quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Argentina: monopólios da mídia em baixa

De La Paz (Bolívia) - A direita argentina - especialmente através dos seus mais reluzentes porta-vozes, os meios de comunicação de massa – gritou, esperneou, mas não teve jeito: os monopólios da mídia perderam uma guerra que se desenrolou nos últimos seis meses e o chamado espectro radioelétrico (onde transitam os sinais de rádio e televisão), que é na verdade propriedade do povo, do Estado, vai passar a ser usado de forma igualitária entre o setor privado, o estatal e o comunitário – 33% para cada um. (Atenção, isto é na Argentina, que distância da situação do nosso Brasil!).

O Grupo Clarín, um dos maiores conglomerados de mídia da América do Sul, que pode ser comparado às “nossas” Organizações Globo (creio que, proporcionalmente, o monopólio da Globo é bem maior), fez o diabo para conservar seus privilégios, estribado no velho discurso da defesa da liberdade de expressão (liberdade deles, dos empresários)।

A nova legislação argentina atinge em cheio os monopólios privados. Impede, por exemplo, que um só grupo detenha a propriedade de TV aberta e TV a cabo, limita a abrangência territorial das emissoras e ordena que as concessões para explorar rádio e televisão sejam revisadas no prazo de 10 anos (no Brasil, tais concessões são, na prática, eternas, passam de pais para filhos, para netos, uma maravilha!)
SESSÃO NO SENADO DUROU 20 HORAS - A presidenta (no espanhol se usa assim “presidenta”, no nosso português fica feio, não?) Cristina
Kirchner (foto
) mandou o projeto ao Congresso no dia 27 de agosto, depois de uns quatro meses de debates pelo país. Nos 44 dias de tramitação nas duas casas legislativas (a aprovação final deu-se em 10 de outubro), os meios políticos e midiáticos viveram uma verdadeira maratona, com audiências públicas que atravessavam horas e horas. A última sessão para votação do projeto, já no Senado, durou 20 horas.
Durante a tramitação, as forças governistas promoveram cerca de 200 modificações no projeto original, o que propiciou o alargamento da aliança entre os setores democráticos, populares e de esquerda, visando o enfrentamento e a vitória sobre os grupos direitistas, defensores, óbvio, das corporações privadas da mídia.

ARGUMENTO ETICAMENTE FORTE DA DIREITA - A direita, alinhada na oposição ao governo, tinha, na minha opinião, um argumento eticamente forte. É que as forças governistas saíram das últimas eleições legislativas bastante enfraquecidas, perderam a maioria. A oposição, então, argumentava que a nova Lei de Comunicação Audiovisual, de fundamental importância para os destinos do país, deveria ser votada a partir de dezembro próximo, com a posse dos novos legisladores.

POR QUE MANTER UMA LEI DA DITADURA? - Já o governo, que neste embate estava apoiado pela esquerda, tinha pressa (ia ficar mais fraco na próxima legislatura) e manejava também um argumento forte: por que esperar se a legislação a ser substituída é indefensável, anti-democrática, elaborada em 1980 pela ditadura militar?

A nova lei terminou aprovada na Câmara dos Deputados por 147 votos favoráveis, quatro contra e uma abstenção। A grande diferença é porque uns 100 deputados oposicionistas deixaram o plenário no momento da votação (este detalhe é muitas vezes omitido nas publicações favoráveis ao projeto, o que esconde o equilíbrio das forças e a dificuldade para sua aprovação)। Já no Senado, o placar foi mais favorável - 44 a favor e 24 contra।

Cristina Kirchner não perdeu tempo। Sancionou logo o novo estatuto legal e na quarta-feira, dia 21, assinou decreto criando a Autoridade de Aplicação da Lei de Comunicação Audiovisual। O órgão é constituído pelo Poder Executivo, com representantes da oposição, das empresas de comunicação, dos trabalhadores do setor e também do meio acadêmico.


CONSTRUTORES DE UMA REALIDADE CAPCIOSA - Para dar uma idéia das discussões: o senador governista, Nicolás Fernández, defendendo a aprovação da nova lei, declarou que é necessário “romper com a ditadura” das empresas jornalísticas, acrescentando que os meios de comunicação “devem ser o veículo da realidade” e não “construtores de uma realidade capciosa”.
Já a senadora da Coalizão Cívica, Maria Eugenia Estensoro, oposicionista, disse que “com esta lei se propõe uma televisão com fronteiras para os meios privados, porém a única que não vai ter fronteiras é a voz do governo”.
(As informações são baseadas, sobretudo, em matérias do sítio da TV Telesur – http://www.telesurtv.net/ ).

domingo, 25 de outubro de 2009

Façanha boliviana

Fila para registro no Paseo El Prado, a dois dias do encerramento
De La Paz (Bolívia) – As eleições de 6 de dezembro na Bolívia têm um componente inédito, a adoção de um tal registro biométrico dos eleitores. Nas últimas duas semanas, o “padrón biométrico” (uma tecnologia moderníssima, com digitais, fotos e assinaturas digitalizadas) rendeu seguidas manchetes de primeira página em todos os jornais daqui. Até o dia 17, já que o prazo para inscrições encerrou-se no dia 15, lá para a meia-noite.

