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domingo, 9 de outubro de 2022

NÚMEROS INDICAM FAVORITISMO DE LULA, MESMO COM DERROTA NO SUDESTE

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert)
"Cenário aponta para a derrota do bolsonarismo - ainda que por margem mais estreita do que gostaríamos de ver"

Por Rodrigo Vianna – jornalista, âncora do programa Boa Noite 247 – em 05/outubro/2022 (atualizado em 06/outubro/2022)

Lula teve ótima votação no primeiro turno, dentro de um cenário que este jornalista por exemplo sempre desenhou nas transmissões da TV 247: o mais provável, pela história e pelas curvas dos candidatos, sempre foi eleição em dois turnos. Então, 48,5% dos votos para alguém perseguido durante quase dez anos foi uma vitória tremenda.

O que espantou os setores democráticos foi a arrancada para a vitória no Congresso de personagens nefastos ligados a Bolsonaro, aliada ao fato de que o capetão obteve 43% dos votos, ficando a apenas 5 pontos de Lula.  

Nos últimos dias, vejo certo desespero entre apoiadores de Lula e da Democracia. "Ah, Bolsonaro teve 1,7 milhão de votos de vantagem sobre Lula em São Paulo, isso é muito perigoso".

Oh, que espanto! Perigoso, é. Mas o PT desde 2006 perdeu todas as eleições presidenciais em São Paulo. Mesmo assim, foi capaz de ganhar nacionalmente (com exceção de 2018).

Dessa vez, a derrota em São Paulo não foi feia. Lula venceu na capital e na região metropolitana. Ganhou ou perdeu por pequena diferença em cidades médias/universitárias (Araraquara, São Carlos). E perdeu por margem maior no interior profundo - que tem hegemonia do agro e identidade mais próxima com o Centro Oeste do Brasil.

Foi um susto? Ok. Mas a turma talvez esteja esquecendo de olhar para a fortaleza impressionante que Lula tem no Nordeste.

"Ah, são estados menos populosos do que São Paulo, então não fazem tanta diferença". Opa, calma. Olhe para os números que trago a seguir.

Só no estado do Ceará, Lula abriu 2,2 milhões de votos de diferença no primeiro turno. Ou seja: o Ceará compensou a derrota em São Paulo. E ainda sobraram quase 500.000 votos de lambuja para equilibrar também a derrota petista no Espírito Santo. A equação é: CE = SP + ES.

Da mesma forma, a vantagem estrondosa obtida por Lula na Bahia (um estado imenso) compensou a derrota no Rio, Paraná e Santa Catarina. 

O resumo é: Lula perdeu "de pouco" em SP/RJ e ganhou "de muito" no Nordeste. Motivo para salto alto? Nenhum. Mas tampouco para desespero.

Sejamos pessimistas e imaginemos que Lula não consiga recuperar terreno no Sudeste e no Sul, no segundo turno. Pensemos no seguinte quadro:

- Bolsonaro amplia a diferença em São Paulo, no segundo turno, para 2,5 milhões de votos sobre Lula;

- no Rio, a diferença pró Bolsonaro cresce de 1 milhão para 1,5 milhão de votos;

- e em Minas o apoio de Zema faz mágica e Bolsonaro inverte o jogo, em vez da derrota por 600 mil votos ocorrida dia 2, livra agora 600 mil votos sobre Lula, numa virara inédita em terras mineiras.

Somando isso tudo, Bolsonaro teria uma diferença de 5 milhões de votos no Sudeste. É bastante, eu sei. Mas é menos da metade da diferença que Lula deve abrir no Nordeste.

Bolsonaro tem apoio e máquinas estaduais em Minas, São Paulo e Rio. Lula tem apoio e máquinas fortes no Ceará, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e também no Pará da família Barbalho.

A seguir, uma simulação da diferença de votos, por região, supondo que no segundo turno Bolsonaro amplie a vantagem onde já venceu no primeiro (Sudeste, Sul e Centro Oeste), conquistando a maior parte dos eleitores de Ciro/Tebet/Outros e alguns brancos/nulos/abstenções; enquanto Lula faria movimento semelhante, ampliando as margens nos estados onde já venceu (Nordeste e parte do Norte).

* Sudeste: Bolsonaro abre 5 milhões de votos

(2,5 milhões SP, 1,5 milhão RJ, 600 mil MG, 400 mil ES)

* Sul: Bolsonaro abre 3,5 milhões de votos

(1,5 milhão PR, 1,5 milhão SC, 500 mil RS)

* Centro Oeste: Bolsonaro abre 1,5 milhão de votos

* Norte: Lula abre pequena vantagem de 500 mil votos, graças ao peso do Pará lulista

* Nordeste: Lula abre 13 milhões de vantagem 

(4 milhões BA, 2,5 milhões CE, 2 milhões PE, 1,5 milhão MA, 1 milhão PI, 2 milhões PB/AL/SE/RN)

A vantagem de 10 milhões de votos de Bolsonaro - obtida no Sul, Sudeste e Centro Oeste - é revertida pela diferença brutal pró-Lula no Nordeste: 13 milhões, pelas minhas simulações (feitas sem exagero, e sendo sempre mais "otimista" com Bolsonaro). 

Isso quer dizer que, por essa simulação "pessimista" para Lula, o petista ainda teria vantagem por margem entre 3 e 4 milhões de votos - muito parecida com a vitória de Dilma em 2014.

Agora, esqueça as contas.

O mais provável é que a vitória de Lula não seja tão apertada, porque ele tem condições de recuperar terreno no Rio (com Eduardo Paes e o PDT de Rodrigo Neves entrando pesado na campanha), reduzir danos em São Paulo e segurar vantagem pequena/empate em Minas. O Rio Grande do Sul é outro estado em que Lula pode reduzir diferença, a depender da aliança local com Leite do PSDB. 

