segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ONDE SERIA O SERTÃO DE JERÔNIMO, O HERÓI DO SERTÃO? (Evocando minha terra/minha gente)


O Jerônimo da novela da TV; o da novela
do rádio dependia da nossa imaginação
Eu nunca perguntei ou me perguntei explicitamente onde seria, como seria o tal do sertão do nosso destemido e invencível herói. O pa-ta-ta... pa-ta-ta... dos cascos dos cavalos, manejado pelo contra-regra no estúdio da Rádio Nacional, levava aquele grupo de garotos ao pé do rádio de Seo Adelino, na década de 50, a paragens indizíveis, só imaginadas. Eu sei que havia mato, aquele mato meio raquítico do semi-árido nordestino, muita poeira, ah! isso aí era bem nítido, bem acentuado, levantava aquele poeirão dos diabos quando os dois intrépidos cavaleiros disparavam na perseguição tenaz aos maus, aos bandidos impiedosos. Um branco, bonitão, alto, forte, o outro um negrinho pequeno e engraçado, o justiceiro e seu “inseparável” companheiro, Jerônimo e Moleque Saci.


Poderia ser uma cidadezinha como Seabra, lá na Chapada Diamantina, no coração da Bahia, nos diziam que por aquelas bandas começava o sertão baiano. Mas Seabra, apesar de não ter luz elétrica, já tinha muitas ruas calçadas com paralelepípedo (que palavra!), não parecia muito apropriada para correrias de cavalo. Certamente seria lá pros arrebaldes, pois não era por ali que começava o sertão?


De qualquer jeito, a gente brincava com os amigos, com os primos, o mais atirado fazia o papel de Jerônimo, um outro era o bandido mais valente da novela atual naqueles dias. Os dois lutavam, eram “brigas” de fazer de conta pra ver quem derrubava quem.


Robério quando do lançamento de seu livro em Seabra, cujo
título está aí estampado no cartaz
Uma vez, de noite, numa “encenação” dessa com meu primo Jorge (Jorjão, hoje do Jorge’s Bar, no Alto da Boa Vista), subi num pé de figo (é esse mesmo o nome, de figueira?) pra me esconder (era num jardim defronte de minha casa, um jardim bastante afamado, com cerca de tijolos bem requintada, encimada por belos parapeitos, infelizmente demolidos pelos ventos do "progresso". Os jovens seabrenses que estudavam no Colégio Ponte Nova - onde hoje é a cidade de Wagner -, de uns presbiterianos norte-americanos da Fundação Baker, a mesma do Colégio 2 de Julho, de Salvador, diziam que o jardim parecia os jardins suspensos da Babilônia. Viu aí? Fui longe desta vez. Eram por assim dizer os intelectuais da terra, de férias, logo voltariam pra estudar. Eu morria de inveja deles, ainda mais que no colégio “dos americanos” havia um time de futebol dos mais badalados da região, e eu era bom de bola, o que atesta o apelido de Diabo Louro, criado pelo famoso locutor do serviço de alto-falante local, Robério (foto), que narrava o jogo imitando os locutores da Rádio Globo do Rio de Janeiro, até os patrocinadores, Gillette!!!!, estalava enfático durante a narração).


Dona Nenen
Sea Donana
E voltando à conversa que adiante ia, subi no pé de figo pra me esconder, escorreguei e caí. No dia seguinte, me levantei e minha mãe Nenen, assim em torno de mim, parecendo meio vexada, e olhei no espelho e minha cara estava toda cheia de manchas vermelhas. Não era sangue, era mercúrio cromo, daquele vermelhão que se usava antigamente. E fui me inteirar dos sucedidos da noite passada, tinha apagado total, nem da queda eu me recordava. E não sei como foi, ninguém viu, me acharam “morto” debaixo do pé de figo?


Podemos concluir que foi uma queda feia. Chamaram logo Sea Donana, que fazia as vezes de médica/enfermeira e etc e ela tomou as devidas providências. Me recuperei logo, acho que não ficou seqüela alguma. Dizem que minha mãe dizia: “Que menino corajoso, não se queixa, não reclama nada, não grita, não chora!”, quando Sea Donana aplicava o mercúrio cromo e as compressas quentes na minha cara estragada. E eu inconsciente, fora de mim, “desmaiado”, não estava sentindo nada, só sei disso porque me falaram no dia seguinte. Mas deve ter ficado a fama: “Que menino corajoso!”.



Alceu, de calção, e Tavim (Otaviano), à esquerda (não reconheci o que está ao volante)

Alceu, agachado ao centro; arrisco algumas identificações: de pé: Valdir Fernandes (1), Préu? (2),
Bité (4), Doca (5), Erivaldo (6) e Deca? (7); agachados: Rosalvo Sapateiro (1) e Dálvio Leite (5).
Não havia médico em Seabra, Sea Donana (por sinal, mãe do famoso Robério, locutor de futebol e da Gillette!!!!) dava conta do recado, sabe lá Deus como! Sea Donana que Alceu Correia Guedes e Gonçalves chamava Dona Donana, um nome extraordinário, era Ana, virou Dona Ana, depois Donana, depois Sea Donana, e agora vinha esse cara de fora, pernambucano, jovem, bonito, rico (pra nós era rico, era coletor federal, hoje seria auditor), com o modernoso Dona Donana. Me mandou uma vez, eu menino, dar um recado a “Dona Donana”, fiquei impressionado.

Bem, me desculpem, viajei. Será que Alceu curtia Jerônimo, o Herói do Sertão?

(Este texto foi publicado em 15/04/2011 no blog Pilha Pura – www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com . Reproduzo aqui no meu blog, com diminutas alterações e com fotos dos arquivos de Denise, filha de Alceu, de Luciana, filha de Robério e neta de Sea Donana, e de Smitson, filho de nossa mãe Nenen).

SILVIO RODRIGUEZ: "HASTA SIEMPRE, COMANDANTE!"

domingo, 28 de agosto de 2011

COMO MUDAR O MUNDO, NOVO LIVRO DE HOBSBAWM (Parte 1)


Por Fernando Bogado – do jornal argentino Página/12 (Reproduzido de Carta Maior, de 22/08/2011)

Aos 94 anos, depois de publicar suas extraordinárias memórias (Tempos Interessantes), o grande historiador inglês Eric Hobsbawm (foto) – que dedicou sua vida à análise e explicação da era moderna, desde a Revolução Francesa até os estertores do século XX – tinha um livro a mais para escrever: Como mudar o mundo. Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina lhe deram a alegria de voltar ao seu querido Marx. No livro, refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de O Capital para entender o mundo no século XXI e fazê-lo um lugar melhor.

Imaginem a cena: Eric Hobsbawm, reconhecido historiador inglês de corte marxista, e George Soros, uma das mentes financeiras mais importantes do mundo, encontram-se para um jantar. Soros, talvez para iniciar a conversa, talvez com o objetivo de continuar alguma outra, pergunta a Hobsbawm sobre a opinião que este tem de Marx. Hobsbawm escolhe dar uma resposta ambígua para evitar o conflito, e respondendo em parte a esse culto à reflexão antes que ao confronto direto que caracteriza seus trabalhos. Soros, ao contrário, é conclusivo: “Há 150 anos esse homem descobriu algo sobre o capitalismo que devemos levar em conta”.