Mas é claro que o destaque não é por causa da tecnologia moderna, mas pela luta política que envolveu o tal padrão. Ele foi adotado por exigência da oposição, numa espécie de chantagem para tentar inviabilizar o pleito de dezembro, previsto na nova Constituição aprovada em janeiro deste ano. Os oposicionistas, que têm maioria no Senado, argumentaram que só aprovariam a realização das eleições com o novo registro dos eleitores, já que o então existente estava cheio de irregularidades, o número de inscritos inchado – chegaram a dizer que estavam votando pessoas já mortas e recém nascidos. Daí – denunciavam -, a vitória de Evo Morales nas urnas.

Diziam mais: que o novo registro ia mostrar que os aptos a votar não passariam dos 3 milhões (os inscritos estavam em 3,8 milhões. A população do país é mais de 9 milhões – encontrei na Internet 9,2 milhões e 9,6 milhões). A oposição jogava com a certeza de que era impossível fazer toda a reformulação das inscrições num prazo de dois a três meses e ainda faltava dinheiro para o trabalho. Houve um impasse. O presidente Evo Morales chegou a fazer uma greve de fome, lembram?

EVO “DESVIA” US$ 40 MILHÕES DA COMPRA DE AVIÃO - Quase todos concordavam que era impossível introduzir o novo padrão. O governo hesitou e, afinal, decidiu: topou o desafio. Evo Morales chegou a “desviar” 40 milhões de dólares, que seriam para a compra de um novo avião presidencial, para custear a trabalheira.

Pois bem. O número de eleitores, no badalado padrão biométrico, à medida que ia se aproximando o prazo fatal, dia 15, ultrapassou os 3 milhões (sonhados pela oposição), chegou aos 3,8 milhões (meta considerada ideal) e foi, foi subindo até bater, no final, nos praticamente 5 milhões (4.997.172). Na última semana, tinha manchete de jornal todo santo dia. Eu mesmo cheguei a fazer uma referência ao número de eleitores, aqui no blog, em torno de 4,5 milhões. (Está em curso agora um trabalho de depuração, revisão, para corrigir possíveis irregularidades).
Nos 5 milhões estão incluídos 170 mil registrados em nove cidades de quatro países (pela primeira vez vão votar bolivianos residentes no exterior): Argentina, Espanha, Estados Unidos e Brasil, onde houve inscrições somente em São Paulo – 18.618 votantes.

José Antonio Costas (foto reproduzida do jornal La Razón)


“UM MILAGRE DESTE PAÍS” - O presidente da Corte Nacional Eleitoral (CNE), José Antonio Costas, um dos herois da façanha, em entrevista ao jornal La Razón (privado, considerado o mais lido da Bolívia), declarou: “Eu creio que é um milagre deste país”. E após algumas considerações, acrescentou: “...e digo que é um milagre apesar de ser engenheiro, porque normalmente somos os mais descrentes”. (Talvez parte do ”milagre” possa ser atribuída às virtudes da mobilização popular numa democracia participativa).
A entrevista - onde Costas diz ter folgado, nos últimos meses, apenas “uns quatro domingos”, nenhum sábado, com jornadas sempre acima das 12 horas – está num caderno especial da edição do dia 16, cuja manchete é “Êxito” (já disse que o La Razón é privado, tem posição crítica diante do governo).

No mesmo caderno, há uma materinha esclarecedora. É com o ex-presidente da CNE, José Luis Exeni, que renunciou ao cargo (alegando “razões pessoais”) 15 dias depois do Congresso ter autorizado o pleito de 6 de dezembro, com o padrão biométrico. Na verdade, só há uma frase de Exeni: “Não vou fazer nenhum comentário ainda”.

Mas na matéria é lembrado que, na época da polêmica sobre a adoção do novo registro, o então presidente da Corte tinha declarado, baseado em cálculos muito otimistas, que a trabalheira com o novo padrão só estaria concluída, na melhor das hipóteses, lá para o dia 8 de janeiro de 2010, mais de um mês, portanto, após a data das eleições.

Igual, igualito

Um anúncio numa rua central de La Paz:
“Maestro (mestre) consejero Don Justo
Lee su suerte
En: coca, naipe, alcohol y cigarro
Para: negocio, trabajo, viaje, matrimonio, amor y general (geral)”.

