domingo, 31 de julho de 2011

LAMARCA... PRESENTE! ZEQUINHA... PRESENTE! (mais dois vídeos)


De Salvador (Bahia) - Foi lançado na noite de sexta-feira, dia 29, o documentário Do Buriti à Pintada - Lamarca e Zequinha na Bahia, na praça principal de Brotas de Macaúbas, a 630 quilômetros de Salvador. É de autoria (roteiro e direção) de Reizinho Pereira dos Santos.

Foi, na verdade, o lançamento nacional do filme e Brotas recebeu grande número de visitantes dos municípios próximos para marcar o resgate da memória dos dois patriotas (o capitão do Exército Carlos Lamarca e José Carlos Barreto), que foram assassinados pela ditadura no dia 17 de setembro de 1971, em Pintada, no município de Ipupiara (perto do limite com o município de Brotas de Macaúbas, que é a terra natal de Zequinha).

Um dos vídeos registra a intervenção de Reizinho logo após a exibição do seu filme, que foi seguida de apresentações teatrais e musicais. Ele é um poeta cuja obra é bastante festejada na região. É mostrado na plateia aplaudindo Olderico Barreto, irmão de Zequinha que foi ferido e preso nos episódios que deram início à caçada ao irmão e Lamarca.


O outro vídeo registra a bela apresentação de Djalma Novaes, conhecido por Piau, cantando Caminhando ou Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, música que se tornou um hino revolucionário. Fez parte do show teatral e musical que se seguiu ao filme.


Piau é de Seabra (a 160 quilômetros de Brotas de Macaúbas) e estava representando o Projeto Velame Vivo, movimento social responsável por um trabalho político e cultural na região da Chapada Diamantina e que organizou uma caravana para participar dos eventos relacionados com o lançamento do documentário.


sábado, 30 de julho de 2011

LAMARCA... PRESENTE! ZEQUINHA... PRESENTE!

De Seabra (Bahia) - Foi lançado ontem à noite, sexta, dia 29, o documentário Do Buriti à Pintada - Lamarca e Zequinha na Bahia, na praça principal de Brotas de Macaúbas, a 630 quilômetros de Salvador. É de autoria (roteiro e direção) de Reizinho Pereira dos Santos.


Foi, na verdade, o lançamento nacional do filme e Brotas recebeu grande número de visitantes dos municípios próximos para marcar o resgate da memória dos dois patriotas (o capitão do Exército Carlos Lamarca e José Carlos Barreto), que foram assassinados pela ditadura no dia 17 de setembro de 1971, em Pintada, no município de Ipupiara (perto do limite com o município de Brotas de Macaúbas, que é a terra natal de Zequinha).

Este primeiro vídeo (haverá outros) é com Olderico Barreto, que é irmão de Zequinha e foi ferido e preso quando do início da caça ao irmão e Lamarca.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O PAÍS (MÉXICO) ESTÁ PODRE (segunda/última parte)


Javier Sicilia, líder do Movimento Nacional pela Paz com Justiça e Dignidade: "Acredito
 que já é o tempo dos homens que se unem para transformar algo"
(Todas as fotos são reprodução da Internet)


Continuação da postagem anterior: entrevista reproduzida do sítio da Telesur (TV Telesul),conforme publicação de 17/05/2011.

Aissa García – Poeta, diga-nos por que a inquietação em torno da Lei de Segurança Nacional e por que a inquietação quando o senhor chegou ao Zócalo naquele 8 de maio, diante daquela imensa multidão, e pediu a renúncia do secretário da Segurança Pública, Genaro García Luna, o que aliás foi uma proposta bastante aclamada, as pessoas gritavam “fora, fora”. Conte-nos, por favor.

Javier Sicilia - Porque a Lei de Segurança Nacional está concebida como uma lei absolutamente violenta, quer dizer, é quase como caminhar em direção a um Estado policial ou militar e nós não queremos um Estado nem policial, nem militar. Cremos que a segurança pública não significa de maneira alguma mais violência, significa também refazer o tecido da Nação e isto implica educação, emprego, reforçar o campo, isto é, muitos setores que estão devastados no país.


Um dos autores da Lei de Segurança Nacional é o secretário da Segurança Pública e se lhe deu uma quantidade imensa de dinheiro e não temos um melhor país. Temos 40 mil mortos, não vai mudar nada a situação, porque é muito grave, com a renúncia de Genaro García Luna, mas podia ser uma mensagem de boa vontade do presidente para se saber que está disposto a discutir em outros termos, sem deixar de ver a parte que tem a ver com o Exército e a polícia, mas ampliá-la e repensá-la não seguindo nesta lógica da violência do Estado. Num Estado tão podre como o nosso, que só está alimentando a violência dos criminosos e que no centro estamos os cidadãos cada vez mais vitimados, com mais mortos e com mais dor. Neste sentido, estão unidas as duas propostas, mas não é um condicionante.


A muita gente surpreendeu e a mim mesmo me surpreendeu, eu não pensava dizê-lo, alguns membros do movimento não compartilham esta posição de pedir a renúncia do secretário, mas no meu caso e no caso de alguns a surpresa foi porque antes já se estavam ouvindo uns casos de vínculos entre a polícia e o narcotráfico.


No caso de meu filho também há esses elementos (…), mas, como disse, o importante não é a renúncia de Genaro Luna, o importante é o pacto, o importante é ter consciência de que temos que refazer o país.


AG - Falando de refazer o país, desde que o senhor fez essa convocação no Zócalo Capitalino, a convocação ao pacto nacional, surgiram em alguns meios de comunicação algumas críticas ao que o senhor propôs. Alguns deles que são afinados com o governo disseram que sua proposta favorece ao narco porque o senhor só está responsabilizando o governo pela violência que assola o país.

JS - É muita besteira pensar isso e é uma mostra do alzheimer social e do alzheimer jornalístico. Um grande filósofo, Charles Péguy, dizia que não há nada mais velho do que o jornal de ontem. Se esquece que a primeira convocação, a primeira mobilização que aconteceu em Cuernavaca se abriu com “Estamos hasta la madre”, um artigo meu, Carta aberta aos políticos e aos narcotraficantes.


Eu lhes dizia, inclusive na minha primeira coletiva de imprensa, lhes dizia que parassem, que voltassem a seus códigos de honra porque devem haver códigos éticos, nas mesmas máfias os havia e a resposta foi evidente. Agora, se o interlocutor não é o Estado, cuja função é dar a segurança, então simplesmente eliminamos o Estado e fazemos uma autogestão cidadã e vemos como enfrentamos o crime. Então o Estado já não existe, então que já não nos peçam impostos, que não nos peçam eleições, é uma contradição.

Com quem a gente vai conversar, quem é o interlocutor, o Estado ou os narcotraficantes?

Os narcotraficantes já nos responderam, que nos responda o Estado, cuja função é a segurança do país, cujas instituições não estão funcionando, então que nos digam qual é a lógica e como se move num alzheimer social. Estes opinadores, porque não são analistas, que trazem más ideias, parece que falam deles e não de mim.

