quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pioneirismo da nova Constituição boliviana

Foto: Manoel Porto



A nova Constituição da Bolívia, aprovada com 61% dos votos no referendo do último domingo, dia 25, é pioneira na América Latina ao reconhecer o Estado plurinacional, ou seja, explicitar em seus dispositivos a autonomia dos povos e nações indígenas. É uma das reivindicações dos povos originários da região andina, que vêm avançando politicamente também no Equador, Peru, Chile e México.

No Chile essa luta é liderada pelo povo Mapuche, nação indígena com 1,5 milhão de habitantes (mais 400 mil na Argentina), protagonista de embates contra governantes do país nos últimos anos, incluindo a atual presidente Michelle Bachelet. A abordagem do tema foi feita nesta quinta-feira, dia 29, por Claudio Carihuentro (foto), que representa organizações Mapuche no Fórum Social Mundial (FSM), em Belém, capital do Pará.

Ele participou da mesa de debates no Espaço pelos Direitos Coletivos dos Povos, onde se discutiu a situação de povos e nações sem estado, como é o caso dos indígenas e também dos povos do País Basco, da Catalunha, Galícia, os curdos, bem como o caso conturbado dos palestinos, na mídia todos os dias devido aos massacres perpetrados pelo exército de Israel.

Representantes de 30 povos nessa condição estiveram no FSM. Participaram dos trabalhos estudiosos reconhecidos internacionalmente, dentre os quais os sociólogos Emir Sader (brasileiro) e Boaventura de Souza (português). Pela primeira vez, o direito à autodeterminação é um dos 10 eixos temáticos do Fórum Social.

Claudio Carihuentro diz que, enquanto princípios (deixando de lado questões específicas de cada realidade), os mapuches e demais povos andinos defendem exatamente o definido na nova Carta Magna boliviana: Estado plurinacional, autonomia territorial e representação própria junto ao governo central. (Para se entender melhor: haverá na Bolívia representantes eleitos por cada povo indígena para atuação junto ao presidente da República, independentemente de deputados ou senadores, por exemplo).

Ele chama a atenção para não se confundir com a autonomia pregada pelas oligarquias da chamada Meia Lua, tendo à frente o estado de Santa Cruz, as quais, na verdade, querem autonomia na exploração dos recursos naturais, especialmente o gás e o petróleo. Pregam, de fato, o separatismo, visando boicotar o processo de mudança liderado por Evo Morales, o qual, em última análise, institui a exploração dos recursos do país em favor do povo.

Luta do povo Mapuche

Um breve retrospecto da luta dos Mapuche desde a época de Salvador Allende, o primeiro socialista a ser eleito, dentro dos preceitos na nossa democracia representativa. Allende efetuou a devolução das terras indígenas, o que foi anulado logo após a tomada do poder pelos militares sob o comando de Pinochet, em 1973.

Com a redemocratização, foi fechado um acordo com os indígenas, segundo o qual terras foram devolvidas, eles passaram a valorizar sua própria língua e a usufruir alguns outros direitos. Em troca, os Mapuche restrigiam novas demandas por terra às vias legais. “Mas, a luta por vias institucionais não gerou resultados satisfatórios”, conta Carihuentro.

“Em 1994 – continua – iniciamos as ocupações de terras e os protestos de rua”. E as forças governamentais responderam com o incremento da repressão policial. O ex-presidente Ricardo Lagos usou a chamada lei antiterrorista, parida pela ditadura de Pinochet, enquanto a atual Bachelet, de corte mais à esquerda, abriu mão de utilizar tal legislação. Mas os choques e a repressão prosseguem. Claudio Carihuentro contabiliza, na recente fase democrática, dois mortos e 50 presos entre os indígenas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O Fórum Social é muito mais

Fotos: Manoel Porto



Não só de debates e buscas teóricas para “um outro mundo possível” vive o Fórum Social Mundial (FSM), essa coisa ainda disforme para a grande maioria dos quase 7 bilhões de seres humanos que vivem no planeta Terra. Mesmo para grande parte dos 100 mil que estão agora em Belém do Pará, o âmago do evento gira mais em torno de uma festiva confraternização, envolvendo gente – muitos jovens – de cores, aspectos e línguas diferentes.

