quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Talvez, talvez, talvez...

A uma mulher, uma espera, uma esperança)

Este sábado, dia 27, poderia ser menos chato, luminoso até, mesmo com esta chuva que não pára, própria do inverno chuvoso dos trópicos amazonenses। Mas a pauta furou, como dizem os jornalistas, e as coisas acontecidas fizeram água no meu navio, imaginado um Titanic antes do naufrágio.Quem nunca teve um dia assim?

Talvez se eu fosse mais perspicaz diante dos problemas do mundo, com os negócios, o amor e a saúde - como alardeia a Madame Valda, mestre do tarô, nos postes da cidade de Manaus - não estaria aqui, na Choparia São Marcos, sozinho, enchendo a cara de vodca e masturbando
elocubrações intimistas impublicáveis.

Talvez se eu seguisse os sábios conselhos de minha mãe, andar com gente mais bem situada - "meu filho, com esses trajes você não vai conseguir nada na vida", me dizia, bondosamente। Tão sábia que, semi-alfabetizada, topava discussão até com deputado। "É preciso aprender a fazer política", decretou, e o então deputado Sá Teles, grande educador baiano: "Talvez não seja o caso de aprendizagem..." Se eu tivesse bebido mais em sua sabedoria, estaria trilhando outros caminhos e certamente desfrutando outras paragens।

Talvez se eu tivesse construído uma próspera família tradicional, como sonhava minha mãe, estaria agora nas festas de Natal e Ano Novo ocupado na compra de presentes para os netos e, portanto, não estaria aqui, conversando comigo mesmo, em viagem por terras estranhas, com sede de viver vidas novas neste resto mocidade.

Talvez se o acaso me tivesse empurrado a uma carreira mais promissora – auditor fiscal ou executivo de banco estatal ou do Pólo Petroquímico -, provavelmente eu teria coisas mais rentáveis a cuidar e não dedicaria tanto tempo às mesas de botecos (mas meu irmão Stimison, missionário do bem e consertador de tortos imitando Don Quixote, me garante que não há acaso).

Talvez se eu fosse corintiano, estaria nesta época enlevado diante da perspectiva da estréia do Fenômeno, o craque fenomenal, enojado daquela piadinha manjada da "contratação de peso" e, então, teria o espírito tomado por ilusões mais prazerosas (trata-se apenas de marqueting?) e não me quedaria aqui choramingando soluços solitários.

Talvez se eu acompanhasse melhor as maldades de Flora e a via crucis de Donatela ou as vicissitudes do "peãozinho de merda" no afã de redimir sua capação através da ponta da azagaia, na fantasia do Pantanal mato-grossense, não me sobraria energia para exacerbações existenciais que podem escorregar facilmente para a melancolia.

Talvez se os encontros prevalecessem mais na vida, em detrimento dos desencontros, como gostaria o poeta Vinicius, seguramente eu não estaria aqui sozinho, numa mesa do meu bar predileto no centro de Manaus, tomando a saideira e comendo um PF। Estaríamos curtindo um sábado radioso, apesar do céu cor de chumbo।

Talvez, talvez, talvez... Tenho que me safar desta, embora me tenha nascido um precipício insondável. E não sou nenhum Indiana Jones. É uma merda!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Só ando de táxi

Vista da Praça Terreiro Aranha, com o Porto de Manaus ao fundo
É verdade। Aqui em Manaus só ando de táxi, táxi lotação. É um ótimo esquema, encontrei um semelhante em Havana, a atraente capital cubana. Os carros rodam dentro de determinados itinerários, cobrando dos passageiros um valor fixo, relativamente pequeno. No caso da capital amazonense, custa R$ 3,00 a passagem de cada um (era R$ 2,50 até 30 de novembro), enquanto a tarifa de ônibus é R$ 2,00 e a de micro-ônibus R$ 2,50.

Trata-se de uma opção confortável. O passageiro não perde tempo esperando, a todo momento passam os carros, buzinando e acendendo os faróis para indicar a condição de táxi lotação. Os carros têm a mesma cor e as mesmas indicações dos táxis comuns, inclusive qualquer um deles pode fazer uma corrida “normal”, com o destino desejado por um usuário, fora do itinerário, cobrando normalmente pelo taxímetro.

Usualmente os táxis têm ar condicionado, um “luxo” muito comum aqui em quase todos os ambientes, por motivos óbvios. Mas, a alternativa do táxi lotação é limitada a bairros da Zona Sul, como Educandos, Colônia Oliveira Machado, Bola da Suframa – Superintendência da Zona Franca de Manaus - (aqui rotatória ou rótula é chamada de bola) e outros das imediações.

A corrida para o centro e vice-versa é relativamente curta. Quando digo “só ando de táxi” é porque estou morando justamente nessa área.



Grupos musicais sempre aparecem pelo centro da cidade

O táxi lotação é uma particularidade da cidade dos manauaras (manauenses), uma terra tropical, quente, abafada, cheia de engarrafamentos, apesar de não ser tão grande (só 1,7 milhão de habitantes), cujo centro, aquele miolo central popular e antigo, parece mais um grande acampamento de ambulantes.

Trecho da Praça do Relógio com barracas de ambulantes


Praças e ruas do centro, grande parte tipo calçadão (não passam carros), são territórios tomados por barracas e camelôs, além de grandes ajuntamentos de lojas fervilhando de compradores, passantes, vendedores gritando e batendo palmas para atrair fregueses, serviços de alto-falante anunciando anunciando promoções.

Vendedor exibe produtos no burburinho da Rua Marechal Deodoro

“Como é o nome deste lugar?”, perguntei na Rua Marechal Deodoro, toda coberta, em meio à multidão. “É Bate Palma”, me disse um rapaz. “Boy” é o apelido dos empregados que batem palmas. E as moças? Me esqueci de perguntar.

Nesse centro estão referências marcantes, como a Igreja da Matriz (Paróquia de Nossa Senhora Imaculada Conceição, padroeira do estado, feriado 8 de dezembro como na Bahia), o porto principal de Manaus, o prédio antigo onde funciona a Alfândega, grandes lojas, bancos, terminal de ônibus, o chamado Mercado Grande ou Mercadão.

Adoro esse miolo de cidade grande, especialmente os bares, barzinhos tipo boteco, restaurantes populares, comida a quilo, PF a R$ 6,00. (Mais tarde vou tomar duas doses de Orlof, a R$ 3,00, lá na Choparia São Marcos). Está por aqui também aquele programa do governo de almoço a R$ 1,00, comida quase de graça, saudável, bem balanceada, o chamado “prato cidadão”, semelhante ao esquema de Salvador.

O que atrapalha um pouco aqui é o calor, que só alivia quando chove, o que, aliás, acontece sempre (no “inverno”, de dezembro a maio, me informam).

Mas o que atrapalha mesmo é a repetida advertência de cuidado com a violência, a falta de segurança, os assaltos, em especial não circular por tais locais durante a noite. Outro dia presenciei no burburinho da Praça do Relógio, que faz parte desse miolo, em pleno dia, um grupo de policiais perseguindo e prendendo um rapaz (é ladrão, disseram), houve correria, um tiro, certamente para cima, porque ninguém ficou ferido.

É uma praga essa tragédia em que se transformaram os grandes centros urbanos do Brasil, da América (do mundo?). Talvez a grande exceção seja Havana, lá se pode andar à vontade inclusive à noite, o índice de delinquência violenta é quase zero.