AG - Falando de responsabilidades se diz que o governo é responsável por esta violência, mas também é uma responsabilidade compartilhada com os Estados Unidos, porque os Estados Unidos não fazem os controles para que as armas que matam aqui os mexicanos não cheguem ao México.

JS – Sim, o problema é grave, os Estados Unidos que buscam seus interesses globais nos impõem unilateralmente posições. É curioso, é o país que mais consume drogas e que além disso tende a legalizar algo muito mais perigoso que as drogas que são as armas, que são contundentes e se expandem, como estamos vendo.


Essas armas chegam ao país e armam os delinquentes e nós temos uma guerra e eles também têm chefes, muitos dos chefes que operam aqui estão lá e eles não têm uma guerra. Eu creio que o grande problema é que precisamente se tem que pensar que a droga não é um problema de segurança nacional, é um problema de saúde pública como o álcool.


Se começamos a olhar assim e metemos os narcotraficantes nas leis férreas do mercado, então vamos amenizar de alguma maneira o problema e se pode começar a atacar a delinquência organizada em seus níveis verdadeiramente criminais, como é o tráfico de pessoas, a prostituição infantil, como são muitas coisas fruto da diversificação do crime organizado, mas a droga deveríamos tirá-la daí.

E os grupos norte-americanos conscientes deveriam também exigir de seu governo que mude sua política frente ao problema das drogas e que mude sua política frente ao México no tema do armamento. Como vão controlar essas armas que entram no México?

De fato nesta caravana que estamos tratando de fazer rumo à Cidade Juárez, estamos pedindo aos mexicanos que tiveram que fugir da Cidade Juárez, mas também às organizações civis norte-americanas, que façam uma caravana também de regresso apoiando-nos, também com demandas ao governo norte-americano. Então creio que é um problema muito complexo, um problema que temos que resolver. É um problema muito complexo, o qual tem que ser pensado a partir de perspectivas mais sadias, mais republicanas, mais civilizadas. Eu falo a partir de realidades espirituais e morais e isto implica que a gente tem que aceitar males menores. A droga é um mal menor e teríamos que aceitá-lo, teríamos que legalizá-lo aceitando que é um fracasso do Estado e da sociedade, que não pudemos construir esse tecido moral que pudesse impedir a droga.

Os zapatistas se solidarizaram com o poeta Javier Sicilia e seu movimento contra a violência
AG – O senhor foi considerado por muitos como o poeta da palavra convocante, há muita indignação no país não só contra a violência, mas também contra os partidos políticos. Seu movimento vai incrementar esta luta contra a violência no país ou vai tomar outros rumos?


JS - Não sei, pois é um movimento cidadão, começam a emergir os atores. Eu sou como uma voz convocante, creio que apesar de que já não vou escrever poesia sigo sendo um poeta. A gente não pode renegar sua natureza e o poeta, já o dizia Hector Mallarmé, grande poeta francês, como a voz da tribo, no plano cidadão seria a voz cidadã.

Sou um convocante porque sou uma voz poética, mal ou bem a poesia convoca à comunhão, faz a comunhão, fala do melhor, do humano em sua forma de ser numa determinada tradição ou num determinado país e eu queria continuar sendo isso, uma voz da tribo, uma voz convocante, eu quero seguir sendo isso, porque não tenho interesses políticos, tenho interesses morais e espirituais.

Nesse sentido convoco o ethos de uma nação que encontrou nesta voz um poeta, a forma na qual se expressa o ethos e a ética e a vida fundamental, espiritual, humana da nação que quer refazer a vida política, uma vida política sem ética é um inferno como o estamos vivendo agora.

AG - Poeta, o poeta não morre, a poesia não morre, porém, o que vai ser este movimento, que não morra, que hoje em dia tem tanta força e tanto apoio popular?

JS - Depende da cidadania, da boa vontade da classe política, depende de que a cidadania entenda que a soberania está nela e não na classe política, que tenha instrumentos para exigir, fiscalizar e punir uma classe política que até o momento somente viveu para reproduzir poder, interesses e não para servir à nação. Mas, eu simplesmente seguirei sendo, até onde possa, até onde as pessoas queiram, uma voz que assinala onde há uma luz, mas todos temos que caminhar rumo a ela. Acredito que já não é o tempo dos homens providenciais, acredito que já é o tempo dos homens que se unem para transformar algo.

Tradução: Jadson Oliveira

terça-feira, 26 de julho de 2011

O PAÍS (MÉXICO) ESTÁ PODRE (primeira parte)


Javier Sicilia (todas as fotos são reprodução da Internet)
Concentração na Cidade do México
(Entrevista reproduzida do sítio da Telesur (TV Telesul), postagem de 17/05/2011)

Mais de 40 mil mortos nos últimos quatro anos, mais de 10 mil desaparecidos e um aumento de 50% dos jovens que consomem droga no México são as cifras apresentadas pela correspondente da Telesur (TV Telesul) no país norte-americano, Aissa García, informação contida na entrevista com o poeta Javier Sicilia, que lidera o Movimento Nacional pela Paz com Justiça e Dignidade.

Javier Sicilia, em entrevista exclusiva à Telesur, fala do surgimento deste movimento, que nasce logo após a morte de seu filho, aborda os seis pontos do Pacto Nacional a ser firmado no próximo 10 de junho e expõe as exigências ao governo encabeçado por Felipe Calderón, sob a visão da necessidade de refundar um país que, argumenta, “está podre”.


Aissa García – Temos a oportunidade de conversar com o poeta Javier Sicilia, que é o principal líder do Movimento Nacional pela Paz com Justiça e Dignidade, convocou uma marcha nacional que percorreu durante vários dias importantes cidades deste país, uma marcha que só no Distrito Federal mobilizou mais de 250 mil pessoas, uma marcha que foi multiplicada em outras cidades dentro e fora do país.


Muito obrigado, poeta Javier Sicilia, por esta entrevista a Telesur.


Gostaríamos de saber o que o levou a criar este movimento que é uma realidade importante hoje em dia, que se converteu no domingo, dia 8/maio (dia da marcha que reuniu 250 mil pessoas na Cidade do México, capital do país), num verdadeiro coro de condenação contra a violência e contra o que está acontecendo neste país. Que leitura pode fazer desta marcha que despertou tanta atenção?

Javier Sicilia – Bem, na realidade eu não fiz este movimento, ele surgiu. Surgiu a partir da morte de meu filho que foi assassinado pelos vínculos podres que há neste país de certos policiais e narcotraficantes.


Quando isto ocorreu eu estava nas Filipinas fazendo apresentações de poesia e tardei cerca de um dia e meio para chegar. Eu dizia que me esperassem porque não queria encontrar-me com as cinzas de meu filho, queria participar do velório, mas... bem, os jovens, os moços, porque gostavam muito de meu filho e também de mim. O crime indignou muitíssimo aos universitários e eles mesmos já haviam protestado, feito manifestação (...), fizeram também maratonas de poesia. Quando eu cheguei já havia dois ou três dias de gestação de uma espécie de mobilização.