Por isso tudo, sigo a dizer: o mais provável é que Lula chegue ao fim do segundo turno com uma vantagem na casa de 53 x 47 ou até de 54 x 46.

Não se trata do que dizem pesquisas, mas do voto lulista profundamente enraizado no Nordeste, em parte de Minas e em periferias de capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.  

Lula é favorito - a não ser que Bolsonaro consiga tirar uma quantidade significativa de votos do próprio Lula no segundo turno, algo absolutamente inédito (líder do primeiro turno jamais reduziu seu montante no segundo turno, desde 1989) e algo que a extrema-direita não conseguiu fazer até agora, mesmo batendo em Lula durante meses de campanha.

A vitória está garantida? Não. Será preciso lutar muito pela defesa da Democracia. Mas o cenário aponta para a derrota do bolsonarismo - ainda que por margem mais estreita do que gostaríamos de ver.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

SEABRA: MAIORIA DOS ELEITORES DERROTA PREFEITO E CONFIRMA FAVORITISMO DE JERÔNIMO

Rui Costa e Jerônimo (Foto: Internet)

Candidato do PT teve mais do dobro dos votos de ACM Neto: 17.363 (66,79%) x 7.855 (30,22%)

Por Jadson Oliveira (jornalista) - editor deste Blog Evidentemente - em 05/outubro/2022

Cumpriu-se a previsão: Jerônimo Rodrigues (PT), apoiado por Lula e pelo governador Rui Costa, foi amplamente vitorioso no município de Seabra, no coração da Chapada: obteve 17.363 votos (66%), enquanto ACM Neto (União Brasil) ficou nos 7.855 (30%).

O apoio do prefeito Fábio Lago Sul ao ex-prefeito de Salvador, anunciado três semanas antes da votação, mostrou ter sido energicamente reprovado pelos eleitores.

Não por acaso a maioria dos seabrenses tinha lançado contra o prefeito a pecha de “traidor” e “ingrato”, diante da atitude de Fábio depois do município ter sido beneficiado por inúmeras obras do governo petista.

A incompetência política do prefeito e o consequente desgaste ficaram comprovados nas urnas, como já tinha sido alardeado pelo governador, pelos dirigentes petistas locais e por outras lideranças, a exemplo do deputado federal Jorge Solla (PT), reeleito e um dos mais votados no município (2.271 votos).

Tal desgaste, aliás, ficou claro logo após a troca de lado do prefeito: o seu vice, Marlon Leite, anunciou que mantinha seu posicionamento ao lado de Jerônimo; e o próprio Fábio, para tentar ficar bem com o povo, anunciou que continuaria apoiando Lula, apesar de não apoiar seu candidato a governador na Bahia.

No próximo dia 30, no 2º. turno, lideranças do governo baiano e do PT de Seabra não têm dúvidas de que Jerônimo ampliará, ainda mais, sua vantagem sobre Neto.

Não só em Seabra, mas também no total do estado, onde o candidato do PT chegou a 49,45% dos votos (ACM Neto teve 40,80%): faltou menos de 1% para Jerônimo vencer no 1º. turno.

Registrando o placar, para presidente, em Seabra: Lula – 22.505 votos (83,85%) x Bolsonaro – 3.397 (12,66%).

terça-feira, 27 de setembro de 2022

“É FÁCIL PEDIR VOTO PRA LULA”

(Foto: Internet)
“Vocês estão perdendo o tempo aqui, eu e minha família, todo mundo aqui já vota em Lula”

Por Jadson Oliveira (jornalista) – editor deste Blog Evidentemente – em 27/09/2022

“É fácil pedir voto pra Lula, todo mundo gosta dele”, me diz um senhor de uns 70 anos, sentado num tamborete em frente duma casa comercial na pracinha principal do povoado de Lagoa da Boa Vista, município de Seabra, na Chapada, interior da Bahia. Boa recepção a um pequeno grupo de militantes que fazia campanha para “o time de Lula”, a menos de duas semanas da votação.

É fácil, é estimulante. É de atiçar os sentimentos ver uma garota de seus sete anos pedir uma estrela do PT e ficar extasiada ao receber, colar no peito e sair sorrindo pela boca e pelos olhos, como se acabasse de ganhar um presente realmente precioso. Certamente o foi, procuremos nós entender o valor simbólico daquilo para uma garotinha do interior do Nordeste brasileiro!

Tais manifestações são quase unanimidade. Mesmo com a existência dos chamados “cabos eleitorais”, que têm compromissos os mais diversos com determinadas lideranças políticas - às vezes velhos “caciques” - a troco de serviços e mesmo da famigerada “compra de voto”. Ainda, infelizmente, uma instituição que viceja impunemente numa sociedade marcada pela desigualdade social.

Mas, “Lula é Lula”, como a gente diz. Até os velhos e novos “caciques” se dizem lulistas, sinceramente ou não. Afinal, eles não querem se arriscar a contrariar o coração do povo e perder votos para seus candidatos que realmente lhes importam, gente que despreza o povo e se acostumou a mamar no dinheiro público.

Lula é diferente. Apesar de caluniado anos seguidos pela TV Globo, a mando dos gordos capitalistas seus patrões, Lula cada vez mais mora no coração das pessoas simples do interior, do pequeno agricultor, do pequeno comerciante, do trabalhador... Eles não esquecem como foram beneficiados nos governos petistas.

Os militantes – incansáveis sonhadores, às vezes chamados de visionários ou idealistas - vão se acercando para distribuir os “santinhos” e se surpreendem, alegremente, diante da reação do povo:

- Vocês estão perdendo o tempo aqui, eu e minha família, todo mundo aqui já vota em Lula.

- A gente aqui só vota no homem que defende os pobres.

