segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

MOBILIZAÇÃO E MÍDIA: COMO AVANÇAR SEM CORRER RISCOS?


De Salvador (Bahia) – Conta-se que numa discussão entre Hugo Chávez e Lula (foto) – o presidente da Venezuela bem impetuoso e o então presidente do Brasil bem conciliador -, Chávez teria dito: “Teu problema, Lula, é que o império norte-americano nunca vai tentar te derrubar”. A historinha pode não ser verdadeira, mas não deixa de ser significativa.


A verdade é que a política liderada pelo governo de Lula e no essencial continuada pelo governo de Dilma Rousseff, no que pese ganhos expressivos do ponto de vista progressista – em especial a melhoria de renda de parcelas pobres da população e avanços na integração da América Latina -, não toca nem de leve nos interesses das grandes corporações empresariais nacionais e estrangeiras, especialmente as financeiras, ou seja, não toca (nem uma tênue ameaça) nas estruturas de poder: os bancos continuam mandando e lucrando cada vez mais; o latifúndio, travestido no glamoroso agronegócio exportador, também; as mineradoras continuam arrancando as riquezas do subsolo e mandando pra fora.


(Por falar em estruturas de poder, os militares continuam firmes, fortes e intocáveis, é bastante observar os passos de cágado no processo de apuração dos crimes de lesa humanidade da ditadura, mesmo com a recente aprovação da Comissão Nacional da Verdade, mas isso seria tema de outro artigo).


Quase metade do Orçamento da União vai para os bolsos dos banqueiros/especuladores: esta é que é a corrupção fundamental


Pra resumir: o poder econômico predatório manipula a política e os políticos, na rabeira vem a desgraceira: os ricos continuam ganhando muito mais do que os pobres e as injustiças sociais e desigualdades perduram, um quadro que dói naqueles que têm sensibilidade para sentir. Para evitar muito falatório, basta lembrar o que chamei aqui numa postagem recente de “corrupção fundamental”: quase a metade (47,19%) do Orçamento da União será destinada, neste ano, ao pagamento de juros e amortização da dívida pública. Isto é, de quase R$ 2,3 trilhões, pouco mais de R$ 1 trilhão desembarcarão nas contas dos banqueiros, os verdadeiros piratas da globalização.


Mas tais coisas são escondidas do povo. A velha mídia – a verdadeira direita institucionalizada, sócia das corporações empresariais, também encastelada nas estruturas de poder – censura tais informações.


Era aí que, após muito bla-bla-bla, eu queria chegar: através de que meios os trabalhadores e a juventude vão se informar, vão formar suas opiniões? Os jornalões, as revistas semanais (exceção para a Carta Capital), e principalmente as tevês e as rádios, que se locupletam explorando escandalosamente as concessões públicas, estão ocupados martelando as roubalheiras dos políticos (“Tudo eu!? Tudo eu!?”, diria um deles), as últimas estrepolias das celebridades, as últimas façanhas sexuais do Big Brother da Globo, as últimas sensações do mundo do crime, as intrigas amorosas das novelas, os filmes e seriados emburrecedores de Hollywood e atentados mil contra os valores culturais nacionais, contra as mulheres, contra os negros, contra os pobres, contra os homossexuais.


E junto, claro, a criminalização dos movimentos sociais e o doutrinamento político-ideológico de caráter neoliberal (ainda, apesar da anunciada decadência), reforçado pela brutal carga publicitária, que manda a gente comprar, comprar, comprar sempre para ser feliz, manda as crianças comerem porcarias, manda os jovens moldarem os belos corpos delgados (“vamos todos morrer jovens e saudáveis”, como ironizou nosso Frei Beto), mesmo bebendo muita cerveja (desculpe, com moderação, ah sim!)


Que imprensa vai cobrir as barbaridades da Polícia Militar do governador tucano de São Paulo?


Quem faz o contra-ponto a esse tsunami fabricado no dia-a-dia da velha mídia? Quem vai cobrir as barbaridades da Polícia Militar do governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin (foto), contra os estudantes da USP, contra os viciados do crack, contra as famílias do Pinheirinho? Vamos ver: uma ou outra matéria (um ou outro artigo) infiltrada na mesma velha mídia, uma ou outra revista mensal, como a Caros Amigos, os blogueiros progressistas (cuja influência vem dando mostra de crescimento), parte da imprensa sindical, parte da programação das tevês e rádios públicas/estatais. E o que mais? As manifestações dos movimentos sociais (o movimento dos “indignados” parece ainda bem fraco no Brasil), e as ações dos partidos de esquerda e de centro-esquerda e também de alguns parlamentares e lideranças mais comprometidos com a causa popular.


Convenhamos: é pouca munição diante dos poderosos fazedores de cabeças e mentes da direita. Cadê um jornal diário, a exemplo do Página/12 argentino, ou do La Jornada mexicano, ou do estatal Cambio boliviano, ou mesmo, para ficar na história brasileira, do Última Hora de Samuel Wainer, estrangulado pela ditadura? Cadê uma tevê pública/estatal menos tímida que a nossa TV Brasil, como há em países como Argentina, Venezuela e Bolívia? Cadê, muito especialmente, as tevês e rádios comunitárias, as quais, longe de serem apoiadas pelo governo Lula/Dilma, foram e são perseguidas pelo governo Lula/Dilma?


(Só para ilustrar: no golpe de Estado de 11 de abril de 2002, Hugo Chávez somente logrou retomar a presidência dois dias depois, nos braços do povo venezuelano/bolivariano, porque a resistência e a mobilização popular foram detonadas a partir da atuação das rádios e tevês comunitárias. Isto é História, com a qual as esquerdas e o movimento popular precisam aprender. Lá o governo mantém um programa de apoio aos meios comunitários. Já escrevi sobre isso aqui neste meu blog: quem quiser ler, é só clicar).


E cadê a regulação da mídia, sobretudo o controle das concessões públicas, assunto em face do qual os governantes brasileiros amarelam, vergonhosamente, chantageados pela meia dúzia das famílias donas dos monopólios da comunicação no Brasil com o epíteto mentiroso de censura à imprensa. Vamos ver em que vai dar o seminário sobre o assunto feito pela direção do PT, fruto de moção aprovada no último congresso do partido.


Por que uma liderança popular da estatura do Lula convive com a perseguição às tevês e rádios comunitárias?


Recentemente Luíza Erundina (foto), deputada federal do PSB-SP que tem sido uma voz destacada nesta área no Congresso Nacional (nosso baiano Emiliano José, deputado federal do PT, também tem travado o bom combate sobre o tema – ele é do ramo, é jornalista), comentou que considera prioritária a luta pela democratização dos meios de comunicação, porque tal democratização facilitaria a luta por outras reformas tão necessárias para botar o Estado brasileiro nos trilhos de uma democracia popular.


Mas Erundina, como se diz, está careca de reconhecer que essa virada de jogo só será possível com a mobilização dos trabalhadores e da juventude: no jargão da esquerda classificada como radical, só com o povo nas ruas. Sem isso, não há salvação, sem isso, a penitência rompeu os 500 anos e vai seguir, mesmo com algumas melhorias pontuais e simbólicas.