Peço licença para um PARÊNTESE EXISTENCIAL

A solidão, a morte e a filosofia

Não importa se estamos sós ou cercados de amigos e familiares, a morte é um anti-ato de solidão extrema.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Avança a integração soberana

Mais de 35 mil pessoas no encontro dos movimentos sociais
De La Paz (Bolívia) – O processo de integração soberana da América Latina avançou mais um pouco com a VII Cumbre da Aliança Bolivariana para os povos da nossa América (Alba), realizada nos dias 16 e 17 últimos, em Cochabamba, Bolívia, sob a presidência do anfitrião Evo Morales। A Alba hoje é uma espécie de vanguarda, no âmbito institucional, da luta por justiça social e contra o império dos Estados Unidos, entre os povos normalmente referidos como latino-americanos (embora haja alguns pequenos países, a maioria ilhas do Caribe, vindos da colonização inglesa, e o Suriname, da holandesa).


A Alba foi criada em dezembro de 2004 pelos governos de Cuba e Venezuela, com o nome de "alternativa" (depois virou "aliança"), porque era uma alternativa à Alca (Área de Livre Comércio das Américas), patrocinada pelo império (leia-se "livre" para eles, os que se locupletam com a política das empresas transnacionais)।
PRIMEIRA BATALHA DO SÉCULO 21 - Hugo Chávez, presidente venezuelano, conta que o velho Fidel Castro (ainda totalmente na ativa) lhe dizia: "Chávez, nossa primeira grande batalha do século 21 é contra a Alca, vamos derrotar a Alca"। Chávez ficava assim meio cabreiro, tinha suas dúvidas, pois estava passando por Cuba vindo de uma cumbre (reunião de cúpula) onde tinha sido uma voz solitária contra o império.


Mas, já eram tempos de mudança na América Latina ("cambio", sem acento, em espanhol, palavra que virou bandeira)। Fidel acertou. O movimento contra a Alca cresceu, inclusive com a participação do Brasil, já com o presidente Lula, e o "livre comércio" de Bush empacou. Os povos da Latino-américa e do Caribe agradecem.

Chávez, Evo, Daniel Ortega e Ralph Gonsalves (São Vicente)

A Alba que se reuniu em Cochabamba também já está bem mais crescida। Tem nove membros, se contamos com Honduras, que resiste há mais de três meses a um golpe de Estado (o presidente deposto, Manuel Zelaya, vinha adotando posições progressistas, uma delas justamente a adesão à Alba). Além dos fundadores (Cuba e Venezuela), temos ainda: Bolívia, Nicarágua, Equador e as ilhas caribenhas: Dominica, São Vicente e as Granadinas e Antigua e Barbuda (forma uma população em torno de 75 milhões).

Participaram observadores de vários países, a exemplo do secretário geral do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, Nicolai Pátrushev.
Declaração de Rafael Correa, presidente do Equador, ao chegar para o encontro: "Aqui estamos para dar um passo mais pela integração de nossos povos, por uma integração de irmandade, de fraternidade, não de competição, não de mercado, não de consumo, uma integração para construir uma só sociedade, uma só nação".
RESTO DO IMPÉRIO BRITÂNICO - Durante a reunião, o primeiro-ministro de São Vicente e as Granadinas, Ralph Gonsalves, fez uma veemente denúncia contra a influência colonialista da Inglaterra. Pediu aos países da Alba que acompanhem o movimento no seu país, visando organizar um referendo para mudar a situação. "De minha parte, não quero seguir vivendo em território colonial nem um minuto mais", declarou.
AS PRINCIPAIS DECISÕES DA CUMBRE de Cochabamba, dentre mais de uma dezena de iniciativas em diversas áreas:
1 – Implantar, se possível já a partir de 2010, o Sistema Unitário de Compensação Regional de Pagamentos (Sucre, sigla que é, significativamente, o nome do Marechal Antonio José de Sucre, assassinado aos 35 anos, um dos libertadores da América do Sul, ao lado de Simón Bolívar e outros). Trata-se de uma espécie de moeda que vai substituir o dólar nas operações comerciais dentro do bloco. O Banco da Alba, que já começou a operar, terá o papel de banco central para administrar o uso do Sucre.
2 – Ainda na área econômica, firmaram-se os princípios do Tratado de Comércio dos Povos (TCP), baseado na complementariedade; acertaram a constituição da Empresa Grannacional de Importações e Exportações; e mais duas empresas, uma para cuidar do alumínio e outra para o ferro e aço.
3 – Foi criado o Comitê Permanente de Soberania e Defesa da Alba, que tem entre seus objetivos a formação da Escola de Dignidade e Soberania das Forças Armadas. É, na verdade, uma tentativa de se contrapor à doutrinação dos comandos militares na América Latina, ministrada pelo Pentágono e serviços de inteligência estadunidenses, cujo resultado desastroso (para as forças populares e democráticas) é a identificação dos movimentos sociais como inimigos da nação.
4 – Foram dados passos iniciais rumo à criação de uma Radio del Sur (Rádio do Sul) e uma Agência de Notícias, além de uma Escola de Televisão e Cinema, visando incrementar ações para furar o cerco midiático exercido pelos meios privados de comunicação. A Venezuela, juntamente com outros países da América do Sul, tem uma iniciativa bem sucedida neste setor que pode servir de modelo, a TV Telesur (Telesul).
SINTONIA COM OS MOVIMENTOS SOCIAIS – O encerramento do encontro se deu numa grande festa com as organizações sociais (em se tratando da Bolívia, especialmente o movimento indígena, que representa 60% da população do país), que realizaram, em paralelo, a Primeira Cumbre de Movimentos Sociais. Viu-se a sintonia com as forças populares (Não esquecer a consigna de Evo Morales: "Mandar obedecendo". Aos povos e seus legítimos interesses e não aos "donos do mundo", as corporações multinacionais).
Sala das reuniões: "Coca não é cocaína"