- Vocês me desculpem, vou ser logo sincero, não adianta me pedir voto, eu tô com Lula, eu e o pessoal aqui, disse um jovem trabalhador – daria a ele em torno de 23 anos – sentando no chão, logo após encostar a enxada pra nos atender, nas proximidades do povoado.

Pintou um dizendo-se ainda na dúvida e pintaram dois dizendo-se bolsonaristas. Casos raríssimos. A maioria esmagadora é Lula. Apesar da desgraceira esparramada pelo país por Bolsonaro e seus seguidores, nesses quase quatro anos, a grande maioria teima em ressuscitar a esperança.

domingo, 25 de setembro de 2022

"EFEITO LULA" APONTA PARA NOVA VIRADA NA ELEIÇÃO DA BAHIA

Jerônimo e Lula (Foto: Internet)
Candidato petista ao governo chega ao empate técnico, pela pesquisa Atlas/Intel; e encurta 17 pontos a distância para o adversário, pelo Datafolha

Por Jadson Oliveira (jornalista) - editor deste Blog Evidentemente - artigo publicado no site Brasil 247 em 16/09/2022

Depois de amargar grande distância em pesquisas eleitorais diante do principal adversário – o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil, ex-DEM) –, na disputa para o governo da Bahia, o petista Jerônimo Rodrigues já está desfrutando de um confortável empate técnico, no primeiro turno: 40,3% contra 40,8% de ACM, segundo os números da última pesquisa AtlasIntel/jornal A Tarde, divulgados hoje, dia 15.

(O terceiro nome na corrida é o bolsonarista João Roma, do PL, que tem apenas 12,3% das intenções de voto. ACM Neto, matreiramente, foge como o diabo da cruz de ter seu nome associado ao de Bolsonaro. E não fala mal do ex-presidente Lula, diz que “tanto faz” quem seja o próximo presidente).

Uma das pesquisas anteriores, do mesmo instituto, divulgada em 17 de julho, já anunciava o bom desempenho do petista: no primeiro turno, Jerônimo aparecia com 32,6% das intenções de voto contra 39,7% de ACM Neto.

Tal façanha, claro, veio a partir da colagem do nome de Jerônimo, inicialmente um ilustre desconhecido do eleitorado (nunca tinha sido candidato a qualquer mandato eletivo), ao do ex-presidente Lula e também ao do governador Rui Costa, do PT, cuja gestão ostenta boa avaliação.

ACM Neto, ao contrário, é superconhecido na Bahia (e no Brasil). Como o nome está indicando, é neto do velho ACM (Antônio Carlos Magalhães), que mandou e desmandou na Bahia durante mais de três décadas (1970 a 2006). Foi, de fato, uma espécie de vice-rei da ditadura militar.

Datafolha na Bahia

Mesmo em pesquisas de outros institutos, com números bem diferentes – devido a critérios diversos, como a menção clara, ou não, do apoio de Lula na hora da pergunta ao entrevistado -, o crescimento rápido da candidatura de Jerônimo é patente.

É o caso, por exemplo, das duas rodadas de pesquisa do Datafolha, encomendada pela rádio baiana Metrópole. Da primeira rodada para a última, cujo resultado foi divulgado ontem, dia 14, Jerônimo conseguiu encurtar a distância para ACM Neto em 17 pontos (em apenas três semanas – a primeira foi divulgada no último dia 24):

De uma para a outra, o ex-prefeito de Salvador perdeu cinco pontos e tem agora 49% das intenções de voto, contra 28% do petista, que subiu 12 pontos em relação à rodada anterior. (O placar ficou, portanto, em 49% para Neto e 28% para Jerônimo. João Roma aparece com 7%).

Ao avaliar os números do Datafolha, Rui Costa lembrou a virada que representou sua vitória quando foi eleito pela primeira vez, em 2014.

Contou que faltando pouco mais de uma semana para o dia da votação, o Ibope (o instituto de pesquisa mais badalado na época) registrava 43% para Paulo Souto (ex-governador, o quadro mais forte do carlismo, do velho ACM) contra 27% para ele, Rui, então candidato do então governador Jaques Wagner (atual senador do PT).

“Faltando mais de duas semanas para a eleição, Jerônimo já está acima do patamar que eu tinha faltando uma semana. E eu ganhei no primeiro turno”, disse o governador, conforme declarações dadas ao jornal baiano A Tarde.

Outras lideranças do PT na Bahia, a exemplo do deputado federal Jorge Solla, acreditam também que a virada será uma consequência natural: “Jerônimo tem bons padrinhos políticos”, diz Solla, referindo-se a Lula e Rui Costa.

O “efeito Lula” é o que impulsiona tanto otimismo. Muitos inclusive esperam ganhar já no primeiro turno. O peso da influência do ex-presidente parece compreensível: pesquisas apontam que Lula, na Bahia – bem como em outros estados nordestinos -, no primeiro turno, tem mais de 60% da preferência dos eleitores, contra apenas cerca de 20% de Bolsonaro.

Por que “nova virada”?

Porque, além da virada de 2014 mencionada por Rui Costa, os militantes políticos da Bahia não esquecem a virada histórica de 2006, quando Jacques Wagner foi eleito governador pela primeira vez, enterrando o “reinado” de ACM. (Não esquecer que o antigo “cacique” era ainda vivo).

Parece o começo de uma tradição inaugurada na história recente da Bahia. Wagner tinha passado toda a campanha eleitoral amargando derrota avassaladora nas pesquisas para o candidato do então poderoso ACM, o mesmo Paulo Souto – então do PFL, que virou DEM, que virou União Brasil - derrotado por Rui em 2014.

Na noite de 1º. de outubro de 2006 (domingo de eleição), a grande surpresa (para todos habituados a confiar nas pesquisas): a contagem dos votos apontou a vitória de Wagner no primeiro turno.

Os petistas de Salvador inundaram o largo de Santana (conhecido também como largo da Dinda), no Rio Vermelho (bairro boêmio da capital baiana), onde costumam festejar suas vitórias (e chorar suas derrotas).

