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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

RACISMO: O BRASIL MOSTRA A SUA CARA

(Ilustração reproduzida da Internet)

Não dá mais para esconder a maior de todas as nossas mazelas: o racismo institucional, matriz da nossa desigualdade (...) É uma construção gestada ao longo de quatro séculos de escravidão (...) Não dá mais para rechaçá-lo a priori, como sempre fizeram os conservadores de direita ou considerá-lo um problema menor, como os progressistas da esquerda.

Por José Fernandes – jornalista – transcrito do Facebook, de 29/01/2019 (o destaque acima e a foto são da edição deste blog)

Nunca se falou tanto sobre racismo e nunca se praticou tanto abertamente o racismo no Brasil, como agora. A avalanche de atos racistas e a exibição cotidiana de preconceitos de todos os tipos na mídia tradicional e nas redes sociais mostram que, 130 anos após a Abolição, o racismo está aí firme e forte, exibindo a verdadeira cara da “democracia racial” brasileira.

No final da década de 80, uma pesquisa da Universidade de São Paulo constatou que 95% dos brasileiros afirmavam não serem racistas, embora admitissem conhecer pessoas que eram racistas. Ou seja: “eu não sou, mas o vizinho é racista”. Agora, ao que tudo indica, a fase de negação está chegando ao fim.

Não dá mais para esconder ou negar a maior de todas as nossas mazelas: o racismo institucional, matriz da nossa desigualdade, principal fundamento da exclusão e marginalização das populações indígenas e afrodescendentes brasileiras. É preciso ir mais fundo, ampliar o debate e encarar de frente essa mazela, sem rechaçá-la a priori, como sempre fizeram os conservadores de direita ou considerá-la um problema menor, como os progressistas da esquerda.

O racismo à brasileira é uma construção antiga, perversa, gestada ao longo de quatro séculos de escravidão e que não se extinguiu com a Lei Áurea. Ao contrário, adquiriu novo impulso depois da República com a adesão de expressivas parcelas da elite política e intelectual às teses eugenistas, que propagavam inferioridade dos negros, defendiam o embranquecimento da população com imigração em massa de brancos europeus, pois o país não teria futuro com uma população mestiça.

Essas ideias prevaleceram durante os primeiros 40 anos da República, período em que se consolidam não só os conceitos racistas, mas também a exclusão dos negros e mestiços da vida econômica e social do país. Na Bahia, terra de Nina Rodrigues, uma das figuras mais proeminentes do eugenismo, a situação não era diferente do resto do país.

A elite branca e conservadora considerava a “Cidade da Bahia” a Atenas do Atlântico Sul, onde os costumes e a cultura europeus prevaleciam, apesar de sua grande população negra e mestiça. Uma grande ilusão. Salvador era, na verdade, a cidade mais africana do Brasil, a “Roma Negra”, como a batizou Mãe Aninha, do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1937,

A teoria do embranquecimento entrou em desuso na década de 30, após a publicação de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, livro que abre caminho para criação do mito da “democracia racial” e inicia uma nova fase do racismo à brasileira, em que se festeja a mestiçagem, ao mesmo tempo em que se naturalizam todos os conceitos racistas massificados durante décadas pelos eugenistas.

Quem tem mais de 60 anos, como eu, já viveu dias piores. Tempos em que, como diz o poeta, “preto não entrava no Baiano nem pela porta da cozinha”, tempos em que ter pele escura era ser feio e não ter a “boa aparência” necessária à maioria dos empregos. Tempos em que para cultuar e festejar os Orixás era preciso autorização da polícia.

Deve-se reconhecer, porém, que muita coisa na Bahia mudou desde o dia em que o Ilê Aiyê pisou pela primeira vez na avenida Sete, nos primeiros anos da década de 70. O carnaval se africanizou, a cidade se rendeu à magia e ao balanço da música dos blocos afros e, o mais importante, houve uma mudança substancial na autoestima da população negra, que passou a ter orgulho de sua ascendência, da sua cultura e, de certa forma, descobriu a sua própria beleza.