Os presidentes e chefes de Estado, vestindo ponchos e devidamente enfeitados com grinaldas de folha de coca ("Coca não é cocaína", dizia um arranjo floral na sala de reuniões), se confraternizaram com mais de 35 mil pessoas, incluindo delegados de movimentos de mais de 40 países (segundo números de Cambio, jornal estatal da Bolívia).

O dirigente da Federação Departamental (estadual) de Camponeses de Cochabamba, Cupertino Mamani, falando em nome das 36 nacionalidades do país (a Bolívia chama-se hoje, oficialmente, Estado Plurinacional de Bolívia), conclamou a se construir a unidade dos povos e governos da América Latina e a se respeitar os direitos da Pachamama (Mãe Terra): "Se não respeitamos a Mãe Terra não vai haver vida para os povos, façamos com que essa demanda receba o apoio da América Latina e do mundo, companheiros"।

A VIII Cumbre será em Cuba em dezembro próximo, quando a Alba estará completando cinco anos. Chávez comentou que, nesse encontro, espera contar com a presença de Fidel Castro, "porque ele é o pai da Alba".

"O lugar mais estimulante do mundo"

"A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os Estados Unidos derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo".
Quem fala aí é o respeitado pensador e linguista estadunidense Noam Chomsky, em recente entrevista ao jornal mexicano La Jornada. Segue só mais um parágrafo, quem quiser mais (tem muito mais) é só entrar no sítio da Agência Carta Maior:
"O Brasil é um exemplo interessante. No princípio dos anos 60, os programas de (João) Goulart não eram tão diferentes dos de Lula. Naquele caso, o governo de Kennedy organizou um golpe de Estado militar. Assim, o estado de segurança nacional se propagou por toda a região como uma praga. Hoje em dia, Lula é o cara bom, ao qual procuram tratar bem, em reação aos governos mais militantes na região. Nos Estados Unidos, não se publicam os comentários favoráveis de Lula a Chávez ou a Evo Morales. Eles são silenciados porque não são o modelo".

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Paseo El Prado, onde as coisas acontecem

De La Paz (Bolivia) – Na terça-feira, dia 13, meu sétimo dia por aqui, parece que comecei a conviver mais pacificamente com o "mal da altura" e, também, a eleger minha área preferida: o Paseo El Prado, as pessoas dizem "Paseo Prado". Fica a pouca distância de dois pontos que marcam também o centro da cidade – a Plaza San Francisco e a Plaza Murillo, nesta última estão os palácios do presidente da República e do Congresso.

O "Paseo Prado" não é uma avenida tão extensa como se poderia imaginar, mas é bem larga, tendo um espaçoso passeio (calçadão) no centro, bem arborizado, florido, com várias áreas onde as pessoas se sentam, conversam, namoram (muitos estudantes estão sempre circulando ou sentados) e vários monumentos, estátuas. Há grandes edifícios comerciais, ministérios, escolas e universidades, bancos (o Banco do Brasil está aí), restaurantes, etc, etc.



Passam pelo Prado ou se concentram nele também as manifestações políticas, as quais estão sempre presentes numa democracia participativa, como podemos classificar o sistema político hoje na Bolívia. Sistema que tem duas características bem visíveis: há muitos protestos coletivos nas ruas e não há repressão policial. Andando pelo centro, já topei, por acaso, com três manifestações:

1 – A primeira foi dos universitários, com participação dos professores e trabalhadores, protestando contra um decreto do presidente Evo Morales, que, segundo eles, restringia a autonomia universitária (parece que o núcleo central do movimento é a Universidad Mayor San Andrés, pública). Foi uma passeata grande, com milhares de pessoas (cinco mil, 10 mil?) por várias ruas do centro (pena que eu estava sem a maquininha digital, estava ainda muito afetado pelo "mal da altura").