Os campi e as imediações das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA) se tornam um burburinho, ganham uma movimentação e um colorido singulares. No interior dos campi são armadas dezenas de barracas para um variado comércio – livros, revistas, artesanatos, camisetas divulgando especialmente o próprio Fórum, etc, etc. Os ambulantes também participam ativamente da “festa”.

Organizações sociais das mais variadas atividades montam suas próprias barracas para vender e divulgar suas lutas e seus produtos ideológicos, num rico “mercado” formado por mentes tendentes à militância social. Grupos musicais passam o dia em exibições, atraindo especialmente os jovens, mas também os “coroas”, muitos ávidos para conhecer e compartilhar novas amizades e novos namoros, ao som, por exemplo, do carimbó, dança sensual típica do Pará.

Muitos aproveitam uma platéia numerosa e circulante para, num palco disponível e serviço de som, defender suas bandeiras de luta ou denunciar atrocidades sociais, como o recente massacre do exército de Israel contra os palestinos da Faixa de Gaza.


Enquanto isso, estudiosos e intelectuais discutiam ontem temas como Afro-negritude e Quilombolas, Espaço Inter-religioso, Reforma Urbana, 50 Anos da Revolução Cubana e Povos Indígenas e Defesa da Floresta, conforme a extensa programação difundida pelos coordenadores do FSM.

Nas proximidades da entrada das duas universidades, era intenso também o movimento dos barraqueiros e ambulantes, aproveitando, claro, dias de faturamento excepcional. A UFRA e a UFPA, onde ficam os acampamentos da juventude e dos indígenas, estão localizadas em bairros de aspecto pobre (Terra Firme e Guamá, respectivamente).


As duas universidades são ligadas pela Avenida Perimetral (o nome oficial é Perimetral do Conhecimento, mas ninguém usa), em cujas laterais dá pra se ver as obras de urbanização feitas por causa do Fórum, mas ainda inacabadas, bem como trechos com esgoto correndo a céu aberto.

Muitos dos que participaram ontem das atividades nos dois campi sofreram com a qualidade dos serviços. Para se chegar à UFRA ontem por volta do meio-dia, por exemplo, tiveram que enfrentar um bruto engarrafamento. Boa parte preferiu completar o trajeto a pé. E faltou almoço tanto na UFPA como nas barracas próximas. Água gelada e cerveja também andaram escasseando. Mas nada disso, pelo que se pôde observar, tirou o bom humor do pessoal. Afinal, “um outro mundo é possível”.



Muitos dos que participaram ontem das atividades nos dois campi sofreram com a qualidade dos serviços. Para se chegar à UFRA ontem por volta do meio-dia, por exemplo, tiveram que enfrentar um bruto engarrafamento. Boa parte preferiu completar o trajeto a pé. E faltou almoço tanto na UFPA como nas barracas próximas. Água gelada e cerveja também andaram escasseando. Mas nada disso, pelo que se pôde observar, tirou o bom humor do pessoal. Afinal, “um outro mundo é possível”.

