sábado, 31 de julho de 2010

PROTÓGENES: "PF TENTOU INVADIR MEU APARTAMENTO"

Por Claudio Leal (publicada dia 29 na revista eletrônica Terra Magazine)

O delegado federal Protógenes Queiroz (foto), responsável pela Operação Satiagraha, relata que a Polícia Federal tentou entrar em seu apartamento, no Guarujá (SP), para realizar uma intimação, na manhã desta quinta-feira (29). "Tentaram invadir, mas não estou lá. Eles não acreditaram no porteiro. Teve um barraco. Eu me encontro em Lavras, Minas Gerais, e recebi um telefonema do porteiro, que resistiu à tentativa de invasão", diz Protógenes.

Segundo o delegado, a intimação está relacionada a uma acusação da PF de que ele teria incitado a invasão das terras do banqueiro Daniel Dantas pelo MST (Movimento dos Sem Terra). "Fiz uma palestra na Associação dos Professores, na Praça da República, e me perguntaram sobre as concessões do subsolo brasileiro. Eu falei que estavam sendo negociadas no mercado paralelo e era dever do povo reagir, porque foram negociadas de forma clandestina". Dois dias depois, em fevereiro de 2010, houve a ocupação da fazenda Maria Bonita, de Dantas, em Eldorado dos Carajás.

Queiroz afirma que já são 23 processos instaurados contra ele desde a eclosão da Satiagraha, em 2008. "Em 8 de julho, aniversário da operação, abriram mais três processos que favorecem Dantas. Um dos seis abertos recentemente diz que eu usei 'palavras duvidosas' no inquérito. Ora, se foram duvidosas, por que o banqueiro foi condenado?", questiona. "Há dois anos eles não param de abrir processos". Filiado ao PCdoB, Protógenes Queiroz é candidato a deputado federal nas eleições 2010, em São Paulo. Nesta quinta, ao lado do secretário paulista de Relações Institucionais, Almino Affonso, ele participa de um seminário da Associação de Jornalistas de Minas Gerais.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

MANIFESTAÇÃO PELA SOBERANIA DO HAITI

De São Paulo (SP) – Publico acima umas fotos da manifestação feita na quarta-feira, dia 28, na Avenida Paulista, nas proximidades do edifício onde está o Consulado do Haiti, em defesa da soberania dos haitianos e pela retirada das tropas brasileiras (e outras estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos), apontadas como ocupantes do país caribenho, conforme nota postada aqui no blog no último dia 22: Protesto contra ocupação do Haiti.


Os manifestantes são militantes e simpatizantes – em torno de 100 pessoas - da Central Sindical e Popular – Conlutas e do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), uma das poucas forças de esquerda que fazem oposição ao governo Lula, o que certamente dificulta sua capacidade de mobilização. Eles gritavam: “Fora já, fora já daqui, a polícia do morro e as tropas do Haiti”.

Além do candidato a presidente da República pelo PSTU, Zé Maria, falaram durante o protesto representantes da CSP/Conlutas, da Liga Estratégia Revolucionária, do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e da ANEL (Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre, que faz oposição à tradicional UNE – União Nacional dos Estudantes).

(Na postagem referida acima – Protesto contra ocupação do Haiti -, há um instigante comentário do meu amigo Jonas, de Curitiba, com o qual (o comentário), de modo geral, discordo. Mas gostei da estocada que ele dá contra nós, os chamados esquerdistas. Jonas defende a necessidade da ocupação militar e arremata: “...é como se o imperialismo fosse um demônio e os esquerdistas os profetas da salvação”).

segunda-feira, 26 de julho de 2010

JOSÉ RAINHA DÁ NOTA 9,5 A PROTÓGENES

Rainha exalta o trabalho do delegado da PF contra a corrupção

De São Paulo (SP) – O delegado Protógenes Queiroz inaugurou na quinta-feira, dia 22, seu comitê eleitoral na capital paulista (Rua Domingos de Morais, 1765 – Vila Mariana). Teve uma noite de casa cheia. Ele é candidato a deputado federal pelo PC do B depois de ganhar enorme notoriedade ao dirigir a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, a qual resultou em duas prisões (com solturas imediatas) do banqueiro Daniel Dantas.