Se você sobe pela Avenida Eduardo Ribeiro, a partir da Praça do Relógio, 10 minutos de caminhada, já está numa área mais sofisticada. É a bela Praça São Sebastião, onde estão uma grande igreja do mesmo santo e o imponente Teatro Amazonas, cartão postal obrigatório da capital amazonense. Na mesma praça está o Bar do Armando, tradicional ponto de encontro de intelectuais, boemia classe média (R$ 8,00 a dose de uísque oito anos, Red Label, já tomei umas por lá). Bandeira do Flamengo mostra a preferência dos मनौअरस


Bandeira do Flamengo mostra a preferência dos manauaras


Para terminar, mais uma particularidade: a torcida do Flamengo (do Rio, claro), meu time do coração. Parece a do Bahia dos bons tempos, um pouco ainda hoje, apesar da segundona. Me despertei para isso naquela partida, recente, contra o Palmeiras, pelo Brasileiro. O Flamengo deu de 5 a 2. Quando fez o segundo gol (2 a 1), ouvi de casa o pipocar de fogos e a zoada. Liguei a TV e conferi. É a torcida do Bahia toda, pensei. Que me desculpe a turma do Vitorinha, meu preferido, mas a torcida do Bahia é demais!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tardes tropicais

O céu fechado na tarde melancólica do "inverno" de Manaus

São 13 horas da chata segunda-feira, dia primeiro. Tempo fechado। Será mais uma tarde de chuva? Dezembro começa com a cara do "inverno", a chuva é fina, pára de quando em quando. Sol desaparecido e temperaturas não muito altas. Trovões continuados, mas até aqui fracos.

Penso que se o velho Sinval estivesse por aqui, não teria tempo para sentir-se melancólico, estaria morrendo de pânico. Bem que eu poderia curtir este "clima" escrevendo uma carta de amor, bem apaixonada (disse uma carta? não, um e-mail). Mas minha mulher tem pouco tempo para leituras. ("Amor, não li ainda seu texto no Mídia Baiana. Quando chego do trabalho não aguento nem olhar pro computador. Aquele meu trabalho tá me sugando a alma!")

Puxa, fiquei toda manhã no computador pensando em dar um passeio à tarde pelo centro de Manaus, tirar umas fotos daquele amontoado de barracas, a enorme aglomeração de ambulantes, os engarrafamentos, a Praça do Relógio... Não dá, a chuva não pára.Vou ficar devendo as fotos.


A Feira da Panair, mercado popular do bairro Educandos

Aprecio o chuva, saio um pouco até a calçada, é gostoso os pingos finos molhando a pele úmida, meio pegajosa. Um pé de carambola e um coqueiro ornamentam a minha porta. Bom, tem mais cimento do que verde, mas é até bonito. Faço umas fotos com a modernosa maquininha digital (será que vão prestar?).


Mas, para afastar este ar nostálgico tenho um antídoto infalível: ler। Termino o livro Galvez Imperador do Acre, de Márcio Souza, creio que o romancista contemporâneo mais conhecido do Amazonas।


Não gostei no início, li rapidinho saltando pedaços, mas na parte final achei uma belezura. Talvez tenha começado a entender (preciso reler todinho). Segundo compreendi, uma alegoria cáustica e delirante da injusta realidade e dos desencontros do povo latino-americano nas republiquetas de banana do século passado, com as tinturas peculiares do ambiente amazônico.


Iniciei a leitura de Dois Irmãos, de Milton Hatoum, outro importante escritor da terra. Alguém já disse que a literatura de um povo é a alma desse povo? (O jornalismo, me perdoem os colegas, deve ser o fígado). Pois é. Me lembrei de um romance que li há uns 30 anos, fala da miséria dos seringueiros em pleno boom internacional da borracha. Acho que há um Ferreira no nome do autor, um português, vou procurar na Internet e digo a vocês (Li do mesmo autor outro livro denunciando a extrema miséria dos trabalhadores de Portugal - só comiam batata - na fase da primeira revolução industrial).


Vista da orla do Rio Negro na altura dos bares do Amarelinho

E aproveitei ainda para ver mais um capítulo de As Brasas, do húngaro Sándor Márai, um burguês anti-comunista. Ele relata, acremente, a amizade entre dois militares, inseparáveis até os 35 anos, para resultar num terrível ódio ruminado durante os 41 anos restantes de vida. Uma coisa fortíssima. Muito lisonjeiro, o amigo Paulo Bina me diz na dedicatória: "O tema do livro é algo que você não conhece, o ódio. Mas a paixão, raiz desse sentimento, é sua conhecida"।

Bem, umas 16:30 horas espiei o mundo real (real?)। Nada de sol, mas parou de chover. Dei uma esticada a pé até a Feira da Panair (é isso que vocês pensaram mesmo, é o local onde estava instalada a sede da Panair, a antiga companhia aérea do Brasil, à margem do Rio Negro. O curioso é que o nome é pronunciado como se escreve, no português, pa-na-ir, e não pa-ner). Uns 20 minutos de caminhada. Bati umas fotos da feira e do movimentado porto (se prestarem, espero que nossa editora, Joana D'Arck, use para ilustrar este texto).

Porto da Panair, junto à feira, à margem do Rio Negro


E assim espanta-se a melancolia de uma tarde nos trópicos. Amanhã o sol estará de volta, pelo menos pela manhã. A alma estará cuराda e, serenamente, a vida volta a rolar no leito "normal".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Peladeiros da Força Aérea

Jadson, Maia, Ribeiro, Elias, Eliezer, Ramos, Agostinho, Altomar, Monteiro e Duarte

Toda quinta-feira em Manaus tenho diversão garantida. Uma animada e simpática turma da Aeronáutica reúne-se nesse dia, final da tarde/início da noite, para jogar futebol, às vezes no campo do Cassam (Clube dos Suboficiais e Sargentos da Aeronáutica, na Vila Militar Ajuricaba), e quase sempre no Casota (Clube dos Cabos/Sds e Taifeiros da Aeronáutica), bairro de São Lázaro. Logo após a pelada, que chega a movimentar cinco times, há logo uma breve sessão regada a umas geladinhas.

Agostinho esbanjando animação durante toda a noite

Mas a confraternização, com um grupo mais reduzido, claro, segue rumo aos bares de Betânia e Morro da Liberdade, bairros das imediações, na Zona Sul। Linhares, que me introduziu na turma – através da apresentação de Anchieta e Valéria, seus camaradas de corporação e amigos meus de Paulo Afonso-Bahia -, me perguntou logo se eu gostava de jogar bola.

- Gostar, gostaria muito... Já joguei muita bola, mas depois de uma certa idade não jogo mais, respondi. E ele: “Em seguida, emendamos uma esticada pela noite e umas cervejas...” “Bom, aí dá pra mim, esse esporte eu pratico razoavelmente bem”, aceitei rapidinho.


Duarte, Linhares e Monteiro: firmes na pelada e na cerveja

E aqui estamos, no Bar do Ceará ou do Beto (ele disse que tanto faz), em Betânia, numa quinta-feira não muito quente (choveu hoje – que novidade! - e refrescou um pouco). O próprio Ceará e o gentil garçon Ruca não deixam faltar cerveja na mesa, bem como churrasco, com aquela farinha grossa tão comum na região (estranhei muito, mas aderi logo, logo, e estou gostando).

