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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

FAÇANHA DO PODER É FAZER UM NEGRO POBRE VOTAR NUM BOLSONARO (parte 1)


Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro)

Esta é a grande façanha da direita (ou do PODER): fazer um negro pobre votar num Bolsonaro da vida (um amigo meu disse no Facebook que mulher, negro ou gay votar em Bolsonaro é o cúmulo da burrice).

Ou fazer um pobre votar num rico, um rico assim como o “garoto milionário” ACM Neto ou no “gestor” Dória; o oprimido votar no opressor, o explorado votar no explorador, o escravo puxar o saco do senhor, o cara optar “livremente” pela defesa dos interesses que não são os seus.

Esta é a grande façanha do PODER, assim com maiúsculas para tentar tirar o verdadeiro poder das sombras. Agir à margem da lei é a sua grande especialidade (no espanhol nossos hermanos latino-americanos usam o termo “poderes concentrados”).

No Brasil de hoje quais seriam tais poderes? Vamos tentar apontar (quem sempre toca nisso é o professor Fábio Konder Comparato – é preciso desconstruir a falsa percepção de que o presidente da República manda tudo, pode tudo):

Primeiro, o mais poderoso dos poderes atualmente – banqueiros, rentistas e especuladores, cujos interesses estão entrelaçados com o capital internacional/império estadunidense (não é à toa que quase a metade do orçamento da União é destinada ao pagamento da chamada dívida interna);

Depois vêm grande empresariado, narcotráfico, mineradores, agronegócio (faltou algum ramo importante do mundo empresarial?).

Como atuam na clandestinidade na nossa democracia representativa, seus interesses aparecem e são exercidos através do pensamento e ação dos poderes formalmente constituídos – Executivos, Parlamentos e Justiça -, nos quais se trava uma  complexa luta intestina, cujo resultado depende dos avanços, recuos e ziguezagues da badalada correlação de forças em cada conjuntura.

Temos que levar em conta fatores fundamentais, hoje, no Brasil, num momento em que forças e manifestações de claro viés fascista avançam e fortalecem uma candidatura como a de Bolsonaro :

Os monopólios dos meios de comunicação (gosto de chamá-los mídia hegemônica) – sempre identificados com os interesses antipopulares e antinacionais -, numa orquestração afinadíssima com a militância político-partidária de juízes, procuradores e policiais da PF entrincheirados na Operação Lava Jato.

Quadro que é agravado pela atuação de um STF e um TSE acovardados/acuados.

Para agravar a situação, do ponto de vista das forças de esquerda e centro-esquerda, temos também o fortalecimento de partidos de direita no Congresso, mesmo levando em conta o bom desempenho do PT que saiu da eleição ainda com a maior bancada.

E para coroar o quadro de dificuldades, temos um fenômeno novo na conjuntura eleitoral: o protagonismo cada dia mais às claras de oficiais superiores das Forças Armadas.

Queria neste artigo dar uma ideia de como se entrelaçam as engrenagens subterrâneas com as engrenagens formais do jogo do poder. E como tais engrenagens fazem a cabeça e o coração dos brasileiros, levando um pobre, um trabalhador, um desempregado, um excluído a votar num Bolsonaro.

Para concluir, queria apresentar dois livros que li recentemente e que me ajudaram a entender um pouco essas tais engrenagens: ‘A elite do atraso’, do sociólogo brasileiro Jessé Souza, e ‘A formação da mentalidade submissa’, do professor espanhol (já morto) Vicente Romano. Espero concluir antes da eleição num segundo artigo.

2 comentários:

Unknown disse...

Caro Jadson,

Muito bom!

O tema é deveras muito interessante. Lembra-me um grande livro, um clássico da Filosofia "Discurso sobre a Servidão Voluntária".
Votar mas não somente votar e até assimilar absorvendo como suas próprias as idéias e a visão de mundo daqueles que representam interesses exatamente contrários e que não compartilham de uma identidade social, cultural, vivencial. Este fenômeno precisar mesmo de muita reflexão.

Laranjeira

irenogunes@gmail.com disse...

Penso que isso diz respeito ao próprio processo intrapsiquico primário de formação de uma personalidade no qual, inconscientemente, um indivíduo internaliza a imagem de alguém que lhe tem alguma forma de ascendência - parental, pedagógica, econômica, hierárquica, etc. - e exterioriza o discurso daqueloutro como próprio. É pura imitação mecânica e automática de uma memória trabalhada durante o sono.