Muitos amigos, candidatos a deputado estadual (como a cantora Leci Brandão) e alguns parlamentares, além de dirigentes do PC do B, participaram do evento. Marcaram presença também o candidato ao Senado na chapa liderada pelo PT, Netinho de Paula (popular cantor de pagode e vereador da capital pelo PC do B), Fernando Costa, presidente da Uniesp (União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo, importante órgão privado de ensino), e José Rainha, conhecido líder do movimento dos sem-terra, hoje atuando fora dos quadros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST (sua mulher, Deolinda Alves de Souza, é candidata a deputada estadual pelo PC do B).



Protógenes discursa na inauguração do seu comitê 
Ao discursar, Rainha brincou dando nota 9,5 a Protógenes. E justificou: não dava nota 10 porque o delegado, apesar de ter prendido um banqueiro, não prendeu nenhum latifundiário. Mas o líder da luta pela terra foi corrigido pelo vereador Jamil Murad (PC do B): ele lembrou que Daniel Dantas, já com uma condenação judicial por tentativa de suborno, é proprietário de um grande latifúndio no estado do Pará.



Um repórter muito especial
Raimundo Pereira com Sônia Mesquita, secretária de redação de Retrato do Brasil



Estava cobrindo a inauguração do comitê um repórter muito especial: Raimundo Pereira, o jornalista que comandou o combativo Movimento, jornal semanário que nos tenebrosos anos 70 foi um foco de resistência à ditadura. Ele hoje, aos 70 anos, é diretor editorial da revista Retrato do Brasil. Mas, pelo jeito, continua repórter, a função essencial e mais nobre do jornalismo, infelizmente um bicho (o repórter) em extinção na imprensa brasileira.

GREVE NA JUSTIÇA BATE RECORDE

Valdemiro, em greve de fome, recebe a solidariedade de colegas da Justiça
Quando os servidores da Justiça estadual paulista estiverem reunidos em assembleia, nesta quarta-feira, dia 28, na Praça João Mendes, para votar a continuidade ou não da greve, a sua duração já terá batido um recorde histórico: 92 dias, três meses exatos, o início foi em 28/abril (em 2004 houve uma greve da categoria que durou 91 dias). E pelo menos até a última assembleia, dia 21, continuava o impasse nas negociações.

Segundo relato dos sindicalistas que participam da negociação com os representantes da direção do Tribunal de Justiça, não há sinal de avanço no principal ítem em discussão – a reposição salarial. Relataram que a direção do TJ aventou a possibilidade de diminuir os dias que estão sendo descontados (atualmente 10 dias) nos salários dos grevistas, mas eles rechaçaram tal discussão, já que não admitem desconto algum.

Enquanto isso, a partir do dia 21, o movimento ganhou um componente novo: o servidor Valdemiro José Jungklaus, 48 anos, 28 de serviço, declarou-se em greve de fome até que o Tribunal de Justiça resolva apresentar uma contra-proposta para a reposição salarial (os grevistas querem 20,16%). Escrevente técnico judiciário, ele é lotado em Jacupiranga, cidade do Vale do Ribeira, e mora na vizinha Registro.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PROTESTO CONTRA OCUPAÇÃO DO HAITI

De São Paulo (SP) – Na quarta-feira, dia 28, militantes do movimento social vão manifestar seu repúdio ao que consideram a ocupação militar do Haiti, país classificado como o mais miserável das Américas, recentemente arrasado por um forte terremoto (foto acima). Aqui na capital paulista o protesto está marcado para começar às 11 horas, em frente ao Consulado da nação caribenha (Avenida Paulista, 1.499). Estão previstas manifestações também no Rio de Janeiro e Brasília.


A data lembra a primeira vez, em 1915, em que tropas dos Estados Unidos ocuparam o país. Atualmente o Haiti tem novamente forças militares estrangeiras em seu território, desta vez com o respaldo das Nações Unidas e sob a liderança do Exército brasileiro. O governo brasileiro, evidentemente, não concorda com o termo ocupação, considerando a presença dos militares uma forma de ajuda e solidariedade, visando a estabilidade da sofrida nação do Caribe.