A manifestação foi tão forte que, enquanto ela estava nas ruas, o governo já estava anunciando a revogação do decreto, negando qualquer pretensão quanto à quebra da autonomia e alegando querer evitar conflitos nesta fase eleitoral. O movimento dos universitários, no entanto, continua, pois eles protestam também contra cortes no orçamento, conforme argumentam.
2 – Outro protesto foi do Movimento de Libertação Indianista – Katarista (nome que vem daquele líder indígena Tupac Katari, que foi executado pelos espanhois de forma extraordinariamente cruel e é autor da célebre frase: "Voltarei e serei milhões")। Foi na segunda-feira, 12 de outubro, dia em que "comemoramos" a chegada de Cristóvão Colombo à América.

Era uma coisa diminuta. Uns 20 jovens, dizendo-se "índios", gritavam palavras de ordem – "Abajo Colón, mata indio!", "Por el indio, carajo!", "Somos millones, carajo!" - contra a matança dos povos indígenas, identificando Colombo como um dos invasores e assassinos. O "descobridor" era representando por um boneco, que foi queimado ao pé de sua estátua. Trata-se de um movimento tão estreito que não valoriza os grandes avanços conquistados pelo "proyecto de cambio" (projeto de mudança), liderado por Evo Morales.

Mineiro "crucificado"
3 – Duas dezenas de mineiros fizeram na terça-feira, dia 13, seu protesto: interromperam uma das pistas do Paseo El Prado com uma faixa, enquanto dois companheiros representavam-se "crucificados"। Segundo explicaram, sua empresa de mineração, privada, foi substituída por um sistema de cooperativismo, e eles foram, de alguma forma, prejudicados। Um grupo de policiais, sem qualquer ação violenta, negociou com eles, e depois de mais ou menos uma hora, a faixa foi transferida para o calçadão central, desimpedindo a pista।
Faixa com as cores da bandeira boliviana fecha a pista

(Manifestações como estas duas últimas, apesar de insignificantes do ponto de vista político mais geral, acabam tendo repercussão nos meios privados de comunicação, porque estão num contexto contrário à política de Evo Morales. Vi, por exemplo, uma chamada de primeira página num dos principais jornais daqui sobre o protesto contra Colombo).

domingo, 11 de outubro de 2009

As burocracias da chegada

De La Paz (Bolívia) – A maioria das pessoas adora viajar (eu nem tanto). Porém, tem uma parte chatíssima, que costumo chamar de “burocracias da chegada”. Me refiro especificamente às viagens internacionais, com as complicações do manejo de uma língua estrangeira, tudo agravado quando se trata da primeira vez, sozinho, numa cidade:

1 – Providenciar a troca de moedas e se adaptar ao valor da nova moeda;
2 – Negociar com o taxista o preço da corrida até a região mais central da cidade (na moeda local que você acabou de conhecer ou em dólares), sabendo que está sendo roubado. Creio ser quase uma fatalidade;
3 – Escolher um hotel, às vezes baseado na indicação do taxista (no meu caso, um três estrelas, mais ou menos, assim e assado, diária entre o equivalente a 40 a 60 reais, um porre!);
4 – Atualizar o celular, trocar chip ou comprar outro, ver códigos para ligar e receber ligação de seu país;
5 – Providenciar acesso à Internet – configurar seu lap-top ou às vezes fazer novo contrato com prestadora local de serviço. Este problema atualmente está bastante facilitado, principalmente nos hotéis mais caros, pois eles já têm esquema de acesso incluído no preço da diária. (Contratei tal serviço na Bahia com a Claro, incluindo a compra de modem, com a garantia de usá-lo em qualquer país da América do Sul. Porra nenhuma! Enrolação pura).

Há pessoas que evitam muitos desses transtornos, programando a viagem, reserva de hotel, etc, mas eu não consigo. Já tentei, via Internet, e desisti. Vou topando os problemas e resolvendo na hora, na marra, torcendo para não me estrepar. Até agora tem dado certo. Dizem que sou uma pessoa de muita sorte.

EX-FUTURO GUERRILHEIRO LEVA UM SUSTO - No caso especial de La Paz, topei com um sério agravante: o tal do “mal da altura” ou “mal da montanha”. Não faltou quem me avisasse, mas não dei atenção. Mantenho uma certa autoconfiança, talvez até temeridade, sentimentos mais adequados à juventude (embora os jovens sejam atacados também pela insegurança). Gosto de dizer que é mania de ex-futuro guerrilheiro, sem contar que ao servir o Exército aprendi que “soldado é superior ao tempo”.