Foi uma noite de festa inesquecível não só para os petistas, mas para grande parte dos baianos que acalentou por décadas o sonho de varrer para a lixeira da história os tempos autoritários do “coronel” ACM (ex-prefeito de Salvador, ex-governador (duas vezes) - cargos nomeados pela ditadura -, ex-governador - terceiro mandato, desta vez eleito, em 1990 - ex-presidente da Eletrobrás, ex-senador, ex-presidente do Congresso Nacional, ex-ministro das Comunicações).

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

SEABRA: “TRAIÇÃO” DO PREFEITO APIMENTA ÚLTIMAS SEMANAS DA CAMPANHA ELEITORAL

Lula e Jerônimo: Seabra recebe amanhã, quinta, caravana comandada pelo governador (Foto: Internet)

Rui Costa, com o “time de Lula”, fará comício na cidade amanhã, quinta, dia 22

Por Jadson Oliveira (jornalista) – editor deste Blog Evidentemente – em 21/09/2022

Tudo indica que o prefeito de Seabra, Fábio Lago Sul, do PP, deu um tiro no pé ao mudar de lado quase às vésperas da votação, passando a apoiar ACM Neto, do União Brasil, na disputa do governo da Bahia.

Este é o tempero mais picante da eleição em Seabra, no coração da Chapada, cuja campanha está na sua penúltima semana.

 A “traição” do prefeito, como tachou a direção municipal do PT, terá a resposta mais contundente amanhã, dia 22, quando o governador Rui Costa, com a caravana do “time de Lula”, fará comício na cidade.

Em companhia, claro, de Jerônimo Rodrigues, do PT, e Otto Alencar, do PSD, candidatos ao governo e ao Senado, e de deputados e outras lideranças lulistas.

Em entrevista à Rádio Nova FM, de Seabra, dada logo em seguida ao anúncio do rompimento do prefeito, na semana passada, o governador já deu o tom da sua reação:

Acusou Fábio de mentir e caluniar o seu governo para tentar justificar a troca de lado e se disse indignado, citando detalhadamente dezenas de obras realizadas pelo governo do estado no município, em especial na área de saúde.

Sem mencionar o nome do deputado Cláudio Cajado, do PP, Rui Costa fustigou o prefeito lembrando suas ligações com políticos bolsonaristas, acostumados às práticas abusivas e clientelistas do Centrão e do Orçamento Secreto.

Antes da entrevista do governador, o deputado federal Jorge Solla, do PT, soltou nas redes sociais um vídeo com duras críticas à posição tomada por Fábio, destacando melhorias obtidas pela população seabrense através da gestão do estado e também através de emendas parlamentares.

O prefeito, aliás, parece que já tinha sentido seu desgaste, agravado a cada dia, segundo analistas, por sua incompetência   política: ainda na semana passada, ele teve o cuidado de anunciar que continuava apoiando o ex-presidente Lula na disputa pela Presidência, apesar de ter rompido com o governador.

Mas o estrago já estava feito: o vice-prefeito Marlon Leite (filho do ex-prefeito Dálvio Leite, líder de tradicional grupo político do município) já tinha anunciado que, apesar da posição do prefeito, ele continuava engajado na campanha de Jerônimo, além da de Lula e Otto.

E para completar, o comício feito em Seabra, na última sexta-feira, por ACM Neto, o novo candidato do prefeito, não atraiu um grande público.

Vamos ver o poder de mobilização do chamado “efeito Lula” e do governador no comício de Jerônimo, amanhã, quinta-feira. As comparações serão inevitáveis.

domingo, 28 de agosto de 2022

LARANJEIRA: FORTALECER OS BANCOS PÚBLICOS É NECESSÁRIO, MAS NÃO SUFICIENTE

Osvaldo Laranjeira: "É essencial e vital para a economia brasileira uma reformulação abrangente do Sistema Financeiro Brasileiro" (Foto: Smitson Oliveira)

Mais um “fragmentos” sobre o pré-programa de governo da chapa Lula-Alckmin:

O caminho deve ser a criação de bancos cooperativos, comunitários, moedas sociais, fundos rotativos, ONGs de microcrédito, pequenos bancos regionais, municipais e outras modalidades de FINANÇAS SOLIDÁRIAS 

Por Osvaldo Laranjeira – militante petista, ex-presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia – em agosto/2022 (título e destaques acima, bem como a definição dos parágrafos, são deste blog)

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO MILITANTE -  II

Aqui, comento a Diretriz de número 80 das importantíssimas DIRETRIZES PARA O PROGRAMA DE RECONSTRUÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO BRASIL, que é um pré-programa de Governo da chapa Lula-Alckmin. O Documento diz o seguinte:

80. FORTALECEREMOS TAMBÉM OS BANCOS PÚBLICOS - COMO BB, CEF, BNDES, BNB, BASA E A FINEP - EM SUA MISSÃO DE FOMENTO AO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, SOCIAL E AMBIENTAL E NA OFERTA DE CRÉDITO A LONGO PRAZO E GARANTIAS EM PROJETOS ESTRUTURANTES, COMPROMISSADOS COM A SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DESSAS OPERAÇÕES.

Muito bom revigorar e ampliar a atuação das instituições financeiras públicas já existentes, assim como, criar novas instituições que podem ser menores e mais próximas das comunidades, tais como bancos municipais e bancos estaduais.

Fortalecer os bancos públicos, portanto, é medida necessária, mas não suficiente.  Pois, há tempos que, como diz o ex-deputado federal Hermes Zaneti em seu livro O Complô: "o Sistema Financeiro Brasileiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira", se transformando numa fonte brutal de transferência de renda de toda a população para o setor financeiro, tanto pela cobrança de altíssimas taxas de juros como através da Dívida Pública - os Bancos são os maiores detentores dos Títulos Públicos Federais.