Fórum Social até debaixo d'água



Fotos:Manoel Porto

A chuva – previsível nas tardes de Belém do Pará nesta época – não conseguiu estragar a animação das milhares de pessoas que abriram com um desfile carnavalizado o nono Fórum Social Mundial (FSM), nesta terça-feira, dia 27. Dança-se até debaixo d'água em busca de "um outro mundo possível", ou seja, em busca de alguma alternativa que supere o neoliberalismo ou mesmo o capitalismo.
Uma variedade espantosa de temas e "fantasias", marca já registrada de tais eventos, tomou conta de ruas centrais da capital paraense, dando o tom do que está por acontecer até primeiro de fevereiro. Os números divulgados pelos organizadores são eloquentes: participação de 100 mil pessoas e 5.680 organizações de mais de 150 países, em torno de 2.400 atividades programadas.
No início da marcha (na praça ao lado da Estação das Docas) houve exibição de rituais da cultura negra, como candomblé e capoeira. E no final (Praça do Operário, bairro de São Brás) foi a vez das delegações indígenas apresentarem denúncias, reivindicações e conquistas que vêm marcando seus 500 anos de resistência.


O jeito de ser
Quem ficasse de lado observando a passagem dos "blocos", ao som de marchas de carnaval e muita batucada, com chuva e sem chuva, gente de caras e idiomas diversos, poderia até se perguntar se tem como sair alguma coisa séria de tanta balbúrdia. Mas sempre sai, é o jeito do FSM. E os gritos de guerra?
"Ei, ei, ei, Jesus é nosso Rei", ouve-se o bordão dos evangélicos; "Não somos só bunda e peito", gritam as componentes da Marcha Mundial das Mulheres defendendo o direito ao aborto, enquanto os da luta pela moradia recitam "ocupar, resistir prá morar" e outros anunciam: "Te liga, oh estrangeiro, a Amazônia é do povo brasileiro".
Um desfile de irreverência, exotismo e variedade nas palavras de ordem e nas indumentárias। Operários da construção civil vêm ostentando as bandeiras do PSTU e da Conlutas (central sindical), "contra a crise capitalista a solução é o mundo socialista". A turma do PC do B segue, com caro de som, divulgando suas lutas e a CTB (outra central sendical). O PT também está presente com grande delegação, assim como o Psol.

"Eles matam e desmatam"
Agora são bandeiras de Cuba que tomam a avenida e a faixa é "contra o bloqueio americano a Cuba"। Seguem a Frente Nacional dos Petroleiros, a Força Sindical e a CUT. Depois um ônibus com a "Caravana dos DJ'S", a "Aldeia da Paz" brigando contra a guerra e a pobreza e um grupo de teatro de Recife formado só de mulheres, com pouca roupa, fantasiadas de onça - "Loucas de Pedra Lilás" - com refrões como "eles matam e desmatam".

Aparece ainda a Liga Brasileira de Lésbicas, faixas condenam a redução da maioridade penal e saúdam a Lei Maria da Penha e a "saúde pública universal". Presente a luta dos povos de Rondônia contra barragens no Rio Madeira. Um grupo animadíssimo, com orquestra e tudo mais, exalta "beber e cair".
E o desfile continua (um oficial da PM calculou que havia mais de 50 mil pessoas): "Povo do Iraque e Palestina, sua luta continua na América Latina", um cartaz mostrava uns terroristas, pingando sangue, no centro a cara do ex-presidente dos Estados Unidos, George Bush. Seguiam as feministas "contra o machismo, contra o capital, contra o terrorismo neoliberal".
Um "bloco" fazia muito barulho e sucesso: "Chega de Sarney, xô Sarney, ninguém aguenta mais", dizendo falar em nome de várias entidades do Maranhão e Amapá। Um boneco com aquele bigode inconfundível e outro representando a filha Roseana ilustravam o espetáculo. E mais: "Economia solidária, sociedade igualitária".