A estória parece quase seguir a estrutura de uma piada (“Soros e Hobsbawm se encontram em um bar...”), mas é o melhor exemplo que o historiador inglês encontra para mostrar, no começo do seu livro, essa ideia que está pairando no ar há tempos: o legado filosófico de Karl Marx (1818-1883) está longe de ter se esgotado e, muito pelo contrário, as publicações especializadas da atualidade, o discurso político cotidiano, a organização social de qualquer país não fazem outra coisa que invocar o seu fantasma para lidar com esse angustiante problema que tomou o nome histórico de “capitalismo”.

No livro, recentemente publicado em castelhano, que leva o sugestivo título Como mudar o mundo, Hobsbawm volta a oferecer seu indiscutível talento para colocar as proposições daquele filósofo alemão que seguem tendo uma vigência definidora para construir o presente.

Repassemos antes a presunção de morte que se pendurou no pescoço de Marx durante o último quartel do século XX: a crise do petróleo de 1973 desencadeou um processo político e econômico que organizou o que Hobsbawm qualificou como reductio ad absurdum das tendências da economia de mercado. A situação provocou o surgimento de governos conservadores nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (com Ronald Reagan e Margaret Thatcher à frente de seus países), ao mesmo tempo que implicou em diversos territórios a implantação de economias de claro corte financeiro, situação que na América Latina trouxe aparelhado o surgimento de governos de fato que impuseram este tipo de organização pela força, suplantando as estratégias de desenvolvimento industrial e substituição das importações por facilidades para os capitais andorinha, a especulação e a desestruturação das organizações sindicais (somados, é claro, às estratégias de repressão dispostas há muito tempo antes dos golpes, como mostra a história nacional).

Aquela série de mudanças culminou com a queda do Muro de Berlim e do bloco soviético em 1989-1991: a URSS não podia resistir muito mais tempo com sua particular versão do marxismo e sua economia planejada. Francis Fukuyama, pensador norte-americano de corte neoliberal, se apropriou de algumas noções da filosofia hegeliana para dar a sentença final acerca desta sucessão de acontecimentos: estávamos diante do “fim da História”, o desaparecimento do mundo organizado em blocos opostos que havia marcado o destino de tudo o que conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial em diante.

É neste panorama conciliador da economia globalizada e aparente pacificação social que, ao longo da década de 1990, todo o mundo deu por enterrado o pensamento marxista, inclusive, com certas justificativas de índole éticas: o nome de Karl Marx sempre vinha acompanhado de Joseph Stalin, entre muitos outros. Marx não era apenas uma má palavra para um guru econômico, mas também para um cidadão das zonas mais pobres da Rússia, que via com prazer a forma como caíam as estátuas de Lênin, Stalin e do próprio Marx.

Quem teria dito então que veríamos uma foto de Sarkozy lendo O Capital e o papa Bento XVI elogiando a capacidade analítica de seu autor?

Entre 2007 e 2009 (2001, para nós), uma série de crises do sistema capitalista financeiro (ou “capitalismo tardio” tal como o identificaram pensadores como Frederic Jameson ou Jürgen Habermas), demonstraram que o que se pensou como o começo de uma era de tranquilidade em termos políticos, sociais e, sobretudo, econômicos para depois de 1989, na verdade não era nada disso. O mercado entregue pura e exclusivamente à “mão invisível” de Adam Smith, amparado pela domesticação do Estado, começou a trincar sem necessidade de conflito com outro sistema econômico-político.

(Publicado originalmente em português por IHU Online. A tradução é do Cepat).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A ENTREVISTADA SAI DO SCRIPT E DEFENDE A LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS (vídeo)



Por indicação do companheiro Ernandes Santos, vai aí outra pérola que pode se inserir na série "quando o entrevistado(a) não segue o script". Peguei no YouTude com a seguinte apresentação:

"Entrevista muito esclarecedora concedida pela educadora Gilberta Acselrad a um programa da Globo News, pertencente à Rede Globo. Resta evidente a postura do discurso oficial, midiático, proibicionista, lugar-comum, ineficiente e falido, frente à intelectual que não se limita a repetir as "soluções" propagandeadas e busca conhecer de verdade do "problema das drogas". Parabéns Gilberta Acselrad!"

Transcrevo um comentário lá exposto sem assinatura: "Perfeito demais, essa entrevistada é genial, com certeza não falou que era a favor antes de ser entrevistada, conseguiu uma chance de ir ao ar e conseguiu expor sua opnião que normalmente seria CENSURADA pela mídia (que prega tão fortemente a liberdade de expressão, aham!). Aplausos pra senhora".







quinta-feira, 25 de agosto de 2011

SEM-TERRA, ESTUDANTES E SINDICALISTAS VÃO ÀS RUAS COBRAR DO GOVERNO


(Foto: Reprodução)
Por Najla Passos – Especial para a Carta Maior (Reproduzido de Carta Maior, de 24/08/2011)

BRASÍLIA - A luta por reforma agrária e mais verbas para a educação unificou uma série de movimentos sociais nesta quarta-feira (24/8) e levou milhares de camponeses, estudantes e sindicalistas às ruas de Brasília. Segundo os organizadores, de 15 mil a 20 mil pessoas foram à Esplanada dos Ministérios protestar contra o que consideram descaso do governo. Nas contas da Polícia Militar, eram 5 mil.

No resto do país, a Via Campesina, um dos promotores das manifestações, calcula ter mobilizado 60 mil pessoas.

“Quando se trata das dificuldades enfrentadas pelos grandes banqueiros e empresários, a resposta do governo é muito rápida, como no caso da recente e vergonhosa isenção de impostos para o setor industrial”, reclamou um dos coordenadores da Via Campesina e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Joceli Andreoli.

“Nós, trabalhadores, estamos nas ruas, fazendo a nossa parte. Esperamos que o governo também faça a dele, sem utilizar a velha desculpa da correlação de forças desfavorável”, completou.

A Jornada Nacional de Lutas teve início segunda-feira (22/08), quando três mil famílias de sem-terra começaram a acampar em Brasília. E encorpou nesta quarta-feira, com a chegada de caravanas de estudantes e de centrais sindicais à capital federal.

Os manifestantes entregaram a pauta unificada das 15 entidades que organizam o ato ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ao presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), e ao vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Brito. O objetivo era garantir que tudo fosse conhecido pelos três poderes.

Carvalho se comprometeu a realizar novas reuniões até o fim da semana, para dar respostas. Marco Maia prometeu interceder pelos manifestantes junto à presidenta Dilma Rousseff.

Pauta unificada, pautas específicas

As duas principais bandeiras da Jornada são reforma agrária e mais dinheiro para a educação, mas há uma ampla lista de pedidos, porque são muitas entidades diferentes mobilizadas. Há reivindicação por redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, aumento para funcionários públicos, mudanças na política econômica e fim do fator previdenciário, por exemplo.

Após o fim do ato unificado, as entidades foram brigar por suas pautas específicas. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) foram para a porta dos ministérios das Cidades e dos Esportes, protestar contra despejos que vêm ocorrendo devido às obras da Copa do Mundo e da Olimpíada.

Sem-terra ligados à Via Campesina protestaram em frente ao Ministério das Minas e Energia, para pedir o fim de grandes obras no campo, a manutenção do caráter estatal das empresas de energia e a garantia de que os recursos provenientes do Pré-sal beneficiem toda a população brasileira.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A LIÇÃO DE MR. DOWE A UMA JORNALISTA DA BBC


Por Marco Aurélio Weissheimer (Reproduzido de Carta Maior, de 22/08/2011)

Não é raro assistir na televisão a um (a) entrevistador (a) brigando com o entrevistado. Com uma pauta prévia na cabeça, muitos jornalistas esperam que o outro lado apenas corrobore e ilustre tal pauta com algumas declarações. Quando isso não ocorre, as coisas podem sair do controle.

Foi o que aconteceu, dias atrás, com uma jornalista da BBC ao entrevistar um morador de um bairro da periferia de Londres sobre os distúrbios que sacudiram a Inglaterra dias atrás. A apresentadora tenta arrancar do entrevistado uma condenação aos protestos, mas escuta algo bem diferente. Diante da insistência da jornalista e da insinuação de que sua opinião devia-se ao fato de ele ter participado dos distúrbios, o entrevistado dá uma carraspana na dita cuja pedindo um pouco mais de respeito e dizendo que não estava ali para ser ofendido.

O testemunho que Mr. Dowe dá sobre a ação cotidiana da polícia britânica contra jovens negros parece ter ofendido a sensibilidade da jornalista que esperava ouvir outra coisa de um membro “da nossa comunidade”, como diz.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

MARGARIDAS: O QUE FICA ALÉM DA EMOÇÃO, DA RETÓRICA E DO ESPETÁCULO?

O ato público na Praça dos Três Poderes (ao fundo o Congresso Nacional), na manhã da
quarta-feira, dia 17 (Foto: Isabela Lyrio) 
A marcha rumo à Esplanada dos Ministérios, com a figura
de Margarida Alves, a sindicalista paraibana assassinada
(Foto: Regina Santos)
De Brasília (DF) – Foram 70 mil pessoas, nas estimativas mais modestas (ou 100 mil, como estimaram os organizadores). A grande maioria mulheres, a maioria trabalhadoras rurais, que agitaram a capital do Brasil na terça e na quarta-feira, dias 16 e 17, e encheram o Parque da Cidade, o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes. Foi a quarta Marcha das Margaridas - assim chamada para homenagear Margarida Alves, sindicalista paraibana assassinada há 28 anos a mando de usineiros, senhores donos da terra e, ainda hoje, também da vida -, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com suas 27 federações, as Fetags, e mais de 4.000 sindicatos espalhados por este imenso país.


O que gritavam essas aguerridas mulheres nos milhares de cartazes, bandeiras e faixas, e nos carros de som e nas tocantes canções e nos gritos propriamente ditos? Pediam muita coisa de que carece o povo brasileiro, desde uma educação não sexista ao fim da violência machista contra as “companheiras”, passando por uma ampla reforma política com protagonismo popular, tudo sob o lema “desenvolvimento sustentável, com dignidade, justiça, autonomia e liberdade”. E pediam, especificamente, a atualização dos índices de produtividade no campo para se avançar rumo à reforma agrária, uma bandeira de luta cada dia mais invisível, tida como anacrônica nos meios oficiais do Brasil moderno.


O belo espetáculo das milhares de margaridas nas ruas de
Brasília (Foto: Isabela Lyrio)
A maioria das atividades foi concentrada no pavilhão principal do Parque da Cidade
(Foto: Jadson Oliveira)
Aliás, reforma agrária foi uma reivindicação bastante falada, bastante ouvida, mas num tom bastante formal, levando em conta especialmente o belo ato público na manhã da quarta-feira, diante do Congresso Nacional. No coro de unanimidade em apoio à presidenta Dilma Rousseff, não houve um único orador/oradora que reclamasse, ainda que fosse da maneira mais branda possível, de que a reforma agrária, de fato, de fato, foi esquecida pelos governos petistas, tanto o de Lula, como o de Dilma. Seria um faz de conta: damos uma força à agricultura familiar e prioridade total ao agronegócio exportador.


(Por falar em Lula, ele foi citado no ato da Praça dos Três Poderes por apenas quatro oradores, um dos quais em tom crítico: Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil, CTB, da Bahia, que falou em nome da direção nacional, ao abordar a crise internacional do capitalismo, disse que Dilma deve atentar para sua gravidade atual, pois ela não é a “marolinha” de 2008 como mencionou Lula).

“Um novo modelo de reforma agrária e agricultura familiar”


O presidente da Contag, Alberto Boch, falou de “um novo modelo de reforma agrária e agricultura familiar, imprescindíveis para o crescimento da sustentabilidade na vida do campo”. (E se é pra valer em se tratando de reforma agrária, algum orador/oradora poderia soltar nos ares do centro dos Três Poderes em Brasília uma menção solidária à luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o combativo MST, o movimento mais radical na luta pela terra, e, por isso mesmo, demonizado a todo momento pelos monopólios da comunicação. Não se ouviu tal menção).


(Foto: Reprodução)
No ato de encerramento, na tarde da mesma quarta, no Parque da Cidade, a resposta básica da presidenta Dilma (foto), de chapéu de palha e agraciada como mais uma “margarida”, foi a continuidade do diálogo “iniciado com o presidente Lula” para se chegar ao atendimento da extensa pauta de reivindicações. Não houve o anúncio de “medidas fortes”, como chegou a se cogitar, como seria, por exemplo, algum avanço quanto ao índice de produtividade. De mais concreto, “anunciou medidas sobre saúde – a construção de 16 unidades básicas de saúde fluviais para atender a região amazônica, e a construção de 10 Centros de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerests), em todo Brasil - e fomento à inclusão produtiva das trabalhadoras rurais”, além do incremento de outros programas de governo referentes às mulheres, conforme destacou matéria do sítio (ou site) da Contag.


(Foto: Jadson Oliveira)
“Nunca estaremos satisfeitas com as respostas”, declarou Carmen Foro (foto), secretária de Mulheres da Contag e coordenadora nacional da marcha, ao comentar os anúncios de Dilma, mas, de modo geral, considerou positiva a resposta da presidenta e lembrou que a luta das mulheres vem de longe – a primeira marcha foi em 2000 - e vai continuar.


“Nós somos os sonhos sonhados por tantas mulheres que tiveram suas vidas ceifadas na luta".


Voltando aos atos políticos mais expressivos – a grande marcha de cinco quilômetros pelo Eixo Monumental e a concentração na Praça dos Três Poderes -, a emoção explodiu nas palavras de Letícia Sabatela, com todo o apelo e charme da artista “global” comprometida com movimentos sociais, a voz embargada: “Se hoje podemos protestar por desenvolvimento sustentável, terra, renda e água é porque muitas mulheres foram caladas ao longo do tempo (...) nós somos os sonhos sonhados por tantas mulheres que tiveram suas vidas ceifadas na luta".


Letícia Sabatela, a voz tolhida pela emoção:
"...muitas mulheres foram caladas ao longo do
tempo" (Foto: Isabela Lyrio)
Seguiram-se discursos veementes das representantes das Fetags das cinco regiões do país, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), das “entidades parceiras”, que bateram firme na defesa das bandeiras feministas, como a descriminalização do aborto (Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, disse que “a chama que nos move é a chama da revolução”), e representantes das frentes parlamentares, como a deputada Luíza Erundina (PSB-SP), conhecida lutadora pela democratização dos meios de comunicação.


