que a iniciativa não estava mais com os manifestantes do que com a remota e ligeiramente demente figura do ex-ditador. Pois o futuro corpo político do Egito está composto por até cem oficiais, cuja antiga fidelidade a Mubarak agora foi abandonada totalmente. Um comunicado militar divulgado sexta pela manhã – e lido, curiosamente, por um apresentador civil na tv estatal – pedia “eleições livres e justas”, acrescentando que as forças armadas egípcias estavam “comprometidas com as demandas do povo”, que deveria “reassumir sua forma normal de vida”. Traduzindo para a linguagem civil, isso significa que os revolucionários deviam parar enquanto um círculo de generais divide entre si os ministérios do novo governo. Em alguns países, isso se chama “golpe de Estado”.

(Robert Fisk é repórter do jornal inglês The Independent. Artigo para o jornal argentino Página/12. Tradução: Katarina Peixoto).






quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

“MADRES” ARGENTINAS: 34 ANOS BUSCANDO OS DESAPARECIDOS

Mirta Baravalle: uma das 14 mães que fizeram a
primeira quinta-feira de protesto em 30 de abril de
1977. Eram as "loucas" da Praça de Maio.
(Todas as fotos desta matéria são de Jadson Oliveira)
De Buenos Aires (Argentina) – No dia 30 de abril de 1977, uma quinta-feira, um grupo de 14 mães, desesperadas, foi à Praça de Maio, em frente ao palácio do governo (Casa Rosada), em Buenos Aires, protestar e pedir informações sobre seus filhos que tinham sido seqüestrados pelos agentes da última ditadura militar (1976-1983). Uma tremenda temeridade! Os argentinos viviam sob o império do terrorismo de Estado, comandado pelo então general Jorge Rafael Videla (hoje cumprindo pena de prisão perpétua por crimes de lesa humanidade). Os policiais as empurravam para se afastarem do palácio e ordenavam, como costumam fazer em épocas de tirania diante de “reuniões” públicas: “Circulem... circulem...”


As mães então começaram a circular em redor da pirâmide que fica no centro da praça, rodeadas por forte aparato militar. Circularam naquela quinta-feira e voltaram na quinta-feira seguinte. E depois na outra quinta, e na outra, e na outra. Queriam porque queriam ao menos notícias de seus filhos queridos, sumidos nas trevas do terror. Já não eram 14, e sim centenas. Se tornaram as Mães da Praça de Maio (Madres de Plaza de Mayo). E não pararam mais de circular, mesmo quando três delas – Azucena Villaflor, presidenta da entidade, Esther Ballestrino e María Ponce - foram também sequestradas e também desaparecidas. (No dia 18/11/2010 elas comemoraram 1.700 manifestações na praça, 1.700 quintas-feiras).


As "madres" da Linha Fundadora deram origem ao extraordinário
movimento que desafiou a ditadura argentina no auge do terror
As "rondas" já são mais de 1.700: sempre às
quintas-feiras e sempre ao redor da pirâmide
Nas comemorações especiais centenas de militantes, das mais
diversas entidades, engrossam as manifestações das "madres"
Eram “as loucas” da Praça de Maio. Poucos podiam ou tinham coragem de apoiá-las, os democratas (os ainda vivos e/ou ainda em liberdade) rareavam, os combatentes e organizações da esquerda, a maioria peronistas, estavam sendo dizimados, a Igreja Católica, enquanto instituição, estava do outro lado – quando as “madres” chegavam à praça, as portas da Catedral Metropolitana, que está na mesma praça, eram fechadas -, os grandes jornais, as emissoras de rádio e TV, também estavam alinhados com a ditadura.


102 bebês roubados pelos repressores já foram descobertos e tiveram sua identidade restituída


Mas as “loucas” insistiram. Hoje, quase 34 anos depois, as “madres” – às quais se somaram as “abuelas” (avós), os “hijos” (filhos) e os familiares dos desaparecidos – continuam a circular em torno da pirâmide da Praça de Maio todas as quintas-feiras, a partir das 3 horas da tarde. Com o lenço amarrado na cabeça, símbolo do movimento, muitos com os dizeres: “Aparición con vida de los desaparecidos”, exibem nos broches e cartazes as fotos, nomes e datas do sequestro de seus parentes assassinados.