E vão aí as perguntas cruciais: será que uma liderança popular do porte do nosso Lula não percebe essa verdade tão essencial? Por que uma liderança como Lula convive com a perseguição às tevês e rádios comunitárias? Por que uma liderança como Lula convive com a desmobilização popular e o povo só é chamado na hora de votar? Será que, na sua reconhecida sagacidade política, ele sabe que as esquerdas e as forças populares são ainda débeis e ineficientes para enfrentar os capitalistas da sexta potência econômica do mundo? Então, ao invés do povo nas ruas – uma alternativa talvez temerária -, o caminho é mesmo o da conciliação, uma opção consciente e inteligente para garantir a famigerada governabilidade? Avançar sem correr riscos, sem confrontar os ricos, sem desagradar o império?

sábado, 28 de janeiro de 2012

O PASSADO QUE A ARGENTINA ENFRENTA COM A CORAGEM QUE O BRASIL NÃO TEM (“Juro pela pátria, por minha mãe e pelos 30 mil desaparecidos”)


Por Luiz Cláudio Cunha – Especial para Sul 21 (Reproduzido de Luis Nassif Online, com o título principal “Como a Argentina enfrenta o passado, por Luiz Cláudio Cunha”, postagem de 24/01/2012 – Por Marco Antonio L. – Do Sul 21)


A frase inesperada congelou a plateia colorida de azul, branco e marrom cáqui que lotava na segunda-feira, 12 de dezembro, o Salão San Martín, o espaço nobre do Edifício Libertador, sede do comando do Exército em Buenos Aires. Perfilados diante do ministro da Defesa, Arturo Puricelli, os brigadeiros, almirantes e generais do Alto Comando das Forças Armadas argentinas ouviram, crispados, a sentença súbita e cortante da autoridade que subvertia o rígido protocolo castrense:
Forti: "Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos"
¡ Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos! — improvisou o advogado e diplomata Alfredo Waldo Forti, 51 anos, ao prestar o juramento de praxe para renovar seu mandato como Secretário de Assuntos Internacionais da Defesa. Nenhum militar aplaudiu, mas nenhum protestou. Todos respeitaram a frase atrevida de Forti, que dava ali o seu corajoso testemunho pessoal diante da corporação fardada que legou à Argentina, no período da chamada ‘guerra suja’ de 1976 a 1983, o desonroso título de ditadura mais sangrenta entre os regimes militares que sufocaram a democracia no Cone Sul do continente, na segunda metade do Século 20.
Nélida Azucena Sosa de Forti: presa no avião quando saía
do país com os 6 filhos
Forti e sua mãe são símbolos dessa violência — ele como sobrevivente, ela como um nome a mais na multidão de desaparecidos políticos no período da repressão militar. A bela morena Nélida Azucena Sosa de Forti, ex-integrante dos Montoneros, o movimento guerrilheiro da esquerda peronista, tinha acabado de embarcar no voo 284 da Aerolíneas Argentinas que sairia do aeroporto de Ezeiza rumo a Caracas, na manhã de 18 de fevereiro de 1977.


Fugindo do clima político cada vez mais fechado do país, desde o golpe militar desfechado um ano antes, Azucena levava consigo os seis filhos, de 6 a 16 anos, incluindo Alfredo, o mais velho. Já com os cintos afivelados para a decolagem, tiveram que desembarcar, chamados de repente para resolver ‘problemas de documentação’. A mãe e as crianças foram recebidas por agentes armados da polícia de Buenos Aires, subordinada ao Primeiro Corpo de Exército. Com os olhos vendados, foram colocadas em dois carros e levadas para o Pozo de Quilmes, um quartel da Brigada de Investigações da polícia localizado numa cidade da região metropolitana, ao sul da capital.


Faca no voo

Forti para Bussi: "Não tenho problema nenhum em cravar a faca
cinco vezes em você. Mas a formação que recebi de minha mãe
 me diz que esta não seria a maneira certa"
Uma semana depois, as crianças reapareceram, vendadas com lençol e amarradas na árvore de uma praça no Parque Patrícios. Azucena ainda foi vista por um prisioneiro de Quilmes na primeira semana de março, até ser transferida para a chefatura de polícia de San Miguel de Tucumán, sua cidade de origem, 1.300 km a noroeste de Buenos Aires. A ordem de prisão e transferência para Tucumán partiu do general Antonio Domingo Bussi, que comandava a repressão mais feroz à guerrilha rural mais ativa do país na menor província da Argentina.

Azucena foi vista com vida, pela última vez, no centro clandestino de detenção conhecido como Arsenales, na saída norte da cidade, onde funcionava a Companhia de Arsenais Miguel de Azcuénaga, da V Brigada de Infantaria. Era um típico campo de concentração, cercado por duas cercas de alambrado separadas por uma faixa de terra vigiada por soldados e cães e altas torres de sentinelas.


Alfredo Forti e seus cinco irmãos nunca mais tiveram notícias de Azucena. No final da década de 1990, advogado com banca em Washington e consagrado assessor político dos governos do Peru, Equador e Guatemala, ele descobriu que dividia casualmente o mesmo voo da Aerolíneas com o algoz de sua mãe, Bussi, então um septuagenário general reformado. Naqueles tempos, a refeição era servida com talheres de metal, não de plástico. Em pleno voo, Forti deixou sua poltrona e foi até onde se sentava o general. Sem se apresentar, inclinou-se sobre ele, entreabriu o paletó e lhe disse:


— Estás vendo esta faca? Não tenho problema nenhum em cravá-la cinco vezes em você. Mas a formação que recebi de minha mãe me diz que esta não seria a maneira certa de resolver as coisas. Eu quero te ver apodrecer no cárcere! — amaldiçoou Forti, deixando para trás, tremendo, o homem que fazia a Argentina estremecer na década de 1970.


Caso americano


O nome de Bussi fazia abalar o prestígio da Argentina até nos Estados Unidos, no auge da ditadura. O National Security Archive da Universidade George Washington revelou, em 2002, o conteúdo de 4.600 documentos secretos do Departamento de Estado que abordavam violações de direitos humanos no país. O telegrama 04997 que a Embaixada em Buenos Aires enviou a Washington, no dia 29 de junho de 1978, relacionava os nomes de 103 pessoas das quais o governo norte-americano exigia informações. Um dos “casos de direitos humanos de interesse para os Estados Unidos” era o nº 71-77-5, de Nélida Azucena Sosa de Forti, com o status de “desaparecida”.

Azucena e milhares de compatriotas começam a desaparecer quando emerge, no mapa argentino, a sinistra figura do CCD. É a sigla dos Centros Clandestinos de Detenção, instalações secretas das Forças Armadas para executar o mesmo plano que Adolf Hitler, em 1941, batizou poeticamente de Nacht und Nebel (Noite e Névoa): um projeto de Estado para o desaparecimento de opositores ao regime. Os generais argentinos, como seus confrades nazistas, programaram a eliminação física dos dissidentes numa operação que começava com os sequestros, geralmente sob o manto da noite, e depois se completava pela névoa do desaparecimento sem pistas, sem rastros.


Havia método na loucura, como bradava Hamlet. Os CCD, apesar das diferenças, tinham uma estrutura básica e eficiente: uma ou duas salas de tortura, espaço amplo e indecente para receber os presos e alojamento decente para abrigar os guardas e torturadores. Todos tinham serviço médico e, em alguns casos, até um capelão para atender a consciência pesada dos mantenedores da ordem.


Inspiração brasileira


Começaram em meados da década de 1970 como pequenas casas ou porões clandestinos e, à medida que endurecia o regime, cresciam os CCD, espalhados pelos maiores quartéis do país, todos engolfados no turbilhão da tortura. Em 1976, ano do golpe de 24 de março, 610 CCD assombravam o país. Havia 68 deles só na província de Buenos Aires, 13 apenas na capital — incluindo os temidos CCD da ESMA, a temida Escola de Mecânica da Armada, e do Campo de Mayo, o maior quartel do país.
Bussi: uma das mais terríveis faces da repressão argentina
A província de Tucumán, onde reinaria o general Bussi, tinha 16 CCD, a metade deles apenas na capital, San Miguel, terra onde nasceu a cantora Mercedes Sosa e onde desapareceu Azucena. Era um número espantosamente grande de terror disseminado por um único país. Os CCD excediam, em número, aos DOI-CODI da ditadura no Brasil (1964-1985), um país três vezes mais extenso, quase cinco vezes mais populoso e assolado por um regime de arbítrio três vezes mais longevo do que a da ditadura na Argentina (1976-1983).


A receita brasileira surgiu bem antes, em 1969, com a modelar OBAN, a Operação Bandeirante do II Exército, em São Paulo, que inovou unindo inteligência e violência das Forças Armadas, da Polícia Militar e dos policiais mais truculentos das delegacias da capital, onde despontou a liderança do delegado Sérgio Fleury, que se tornaria o símbolo internacional da repressão brasileira como estrela maior do DOPS.


Um ano depois, a fórmula de sucesso foi definitivamente militarizada, sob o comando do Exército, com a criação dos Destacamentos de Operações de Informações, os DOI do serviço sujo, que saíam às ruas para combater, sequestrar e torturar os militantes da guerrilha urbana. Eram coordenados pelos Centros de Operações de Defesa Interna, os CODI. Nascia a marca mais letal do regime brasileiro: os DOI-CODI, parceria macabra que se estendia pelos dez mais importantes comandos militares do país, nas grandes capitais.