Houve ainda, no Parque da Cidade, o lançamento do CD “Canto das Margaridas”, o show com a baiana Margareth Menezes, que cantou, dentre outras, a canção-lema “Olha Brasília está florida, estão chegando as decididas...”, a solenidade da abertura oficial e debates de variados temas, embora pouco concorridos.



Iranilde Carvalho: "Nenhuma mulher é a mesma depois
de participar da Marcha das Margaridas"
(Foto: Jadson Oliveira)
 Dois dias, portanto, movimentadíssimos. Se parecem magros os resultados imediatos, diante de tão belo espetáculo, resta avaliar os ganhos políticos nos quesitos conscientização e capacidade de mobilização e de organização. Na opinião de Iranilde Benício de Carvalho, 40 anos, presidente do sindicato dos servidores do município de Araioses, Maranhão, participando da sua primeira marcha, os ganhos são imensos: “Nenhuma mulher é a mesma depois de participar da Marcha das Margaridas”.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

MARGARIDAS: IMAGENS DA MARCHA ATÉ A PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Figura de Margarida Alves, sindicalista paraibana assassinada
(Postei no blog Pilha Pura - www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com - fotos do acampamento e da sessão de abertura oficial da quarta Marcha das Margaridas)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

LEONARDO BOFF: FALTA ARTICULAÇÃO NO MOVIMENTO POPULAR (vídeo)


De Brasília (DF) - Topei com o frei Leonardo Boff na sessão da abertura oficial da Marcha das Margaridas, na tarde de terça, dia 16, no pavilhão central do Parque da Cidade, na capital federal. Perguntei ao notável pensador brasileiro sobre o papel da mobilização popular na luta em busca de uma democracia mais avançada, chamada ora participativa, ora direta, ou mesmo em busca de algum tipo de socialismo. Confira sua resposta.

(Venho fazendo outras postagens sobre a Marcha das Margaridas no blog Pilha Pura - www.pilhapuradejoaninha.blogspot.com ).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

MARGARIDAS EM FOTOS

Rumo à Praça dos Três Poderes; o cartaz é a figura de
Margarida Alves, sindicalista paraibana assassinada;
está escrito: "Somos todas Margaridas".
(Foto: Regina Santos)
(Foto: Isabela Lyrio)
Concentração para ato público diante do Congresso Nacional (Foto: Isabela Lyrio)

MARGARIDAS TOMAM A CAPITAL DO BRASIL (2 vídeos)


De Brasília (DF) - Umas 70 mil trabalhadoras rurais - para os organizadores, 100 mil - tomaram na manhã de hoje, quarta-feira, dia 17, o miolo da capital federal para apresentar suas reivindicações sob o enunciado "desenvolvimento sustentável com dignidade, justiça, autonomia e liberdade". São as margaridas, nome que homenageia Margarida Silva, sindicalista paraibana assassinada há 28 anos. É a quarta Marcha das Margaridas, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com a participação das 27 federações dos estados, as Fetags, e mais de 4.000 sindicatos de trabalhadores rurais.

O primeiro vídeo pega a marcha no chamado Eixo Monumental, rumo à Esplanada dos Ministérios, enquanto o segundo registra a ocupação da Praça dos Três Poderes, onde foi realizado um ato público. À tarde as margaridas receberam a presidenta Dilma Rousseff, no pavilhão central do Parque da Cidade, onde estão acampadas desde ontem. Hoje à noite elas retornam aos seus estados.




terça-feira, 16 de agosto de 2011

MARCHA DAS MARGARIDAS (dois vídeos - participação política e abertura)


De Brasília (DF) - Iniciada hoje, terça, dia 16, a quarta Marcha das Margaridas. Milhares de trabalhadoras rurais de todo o país estão em Brasília para apresentar suas reivindicações ao governo federal, sob o lema "desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade". Amanhã haverá a marcha pela Esplanada dos Ministérios. (O nome é em homenagem a uma líder sindical paraibana - Margarida Alves - que foi assassinada há 28 anos).



O primeiro vídeo é uma rápida entrevista com Carmen Silva, de Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), que participou hoje da oficina sobre Participação, Poder e Democracia, um dos temas discutidos na vasta programação. Ela apresentou um amplo projeto de reforma política (falaremos dele no decorrer da cobertura da marcha) e fala sobre o papel da mobilização popular diante da necessidade de se avançar rumo a uma democracia de caráter participativo.

Já o segundo é um pequeno registro da abertura oficial do evento, no pavilhão central do Parque da Cidade, pegando trecho do discurso de Alberto Boch, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).











AMIGOS DE CUBA PREPARAM 20ª. CONVENÇÃO


De Salvador (Bahia) – Representantes de sete estados se reuniram no sábado, dia 13, na capital baiana, para discutir sobre a XX Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, que será realizada em Salvador de 7 a 9 de junho do próximo ano. Participaram dirigentes de entidades como a Associação Cultural José Martí, da Bahia, e o Movimento Paulista de Solidariedade a Cuba. Novo encontro ficou agendado para 3 de dezembro, provavelmente em São Paulo, quando a comissão baiana vai apresentar um projeto para definição dos principais pontos da convenção.

Representantes de Bahia, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Ceará, Sergipe e Rio
Grande do Sul...
...reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos, no bairro de Nazaré, em Salvador
Marcelo Chaves, conhecido como Téo, da coordenação do movimento paulista, participou da reunião e comentou que a orientação central é imprimir um caráter pluralista na organização, a exemplo da última convenção realizada em junho em São Paulo, tendo como critério de unificação o desejo de solidariedade ao governo e ao povo cubanos, vítimas da constante agressão do império estadunidense. Outro consenso é a promoção de eventos culturais durante toda a programação, levando em conta inclusive o fato de Havana e Salvador serem cidades-irmãs.

Os amigos de Cuba que preparam a convenção saudaram com entusiasmo o novo livro de Fernando Morais – Os últimos soldados da Guerra Fria (artigo abaixo) -, que está chegando às livrarias neste mês, já que aborda, com propriedade, um tema de grande interesse na conturbada relação da ilha socialista com os Estados Unidos, carro-chefe do capitalismo: a prisão e condenação de cinco patriotas cubanos, chamados de terroristas pelo governo estadunidense e considerados heróis e antiterroristas pelo governo de Cuba. Eles querem aproveitar o lançamento do livro para avançar na discussão do assunto, tratado sempre na chamada grande imprensa (ou mídia velha) sob a ótica dos interesses do império.



O livro novo de Fernando Morais, o obcecado


Por Eric Nepomuceno (Reproduzido de Carta Maior, de 11/08/2011)



Sempre que penso no repórter Fernando Morais, penso num obcecado. Mais do que persistente, mais do que meticuloso, um obcecado. Quando pega um tema ou um personagem, não larga mais. Passa a conviver com ele cada minuto do dia e da noite. E não se trata de um obcecado qualquer: Fernando Morais tem um radar formidável para descobrir temas e personagens. Seu novo livro, Os últimos soldados da Guerra Fria, chega às livrarias dia 19 de agosto para comprovar que ele não só não mudou, como cada vez mais intensifica essa sua vertente.