Continuam a circular mesmo que a ditadura tenha sido derrubada há pouco mais de 27 anos e que muitos repressores/torturadores estejam na cadeia: só no ano passado a Justiça proferiu 110 condenações e cerca de 800 acusados estão na fila do banco dos réus, a maioria já com prisão preventiva. Mesmo depois de se tornarem uma referência internacional quando se fala de defesa dos Direitos Humanos. Seu êxito político é fantástico, não é à toa que uma gorda fatia da agenda da presidenta Dilma Rousseff, na sua recente visita à Argentina, foi dedicada às “madres” e “abuelas”.


E há números significativos: a organização não governamental Equipo Argentino de Antropologia Forense (EAAF), das mais de 1.200 exumações feitas, já conseguiu identificar os corpos de 446 desaparecidos (sem incluir identificações realizadas por outras vias), conforme informação de Daniel Bustamante, investigador do EAAF. (O número sempre mencionado de desaparecidos é em torno de 30 mil. Claro que é uma estimativa. Há registro oficial de cerca de 10 mil); quanto aos bebês roubados das presas políticas, cuja estimativa chega ao redor de 500, 102 já tiveram sua identidade restituída, segundo dados computados por Abuelas de Plaza de Mayo.


 Marcha da Resistência para comemorar o Dia Internacional
dos Direitos Humanos
“Paredão para todos os milicos que venderam a Nação”


“Alerta, alerta, alerta, que estão vivos todos os ideais dos desaparecidos” é um dos gritos de guerra mais freqüentes nas quintas-feiras, em meio aos cantos, poemas e discursos, principalmente quando as manifestações ganham maior dimensão em datas especiais, como no último 9 de dezembro, quando as “madres” comemoraram o Dia Internacional dos Direitos Humanos (elas anteciparam um dia, porque na data oficial, dia 10, houve muitas comemorações promovidas pelo governo federal). A imagem mais eloquente do ato – foi a 30ª. Marcha da Resistência - era uma imensa faixa (lembrando uma serpente, aqui é chamada de “bandera”), contendo cerca de 3.500 fotos e nomes de desaparecidos, carregada pelos manifestantes – de umas três quadras da Avenida de Maio até a Praça de Maio. Outras consignas repetidas na praça: “Que digam onde vão com os desaparecidos”, “Paredão para todos os milicos que venderam a Nação”.


Mirta Baravalle, de 86 anos, é uma das 14 “madres” que protagonizaram a histórica “ronda” de 30 de abril de 1977. No último dia 3, quinta-feira, ela estava mais uma vez na praça, com um grupo de manifestantes circulando a pirâmide, tendo à frente a faixa Mães da Praça de Maio – Linha Fundadora. Depois relembrou os tempos difíceis em que eram chamadas de “loucas” e poucos lhes davam atenção: “Os policiais afastavam a gente do passeio do palácio, empurravam para fora da praça, a Catedral nos fechava as portas...” Pendurado no pescoço, um pequeno cartaz com as fotos e os nomes da filha e do genro, Ana Maria Barravalle e Julio Cesar Galizzi, sequestrados em 25 de agosto de 1976. “Este ano vai completar 35 anos de busca, sigo buscando, até hoje nada, minha filha estava grávida de cinco meses, o bebê até hoje também não encontrei”, diz ela.


Sara Holmquist perdeu seu irmão: "Ele era
secundarista. Nunca tivemos notícia dele".
Cristina Dithurbide (à direita, com a amiga Margarita Noia): "Eram
militantes Montoneros, é preciso dizer isso, porque é a identidade
política deles". 
Já Sara Holmquist, de 65 anos, da província (estado) de Tucumán (noroeste do país), participa sempre de atos de protesto pelos desaparecidos, em memória de seu irmão, Luis Adolfo, sequestrado em 29/05/76. Aponta para o enorme cartaz pendurado no pescoço: “Ele era secundarista, era da UES (União dos Estudantes Secundaristas), se estivesse vivo teria hoje 54 anos. Nunca tivemos notícia dele”. E Cristina Dithurbide exibe seu broche com o retrato do casal Roald Montes e Mirta Noemí, na época com 28 e 19 anos. Mirta era sua irmã. “Os dois foram assassinados em La Plata (capital da província de Buenos Aires) em 22 de novembro de 1976, junto com mais quatro companheiros. Eles eram militantes Montoneros, é preciso dizer isso, porque é a identidade política deles”, explica. (Montoneros era uma organização de guerrilha urbana, da esquerda peronista, muito ativa nos anos 60 e 70).