Essa dezena de repartições públicas do terror, na estimativa do historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de Como eles agiam — os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política (ed. Record, 2001), abrigava cerca de 1.000 pessoas diretamente envolvidas com a repressão e a tortura — a quinta parte do efetivo do SNI, 5.000 arapongas, no auge do Governo Figueiredo. Antecipando os CCD argentinos, os militares brasileiros ainda montaram sete centros clandestinos de tortura em cinco Estados diferentes.

Hilton e Sheraton
Doi-Codi Hilton e CCD Sheraton, maus locais de
hospedagem
Um sítio em Sergipe, um apartamento em Goiânia, uma casa no Recife, três locais em São Paulo (uma casa na avenida 23 de Maio, um sítio em Atibaia e uma chácara em Parelheiros, na zona rural paulistana) e a ‘Casa da Morte’, uma residência de aspecto acolhedor, com varanda e lareira na sala, numa rua tranquila de Petrópolis, na serra fluminense. O lugar, como um superlativo dos horrores comandados pelo CODI, ganhou um cifrado apelido dos militares que o frequentavam: “Codão”.


Os DOI-CODI mais importantes estavam nas duas maiores cidades brasileiras. O do Rio de Janeiro, instalado no quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, registrou 735 denúncias de torturas, segundo o projeto Brasil Nunca Mais. Num espaço de 21 meses, entre julho de 1972 e março de 1974, quando o I Exército era comandado pelo general linha-dura Sylvio Frota, morreram ali 29 presos. O maior e mais notório DOI-CODI do país era o de São Paulo, com 250 homens da PM e da polícia civil, integrado ainda por 10 oficiais do Exército, 25 sargentos e cinco cabos sob o comando de seu fundador, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.


Ele redesenhou o 36º Distrito Policial, uma decadente delegacia a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, para instalar ali o DOI-CODI que se tornou o símbolo mais sangrento do regime: passaram por lá 2.541 ‘subversivos’ e 51 ‘terroristas’ morreram trocando bala com sua equipe barra-pesada, na heroica versão do próprio Ustra. Nos 40 meses em que o major reinou ali, entre 1970 e 1974, houve 502 denúncias de tortura (uma a cada 60 horas) e 40 mortos (um por mês) nos interrogatórios, segundo levantamento da Arquidiocese de São Paulo.


O centro de torturas de Ustra ficava na esquina da rua Tutóia com Tomás Carvalhal. Quando um preso era levado para lá, os agentes do DOI-CODI brincavam com a fama do lugar: "Agora você vai conhecer o Tutóia Hilton", diziam. O que era Hilton, no Brasil, era conhecido como Sheraton na Argentina. O CCD Sheraton funcionava na subcomissária de polícia de Villa Insuperable, em La Matanza, o mais populoso dos municípios da região metropolitana de Buenos Aires, onde vivem 13 milhões de pessoas, a maior aglomeração do continente, abaixo só de São Paulo.
Martinez de Hoz, com um CCD (Centro Clandestino de
Detenção) em sua empresa
Era um prédio de dois andares, com a garagem e as celas no térreo e a sala de tortura no andar superior, situado a quatro quadras da avenida General Paz, uma movimentada via de 24 km de extensão que margeia a capital ao norte e a oeste. Um CCD chegou a funcionar em 1975 na maior siderúrgica do país, a Acindar, presidida por José Alfredo Martinez de Hoz, a versão portenha de Delfim Netto, o poderoso ministro da Economia ao longo dos cinco anos do brutal governo do general Jorge Videla.


A patota dos Falcon


Talvez para amenizar a sombra que pairava sobre os CCD, os generais da névoa argentina lhes outorgavam codinomes ou apelidos singelos, quase inocentes, que camuflavam sua lúgubre destinação: El Campito, La Perla, Los Plátanos, El Banco, El Chalecito, La Casita de Los Mártires, El Olimpo, El Motel, La Escuelita para Mudos. Como os DOI brasileiros, os CCD argentinos contavam com seus grupos de busca e apreensão, os GT (ou grupos de tarefas), conhecidos como patotas.
Milhares de retratos em branco e preto que jamais foram
 atualizados (Foto-montagem de Emmanuel Frezzotti/Flickr)
A eles cabiam a captura dos subversivos, circulando pelas ruas das cidades nos temidos sedã Ford Falcon azul ou verde, quatro portas, que formavam a frota da repressão. Os presos eram detidos, encapuzados, algemados e levados ao CCD para a tortura, praticada pela mesma patota, durante um ou dois meses. Após este período, os detidos simplesmente desapareciam, sumiam.


Como toda ditadura, a argentina recriava o idioma para ocultar sua maldade. Ninguém era preso, apenas chupado, eufemismo militar para quem era preso. Entre os repressores, os CCD eram conhecidos como chupaderos. Da mesma forma, ninguém morria. Os detidos que eram desaparecidos passavam apenas por um translado. Não importava a forma final utilizada, fosse fuzilamento em massa, fossa comum, incineração de cadáver ou uma tumba com a lápide NN (no nombrado), todos eram apenas transladados.
Pichação num muro de Buenos Aires (Que os 30.000
desaparecidos não fiquem no esquecimento)
Quem tivesse o azar de ser sugado por um chupadero dos CCD dificilmente escaparia do translado. No CCD El Olimpo, num bairro do lado oeste, a 100 metros da agitada avenida Rivadavia que atravessa Buenos Aires, foram chupados cerca de 700 homens e mulheres. Menos de 50 saíram vivos dali. Na ESMA, a escola de morte da Marinha na capital argentina, passaram mais de 5.000 presos, dos quais sobreviveram pouco mais de cem. O CCD El Campito foi instalado no coração do maior quartel argentino, o Campo de Mayo, a 30 km do centro de Buenos Aires. Ali sobreviveram apenas 43 dos 5.000 detidos chupados pela repressão. Ele tinha um requinte a mais: o hospital militar utilizado para os partos clandestinos nas prisioneiras. Após o nascimento, o bebê era chupado para famílias dos militares e a mãe, usualmente, era submetida ao translado inapelável. Cerca de 500 bebês, sequestrados de pais desaparecidos, fazem parte desta tétrica estatística argentina.
"Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros",
ordenou Isabelita
O primeiro CCD do país surgiu, por ironia, na terra natal da transladada Azucena. Em 1975, ainda antes do golpe de Videla, o Exército aproveitou o prédio inacabado de uma escolinha na saída oeste da cidade de Famaillá, a 40 km da capital de Tucumán, San Miguel, para instalar o seu primeiro centro clandestino, que passou à história como La Escuelita. Das oito salas de aula, sete viraram celas e a última, o local de tortura. A menor província do país estava agitada, como foco guerrilheiro escolhido pelo grupo trotskista ‘Exército Revolucionário do Povo’ (ERP) para confrontar o regime da presidente Isabelita Perón, aproveitando a geografia montanhosa da região aos pés dos Andes.

A sanha de Isabelita


O governo lançou a ‘Operação Independência’, para reprimir a guerrilha do ERP, sob a chefia do general Acdel Edgardo Vilas, comandante da V Brigada de Infantaria de Montanha, baseada em Tucumán. Linha duríssima, ele confiava mais na bala do que na lei: “É mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que condenar um subversivo num tribunal”, avisava Vilas. Pela agulha do CCD de Famaillá passaram, nas contas do general, 1.507 pessoas, mas cálculos mais realistas falam em mais de 2.000 pessoas.


La Escuelita já operava com força quando a presidente da República visitou o Comando Tático de Famaillá, a cinco quadras dali, para insuflar a sanha assassina dos militares: “Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros”, ordenou Isabelita, com ímpeto chupadero, meses antes dela mesmo ser transladada do poder pelos companheiros de armas de Vilas.
Bussi logo encontrou o que fazer
Uma investigação posterior de parlamentares apurou que, sob o comando do general, Tucumán assistiu a 123 sequestros de opositores — dos quais 14 foram assassinados e 77 simplesmente desapareceram, transladados. Quando o general Antonio Domingo Bussi chegou para assumir o comando, no final de 1975, lamentou-se com seu antecessor: “Vilas, você não me deixou nada por fazer!…”.


