domingo, 22 de junho de 2014

ALÍ RODRÍGUEZ: “AVANCEMOS NAS AÇÕES CONCRETAS” (Parte 1)



Alí Rodríguez: "Não há um integracionômetro, mas obviamente a situação mudou positivamente nos últimos 15 anos" (Foto: Página/12)
Entrevista com o venezuelano Alí Rodríguez, secretário geral da Unasul.

Foi multiministro de Hugo Chávez e hoje ocupa na Unasul o mesmo posto inaugurado por Néstor Kirchner. Alí Rodríguez Araque explicou numa entrevista ao Página/12 que só com mais integração a América do Sul poderá competir com as corporações gigantescas que se sustentam mediante o processo de concentração econômica. O papel dos trabalhadores. Um plano para controlar os recursos naturais.

Por Martín Granovsky, no jornal argentino Página/12, edição de 15/06/2014

Para os venezuelanos, o esporte mais popular é o beisebol. Ou talvez o seja para todos menos um: Alí Rodríguez Araque, o secretário geral da Unasul (União das Nações Sul-americanas). Na sexta-feira, dia 13, Rodríguez não começou sua conferência na Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho (UMET) até que tivesse terminado o jogo Holanda-Espanha (pela Copa do Mundo). Um 5 x 1 que este advogado e político de 76 anos pareceu acompanhar sem rancores apesar daquele “Por que não te calas?” que Juan Carlos de Borbón dedicou em 2007 a Hugo Chávez na cúpula íbero-americana do Chile. Juan Carlos recém abdicou, Chávez está morto e Alí, como o chamam seus amigos do continente, é um dirigente realista. Tão realista quanto obcecado por construir um nível de integração mais concreto na América Latina.

Página/12 pôde entrevistá-lo após a conferência, que havia começado depois da apresentação do reitor Nicolás Trotta e dos cumprimentos do vice-chanceler Eduardo Zuaín e do assessor da presidenta argentina para a região, Rafael Follonier.

“Às vezes digo a meus filhos que teria gostado ter um irmão mais velho”, contou Follonier, que colaborou com Néstor Kirchner na Secretaria Geral da Unasul “E teria gostado que esse irmão mais velho fosse como Alí.” Apresentou Rodríguez como “um pedaço grande da história sul-americana, das lutas por mais democracia e maior qualidade de vida e da busca de mais integração”. E colocou o último período da América do Sul num marco de longa, muito longa duração. “Nos últimos tempos se deu um processo espetacular de integração em comparação com os 200 anos anteriores da história”, disse Follonier.

–Há forma de medir o nível de integração alcançado pela América do Sul? – perguntou Página/12 a Rodríguez Araque.

–Não há um integracionômetro, mas obviamente a situação mudou positivamente nos últimos 15 anos.

–Está considerando a assunção de Hugo Chávez como presidente.

–Sim, ainda que estes processos sejam longos e cada país vai somando sua própria experiência. As dinâmicas de integração não são atos de magia. Não funcionam porque alguém diga “faça-se a integração” e outro verifique que se fez. São processos históricos, políticos, culturais, que levam tempo e têm um movimento ondulatório. Há que ver a tendência geral. Determinar se vamos avançando ou estamos retrocedendo. Vejo que hoje chegamos a una espécie de patamar. A integração, ademais, sofreu com a morte de Néstor Kirchner e de Hugo Chávez. Porém me parece que não temos que ficar na lamentação nem na simples homenagem. Avancemos nas concretudes (“terrenalidades”). Fatos concretos. Ações. Se um dia todos esses países da América do Sul, da América Latina e do Caribe se integram e desenvolvem suas economias, poderão competir em igualdade de condições com as corporações gigantes que se desenvolvem no norte. O que hoje caracteriza o mundo capitalista é a grande concentração de capital. É um processo que se aprofunda dia a dia e cria corporações cada vez maiores. Enormes. E frente a este panorama nós, o que fazemos?

–Você é secretário geral da Unasul. E então?

–Foi um passo de grandes proporções o tratado de criação da Unasul, que por sua vez é a expressão de mudanças muito importantes que ocorreram em toda a região. Assim como o neoliberalismo trouxe tantas desgraças para os povos, agudizou tanto o conflito social que provocou também um desenvolvimento da consciência dos povos. Parte desse desenvolvimento foi o surgimento duma nova liderança. Não falo dum só país. Falo de Hugo Chávez, de Lula, de Néstor Kirchner, de Evo Morales, de Rafael Correa... Hoje a consciência dos povos é muito diferente da que caracterizou esses mesmos povos nos dias das grandes ditaduras e nos dias posteriores às grandes ditaduras, e muito superior à etapa dos governos neoliberais. (Continua)

Tradução: Jadson Oliveira

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