Sabedor de minhas predileções, Linhares, como bom amigo, arranja logo uma dose de cachaça, da boa, não é 51 não, pelo amor de Deus! Vou bebendo devagarinho, pois não posso dar vexame diante dos novos companheiros de copo. E o papo vai se animando, alteando as vozes, o teor alcoólico regulando os decibéis, mas tudo dentro da mais perfeita ordem, “sem alteração” (pra quem não é do ramo, isso é gíria de caserna).


O simpático garçon Ruca com uma amiga

“Saiba que meu grande amor, ela vai se casar, quero tomar todas, vou me embriagar...” O serviço de som ataca de Reginaldo Rossi, é o clímax, alguém próximo não se aguenta, levanta várias vezes da mesa, o braço direito estendido reforçando a exclamação: “Naná, sua miserável, volte, eu ainda te amo!”




O dono do bar, Ceará ou Beto, "tanto faz"

Lá pras 11, 12 horas, a farra está acabando, afinal amanhã ainda é dia de expediente. Um sugere uma saideira no Bar da Lene, pertinho, no Morro da Liberdade, mas a idéia não prospera. “Fica pra outro dia”, comenta alguém, como prêmio de consolação. Duarte, ao meu lado, me cochicha: “Somos os peladeiros da Força Aérea Brasileira”. E eu sorri pensando: achei o título da matéria (coisa de jornalista).



Maia com a esposa, Irlene, e a filha Giovana

A crônica e o título podem sugerir uma ironia, a pelada poderia ser interpretada como uma desculpa para a sobremesa, os bares. No entanto, asseguro que a interpretação estaria equivocada। Nossos peladeiros curtem realmente a pelada (parte considerável do bate-papo é sobre isso), mas por que não uma cervejinha depois?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Em busca da utopia, uma terra sem males


A Cachoeira da Onça representou o que posso considerar o primeiro contato direto com alguma coisa da floresta amazônica, uma pequena amostra, muito acanhada certamente, mas já é um começo. Dá pra sentir que a gente está numa mata diferente, uma certa grandiosidade se imaginamos nosso mato da Chapada Diamantina ou (é sacanagem!) nossa caatinga do sertão baiano.

A caminhada pela trilha é um exercício prazeroso e saudável

A cachoeira propriamente dita é pequena, mas o seu entorno é grande.
Aquelas árvores compridas, produzindo sempre sombra, uma variedade de plantas, muitos riachos (chamados aqui igarapés) e pequenas pontes por toda a trilha, em torno de dois quilômetros, da sede da reserva ecológica até a cachoeira. Uma gostozura a caminhada.

Pequenas pontes embelezam a travessia dos igarapés

Fala-se numa grande variedade também de pássaros, animais e o que os técnicos chamam de formações rochosas।



Leitura da Carta da Floresta, uma exortação pela preservação


A Reserva Particular de Proteção Natural é mantida pela Fundação Rede Amazônica, que, por sua vez, é mantida pela Rede Amazônica de Rádio e Televisão, cuja TV é a repetidora da Rede Globo no estado।


Cachoeira da Onça em reserva no município de Presidente Figueiredo


Fica no município de Presidente Figueiredo (que nome!), a 107 quilômetros de Manaus, por uma BR que pode levar você até Boa Vista, capital de Roraima, depois de rodar 820 quilômetros (o asfalto é ótimo, mas quase sem acostamento, pelo menos nesta parte inicial, depois não sei, tem pela frente uns 100 quilômetros de barro numa reserva indígena, onde há restrições quanto a se rodar à noite).

A visita à reserva, de ônibus (três ônibus), na quarta-feira, dia 19, fez parte da programação do Festival Literário Internacional da Floresta – Flifloresta, ao qual já me referi na matéria anterior, SOS Amazônia। Paguei mais 25 reais, com direito a café da manhã, para a viagem.

Os organizadores do seminário (A Livraria Valer, a maior de Manaus, foi o principal patrocinador) quiserem apresentar, num ambiente apropriado, à sombra das grandes árvores e ao som da queda d'água, a Carta da Floresta.

Um pagé (com ramos) e outros representantes de nações indígenas

E assim o fizeram. Com simplicidade, mas com toques solenes, a combinar com o tema e local. Nada contundente, são declarações de princípio mais chegadas ao formal. Fala da crença "na utopia e na realização do sonho de edificação de uma terra sem males".

"Afirmamos nosso compromisso em defendê-la (a Amazônia) e empreender esforços para promover iniciativas capazes de preservá-la como espaço vital do ser humano, dos bichos, das plantas, das águas, dos passarinhos. De todos os seres, inclusive os encantados". E vai por aí... Bonito, poético.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

SOS Amazônia




O jornalista Washington Novaes
(foto), muito conhecido por sua dedicação à luta pelo meio ambiente, esteve em Manaus na terça-feira, dia 18, falando de desmatamento da floresta, no Simpósio de Cultura e Natureza na Amazônia. Se dermos crédito a ele – e me parece que ele tem toda credibilidade -, o processo de destruição da grande floresta tropical, cantada em verso e prosa em todo o mundo, vai de vento em popa.




Platéia formada por estudiosos, professores e estudantes

Os dados e argumentos de Novaes são arrasadores: a mata vai sendo derrubada dia-a-dia para dar lugar à plantação de soja, à criação de boi, às atividades das mineradoras... tudo dentro da lógica de servir ao mercado externo, tudo para exportar। (Ultimamente fala-se também no avanço da plantação de cana para o biocombustível). Até o Pólo Industrial de Manaus (PIM), o carro-chefe da economia regional, é explorado de acordo com os interesses dos capitais coreanos, chineses e japoneses.



Mesa com os professores Niro Higuchi, Marcílio de Freitas, Virgílio Viana e Terezinha सोअरेस

Bem, a triste realidade foi mostrada pelo jornalista sem meias tintas, inclusive quanto ao esquentamento paulatino, inexorável, do planeta, e às questões relacionadas com o uso da água. Enquanto isso, ele disse, a sociedade brasileira continua passiva, restringe-se a uma “retórica indignada”, que é só isso, retórica. (Anteontem mesmo, dia 18, o governador daqui, Eduardo Braga, e o da Califórnia, o roliudiano Arnold Schwarzenegger, assinaram acordo visando a “preservação ambiental amazonense”, como diz, solenemente, o noticiário da nossa imprensa। Agora a coisa vai!).

Manifestações artísticas de indígenas da região animaram o simpósio

Para piorar as coisas, a última investida do poder econômico contra a floresta vem agora através de uma tal lei de concessão de florestas públicas, patrocinada pelo nosso governo Lula। Novaes comentou que até hoje nenhum estudioso ou cientista botou a cara para defender tal iniciativa। Ele, me parece, chega a se angustiar: defendeu que a sociedade precisa radicalizar।

E há um detalhe fundamental: toda ação na região exclui os interesses da maioria da população. São cerca de 25 milhões de pessoas na parte brasileira, na Amazônia Legal (os sete estados da Região Norte e pegando mais Maranhão e Mato Grosso). Há ainda o caso especial das reservas indígenas, tema que tem merecido a atenção do governo Lula, mas sem o êxito pretendido. (Fico matutando como a ex-ministra Marina Silva aguentou quase seis anos no governo!).