Aliás, convém recordar que é assim desde sempre. Em 1973, por exemplo, cismou de ir para Cuba. É bem verdade que muitos brasileiros visitavam a ilha da Revolução, mas nenhum deles vivia no Brasil: eram exilados ou expatriados. Fernando moveu mundos e fundos, até que, depois de dois anos de insistência sem trégua nem pausa, conseguiu. Foi o primeiro repórter brasileiro desde a instalação da ditadura, em 1964, a visitar Cuba, voltar e contar o que havia visto. Seu livro ‘A Ilha’ apareceu em 1976 e se tornou ponto de referência. Um ano depois ele entrevistou Fidel Castro. De novo, o primeiro repórter brasileiro a ser recebido pelo líder cubano.

De lá para cá, suas reincidências foram se acumulando. Cismou com Olga Benário, depois com Assis Chateaubriand, revelou o drama dos japoneses que se negavam a aceitar o fim da II Guerra, contou a história de uma agência de publicidade que marcou época, mergulhou na vida de um marechal do ar, Casemiro Montenegro, que revolucionou a pesquisa tecnológica e o ensino da engenharia no Brasil, desvendou a vida de um personagem meticulosamente construído para se tornar famoso escrevendo livros – enfim, navegou por águas de diferentes densidades e profundidades sem jamais perder o rumo.

Num certo dia de 1998, Fernando estava dentro de um táxi, no trânsito infernal de São Paulo, quando seu radar disparou sinais de alarma: ouviu pelo rádio a notícia da prisão, nos Estados Unidos, de dez agentes cubanos de inteligência. Pouco depois viajou para Cuba, e tentou escarafunchar o assunto. Em vão: o assunto era segredo de Estado. Não fosse o obcecado que é, ele teria esquecido a história. Foi preciso que se passassem dez anos para que os cubanos aceitassem abrir o jogo. E quando aceitaram, o jogo foi aberto de verdade. Graças aos contatos construídos e mantidos ao longo de quase quarenta anos, Fernando Morais teve acesso à mais incrível documentação sobre o trabalho dos agentes de inteligência de Cuba, cuja ação supera a imaginação do mais delirante dos autores de livros de espionagem. Foram dezenas de viagens para entrevistas e leitura de documentação altamente secreta, de conversas com terroristas mercenários presos e condenados em Cuba e com agentes do FBI nos Estados Unidos.

Além da formidável história da rede de agentes cubanos infiltrados entre os grupos terroristas baseados na Flórida, Os últimos soldados da Guerra Fria desvenda a impressionante ousadia com que atuam os grupos radicais que partem do território dos Estados Unidos para realizar ações em Cuba. Foram quase 130 ataques terroristas em cinco anos, um tema que a grande imprensa prefere deixar de lado. O vasto e eletrizante rosário de histórias que Fernando Morais desfia ao longo de Os últimos soldados da Guerra Fria faz do livro um registro esclarecedor de parte do drama vivido pela população de uma pequena ilha que teima em ser altiva – justamente a parte que costuma ser ignorada por quem adora criticar o seu duro cotidiano.

sábado, 13 de agosto de 2011

GOVERNO DO EQUADOR ENFRENTA DOIS BALUARTES DA DIREITA


Rafael Correa: “Nós estamos felizes porque tivemos uma clara vitória eleitoral,
e a oposição também está feliz porque esperava perder por mais”
(Foto: Reprodução)
De Salvador (Bahia) – Os monopólios privados dos meios de comunicação e o Poder Judiciário. Estes são dois dos principais sustentáculos do poder da direita – das elites aliadas aos interesses do império estadunidense – que o governo do presidente Rafael Correa resolveu enfrentar abertamente. A mira nestes dois inimigos da democracia e do socialismo foi ajustada no plebiscito realizado no mês de maio último, do qual o governo e a maioria dos equatorianos saíram vitoriosos, em meio a muita tensão e uma verdadeira guerra midiática.

O noticiário na nossa chamada grande imprensa (ou velha mídia), como não poderia deixar de ser, primou pela manipulação, destacando os supostos aspectos negativos para Correa e seus partidários, que vêm tocando, aos trancos e barrancos, a chamada Revolução Cidadã.


Foi perguntado aos eleitores:


1 - Com a finalidade de evitar os excessos nos meios de comunicação, está o senhor de acordo que se elabore uma lei de comunicação que crie um Conselho de Regulação que regulamente a difusão de conteúdos na televisão, rádio e publicações da imprensa escrita que contenham mensagens de violência, explicitamente sexuais ou discriminatórios; e que estabeleça os critérios de responsabilidade ulterior dos comunicadores ou dos meios emissores?


A maioria respondeu sim: 44,964%; não: 42,044%.


2 - Com a finalidade de superar a crise do Poder Judiciário, está o senhor de acordo em substituir o pleno do Conselho da Judicatura (equivalente ao nosso Conselho Nacional de Justiça – CNJ) por uma Comissão Técnica composta por três delegados designados, um pelo presidente da República, um pela Assembleia Nacional e um pela Função de Transparência e Controle Social, para que durante um período de 18 meses assuma todas e cada uma das funções do Conselho da Judicatura e possa reestruturar o sistema judiciário, emendando a Constituição como estabelece o anexo 4? (Ao todo foram 10 perguntas, estou concentrando nas duas que considero fundamentais).


A maioria respondeu sim: 46,15%; não: 42,559%.


Como se vê, uma vitória apertada, o que motivou um comentário irônico e bem humorado do presidente equatoriano: disse que o resultado do referendo deixou o governo feliz e também a oposição, “nós estamos felizes porque tivemos uma clara vitória eleitoral, e a oposição também está feliz porque esperava perder por mais”. A imprensa hegemônica – a brasileira incluída – aproveitou para ressaltar que o país estava dividido.


E três meses após o plebiscito – uma prática bastante comum em países de democracia mais avançada, como é o caso do Equador -, segue a luta para vencer os obstáculos contra a aplicação da vontade da maioria da população, criados justamente pela grita nos meios de comunicação e por ações judiciais, bem como pela atuação da minoria direitista da Assembleia Nacional.


O governo ganhou em todas as 10 perguntas feitas aos eleitores


A verdade, obscurecida pelo noticiário internacional, é que o governo do Equador ganhou em todas as 10 consultas feitas aos eleitores. Confira as demais oito perguntas e os resultados oficiais divulgados pelo Conselho Nacional Eleitoral:


- Com a finalidade de melhorar a segurança cidadã, está o senhor de acordo em que a correspondente lei adote prazos razoáveis para a caducidade da prisão preventiva, emendando a Constituição da República como estabelece o anexo 1? (Mudança para impedir que sejam libertados os presos cuja sentença judicial esteja sendo retardada). Sim: 50,462%; não: 38,874%.


- Com a finalidade de evitar a impunidade e garantir o comparecimento aos julgamentos penais das pessoas processadas, está o senhor de acordo que as medidas que substituem a prisão preventiva se apliquem unicamente para os delitos menos graves, emendando a Constituição da República como estabelece o anexo 2? Sim: 48,271%; não: 40,835%.