Com a financeirização (ganhos improdutivos por meio de aplicações financeiras e especulativas) esse processo ficou simplesmente devastador: especulação em detrimento da produção.

Temos um Sistema Financeiro que se caracteriza pela obtenção de lucro acima de tudo e de todos, que cobra preços abusivos, esfola os clientes e que, como intermediário financeiro, destruiu a finalidade social do dinheiro, pois que se apropria vergonhosamente do excedente social na forma de altíssimas taxas de juros e tarifas escorchantes, além de dificultar o acesso ao crédito.

Deste modo, é essencial e vital para a economia brasileira uma reformulação abrangente do Sistema Financeiro Brasileiro para este servir às necessidades dos municípios, das comunidades, das famílias e da economia solidária, abrindo espaço para a construção das FINANÇAS SOLIDÁRIAS. Não faz bem para a economia, no seu conjunto, um Sistema Financeiro que goza de total liberdade de atuação, garantida pelos seus agentes políticos nos Governos e no Congresso Nacional.

Uma tentativa de regulação do Sistema Financeiro Brasileiro com o Artigo 192 da Constituição Federal foi totalmente frustrada, uma vez que o referido Artigo foi esvaziado e transformado numa declaração de princípios estéreis, conforme Zaneti.

Nosso Partido poderia muito bem, para além do apoio ao Governo Lula, atuar firmemente com o objetivo de propor para a Sociedade uma proposta de uma Reforma Bancária que tenha no horizonte uma intermediação financeira voltada para o reinvestimento dos ganhos financeiros na produção, e não voltada para os Paraísos Fiscais.

O Brasil precisa de um Sistema Financeiro democrático com um marco regulatório que abra possibilidades de criação de Bancos Cooperativos, Bancos Comunitários de Desenvolvimento (com captação de poupança), Moedas Sociais, Fundos Rotativos Solidários, ONGs de microcrédito, pequenos Bancos Regionais, Bancos Municipais e outras modalidades de FINANÇAS SOLIDÁRIAS.

O primeiro “fragmentos” foi postado aqui neste blog em 30/07/2022. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

COLÔMBIA: ALGUNS DESAFIOS DO GOVERNO DO PACTO HISTÓRICO

Gustavo Petro (ao centro, com microfone) e sua vice Francia Márquez (negra, batendo palmas) (Foto: reproduzida do Nodal)

Os desafios que o novo governo deverá enfrentar não têm precedentes em nenhum lugar do mundo.

Antes de tudo deverá priorizar o cumprimento do Acordo de Paz feito com as FARC (maior grupo guerrilheiro do país), completamente desrespeitado durante o período presidencial de Iván Duque.

A violência política não foi reduzida desde o triunfo eleitoral do PH (Pacto Histórico, coligação vencedora da eleição colombiana). Pelo  contrário...

O programa econômico do PH supõe profundas transformações da estrutura econômica tradicional do país.

Um dos aspectos mais destacados do programa do PH é a reforma agrária que dará acesso à terra aos camponeses sem-terra e expulsos de suas casas. Na Colômbia 46% da terra rural está nas mãos de 0,4% da população.

Na área social, o programa do Pacto Histórico supõe uma grande reviravolta quanto ao modelo neoliberal imperante.

O novo governo se propõe a implantar uma renda básica, o chamado Ingreso Mínimo Vital (Renda Mínima Vital), e gerar planos de emprego público para todo aquele que necessite por estar desempregado.


(Reproduzido do portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe)

Algunos desafíos del gobierno del Pacto Histórico – Por Eduardo Giordano*

En 08/08/2022 

Este 7 de agosto tomó posesión el primer gobierno progresista de la historia de Colombia, presidido por los dirigentes del Pacto Histórico Gustavo Petro y Francia Márquez. Los colombianos votaron con el fin de superar una larga y enconada historia de violencia política y crueldad institucional, para convertir al país en una “potencia mundial para la vida”.

Los partidos y movimientos sociales de izquierda, la juventud movilizada durante el paro nacional y un entramado territorial de poblaciones tradicionalmente excluidas —indígenas, afrocolombianos…—, constituyeron el sustrato de este cambio político que vino a confrontar a las élites tradicionales y a desbaratar sus mecanismos de poder.

El triunfo electoral de la coalición progresista del Pacto Histórico (PH) es una verdadera hazaña en un país cuyos gobernantes siempre se creyeron blindados contra un eventual triunfo de la izquierda. La campaña estuvo minada de dificultades y riesgos para los candidatos de esta fuerza, amenazados constantemente por grupos paramilitares. El historial de asesinatos de candidatos presidenciales progresistas con el que cuenta el país no permitía tomar esas amenazas a la ligera.

No obstante, el resultado fue favorable al PH en la primera vuelta con más del 40 % de los votos, 12 puntos por encima del siguiente candidato, el populista de derecha Rodolfo Hernández. En la segunda vuelta el PH obtuvo mayoría absoluta, sobrepasando el 50 % de los votos, frente al 47 % de su adversario y con una diferencia de 700.000 sufragios.

Si el triunfo electoral de la izquierda puede considerarse una auténtica proeza en un contexto tan hostil, mucho mayor es la hazaña de gobernar el país y cumplir con los objetivos propuestos a los electores.

Consciente de la dificultad de la tarea que se avecina, la fórmula presidencial triunfadora se entregó al día siguiente de la victoria electoral a contactar con otras fuerzas políticas y articular las alianzas necesarias para poder aprobar reformas en un Congreso fragmentado, donde el PH se ha convertido en la fuerza mayoritaria tras las últimas elecciones, pero numéricamente insuficiente para aprobar leyes y diseñar políticas sin contar con amplios apoyos parlamentarios.