Modéstia de Bussi. Entre 1976 e 77, o general fez três vezes mais do que Vilas: aconteceram 371 desaparecimentos na província — 194 deles supostos militantes Montoneros ou meros simpatizantes. Numa comissão de investigação parlamentar, Osvaldo Humberto Pérez — que foi chupado pelo CCD Arsenales e, ao contrário de Azucena, sobreviveu — contou que ali, no espaço de um ano, foram fuziladas entre 800 e 1.000 pessoas. Em abril de 1976, o lugar ganhou o reforço de 40 soldados enviados desde Campo de Mayo.


Um deles, Omar Eduardo Torres, depondo na década de 1980 perante a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), presidida pelo escritor Ernesto Sábato, contou como era a vida (e a morte) no CCD Arsenales, subordinado diretamente ao general Bussi.


— Uma vez vi como um preso desnudo era enterrado vivo, só com a cabeça fora do buraco, com a terra em volta molhada para ser compactada com os pés. O preso ficava lá 48 horas. O buraco provocava cãibras dolorosas e infecções na pele. Por duas vezes presenciei fuzilamentos ali, e quem efetuava o primeiro disparo era o general Antonio Bussi. Depois ele fazia com que todos os oficiais de maior hierarquia atirassem também. O local das execuções estava localizado a uns 300, 400 metros da Companhia de Arsenais, montanha acima. Estendiam um cordão de segurança a uma distância de 20 metros e outro a uns 100 metros do local. Os disparos eram feitos com pistolas calibre 9 mm ou 11.25 mm, sempre entre as 23h e 23h30. A cada 15 dias se assassinavam entre 15 a 20 pessoas — relatou o soldado Torres.


A coisa certa


O ex-soldado Domingo Jerez garantiu ao juiz Carlos Jiménez Montilla, em fevereiro de 2010, que testemunhou o general Bussi matar a bordoadas a dois homens em um campo de concentração em Timbó Viejo, localidade ao norte de San Miguel, na rodovia 305. “Vi quando colocaram o cano de um fuzil na vagina de uma mulher grávida”, contou o soldado.
Bussi no tribunal
Bussi trocou La Escuelita pelo CCD Nueva Baviera, um velho engenho de açúcar dotado de heliporto e vários caminhões para transporte de tropas e prisioneiros. Ele descentralizou a tortura e ampliou suas patotas. Atacou com bombas a universidade local, os partidos, os opositores. Advogados, sindicalistas e políticos foram alvo de sequestro, prisão e tortura. Bussi, como se via, ainda tinha muito que fazer. Dono de um par de olhos azuis frios como as rajadas que sopravam dos Andes, Bussi mantinha a cara fechada, casmurra, apropriada para aqueles tempos azedos. Seu braço longo cruzou a longa distância até Buenos Aires para alcançar a montonera Azucena minutos antes de alçar voo para a liberdade.
Forti abriu processo contra o general em 2005
O secretário Alfredo Forti, o garoto sequestrado por ordem de Bussi, abriu um processo contra o general em 2005, depois que o Governo Kirchner revogou as anistias do Ponto Final e da Obediência Devida que deixavam impunes os torturadores. Assim, outros 800 processos por sequestro, tortura e morte, antes engavetados, voltaram a assombrar o velho general, que passou a frequentar os tribunais como uma caricatura de seu decrépito poder, envelhecido, enfraquecido por doenças dos pulmões e do coração, com uma sonda de oxigênio sempre enfiada no nariz.
Bussi: "Não nego, nem afirmo"
Acossado também por denúncias de contas clandestinas no exterior, respondia ao melhor estilo Maluf: “Não nego, nem afirmo”. Em 2003, eleito para a prefeitura de San Miguel, a cidade que ele aterrorizou na ditadura, foi impedido de assumir o cargo, acusado pelo desaparecimento e morte do senador peronista Guillermo Vargas Aignasse.


Foi acusado de crimes de lesa humanidade e pelo desaparecimento de outras 72 pessoas, o que lhe rendeu a prisão perpétua em agosto de 2008. O chefe temido da repressão foi destituído com desonra do Exército. Não conseguiu ver as outras condenações iminentes, porque o coração enfim falhou, em novembro passado, determinando o seu translado irremediável aos 85 anos.


Um único deputado de Tucumán animou-se a pagar o anúncio de falecimento num jornal local, assim mesmo com o estrito cuidado de citar o nome do filho vivo, não do pai morto: “O deputado Alberto Colombres Garmendía participa com dor o falecimento do pai do deputado Ricardo Bussi”.


O secretário de Assuntos Internacionais da Defesa, Alfredo Waldo Forti, não viu o sequestrador de sua mãe apodrecer no cárcere, como imaginava.


O filho de Azucena viu coisa pior: o general Antônio Bussi, como acontece com os criminosos de todas as ditaduras, apodreceu em vida, chupado pela memória de seus abusos, cravado pela lâmina aguda dos tribunais e da Justiça.


Como ensinava Azucena a seus filhos, é a maneira correta de resolver as coisas num país que respeita sua história, sua memória, seu povo.


* Luiz Cláudio Cunha é jornalista.
[cunha.luizclaudio@gmail.com]

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

PINHEIRINHO: O ESTADO CONTRA O POVO (vídeo)



Vídeo enviado por cinelossolidarios em 25/01/2012



Desde domingo, dia 22 de janeiro de 2012, está acontecendo um massacre contra o povo em luta de São José dos Campos. 9000 pessoas da comunidade do Pinheirinho foram despejadas numa operação de guerra fascista e de terrorismo de Estado. O Governo terrorista de Geraldo Alckmin, em nome dos abutres da especulação imobiliária, aplicou o império do mercado e da propriedade privada contra o direito à vida e à moradia. Atacando brutalmente e assassinando o povo do PInheirinho. A mídia corporativa e todas as autoridades responsáveis envolvidas nesta tragédia vêm sistematicamente sabotando e ocultando informações que permitam à sociedade ter um quadro verídico do que aconteceu. Houve inúmeras prisões, espancamentos e todo o tipo de agressão gratuita por parte dos policiais, usando indiscriminadamente de todo o seu aparato de "armas não letais" que visivelmente provocaram inúmeros feridos. Pelas imagens, ao contrário do que dizem a imprensa e a PM, tanto GCM quanto PM estavam empunhando armas com balas de verdade durante os ataques. Os movimentos sociais vêm denunciando o assassinato de pelo menos 3 pessoas durante o despejo genocida. E no entanto nada foi averiguado e o IML esconde os corpos, para não falar dos incontáveis feridos. É preciso que todos tenham acesso imediato à verdade sobre os mortos e feridos desse insólito episódio.


Este vídeo traz imagens exclusivas e depoimentos do período da tarde dentro do Campo do Alemão, onde se abrigavam mulheres e crianças despejadas que foram brutalmente violentadas em todos os seus direitos, e do período da noite nos ataques da Guarda Civil Metropolitana de SJC, usando balas de verdade, e da PM de SP jogando bombas contra as famílias alojadas na Igreja.

Basta de terrorismo de Estado!


Eduardo Cury, o STJ de SP, PM de SP e o Governador Alckmin ASSASSINOS!


Viva a heróica resistência do povo do Pinheirinho!


Parem o massacre!


ass. Los solidários

Observação deste blog: Peguei este vídeo a partir do portal de Carta Maior. É uma coisa terrível a realidade do povo pobre. Entendam a lógica do Estado capitalista, dentro do jogo chamado democrático, já que a violência e a injustiça estão justificadas por uma sentença judicial: se juntam empresários da especulação imobiliária, agentes do Poder Judiciário, o governo do estado e sua Polícia Militar (com ajuda ainda da prefeitura do muncípio) e transformam uma comunidade pobre (POBRE, MAS COM TETO) de quase 10 mil pessoas em novos POBRES, agora mais pobres ainda, porque SEM TETO.

MASSACRE NO PINHEIRINHO: O DESABAFO DE UMA FOTÓGRAFA


Fotos reproduzidas do blog Vi o Mundo: foram postadas logo no domingo,
dia 22, com o título "Domingo de guerra"
Por Natasha Mota (Texto reproduzido do blog Fazendo Media: a média que a mídia faz, de 25/01/2012)


Depois de voltar pra casa frustrada por não conseguir fazer uma foto e nenhum vídeo, concluí que nem sempre é possível fazermos aquilo que deve ser feito (ou que acreditamos que deveria ser feito, ou aquilo que temos condição de fazer).