Os protestos foram convocados pela Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas), central sindical que, após agregar outras forças de esquerda, deve passar a denominar-se Central Sindical e Popular – Conlutas. Tal corrente das esquerdas brasileiras – uma das poucas que não apoiam o governo Lula e tem afinidade política com o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) – defende a retirada dos militares brasileiros do Haiti, sob o lema “Solidariedade sim, ocupação militar não”. José Geraldo Correa (conhecido como Gegê ou Geraldinho), da Secretaria Executiva Estadual da Conlutas, entende que a ocupação liderada pelo Brasil faz o jogo do império estadunidense e tem como proposta a manutenção da política neoliberal.

O Haiti, atualmente com cerca de 8 milhões de habitantes, deixou de ser colônia da França em 1804, depois de uma luta sangrenta contra as forças imperiais francesas na época de Napoleão Bonaparte. Foi a primeira nação independente da América Latina, a primeira em todas as Américas cuja independência foi obtida através de uma rebelião exitosa de escravos, a primeira a abolir a escravidão dos negros. Seu exemplo correu por todos os recantos das Américas e encheu de pavor os brancos colonialistas do Ocidente. Por esta ousada façanha, os negros haitianos atraíram contra eles todo tipo de represália dos diversos impérios. E, como uma espécie de maldição, ainda atraem: hoje, do maior e mais letal, o dos Estados Unidos.




Blogueiros fazem encontro nacional

Os chamados blogueiros progressistas estão organizando seu primeiro encontro nacional. Será em São Paulo nos dias 21 (sábado) e 22 (domingo) de agosto (o local e a programação ainda não foram anunciados). É hora de unir forças com o objetivo de defender e fortalecer este meio de comunicação até agora tão democrático, mas já sofrendo ameaças de censura e pressões financeiras via ações judiciais. Está inserido, claro, na luta geral pela democratização da mídia. A idéia inicial foi de Luiz Carlos Azenda, do blog Vi o mundo, logo seguido com entusiasmo por outros blogueiros de destaque nacional, como Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada) e Luis Nassif (Portal Luis Nassif).

As inscrições estão abertas e poderão participar não apenas blogueiros, mas também outros interessados no tema. Para informações mais detalhadas, há matérias em vários sítios na Internet, como, por exemplo, no do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, uma das entidades que dão apoio à iniciativa.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

VIVO EM SÃO PAULO... SOU BAIANO DE...

De São Paulo (SP) – Assim dizem os milhares/milhões de baianos/nordestinos que povoam esta imensidão paulistana, esta terra de tantos forasteiros e de tantas padarias, café com leite você encontra em cada esquina, todos os dias, de manhã, de tarde e de noite.


- Eu sou baiano de Feira de Santana, vivo aqui há mais de 30 anos, vim pra cá com meus pais que ainda são vivos, aqui foram criados meus quatro filhos, todos hoje são casados, trabalhando graças a Deus. Meu nome é José, todos me chamam Zé da Pedreira, labutei muito tempo numas pedreiras.

- Eu sou baiano de Xique-Xique, lá perto de Irecê, você conhece? Cheguei aqui em 1974, tinha 19 anos, nunca mais voltei, minha vida é aqui. Meu nome é Dilson, mas os conhecidos me chamam Roberto Carlos, eu vivia cantando “Detalhes” do rei Roberto Carlos e o nome pegou.

- Eu sou baiano de Salvador, mas nasci em Seabra, na Chapada Diamantina, vivo viajando e estou passando uma temporada por aqui.

- Eu sou pernambucano de Caruaru...

- Eu sou cearense de Juazeiro do Norte...