Poeta Thiago de Mello


Quem também participou do encontro foi o poeta Thiago de Mello, filho e eterno amante da região. Não quis discursar, cedeu o seu tempo a Washington Novaes e preferiu saudar os presentes (em torno de quatro centenas de gente do meio acadêmico) recitando um poema onde a floresta, tão grande e aparentemente tão poderosa, pede socorro ao homem. Emocionante! (Uma dezena de especialistas, alguns de destaque internacional, participou das discussões, realizadas na Universidade do Estado do Amazonas).

(Me perdoem os ecologistas, mas realmente esta não é minha praia. Mesmo assim, achei politicamente correto reativar meu blog com um assunto que é a cara da região. Estou em Manaus há duas semanas e quero compartilhar com vocês minhas impressões deste país quase estrangeiro. Me aventuro agora a uma capenga cobertura fotográfica, estou tentanto, não sei. Será mais um capítulo do meu conflituoso relacionamento com a tecnologia moderna. Também, penso continuar escrevendo, daqui e dalhures, para o Mídia Baiana).

domingo, 16 de novembro de 2008

Porque hoje é sábado, véspera de caminhada

Cerrou os olhos e se viu, ao cabo de segundos, em uma mesa do Bar de David, em meio a vozes esgarçadas, canções, violão, aquele burburinho ondeante, mais para os altos volumes que marcam os bate-papos paralelos depois da terceira, quarta दोसे.




“Que barulho de los diablos, que porra, qué carajo!”, queixa-se, recém chegado do Caribe, ainda misturando os idiomas, com um copo de uísque na mão. “Já tomou quantas, companheiro?”, pergunta de pronto Carlinhos Ipiaú, abrindo um sorriso. “Estou na primeira...” “Então, é isso, não é o barulho, você é que bebeu pouco”, arremata Carlinhos, derramando a sabedoria bebida nos botecos da vida, sob a observação do outro Carlinhos – geração saúde – sempre muito gentil.

O ruído vai e vem, como em ondas, alteando, às vezes amainando um pouco, para altear, altear, na justa medida das doses consumidas numa tarde de sábado, em pleno verão baiano। Ah, hoje é sábado, este sol, este calor... Puxa, mas não podemos nos exceder, porque amanhã é a tradicional caminhada à Colina Sagrada.

E aí Nello, tá tudo planejado, e as camisas? Nosso líder reage com aquele ar de ceticismo, enfadado ao ser inquirido sobre as mesmas questões tantos dias seguidos, olha como a pensar “mais um pra encher meu saco!” Mas são apenas as aparências। Ao contrário, responde educadamente como gentleman que é: “Tá tudo certo, veja as camisas com David”.

Helinho, com aquele invejado físico de atleta, recorda, numa animada conversação, as façanhas do inesquecível Fábio Rêgo।

Professor Marconi, com o violão - cigarro sempre aceso e o óleo milagroso à mão para qualquer emergência - pontifica numa roda tão simpática quanto animada. “E aí, Deta, vamos atacar de Maluco Beleza”, convida, numa referência ao nosso Raul Seixas, sucesso garantido nas tardes (e noites) de David.

“Como está a companheira Vera?”, “Bem, estudando sua pós-graduação”, diz rapidamente, atiçando: “Eu devia estar contente, sou um cidadão respeitado...”, sob o olhar cúmplice do companheiro André, e a pedidos de Mário – a única pessoa que conhece dois Eudaldos. Vasco dando o tempero certo em sua escaleta। Antonio, o mágico do pandeiro e da percussão। “Ah que sujeito chato sou eu”, em dueto, vai-se espalhando pela alegre confraria, distraindo corações e mentes.

“Confraria não, para mim é terapia. Já gastei muito dinheiro com terapeutas, agora aqui em David gasto menos e faço uma terapia mais prazerosa”, discorre Ernesto, passando a mão pelos cabelos e lembrando as viagens internacionais, feitas com Helena e os dois filhos. Ernesto está certo, nossa amiga Eliana já o disse, esgrimindo sua verve poética,: “Confraria, alguns chamam terapia...”

Rolam cerveja e uísque, e também uma cachacinha, que ninguém é de ferro. “Daviiiiiiiiiiiii!”, grita Jean Pierre, nosso suíço/baiano predileto, entremeando, vez e outra, os copos de cerveja com um copito da branquinha, sob o olhar protetor da sempre atenta Léa. Sinval também não dispensa uma cachaça, só quando está bebendo aquela coisa intragável, genebra, remédio (mui amigo) para o estômago.E Jadson beberica um golezinho, tanto da pinga de Jean Pierre (je peux? merci), como da horrível genebra. Mas ele chegou aqui dizendo que ia beber com moderação por causa da caminhada... ih! já passou do quarto uísque e inicia seu interminável refrão: “Me desculpe, evidentemente, vá pra porra!” “Professor, já está na hora de cantar o VPP”, sugeriu alguém, quem foi, quem foi?, parece que foi Joaninha, que começa a se animar. Ou foi Mônica? Deve ter sido Délio, um eterno gozador। Tudo organizado?


Mas a cachaça não é complemento e sim o essencial numa mesa vizinha, comandada por nosso querido Bira, com seu jeito de menino travesso. A roda dos bunda verméia, a turma de Euclides da Cunha, comparece em grande estilo. Além de Rejânia, com seu charme e simpatia, estão Jurandi, que sabe tudo da política de Macururé, nosso corretor de seguro de automóvel preferido, João, sempre solidário com o nosso presidente Lula, Alvinho, que na verdade é de Paulo Afonso, e outros camaradas de Euclides que prestigiam nossa ruidosa tertúlia. Sem faltar, claro, Paulinho Nolasco, anunciando a promoção de mais um bode अस्सदो.



Ao lado o empreendedor Marcos, com Sirlene, diverte-se depois de sanear com os banheiros químicos mais um carnaval. Roberto Luminária e Mônica também
estão aqui। Que bom, que bom!

Olha quem está chegando... Heraldo, o alagoano। “Como está jornalista?” “Companheiro Heraldo, meu direitista predileto, já criticou muito hoje Lula e os petistas?” “Que coisa mais atrasada esse negócio de direita e esquerda, não existe mais isso. Eu sou um democrata”, diz, abrindo um abraço e um sorriso, na companhia aconchegante da Marta e de nossa amiga Uiara.E vai se enturmando na mesa da música. Falando de política, Heraldo agrada a uns e desagrada a outros, porém, cantando, agrada a todos. E pega o violão das mãos do professor, pois já é hora de começar o rodízio. “O importante é que emoções eu vivi...”, aplausos, aplausos. “Negue o teu amor, o teu carinho, diga que você já me esqueceu, pise machucando...” Já é Vasco seguindo com outra canção romântica, provocando suspiros nos corações marcados por amores feitos e desfeitos.E a farra continua. Quem está ao violão agora é o grande Siro (Renata senta-se nas proximidades), rememorando belos sucessos, com a força e o virtuosismo que lhe são peculiares. “Adubar a terra, conhecer os desejos da terra... o cio da terra propícia estação....e se fartar de pão...” Aldo e seu irmão também apareceram para o deleite dos amantes do rock dos anos 80, especialmente Legião Urbana.
A tarde já se foi e a noite ensaia instalar-se. Caiado, fumando charuto, demolia as convenções sociais que tanto limitam a vida, tendo como interlocutor Mamede, o velho e querido Mama.Roberto Lemos, com seu infalível cigarro apagado, sobe à tribuna improvisada (espécie de canteiro que envolve a velha mangueira) e faz um discurso, após ouvir a queixa de que “começou a beijação” entre os homens. “Meus amigos, isso é uma pouca vergonha, onde já se viu homem beijar homem?! David precisa tomar providências, nós precisamos tomar providências em defesa da moral e dos bons costumes. Este é um ambiente de família, de respeito...”, aplausos, todos concordam, mas o diabo da beijação continua, quem vai segurar bebedores depois da quarta, quinta cerveja, “depois do quarto, quinto copo, tudo que vier eu topo”, já dizia a canção.
O que restou da antiga turma dos Primatas, a jovem guarda, o futuro de David, desfrutava à larga. Os outrora parceiros de TarsoAnderson, Igor e outros – participavam daquela saudável produção.Bem próximo (porque o espaço é pequeno), Corral dissertava sobre suas preferências. “Quais são as três melhores coisas da vida?” E ele mesmo respondia, rindo, satisfeito: “Primeira, mulher, segunda, mulher, e terceira, leite condensado Moça”. Não se sabe se Tonhinho (a genética é uma porra, companheiro!) estava inteiramente de acordo, mas sorria solidário com o irmão, enquanto Roberto Fortuna deixava um pouco seu movimentado Super Serve para compartilhar nossa alegria.
Mas David já quer fechar, amanhã é dia de caminhada, minha gente, vocês se esqueceram? Nello, com a sabedoria de líder, tenta conciliar: “Cada um pode tomar mais uma saideira, certo David?”, porém Alda, o Anjo Anunciador, já está se arrumando para sair।