Manifestação da Associação das Mães da Praça de Maio, liderada
por sua presidenta Hebe de Bonafini (alta, de óculos escuros, com
a alça da bolsa vermelha).
Também as “madres” que atuam aglutinadas na Associação das Mães da Praça de Maio (há cinco entidades relacionadas com as “madres”, veja nota abaixo) vão sempre às quintas-feiras à Praça de Maio. Seus membros, no entanto, já não se dedicam à busca dos desaparecidos. Têm, na verdade, uma atuação bem mais ampla e diversificada, com uma fundação, a Universidade Popular, publicações próprias, biblioteca e até um projeto de construção de casas populares. Sua presidenta, Hebe de Bonafini, é atualmente uma líder política de grande influência e está, inclusive, engajada na campanha para reeleição da presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Na quinta, dia 3, ela estava à frente de um grupo de manifestantes, falando de suas atividades e da política nacional. A principal faixa dizia: apoiamos o projeto nacional e popular, que é atualmente a proposta central do kirchnerismo (ou peronismo kirchnerista).



AS “MADRES” SÃO CINCO ENTIDADES


Fala-se muito das “madres” (mães) e também das “abuelas” (avós) da Praça de Maio, relacionadas com a busca dos presos políticos assassinados pela ditadura argentina e também com os bebês retirados das mães. A ideia que passa é que se trata de uma única organização. Mas há, na verdade, cinco entidades envolvidas em atividades às vezes convergentes e às vezes nem tanto, certamente de difícil percepção para a maioria das pessoas, especialmente quando são estrangeiras.


Das cinco entidades, a de maior volume de atividades e maior inserção na política argentina, a Associação das Mães da Praça de Maio, não cuida da busca dos desaparecidos, embora esta busca tenha sido a ação inicial de todas as “madres”. A associação tem outros objetivos, conforme menciono acima. A ela estão ligadas a Universidade Popular Mães da Praça de Maio e a Fundação Mães da Praça de Maio.


Uma das entidades que, apesar de menos conhecida, tem uma 
atuação que se soma ao trabalho das "madres" e "abuelas".
Quem continua cuidando da busca dos desaparecidos e, em decorrência, atuando em prol do julgamento e punição dos repressores, é, como o próprio nome indica, Mães da Praça de Maio – Linha Fundadora. Uma terceira entidade é Avós da Praça de Maio, que tem uma atuação semelhante, mas com ênfase na busca e identificação dos bebês roubados das presas políticas.


E há mais duas entidades, cujos membros muitas vezes participam de manifestações comuns: H.I.J.O.S. – Hijos y Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio (Filhos e Filhas pela Identidade e a Justiça contra o Esquecimento e o Silêncio); e Familiares de Desaparecidos e Presos por Razões Políticas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"MADRES": MAIS DE 30 ANOS BUSCANDO OS DESAPARECIDOS (VÍDEO)

video
Reforçando a fala gaguejante do nosso repórter:

Manifestação da última quinta-feira, dia 3, das Mães da Praça de Maio, com a participação de um pequeno grupo das "madres" da Linha Fundadora e de outro maior da Associação das Maes da Praça de Maio, que é presidida por Hebe de Bonafini (aparece no vídeo com blusa rosa, óculos escuros e o tradicional lenço amarrado na cabeça, que virou símbolo do movimento). O grupo da associação carrega duas faixas: na frente, Apoiamos o projeto nacional e popular, que é a proposta central da campanha de reeleição da presidenta Cristina Fernández de Kirchner; e a outra, atrás: Universidade Popular Mães da Praça de Maio - 10 anos de luta e resistência.

A consigna repetida pelos manifestantes: "Alerta, alerta, alerta, que estão vivos todos os ideais dos desaparecidos".

Correção: eu disse que a associação trabalha "não só na busca dos desaparecidos", pois tem um arco de atividades bem mais amplo. Está errado. Ela tem, realmente, uma atuação política bem ampla e diversificada, mas seus integrantes não trabalham mais na busca e identificação dos desaparecidos.

Amanhã ou depois, publico matéria ampla sobre as "madres" argentinas, hoje uma referência internacional quando se trata da luta em defesa dos Direitos Humanos. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ESTADO DE REBELIÃO EGÍPCIO?