Além de ser poeta, eu tive uma participação na vida pública como analista político, também participei de mobilizações e movimentos e um poeta deve se encarnar também na vida cidadã porque fala do coração do homem.


Então simplesmente convoquei a primeira marcha e escrevi um artigo publicado em “Proceso”, minha revista, intitulado: “Estamos hasta la madre” (Na tradução literal seria “Estamos até a mãe”, mas não faz sentido, imagino que seria algo como “Basta, estamos de saco cheio”, mas não sei), Carta aos políticos e aos delinquentes, e aí surge a primeira marcha, a primeira mobilização.


Logo depois com o tempo surge a segunda marcha que termina se articulando num movimento que pretende dizer o que descobrimos a partir da morte de meu filho, o que descobre a sociedade e é que o país está podre.


Se o crime está como está é porque as instituições estão podres e em meio de uma guerra com instituições como estão, e os que estão fornecendo os mortos somos nós.


AG – O senhor disse que o país está em emergência nacional e também tem questionado a política, a forma como o governo enfrenta o crime organizado, que pode ampliar sobre isso?


JS – A guerra que faz o presidente da República é, como tenho insistido, uma guerra mal colocada, mal dirigida, mal conduzida. Sim, havia o problema da criminalidade, mas tínhamos um problema muito antigo que é o empodrecimento das instituições, como tenho falado, que não é responsabilidade de Calderón, isso pertence ao passado.


Eu sempre disse que é a partir da fundação do PRI (Partido Revolucionário Institucional) que se constrói um Estado mafioso, que termina por fraturar-se com a transição democrática que leva a um presidente do partido da direita com um consenso popular enorme e um presidente que não faz as reformas e não saneia o Estado, e sim trata de administrar essas máfias onde o crime começa a florescer. Porque também as relações mafiosas entre o governo e a delinquência começaram a fraturar-se. Chega Felipe Calderón com uma apertada vitória eleitoral e com um sentimento entre uma parte da nação de legitimidade e inventa uma guerra e não se dá conta de que a problemática começava no Estado e a consequência disso é que se viu o empodrecimento do Estado, porque o Estado não está cumprindo sua obrigação fundamental, que é cuidar da cidadania.


Se cria esta guerra e, neste empodrecimento do Estado, o crime floresce e há uma tremenda impunidade. É um problema sumamente greve o que vive a Nação.


AG – Definitivamente um problema muito grave, o senhor acaba de mencionar o presidente Felipe Calderón. O senhor se reuniu com ele depois do que ocorreu lamentavelmente em 25 de março (morte do filho do poeta). Espera voltar a se reunir com ele? Porque o senhor tem falado de um diálogo, mas um diálogo em formato de fórum e no Palácio Nacional.

JS – Sim, o presidente durante a marcha teve várias posições, inclusive ficar contra, e só há uma maneira de combater o crime, como me coloquei, temos a lei e a força. Talvez a lei sim, porém a força não, porque parece que vamos destruindo o país. Depois foi mudando o tom até que terminou num tom de convite a um diálogo e nós o aceitamos, mas o formato que pedimos sempre foi um formato muito claro. Insistimos que já chega de ambiguidades, que tudo seja feito pelo governo como numa democracia participativa, tem que ser cara a cara com a Nação.

A única coisa que pedimos neste formato é que seja público, segundo que estejam as vítimas, não todas, mas uma parte representativa das vítimas, que esteja uma parte representativa dos movimentos e da sociedade civil e que seja no Palácio Nacional, porque a tendência do presidente é fazê-lo sempre em sua casa, em Los Pinos. Nós queremos que seja no Palácio Nacional, porque é absolutamente simbólico e é o lugar onde se encontram os poderes.

Estamos à espera da resposta, se aceitam o formato virão agora definições que farão algumas pessoas do movimento, se reunirão eu creio que para definir este formato e entraremos num novo diálogo, eu já não estou sozinho, já não posso eu somente falar com o presidente, isso já se converteu de uma mobilização em um movimento.

AG – O senhor, no Zócalo Capitalino (monumental praça da capital mexicana), diante de mais de 250 mil pessoas e muitos milhares outros que o escutavam no país, anunciou o Pacto Nacional de seis pontos. Que vai acontecer com este pacto, vai ficar aí e nada mais? Se fala da assinatura na Cidade Juárez em 10 de junho. Falemos um pouco deste tema.

JS - Nesse pacto cremos que se consultaram muitos cidadãos, foram agendas discutidas em grupos sociais, em redes sociais, implica temas que diz respeito à democracia, à segurança, aos meios de comunicação, o patamar que necessitamos para rearticular as instituições e sanear um pouco as instituições.

O problema é muito complexo, mas acreditamos que este patamar mínimo onde a cidadania entre a questionar e fiscalizar e que tenha instrumentos para punir seus políticos possa ser um princípio para rearticular o país e temos que visibilizar as vítimas. As vítimas já começaram a ser visibilizadas, saíram do medo, de seu temor, temos uma dívida com essas vítimas.


Nós temos a intenção de fazer um muro do holocausto, vamos abrir um testamento, colocar nome e sobrenome. Saber que isso está ocorrendo neste país e que o governo tem que ressarcir muitas dessas famílias, porque tem havido uma criminalização, um momento em que as desapareceram como seres humanos para jogá-las no conceito de cifras, e de baixas colaterais e de gente que não merecia viver. Para que não volte a acontecer isto no caso da democracia necessitamos instrumentos para a reforma política, necessitamos instrumentos de cidadania para poder fiscalizar e punir, como o voto em branco, a revogação de mandatos, o plebiscito, que se retire a imunidade, então nessa linha vai um pouco o pacto que para nós é fundamental.


AG – Agora, antes de passar ao tema da Lei de Segurança Nacional, gostaria que nos falasse por que se vai firmar o Pacto Nacional do qual o senhor nos falava justamente na Cidade Juárez em 10 de junho.

JS – Primeiro, porque as instituições estão podres e é um símbolo que as instituições já não podem abrigar. Porque há que refundar o país e, nesse sentido, Cidade Juárez é um emblema do horror e da dor, é o lugar onde houve mais mortos, o lugar mais inseguro provavelmente pelo menos a nível público e porque é um símbolo de que se não corrigimos o rumo, não refundarmos o país, o país corre o risco de converter-se numa Cidade Juárez inteira e é um signo que oxalá se possa ler com muito mais sentido do que significa. Porque o tecido da Nação está esgarçado e Cidade Juárez é a mostra de que esse tecido está esgarçado.


Tradução: Jadson Oliveira

(Amanhã será publicada a segunda/última parte)


domingo, 24 de julho de 2011

PERDIDOS NA SÉ PAULISTANA (Ecos de São Paulo)

Imagens de minha última passagem pela capital paulista, colhidas na Praça da Sé, na primeira semana de junho/2011:
Atrás, a estátua do Apóstolo Paulo e a Catedral da Sé

sexta-feira, 22 de julho de 2011

CENTRAIS SINDICAIS FAZEM PASSEATA (vídeo)

Adilson Araújo (com o microfone), presidente da CTB-Bahia, entre outros líderes sindicais,
no encerramento da manifestação na Praça Castro Alves

De Salvador (Bahia) - Centrais sindicais fizeram na manhã de ontem, quinta, dia 21/julho, uma passeata do Campo Grande à Praça Castro Alves, área central da capital baiana, dentro da campanha nacional de mobilização que vai desembocar na manifestação programada para o dia 3/agosto em São Paulo. Participaram cerca de 400 pessoas. (O vídeo mostra o desfile na Avenida Sete, nas proximidades da Praça da Piedade).