Não consegui utilizar a única arma que tenho: minha câmera.


O que senti foi impotência diante da desumanização total.


Senti que nenhuma foto que eu fizesse seria capaz de expressar a dor daquelas pessoas e o estado de barbárie instaurado no bairro. Nenhum vídeo poderia ser fiel ao que os moradores do Pinheirinho e do bairro vizinho, Campo dos Alemães, viveram no dia de ontem (domingo, dia 22). Não me senti no direito de apontar minha câmera pros seus rostos e gravar de maneira indiferente seus depoimentos cheios de paixão e sentimento. Não dá pra ser “frio” e pensar naquela situação como algo que deveria ser comunicado e ponto, sem se sensibilizar ao extremo com a situação.


Me lembrei diversas vezes do que me disse o cartunista Latuff ao telefone pouco antes de eu sair da minha casa e ir para a ocupação, “De que adianta irmos agora pra lá? Alguma coisa deveria ser feita antes e não agora que as pessoas foram expulsas de suas casas e não vão mais poder voltar pra lá”.


E como ele mesmo lembrou, o desfecho da história não foi por falta de que se fizesse algo antes.

Mesmo assim fui pra lá. Achei que alguma coisa deveria ser feita, mesmo assim. Mas eu não consegui. É isso aí, eu não consegui…


Uma moradora me disse que eles queriam permanecer nas suas casas, pois queriam um teto para morar de maneira digna. Agora o que eles querem é conseguir pelo menos resgatar seus pertences que ficaram dentro das casas. Casas que eles nem sequer conseguem voltar e que, segundo os moradores, estão sendo arrombadas pelos policiais, que retiram os pertences e os colocam numa trouxa na porta para que os caminhões busquem e levem para um galpão. Afinal de contas, como disse um policial após a fala revoltada de uma mulher, que reclamava da demora para que se pudesse entrar para a retirada dos pertences, eles “também estão lá desde ontem” e com certeza querem terminar de desalojar as pessoas o mais rápido possível para voltar para suas casas. Enquanto isso a maioria das pessoas que não têm familiares para os abrigarem passaram a noite sob uma lona improvisada, em meio ao barro, apenas com cadeiras de plástico e sem comida e ainda por cima aterrorizadas pelos tiros (que não foram somente de bala de borracha) e bombas soltadas pelos policiais durante a noite.


Os policiais dificultavam o máximo a entrada das pessoas. Primeiro elas deveriam enfrentar uma fila enorme para se cadastrar e conseguir um papel que provasse que elas residiam ali. Depois disso cada morador deveria se dirigir a uma portaria referente à zona que sua casa estava localizada para poder entrar com o caminhão, individualmente. Detalhe: as pessoas chegavam com o endereço de suas casas no papel do cadastro, pedindo aos policiais que permitissem a entrada, o major responsável por uma das portarias dizia que a polícia havia dividido a ocupação em três áreas A, B e C e que agora não existia mais nome de rua e sim zonas e que os moradores deveriam procurar a portaria referente às suas casas. Tudo isso enquanto uma massa se aglomerava diante da portaria e uma fila de caminhões estava à espera para retirar os pertences das famílias.


Uma mulher com lágrimas nos olhos falava de como estavam tratando todos igual bichos (aliás bicho hoje em dia é muitas vezes tratado melhor que ser humano). De como tinham ficado sem comer a manhã toda até que chegasse uma comida feita como ração já no meio da tarde. Ela não conseguia entrar na sua casa pra buscar leite para seu filho e nem mesmo a certidão de nascimento da criança e seus documentos.


A única coisa que consegui fazer foi pedir a eles para encontrar quem tivesse filmado e fotografado qualquer coisa durante a invasão da polícia e publicassem na internet (embora muitos tenham tido seus celulares confiscados por estarem fotografando e filmando a ação da polícia).


Há quem diga que não se pode confiar no que se diz na internet, em redes sociais, pois a informação não é confiável. O que faz uma informação ser confiável? O que me diferencia de um jornalista da globo (além do fato desse ser um pau mandado a serviço dos interesses de grandes empresas, políticos corruptos e da manutenção da “ordem”) e de um morador do Pinheirinho? Por que o jornalista da globo diz a verdade e a minha informação ou do morador do Pinheirinho é duvidosa e/ou mentira?


Por isso não deixo nenhuma fotografia e nenhum vídeo, atestado de verdade para alguns, mas apenas o meu relato de revolta, tristeza e ódio, que poderia ser também o relato de qualquer um que quisesse e sentisse a necessidade de se expressar por meio de palavras. E nem por isso esse gesto é menos verdadeiro que uma notícia de jornal.


(*)Natasha Mota é fotógrafa.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

APOSENTADOS: “NADA A COMEMORAR. TUDO A PROTESTAR”


A passeata descendo a Avenida Sete em direção à Praça Castro Alves
(Fotos: Jadson Oliveira)
De Salvador (Bahia) – E tome protesto! E tome desabafo! Tudo ao som e no balanço de antigas marchinhas de carnaval – “...onde está o dinheiro? o gato comeu, o gato comeu...” ou “...ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí, não vai dar, não vai dar, não...”, etc, etc -, tocadas por uma bandinha durante o protesto pelas ruas centrais da capital baiana, na manhã de ontem, dia 24, Dia Nacional dos Aposentados. O microfone ficava à disposição de todos, sem censura, então cada um que quisesse (não apenas os líderes) ia lá e dava seu recado:


- Ah, Dilma! 6% não dá, assim você nos mata, desgraçada! (os aposentados não conseguem engolir o reajuste de 6,08%, enquanto o salário mínimo sobe 14,13% (e não 14,31% como saiu na postagem anterior), mesmo diante da justeza da política de valorização do mínimo);


- A prioridade do governo não é a saúde, a educação, nem a segurança do povo, eles só olham o pagamento da dívida pra encher ainda mais os bolsos dos banqueiros. É o capitalismo sacana;


- Que dia o governo vai acabar com o tal do fator previdenciário, essa invenção do diabo que confisca o dinheiro do trabalhador na hora de aposentar?


Marise Sansão, presidente da Federação das Associações
de Aposentados, Pensionistas e Idosos do Estado da
Bahia (Feasapeb)
Gileno Pinho Santos, presidente da Associação de Aposentados, Pensionistas
e Idosos da Bahia (Astape)
- Nosso triste dia-a-dia são as doenças, o peso do corpo para locomover, os males do coração, a próstata cansada, a digestão cada dia mais difícil, a flatulência e os remédios e tratamentos cada vez mais caros;

- Trabalhadores, nós somos vocês amanhã, vocês, considerados da ativa, têm que apoiar nossa luta, temos que estar juntos, pedimos respeito porque não é justo viver trabalhando e ser marginalizado no fim da vida;

- Estamos aqui na rua representando também os que estão doentes, muitos na cama esperando a morte, os que não podem mais caminhar;


- Que sexta economia mais forte do mundo é essa que deixa seus aposentados passando fome, que trata seus idosos como cachorros, que só comem quando sobra? Tudo culpa desse governo irresponsável;

- É preciso lutar mais, ir pras ruas brigar por nossos direitos, não ficar nos bancos da praça somente jogando baralho e gamão, não ser os tais vagabundos como queria o famigerado Fernando Henrique Cardoso.

E assim foram eles: depois da concentração na Praça da Piedade (logo após missa na Igreja de São Pedro), desceram pela Avenida Sete de Setembro até a Praça Castro Alves e retornaram pela Rua Carlos Gomes até a Piedade. No início quase 200 pessoas, no final umas 300. Apesar de pouca gente, por onde passaram o trânsito ficou interrompido. Aos lados, pelos passeios, os jovens olhavam com um mal disfarçado sorriso de desdém, enquanto os mais velhos paravam e miravam com alguma solidariedade no olhar.