Guerreiros indígenas em
marcha



E enquanto guerreiros indígenas ensaiavam marchas e cantos de guerra, sob o assédio de fotógrafos e cinegrafistas, o Greenpeace exibia um enorme boneco de um boi, pregadas no corpo bandeiras de países que consomem carne bovina. Era a denúncia do processo de desmatamento da Amazônia para o cultivo de pastagens.
Nesta quarta-feira, dia 28, será iniciada a maratona de plenárias, conferências, palestras, oficinas e eventos culturais e esportivos. A programação dedica o dia ao Pan-Amazônia - "500 anos de resistência, conquistas e perspectivas afro-indígena e popular"-, com muitos assuntos regionais, mas também gerais, a exemplo de direitos humanos e luta contra a criminalização dos movimentos sociais.Os coordenadores do FSM acreditam que três temas vão predominar: crise financeira internacional, mudanças climáticas e alternativas aos modelos de desenvolvimento. Os trabalhos se dão nos campi da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).Lula e Chávez no FSMEspera-se a presença de cinco presidentes da América Latina: Lula, Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Balívia), Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador). Está previsto o encontro dos cinco na quinta-feira, dia 29, numa atividade paralela ao Fórum, no hangar do Centro de Convenções.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

SOS Internet

Geziel, eficiência e gentileza no atendimento.
Este blog conta em Manaus com o apoio logístico da loja de acesso a Internet (Lan House ou Cyber Café, como chamam), de Geziel Lima, situada à Rua 24 de Maio, n. 345, transversal da Avenida Eduardo Ribeiro, no centro da cidade. Além da Internet, você pode dispor dos serviços de impressões, pesquisas, fax, xérox, plastificação e encadernação. Atendimento a cargo do próprio Geziel e de sua auxiliar Darlene Lima.

O camelô que sabe de hematófagos

Paulo tem um cabedal incrível de informações sobre os mais diversos assuntos

Paulo José da Silva, 46 anos, é um dos três mil ambulantes que povoam o centro de Manaus com suas barracas de miudezas. Mas tem gostos e conhecimentos bastante incomuns. Carrega em sua cachola um cabedal incrível de informações sobre morcegos, insetos, cobras, escorpiões, sapos, papagaios, abelhas, peixes, animais os mais variados e de estranhos costumes.

Tem um hobby que cultiva com paixão: colecionar cartões telefônicos, mais de 20 mil exemplares. E procura acompanhar as coisas da vida, as notícias, a política, tem sempre uma opinião engatilhada sobre os fatos do dia-a-dia, enquanto vai vendendo brinquedos, calculadoras e pilhas no burburinho da Avenida Eduardo Ribeiro, já quase chegando à Praça do Relógio.


Paulo mantém há 14 anos sua banca de miudezas no centro de Manaus

Quando o conheci, estava vendendo sombrinhas e guarda-chuvas, num dia chuvoso, em frente a um supermercado, a uns 10 metros de sua barraca. “Aqui é melhor, as pessoas saem do supermercado, geralmente têm mais dinheiro, chovendo...”, explicou. “E esta chuva, não vai parar não? começou antes das 8 horas”, comentei. Já tinha passado do meio-dia.

- Olha aqueles insetos voando, quando eles aparecem é porque a chuva está parando, disse apontando uns mosquitos no ar. “Ah, você entende de insetos”, brinquei. Pronto! Foi como uma senha. Paulo disparou a falar de insetos e outros bichos, aproveitando os intervalos entre um e outro freguês (reproduzo a seguir muito do que falou, graças a gravação feita posteriormente, longe do barulho da rua).



Apenas três espécies de morcegos, dentre as cerca de mil, se alimentam de sangue

HEMATÓFAGOS – “Na verdade, só existem três espécies de morcegos que se alimentam de sangue, todas as três vivem na América Latina, inclusive no Brasil” (Esclarecimento: de fato, segundo a Wikipédia, na Internet, existem ao todo cerca de mil espécies de morcegos – muitas comem frutas - e só três se alimentam de sangue. Portanto, essa identificação dos mamíferos voadores com sangue deve ser influência do cinema, dos filmes sobre vampiros. Os hematófagos, animais que se alimentam de sangue, são, em sua maioria, parasitas como mosquitos, piolhos e carrapatos).