Cinco centrais estavam representadas por suas lideranças e militantes, com faixas, cartazes e bandeiras: Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST). Formam o chamado Fórum das Centrais-Bahia. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior em escala nacional, está fora dessa mobilização, assim como outras de posições mais à esquerda, como a Central Sindical e Popular (CSP/Conlutas) e a Intersindical.


Com a palavra de ordem “Fortalecer a unidade da classe trabalhadora – Menos juros, mais empregos, mais desenvolvimento”, os sindicalistas baianos encerraram a manifestação na Praça Castro Alves, denunciando que estavam sendo impedidos de seguir até a Praça Municipal devido a uma recente medida proibitiva adotada pelo prefeito João Henrique. Várias lideranças discursaram no decorrer do cortejo e na concentração final.


Suas principais reivindicações: redução da jornada de trabalho sem redução do salário, pelo fim do fator previdenciário, regulamentação das terceirizações, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar e piso salarial de R$ 650,00 na Bahia, dentre outras.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

SINDICALISTA AVALIA GREVE DOS SERVIDORES (vídeo)


De Salvador (Bahia) - Jeiel Soares, coordenador geral do Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador (Sindseps), faz um balanço da greve iniciada no dia 7/julho e encerrada ontem, quarta-feira, dia 20/julho, após dois dias de ocupação da Câmara dos Vereadores. Diz que os servidores e seu sindicato saíram fortalecidos. No acordo fechado com a prefeitura, conseguiram 6% de reajuste salarial, retroativo a maio, e a promessa de implantação do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) e de discussão de um plano de assistência média.

O cenário da entrevista foi a passeata realizada hoje, dia 21, por cinco centrais sindicais, na região central da capital baiana (do Campo Grande à Praça Municipal), dentro de campanha de mobilização nacional dos trabalhadores. (Amanhã, neste blog, será postado vídeo da passeata).


quarta-feira, 20 de julho de 2011

POR QUE A POPULAÇÃO NÃO SAI ÀS RUAS CONTRA A CORRUPÇÃO?


(Reproduzido do sítio do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra -, www.mst.org.br , postagem de 19/07/2011)

O jornal O Globo publicou uma reportagem no domingo para questionar por que os brasileiros não saem às ruas para protestar contra a corrupção.

Para fazer a matéria, os repórteres Jaqueline Falcão e Marcus Vinicius Gomes entrevistaram os organizadores das manifestações de defesa dos direitos dos homossexuais e da legalização da maconha. E a Coordenação Nacional do MST.

A repórter Jaqueline Falcão enviou as perguntas por correio eletrônico, que foram respondidas pela integrante da coordenação do MST, Marina dos Santos, e enviadas na quinta-feira em torno das 18h, dentro do prazo.

A repórter até então interessada não entrou mais em contato. A reportagem saiu só no domingo. E as respostas não foram aproveitadas.


Por que será?

Abaixo, leia as respostas da integrante da Coordenação Nacional do MST, Marina dos Santos, que não saíram em O Globo.


Por que o Brasil não sai às ruas contra a corrupção?

Arrisco uma tentativa de responder essa pergunta ampliando e diversificando o questionamento: por que o Brasil não sai às ruas para as questões políticas que definem os rumos do nosso país? O povo não saiu às ruas para protestar contra as privatizações – privataria – e a corrupção existente no governo FHC. Os casos foram numerosos - tanto é que substituiu-se o Procurador Geral da República pela figura do “Engavetador Geral da República”.

Não saiu às ruas quando o governo Lula liberou o plantio de sementes transgênicas, criou facilidades para o comércio de agrotóxicos e deu continuidade a uma política econômica que assegura lucros milionários ao sistema financeiro.

Os que querem que o povo vá às ruas para protestar contra o atual governo federal – ignorando a corrupção que viceja nos ninhos do tucanato - também querem ver o povo nas ruas, praças e campo fazendo política? Estão dispostos a chamar o povo para ir às ruas para exigir Reforma Agrária e Urbana, democratização dos meios de comunicação e a estatização do sistema financeiro?

O povo não é bobo. Não irá às ruas para atender ao chamado de alguns setores das elites porque sabe que a corrupção está entranhada na burguesia brasileira. Basta pedir a apuração e punição dos corruptores do setor privado junto ao estatal para que as vozes que se dizem combater a corrupção diminuam, sensivelmente, em quantidade e intensidade.

Por que não vemos indignação contra a corrupção?

Há indignação sim. Mas essa indignação está, praticamente, restrita à esfera individual, pessoal, de cada brasileiro. O poderio dos aparatos ideológicos do sistema e as políticas governamentais de cooptação, perseguição e repressão aos movimentos sociais, intensificadas nos governos neoliberais, fragilizaram os setores organizados da sociedade que tinham a capacidade de aglutinar e canalizar para as mobilizações populares as insatisfações que residem na esfera individual.

Esse cenário mudará. E povo voltará a fazer política nas ruas e, inclusive, para combater todas as práticas de corrupção, seja de que governo for. Quando isso ocorrer, alguns que querem ver o povo nas ruas agora, assustados, usarão seus azedos blogs para exigir que o povo seja tirado das ruas.

As multidões vão às ruas pela marcha da maconha, MST, Parada Gay... e por que não contra a corrupção?

Porque é preciso ter credibilidade junto ao povo para se fazer um chamamento popular. Ter o monopólio da mídia não é suficiente para determinar a vontade e ação do povo. Se fosse assim, os tucanos não perderiam uma eleição, o presidente Hugo Chávez não conseguiria mobilizar a multidão dos pobres em seu país e o governo Lula não terminaria seus dois mandatos com índices superiores a 80% de aprovação popular.

Os conluios de grupos partidários-políticos com a mídia, marcantes na legislação passada de estados importantes - como o de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul - mostraram-se eficazes para sufocar as denúncias de corrupção naqueles governos. Mas foram ineficazes na tentativa de que o povo não tomasse conhecimento da existência da corrupção. Logo, a credibilidade de ambos, mídia e políticos, ficou abalada.

A sensação é de impunidade?

Sim, há uma sensação de impunidade. Alguns bancos já foram condenados a devolver milhões de reais porque cobraram ilegalmente taxas dos seus usuários. Isso não é uma espécie de roubo? Além da devolução do dinheiro, os responsáveis não deveriam responder criminalmente? Já pensou se a moda pegar: o assaltante é preso já na saída do banco, e tudo resolve com a devolução do dinheiro roubado...

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em recente entrevista à Revista Piauí, disse abertamente: “Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou.(...) Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional.”