É evidente que o que aconteceu em Salvador nesse período é algo importante: vivemos um processo de inclusão cultural da população negra inédito no país. Mas, deve-se reconhecer também que esse movimento, devido à sua debilidade política, não teve força suficiente para abalar as estruturas do racismo e, muito menos, teve condições de impedir que, ao invés de avançarmos também na direção de uma inclusão econômica e social da população negra, se estabelecesse um processo de apropriação cultural que fez a fortuna de meia dúzia de artistas e empresários da elite branca.

Mas, de qualquer forma, já temos meio caminho andado. É preciso seguir adiante, tendo consciência de que o racismo à brasileira é estrutural e que por isso tem que deixar de ser um problema que diz respeito apenas às vítimas. É um problema de toda a sociedade, principalmente da parcela branca da população, que é o agente propagador dessa mazela.

Se não for assim, estaremos fadados ao fracasso, porque apenas com o esforço de combate dos ativistas do movimento negro e o exercício do politicamente correto pelos segmentos mais esclarecidos e democráticos, nas redes sociais, não conseguiremos nos livrar ou nem mesmo reduzir o peso dessa herança maldita no coração do Brasil.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

VÃO DAS PALMEIRAS: QUILOMBO BOM DE SERVIÇO E DE CULTURA

Festa com o Terno de Reis em 6 de janeiro (Foto: Smitson Oliveira - Seabra/Chapada)

A associação dos moradores e o grupo de jovens, com o apoio da comunidade, mobilizam-se na busca e realização de melhorias materiais e espirituais. E já contam com um balanço positivo.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor da Blog Evidentemente

A comunidade dos quilombolas de Vão das Palmeiras (município de Seabra, Chapada, interior da Bahia), através do trabalho de sua associação, em parceria com o grupo de jovens (Jovens em Ação), vem conseguindo algumas realizações notáveis, tanto na área dos serviços públicos, como no campo cultural.

Um balanço feito a partir de 2012, com a associação sob a presidência de João Batista dos Santos e atualmente de Selma Marques, dá conta da execução de várias obras. Como a abertura de ruas e estradas - a exemplo da que liga o quilombo ao povoado Capão das Gamelas -, bem como a ampliação da iluminação pública, benefícios obtidos a partir de gestões junto à prefeitura do município, conforme informações de João Batista, hoje compondo a diretoria da entidade como tesoureiro, e de representantes do grupo de jovens.

Com o reconhecimento e certificação pela Fundação Palmares (órgão do Ministério da Cultura), em 2005, como comunidade remanescente de quilombo, Vão das Palmeiras pôde usufruir de políticas públicas inclusivas e se beneficiar de programas do governo federal como Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e cotas raciais no ensino público.

A parceria com o grupo de jovens é destacada por João Batista, resultando no maior dinamismo dos eventos na área cultural, como é o caso do Encontro da Consciência Negra, realizado todo 20 de novembro (em 2018 foi a sua quinta edição).

As representações teatrais, que são feitas inclusive nos povoados circunvizinhos, vêm ganhando força e aprendizado, especialmente através da participação da juventude: as peças procuram debater os diversos temas abordados, como já aconteceu com as encenações sobre a dengue, o meio ambiente e as nascentes dos rios, que sobrevivem sob permanente ameaça.

Há ainda atividades como o ensino e prática da capoeira, que tinham sido suspensos e serão retomados; e o curso de artesanato, realizado através do sindicato dos trabalhadores rurais de Seabra, de cuja diretoria João Batista faz parte. Há também a proposta, em fase de preparação, de desenvolver hortas coletivas, a serem tocadas pelo grupo de jovens.

No ano passado, foi resgatada a via sacra pelas ruas do quilombo, durante a Semana Santa, um evento que remonta a velhas tradições e que tinha sido abandonado há 30 anos.