Continua nosso camelô ilustrado: “Os morcegos usam o sangue humano quando suas presas naturais, os antílopes (mamíferos, geralmente com chifre, parecidos com vacas e cabras, o mais conhecido é o veado), as grandes aves, deixam de existir, ficam mais escassos, são dizimados, devido a problemas como a caça predatória e o desmatamento de grandes áreas. Quando faltam esses animais, passam a atacar o gado, as galinhas, depois, devido à necessidade, atacam o ser humano. Detalhe, um chama o outro através de sons quando tem alimento em abundância. Eles não chupam o sangue, fazem o corte com a presa e lambem, tem uma substância na saliva que não deixa o sangue coagular, vamos dizer o sangue não seca, não fica duro, vai escorrendo e eles lambendo. Vão sempre usando um animal que, a depender do tempo, chega a morrer de anemia profunda”.

Curiosidade - “Quando o morcego fêmea tem suas crias, nos primeiros dias quando não pode se desprender da caverna por causa dos filhos, as crias anteriores, já adultas, ajudam na alimentação da mãe e dos filhotes, vêm com as asas lambuzadas de sangue e a mãe e os filhotes lambem. Mesmo depois de criadas, as crias continuam com essa ligação com a mãe”.

PAPAGAIOS – “Os papagaios vivem de 80 a 100 anos, são animais de vida longa e produzem poucos ovos, uma média de dois apenas. Ao contrário de animais que vivem pouco e têm muitos filhotes, para garantir a sobrevivência da espécie. Tem papagaio com inteligência de uma criança de 12 anos, chega a aprender 1.500 palavras, não é do Brasil, não me lembro de que região”.

COBRAS – “Existem três tipos de cobras, as ovíporas (botam ovos e chocam), as vivíporas (já nascem como cobra), e ovivíporas (botam o ovo, os filhos quebram a casca e vão embora). As ovíporas são as mais venenosas, existem dois tipos de veneno, um que dá gangrena e outro que dá hemorragia. No interior geralmente as pessoas sabem os cuidados que devem ter, sabem as dificuldades para um tratamento adequado. Sei de um caso, no interior onde minha mulher nasceu, que um lavrador foi picado num dedo, imediatamente tirou o facão e decepou o dedo pro veneno não circular. Se salvou, melhor perder um dedo do que a vida, no interior as pessoas aprendem logo essas coisas, tem o instinto, os pais ensinam, logo que eles vêem uma cobra tratam logo de matar. As cobras normalmente evitam a friagem, procuram se esquentar em lugares onde as folhas estão em estado de decomposição, então o cara no interior já evita lugares assim, porque sabe onde elas se escondem”.

ESCORPIÃO – “Se multiplica com muita facilidade, tem uma espécie que não precisa de macho e fêmea para se reproduzir, basta uma alimentação adequada. Existe uma espécie no Pará, preta, que quando pica você fica gritando de dor 24 horas, claro que a depender do local se pode ter remédio para aliviar”.

ARRAIA – “Uma curiosidade sobre a picada de arraia: se você tirar o pé da água, dói, se deixar o pé dentro da água, sem contato com o ar, não dói. A picada da arraia não chega a matar, mas a pessoa sente muita dor”.

Coleção de cartões telefônicos – Vamos a outro assunto, embora Paulo tenha falado bem mais, como, por exemplo, longamente, sobre abelhas e sapos. (Mas a dissertação já está a alongar-se). São mais de 20 mil cartões, contando apenas os das coleções, muitas delas “fechadas”, isto é, completas, que são muito valorizadas. Há ainda os exemplares dispersos usados para troca.




Cartões telefônicos da Bahia entre os mais de 20 mil colecionados


Ele vai pegando as pastas, atulhadas num armário e comentando sobre as coleções, de todos os estados brasileiros. “Esta aqui, As Sete Maravilhas do Mundo, passei oito anos e não consegui fechar, saiu pelo Ceará, a primeira vez. Com o passar do tempo, Brasil Telecom também lançou, só que esta aqui é mais detalhada”.