Este papo poderia se repetir, assim ou assado, em milhares de recantos da capital paulista, especialmente na imensidão da Zona Leste, a mais pobre. Por acaso é em Guaianases (oficialmente Vila Yolanda II, bairro do imenso distrito chamado Cidade Tiradentes, ocupada e construída aos trancos e barrancos pela população pobre, em meados de 1990, nos antigos limites da cidade). Cheguei até lá depois de viajar mais de duas horas de metrô e ônibus. Eu dizia “lá em São Paulo...”, e uma amiga de Guaianases me corrigia: “Aqui também é São Paulo”, “oh, me desculpe”. O cenário é um barzinho como tantos, uns tomam cachaça 51, outros cerveja, eu tomo Jurubeba Leão do Norte. A conversa, inconsistente e variada, como sempre, rola fácil entre desconhecidos de um minuto atrás:

- O quentão, por exemplo, conheci em Salvador, minha ex-mulher Heny preparava em toda festa de São João, mas é um costume que ela aprendeu aqui porque em sua juventude trabalhou em São Paulo, morava em Diadema. Um costume que não é baiano, é paulista. Vi ainda na zona rural de Brumado, no sudoeste da Bahia, levado também por baianos que viveram por aqui (disse eu todo prosa, recordando com saudade dos sãojoãos de Itacaranha, no subúrbio ferroviário de Salvador, e da roça do meu amigo Geraldo Guedes, em Correias, Brumado).

- Ah, não, o quentão não começou aqui, não. Ele começou lá em Riachão do Jacuípe, perto de Feira, lá na Bahia, se vocês não sabem, agora ficam sabendo. De Riachão o quentão se espalhou pra São Paulo e pro resto do Brasil e do mundo (anunciou a espantosa revelação o Zé da Pedreira, animado com a terceira ou quarta cerveja).

Enquanto isso, “Roberto Carlos” mostrava umas fotos do seu time de futebol do bairro, do qual, já passando dos 50 anos, se disse ex-craque, atualmente técnico e conselheiro.

- E por que as cores do teu time são as mesmas do Bahia, lá de Salvador, azul, vermelho e banco? (notei eu).

- Porque tinha um bocado de baiano e o patrocinador era baiano e torcedor do Bahia, na época o Bahia tinha sido campeão brasileiro, estava no auge, explicou.

Mas o pernambucano de Caruaru, engolindo sua (pra mim intragável) 51, não estava nem um pouco interessado em futebol. Queria porque queria manter o tema do São João, a especialidade de sua terra, falou até de um tal “forró quentão", segundo ele, a maravilha das maravilhas.

Em busca da sobrevivência e da fortuna

Foi mais ou menos assim meu batismo em Guaianases, bairro popular paulistano, pra não dizer que só ando em Aclimação, Avenida Paulista e Praça da Sé. E assim vou me aclimatando (sem trocadilho) nesta terra para onde, na década de 50/início dos 60, vinham buscar a sobrevivência e a fortuna os mais pobres, os menos escolarizados, os da roça lá do interior da Bahia (isto no meu imaginário da adolescência, enquanto nós, os poucos mais privilegiados, buscávamos os caminhos de Salvador para estudar, sonhando com a universidade). Vinham ser ajudantes de pedreiro (os homens) ou domésticas nas casas dos “barão”, como eles diziam, vinham e voltavam trocando o verbo botar pelo verbo pôr, trocando tomar banho por banhar-se, “quem toma banho é cavalo”, usando óculos escuros, sobraçando enormes rádios “portáteis” a pilha, puxando o “r”, Tôta, um cara muito popular em Seabra, voltou imitando com desenvoltura o sotaque italiano, fazia um tremendo sucesso, havia a piada dando conta de que o pobre roceiro passava seis meses/um ano em São Paulo e voltava lá pro interior da Bahia desconhecendo o maxixe, dizia “aquele bichinho de rabo”, puxando o “r”, evidentemente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Grevistas da Justiça desafiam chuva e frio

De São Paulo (SP) – Os servidores da Justiça estadual, em greve há quase 80 dias, desafiaram a chuva e o frio nesta quarta-feira, dia 14, e, reunidos mais uma vez na Praça João Mendes, no centro da cidade, decidiram manter a paralisação.

Além de proteção contra o mau tempo – foi a temperatura mais baixa do inverno paulistano, chegando em torno de 14 graus durante a tarde -, os grevistas usaram máscaras cirúrgicas (alguns até contra gases) para protestar contra as agressões da Polícia Militar na assembléia anterior, o assunto predominante nos discursos e manifestações (ver a matéria logo abaixo Frente do Fórum em SP vira praça de guerra).