- Com a finalidade de evitar conflito de interesses, está o senhor de acordo em proibir que as instituições do sistema financeiro privado, assim como as empresas de comunicação privadas de caráter nacional, seus diretores e principais acionistas, sejam donos ou tenham participação acionária fora do âmbito financeiro ou comunicacional, respectivamente, emendando a Constituição como estabelece o anexo 3? Sim: 47,187%; não: 41,886%.


- Com a finalidade de ter uma mais eficiente administração do sistema judiciário, está o senhor de acordo em modificar a composição do Conselho da Judicatura, emendando a Constituição e reformando o Código Orgânico do Poder Judiciário como estabelece o anexo 5? Sim: 46,668%; não: 41,956%.


- Com a finalidade de combater a corrupção, está o senhor de acordo que seja delito o enriquecimento privado não justificado? Sim: 46,599%; não: 40,619%.

- Com a finalidade de evitar que os jogos de azar com fins de lucro se convertam num problema social, especialmente nos segmentos mais vulneráveis da população, está o senhor de acordo em proibir em sua respectiva jurisdição regional (“cantonal”, de “cantão”) os negócios dedicados a jogos de azar, tais como cassinos e salas de jogo? Sim: 45,768%; não: 41,683%.

- Com a finalidade de evitar a morte de um animal por simples diversão, está o senhor de acordo em proibir, na sua respectiva jurisdição “cantonal”, os espetáculos públicos onde se matem animais? (O alvo aqui são especialmente as touradas). O “sim” ganhou em 127 “cantões”, incluindo Quito, a capital do país; enquanto o “não” ganhou em 94 “cantões”.


- Com a finalidade de evitar a exploração do trabalho, está o senhor de acordo que o não registro no Instituto Equatoriano de Seguridade Social (Previdência) de trabalhadores em relação de dependência seja considerado delito? Sim: 48,025%; não: 39,248%.

(A maioria das informações é baseada no noticiário do sítio da Telesur – TV Telesul – www.telesurtv.net ).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

JORNALISTA DA GLOBO DENUNCIA QUE EMISSORA VAI ATACAR AMORIM

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e agora ministro da Defesa
(Foto: Reprodução)
Por Rodrigo Vianna, repórter, ex da TV Globo, agora TV Record, mantém o blog Escrevinhador (Reproduzido do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, postagem de 09/08/2011)

O jornalista, com quem conversei há pouco por telefone, estava indignado: “é cada vez mais desanimador fazer jornalismo aqui”. Disse-me que a orientação é muito clara: os pauteiros devem buscar entrevistados – para o JN, Jornal da Globo e Bom dia Brasil – que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar “turbulência” no meio militar. Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha.


Trata-se do velho jornalismo praticado na gestão de Ali Kamel: as “reportagens” devem comprovar as teses que partem da direção.


Foi assim em 2005, quando Kamel queria provar que o “Mensalão” era “o maior escândalo da história republicana”. Quem, a exemplo do então comentarista Franklin Martins, dizia que o “mensalão” era algo a ser provado foi riscado do mapa. Franklin acabou demitido no início de 2006, pouco antes de a campanha eleitoral começar.


No episódio dos “aloprados” e do delegado Bruno, em 2006, foi a mesma coisa. Quem, a exemplo desse escrevinhador e de outros colegas na redação da Globo em São Paulo, ousou questionar (“ok, vamos cobrir a história dos aloprados, mas seria interessante mostrar ao público o outro lado – afinal, o que havia contra Serra no tal dossiê que os aloprados queriam comprar dos Vedoin?”) foi colocado na geladeira. Pior que isso: Ali Kamel e os amigos dele queriam que os jornalistas aderissem a um abaixo-assinado escrito pela direção da emissora, para “defender” a cobertura eleitoral feita pela Globo. Esse escrevinhador, Azenha e o editor Marco Aurélio (que hoje mantem o blog “Doladodelá”) recusamo-nos a assinar. O resultado: demissão.


Agora, passada a lua-de-mel com Dilma, a ordem na Globo é partir pra cima. Eliane Cantanhêde também vai ajudar, com os comentários na “Globo News”. É o que me avisa a fonte. “Fique atento aos comentários dela; está ali para provar a tese de que Amorim gera instabilidade militar, e de que o governo Dilma não tem comando”.


Detalhe: eu não liguei para o colega jornalista. Foi ele quem me telefonou: “rapaz, eu não tenho blog para contar o que estou vendo aqui, está cada vez pior o clima na Globo.”


A questão é: esses ataques vão dar certo? Creio que não. Dilma saiu-se muito bem nas trocas de ministros. A velha mídia está desesperada porque Dilma agora parece encaminhar seu governo para uma agenda mais próxima do lulismo (por mais que, pra isso, tenha tido que se livrar de nomes que Lula deixou pra ela – contradições da vida real).


Nada disso surpreende, na verdade.


O que surprendeu foi ver Dilma na tentativa de se aproximar dessa gente no primeiro semestre. Alguém vendeu à presidenta a idéia de que “era chegada a hora da distensão”. Faltou combinar com os russos.


A realidade, essa danada, com suas contradições, encarregou-se de livrar Dilma de Palocci, Jobim e de certa turma do PR. Acho que aos poucos a realidade também vai indicar à presidenta quem são os verdadeiros aliados. Os “pragmáticos” da esquerda enxergam nas demissões de ministros um “risco” para o governo. Risco de turbulência, risco de Dilma sofrer ataques cada vez mais violentos sem contar agora com as “pontes” (Palocci e Jobim eram parte dessas pontes) com a velha mídia (que comanda a oposição).


Vejo de outra forma. Turbulência e ataques não são risco. São parte da política.


Ao livrar-se de Jobim (que vai mudar para São Paulo, e deve ter o papel de alinhar parcela do PMDB com o demo-tucanismo) e nomear Celso Amorim, Dilma fez uma escolha. Será atacada por isso. Atacada por quem? Pela direita, que detesta Amorim.


Amorim foi a prova – bem-sucedida – de que a política subserviente de FHC estava errada. O Brasil, com Amorim, abandonou a ALCA, alinhou-se com o sul, e só cresceu no Mundo por causa disso.


Amorim é detestado pelos méritos dele. Ou seja: apanhar porque nomeou Amorim é ótimo!


Como disse um leitor no twitter: “Demóstenes, Álvaro Dias e Reinaldo Azevedo atacam o Celso Amorim; isso prova que Dilma acertou na escolha”.


Não se governa sem turbulência. Amorim é um diplomata. Dizer que ele não pode comandar a Defesa porque “diplomatas não sabem fazer a guerra” (como li num jornal hoje) é patético.


O Brasil precisa pensar sua estratégia de Defesa de forma cada vez mais independente. É isso que assusta a velha mídia – acostumada a ver o Brasil como sócio menor e bem-comportado dos EUA. Amorim não é nenhum incediário de esquerda. Mas é um nacionalista. É um homem que fala muitas línguas, conhece o mundo todo. Mas segue a ser profundamente brasileiro. E a gostar do Brasil.