En la mirada estratégica de Gustavo Petro, la construcción de un Estado no dominado por las mafias del narcotráfico y la parapolítica, sensible a las necesidades de la población, requiere en este momento histórico del país sumar sectores que hasta ayer hicieron campaña en su contra.

El apoyo del 50 % de la población que lo eligió sería insuficiente para acometer los cambios que se avecinan, y ha abierto las puertas de la coalición a formaciones de centro y derecha como el Partido Liberal, el Partido Conservador y el Partido de la U, acordando el carácter rotatorio de la presidencia del Senado y de la Cámara de Representantes con los nuevos aliados. Los acuerdos han supuesto también concesiones a los nuevos socios en algunos cargos del ejecutivo.

Esta estrategia ya dio un primer resultado tras la conformación del nuevo Congreso, que se constituyó el pasado 20 de julio. Apenas seis días más tarde el Senado ratificó por amplia mayoría el Acuerdo de Escazú, un instrumento básico para alcanzar un desarrollo sostenible y combatir el cambio climático, dos aspectos fundamentales del plan de gobierno del PH. Sólo votaron en contra los senadores del Centro Democrático y de Cambio Radical, partidos que boicotearon la aprobación de este acuerdo durante el período presidencial de Iván Duque.

Otro gesto político revelador fue la asistencia de varios congresistas del PH a la Cumbre de los Pueblos Originarios convocada en Silvia, Cauca, por las siete organizaciones indígenas más representativas.

Entre los resultados de esta cumbre, las delegaciones de los pueblos indígenas de toda Colombia concluyeron: “Participaremos en esta era de transición y Cambio por la Vida, bajo un relacionamiento de gobierno a gobierno, con propuestas estructurales que permitan la materialización de nuestros derechos y la transformación del país”. A fin de articular esfuerzos para hacer efectivos estos cambios, “la Cumbre ha dispuesto una comisión de interlocución directa” con el presidente Gustavo Petro.

El cambio ha llegado en primer lugar a desbaratar las viejas formas de la conducción política de los asuntos que afectan a las comunidades. El paternalismo verticalista de los sucesivos gobiernos derechistas quedaría así sustituido por un diálogo horizontal, del gobierno nacional con las autoridades locales, para atender sus reclamos y determinar sus necesidades.

Los retos

Los retos que deberá afrontar el nuevo gobierno no tienen precedentes en ningún lugar del mundo. Ante todo deberá priorizar el cumplimiento del Acuerdo de Paz con las FARC, “hecho trizas” durante el período presidencial de Iván Duque. La nueva política de seguridad deberá proveer la protección adecuada a los ex combatientes de la guerrilla reincorporados a la vida civil y acabar con los grupos paramilitares causantes de las continuas masacres y los asesinatos de líderes sociales.

La violencia política no ha mermado desde el triunfo electoral del PH. Por el contrario, hasta el 12 de julio la cifra se ha incrementado respecto al año 2021, según datos de Indepaz, hasta un total de 108 asesinatos de líderes sociales y defensores de derechos humanos (incluidos 25 líderes indígenas), 53 masacres con 185 muertos y 28 asesinatos de firmantes del Acuerdo de paz. Al mismo tiempo, el Cartel del Golfo ha asesinado a 30 agentes de la fuerza pública durante el primer semestre de este año, dejando una vez más al descubierto el fracaso de la política de seguridad de Iván Duque.

El programa económico del PH supone profundas transformaciones de la estructura económica tradicional del país. El gobierno presidido por Gustavo Petro deberá cumplir con su ambicioso plan de “desfosilización” de las exportaciones colombianas (reducir el peso del petróleo y el carbón), concentrándose en cambio en el desarrollo de tres pilares básicos de la economía abandonados por los anteriores gobiernos: la agricultura, la industria y el conocimiento, además de potenciar el turismo con un entorno pacífico.

En cuanto a la desfosilización de la economía, no se trata de interrumpir los ingresos que el país percibe por exportaciones de productos energéticos, que representan entre un tercio y la mitad del total, sino de suspender la exploración y adjudicación de nuevos yacimientos, mientras se van incorporando gradualmente energías renovables para atender el consumo interno.

El nuevo gobierno colombiano ya ha declarado que impedirá la explotación de hidrocarburos con tecnología de fracking, un viejo reclamo de las comunidades para proteger sus acuíferos. Uno de los aspectos más destacados del programa del PH es la reforma agraria que dará acceso a la tierra a los campesinos desplazados y desposeídos. En Colombia el 46% de la tierra rural está en manos del 0,4 % de la población.

En el plano social, el programa del Pacto Histórico supone un gran vuelco con respecto al modelo neoliberal imperante. Actualmente la informalidad laboral afecta al 62 % de la población económicamente activa y hay tres millones de desempleados, según datos de la Central Unitaria de Trabajadores. Sólo una tercera parte de los trabajadores activos, unos ocho millones, cotiza a la Seguridad Social. El nuevo gobierno se propone instaurar una renta básica, o Ingreso Mínimo Vital, y generar planes de empleo público para todo aquel que lo necesite por estar desocupado.

Unidad en la diversidad de América Latina

En política exterior se producirá un importante cambio de rumbo, aunque este cambio resulte poco perceptible al comienzo en las relaciones con Estados Unidos. En el transcurso del gobierno del Pacto Histórico se deberán redefinir las formas de colaboración entre ambos país, desde la política de seguridad hasta la estrategia antinarcóticos.

Una cuestión que en el futuro puede tensar la relación con el gobierno estadounidense es la permanencia o no de las bases militares de ese país en territorio colombiano y, en caso de acordarse su permanencia, con qué misión específica. Pero esta cuestión no es un debate que se vislumbre en el corto plazo.