Várias entidades representativas dos aposentados e pensionistas participaram da manifestação, com o apoio de alguns órgãos sindicais, como a APLB-Sindicato (dos professores estaduais e municipais), a Assufba-Sindicato (dos servidores da Universidade Federal da Bahia) e a Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB). No final, na Piedade, a deputada federal Alice Portugal (PCdoB/BA), que começou sua carreira política como dirigente da Assufba, engrossou o time dos oradores com um discurso em que sublinhava sua atuação no Congresso Nacional em defesa das bandeiras dos aposentados.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

APOSENTADOS PROTESTAM NAS RUAS DE SALVADOR (vídeo)



De Salvador (Bahia) - Uns 200 a 300 aposentados foram às ruas da capital baiana na manhã de hoje, terça-feira, 24, Dia Nacional dos Aposentados: “Nada a comemorar, tudo a protestar”, gritavam. Eles se diziam inconformados por terem reajuste de apenas 6,08%, enquanto o salário mínimo subiu 14,31%. Se concentraram na Praça da Piedade, desceram pela Avenida Sete de Setembro até a Praça Castro Alves e retornaram pela Rua Carlos Gomes até a Piedade, tudo na área central da cidade. Apesar de pouca gente, por onde passaram o trânsito ficou interrompido. (Matéria com fotos será postada amanhã neste blog).

“NÃO QUEIRAM TOLERÂNCIA, QUEIRAM RESPEITO”

Metade da plateia que lotou o auditório da Reitoria da Universidade
Federal da Bahia, em Salvador, no ato contra a intolerância religiosa
(Foto: Jadson Oliveira)
De Salvador (Bahia) – “Digo ao povo de santo, que são os mais massacrados: não queiram tolerância, o que dá a ideia de suportar, de resignação: queiram respeito, este é um direito de todos nós”. Com estas palavras, o líder espírita José Medrado, da Cidade da Luz, encerrou seu curto e muito aplaudido discurso durante o ato pelo Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, na manhã do sábado, dia 21, na Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Salvador.


Ele se dirigia ao “povo de santo”, isto é, os seguidores do Candomblé, religião de origem africana (assim como a Umbanda) muito forte na Bahia. O auditório estava repleto, umas 500 pessoas, grande parte com roupa branca e trajes típicos de pais/mães de santo e filhos/filhas de santo. Além deles, estavam lá adeptos de variados credos e lideranças católicas, evangélicas e espíritas, dentre outras religiões, como a pouco conhecida União do Vegetal. Entre os líderes do Candomblé, o maior símbolo atualmente dos cultos afros na Bahia: a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, do Terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, que fica no bairro de São Gonçalo do Retiro/Cabula.


Quem certamente não estavam por lá eram os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), dos chamados neopentecostais, que ganhou muitos seguidores com o uso dos meios de comunicação de massa, especialmente rádio e televisão (seus dirigentes estão ligados aos donos da TV Record). A escolha do dia 21 de janeiro para celebrar o respeito às diferenças religiosas está vinculada a uma manifestação de intolerância e racismo praticada pela Iurd contra o Candomblé.

Quatro dos homenageados: ialorixá Mãe Stella, líder espírita José Medrado,
monsenhor Gaspar Sadock e pastor Djalma Torres (Foto: Reprodução)
Vereadora Olívia Santana, autora do projeto que deu origem ao Dia de
Combate à Intolerância Religiosa (Foto: Jadson Oliveira)
Foi nessa data do ano de 2000 que morreu na capital baiana a Mãe Gilda, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum (Nova Brasília, no bairro de Itapuã), vítima de infarto depois de perseguições que culminaram com um ataque do jornal da Iurd, Folha Universal, em matéria intitulada “Macumbeiros charlatães ameaçam a vida e o bolso dos clientes”, ilustrada com foto da Mãe Gilda. O fato deu origem a um rumoroso processo judicial. Pastores e bispos da Igreja Universal volta e meia são acusados de crimes contra os praticantes dos cultos afros, mas entre estes são também muito profundas as lembranças dos preconceitos e agressões partidos de padres e fiéis da Igreja Católica ao longo dos anos.

José Medrado e Mãe Stella foram dois dos homenageados durante a cerimônia com placa alusiva ao dia. Os demais foram: o pastor protestante Djalma Torres; o monsenhor Gaspar Sadock, que vai receber sua placa em casa por estar bem velho e enfermo; e representantes do Terreiro Roça do Ventura, da cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, os quais venceram recentemente uma ação judicial contra membros da Igreja Universal, acusados de invadir uma área pertencente ao terreiro.


A instituição do Dia de Combate à Intolerância Religiosa em Salvador, em 2004, foi iniciativa da vereadora Olívia Santana, do PCdoB (foi ela que organizou o evento do sábado, em parceria com o Cecup – Centro de Educação e Cultura Popular e o Unegro – União de Negros pela Igualdade, com apoio do governo estadual). Depois, em 2007, passou a ter caráter nacional por projeto do deputado federal Daniel Almeida, também do PCdoB-Bahia.

Durante o ato discursaram – além de Olívia Santana, Daniel Almeida e os homenageados (com exceção, óbvio, de Gaspar Sadock) – representantes do Unegro, Cecup, Arquidiocese de Salvador, União Vegetal, Ministério Público Estadual e Federal, Fundação Palmares e do governo do estado. O encerramento ficou por conta da bela apresentação da Orkestra Rumpilezz, do maestro Letieres Leite, mencionada como “orquestra afro-baiana”.

(Logo abaixo estão postados três vídeos: com Olívia Santana, José Medrado e um pedacinho do show da Orkestra Rumpilezz).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

BAIANOS CONDENAM A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA (três vídeos)






De Salvador (Bahia) - No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, último dia 21, sábado pela manhã, líderes religiosos de vários matizes participaram de um vibrante ato na Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Salvador, para celebrar o respeito às diversas crenças e, especialmente, condenar as discriminações sofridas pelas religiões de origem africana – também uma forma de racismo.

Além de muitos representantes do candomblé, um culto muito forte na Bahia – participou e foi uma das homenageadas a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, que fica no bairro de São Gonçalo do Retiro/Cabula -, estavam lá lideranças católicas, evangélicas e espíritas, dentre outras (como a pouco conhecida União do Vegetal).

Ultimamente as manifestações de intolerância vêm sendo praticadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, mas as igrejas católicas têm um triste histórico de preconceito e racismo contra o candomblé.

No primeiro vídeo está a saudação da vereadora Olívia Santana (PCdoB), destacada combatente na luta contra o racismo e a intolerância religiosa e responsável pela organização do evento.

O segundo contém uma mini-entrevista com o líder espírita José Medrado, da Cidade da Luz, que foi também um dos homenageados e fez o discurso mais aplaudido.

Já no terceiro vídeo está parte da bela apresentação da Orkestra Rumpilezz, dirigida pelo maestro Letieres Leite, com participação do mestre Gabi Guedes (é o mais alto, aparece como o primeiro na percussão, da direita para a esquerda).

(O assunto será objeto ainda de matéria com fotos a ser postada neste blog).

domingo, 22 de janeiro de 2012

OPERÁRIOS DA CONSTRUÇÃO PESADA DA BAHIA VÃO ÀS RUAS EM CAMPANHA SALARIAL


Após concentração no Campo da Pólvora (Fórum Ruy Barbosa ao fundo),
os trabalhadores iniciam marcha rumo à Praça da Piedade
(Fotos: Jadson Oliveira)
Passeata pela Avenida Joana Angélica, tendo à frente Nair Goulart e
Bebeto (2a. e 3o. da esq. para dir.)
De Salvador (Bahia) - Levando às ruas cerca de três a quatro mil pessoas (segundo estimativas da polícia e dos organizadores), o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil Pesada da Bahia, como é conhecido o Sintepav (filiado à Força Sindical), lançou na sexta-feira, dia 20, em Salvador, sua campanha salarial deste ano, cuja data-base é em março. A falta ao canteiro de obras na sexta não foi considerada greve ou paralisação, e sim anunciada pela direção sindical como abonada pelos patrões. Eles reivindicam reajuste de 20% (percentual baseado em índices de inflação e de crescimento do setor), cesta básica de R$ 300,00, jornada de trabalho de 40 horas semanais, plano de saúde e mais segurança no trabalho (outros itens abaixo).