E vai abrindo pasta e mostrando, Natureza Viva, também do Ceará, sobre pássaros, 42 cartões, Nascimento de Cristo, uma outra do Rio de Janeiro, outra da região Sul, região Centro-Oeste... “E da Bahia, Paulo?”, interrompi. “Ah, você quer da Bahia, acho que é a pasta 17...”

BAHIA – Mostrou uma coleção da antiga Telebahia, empresa estatal baiana que foi privatizada. “Tem uma variadade grande de cartões da Bahia, coleções lindas”, disse, seguindo-se o desfile de santos, festas, igrejas, Lavagem do Bonfim, as fitinhas de Senhor do Bonfim, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Elevador Lacerda, praias, Chapada Diamantina, Morro do Pai Inácio, a famosa Lagoa Azul, as baianas do acarajé, os clubes de futebol, fortes, chafarizes, etc, etc.

Ao encontrar as aves e animais regionais, vai falando das características de uns, comparando com os de outras regiões, “vou aprendendo nos cartões, tem muita informação”। Na vez das frutas, apontou o cacau e discorreu sobre a “vassoura de bruxa”, contou que é originária da região amazônica, criticando a política oficial de combate à doença. Falou na diversificação da lavoura no sul da Bahia, lembrando o cultivo de produtos do norte, como o cupuaçu e o guaraná.

Terceiro mandato para o presidente Lula – Nos enredamos por outros papos. Paulo, um ambulante deveras original, parece ter uma opinião disponível sobre tudo. Surgiu na conversa a nova lei que obriga o novo motorista a esperar um ano para dirigir nas estradas. “Um absurdo, protestou. Por que, ao tirar a carteira, não tem logo um curso ensinando como dirigir na estrada? Depois de um ano, ele começa a rodar nas estradas, do mesmo jeito, desprepado”.

- E a política, Paulo, você acompanha a política?

- Ah, infelizmente, a gente tem de acompanhar, querendo ou não, quem tem um pouco de noção, termina acompanhando. Aproveitou para condenar o “loteamento” de cargos públicos, colocando pessoa despreparada para chefiar um órgão, mesmo sendo analfabeta no setor específico.

- E o que você acha do nosso presidente Lula?

“Companheiro – declamou imitando a voz de Lula - vocês têm que ter um pouco de paciência, eu prometi 10 milhões de empregos, já garanti o meu, agora vocês vão ter um pouco de paciência”. Em seguida, falando seriamente, declarou apoiar o presidente, inclusive defende um terceiro mandato para ele.

“Bom, eu acho que tá sendo um bom presidente, comparando com os outros, o país melhorou, acho que as pessoas criticam de barriga cheia, se for comparar com outros, melhorou muito. Para as pessoas mais pobres, melhorou muito. Os ricos continuam ganhando, mas agora são obrigados a ajudar os pobres, coisa que eles não faziam. As pessoas que recebem a bolsa (Programa Bolsa Família) já podem comprar mais, o que melhora as mercearias, o comércio informal e o comércio formal”.

Quem paga imposto? - “Olha – prossegue o ambulante manauara - eu malmente fiz minha sétima série, mas não admito quando uma pessoa diz, ah, as empresas pagam imposto, vocês não. Pelo amor de Deus, quem paga imposto é o último que compra. Porque tem o preço de custo, aí incluem todos os impostos, entra o lucro e tem o preço de venda. Quem paga o imposto? o último que comprou”.

Este é Paulo José da Silva,
nascido de pais cearenses no município de Careiro da Várzea (Região Metropolitana de Manaus), pai de dois filhos, um de 22 anos (ajuda na barraca) e outro de 19, universitário de Administração, já estagiando. Está há 14 anos com seu ponto de vendas legalizado, filiado ao Sindicato do Comércio de Vendedores Ambulantes de Manaus (Sincvam). Antes, trabalhou em loja com carteira assinada, mas prefere como está hoje.

