sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA QUE PARIU 12 MÉDICOS: CASO EXEMPLAR DO “MILAGRE” DAS POLÍTICAS INCLUSIVAS

(Foto: Smitson Oliveira - Seabra/Chapada)

O exemplo vem da Chapada, na Bahia: dentre os filhos/filhas de descendentes de africanos escravizados está a médica Maria de Lourdes Moreira (Dra. Lurdinha – foto acima), a primeira quilombola a entrar (e se formar) no curso de Medicina da UESB.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor do Blog Evidentemente

Uma comunidade quilombola, constituída atualmente por cerca de 80 famílias, conseguiu um feito memorável: graças às políticas públicas inclusivas, como as cotas raciais nas universidades, incrementadas principalmente a partir dos governos de Lula, já formou 12 médicos e médicas entre seus filhos.

Além de vários outros profissionais graduados em áreas como Enfermagem, Nutrição, Economia, Fisioterapia, Serviço Social, Biotecnologia, Biomedicina e Advocacia.

Para ser mais exato, são três pequenos povoados que se juntaram numa única comunidade remanescente de quilombo, no processo de reconhecimento e certificação pela Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura: Barra, Bananal e Riacho das Pedras, no município de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, interior da Bahia. O reconhecimento foi publicado no Diário Oficial da União em 12/09/2005.

É formada por descendentes de povos africanos escravizados que, ao longo de séculos, vêm enfrentando as mazelas decorrentes da miséria, abandono e preconceito, situação de modo geral comum à de quase uma centena de comunidades quilombolas da Chapada. No caso desta - em especial a parte de Riacho das Pedras -, ainda estão na lembrança os enormes prejuízos causados aos habitantes pela construção nas suas terras da barragem do rio Brumado, nos anos 1970/1980.

Diante da história de sofrimento de gerações e gerações, o registro de superação aqui anunciado pode ser visto realmente como um milagre, o verdadeiro milagre brasileiro, se nossas antenas estivessem direcionadas para o interesse da maioria, especialmente as camadas mais carentes.

São passos rumo à busca da superação da dura realidade social e cultural forjada sob o tacão de 350 anos de escravidão negra: pobres, pretos e mulheres se tornando doutores.

Infelizmente, na contramão desse processo, as forças dominantes do Brasil atual, cuja face mais visível é o mal chamado bolsonarismo, tentam destruir tais políticas buscando a manutenção – ou até o alargamento, se puderem – das desigualdades.

Mas, deixemos o discurso político-ideológico e voltemos aos fatos.

Uma doutora negra, de família pobre e... mulher, uma quilombola

Doutora Lurdinha – Maria de Lourdes Silva Aguiar Moreira, 33 anos – é uma dessas/desses 12 médicas/médicos. Nasceu em Livramento de Nossa Senhora, cidade que fica a 9 quilômetros de Rio de Contas. Filha de peão de estrada/boia-fria em São Paulo que só sabe escrever o nome. E de empregada doméstica, que trabalhava em casa duma professora e chegou a ser também professora.

“Seo” Salvador e a professora Bernardina (os nomes de seus pais) tiveram mais sete filhos. Por enquanto, apenas Lurdinha concluiu o curso superior, mas tem um irmão que estuda Educação Física e uma irmã fazendo Pedagogia.

Lurdinha foi alfabetizada na zona rural de Livramento; aos 10 anos foi morar com uma tia em Rio de Contas, estudou aí o fundamental; quanto ao ensino médio fez dois anos em Livramento e o terceiro já em São Paulo, concluído aos 18 anos, em 2003. A partir daí parou de estudar durante cinco anos, trabalhando na capital paulista.

Após a morte da mãe, em 2008, retorna a Livramento e, em seguida, foi estudar em Vitória da Conquista, onde, no ano seguinte, acabou entrando no curso de Medicina da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Foi a primeira quilombola a conseguir tal façanha na UESB (a primeira a entrar e se formar).