A manifestação dos operários, realizada pela manhã, começou com uma concentração no Campo da Pólvora, junto ao Fórum Ruy Barbosa, antiga sede do Tribunal de Justiça e onde funciona a maior parte das repartições do Judiciário. Depois de vários pronunciamentos, o presidente do sindicato, Adalberto Galvão, o Bebeto, entregou um documento com as reivindicações da categoria a representantes do sindicato patronal. Em seguida, eles marcharam pela Avenida Joana Angélica, rumo à Praça da Piedade, na área mais central da capital baiana (esta movimentação está registrada em três vídeos, postados logo abaixo).


Da Praça da Piedade os manifestantes fizeram um pequeno giro pela área circunvizinha, incluindo um trecho da Avenida Sete de Setembro (a artéria principal do centro da cidade), onde fizeram uma parada e discursos em frente à Superintendência do Trabalho e Emprego, órgão do Ministério do Trabalho e Emprego. De volta à Piedade, eles encerraram o ato com uma oração e o Pai Nosso. Em todo o percurso a polícia atuou para controlar o trânsito, mas em muitos trechos, inclusive na Avenida Sete, os carros ficaram impedidos de circular, embora sem qualquer incidente.


"Olê, olê, olá, se não der o do peão a Bahia vai parar", gritam em coro
os manifestantes ao aplaudir as lideranças no Campo da Pólvora
A marcha embaixo do viaduto da Escola Nossa Senhora das Mercês
Os trabalhadores mostraram poder de mobilização e grande disposição ao gritar seus variados bordões, a exemplo de “Olê, olê, olá, se não der o do peão a Bahia vai parar” ou “ Eu sou baiano, eu sou guerreiro do povo brasileiro”. No entanto, o discurso predominante dos dirigentes sindicais, como o próprio Bebeto e a presidente da Força Sindical na Bahia, Nair Goulart, indica confiança nos resultados da negociação com os patrões. O argumento básico é que o setor de construção passa por uma boa conjuntura e os trabalhadores têm todo o direito de compartilhar dos êxitos econômicos, através de melhores salários e melhores condições de trabalho.


A direção sindical diz que a média do rendimento dos operários da construção pesada na Bahia está ao redor de R$ 1.000,00, considerada baixa, levando em conta a pujança do setor. Veja que não é qualquer construção civil, trata-se no caso do Sintepav da chamada “construção pesada”: é o pessoal que trabalha na Arena Fonte Nova (reconstrução do estádio de futebol de Salvador para a Copa de 2014), na Ferrovia Oeste-Leste, metrô, parques eólicos, Via Expressa, Via Bahia, Polo Naval e em outras rodovias, pontes e viadutos. (O nome oficial do Sintepav é Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação, Obras de Terraplanagens e Montagem Industrial do Estado da Bahia).


Nivaldo Querino, diretor secretário de Relações Institucionais
A base da entidade abrange mais de 30 mil trabalhadores, segundo informação de Nivaldo Querino, diretor secretário de Relações Institucionais. O boletim oficial do sindicato informa que na Bahia atuam mais de 300 empresas em 301 obras, com “investimentos globais de aproximadamente R$ 20 bilhões”.


O ato de lançamento da campanha foi prestigiado por uma representação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, também filiado à Força Sindical. Estiveram presentes em momentos da manifestação o deputado federal Nelson Pellegrino, pré-candidato a prefeito de Salvador pelo PT e a senadora Lídice da Mata (PSB-BA).


Principais reivindicações:


• Reajuste de 20%;
• 40 horas semanais;
• Saúde e segurança do trabalho;
• Pisos salariais unificados nacionalmente;
• Horas extras de segunda a sexta a 80%, sábado a 100%, domingos e feriados a 120%;
• Plano de saúde para empregados e dependentes;
• Cesta básica R$ 300,00;
• PLR (participação nos lucros e resultados) 660 horas anuais;
• Ajuste da tabela salarial de funções;
• OLT - Organização nos locais de trabalho.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CONSTRUÇÃO PESADA DA BAHIA EM CAMPANHA SALARIAL (três vídeos)





De Salvador (Bahia) - Os operários da construção civil pesada da Bahia lançaram hoje, dia 20, pela manhã, em Salvador, a campanha salarial deste ano. A data-base da categoria é no mês de março. Cerca de 3 mil trabalhadores se concentraram no Campo da Pólvora (junto ao Fórum Ruy Barbosa) e, em seguida, desfilaram até a Praça da Piedade, área central da cidade. Eles querem 20% de reajuste salarial, cesta básica de R$ 300,00, jornada de 40 horas semanais e plano de saúde, dentre outras reivindicações.



O primeiro vídeo acima mostra a passeata pela Avenida Joana Angélica. No segundo está parte do discurso do presidente do sindicato (Sintepav), Adalberto Galvão, conhecido por Bebeto, durante a concentração no Campo da Pólvora. Ele aparece em cima do carro de som entre a presidente da Força Sindical na Bahia, Nair Goulart, e o deputado federal Nelson Pellegrino, pré-candidato a prefeito de Salvador pelo PT. Já o terceiro vídeo registra manifestação durante uma parada na Joana Angélica. (Matéria com fotos será postada em breve neste blog).



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

“SOU AQUELE PARA QUEM ESTÃO RESERVADOS OS PERIGOS, AS GRANDES FAÇANHAS E OS FEITOS VALOROSOS”


Desenho de Gustave Doré que
ilustra a capa da edição
mencionada
(...) Dom Quixote, impelido por seu coração intrépido, pulou sobre o Rocinante, embraçou a rodela, empunhou o arremedo de lança e disse:


- Sancho amigo, hás de saber que nasci, por vontade do céu, nesta nossa idade do ferro, para ressuscitar nela a de ouro, ou a dourada, como sói chamar-se. Sou aquele para quem estão reservados os perigos, as grandes façanhas e os feitos valorosos. Sou, repito, quem há de ressuscitar os cavaleiros da Távola Redonda, os Doze de França e os Nove da Fama, e o que há de fazer esquecer os Platires, os Tablantes, Olivantes e Tirantes, os Febos e Belianises, com toda a caterva dos famosos cavaleiros andantes das eras passadas, realizando, nesta época em que vivo, tais grandiosidades, estranhezas e feitos de armas, que escureçam os que eles fizeram mais brilhantes. Bem vês, escudeiro fiel e legítimo, as trevas desta noite, seu estranho silêncio, o surdo e confuso estrondo destas árvores, o temeroso ruído daquela água, em busca da qual viemos e que parece despenhar-se e jorrar dos altos montes da Lua, e aquele golpear incessante, que nos fere e magoa os ouvidos; as quais coisas todas juntas e cada uma de per si, bastam para infundir medo, temor e espanto ao peito do próprio Marte, quanto mais a quem não está acostumado a semelhantes acontecimentos e aventuras. Pois tudo isso, que te descrevo, são incentivos e despertadores do meu ânimo, que já está fazendo que me rebente no peito o coração, desejoso de enfrentar esta aventura, por mais difícil que pareça. Assim, aperta um pouco as cilhas do Rocinante, fica-te com Deus e espera-me aqui até três dias, não mais. Se nesse prazo eu não voltar, podes regressar à nossa aldeia e dali, para me obsequiares e fazeres uma boa ação, irás a Toboso, onde avisarás à incomparável senhora minha Dulcinéia que seu cativo cavaleiro morreu, por tentar coisas que o fizessem digno de poder chamar-se dela.


Ouvindo as palavras do amo principiou Sancho a chorar com a maior ternura do mundo e a dizer-lhe:


- Senhor, não sei por que quer vosmecê meter-se em tão tenebrosa aventura. Agora é noite, ninguém nos vê aqui, bem podemos mudar de rumo e desviar-nos do perigo, embora passemos três dias sem beber. E se não há quem nos veja, menos haverá quem nos chame de covardes: tanto mais que ouvi pregar ao cura da nossa aldeia (que vosmecê bem conhece) de quem busca o perigo nele perece. Assim, não é bom tentar a Deus empreendendo tão desaforado feito, onde não se pode escapar senão por milagre; basta o que já fez o céu com vosmecê, livrando-o de servir de joguete, como eu servi, e tirando-o vencedor, livre e salvo, do meio de tantos inimigos, como os que acompanhavam o defundo. E se tudo isto não mover, nem abrandar esse duro coração, mova-o o pensar e crer que, apenas se tenha vosmecê apartado daqui, eu de medo entregarei minha alma a quem a quiser levar. Saí de minha terra, deixei mulher e filhos para vir a serviço de vosmecê, esperando valer mais, e não menos; mas, como a cobiça rompe o saco, a mim rasgou-me as esperanças, pois, quando mais vivas as tinha de alcançar aquela negra e malfadada ilha, que vosmecê me prometeu tantas vezes, vejo que, em paga e troco dela, me quer vosmecê deixar agora em lugar tão distante do trato humano. Por Deus, meu amo, não me faça tal desaguisado; e já que de todo não quer vosmecê desistir dessa aventura, espere ao menos até a manhã, pois, pelo que sei do que aprendi quando era pastor, não faltam mais que três horas para o amanhecer, porque a boca da Buzina está por cima da cabeça e faz meia-noite na linha do braço esquerdo. (...)