Como vocês puderam notar na parte da matéria sobre os cartões, estive em sua casa, uma boa casa segundo meus padrões, a meio caminho para quem vai ao bairro de Ponta Negra. Cria cachorros, passarinhos e plantas. E está sempre a se aventurar por novos experimentos. Suas áreas de conhecimento não aparentam guardar barreiras.

“E dona Nazaré, sua mulher, que acha de seus gostos?” Ele dá a entender que ela não é bem uma entusiasta de suas atividades “extra-curriculares”, vamos chamar assim. Pisca o olho, sorri e vai em frente.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A magia do Encontro das Águas


Numa extensão de seis quilômetros, as águas negras do Rio Negro e as barrentas do Rio Solimões correm juntas, lado a lado, cada um resistindo à fusão, à morte individual, para dar à luz o majestoso Rio Amazonas no maior ajuntamento de água doce do mundo. Os estudiosos explicam que o Negro e o Solimões demoram a se misturar porque suas águas têm velocidade, temperatura e densidade diferentes.

A este belo fenômeno natural, que encanta amazonenses e turistas, dá-se o nome poético de Encontro das Águas, que ocorre a uns 15 quilômetros abaixo (seguindo o curso do Rio Negro) de Manaus (na verdade, um encontro bastante conflituoso)। Uma observação óbvia, mas talvez curiosa para quem nunca esteve na capital do estado: o Rio Amazonas não passa na cidade de Manaus, tampouco o Solimões।
Praia da Ponta Negra num dia de pouco movimento (tempo nublado)


- Você já viu o Encontro das Águas? Não? Ah, vá e sinta a magia, me sugeriu um amigo daqui. Confesso que não senti magia alguma (a palavra acima foi só para enfeitar o título). Mas que é bonito, é, muito bonito, embora estivesse nublado no dia em que estive por lá e a habilidade do fotógrafo não estivesse à altura da paisagem.

Sem esquema turístico, como prefiro, o primeiro passo é pegar um ônibus urbano (ou táxi, claro) até o Porto da Ceasa। Daí, toma-se uma lancha para Careiro (há sempre lotações), pagando de R$ 3,00 a R$ 5,00. Um percurso de 10 a 15 minutos, durante os quais você passa das águas negras para as barrentas. O contraste é gritante.


Rio Negro: belo flagrante na chegada ao Porto da Ceasa (Manaus)

Porto da Ceasa é Rio Negro e Careiro já é Rio Solimões। Quando você desembarca em Careiro, descobre que é Careiro da Várzea (Careiro, só, é o nome de outro município, houve desmembramento)। O visitante tem aí duas opções, dois portos à disposição: um num povoado do município e outro na sede, na cidade de Careiro da Várzea propriamente dita. Uma tranquila cidadezinha do interior, onde tudo tem a ver com a beira do rio.

Nosso herói na escadaria que dá acesso ao porto de Careiro da Várzea


Águas barrentas: a todo momento há lanchas saindo e chegando a Careiro
Ponta Negra

Trata-se da mais conhecida praia de Manaus. É o nome também do bairro, na Zona Oeste da cidade, ponto turístico, área nobre, muitos edifícios de classe média alta, está aí o luxuoso Tropical Hotel, onde se hospedam as celebridades. É o local dos festejos de fim de ano, como Farol da Barra, em Salvador, ou Copacabana, no Rio. Conheci a praia, tomei banho nas agradáveis águas do Rio Negro.