Nada sintetiza melhor o sentimento de impunidade que sentem as elites brasileiras. Não temem e sentem um profundo desrespeito pelas instituições públicas. Temem apenas o poder de outro grupo privado com o qual mantêm estreitos vínculos, necessários para manter o controle sobre o futebol brasileiro.

São fatos como estes, dos bancos e do presidente da CBF – por coincidência, um dos bancos condenados a devolver o dinheiro dos usuários também financia a CBF - que acabam naturalizando a impunidade junto à população.

terça-feira, 19 de julho de 2011

PIQUETE DOS SERVIDORES FECHA SEFAZ (vídeo)



Piquete dos grevistas e policiais diante do portão fechado da Secretaria Municipal da Fazenda
Parte dos barrados na entrada da Sefaz ficou assistindo "de camarote" no prédio defronte
Jeiel Soares, dirigente do Sindseps, dando entrevista à equipe da TV Bahia
De Salvador (Bahia) - Um piquete dos servidores da prefeitura de Salvador, em greve desde 7/julho por melhorias salariais, fechou ontem, segunda, dia 18, a Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz), situada na Rua do Tira Chapéu, nas proximidades da Praça Municipal, centro histórico da capital baiana. Os grevistas ficaram na entrada da Sefaz das 8 às 10 horas da manhã, partindo daí para ocupar a Câmara dos Vereadores (veja postagem anterior).

Everaldo Braga, dirigente do Sindseps, faz um cumprimento cavalheiresco a Mainá Souza
Moura, quando ela desiste de entrar na Sefaz
O vídeo acima mostra um momento especial de tensão, quando a servidora Mainá Souza Moura foi impedida de entrar para trabalhar e, após meia hora de discussões, foi convencida a desistir. Registra também a reação quando um oficial da Polícia Militar começou a filmar os piqueteiros com um celular. E ainda a apresentação de um documento com parecer da Procuradoria Geral do Município explicitando o pleno direito dos sindicalistas de terem acesso às repartições da prefeitura, visando a divulgação do movimento grevista.

Maioria dos barrados parece apoiar o movimento grevista

Cerca de 400 servidores municipais se juntaram na porta da Sefaz, parte grevistas que promoviam o piquete e parte funcionários impedidos de terem acesso aos seus locais de trabalho. Entre estes, porém, não parecia haver reprovação à ação dos piqueteiros, afinal as melhorias salariais reivindicadas no bojo do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) e a adoção de “assistência médica já”, uma das bandeiras do movimento, seriam para todos.

Portanto, a maioria dos barrados na porta da Sefaz parecia apoiar o movimento, embora parte deles não queria se comprometer temendo algum tipo de represália ou por mera acomodação. Marlene Cardoso (foto), 35 anos de serviços na Sefaz, por exemplo, não pôde entrar para trabalhar e ficou apreciando a movimentação da sacada do prédio em frente.

- A senhora apoia a greve ou não?

- Assim meio termo. Não sei se a greve é necessária, pode ser que seja. Mas, como exerço função de chefia, não tenho muito a dizer, não posso me expor. As reivindicações não são injustas, mas prefiro ficar neutra.

Já Edson Carlos (foto), que tem 28 anos de prefeitura e trabalha na Fundação Mário Leal Ferreira, apoia e participa da greve. “Nunca vi uma administração tão precária como esta, acho que a culpa não é nem do prefeito, mas do seu secretariado”, comentou, criticando duramente os serviços de coleta de lixo e de transporte coletivo e apontando a ruindade do asfalto e a buraqueira. Disse defender com entusiasmo a necessidade do plano de cargos e do plano de saúde.

Uma servidora que não quis se identificar declarou-se a favor dos grevistas, mas não participa, estava ali só porque não pôde entrar. Aproveitou o breve papo com o repórter para reclamar do não pagamento de diferenças salariais originadas da aplicação da URV, unidade monetária usada na adoção do Plano Real, em 1994; e da prefeitura não depositar o FGTS dos funcionários, conforme denunciou.

Paulo Roberto, também da Sefaz, 29 anos de serviços, despachou o repórter/blogueiro rapidamente:

- Não quero dar opinião.

- Por que?


- Porque sou cristão, sou batista.


Quem estava ali apoiando a paralisação era o engenheiro Sérgio Mascarenhas (foto), da Associação dos Servidores Municipais de Engenharia e Arquitetura (Asmea). Opinou sobre a justeza das reivindicações “para todos os níveis”, destacando que o pessoal de nível superior – é o seu caso – está com os salários defasados. Um engenheiro tem como salário base inicial R$ 904,00, enquanto o piso nacional para esse tipo de profissional é de nove salários mínimos, segundo explicou.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

GREVISTAS DA PREFEITURA OCUPAM A CÂMARA DOS VEREADORES (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Foi hoje, segunda, dia 18, em torno das 10 horas da manhã. Depois de um piquete na porta da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz), iniciado pouco antes das 8 horas, os servidores, em greve desde o dia 7/julho por melhorias salariais, marcharam num passo acelerado para a entrada da Câmara, que fica a menos de uma quadra da Sefaz (Rua do Tira Chapéu/Praça Municipal, centro histórico da capital baiana).


Os poucos policiais que estavam na Câmara foram pegos de surpresa. O comando do movimento anunciou quando saía da Sefaz que ia para o palácio do prefeito, na mesma Praça Municipal, mas a turma pegou o passeio da Câmara e foi entrando e mandando entrar. Os servidores ocuparam a galeria, o plenário e inclusive a mesa dirigente e disseram que só sairão quando a prefeitura negociar suas reivindicações (ver postagens anteriores). Gritavam palavras de ordem como "Trabalhador unido jamais será vendido", "Servidores estão na rua, João (referência ao prefeito João Henrique), a culpa é sua" e "Esta é a casa do povo".

No vídeo aparecem falando dirigentes do sindicato da categoria (Sindseps), como Everaldo Braga, Charlie Adan, Helivaldo Alcântara (Alemão) e Jeiel Soares. Aparece também alguns vezes, inclusive dialogando com dirigentes e lideranças dos grevistas, o major Roque, da Polícia Militar, que é chefe da Assistência Militar da Câmara.

domingo, 17 de julho de 2011

UM PANORAMA COM AS PERSPECTIVAS PARA O CONTINENTE


A vitória de Humala no Peru interrompe uma escalada de sucessivos governos aliados dos Estados Unidos


Por Joaquín Piñero (Reproduzido do sítio do jornal Brasil de Fato, de 15/07/2011)


O cenário político latino-americano apresentou algumas alterações nesse último período com a vitória de Ollanta Humala ao governo do Peru; o retorno do presidente Manuel Zelaya a Honduras e mais recentemente a confirmação de que o presidente venezuelano Hugo Chávez está se tratando de um câncer.


Aparentemente essas notícias não teriam muita importância se as analisarmos de forma desconexa. Mas quando as inserimos em um ambiente onde há intensas disputas políticas permanentes vamos perceber o grau de relação que cada uma tem com a outra e com o todo.