Mas, para isso, teve que enfrentar e vencer algumas batalhas, sendo fundamentais os incentivos provenientes da certificação da Fundação Palmares, cujo processo já tinha sido concluído em 2005.

E também o apoio de entidades e militantes ligados ao movimento negro e de defesa das comunidades quilombolas em Conquista: fez o cursinho pré-vestibular Dom Climério, coordenado pela ativista negra Elizabeth Ferreira Lopes; e morou na Casa do Estudante Zumbi dos Palmares, hoje Dandara dos Palmares, que foi criada a partir dum projeto do então deputado federal Luiz Alberto (PT-Bahia), com a participação da prefeitura de Conquista.

Formada em maio de 2016, Lurdinha começa a vida de “doutora”, na região mesmo da Chapada: primeiro em Lençóis, depois em Seabra, trabalhando no Hospital Regional da Chapada, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e na Unidade Básica de Saúde (UBS) do distrito de Velame.

Agora, no final de 2018, se transferiu para o município próximo de Wagner, integrando o programa Mais Médicos (e continua com plantões em Seabra - no Hospital Regional  e na UPA).

- E aí, doutora Lurdinha, o que lhe diz esta sua trajetória?

- Minha trajetória na universidade não foi fácil, mas foi um tempo de crescimento pessoal e profissional. Provei os sabores doces e amargos – olhares desacreditados por parte de alguns, indiferença e preconceitos -, mas sempre estive focada em conquistar o meu objetivo principal. Foram anos de estudo, anos de dedicação exclusiva à Medicina. Acredito que o resultado foi excelente e espero demonstrar isso no desempenho das minhas atividades.

- Uma curiosidade: o fato de sua mãe ser professora serviu de incentivo?

- Sim, muito. Tive (e tenho) como inspiração permanente a minha mãe (in memoriam) Bernardina Silva Aguiar, que sempre me incentivou a estudar. Eu sempre presenciava a minha mãe estudando e o gosto pela leitura partiu dessa convivência.

(Matéria baseada em informações da Dra. Lurdinha e pesquisa na Internet)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

AMÉRICA LATINA: 2018 – UM ANO INDIGESTO PARA AS FORÇAS PROGRESSISTAS

Ilustração reproduzida de Nodal

“O pior que aconteceu foi a vitória de Jair Bolsonaro no Brasil, não só pelo que sofrerá o país, mas também porque instaura um “ambiente de época” reacionário que nos afetará a todos”.
Por Rafael Cuevas Molina (*) – transcrito do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 17/12/2018 (o título original é apenas ‘América Latina: 2018’; os inter-títulos abaixo também são da edição deste blog).
Brasil – volta revanchista e cínica do neoliberalismo
El 2018 ha sido en general un año de resistencia y retrocesos para las fuerzas progresistas y de izquierda de América Latina. Lo peor que pudo haber pasado es la victoria de Jair Bolsonaro en Brasil, no solo por lo que sufrirá ese país, sino porque instaura un “ambiente de época” reaccionario que resentiremos todos. Es la vuelta revanchista y cínica de un neoliberalismo chabacano y prepotente que emula a su epígono del Norte. En el 2019, quedaremos apresados entre estos dos trogloditas. No son buena noticias.
Venezuela – inflação disparada, boicote, contrabando, sanções do império
Es mala noticia la situación económica de Venezuela, que parece no tener salida a pesar de los variados y denodados esfuerzos del gobierno chavista. Este año se ensayó el Petro y hubo un atisbo de esperanza, pero la inflación sigue disparada, el boicot y el contrabando hacia Colombia va viento en popa y las sanciones de los Estados Unidos son férreas. Sobrevivir en esas circunstancias ha sido una verdadera hazaña.
Equador – perseguição judicial que virou moda
Ha sido también mala noticia que Lenin Moreno continúe echando para atrás las principales conquistas del gobierno de Rafael Correa, y que lo persiga judicialmente, acorde con la nueva modalidad de persecución establecido contra los dirigentes del progresismo latinoamericano. Correa es un intelectual brillante y un líder político carismático que no podía andar suelto por ahí porque podía volver “y ser millones”, como vaticinó Evita en la Argentina. La buena noticia en este caso fue que ni siquiera la Interpol le hizo caso a Moreno, y desistió de perseguir a Correa en el extranjero.
Argentina – endividada para a eternidade
Y qué decir de Argentina, con Mauricio Macri endeudando al país para la eternidad y haciendo exactamente todo lo contrario que dijo que haría en el gobierno cuando fue candidato. La buena noticia es que a Cristina Fernández no se le pudo imputar de nada, aunque hicieron el show y el escándalo, acorde con ese ambiente de época del que hablábamos antes, y hubo quienes soñaron con verla tras las rejas como tienen a Lula en Brasil.
Chile, Colômbia, Paraguai, Brasil e Argentina – disputa entre quem fica melhor com os EUA
Mala noticia también la victoria de Sebastián Piñera en Chile, de Iván Duque en Colombia y Mario Abdo Benítez en Paraguay. Toda una constelación que, tal cual Bolsonaro en Brasil y Macri en la Argentina, hacen competencia por ver quién queda mejor con los Estados Unidos y cómo atornilla mejor a sus respectivos pueblos.
México – abre-se uma janela de esperança
Es un panorama que solo se ve interrumpido por la victoria de Andrés Manuel López Obrador en México, que definitivamente abre una ventana que oxigena este panorama desolador y oscuro. La victoria de Obrador fue largamente anunciada, pero no por eso es menos esperanzadora, y así lo demostró el mismo pueblo mexicano que lo recibió entusiastamente cuando, por fin, asumió el poder gubernamental al término de esa larguísima transición presidencial que se estila en México.
Classes médias e amplos setores populares respaldam governos de direita
América Latina ha dado un vuelco hacia una dirección opuesta a la que prevalecía hace tres o cuatro años. Las clases medias y amplios sectores populares optan por respaldar gobiernos de derecha, muchos de ellos después de haber recibido los beneficios sociales y económicos que instauraron gobiernos progresistas, y que les han permitido ascender en la escala social.
Interrogações – leste europeu tomado por forças conservadoras, feroz repressão na França
La dimensión ideológica es muy importante para que se dé esta situación, pero no es suficiente para responder a las interrogantes que se abren respecto al porqué de esta situación, sobre todo cuando se puede observar cómo en otras latitudes se repiten situaciones similares: Europa del Este tomada por fuerzas conservadoras, muchas veces de corte neofascista, que hacen gala de su xenofobia, homofobia y racismo, y también impulsan agendas que profundizan las medidas económicas que tanto daño han hecho a los Estados de bienestar; Francia explota ante estas medidas y se desata la más feroz represión de la que tengan memoria los franceses; los disturbios se esparcen hacia los países vecinos y se yergue la amenaza de una sublevación popular generalizada de horizonte incierto.
Entretanto, García Linera, pensador e vice-presidente da Bolívia (talvez o único país que vem ostentando, na última década, indicadores econômicos invejáveis), parece não se abalar: “Esgotou-se o combustível neoliberal, este é um neoliberalismo zumbi”. Será!?
Terminamos el 2018 con los vientos contaminado con el humo de los gases lacrimógenos con las que son reprimidas las protestas ciudadanas. No hay mal que dure cien años parece ser la idea que subyace al análisis que hace Álvaro García Linera respecto a esta vuelta en tropel de la derecha continental: “habrá una noche oscura” conservadora, dijo en Buenos Aires en el Foro del Pensamiento Crítico, pero aseguró que “no será una larga” porque “el neoliberalismo está agonizando”. Esto porque tiene “dos límites intrínsecos: es fosilizado y es en sí mismo contradictorio”. Y agregó: “Tenemos un neoliberalismo fallido de corto aliento y un mundo incierto. Se ha agotado el combustible neoliberal, este es un neoliberalismo zombi”.
(*) Presidente da AUNA (Associação para a Unidade da Nossa América) - Costa Rica