Conseguimos segurar por um instante o português bem-amado। Conte aquela piada de dono de bar, pedimos। David olhou, coçou a cabeça, sorriu, engoliu o cansaço e a má vontade, trata-se, na verdade, de um santo homem.


“Quando jovem – começou - um futuro dono de bar, que era filho adotivo, foi chamado ao leito de morte pelo pai, juntamente com dois irmãos”. O velho queria transmitir suas últimas vontades. Últimas e sagradas, porque estava chegando o momento em que se vão as coisas provisórias da existência humana e vai chegando a hora definitiva. Meu filho, disse, dirigindo-se ao primeiro, quero que você seja médico; e você – falou ao segundo – quero que seja advogado, assim vocês terão oportunidade de ajudar as pessoas. O terceiro, que havia sido adotado, perguntou então, impaciente: “E eu, meu pai?” “Você, que é filho de puta, vai ser dono de bar”, sentenciou o velho pai.

“Satisfeitos? agora vamos fechar...” Fechou, afinal, mas sob os protestos veementes do nosso aguerrido professor Marconi. “Vou protestar pela trigésima vez. Esse negócio de David fechar o bar na hora que quer, na hora que lhe apetece, não tá certo. Todo estabelecimento tem um horário determinado de funcionamento. David tem a obrigação de definir um horário e cumpri-lo, é uma questão de respeito aos clientes, a todos nós”.Como ele próprio frisou, foi o trigésimo protesto. Mas foi modesto, certamente houve bem mais. E haverá outros. Em vão

(Escrito em Havana, Cuba, 16/02/2008)



quinta-feira, 3 de julho de 2008

2 de Julho


Dá gosto ver tanta gente ao longo do trajeto do cortejo das comemorações do dia 2 De julho। Uma festa cívica realmente peculiar, como muitas outras coisas que só acontecem na Bahia. O gringo suíço Jean Pierre não acreditava no que via: “Muito bom, hã?” repetia.

“Como, independência? A nossa independência não foi no dia 7 de Setembro?”, diriam outros brasileiros não baianos.


A deputada federal Lídice da Mata disse certa vez que uma das dificuldades para convencer os colegas sobre a mudança do nome do nosso aeroporto é que os “nobres” deputados e senadores não sabem da importância do 2 de julho para a Bahia e o Brasil।

Os parlamentares não sabem que teve muita luta e gente (índios, vaqueiros, freira e todo o povo de Salvador e do Recôncavo) que se envolveu numa verdadeira batalha para expulsar daqui os portugueses resistentes।

Só a partir de 2 de Julho de 1823, dez meses depois do grito heróico de D. Pedro às margens do Ipiranga, a independência do Brasil se consolidou, aqui, sem a tran qüilidade repassada na didática escolar.


Os baianos valorizam muito essa história omitida nas escolas e instituições do país (nos rituais obrigatórios da Presidência da República não deveria constar a participação do titular de plantão nessa data?) e vão para as comemorações com tudo o que têm direito. Ou quase tudo, porque nesse ano faltaram as faixas e os panfletos e a defesa pelo retorno do nome do aeroporto de Salvador para 2 de Julho.



“A saga de um povo não pode ser substituída por um só homem”, esse era um slogan bastante utilizado nas comemorações após a mudança do nome do nosso aeroporto para homenagear o filho morto de AC M, que também já se foi.




Mas teve gente do povo que lembrou essa luta e cobrou na camiseta a tão ansiada mudança que os políticos prometeram e... esqueceram.


Neste ano, como em todo ano de campanha eleitoral, o palanque público e ao ar livre (com direito a estréias e teste de popularidade das candidaturas recém oficializadas nas convenções partidárias que se realizam em junho) deu uma idéia de como serão feitas as campanhas.


O PMDB, por exemplo, levou o estilo do ministro Geddel para vender a candidatura de João Henrique à reeleição: colocou muito balão gigante com a sigla, banda e toda uma produção para impressionar no trajeto, que começa na Lapinha, passando pelas principais ruas do bairro de Santo Antônio e do Pelourinho e termina no Terreiro de Jesus.



O PT desfilou com número, porém sem as suas principais estrelas, porque elas estavam no bloco chapa branca do governador .

Ponto para o partido. Afinal, Wagner foi às convenções dos candidatos a prefeito de Salvador que compõem a base aliada, mas quem se sentiu à vontade para desfilar no 2 de Julho ao lado do governador foi o seu correligionário Walter Pinheiro.

Pinheiro desfilou ao lado de Wagner e da sua candidata a vice - prefeita, Lídice da Mata (PSB), ex-prefeita de Salvador.

O Dem também passou querendo fazer alvoroço, mas nem de longe lembrou os tempos do estardalhaço que ACM fazia. Difícil mesmo era identificar o candidato ACM Neto naquele ba-fa-fá.

O PSDB bem que fez barulho, mas Imbassahy passou normal.

O PSOL trouxe novamente a sua estrela principal, a ex-senadora Heloísa Helena, que procurou ser notada abrindo o sorriso e carregando nos braços um buquê de flores।



Independente do jogo político explícito no cortejo, o caboclo e a cabocla, símbolos dos nossos heróis, impressionaram visitantes e reencataram os baianosComo também chamaram atenção:

- o orgulho dos estudantes que apresentaram passos e toques ensaiadíssimos representando as escolas públicas,


- o ar de dever cumprido dos ativistas e militantes de movimentos sociais que reclamam contra a impunidade, como no caso dos parente das vítimas da explosão da fábrica de fogos em Santo Antônio de Jesus, há 11 anos,

-o protesto contra a intervenção no Rio Seixas, na Avenida Centenário,


-a luta da UFBA pelo pagamento da URV, das universidades estaduais,


- denúncia contra a discriminação contra a mulher e o rastafari no mercado de trabalho।


Todo ano é assim: calçadas e janelas dos velhos casarões e sobrados ficam lotadas por moradores e populares que relembram com orgulho a nossa saga pela independência e levantam novas bandeiras de liberdade e direitos de liberdade e cidadania। Tudo com muita alegria e beleza, porque nessa festa o público também se enfeita, se fantasia e se exibe.