A vitória do nacionalista Ollanta Humala no Peru em 5 de junho de 2011, derrotando no segundo turno Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori que se encontra preso condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos, entre outros crimes, interrompe uma escalada de sucessivos governos aliados dos Estados Unidos.


Também foi um “banho de água fria” na criação da AIP (Área de Integração Profunda) ou Bloco do Pacífico, formado pelo Chile, Colômbia, México e Peru, que são países que têm Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos, exceto a Colômbia que ainda está aguardando a aprovação pelo Congresso estadunidense. Após eleito, o presidente Humala escolheu o Brasil para anunciar que suas prioridades na política externa serão a CAN (Comunidade Andina de Nações) e a UNASUL (União das Nações Sul-americanas), deixando assim a AIP de lado.


O outro episódio importante na conjuntura da região foi o retorno no mês passado do presidente Manuel Zelaya a Honduras após ficar 16 meses no exílio na República Dominicana. Vítima de um golpe de estado, perpetrado com o apoio dos Estados Unidos, esse episódio foi amplamente divulgado aqui no Brasil, pois em sua segunda tentativa de retorno, Zelaya foi abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, além de provocar a expulsão de Honduras da OEA (Organização dos Estados Americanos).


O retorno de Zelaya e o processo de reincorporação de Honduras à OEA se deram a partir da assinatura do Acordo de Reconciliação Nacional. O documento que contou com o apoio e a articulação da Venezuela é composto de 10 eixos, entre eles está a garantia de segurança e os direitos de Zelaya, além de anular o veto a consultas e referendos populares.


O outro fato mais recente, dentro desse cenário que estamos descrevendo, foi a confirmação pelo próprio presidente Chávez que está se tratando de um câncer na região pélvica. Esse anúncio deixou em polvorosa tanto a oposição venezuelana quanto os apoiadores de seu governo. O anúncio de dita enfermidade veio em um momento onde a Venezuela iniciava seus festejos pela comemoração de seu Bicentenário da Independência e se preparava para assumir a secretaria rotativa da recém-criada Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), evento importantíssimo, pois se trata de um espaço de articulação política no continente onde não estão presentes os Estados Unidos nem o Canadá e que sua inauguração foi postergada para data ainda não sabida.


Também pode-se creditar os impactos do pronunciamento de Chávez sobre sua doença, não só para a sociedade venezuelana, mas também para aqueles que acompanham atentamente a conjuntura no continente, ao fato de que haverá eleição presidencial marcada para o ano que vem e que Chávez sempre apareceu como um fortíssimo candidato.


Estimular as mobilizações de massas para garantir as mudanças estruturais


Quando Chávez se elegeu presidente em sua primeira eleição em 1999, deu-se início a um processo em nosso continente onde se elegeram candidatos que traziam consigo um forte discurso anti-neoliberal e que agora comparando com o que tínhamos no passado, os chamamos de “progressistas”. Daí resultaram Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Fernando Lugo no Paraguai, Lula e Dilma no Brasil, José Mujica no Uruguai, entre outros, e mais recentemente Ollanta Humala no Peru.


Ao analisarmos o que foram os governos em nossa região, onde a maioria eram ditaduras e que nos anos 90 se tornaram neoliberais, hoje podemos dizer que estamos vivendo uma situação mais favorável para os processos de transformações.


No entanto, não podemos nos esquecer que há uma disputa permanente entre projetos representados pelas classes e forças sociais atuantes. Há ainda o predomínio de um modelo de capitalismo dependente, o qual não permite o desenvolvimento de modelos de desenvolvimento nacional. Há uma hegemonia do capital financeiro internacional, e que após a crise de 2008 ampliou o processo de exploração e espoliação de nossas riquezas naturais.


Portanto, ainda que vejamos como positivas as vitórias eleitorais e os governos progressistas, essa via sozinha não se sustentará por muito tempo. O nosso papel sempre será o de estimular as mobilizações de massas para garantir as mudanças estruturais que necessitamos.

Joaquín Piñero é integrante do coletivo de relações internacionais do MST.

sábado, 16 de julho de 2011

SERVIDORES DA PREFEITURA DECIDEM MANTER GREVE (dois vídeos)



Everaldo Braga, diretor de Comunicação e Imprensa do Sindseps, discursando durante
assembleia no Ginásio de Esportes dos Bancários 
De Salvador (Bahia) - Os servidores da prefeitura decidiram manter a greve iniciada no dia 7/julho. A assembeia foi no Ginásio de Esportes dos Bancários (Largo dos Aflitos) no final da tarde desta sexta, dia 15, com a presença de umas 400 pessoas. Segundo o informe do comando de greve do sindicato da categoria (Sindseps), que acabava de chegar de uma rodada de negociações com representantes do prefeito João Henrique, não houve qualquer avanço rumo a um acordo.

O centro das reivindicações é a aplicação do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV), elaborado para um universo de quase sete mil servidores (sem incluir o pessoal do Fisco, da Educação e da Saúde). Jeiel Soares, coordenador geral do sindicato, informou que a prefeitura mantém a posição de adotar o PCCV com o custo de R$ 30 milhões por ano na folha de pagamento. Já os grevistas querem melhorias salariais que elevariam o custo para R$ 97 milhões.

O primeiro vídeo registra parte do discurso de Jeiel no final da assembleia, enquanto o segundo pega o momento em que os servidores votam a continuidade da paralisação. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

GREVISTAS DA PREFEITURA FAZEM PASSEATA



De Salvador (Bahia) - Foi nesta quarta-feira, dia 13/julho. Primeiramente os servidores, em greve por melhorias salariais desde 7 de julho, se concentraram na Rótula do Abacaxi, ponto de grande movimentação de gente e carros (área próxima ao Iguatemi). Depois cantaram o Hino Nacional (vídeo acima) e desfilaram até a Sete Portas. Tomaram toda a pista da Avenida Barros Reis (sentido Rótula/Sete Portas), gritaram seus gritos de guerra - como "os servidores estão na rua, João (referência ao prefeito João Henrique), a culpa é sua" - e causaram um tremendo engarrafamento num momento de grande movimento no trânsito, mais ou menos entre 4 e 6 horas da tarde. 

Participaram em torno de 300 pessoas. Os policiais até que tentaram restringir a passeata à metade da pista para dar vazão ao grande fluxo de carros, mas os líderes grevistas resistiram. Não houve violência e/ou repressão por parte da Polícia Militar. Os PMs se limitaram a acompanhar e controlar o trânsito nos cruzamentos. No fim, ganharam aplausos do pessoal em greve.

Não seria uma faca de dois gumes, isso de parar o trânsito e irritar os que transitam de automóvel ou de ônibus?

Algumas das lideranças sindicais acreditam que pode haver esse risco, mas de qualquer forma eles precisam chamar a atenção da população para o seu movimento, que consideram justo. E, quanto ao incômodo causado na circulação urbana, a culpa deve ser atribuída ao prefeito que, segundo eles, não trata seus servidores com o devido respeito.

Durante a concentração, foi decidida a realização de uma assembleia amanhã, sexta-feira, dia 15, às 15:30 horas, no Ginásio de Esportes dos Bancários (Largo dos Aflitos). Pelo menos até lá a greve está mantida, apesar de decisão judicial considerando-a ilegal e abusiva e da ameaça da prefeitura de cortar o ponto dos faltosos.

(Mais informações em matéria postada neste blog na terça, dia 12/julho)

Fotos da concentração e passeata:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

DILMA E O PESO DA HERANÇA DE LULA


Por Eric Nepomuceno, jornalista e escritor brasileiro (Reproduzido do jornal argentino Página/12, de 13/07/2011)


Seis meses, quatro escândalos de bom tamanho, dois ministros expurgados, outros dois trocados dentro do governo para evitar que pelo menos um deles voltasse para casa, dois mais perto da guilhotina, outros dois já com um pé no cadafalso, e uma tensa, muito tensa situação junto à base aliada no Congresso. Este é o balanço inicial do primeiro semestre de Dilma Rousseff (foto) como presidenta do Brasil.


Até agora, ela não pôde exercer na plenitude aquela que se esperava como sua principal característica, a de uma gestora dinâmica e eficaz. Seu conhecido menosprezo pelas traquinagens das jogadas políticas de baixo nível – o tradicional “lhe dou isso para que me deixe governar”– começa a provocar certa irritação em alguns de seus aliados. Já houve um início de rebelião na Câmara dos Deputados, aumentam as vozes de mal-estar pela demora em nomear apaniguados para postos de segundo e terceiro escalão, e alguns partidos aliados, não por acaso aqueles que aparecem em três de cada três escândalos de corrupção, ameaçam claramente impedir que a presidenta nomeie os ministros de sua preferência. O líder de um deles recordou, candidamente, que Lula aguentava as denúncias até não poder mais, e que sempre demitia seus auxiliares envolvidos em escândalos com um gesto de carinho. Dilma, não: tão logo surge uma denúncia com indícios concretos, fulmina o auxiliar. “Não é assim que se joga esse jogo”, diz esse líder aliado, enquanto promete endurecer o discurso.


Agora mesmo, Dilma Rousseff passou o fim de semana procurando um novo ministro dos Transportes, depois que o anterior, Alfredo Nascimento, fora “despejado” do posto devido ao seu pouco respeito à ética. Um dos auxiliares de Nascimento, Luis Antonio Pagot, não teve nenhuma dúvida em advertir que, no caso de que continuem pressionando, abrirá a boca para revelar cada nome envolvido em negociatas. E alardeou que entre os nomes há pesos pesados da cúpula do governo. Ao final, na segunda-feira, Dilma conseguiu nomear o que havia escolhido, apesar da relutância do partido a que pertence o contemplado. Porque essa é outra característica da realidade brasileira: aqui, é o partido aliado quem diz à presidenta quem será o ministro. E Dilma insiste em implantar algo raro: decidir por conta própria com quem governará.


Em meio a toda essa crise, de todo esse mal-estar, e mais além do jogo pesado dos aliados, o que mais pesa é a parte indigesta da herança deixada por Lula.


Na formação de seu governo, Dilma Rousseff pouco pôde escolher a partir de sua determinação pessoal. Não por acaso dois dos fulminados – Antonio Palocci e Alfredo Nascimento – foram indicações pessoais, quase imposições, de Lula. Restam outros legados problemáticos. O bizarro ministro da Defesa, Nelson Jobim, que faz pouco disse que no tempo de Cardoso (de quem foi ministro) não estava obrigado, como agora, a conviver com idiotas, também foi imposição de Lula (de quem também foi ministro). O octogenário ministro do Turismo, Pedro Novais, pego em flagrante ao pedir reembolso de gastos por uma festa realizada num bordel, foi imposição de José Sarney, presidente do Senado e aliado incondicional de Lula. Quer dizer, até agora Dilma não fez mais do que se ver envolvida em escândalos de diferentes calibres, todos eles protagonizados por gente que não escolheu.


Assessores próximos e interlocutores de confiança da presidenta ressaltam que o que existe de verdade é uma mandatária que não consegue encontrar o formato definitivo de sua administração. Dilma Rousseff não pôde escapar das armadilhas de uma coalizão armada ao preço de distribuir cargos, postos, vantagens, para não mencionar as intrigas palacianas estimuladas pelos insatisfeitos de ocasião. Ao mesmo tempo, trata de impor um controle mais rigoroso sobre seus ministros, precisamente porque sabe que rigor ético é artigo que anda em falta no mercado das negociações políticas de Brasília. Com Dilma, e ao contrário do que ocorria com Lula, cada denúncia provoca uma reação quase imediata. É algo que os aliados jamais haviam esperado, daí o mal-estar que campeia no governo.


Tradução: Jadson Oliveira

terça-feira, 12 de julho de 2011

SERVIDORES DA PREFEITURA EM GREVE FAZEM MANIFESTAÇÃO NA SUCOM


Os grevistas dão um abraço simbólico ao prédio onde funciona a Sucom, nas proximidades do Iguatemi
De Salvador (Bahia) – Ontem, segunda-feira, dia 11, os servidores da prefeitura, em greve desde o dia 7 por reajuste salarial, fizeram uma manifestação em frente ao prédio da Sucom (Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo), nas proximidades do Iguatemi (Avenida ACM). Participaram em torno de 150 pessoas. Não houve passeata, como chegou a ser anunciado, e, portanto, não houve confusão relacionada com a interrupção do trânsito de carros, como ocorreu anteriormente: no dia 7, no centro de Salvador, e no dia 8, na área do Iguatemi.


A concentração se restringiu à entrada e frente do edifício e terminou por volta do meio-dia. Os grevistas fizeram alguns pronunciamentos, com a utilização de carro de som, e, no final, se deram as mãos e abraçaram simbolicamente o prédio da Sucom, cantando o Hino Nacional. O “abraço” foi proposto pelo presidente da CTB/Bahia (Central dos Trabalhadores do Brasil), Adilson Araújo. (O sindicato da categoria – Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador/Sindseps – é filiado à CUT, Central Única dos Trabalhadores, mas quem estava presente, inclusive com uma faixa, era a CTB).


Adilson Araújo, presidente da CTB-Bahia
O presidente da Associação dos Guardas Municipais, André Bonfim, fez a proposta de ocupação dos andares do prédio onde funciona a Sucom (18º. e 19º.), mas tal proposta não chegou a ser apreciada pela assembleia realizada no local. Outras decisões da assembleia: recomendar a presença de piquetes nos diversos órgãos para fortalecimento da greve e marcar para amanhã, quarta-feira, dia 13, a partir das 3 horas da tarde, nova manifestação, desta vez na Rótula do Abacaxi.


“O prefeito quer dar seis e tirar meia dúzia”


Segundo informações dos servidores, a prefeitura da capital baiana tem cerca de 22 mil funcionários ativos (sem contar os aposentados). A paralisação abrange em torno de 7 mil, ficando de fora setores que têm condições diferenciadas, com negociação e níveis salariais à parte: o pessoal do Fisco, da Educação e da Saúde.