Egito: quando o povo começa a acreditar na própria força, vai
para as ruas, os tiranos tremem e as coisas começam a mudar
(Foto: Reprodução)
Por Enrique Dussel, do jornal mexicano La Jornada (Reproduzido do sítio do jornal Brasil de Fato


Quem imaginaria há um mês que o Egito, referência necessária ao mito libertador dos escravos (tão estudado por Ernst Bloch) sob o domínio despótico dos faraós que inauguraram seu reinado há 50 séculos, nos daria hoje um exemplo entusiasta de nova rebelião? Os poderes geopolíticos metropolitanos, as potências reunidas em Davos, os cínicos com máscaras de democratas, devem entrar em acordo para elaborar um certo discurso que oculte sua confusão e temor diante de um povo que desperta. Fizeram tanta propaganda de que eram os defensores e difusores da democracia no mundo, mas agora se desvela o apoio deles a ditaduras violentas que eram elogiadas por eles simplesmente porque apoiavam sua estratégia! Na realidade, como sempre mostrou Henry Kissinger, tratava-se de promover os interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos sob o disfarce de princípios normativos (enquanto coincidem com ditos interesses, por exemplo, de obtenção segura de combustíveis). Quando o povo palestino elegeu democraticamente o Hamas, decretaram que não, estes não eram aceitáveis democraticamente, quando as verdadeiras razões para a rejeição foram os projetos do Hamas a favor do povo palestino e contrário aos interesses das potências. Agora se descobre que os que apoiavam seus interesses eram ditadores. O Departamento de Estado e a União Europeia devem consultar seus aliados (Turquia, Israel, etc) para ver como sair desta situação.


O que estamos contemplando nesta revolução de jasmin, cujo perfume agradável da liberdade vai se estendendo por todo o Magreb e outros países muçulmanos? Em primeiro lugar, que a foto dos fiéis orando de joelhos de modo não violento, enfrentando os tanques, muda a imagem que a “midiocracia” nos impõe dos mulçumanos terroristas, e a relaciona com a do jovem chinês que com uma flor enfrentava o tanque em Pequim. Em segundo lugar, estamos contemplando um estado de rebelião que está se generalizando no mundo muçulmano.


Carl Schmitt, para criticar o estado de direito liberal puramente legal e vazio, sem convicção subjetiva substancial do cidadão, propôs repensar o estado de exceção, para mostrar que o primeiro, que se encontra dentro de um sistema de legitimação como a estrutura democrático-legal, estava fundado em uma vontade que podia deixar a ordem legal sem efeito nos casos de extrema necessidade (como a instituição da ditadura no império romano). A vontade (do governante com autoridade e do povo) está atrás das leis, dando-lhe um fundamento. O que Schmitt não imaginou é que, por sua parte, o próprio estado de exceção pode ser deixado, mas neste caso pelo próprio povo, como única sede, e última instância, do poder político. Isto nos faz lembrar aquele 20 de dezembro de 2001 em que o povo argentino, não respeitando o toque de recolher decretado pelo governo, saiu às ruas e derrubou Fernando de la Rúa. Gritava o povo: ¡Que se vayan todos! As instituições haviam perdido a legitimidade e o povo se recordava dos representantes que corruptamente pretendiam exercer o poder delegado. Desse levantamento surgiu o governo de Néstor Kirchner, que alcançou maior legitimidade. Trata-se do mesmo caso agora no Egito.


O estado de rebelião é um ato supremo pelo qual um povo manifesta legitimamente (contra a legalidade presente e ante toda a futura) que as instituições (e as leis) por ele instauradas têm deixado de ter efeito por alguma causa grave (corrupção extrema, despotismo contra a vontade do povo). Na filosofia islâmica-medieval até se justificava o tiranicídio (como no caso de São Tomas de Aquino), ou seja, a morte do tirano. O mesmo dizia John Locke no capítulo 19 do Segundo Tratado sobre o Governo.


O povo então aparece como o ator coletivo, não metafísico, mas conjuntural, como um bloco social dos oprimidos (diria Antonio Gramsci) mas agora com consciência política, com um hiperpoder renovado que estava abaixo do silêncio sofrido e aparentemente paciente, um poder que de pronto irrompe desde baixo na práxis de liberação ante a dominação insuportável, que lança as instituições fetichizadas aos ares, assim como a lava do vulcão em erupção.


Esses jovens egípcios saem às ruas, arriscam suas vidas por todo o povo, e não dão sinais de que dariam um passo atrás por conta da situação política, econômica e cultural angustiante.


Mas a lição que está nos deixando este estado de rebelião generalizado no mundo muçulmano, nos mostra um novo momento da política no Oriente Médio. Estados Unidos e Israel terão que deixar suas políticas fundamentalistas e violentas, militaristas, para abrir-se sinceramente a uma atitude democrática, despojando-se das cínicas palavras a que nos têm habituado, e que o Wikileaks se encarrega de revelar para seu desespero; autêntica política democrática que, certamente, lhes será muito difícil de implementar, porque não têm nenhuma tradição diplomática nesse sentido.


(As manifestações no Egito, iniciadas em 25/janeiro, chegam hoje, 7/fevereiro, ao 14o. dia)