Joana D’Arck

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Vacina contra manipulação da informação


“A primeira instância da vacina contra a campanha midiática feita pelos meios de comunicação comerciais”.



É assim que o ministro de Comunicação e Informação da Venezuela, jornalista Andrés Izarra (foto), define os veículos alternativos e comunitários – impressos, emissoras de rádio e TV e digitais - que jogam um papel fundamental no processo da revolução bolivariana.

Em declarações recentes, Izarra informou que o governo venezuelano apóia atualmente cerca de 450 desses órgãos, especialmente ajudando na aquisição de equipamentos técnicos.

O número citado pelo ministro confirma dados divulgados pela Agência Bolivariana de Notícias (ABN), segundo os quais existem 443 órgãos ligados a iniciativas populares e comunitárias, assim distribuídos:

-250 jornais (de acordo com informações do Ministério de Comunicação),

-167 emissoras de rádio e 26 estações de TV (informações do Conselho Nacional de Telecomunicações, Conatel).

-De acordo com a ABN, há ainda mais de 100 (um número que varia dia-a-dia) veículos na Internet – jornais digitais, weblogs e outras versões digitais। - (No Ministério há um departamento específico para cuidar do setor, com uma dezena de funcionários, chamado Diretoria Geral de Meios Alternativos e Comunitários).


Há no país o Movimento Nacional de Meios de Comunicação Alternativos e Comunitários, devidamente organizado, com estatuto, direção eleita, etc. Em março último seus integrantes fizeram uma Assembléia Nacional Constituinte em Caracas, durante três dias, com a participação de 420 comunicadores sociais, representando cerca de 200 desses meios de diversos estados (números oficiais, divulgados pelos próprios organizadores). De acordo com suas conclusões,




o movimento dá total apoio ao processo revolucionário liderado por Hugo Chávez, em favor do socialismo e contra o império estadunidense.



E faz um chamamento para incentivar a inserção em cada bairro, em cada município, bem como a ligação com os conselhos comunais (fala-se muito aqui em comunas socialistas) e os outros sociais.




Grupo Teatro de Rua - em alusão aos "demônios da comunicação" , em protesto realizado durante o Primeiro Encontro Latino-americano contra o Terrorismo Midiático, em abril passado, registrado neste blog.





Entre os chavistas parece haver uma unanimidade em reconhecer a importância dos meios de comunicação comunitários para o sucesso dos movimentos populares e da revolução, mesmo atualmente quando o governo já se armou com emissoras estatais de rádio e e TV.





O exemplo repetido a todo momento é a mobilização do povo, rápida e massiva, ocorrida quando do golpe de Estado de 11 de abril de 2002. Chávez voltou ao poder no dia 13, dois dias depois, graças ao contra-golpe propiciado a partir de tal mobilização, a qual foi comandada através de rádios e TV's comunitárias. Detalhe: no corre-corre do golpe, com o presidente prisioneiro, boatos de sua renúncia, os golpistas no Palácio Miraflores, duas dezenas de mortos nas ruas, as TV's privadas pararam de noticiar e a TV estatal foi tirada do ar (me parece que então só havia uma TV estatal, agora há quatro). O espaço foi ocupado pelos alternativos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ponha um ônibus na praça



Se você é motorista, está desempregado, tem algum dinheiro (um capital razoável) ou crédito, você pode comprar um ônibus e ir para a batalha. É isto mesmo.

Foto: Deta (arquivo)
Na Venezuela, uma pessoa física pode botar um ônibus para rodar numa linha de transporte coletivo, num processo semelhante ao que ocorre no Brasil com os táxis। A pessoa tem de comprar o ônibus, comprar uma vaga (aqui se chama “cupo”, seria o equivalente brasileiro da compra do taxímetro) e se associar ao que se chama “sociedade civil”, que tem a concessão para explorar determinadas linhas। Pronto, o dono do carro vai ser patrão de si mesmo e pode contratar um ou mais auxiliares, podendo possuir ainda mais de um ônibus.



Cesar Mujica, 47 anos, casado, dois filhos, é dono de um ônibus (na verdade, quase todos os que rodam aqui em Caracas são pequenos, lembrando o que chamamos na Bahia de lotaçãओ) O nome mais geral é autobus, mas os menores são chamados também de buseta e camionete). Ele calculou o preço de um ônibus (já usado) em torno de 100 mil bolívares fortes (pela cotação oficial mais de 50 mil dólares e no mercado paralelo, hoje, uns 30 mil). Já o “cupo” está ao redor dos 60 mil bolívares. Mujica roda na linha Baruta-Trinidad-Chacaito e é associado à Sociedade Civil União Baruta, Chacaito e Hatillo, que tem a concessão para explorar a Linha Sul Leste (usam assim separadas, Linea Sur Este).


O secretário de Organização da sociedade, José Melo, informou que 80% do transporte público de Caracas é operado por sociedades civis deste tipo, enquanto o restante está sob a forma de cooperativas e “companhias” (esta terceira forma equivale a nossas empresas)


Isto sem computar os carros do que se chama “metrobus”, ônibus (todos grandes) vinculados ao sistema do metrô, que é estatal। No caso da sua sociedade, são 170 ônibus, o que aparentemente é muito pouco, já que se trata de uma área grande, estendendo-se até El Silencio, no centro da capital (abrange rotas que percorrem quatro municípios de Caracas: Libertador, Chacao, Baruta e El Hatillo। Fica de fora só Sucre)। A explicação de Melo é que outras sociedades exploram também os mesmos roteiros, com algumas variações, uns incluem determinados bairros, etc। Tais sociedades funcionam sob as normas das prefeituras (alcaldías) e do Instituto Nacional de Transporte e Trânsito Terrestre (Inttt)। Elas garantem assistência médica aos associados।



Particularidades
- A passagem de ônibus, em relação à de Salvador, é muito barata। Custa 1 bolívar forte (equivalente a 60/80 centavos do nosso real)
- Aos sábados e domingos, aumenta para 1,10 bolívar, o mesmo valor cobrado às vezes em qualquer dia, a depender de alguma variação na रोता -Para se entender isso, é necessário lembrar que o combustível aqui, para nossos padrões, é quase de graça। Um litro de gasolina custa 0,70 e 0,97 (tipo especial) bolívar। Significa que o tipo comum, de menor custo, equivale, hoje, a 57 centavos do real (R$ 0,57 – em Salvador um litro de gasolina está em R$ 2,75)।
-No sistema metrô/metrobus é ainda mais barato. Uma passagem no metrô (chamado aqui metro, sem acento) é 0,50 bolívar. Detalhes: não há cobrador, o motorista recebe o dinheiro na entrada do passageiro; o passageiro desce tanto pela porta dianteira, como pela traseira; não há catraca;
-o dinheiro que vai sendo arrecadado fica exposto numa caixa aberta sobre o capu, uma prova de que não há tanto assalto a ônibus como em Salvador; não existe aquela proibição quanto a sentar-se no capu, já vi motorista convidar passageiro a instalar-se no dito cujo।


Foto: Deta (arquivo)


Quanto aos táxis, há uma complicação: não se usa taxímetro.

O passageiro tem que negociar o preço da corrida com o taxista.