Outra tradição forte, que se mantém, é o Terno de Reis, que no último dia 6 completou, com animados festejos, suas cantorias iniciadas em 25 de dezembro, se apresentando também nos distritos e povoados das redondezas, inclusive na sede em Seabra.

A Associação dos Remanescentes de Quilombo do Vão das Palmeiras tem 380 filiados. O quilombo mede 1.023 hectares, reúne 430 famílias, tendo em torno de 1.000 habitantes, levando em conta os moradores mais permanentes.

PS: Participaram da entrevista, representando a coordenação do grupo de jovens, Maiara Cassimiro, Flávia Macedo e Poliana Santos.

Os vizinhos mais próximos do quilombo são os distritos de Velame e Baraúnas.

O nome oficial do sindicato mencionado é Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar de Seabra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

COMO SE FAZ UM LÍDER QUILOMBOLA

João Batista, com a filha Rebeca (Foto: Smitson Oliveira - Seabra/Chapada)

De trabalhador rural e ajudante de pedreiro a dirigente sindical e da associação dos moradores do quilombo Vão das Palmeiras: a dura e exitosa trajetória dum militante comunitário.

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor do Blog Evidentemente

Corria o ano de 2012. João Batista já tinha passado por muitos desafios na sua vida de negro pobre, quilombola, mas aquele lhe parecia maior, mais estranho, uma grande novidade: Tiago queria que ele se tornasse presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombo do Vão das Palmeiras (município de Seabra, Chapada, interior da Bahia). Com um detalhe curioso: disse que era “só no nome, não é pra valer”. Como assim? Tiago explicou: é que ele era presidente da associação, mas ia ser candidato a vereador e achava que uma coisa podia impedir a outra. Então ele disputava a vereança, continuando presidente de fato, mas não oficialmente.

João Batista hesitava. Achava difícil falar em público, discursar numa reunião e ainda tinha aquele complicador, “só no nome”. Será que esse negócio ia dar certo? Já tinha se saído bem em muitas empreitadas na sua ainda curta existência, estava com 28 anos, sempre na labuta, lavrando a terra, conseguiu a duras penas estudar até o segundo grau, esteve em São Paulo trabalhando na construção de ajudante de pedreiro durante um ano, depois mais cinco, nesta altura já promovido a armador. Ao voltar à sua terra, pôde continuar na construção pois já havia por lá obras do projeto do governo federal Minha Casa Minha Vida.

Já carregava na carcunda, portanto, alguma experiência de vida e trabalho. Mas hesitava. Não era homem de se amofinar, mas hesitava, aquele negócio de ser presidente, tomar a palavra numa reunião, todo mundo olhando pra ele e se gaguejasse e as pessoas dessem risada? Mas tinha um precedente encorajador, talvez até tenha sido por isso que Tiago o escolhera: uma vez se discutia sobre a taxa que as famílias pagavam pela água e era arrecadada pela associação dos moradores do Velame (distrito vizinho ao quilombo). Acontece que a água é retirada da área do Vão das Palmeiras e fornecida inclusive aos usuários do Velame. Então o correto seria a associação do quilombo cobrar a taxa, inclusive do pessoal do Velame, e ficar com o dinheiro arrecadado.

Foi o que pensou João Batista, que estava lá espiando a reunião. Pensou e agiu. Pela primeira vez, passando por cima da timidez, pediu a palavra e falou numa reunião. “O salão estava cheio”, lembra ele. Feliz, viu a grande maioria dos presentes apoiar sua intervenção. Foi o seu batismo de fogo, e vitorioso. Os quilombolas, que eram “donos” da água, conquistaram o direito de arrecadar a taxa, graças à sua proposta. Estava nascendo ali uma nova liderança entre a comunidade.

Trocando em miúdos: João Batista acabou topando o plano de Tiago e, enquanto este se ocupava da campanha eleitoral, o que seria presidente “só no nome” começou a ser pressionado pelos associados. Havia, claro, muitas demandas e “você é ou não é o presidente?”, cobravam. E ele foi assumindo pouco a pouco o papel para o qual parecia estar destinado, conforme mostrou o desenrolar dos acontecimentos.