O mundo será, nos próximos anos, cada vez mais turbulento. EUA caminham para crise profunda na economia. Europa também caminha para o colpaso. Para salvar suas economias, precisam inundar nosso crescente mercado consumidor com os produtos que não conseguem vender nos países deles. O Brasil precisa se defender disso. A defesa começa por medidas cambiais, por política industrial que proteja nosso mercado. Dilma já deu os primeiros passos nessa direção.


Mas o Brasil – com seus aliados do Cone Sul, Argentna à frente - não será respeitado só porque tem mercado consumidor forte, diversidade cultural e instituições democráticas. Precisamos, sim, reequipar nossas forças armadas. Precisamos fabricar aviões, armas. Precisamos terminar o projeto do submarino com propulsão nuclear.


Não se trata de “bravata” militarista. Trata-se do mundo real. A maioria absoluta dos militares brasileiros – que gostam do nosso país – não vai dar ouvidos para Elianes e Alis; vai dar apoio a Celso Amorim na Defesa, assim que perceber que ele é um nacionalista moderado, que pode ajudar a transformar o Brasil em gente grande, também na área de Defesa.


O resto é choro de anões que povoam o parlamento e as redações da velha mídia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

TRABALHADORES DA CONSTRUÇÃO PROTESTAM PELA MORTE DE COLEGAS


(Foto: Arestides Baptista - Agência A Tarde)
(Texto reproduzido do jornal eletrônico Bahia Toda Hora - www.bahiatodahora.com.br -, editado pelos jornalistas José Carlos Teixeira e Lenilde Pacheco, postagem de hoje, dia 10, às 9:21 horas)

Os trabalhadores da construção civil de Salvador fazem um protesto na manhã desta quarta-feira (10), na Avenida Paralela, pela morte dos nove operários que caíram do elevador de uma obra, na Avenida Antônio Carlos Magalhães (ACM).


Os operários fazem manifestação também em diversos canteiros de obras da cidade, onde as atividades foram paralisadas. De acordo com a Superintendência de Trânsito e Transporte de Salvador (Transalvador), na região do Cabula, próximo à construção dos empreendimentos Privillege e Bela Vista, e na Paralela, próximo ao Le Parc, o trânsito está congestionado. A Transalvador orienta que os motoristas evitem trafegar nesses locais.


As vítimas serão sepultadas ainda hoje. Em Salvador, serão enterrados Antônio Elias da Silva, carpinteiro, e Lourival Ferreira, armador, José Roque dos Santos, pedreiro, no Cemitério Bosque da Paz; e Hélio Sampaio, pedreiro, no Cemitério Campo Santo.


Os outros serão enterrados na cidade onde nasceram, no interior no Estado. Antônio Reis do Carmo, armador, em Nazaré do Jacuípe; Antônio Luis Alves dos Reis, carpinteiro, em Conceição do Jacuípe; Jairo de Almeida Correia, ajudante prático, em Irará; Martinho Fernandes dos Santos, carpinteiro, em Conceição de Feira; e Manuel Bispo Pereira, ajudante prático, em São Miguel das Matas.


Segundo a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), já chega a 53 o número de acidentes de trabalho no setor de construção civil em Salvador, apenas em 2011, com o saldo de 15 mortes.


Aproximadamente 1,5 mil operários participam do protesto, além de representantes da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil (Sintracom) e Sindicato dos Comerciários.


O Sintracom propôs uma paralisação de 24 horas nesta quarta para que os colegas participem do enterro dos corpos dos operários mortos. Alguns trabalhadores, porém, alegam que estão sendo ameaçados pelos empresários.

Acidente - Nove operários morreram na manhã desta terça-feira (9), com a queda de um elevador na obra do edifício Empresarial Paulo VI, da Construtora Segura, nas proximidades da Avenida Antonio Carlos Magalhães. O edifício tem 33 andares e o equipamento que levava os operários despencou do 28º andar. A obra foi interditada pela Sucom, até que os laudos periciais fiquem prontos.


Um exame preliminar realizado por técnicos da Coordenadoria Regional do Trabalho aponta duas causas possíveis para a queda livre do elevador, também chamado de balança pelos operários. A queda foi de altura equivalente a 80 metros, em cinco segundos.


Ao bater no chão, o elevador estava a uma velocidade de 140 km/h. Segundo o Ministério do Trabalho, a primeira causa foi decorrente do eixo da roldana que movimenta o elevador. A quebra do eixo fez a cabine despencar. Mas o elevador poderia ter parado se o freio automático tivesse funcionado, o que seria a segunda falha mecânica.


"Já fizemos manifestações por melhoria salarial e por demissões, mas hoje nossa paralisação é pela vida. O patronato prefere dinheiro do que investir em segurança para a vida do trabalhador” – declaração do presidente da CTB-Bahia, Adilson Araújo, extraída de A Tarde On Line.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

RACIONALIZANDO AS EMOÇÕES: DA AUTO-ESTIMA E OUTRAS ARMADILHAS


Por Luis Hornstein, psicanalista argentino

A auto-estima é uma experiência íntima: é o que penso e o que sinto sobre mim mesmo, não o que pensa ou sente alguma outra pessoa sobre mim. Minha família, meu parceiro (ou minha parceira) e meus amigos podem me amar, e ainda assim cabe a possibilidade de que eu não me ame. Meus companheiros de trabalho podem me admirar e ainda assim eu me vejo como alguém insignificante. Posso projetar uma imagem de segurança e aprumo que engane a todo mundo e ainda assim tremer devido aos meus sentimentos de insuficiência. Posso satisfazer as expectativas de outros e ainda assim fracassar em minha própria vida. Posso ganhar todas as honras e ainda assim sentir que não consegui nada. Milhões de pessoas podem me admirar e ainda assim me levanto a cada manhã com um doloroso sentimento de fracasso e um vazio interior.


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A auto-estima é fonte de motivação. Permite afrontar situações adversas, porque possibilita a cicatrização rápida das afrontas ao amor próprio. Todo fracasso é, desde o ponto de vista emocional, doloroso. Quando alguém se diz indiferente ao fracasso, garganteia. Assim, o garganteiro apela para a negação para não sentir medo, pois o fracasso dá medo: implica uma redução de nossas posses materiais ou psíquicas.


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A auto-estima inclui facetas que têm certa autonomia. É possível ter uma boa auto-estima no terreno intelectual que contrasta com uma frágil no afetivo. Pode variar em distintos planos: profissional, afetivo, intelectual, corporal, sexual. É provável que um êxito ou um fracasso num setor tenha consequências nos outros. É difícil que certas feridas narcisistas não irradiem sobre outros planos. Por sorte, também irradiam os êxitos.


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Os ciúmes implicam medo. Medo de perder uma relação ou um lugar privilegiado ou exclusivo. Os ciumentos nunca desfrutam de sua alegria: se limitam a vigiá-la. André Comte-Sponville assinala: “O invejoso queria possuir o que não possui e outro possui; o ciumento quer possuir, ele só, o que acredita que lhe pertence”. Os ciúmes patológicos se baseiam numa concepção errada do que é uma relação afetiva, tanto se é amorosa como de amizade. Esses ciúmes partem de uma concepção primitiva: amar consistiria em possuir, e aceitar o amor de um ciumento ou ciumenta seria aceitar a submissão à sua possessividade. “Quem é o terceiro que caminha sempre ao seu lado, quando estamos a sós, você e eu juntos, mas quando olho adiante pelo caminho, sempre há outros caminhando a seu lado?” (T. S. Elliot, La tierra baldia).