Bem, para o visitante que não conhece a cidade, é um horror। Como se discute o preço se não se conhece o roteiro, a distância? Por exemplo, quem chega pela primeira vez no aeroporto vai pagar, fatalmente, 150 bolívares para qualquer ponto de Caracas। Depois, se aprende que não é bem assim, o preço pode variar de 80 a 120 bolívares, a depender do local, do momento, da negociação. Falando do setor transporte, o que mata mesmo o cidadão são os engarrafamentos. Não sei se podemos comparar a São Paulo. Em relação a Salvador (uma cidade com a metade da população de Caracas), os daqui são 10 vezes piores.




Bolívar forte – Muita gente deve estar intrigada com essa coisa de “bolívares fortes”. Lembram da época de inflação alta, quando o Brasil vivia cortando zeros e trocando o nome da moeda? (Venezuela ainda sofre um dos mais altos índices de inflação da América, foi 22,5% em 2007).

É o seguinte: desde primeiro de janeiro deste ano que a moeda venezuelana, que se chamava simplesmente “bolívar”, perdeu três zeros e passou a se chamar “bolívar forte”.

Isto somente até 30 de junho, seis meses durante os quais circula também o bolívar antigo, com os três zeros. A partir de primeiro de julho, acaba o bolívar antigo e fica apenas o “bolívar forte”, o qual pode voltar a ser tratado como “bolívar”, simplesmente, sem o “forte”. Entenderam? Me esforcei bastante.

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Notícias da América Latina


Por: Jorge Botero / La Jornada
1) Morre Manuel Marulanda, o “Tirofijo” (nome verdadeiro Pedro Antonio Marín), principal fundador e chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Segundo o anuncio oficial, no domingo, dia 25, feito através de vídeo enviado à Telesur, ele morreu de enfarto no dia 26 de março. Tinha 78 ou 80 anos (foram veiculadas duas datas de nascimento), mais de 50 anos dedicados à luta armada nas selvas colombianas.


Foi substituído no comando por Alfonso Cano (nome verdadeiro Guillermo León Sáenz Vargas), 59 anos, antropólogo que aderiu à guerrilha depois do assassinato de milhares de companheiros que atuavam na oposição institucional, na década de 1970। Graças à eficiência da “inteligência” imperial, os membros das Farc são conhecidos hoje como “narco-guerrilheiros”. Certamente, quando passar a era do presidente Álvaro Uribe (se passar), serão reconhecidos como lutadores do povo.
2) Os anti-chavistas foram às ruas no domingo, dia 25, para marcar o primeiro aniversário do fechamento da Rctv, do mega-empresário das comunicações Gustavo Cisneros।
A emissora vai ao ar apenas em canal por assinatura। Ela foi acusada de participação no golpe de Estado de 11 de abril de 2002 (Hugo Chávez voltou ao poder dois dias depois por pressão popular) e quando venceu o prazo de sua concessão, em maio de 2007, ela não foi renovada pelo governo.

Vestidos com camisetas brancas (os chavistas usam sempre o vermelho), os oposicionistas, apesar do dia chuvoso, promoveram passeata e concentração, com direito à cobertura ao vivo da TV privada Globovisión (os partidários de Chávez a chamam “Globoterror”). Expressaram livremente seu protesto contra a falta de liberdade de expressão.

3) A maioria dos “especialistas” que pontificam (ou pontificaram), nas telas das TV's internacionais, analisando a guerra no Iraque não passa de picaretas, devidamente instruídos pelo Pentágono.

Eles são custeados, de uma maneira ou de outra, pelas empresas contratadas pelo governo estadunidense para prestar serviços na “reconstrução” do país destruído pelas bombas imperiais. Manipulação da informação é isso aí. A revelação não foi feita por nenhum jornal esquerdista, mas pelo The New York Times, conforme matéria publicada pelo diário venezuelano Últimas Noticias.

4) Criada, em reunião dos chefes de Estado dos 12 países da América do Sul, realizada no Brasil, na sexta-feira, dia 23, a União das Nações Sulamericanas (Unasul)। Mesmo com a ação desagregadora da Colômbia, aliada incondicional do império (Álvaro Uribe não quis avalizar a proposta de criação do Conselho de Defesa da região, de autoria do governo de Lula), o processo de integração soberana da América Latina vai em frente.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Democracia participativa

Na quinta-feira, dia 22, pela manhã (até mais ou menos 13 horas), testemunhei quatro manifestações de rua no centro de Caracas. Trata-se praticamente de uma rotina essa ebulição social, um protagonismo popular que caracteriza a democracia participativa, bem diferente, por exemplo, da democracia representativa existente no Brasil.


Sempre que vou ao miolo da cidade, me deparo com tais movimentações, como se pode ver em outras matérias deste blog. E um aspecto fundamental: não há repressão. Os policiais, em número aparentemente excessivo, estão sempre presentes, mas nada de bater e prender manifestantes.

O protesto mais expressivo dessa manhã foi feito por empregados da prefeitura
(alcaldía) de Libertador, o principal dos cinco municípios de Caracas. Umas 200 pessoas se juntaram num cruzamento das avenidas Universidad e Barald, com faixas e cartazes, para exigir melhorias salariais, fechando o trânsito em duas vias das mais importantes do centro (aqui se usa a expressão “trancar la calle”, trancar a rua, um tipo de protesto muito comum e que geralmente dá resultado, forçando as autoridades a tomar algum tipo de providência). Os policiais “ajudam” no sentido de organizar o fechamento das ruas, impedindo a passagem dos carros e desviando-os para outras alternativas. As vias foram fechadas a partir de 9 horas e continuavam “trancadas” ainda por volta das 13 horas. Até que hora a rua vai ficar fechada?, perguntei a um dos manifestantes. Até que sejamos atendidos, foi a resposta.

As demais manifestações foram:


um grupo de defensores dos animais aglomerado diante da Assembléia Nacional (Congresso), com cartazes, nos quais se podia ler: Associação de Resgate da Fauna, Associação Protetora de Animais da Ilha de Margarita, Fundação Josefina Narvaez, Proteger a fauna silvestre é deixá-la em liberdade, Exigimos Lei de Proteção Animal, agora!, Não à briga de galo, briga de cachorro, não às touradas, etc, etc.;



outra foi uma passeata dos empregados do Metrô, reivindicando também melhorias salariais, através de contrato coletivo;


e na quarta manifestação, em torno das 8 horas da manhã, um grupo, armado com megafone, debatia na área de entrada do Tribunal de Justiça, local que está sempre tomado por filas na parte da manhã (não apurei o tema da discussão).

Sem repressão policial – Especialmente sobre o fechamento das ruas, conversei com o sargento Oscar Chacón, da Polícia Metropolitana (agora, me informou, vinculada ao Ministério do Interior e Justiça, antes era ligada à prefeitura). Quando fui anotar seu nome, ele hesitou um pouco, em seguida concordou: “Não, aqui não há repressão, nada de bater (golpear) com cassetetes (palos), usar balas de borracha, gás lacrimogêneo. Aqui é uma democracia participativa, estamos aqui para proteger as pessoas, todos têm o direito de expressar seus sentimentos. Pertencemos à revolução graças ao nosso presidente Chávez. Nosso lema é Pátria, socialismo ou morte – venceremos”. Fiquei assim duvidando daquele discurso tão certinho, decorado. Perguntei aos três policiais que estavam com o sargento, todos de serviço, com motos, armados, bem tranquilos, fechando a avenida Universidad: “Ustedes están de acuerdo con eso?” Os três disseram que sim.