O impasse continua: os representantes da presidência do Tribunal de Justiça, que vinham mantendo negociações com os dirigentes sindicais, embora não tivessem contra-proposta concreta para a reivindicação de 20,16% de reposição salarial, esta semana nem sequer se reuniram com os sindicalistas, conforme eles relataram para a assembléia.

E mesmo com cerca de 80% dos colegas trabalhando, os grevistas não arredam pé: debaixo de uma chuva persistente, às vezes mais grossa, às vezes mais fina (olha a garoa!), umas 600 pessoas encostaram momentaneamente os guarda- chuvas e levantaram com entusiasmo os dois braços: a greve continua!




Protógenes fala na assembléia. Ao lado, o advogado Adib Abdouni

Os servidores tiveram em sua assembleia desta quarta-feira a participação de Protógenes Queiroz, o delegado da Polícia Federal que ficou famoso pela condução da Operação Satiagraha, na qual foi implicado o banqueiro Daniel Dantas. Ele manifestou sua solidariedade aos grevistas e falou de sua cruzada contra a corrupção no país (Protógenes é candidato a deputado federal pelo PC do B).

 Já o deputado estadual Carlos Gianazzi (PSOL) falou também do seu apoio ao movimento e explicou o andamento da tentativa de aprovação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa, visando apurar denúncias de irregularidades no uso de verbas orçamentárias destinadas à folha de pagamento do Tribunal de Justiça.

Os grevistas aprovaram ainda medidas com o objetivo de fortalecer o movimento, a exemplo de manifestações defronte de fóruns de cidades do interior. No caso da capital, eles decidiram fazer uma fogueira, em frente ao Fórum João Mendes, na próxima quarta, com os contra-cheques (holerites, como dizem os paulistas) dos servidores constando os descontos nos salários em represália aos dias parados.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

FRENTE DO FÓRUM EM SP VIRA PRAÇA DE GUERRA



De São Paulo (SP) – A Praça João Mendes, na capital paulista, onde está o Fórum João Mendes, considerado o maior da América Latina – abriga 44 varas -, foi transformada nesta quarta-feira, dia 7, das 4 às 5 horas da tarde, numa praça de guerra, lembrando aos mais idosos cenas de violência comuns na época da ditadura.




Homens da Polícia Militar investiram contra os grevistas da Justiça estadual, que ensaiaram entrar no prédio logo após a assembléia dos servidores, que mais uma vez acabavam de aprovar a continuidade da greve que está completando 70 dias (iniciada em 28 de abril). Já havia o precedente da ocupação do Fórum pelos funcionários, há três semanas, resultando na suspensão dos serviços durante uns três dias úteis.




Tudo começou no final da assembleia, com cerca de 800 pessoas: os servidores, muitos de braços dados, foram se encaminhando para a entrada do Fórum e acabaram cercando os homens da Polícia Militar, os quais, a esta altura dos acontecimentos, com um contingente reforçado (em seguida foram chegando mais PMs), de mãos dadas, barravam o acesso ao prédio.






As fotos acima buscam retratar os momentos de maior tensão e aflição entre os grevistas, quando um grupo da polícia de choque – devidamente protegido com os característicos escudos – avançou disparando algumas bombas de efeito moral contra os servidores, visando dispersá-los (houve também golpes de cassetete). Mas não conseguiu. Logo após algumas correrias e um certo esvaziamento da praça, os grevistas voltaram a cercar os policiais, acusando-os de covardia e fazendo apelos do tipo: “polícia é pra bandido”, “somos trabalhadores, pais de família”, “lembrem de teus filhos”. Alguns, incluindo oficiais, demonstraram desconforto e constrangimento






Na uma sequência impactante, fotos de um grevista (na correria do momento e mais ocupado com as fotos, me esqueci de identificá-lo) que se ajoelha e levanta os braços em sinal de rendição diante de dois dos mais exaltados atiradores. Depois, notando dois fotógrafos pegando o lance, ele se volta para eles e dá as costas aos policiais, mantendo o gesto, enquanto uma grevista faz um apelo dramático aos atiradores. (O outro fotógrafo me disse ser do Estadão, pensei, seria foto de capa, primeira página, se a grande imprensa tivesse interesse de cobrir tais fatos).