Pois é, tomei um susto dos diabos. Me atacaram o baticum acelerado do coração e dor de cabeça, além de uma fraqueza braba: andava duas quadras, com passo lento, e ainda tinha que parar para descansar. Me senti, prematuramente, um velho em estado terminal (costumam aparecer também náuseas e falta de apetite, não foi meu caso). Bem, me tranqüilizaram, que era normal, tomei uns comprimidos (“Sorojchi Pills”), continuo tomando chá de coca e mascando a folha. E melhorando. Hoje, no meu quinto dia em La Paz, ainda não estou 100%. Mas chego lá, vamos ver. Tem ainda a aporrinhação do frio, a pele ressecada, etc.

A capital boliviana fica a 3.600 metros acima do nível do mar. Isso é muito badalado na imprensa brasileira quando a seleção de futebol joga aqui, como é o caso deste domingo, dia 11 (o Estádio Ernando Siles fica juntinho do primeiro hotel em que me hospedei aqui, no bairro Miraflores). Realmente não sei como nossos jogadores agüentam correr, presumo que sejam “dopados” através de recursos da medicina moderna. Não é à toa que em 1981 foi a última vez que o Brasil, sob a direção técnica de Telê Santana, ganhou (2x1) da Bolívia, jogando aqui em La Paz.

A POLÍTICA ESTÁ FERVENDO - Entonces, vamos ver se de agora em diante cuido de “burocracias” mais prazerosas. Buscar uns bares e restaurantes aconchegantes, identificar ruas e praças agradáveis, lugares interessantes e acompanhar a política, que está fervendo com a campanha para as eleições do próximo dia 6 de dezembro.

Haverá decisões para presidente da República e vice (provável reeleição de Evo Morales) e para as duas casas do Congresso, onde parece residir mais expectativa, já que atualmente o governo tem minoria no Senado e se vira para reverter o quadro. Os eleitores (ao todo os inscritos devem chegar ao redor de 4,5 milhões) vão votar também para as tais autonomias – departamental, regional, provincial e indígena -, as quais espero estudar e entender para passar aos meus prezados leitores.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Último passeio pela cidade

De Assunção (Paraguai) – Amiga, como estás? Hoje quero te mostrar alguns lugares e paisagens por onde circulei na capital guarani, esta cidade meio suja, de ruas meio esburacadas, de trânsito confuso, a maioria dos cruzamentos, mesmo no centro, sem semáforos, muitos ambulantes pelas calçadas. Bastante desorganizada, especialmente para quem olha com olhos acostumados a Curitiba (PR).


Antigo Cabildo, hoje Centro Cultural da República


Catedral de Nuestra Señora de la Asunción

Hoje, como prometi, não vou falar de política. Vamos aqui pela Praça da Independência, uma área muito simpática (parte dela chama-se Praça Juan de Salazar y Espinoza, o fundador da cidade em 1537). Estão aqui o antigo Cabildo (instância importante na administração das colônias espanholas, espécie de prefeitura), prédio histórico que já foi Palácio do Governo, depois Parlamento e hoje é o Centro Cultural da República; a Catedral de Nuestra Señora de la Asunción; o Comando da Polícia Nacional; e as sedes da Câmara dos Deputados e do Senado (local já referido aqui ao falarmos do Palácio do Legislativo e a “chacarita”/favela).


Moderno prédio onde funciona o Senado


Palácio do Governo

Logo a duas quadras, amiga, estamos em frente ao belo Palácio do Governo (Palácio dos López), onde despacha o presidente da República. Junto está a Praça dos Desaparecidos (já objeto de matéria aqui no blog) e, descendo um pouco, temos o porto do Rio Paraguai, à esquerda correndo em direção à Argentina. (Me avisaram que é perigoso descer até o porto, mas estive aqui duas vezes e foi tudo tranqüilo. Lembre que a favela e o Bairro Chinês estão nas proximidades). Hoje faz calor, esse calorzão abafado. Curioso, amiga, como o tempo muda aqui tão bruscamente. Estamos no terceiro dia de calor, depois de quatro dias de frio, que chegou até aos 8 graus. Em seguida ao calor, vem a chuva. As pessoas dizem: “Hoje ainda é calor, amanhã deve chover”.

PRAÇA DA DEMOCRACIA É O MEU XODÓ - Bem, vamos retornar pela Praça da Democracia, são uns 10 minutos de caminhada. É meu xodó aqui em Assunção, por ela transitei em quase todos os meus 34 dias paraguaios, breve ela será parte de minhas lembranças. Apareceu em meu blog desde a primeira matéria daqui. Aliás, disse no blog Pilha Pura e repito aqui: falei que a Praça da Democracia não é uma, são três: além da própria, há a dos Herois e a Juan E. O’Leary. Errei, são quatro: tem ainda a Plaza de la Libertad.