Jefferson Oliveira, diretor do Sindseps
Jefferson Oliveira, diretor do Sindseps, informou que estão parados órgãos como a Sucom, Sucop, Sesp, Salvamar, Seplag, Tansalvador e Guarda Municipal, mas é respeitado o preceito legal de manter 30% do pessoal nos chamados serviços especiais, como saúde e segurança. Disse que, além de ser uma exigência legal, se trata de respeito à população.


A reivindicação principal dos grevistas é a melhoria salarial através da atualização do Plano de Cargos e Salários, o que resultaria em aumento da ordem de 40% em seus benefícios. Em nota oficial, a prefeitura diz que propõe “criar um novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) para o funcionalismo, desde que o incremento gerado na folha salarial não supere R$ 30 milhões anuais para os cofres do município”. O reajuste salarial chegaria a 17,5%, a partir do próximo ano, para o pessoal beneficiado pelo plano. Conforme entendimento da prefeitura, os servidores querem um reajuste que custaria R$ 90 milhões anuais na folha de pagamento.


Sobre a suposta oferta de 17,5% de reajuste, Jefferson diz simplesmente que o prefeito João Henrique “não deu nada”, as argumentações contidas na nota seriam apenas “jogada de marketing”. “Se o prefeito oferecesse mesmo 17,5% nós não estaríamos fazendo greve”, comentou, acrescentando: “O prefeito quer dar seis e tirar meia dúzia”. Disse que o salário base do servidor é R$ 510,00, menor que o salário mínimo oficial (R$ 545,00).


Ex-vereador José Carlos Fernandes, servidor de carreira da prefeitura
Terceirizados e contratados pelo Reda complicam a mobilização


O movimento dos servidores municipais tem um sério complicador. Grande parte do pessoal da prefeitura é formada de terceirizados e contratados através do Reda (Regime Especial de Direito Administrativo), uma situação que dificulta a atuação da categoria, além de se prestar ao jogo de favorecimentos políticos e financeiros. O ex-vereador José Carlos Fernandes (presidente do Diretório Municipal do PSDB), antigo servidor de carreira da prefeitura e ativo participante da greve, aponta como uma distorção grave o fato de atividades como fiscalização e concessão de licença para construção, por exemplo, a cargo da Sucom, serem terceirizadas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

PORQUE NÃO ACEITEI O PRÊMIO DO PNBE

(Reproduzido do Blog da Amanda, de 04/07/2011. A professora Amanda Gurgel é militante na área de educação e tornou-se muito conhecida depois que fez um discurso na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Suas críticas foram divulgadas nacionalmente em vídeo através do YouTube e fizeram um sucesso excepcional. Consta que foi visto por um milhão de pessoas).

“Oi,
Nesta segunda, o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio "Brasileiros de Valor 2011". O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio.
Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.
Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem "amigas da escola".

“Natal, 2 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald's, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.

A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores, sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,

Professora Amanda Gurgel”.

domingo, 10 de julho de 2011

A UNIVERSIDADE E AS LEIS PARA A COMUNICAÇÃO

Por Laurindo Lalo Leal Filho (Reproduzido de Carta Maior, de 29/06/2011)


Passou desapercebido por aqui. Não fosse a menção feita pelo jornalista Eric Nepomuceno, na revista Carta Capital, poucos ficariam sabendo que a Ley de Médios argentina está sendo implantada, apesar da oposição feroz dos grandes grupos de comunicação locais.

No noite de 21 de junho, a presidenta Cristina Kirchner apareceu em rede nacional de televisão para fazer um anúncio capaz de tirar o sono dos controladores monopolistas da radiodifusão. O governo abria, naquela data, uma licitação para a concessão de 220 novas licenças de serviço de audiovisual no país.

Como determina a lei metade dessas concessões será destinada a emissoras privadas e a outra metade dividida entre os governos estaduais, o federal e as organizações sem fins lucrativos. Fórmula encontrada para romper com oligopólio existente hoje na comunicação argentina.

Claro que a mídia comercial brasileira esconde esses avanços e quando fala da Ley de Médios argentina é para atacá-la, chegando habitualmente a tachá-la de censura, quando trata-se exatamente do oposto. Seu papel é o de permitir o acesso aos meios de comunicação de um número muito maior de atores sociais, hoje sem voz.

Mas aos que se opõem à lei interessa a omissão e a desinformação. Para isso usam uma estratégia eficiente: apropriam-se de um símbolo facilmente compreensível, como é a censura, e com ele carimbam a lei, interditando o debate de forma liminar.

A legislação argentina mereceria no Brasil estudos e debates mais sérios e aprofundados. As criticas feitas por aqui são superficiais, ecoando apenas o temor dos controladores da mídia nativa com o possível contágio da experiência vizinha.

Não é levado em conta o formidável trabalho de pesquisa realizado para se chegar ao texto final. Seus 166 artigos não caíram do céu. São resultado de um levantamento minucioso daquilo que existe de mais avançado no mundo, em termos de legislação para área das comunicações.

Dos meios comerciais não se pode esperar nada, além das críticas habituais. Os meios públicos pouco se dedicam ao tema e a internet o trata de forma esporádica. Mesmo as redes sociais, com conteúdos mais críticos, não têm como aprofundar a discussão e acabam, em determinados momentos, dialogando com os grandes meios nos mesmos níveis por eles impostos.

Resta como alternativa a Universidade, teoricamente menos sujeita às imposições externas. Mas parece que, no geral, ela não despertou ou não se interessou pelo assunto. Falo, obviamente, dos setores universitários ainda não cooptados pela grande mídia, propiciadora de cursos e eventos destinados ao conformismo e a alienação.

Fico a pensar na riqueza de um debate não só da Ley de Médios argentina, mas das experiências de democratização das comunicações que vêm sendo articuladas na Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai, por exemplo.

Ao invés de infindáveis e insossas discussões sobre “teorias da recepção”, tão ao gosto dos acadêmicos alinhados com “status quo” da comunicação, teríamos o pulsar da vida real das nossas sociedades.

A Universidade – pública ou privada – repousa sobre um tripé formado pelo ensino, a pesquisa e a extensão. Um tema como o aqui proposto atenderia com desenvoltura esses três objetivos.

Colocaria o aluno em contato com a disputa que se trava no continente em torno do papel social da comunicação, deixando mais claro o cenário onde se dará, no futuro, sua atuação profissional.

Propiciaria uma ampliação no campo das pesquisas, necessitadas cada vez mais de interdisciplinaridade. O estudo da comunicação só ganha concretude quando dialoga com o Direito e as Ciências Sociais em geral.

E finalmente, a extensão se daria com a formulação de projetos e propostas capazes de contribuir para o debate político que se trava na sociedade em torno das novas leis para a comunicação.

A fundamentação existente na Ley dos Médios argentinos tem grande contribuição acadêmica e poderia servir como referência para a Universidade brasileira.

A íntegra da Lei de Meios da Argentina está disponível neste endereço:  http://www.infoleg.gov.ar/infolegInternet/anexos/155000-159999/158649/norma.htm

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.