Respecto a los maltrechos vínculos con los vecinos venezolanos, la política exterior de Petro revertirá la tensión conflictiva que mantuvo Duque durante todo su mandato, obsesionado con el acoso y derribo del gobierno de Nicolás Maduro. En contraste con la inacción característica del gobierno de Duque, el nuevo gobierno de Colombia ya emprendió su actividad diplomática incluso antes de haber tomado posesión.

El 28 de julio se reunió en la ciudad de Táchira (Venezuela) el nuevo ministro de Relaciones Exteriores designado por Gustavo Petro, Álvaro Leyva, con el ministro venezolano de Exteriores, Carlos Faría. Ambos suscribieron un acuerdo para “la normalización gradual de las relaciones binacionales a partir del 7 de agosto” con el nombramiento de embajadores y demás funcionarios del servicio diplomático, al mismo tiempo que reafirmaron su “voluntad de hacer esfuerzos conjuntos para garantizar la seguridad y la paz en la frontera”.

Mientras tanto, la vicepresidenta Francia Márquez realizó una gira por otros países sudamericanos, tejiendo lazos con las figuras más destacadas de los movimientos populares que aspiran a un cambio de hegemonía política en la región. Márquez se reunió en Brasil con el candidato (y ex presidente) Lula da Silva, en Chile con el presidente Gabriel Boric, en Argentina con Alberto Fernández y la vicepresidenta Cristina Kirchner, y por último conversó en Bolivia con el vicepresidente David Choquehuanca y con el líder histórico del MAS, el expresidente Evo Morales.

Francia Márquez escribió en sus redes sociales después de esta última visita: “Hoy la lucha del pueblo boliviano y colombiano se junta para reconocer en la diferencia una Latinoamérica unida y soberana”.

Emerge así un nuevo enfoque de las relaciones internacionales, en particular entre los países latinoamericanos, basado en la “unidad en la diversidad”. Colombia no sólo aspira a cambiar su destino para revertir su trágica historia nacional y empezar a vivir sabroso: también sería un actor fundamental para el cambio de equilibrios de poder en el plano continental.

*Periodista, traductor y escritor, coautor de diversas obras de investigación: Europa en el juego de la comunicación global, Políticas de televisión, ambas en colaboración con Carlos Zeller. También es coautor de la obra colectiva Las mentiras de una guerra: desinformación y censura en el conflicto del Golfo

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

DON L: MEU DESAFIO É IMAGINAR O FIM DO CAPITALISMO

 

"Coloquei o desafio de imaginar o fim do capitalismo, e não o fim do mundo”, disse rapper de Fortaleza no programa SUB40, do site OPERA MUNDI, do último dia 21 (Reprodução/Twitter/@joaoinvictor)
Brasil é extremamente violento com a esquerda, neoliberalismo está fora do espírito do tempo e capitalismo representa o velho, afirma rapper do Ceará.

PEDRO ALEXANDRE SANCHES

São Paulo (Brasil)
22 de jul de 2022

(Reproduzido do site OPERA MUNDI)


O rapper de Fortaleza (embora nascido em Brasília) Don L afirma que sua música representa uma reação ao discurso liberal que ele via no hip-hop, de celebração de conquistas individuais, e não coletivas. 

"Coloquei o desafio de imaginar o fim do capitalismo, e não o fim do mundo”, ele resume seu álbum mais recente, Roteiro para Aïnouz Volume Dois, em conversa com o jornalista Breno Altman no programa SUB40 desta quinta-feira (21/07).

Trata-se de uma maneira de inverter o tom derrotista tantas vezes adotado no Brasil, no rap ou fora dele: “a gente gosta da distopia. Todo mundo fica gozando com a distopia, falando da merda em que estamos vivendo. Eu quis falar de vitória, dentro de uma perspectiva coletiva, não individual”. 

Assim, o álbum tenta imaginar um Brasil pós-revolucionário, socialista e vitorioso, com “lastro e pé na realidade, mesmo quando cria utopias”. Seu ponto de partida é um autoquestionamento: nossos sonhos são realmente nossos ou são sonhos da publicidade?

Questionado por Altman se o mercado pode "amansar" o rap, ele responde que isso já tem acontecido, não só com o rap, e encontra na política uma possível explicação: “o Brasil exterminou fisicamente boa parte da esquerda. Não houve um julgamento disso, e a gente segue perdendo grandes lideranças assassinadas toda semana. Este país é extremamente violento com a esquerda. Fala-se que é uma democracia, mas até hoje não vi lideranças de direita ser assassinadas no nosso país”. 

O resultado, argumenta, é uma esquerda muito contida, acossada por medos fundamentados e mais propensa à conciliação, o que se reflete na música e na cultura. 

“O que a esquerda não fez é o que a direita diz que a esquerda fez e a gente deveria ter feito, que é o marxismo cultural”, provoca. “Só dois partidos têm pautas que considero realmente de esquerda, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Unidade Popular (UP), mas, no contexto em que estamos, vou acabar votando no Lula mesmo, porque o momento pede para a gente fazer isso”, decifra.

Para Don L, a eventual posse de Lula para um terceiro governo será o começo grandes novos problemas: “O Brasil precisa ser refundado. Lula fez grandes coisas, não diminuo sua história, mas tem coisas que são inconciliáveis. Precisamos tirar um pouco dessa burguesia sanguessuga que está aí desde que o Brasil foi fundado como um experimento colonial. Precisamos ter grandes sonhos".

Trilha da revolução

O rapper defende que a música popular brasileira, e não especificamente o rap, é a trilha sonora da revolução no país. “O samba é muito importante. O funk é uma música eletrônica original brasileira, considero que é hip-hop também. A diversidade da música popular brasileira é a trilha da revolução”, concilia.

Don L contesta, por fim, a ideia de que conceitos como revolução, comunismo ou luta de classes estejam ultrapassados em 2022. “Isso é o que os liberais querem fazer a gente acreditar. Não tem nada mais fora do espírito do tempo que o neoliberalismo. O capitalismo é que é o velho. O próprio planeta não aguenta mais viver com esse modo de produção. É socialismo ou barbárie, mesmo. A distopia é legal para quem está no poder usufruindo da desigualdade extrema.” 