Uma visita muito especial – Estava comigo e acompanhou o início do trancamento das ruas o casal Paolo Marconi e Luísa Amélia. Passaram por Caracas indo para a Ilha de Margarita, o destino turístico mais famoso na Venezuela. E aproveitaram para visitar o velho amigo sumido da Bahia nos últimos 11 meses, uma visita cheia de amizade e carinho. Um prazer da porra! (ou do carajo, como diriam por aqui). Paolo é antigo companheiro das lides jornalísticas e Luísa nos conhecemos em 1969, quando ambos trabalhávamos no finado Baneb (Banco do Estado da Bahia). Passeamos por aquele centro caótico de Caracas, do qual tanto gosto, e, ao final, tomamos duas cervejinhas geladíssimas e duas doses de ron no San Vicente, meu bar caraquenho predileto. Combinamos um reencontro, em breve, no Confraria (Pituba, Salvador), bar dos queridos Navarrinho e Popóia.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Proibição de Os Simpsons e matriz de opinião (1)


A “notícia” sobre a suposta proibição da série estadunidense Os Simpsons, determinada pelo governo da Venezuela, correu o mundo em meados do mês de abril. Conforme registra Javier Adler, em Kaosenlared.net, na Internet apareceram matérias com títulos como

“Venezuela não verá mais Os Simpsons”,
“Chávez censurou Os Simpsons”,

“Chávez 'estrangula' Os Simpsons”,
“Hugo Chávez ataca até os desenhos animados”,

Adler anota também títulos da imprensa espanhola considerada “séria”:

“Os Simpsons, proibidos para crianças na Venezuela” (jornal El País),
“O governo venezuelano proíbe a emissão de Os Simpsons e em seu lugar passará Os Vigilantes da Praia”

(La Vanguardia, que se refere ao nome em espanhol da série Baywatch, também norte-americana, que a TV Globo apresentou no Brasil, às 17 horas, com o nome SOS Malibu),

“Os Vigilantes da Praia, mais educativos que Os Simpsons” (El Mundo).

O que teria acontecido realmente? Qual seria a notícia? Pura e simplesmente, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), órgão encarregado do setor, determinou à Televen, emissora de TV privada que transmite a série, que mudasse o horário do programa, fora do período considerado apropriado para crianças e adolescentes (entre as 7 e 19 horas), em atendimento a reclamações de telespectadores. (Uma orientação comum adotada pelos países ditos civilizados, como o Brasil, por exemplo). A série ia ao ar às 11 horas da manhã. A Televen a substituiu por Os Vigilantes da Praia (Baywatch) e logo depois passou a exibi-la às 19 horas.

Se isso houvesse ocorrido em outro país “normal” (como certamente ocorre), não seria nem notícia. Mas na Venezuela de Hugo Chávez... tudo vira um Deus nos acuda! Por que? Porque a Venezuela lidera hoje um processo de integração soberana dos povos da América Latina, com a perspectiva do socialismo como alternativa ao capitalismo. (Além do olho grande nas imensas reservas de petróleo). E isso bate de frente com os interesses de um inimigo poderoso, o império estadunidense, que necessita, a todo custo, desqualificar o principal líder de tal processo. Então, utiliza, dentre suas ferramentas, uma poderosíssima: a manipulação da informação. E para que a coisa funcione bem, os laboratórios da “inteligência” dos Estados Unidos (a CIA e seus tentáculos nos meios de comunicação) fabricam o que se chama “matriz de opinião”

No Brasil, o terror contra o MST
(Foto de Rodrigo Valente -Correio da Cidadania)


O que é isso? Emissoras de rádio e TV e jornais batem quase todos os dias numa mesma tecla e aquela “informação”, sempre repetida, com um mesmo viés, termina se transformando num senso comum na cabeça das pessoas. Então, acabam acreditando na “notícia”: Hugo Chávez proibiu que os venezuelanos assistam às aventuras de Os Simpsons. Porque já está implantada, na cabeça das pessoas, uma matriz de opinião, segundo a qual o presidente venezuelano é capaz de tudo, aquele ditador, truculento (quiçá um terrorista!), apesar de ter vencido uma dezena de eleições. (Guardadas as proporções, é um processo semelhante ao que a grande imprensa brasileira fez com o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

Uma vez, discutindo com um amigo, ele me disse: quero ver você defender o MST quando ele invadir e tomar seu apartamento. Invadir e tomar meu apartamento?!).

Não é por acaso que a discussão sobre matriz de opinião, terrorismo midiático e guerra de quarta geração (2) faz parte do dia-a-dia na terra da revolução bolivariana.

Assim, enquanto os venezuelanos continuam a ver as peripécias da família Simpsons, às 19 horas, através da Televen, quantas pessoas pelo mundo têm hoje a falsa informação de que a série está proibida no país? A “notícia” transforma a determinação de mudança de horário em proibição total, evolui para envolver o presidente “despótico” e chega até a insinuar que tem o dedo do governo na troca por Os Vigilantes da Praia, o que seria risível, já que esta tem um conteúdo ideológico muito mais dentro do padrão dos “heróicos estadunidenses”, conforme analisa o professor Fabiano Viana Oliveira (meu ilho).

Los Vigilantes de la Playa (SOS Malibu) - Ele diz que Baywatch mostra o cotidiano de um grupo de salva-vidas nas praias de Malibu (Los Angeles), “área nobre cheia de pessoas louras, saradas e ricas”. “O grande chamariz da série – avalia - sempre foram os heróis (homens e mulheres) correndo em câmera lenta de short ou maiô vermelhos pela praia. As histórias tendem a ser bobas, e vez por outra abordam problemas sérios, como drogas, alcoolismo, etc, com tom moralista”.

Quanto aos Simpsons, os temas são basicamente ironia com os padrões familiares e valores sociais dos estadunidenses. Fabiano diz que eles abusam dos estereótipos quando se trata de estrangeiros, mas normalmente se interpreta isso como uma crítica ao modo como as pessoas de lá tendem a ver todos os outros como estereótipos: japonês assim, francês assado... Fala-se de poluição ao meio ambiente, de magnatas desalmados que soltam cachorros sobre mendigos, etc. “O chefe da família (Homer) está sempre bebendo e mentindo para a esposa. Bart, o filho, é um sujeito cheio de crueldades e artimanhas. Porém, é claro, no final a família fica sempre junta e se perdoa para o próximo episódio”, comenta o professor.


(1) “Para se gerar uma matriz de opinião, deve-se comunicar massivamente todos os dias e em todos os jornais, emissoras de rádio e TV possíveis, de uma determinada comunidade, uma idéia ou um pensamento específico (não importa que seja uma simples conjectura ou especulação), com o tom e da forma conveniente para que as pessoas de tal comunidade, ao serem bombardeadas incessantemente pelos meios de comunicação, acreditem firmemente até ao ponto de nem sequer perguntar-se se será certo ou não” - professor Oscar González (http://www.aporrea.org/).

(2) Neste blog há alguns artigos opinativos e matérias sobre tais temas, que envolvem sempre a manipulação deliberada da informação. Veja

Escutando Noam Chomsky

O fato pouco importa, importante é a versão

Paraguai: pendência histórica
Imprensa alternativa/comunitária
Papel das rádios e Tv's comunitárias

A peste da cultura contemporânea

A voz dos patrões e do “mercado”

OEA pode analisar imprensa brasileira