Houve um homem ferido. Deitado no chão, de aparência pobre, parecia queixar-se de dores na região do peito. Foi levado numa ambulância pela polícia. Não seria alguém que pertença ao movimento, segundo disseram policiais e servidores.

Durante toda esta movimentação, os grevistas dedicaram uma atenção especial aos seus colegas que estavam trabalhando e, na hora da confusão, alguns ficavam lá das janelas espiando o conflito. Gritavam advertências e xingamentos, constrangendo-os por estarem furando o movimento. Os próprios dirigentes da greve reconhecem que apenas cerca de 20% dos mais de 40 mil funcionários da Justiça paulista estão parados (há greve também na Justiça federal). Mas acreditam que vale a pena manter a paralisação e que a direção da Justiça paulista se sente incomodada.

E a queda-de-braço não aparenta ter um fim próximo: os grevistas, já punidos com desconto nos salários pelos dias parados, pedem 20,16% de reposição salarial e a presidência do Tribunal de Justiça, segundo os dirigentes sindicais, acena com a possibilidade de conceder 4,77%, dependendo de projeto a ser aprovado pela Assembleia Legislativa, a qual, como se sabe, está em recesso e, até 3 de outubro, os deputados estão enterrados na campanha eleitoral.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

PELA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

De São Paulo (SP) – “É necessário ir além da Democracia Representativa e ampliar cada vez mais os sujeitos políticos capazes de tomar em suas mãos o processo de construir a sociedade e o Estado. Tudo isso introduz um novo adjetivo ao conceito de Democracia: a Democracia Participativa, como um necessário complemento à Democracia Representativa. É direito das pessoas mais interessadas nas ações do Estado poder decidir sobre elas. Tais pessoas, para além do voto, assumem-se como sujeitos e agentes políticos quando, nos movimentos ou estruturas constituídas legalmente, têm vez e voz determinantes nos encaminhamentos do Estado”. (Parágrafo de um artigo de Dom Dimas Lara Barbosa, bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, publicado na revista Carta Capital).


A partir de temporadas que passei na Venezuela e Bolívia, tentando acompanhar a política e os movimentos sociais, venho repetindo aqui no meu blog sobre a caduquice da democracia brasileira (o correto seria colocar aspas nesta democracia) e a necessidade de avançarmos para um sistema tipo participativo (usa-se também a expressão democracia direta, que vem a dar no mesmo). Claro que tal avanço só se dará no bojo de uma mobilização popular, coisa que soa até estranha na realidade política brasileira. Assim como vemos, por exemplo, nos dois países citados acima e Equador, para nos atermos à nossa América do Sul.

É alentador ver um dirigente da CNBB assumir tal posição. Aliás, há alguns anos vejo os padres levantando tal bandeira nos desfiles do Grito dos Excluídos do 7 de setembro. Vale uma leitura de todo o artigo (encontrável facilmente na Internet). Transcrevo mais um trecho, que tem a ver com os monopólios dos meios de comunicação no Brasil, um gargalo terrível a emperrar os avanços democráticos e populares:

“Em todo esse processo, a informação cumpre um papel de relevância ímpar. Ela está entre os principais instrumentos de participação democrática e é um direito de cidadania; por isso, deve ser assegurada a todos e por todos os meios possíveis. A informação é o caminho que nos haverá de levar à cidadania plena e à democracia verdadeiramente participativa que sonhamos para o nosso País”.

Defendendo a verdadeira participação

Acaba de sair o livro Atualidade histórica da ofensiva socialista, autoria de István Mészáros. Vi o anúncio na Agência Carta Maior, que, sob o título Mészáros defende alternativa ao sistema parlamentar, faz a apresentação com a seguinte chamada:

“Novo livro do marxista húngaro propõe um enfrentamento aos problemas de nossa política democrática como forma de responder à indagação: o que continua irremediavelmente errado no que se refere às genuínas expectativas socialistas? Mészáros aponta para a necessidade de uma crítica profunda da concepção que vê na disputa dentro do sistema parlamentar um cenário de construção de transformações sociais. Para ele, a alternativa necessária a esse sistema estaria ligada à ‘questão da verdadeira participação’”.