Acrescento que na época da ditadura de Stroessner (acabei falando na desgraciada), toda essa enorme área chamava-se Praça dos Herois. Aqui no Lido Bar, em frente ao Panteão dos Herois, eu sempre tomava um café com leite, e ali perto, entrando pela Rua Estrella, está o Bolsi, onde eu costumava tomar uns uísques, dois bares/restaurantes tradicionais, um com 53 anos e outro com 49. (Uso o verbo no passado, porque quando este texto estiver no blog, eu já deverei estar em La Paz, Bolívia).



Casa onde os patriotas conspiravam contra a Espanha


Teatro Municipal

Aproveitamos, amiga, e damos uma olhada rápida no Teatro Municipal e na Casa da Independência (hoje Museu Histórico), onde os patriotas conspiravam contra o domínio espanhol até conquistarem a independência em 1811. É tudo aqui pelo centro. Depois pegamos a Rua Palma, considerada a mais turística da cidade, que emenda com a Rua Mariscal Estigarribia e vai dar na Praça Uruguaia.
MADAME LYNCH, O GRANDE AMOR DO MARECHAL - É um trecho por onde andei quase diariamente. Nele quero te mostrar a “casona” (está assim na placa em espanhol) onde viveu e brilhou Elisa Lynch, uma irlandesa que tem um lugar especial na história do Paraguai: era a companheira do marechal Solano López, que nunca foi casado oficialmente. Para aquela época era um fenômeno e ainda mais se tratando do presidente da República.

Há extensa e controversa literatura sobre a relação dos dois. Se conheceram na Europa, ela com 18 anos separada do marido francês e ele solteiro na faixa dos 30, filho do presidente do Paraguai, Carlos Antonio López, e representante diplomático do seu país na Europa. Não falta quem a considere uma prostituta de luxo, mas prefiro a versão de que se tratou, na verdade, de um grande amor. Era conhecida como Madame Lynch e ditava a moda na sociedade asuncena. Acompanhava o marido/amante quando ele foi morto pelas tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870). Preservou sua vida gritando na cara dos inimigos sua nacionalidade inglesa.
A "casona" de Madame Lynch

A casa realmente é imensa, hoje funciona nela a Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade Nacional de Assunção (UNA). Temo que a foto que deve estar ilustrando não consiga dar sua verdadeira dimensão. Na rua principal estão 15 portas, dois portões e duas janelas; e na rua lateral, mais um portão e mais 10 janelas. A placa diz: “Esta ‘casona’ pertencia a Elisa Lynch, companheira do Mariscal López. A ela acudiam (freqüentavam) diplomatas, intelectuais e amigos da arte”.

A "chipa", tão popular aqui como o nosso acarajé
“CHIPA” E “SOPA PARAGUAIA” - Agora, amiga, vamos fechando nossa programação. Vamos comer uma “chipa”, custa 2.500 guaranis, o equivalente a um real (é tão popular aqui como o acarajé na Bahia, lembra o joão duro de Seabra, na Chapada Diamantina, interior da Bahia, ou o chimango de Salvador). Em seguida tomamos umas cervejas e podemos almoçar no restaurante a quilo do Mercado El País, aqui pertinho mesmo, na Praça Uruguaia.
Vou te apresentar outra iguaria típica e curiosa daqui: a “sopa paraguaia”. Não tem nada de sopa. É, na verdade, um pedaço de bolo de milho, o gosto é quase o mesmo da nossa pamonha. Dizem que, durante a Guerra do Paraguai, o marechal Solano López queria tomar uma sopa, mas sua cozinheira não sabia preparar. Terminou fazendo o que prefiro chamar de bolo de milho. Acontece, minha amiga, que o marechal comeu e gostou. Então está aí até hoje a “sopa paraguaia”.

domingo, 4 de outubro de 2009

O contraste




Cara a cara: a miséria da favela e a opulência do palácio


De Assunção (Paraguai) – Prometi, amiga, te levar a conhecer lugares mais aprazíveis da capital guarani, mas deixa pra outro dia. Hoje vou te mostrar uma coisa chocante: o contraste entre a miséria e a opulência, assim cara a cara, uma diante da outra, no maior despudor, o palácio de espelhos reluzentes e o amontoado de casebres da favela, pra usar nosso termo carioca, brasileiro


A "chacarita" (favela), a mesma paisagem do Barrio Chino
Olha aí, mira, como dizem por aqui. O palácio é o do Legislativo, moderno, bonito, onde funciona o Senado da República do Paraguai. E aí defronte está a favela ou "la chacarita", que se confunde – é a mesma paisagem urbana e humana – com o vizinho Barrio Chino (Bairro Chinês). A dividir os dois mundos, a Plaza Mariscal López (com a imensa estátua do marechal Francisco Solano López, o heroi nacional) e soldados, sempre há soldados por ali, de serviço ou descansando do serviço।





Aparentemente, a convivência não parece ser tensa, mas não sei... Quando estive aqui nos meus primeiros dias de Assunção, admirando aquele contraste, os carrões estacionados junto aos barracos, me adiantei um pouco pela entrada da favela, pensando em fotografar pegando os casebres e o palácio। Um policial(foto abaixo) de serviço na praça, foi se aproximando aos poucos, parou a uma certa distância e me chamou. Gentilmente o soldado Fernandez me alertou sobre o perigo do local. Bati um papo com ele, até tirei umas fotos dele, e me afastei.