Para quem conhece a belíssima orla baiana, não é lá grande coisa. Porém, me avisam, no verão (verão deles aqui, de junho a novembro, meses sem chuva e mais quentes), o rio baixa e as praias são bem maiores. Atualmente, as águas do Rio Negro estão subindo, chove todos os dias, alternadamente, chuva, sol, tempo nublado. É inverno, mas todo santo dia a temperatura oscila de 24 a 30, 32 graus.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Ka'apora'rãga e as mães-da-mata

(história contada por Siriwã Tawató)

Dentro da floresta, cada lugar, cada gruta, tudo é mágico। Ao redor de cada sapopema há um espírito. Os seres que habitam a selva estão por toda parte, olhando, ouvindo, descansando debaixo das árvores ou nos seus galhos. No meio de tanto mato nada aparece, mas o ser humano sabe que seus movimentos estão sendo observados. Todo vegetal tem sua mãe protetora, e nada foge aos olhos da poderosa mãe de todas elas, a senhora Ka'apora'rãga – espírito protetor da floresta.


Ela foi encarregada de cuidar do mundo vegeral। Monãg é seu grande amigo e Anhãga é seu hóspede, assim como todos os seres fantásticos. Entre eles está a Tapirayawara, espírito protetor dos felinos, e Yanauy, espírito protetor dos cachorros. A casa de Ka'apora'rãga é o mundo natural, e todas as entidades naturais precisam dela para sobreviver. Assim, a casa da hospitaleira Ka'apora'rãga é a morada dos Kurupyras, dos Jumas, dos Mapinguarys, dos Waurá-Anhãgas, das visajes, dos bichos visajentos, etc. E todos têm que ajudar a protegê-la e cuidar dela, por isso castigam quem a maltrata. Por gratidão à senhora Ka'apora'rãga são incapazes de derrubar uma árvore de sua morada ou de quebrar um só de seus galhos.


Ka'apora'rãga, por sua vez, além de hospitaleira é bondosa। Monãg aprecia seu trabalho. Ela é o mais amistoso de todos os espíritos, não tem nenhum inimigo natural. Convive bem com todas as entidades, inclusive com Anhãga e seus demônios Waurá-Anhãga. Esses demônios, aliás, são os verdadeiros ajudantes da Ka'apora'rãga e, na verdade, fazem um grande bem à natureza ajugentando aqueles que a depredam.


Certo dia, depois que nós, humanos, fomos criados por Wasiry, Ka'apora'rãga nos disse:
- Vocês estão surgindo agora e são como a menina-dos-olhos de Wasiry. Eu os hospedarei, darei amor aos seus filhos. Vocês poderão usufruir meus bens e extrair de minha casa o alimento para seu sustento. Serão felizes convivendo comigo. Mas o que poderão me dar em troca? Pois bem, vocês poderão me pagar cuidando dos meus animais, das minhas árvores e dos meus minerais.
Ka'apora'rãga quis dizer que os seres humanos deveriam cuidar da natureza porque viveriam nela e dela tirariam seu sustento। Esse foi o acordo que Ka'apora'rãga fez com os nossos avós, mas muitas vezes nos esquecemos de cumpri-lo. E ela nos castiga sempre que ultrapassamos o limite de sua compaixão.



(Conto extraído do livro Murũgawa – Mitos, contos e fábulas do povo Maraguá, de autoria de Yaguarê Yamã, 33 anos, escritor indígena do Amazonas formado em Geografia em São Paulo, cujo nome de branco é Ozias Glória de Oliveira).
Obs। de Jadson: Monãg é o deus do bem, enquanto Anhãga é o deus do mal. Wasiry é filho de Monãg e foi enviado pelo pai para criar todas as coisas e seres da terra, de acordo com as crenças dos Maraguá, povo do alto Amazonas.


Gostei demais, tanto que quis compartilhar com vocês.


Os índios – hoje denominados mais adequadamente povos originários, nome bonito e digno - são (ou eram) os verdadeiros ecologistas, ambientalistas, defensores da natureza, amantes da Terra Mãe। Pena que nós, os ditos civilizados, os tenhamos exterminado (quase), sufocado sua cultura, desprezado sua mitologia. Mas o tempo, quem diria? Depois de 500 anos, eles começam a dar as cartas na região andina. Viva!