O autor do “melhor livro de todos os tempos” morreu pobre e desvalido


Miguel de Cervantes
Aprecio tanto o D. Quixote de la Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes Saavedra, que há muito queria compartilhar um pouco dele com meus leitores. É um livro que estou sempre relendo. Faz parte sempre da minha parca bagagem.


Acho que as falas acima dos dois principais personagens – o fidalgo Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pança – dão uma boa mostra do conteúdo do consagrado romance. Sei que algumas menções e mesmo alguns termos não serão compreendidos por quem não teve ainda a oportunidade de ler tão saborosa obra. Ainda mais que foi escrita há 400 anos - lançada a primeira parte em 1605 e a segunda em 1615. No mais, não se trata de um texto jornalístico, e sim literário (jocosamente, poderíamos dizer altamente literário).


Foi considerado o melhor livro já escrito em todos os tempos na área de ficção numa pesquisa entre 100 escritores consagrados de 54 países, feita pelos Clubes do Livro Noruegueses. Para se ter uma idéia do seu reconhecimento, numa lista das 100 obras literárias escolhidas, o Dom Quixote ficou em primeiro lugar com 50% mais votos do que qualquer outro (em segundo lugar ficou Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust). Não é à toa que a palavra quixotismo (e derivadas) está presente nos idiomas pelo mundo afora.


É tido como um dos livros prediletos do velho líder político Fidel Castro. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, muito ligado a Fidel, recentemente mandou imprimir um milhão de exemplares do Dom Quixote para distribuição gratuita entre os venezuelanos.


Cervantes foi soldado, ferido em guerra contra os turcos (teve a mão esquerda inutilizada), sofreu cinco anos de cativeiro na Argélia. Só conseguiu imprimir a primeira parte do Dom Quixote aos 58 anos. A segunda já quase morrendo. Amargou uma vida inteira de dificuldades de toda ordem. Morreu pobre e desvalido em 1616, perto de completar 69 anos (1547-1616). Muitos apontam semelhanças na vida e na morte dele e de seu principal personagem. Ambos sempre carregaram uma crença imorredoura na luta e nos sonhos, mesmo açoitados pelos repetidos reveses da dura realidade.


Antes de morrer, a primeira parte do livro já tinha sido lançada em alguns países, inclusive na França. Contam que durante a visita à Espanha de uma delegação de franceses ilustres, perguntou-se sobre Cervantes. E ao saberem da sua pobreza, teria havido a exclamação: “Mas como!? Não fizeram desse homem um pensionista do Estado!?”


Os parágrafos acima estão nas páginas 283/284 do Volume I (são três volumes) da edição especial comemorativa dos quatro séculos do livro, da Ediouro Publicações S/A.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

“CHE” GUEVARA MOSTROU DESCONHECER A TEORIA E AS LEIS DE UMA REVOLUÇÃO


ANEXO 3 da entrevista exclusiva concedida a este blog por Edmilson Carvalho, professor de Economia Política e velho militante da esquerda, e postada aqui em 21/11/2011 com o título “O marxismo de Marx e Engels nunca existiu para o proletariado brasileiro” (para saber mais sobre Edmilson, ver abertura da entrevista). O título acima é de autoria deste blog. Eis o texto de autoria do entrevistado:


O editor deste blog nos coloca diante de uma pergunta que desdobro em duas, pois envolve situações diferenciadas que precisam ser separadas para serem eludidas. A primeira é: “(...) é possível a existência (ou a construção) de um partido “revolucionário” em meio a esta pasmaceira atual da falta de mobilização popular, o que os marxistas chamariam de descenso do movimento de massas?” A segunda pergunta é: “(...) é possível avançar numa política “revolucionária” (rumo a uma democracia participativa e a algum tipo de socialismo) sem o povo nas ruas, sem o protagonismo dos trabalhadores e da juventude?”


A primeira se refere à ocasião apropriada para a criação de um partido revolucionário, um partido de quadros, certamente, no feitio de Lênin, que é, para raciocinar, o melhor exemplo. Já a segunda trata de assunto diferente, e diz respeito à possibilidade de crescimento do partido e do movimento de massa.


Edmilson: "O grande revolucionário Ernesto 'Che' Guevara demonstrou, a um preço muito elevado, não ter qualquer domínio da teoria e das leis de uma revolução, elementos que sobravam em Lênin e Trotsky".
Diremos, para começar a raciocinar, que a primeira pergunta pode-se responder com um sim, isto é, pela afirmativa: sim, a criação de um partido de quadros pode acontecer em qualquer época e independe do estágio da conjuntura (não devemos esquecer de que são dois problemas, cada um com um método próprio). Não tenho notícia de um só partido de quadros que tenha nascido nas ruas e praças, e deles é possível dar numerosos exemplos de nascimentos diminutos, com 6, 8, 10 e 22 (foi com tal tamanho que o PC do B, o “Partidão”, veio ao mundo) membros. O que torna possível este nascimento aparentemente precoce são algumas características imanentes do partido de quadros, tais como: tratar-se, via de regra, de um partido composto, inicialmente, por intelectuais e operários (alguns nascem sem sequer contar com um só operário), com uma intervenção clandestina, numa conjuntura de “descenso do movimento de massas”, o que se traduz em problemas de segurança.


Essas são questões básicas, mas elas não se esgotam aí, posto que, para além destas, somam-se as de princípio, questões que são ditadas pelo caráter dos partidos de quadros. Um partido de quadros é obrigatoriamente um partido de estrutura pequena, enxuta e extremamente móvel que reúne, dentro dessa estrutura, em tese, obviamente, os melhores elementos entre os melhores intelectuais e operários. Já pelo tamanho se pode ver que não é impossível reunir um número de quadros para preparar os delineamentos do programa, da própria concepção de partido, da tática, da alocação sócio-espacial da organização, da imprensa, de uma questão que salta para o primeiro plano, o plano do recrutamento e da formação, tarefas que podem ser elaboradas longe do movimento de massas e que, como ponto de partida, vão permitir que, quando acionado cresçam juntos: o partido, as mobilizações e as organizações dos trabalhadores.


As conjunturas de descenso são aproveitáveis para uma organização que mobiliza um trabalho científico (lembrar que estamos a falar de partidos que tiveram importância histórica, partidos com “P” maiúsculo, acerca dos quais se fazem restrições infundadas com base na incompreensão das complexas causas do malogro que sofreram - assunto tratado no ANEXO 2, ao falar das dificuldades e ambiguidades da Revolução Soviética).


Como o movimento de massas não é criado por partido, grupos ou mesmo classes sociais, ou seja, como tais movimentos só dependem de leis que brotam do solo social, na condição de componentes objetivos, eles têm normas de crescimento ou de regressão próprias. Rematando, são duas instâncias que devem combinar-se, mas são duas instâncias que têm premissas próprias de crescimento.


Desconhecer tais cenários e suas leis pode ser fatal: o grande revolucionário Ernesto “Che” Guevara é, certamente, o caso do qual se pode retirar as lições mais contundentes, em função da personalidade e da estatura do grande revolucionário que foi. Ele demonstrou, a um preço muito elevado, não ter qualquer domínio da teoria e das leis de uma revolução, elementos que sobravam em Lênin e Trotsky - como pode ser visto nos escritos dos dois, que tratam da Revolução no seu dia-a-dia, sobretudo na monumental obra “de campanha” de Trotsky, A História da Revolução Russa, em cujas páginas sente-se a pressão das leis, de tão bem apreendidas e cuja definição científica está igualmente bem definida no A Bancarrota da Internacional Comunista, de Lênin.