Creio que os dois temas estão interligados: pelo menos de acordo com as experiências atuais na América Latina, a busca de algum tipo de socialismo – tudo indica que trilhando caminhos não tão ortodoxos – passa pela construção da democracia participativa.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

PERDIDO NA IMENSIDÃO PAULISTANA

De São Paulo (SP) – Nesses primeiros dias na imensidão da capital paulista, em plena Copa da África do Sul, ao som irritante da “vuvuzela” que já invade os espaços iniciais da campanha eleitoral, me sinto meio perdido/isolado/desentrosado. Onde estão os movimentos sociais, cujas atividades pretendo cobrir para meu blog? Ou eles estão ofuscados/condicionados pela euforia do futebol e pelo vale-tudo da eleição para presidente?


Sempre tive uma espécie de medo da grandiosidade deste mundo chamado São Paulo. Nas minhas andanças pela América Latina/Caribe, as pessoas dizem “ah! brasileño, Rio de Janeiro, San Pablo...” Então, quando estava no calor sufocante de Trinidad e Tobago, desentendendo completamente o inglês crioulo, decidi enfrentar esse medo, fazer uma temporada por aqui. O frio não é problema, convivi com o frio do inverno curitibano e com o frio do verão de La Paz. E todo mundo aqui fala o português, que beleza!

Mas a imensidão ainda me assusta, as distâncias são longas. Tento memorizar itinerários, nomes de ruas/praças, estabelecer novas rotinas, descobrir bares/restaurantes/padarias/cafés. Meu ponto referencial por enquanto é a badaladíssima Avenida Paulista, aquela coisa exagerada que faz a gente ficar pequena diante da ostentação dos enormes edifícios. Tenho zanzado muito pela Paulista (olha a intimidade!) com a companheira Olívia Soares (Olivinha para os íntimos), jornalista baiana que anda por aqui, porém, por pouco tempo, pois detesta o clima.

Meus roteiros até agora, na maioria das vezes caminhando ou de metrô, passam, além da Paulista, por Aclimação (bairro onde estou morando), São Joaquim, Vergueiro, Paraíso, Rua Augusta, Largo do Arouche, Praça da República, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú, Rua Direita, Praça da Sé, Praça João Mendes... Dei uma escapada ao bairro de Pinheiros e fiz uma “viagem” a São Bernardo do Campo, passando por Diadema, duas cidades do ABC paulista.

“Ah! São Paulo é São Paulo!” É assim que a gente costuma falar quando não acha coisa mais inteligente pra falar. Bem, aqui comprei fácil fácil um livro que procurei e não encontrei em vários lugares, inclusive Curitiba e Salvador; aqui você topa com baiano/nordestino em cada esquina; comida braba de sertanejo também não falta, incluindo a feijoada – mas, atenção, no caso específico da feijoada, somente às quartas e sábados.

É, no entanto, uma cidade cara. Li uma relação dos lugares mais caros para turistas: São Paulo está em primeiro lugar dentre as cidades das Américas e em 21º. no mundo. Para comparação, Buenos Aires, a charmosa capital argentina, na qual planejo morar uns meses em breve, é a 161ª.

Bem, o mais importante é ver além das aparências e obviedades. O jornalista Mino Carta, da revista Carta Capital, disse numa recente palestra que São Paulo é o estado mais reacionário do Brasil, falando num contexto político, criticando os meios de comunicação dominantes. Fico matutando: e a maioria, o povo mais simples, mais pobre, como é diante de tanta exibição de grandeza? Vamos tentar ver.

(Ilustro o texto com uma foto da Avenida Paulista, aparecendo a companheira Olivinha; e, em homenagem aos movimentos sociais, uma outra da assembléia dos servidores da Justiça estadual, na Praça João Mendes, quarta-feira, dia 30, quando eles aprovaram a continuidade de uma greve que já dura mais de 60 dias).