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Todos os bebês são prematuros. O filhote humano é o mais dependente, talvez porque não tenha que aprender a voar e caçar por sua própria conta, mas deva incorporar o mundo cultural, que se transmite pela fala e a escrita. A precocidade da criança, sua vulnerabilidade, dá origem a um apego duradouro aos primeiros objetos de amor, um desejo de fusão nunca saciado. Em todo adulto perdura esse bebê prematuro que aspira à união total com o outro. Georges Bataille o diz a propósito do erotismo. Cada ser é único, irrepetível; seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua vida interessam e têm a ver com outros, porém se nasce e se morre sozinho. Entre um ser e outro há um abismo, que o erotismo tende a anular.


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Uma baixa auto-estima tem aspectos benéficos, porque a modéstia favorece que aceitemos os demais e seus pontos de vista. Pelo contrário, uma elevada auto-estima pode fazer com que a pessoa não escute as informações ao seu redor e, se bem suporta melhor os fracassos, os atribui a causas alheias a ela. Para evitar questionamentos, prefere rodear-se de bajuladores, o que pode conduzi-la a perder contacto com a realidade, fomentando atitudes prepotentes.

(Reflexões tiradas de fragmentos de Autoestima e identidad - Narcisismo y valores sociales, de Luis Hornstein, conforme matéria publicada pelo jornal argentino Página/12, edição de 21/04/2011, editoria de Psicologia. Apenas o título acima é de minha autoria, assim como a tradução).

domingo, 7 de agosto de 2011

PIAU X VAVÁ: O GRANDE CONFRONTO QUE NÃO HOUVE (ficção e realidade)


Piau e Vavá, que parece ter percebido o peso do oponente (cartaz com a foto de Martinha)
(Fotos: Lidjone Ribeiro)
De Salvador (Bahia) – Leitor amigo, te conto hoje uns polêmicos sucessos que se passaram lá na minha terra, em Seabra, na bela Chapada Diamantina, lá no “Barblioteca” da Fazenda Dona Elisa, roça do nosso querido Goiano, o anfitrião perfeito para o desafio entre dois cantadores/violeiros de reputação afamada. A expectativa era grande, a imprensa a postos – a equipe do Correio Chapada e da revista Noite & Dia estava lá -, os torcedores, os curiosos, as curiosas, aquele clima de final de campeonato de futebol... Porém, não houve o memorável confronto. Mas houve o que se pode contar e ouvir com gosto.

A versão predominante é que a provocação teria partido de Vavá, de sobrenome Garcia, outrora conhecido como especialista em financiamentos agrícolas do Banco do Brasil e também como militante das lides sindicais. Depois a fama foi se firmando mesmo foi como cantador. Começou pelas bandas de Mundo Novo e foi se espalhando pela Bahia e pelo vizinho Sergipe, mesmo porque o rapaz é sergipano de boa cepa. Não chegou a brilhar nos festivais de violeiros da Chapada, realizados com retumbante êxito em Seabra pelo Projeto Velame Vivo, porque, segundo se comenta, teria sido boicotado pelos organizadores e concorrentes, diante do suposto favoritismo.


Vavá, bom gosto no repertório: "Ôh Antonico, vou lhe pedir um favor..."
Piau, belas canções: "Lá em cima do telhado, meu sonho encantado era pertinho do céu...”
Já Piau, aparentemente, não tinha atrás e em torno de si credenciais tão reluzentes. Após sua carreira profissional na Petrobrás se aposentou e ficou ali por Seabra cuidando de uns bois e de uma rocinha, manejando uma velha camionete. Era dali mesmo, de Lagoa da Boa Vista, de origem humilde. Não se cansa de lembrar de quando era garoto e vinha no “comércio” (como o pessoal da roça chamava a cidade, a sede do município, no caso Seabra) no sábado, dia de feira: comprava uns pães na padaria de seo Diva e, já na estrada de volta, andando a pé, comia-os com grande felicidade. De nome Djalma Novaes, é filho do velho Romualdo, lendário caixeiro-viajante que criou numerosa prole percorrendo roças e povoados, de jegue, vendendo bugigangas à prestação a tudo que é gente.


Mas o rapaz - brancão, vermelho, a cara de um gringo – ultimamente tinha gravado um CD e vinha espantando a todos com a explosão de tanto talento na voz desassombrada, no violão e no repertório diversificado e genuíno.


Das alturas de sua fama – dizem os maledicentes -, Vavá se sentira incomodado. E Goiano, tido como amigo dos dois, botou fogo na fogueira e preparou o encontro. Segundo ele, Vavá fez uma única exigência: que Piau não cantasse nem “Antonico” (de Ismael Silva), nem “E agora, José?” (de Paulo Diniz e Drummond), que considerava canções exclusivas de seu repertório pessoal. Ainda segundo Goiano, Piau topava o desafio e cumpriria a exigência.


Chegou o momento. Começou a farra, com cerveja, vinho, uísque, cachaça especial da Encruzilhada (daquelas vendidas por Eudaldo em Seabra) e variados comes-e-bebes, tudo sob o manto inspirador da figura de Martinha, venerada militante política. Os tocadores/cantadores – além dos dois duelistas, estavam lá Palito e Lidjone, e o famoso percussionista Tibério - começaram a desfilar suas habilidades, assim devagar, como quem não quer nada. Piau tocou “lá em cima do telhado, meu sonho encantado era pertinho do céu...” (“Telha nua”, de Waltinho e Roberto Andrade) e atacou a vibrante “no terreiro lá de casa não se varre com vassoura, varre com ponta de sabre e bala de metralhadora...” (“Cantiga Brava”, de Geraldo Vandré). E Vavá cantou sua predileta “Ôh Antonico, vou lhe pedir um favor...” (“Antonico”) e “Fui ancorando nela, naquela ponta de mar...” (“Anabela”, de Renato Braz).


Goiano instigou, instigou, mas...
Era só uma espécie de aquecimento. Mas aí deu-se algo estranho, um tipo de consenso cruel e repentino, uma chispa reveladora a atingir corações e mentes: VAVÁ NÃO É PÁREO PARA PIAU. E o próprio Vavá parece ter sentido a pancada. Mas – dizem e ele contesta - tentou dissimular. Pediu ao dono da casa para lhe servir Jurubeba com gengibre, pois descobriu, assim de repente, que acabava de ser atacado por uma rouquidão. Não tinha Jurubeba, nem gengibre. “Assim é impossível”, lamentou. E ainda por cima disse que Piau tinha quebrado uma corda do violão: “É um covardo”, acusou.


Bem, para encurtar o causo, o terrível confronto anunciado ficou por aí, não houve. Foi como a famosa batalha de Itararé, em São Paulo, onde haveria (e não houve) o grande embate das tropas de Getúlio Vargas em marcha para a tomada do poder em 1930. Goiano instigava, instigava, mas a coisa empacou. A assistência foi se dissolvendo entre risonha e gozativa. Contam boas e más línguas que Vavá depois de tais sucessos sumiu. E algumas semanas mais tarde teria sido localizado namorando com uma bela professora, atrás da igreja, na cidade de Ipupiara (ou seria Brotas de Macaúbas?).