Foram dois mandatos de dois anos cada – de 2012 a 2016 -, com muitas lutas, dificuldades e também muitas realizações. João Batista relembra os passos dessa difícil e exitosa caminhada, fala do respeito obtido pela comunidade e pela entidade que a representa, exalta o apoio do grupo de jovens – Jovens em Ação - e dos moradores e também a participação ativa de sua mulher em toda sua trajetória.

E relata uma grande alegria: foi justamente num dia em que se comemorava o Dia da Consciência Negra – 20 de novembro de 2014. Ele estava chegando de Salvador onde, no dia anterior, tinha recebido o título de propriedade coletiva das terras do quilombo, em nome da associação. (Aí ele menciona a ajuda nas articulações políticas do então deputado federal baiano Luiz Alberto (PT), inclusive no processo de reconhecimento e certificação por parte da Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura). Foi uma festa, um momento de felicidade do qual “a gente nunca esquece”, diria o próprio João Batista.

(Das cerca de 5.000 comunidades remanescentes de quilombo existentes no Brasil, apenas quase 300 conseguiram até hoje o título de propriedade da terra, apesar dela ter sido reconhecida oficialmente há 30 anos, expressa na Constituição de 1988, injustiça que atualmente parece mais difícil de ser reparada, já que o novo governo, presidido por Jair Bolsonaro, teve sua campanha eleitoral assentada na negação das políticas inclusivas. Aliás, neste particular, o município de Seabra deve ser um caso raro: dentre os 11 quilombos reconhecidos, 10 já obtiveram seus títulos de propriedade).

E também uma grande tristeza: foi “ter perdido” para São Paulo um jovem militante promissor. Alex Soares, pouco mais de 20 anos, teve que deixar sua gente e sua terra correndo atrás do sonho de ganhar dinheiro e construir uma casa para a família. João Batista se consola seguro de que ele voltará em breve, mesmo porque sua casa será, claro, em Vão das Palmeiras. E também porque, de fato, Alex nunca abandonou totalmente a militância: volta e meia ele aparece no grupo do Whatsapp opinando, sugerindo, participando.

Ele revela um sonho: entrar na universidade, fazer o curso de História. Concluiu o segundo grau em 2005 e lamenta ter sido obrigado a parar. “Não sei quando será possível, talvez quando os meninos aprenderem a tirar uma melancia na roça”, brinca João Batista. Ele foi o quarto jovem (o primeiro homem) da comunidade a completar o segundo grau. De lá para cá esse número aumentou, inclusive há alguns cursando em Seabra o IFBA (Instituto Federal da Bahia). Diz meio encabulado que aconselha tanto a juventude a estudar e entrar na universidade, porém ele próprio, infelizmente, não pôde ainda dar o exemplo completo. Mas o curso de História o espera, quem sabe?

PS: Além de agricultor e atualmente tesoureiro da associação, João Batista dos Santos, hoje com 34 anos, faz parte da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar de Seabra e dirige uma rádio comunitária. É casado com Magali Santos Cassimiro e tem quatro filhos.

Tiago José Cassimiro, a quem João Batista sucedeu, foi o terceiro presidente da associação. Antes dele, a entidade foi presidida por Eunápio Mendes da Silva (Naipinho). Hoje há uma presidenta: Selma Marques.

A associação tem 380 filiados. O quilombo mede 1.023 hectares, reúne 430 famílias, tendo em torno de 1.000 habitantes, levando em conta os moradores mais permanentes.

A maioria das informações é do próprio João Batista. Os dados sobre os 5.000 quilombos reconhecidos no país são de matéria do blog The Intercept Brasil – ‘Com mais de 4,8 mil comunidades sem títulos, quilombolas entrarão com ação por danos morais’.

(Este blog postará em seguida matéria sobre as realizações da comunidade, conseguidas através da associação e o grupo de jovens).