Mas, amiga, confesso que fiquei com aquilo atravessado na garganta। "Não é possível, que porra!, vou voltar lá e vou tirar as fotos", pensava. Pois um dia voltei, tirei as fotos, se prestaram é outro problema, mas tirei, me senti realizado.

Me lembrei disso na semana passada lendo um jornal। Um casal de turistas franceses foi assaltado na "chacarita", não exatamente onde estive, mas bem lá para dentro. A área é muito grande, se estende até a margem do Rio Paraguai, cujas águas são vistas da praça. A polícia, por sinal, se mostrou eficiente, dois dos assaltantes foram presos e a máquina fotográfica dos franceses foi recuperada.


A GUERRA DO PARAGUAI OU GENOCÍDIO AMERICANO – Amiga, vou aproveitar pra te falar um pouco desse marechal López, que está em seu cavalo, em atitude marcial, ladeado por dois canhões, de costas para o palácio e voltado para seus compatriotas miseráveis da "chacarita". É aquele mesmo Solano López, que era apresentado nos livros didáticos brasileiros de minha geração (fico curioso em saber como é hoje) como um ditador louco, sanguinário e cruel.
Me mentiram, criminosamente, minha amiga, a mim, a gerações। Creio que ainda hoje a mentira perdura। As mentiras dos historiadores, as mentiras dos jornalistas... Eu já sabia a verdade, mas agora estou sabendo em detalhes. Estou lendo o livro Genocídio americano, de um jornalista brasileiro, Julio José Chiavenato. Simplesmente, o Império de Pedro II no Brasil, a Argentina e o Uruguai, na chamada Tríplice Aliança, assumindo o trabalho sujo do imperialismo britânico, destruíram o Paraguai, dizimaram 75,75% de sua população (99,50% dos homens adultos).

MATAR O ÚLTIMO PARAGUAIO NO VENTRE DA MÃE - O nosso Duque de Caxias, que tinha uma visão muito crítica desta guerra, chegou a avisar ao imperador, num famoso "despacho" datado de 18/11/1867 (a guerra foi em 1864/70), que para vencê-la, seria necessário matar o último paraguaio no ventre da mãe.
Nas últimas batalhas lutaram nas fileiras do exército do Paraguai crianças de 6 a 14 anos. O papel de carniceiro, de sádico, ficou para o Conde D’Eu. (Lembra a barbaridade do exército brasileiro exterminando os últimos resistentes do Conselheiro, em Canudos, na Bahia, fatos relatados na terceira parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha).
Por que tanta barbárie? Parece incrível, realmente, amiga. Vou tentar responder em poucas palavras. Porque o Paraguai daquela época, meados do século 19, era a prova cabal de que se poderia ter vida – e vida em abundância (gosto da eloquência dos teólogos católicos) – fora dos cânones econômicos, políticos e ideológicos do império de plantão, o britânico.
O desenvolvimento autônomo do Paraguai de então, especialmente na área econômica – e também social, não havia analfabetos, desempregados e ladrões -, era uma ousadia imperdoável. O sonho de uma pequena nação livre tornando-se realidade. A lógica dos impérios, ontem e hoje, é a mesma. Claro que há outros aspectos conjunturais, de fronteiras, etc e tal, mas acho que a essência é isso aí.
No tal "despacho", Duque de Caxias destaca a resistência heróica dos paraguaios e a figura de Solano López, estadista comprometido com seu povo e não com o imperialismo britânico e a oligarquia local, a qual, na verdade, no Paraguai de então, estava reduzida a quase nada. Cito um pequeno trecho da parte final, com a ressalva de que sua autenticidade é contestada, embora Julio José Chiavenato lhe dê credibilidade. (Cópia do documento está no Museu Mitre, em Buenos Aires, o original teria sido destruído):
"À paz com López, a paz, Imperial Majestade, é o único meio salvador que nos resta. López é invencível, López pode tudo; e sem a paz, Majestade, tudo estará perdido, e antes de presenciar esse cataclisma funesto, estando eu à frente dos exércitos imperiais, suplico a Vossa Majestade o especialíssimo favor de outorgar-me minha demissão do honroso posto que Vossa Majestade me confiou".
Ponto final. Não me tenha na conta de um chato, amiga, te garanto que no nosso próximo passeio iremos a pontos mais aprazíveis. Juro que durante alguns dias não falarei mais nem de ditadura, nem de miséria, nem tampouco de genocídio.