O neoliberalismo não o convence a cravar outro ídolo político que não seja o cubano Fidel Castro: “a gente tem uma mania de derrotismo na esquerda, mas Fidel conseguiu, com uma ilhazinha desse tamanho, ali na boca do império querendo matar ele a vida inteira, construir uma experiência com seu coletivo, e o cara morreu de velho. É o maior de todos os tempos”. 

Estabelecido na cidade de São Paulo desde 2014, o rapper que veio do Ceará se emociona com as fotos da tomada de Havana por Fidel, em 1959, especialmente aquelas que mostram guerrilheiros dando voz de prisão à polícia.

Para ver o vídeo da entrevista, na íntegra, entre no Opera Mundi. Segue o link: https://operamundi.uol.com.br/sub40/75754/don-l-meu-desafio-e-imaginar-o-fim-do-capitalismo

sábado, 30 de julho de 2022

LARANJEIRA: “LUTAR POR UM SISTEMA FINANCEIRO CONTRA-HEGEMÔNICO SE FAZ NECESSÁRIO”

Osvaldo Laranjeira: considerações sobre diretrizes do provável Governo Lula (Foto: Smitson Oliveira)

“As pessoas, os trabalhadores, as famílias, assim como as pequenas e microempresas estão quebradas em níveis alarmantes”

Por Osvaldo Laranjeira – militante político, ex-presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia – em julho/2022 (título e destaque acima, bem como a definição dos parágrafos, são deste blog)

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO MILITANTE -  I

Começo estes Fragmentos fazendo pequenas considerações sobre algumas das recém publicadas Diretrizes para o Programa de Reconstrução e Transformação do Brasil, as quais constituirão o Programa do Governo Lula (se ele ganhar as eleições, claro). Como o terceiro mandato de Lula será também um Governo de coalizão, muito provável que - e aqui menciono uma circunstância atenuante, do ponto de vista e dos desejos de um militante petista - muitas limitações na aplicação do Programa acontecerão.

A Diretriz que modestamente comento é a de número 60 que assim diz:

"Como a renda familiar dos brasileiros e brasileiras desabou e o endividamento das famílias explodiu, já são mais de 66 milhões de pessoas inadimplentes, vamos promover a renegociação das dívidas das famílias e das pequenas e médias empresas por meio dos bancos públicos e incentivar os bancos privados para oferecer condições adequadas de negociação com os devedores. Avançaremos na regulação e incentivaremos medidas para ampliar a oferta e reduzir o custo do crédito".

Creio ser uma medida urgente, após a posse de Lula. Pois, de fato, as pessoas, os trabalhadores, as famílias, assim como as pequenas e microempresas estão quebradas em níveis alarmantes. Graças ao comprometimento, de parte crescente dos seus orçamentos, com o pagamento dos serviços decorrentes do endividamento financeiro, conforme Márcio Pochmann. Ou seja, quase todo mundo está "pendurado" nos Bancos ou no crediário.

Isto é muito ruim, tanto para a população quanto para a Economia, uma vez que, quando as pessoas se endividam muito, compram pouco. Sobra mês e falta salário. O efeito demanda fica travado. Se cerca de da renda das pessoas está destinado ao pagamento de despesas financeiras (juros, tarifas, etc) ocorre, de fato, uma real transferência de renda da população para os banqueiros. Como diz o Prof. Ladislau Dowbor, "o brasileiro trabalha muito, mas os resultados são desviados das atividades produtivas para a chamada ciranda financeira, que não reinveste na economia".

Uma das causas dessa situação são as altíssimas taxas de juros cobradas pelo SISTEMA FINANCEIRO BRASILEIRO. Quem precisa recorrer às linhas de crédito existentes, tais como Cartão de Crédito, Crediário (Comércio), Cheque Especial, CDC - Bancos (financiamento de automóveis), Empréstimo Pessoal nos Bancos e Empréstimo Pessoal nas Financeiras, paga uma Taxa de Juros para Pessoa Física, em Maio/2022, em média de 117,27 % a.a., conf. a ANEFAC (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).

Tão catastrófica quanto, é a situação das 5,5 milhões de Micro e Pequenas Empresas, cuja inadimplência bate recorde com a alta da inflação e juros altíssimos, conf. o G1 (Globo), que traz a seguinte conclusão a respeito das famílias: "endividamento e inadimplência batem novo recorde em abril: muitas delas tiveram que recorrer a empréstimos com instituições financeiras para sobreviver durante a pandemia, e agora estão tendo dificuldades para pagar as parcelas". O pior está por vir, pois as taxas de juros vêm crescendo mês a mês.

O resultado dessa situação excludente e escorchante para a população é o enriquecimento fácil de banqueiros e rentistas (Os 5 maiores bancos brasileiros - Banco do Brasil, CEF, Bradesco, Itaú e Santander - lucraram, no ano de 2021, mais de 94 bilhões de reais. Dinheiro que não é revertido para a produção social). Renegociar as dívidas, aumentar a oferta de crédito, baratear as taxas de juros são medidas corretas e necessárias. É preciso enfrentar estruturalmente a agiotagem praticada pelos intermediários financeiros de forma prioritária. Isso para, conforme Ladislau Dowbor, colocar a economia brasileira nos trilhos.

Temos um Sistema Financeiro que está na contramão das necessidades da população brasileira, sobretudo dos mais pobres. Lutar por um Sistema Financeiro contra-hegemônico se faz necessário. Já temos um horizonte que são as FINANÇAS SOLIDÁRIAS, democráticas, sustentáveis, sem agiotagem e voltadas para o desenvolvimento das comunidades.

(Conforme indica a numeração, virão outros “fragmentos”)