domingo, 8 de junho de 2014

VENEZUELA: DORMINDO COM O INIMIGO – Por Aram Aharonian (parte 1)




(Foto: Nodal)
Apesar da sua gravidade, a denúncia (sobre conspirações, planos golpistas e magnicídio) ficou numa nova confrontação midiática, batalha que no exterior está perdida, já que a solidariedade ao governo e o repúdio às ingerências dos Estados Unidos em seus assuntos internos – posição da Unasul, dos 120 países Não Aliados, da Rússia - são invisibilizados.

Por Aram Aharonian, jornalista uruguaio, viveu na Argentina e agora vive na Venezuela - do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe, de 02/06/2014

Sem dúvida alguma, a única coisa que sustenta a oposição, em seus diferentes matizes, é sua aposta unívoca ao caos. Debilitada a estratégia de rua e ante o repúdio popular (de mais de 80% da população, segundo distintas pesquisas) contra atos violentos, os meios de comunicação opositores centram atualmente  sua estratégia num agressivo ataque à gestão econômica, com a meta de demonstrar a deterioração do apoio ao socialismo no país e no exterior.

Os indícios estão aí: continuam as guarimbas (barricadas na rua), mais focalizadas, mais esporádicas e, talvez,  mais violentas. Entretanto, parece estar entrando em preparação a chamada “segunda fase” da conspiração, enquanto que até agora “os morros não baixam” (os chavistas dos bairros populares [das “barriadas”, como dizem lá, das “favelas”, como dizemos aqui] não se confrontaram nas ruas com os opositores). Baixarão?
Apostemos no caos
Ante uma pobre resposta comunicacional oficial, a imposição do imaginário coletivo dum caos econômico-social abre caminho a partir dos meios (de comunicação) comerciais cartelizados: “9 milhões de venezuelanos em situação de pobreza” (…) “Venezuela regressou aos índices de 2008”, dizem as manchetes.

O porta-voz da ONG Provea – alentada pela ordem dos jesuítas - afirma que “com Maduro estão se revertendo os avanços da gestão de Chávez em moradia, alimentos, saúde e inflação”. A socióloga Maryclén Stelling assinala que o caótico quadro se completa com alarmantes notícias de que o país se aproxima duma recessão, que o montante malversado na Cadivi (órgão encarregada do controle do câmbio) equivale a 95% das reservas e o déficit de dólares obriga o governo a elevar a dívida do país.

E aparecem os “experts”, que recitam o mesmo roteiro: o governo descumpriu compromissos econômicas e não há divisas suficientes para pagá-los, enquanto denunciam que a crise e a escassez fazem disparar furtos, roubo de alimentos e aumentam as amputações de pernas por falta de insumos médicos. Tudo vale nesta guerra simbólica.
Mudos
O instituto de pesquisas Datanálisis, que tem funcionado como roteirista da oposição,  alerta que a divisão na MUD (Mesa da Unidade Democrática, como se chama a aliança dos partidos opositores) impede capitalizar a queda de Maduro. “A MUD é um espaço de encontro que está afetado pelas características das cúpulas que existem entre a visão mais radical e a mais moderada da oposição”, apontou seu diretor, Luis Vicente León.

No entanto, as eleições municipais de 25 de maio, que marcaram o amplo triunfo opositor em duas prefeituras (as duas esposas de dois prefeitos opositores, afastados e condenados à prisão por envolvimento nos atos violentos, foram eleitas com ampla vantagem de votos) voltam a demonstrar que toda a direita se une, apesar de suas diferenças, na hora de concentrar em seu objetivo comum e que a base social opositora vota massivamente para respaldar esse objetivo.

E enquanto o governo denuncia nomes de conspiradores e plano golpista e magnicida, Henrique Capriles, duas vezes candidato presidencial opositor, banaliza a grave denúncia e afirma que “Nicolás inventa histórias para encobrir o debacle econômico”.

Eleazar Díaz Rangel, diretor do matutino Últimas Notícias (o jornal privado de maior circulação no país) se pergunta se o governo esteve consciente de qual seria a reação dos envolvidos, de toda a oposição, a democrática e a violenta, e dum muito amplo setor midiático. “Era de supor que em todo esse amplo espectro rechaçariam a denúncia, a qualificariam de montagem, de puro teatro, inclusive pediriam provas dos planos de magnicídio!, que são pretextos para ocultar a crise do país e tentar distrair a atenção pública, nacional e internacional. Como efetivamente aconteceu”.

O historiador Vladimir Acosta assinala: “Apesar de se acreditar que eles estão metidos nisso, o problema é que se tem que demonstrá-lo perante a justiça, mas essas provas ainda não são suficientes”.

Apesar da sua gravidade, a denúncia ficou numa nova confrontação midiática, batalha que no exterior está perdida, já que a solidariedade ao governo e o repúdio às ingerências dos Estados Unidos em seus assuntos internos – posição da Unasul, dos 120 países Não Aliados, da Rússia - são invisibilizados. A falta duma política comunicacional novamente se fez sentir, e como!

Enquanto a Câmara de Representantes (dos EUA) aprovava um projeto de legislação que imporia  sanções econômicas contra funcionários venezuelanos, uma carta de membros do Congresso dirigida ao presidente Barack Obama expressou um forte repúdio contra a medida. A missiva representa um avanço decisivo, ao reconhecer que a política dos EUA sobre a Venezuela faz parte duma estratégia geral cujo efeito tem sido o crescente isolamento dos EUA na região, indica o analista estadunidense Mark Weisbrot.

Além da Venezuela, os Estados Unidos não contam com embaixadores nem na Bolívia nem no Equador, e suas relações com o Brasil têm estado em seu ponto mais baixo durante décadas, muito piores do que nos anos Bush. Se estes membros do Congresso provocam um novo debate, o governo de Obama - e seus aliados de direita - com certeza perderão, aventura Weisbrot. (Continua)

Tradução: Jadson Oliveira

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