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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A REVOLUÇÃO É FEMINISTA (Somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar)

Foram meses de grande mobilização das argentinas pela descriminalização do aborto, mas o projeto de lei, aprovado na Câmara dos Deputados, foi derrubado no Senado na última madrugada (Foto: Página/12)

Precisamos de soberania sobre nossos corpos e nossas vidas para não sermos cidadãs de segunda classe. Se não podemos decidir sobre nossos corpos, como disse Simone de Beauvoir, somos simplesmente escravas.

Por Marta Dillon – trechos traduzidos de artigo do jornal argentino Página/12, de 09/08/2018 (o complemento do título e o destaque acima são da edição deste blog)

(…) uma história que conserva a memória do genocídio das bruxas e que se rebela contra a morte gritando: somos as netas de todas as bruxas que nunca puderam queimar. Porque em algum momento (a las mujeres) nos queimaram por tomar decisões sobre nossos corpos, nos queimaram porque nos reuníamos entre nós mesmas, porque nossa capacidade reprodutiva necessitava ser apropriada para reproduzir somente força de trabalho. Não nos esqueçamos disso. É o mesmo poder que agora pressiona a mais rançosa –rançosa porque cheira mal – da liderança política para que decida  contra as mulheres. O mesmo poder que sempre esteve contra todas as liberdades. A Igreja Católica e as igrejas evangélicas pretendem falar por nós; usam seu poder de veto porque se sentem ameaçadas, porque não têm como sustentar a moral que proclamam quando sua instituição está corrompida pela pedofilia, pelos abusos contra as freiras, pela organização patriarcal onde as mulheres não têm nenhum poder. Pretendem nos arrebatar nossas vidas, nossos prazeres, nossos desejos; pretendem ocultar o que é uma evidência concreta: a maternidade tem que ser desejada e é por isso que abortamos. O fizemos por muitos anos com vergonha, com temor devido à criminalização, com medo de não saber se estávamos nas mãos de quem sabia o que fazia. O fizemos, abortamos na clandestinidade, porque isso é defender nossa liberdade. E a liberdade não se pede, se toma, se busca. Mas já não queremos mais por em risco nossa vida, não tem sentido, nossa insubmissão é essa: defender nossas vidas como cada vez que dizemos #NiUnaMenos. Basta de femicídios. Basta de femicídios de Estado, que isso e não outra coisa é cada mulher que morreu ou que morre agora mesmo por ter que recorrer a um aborto inseguro.

Que argumento puderam colocar os defensores dos antidireitos? Que argumento de peso se pode (pôde) escutar, nestes meses de debate, que tivesse a força suficiente para contradizer que nós precisamos de soberania sobre nossos corpos e nossas vidas para não sermos cidadãs de segunda classe? Se não podemos decidir sobre nossos corpos, como disse Simone de Beauvoir, somos simplesmente escravas.

(...)

Porque à clandestinidade não se volta, aborto se diz em voz alta, as maternidades serão desejadas ou não serão. E a revolução que estamos gestando, sem dúvida, é feminista.


Para ler o texto na íntegra, em espanhol: