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sábado, 9 de abril de 2022

 

DEZ TESES PARA REINVENTAR AS ESQUERDAS

"As esquerdas partidárias deixaram de viver onde vivem os seus eleitores, deixaram de conviver e de conversar com eles, exceto quando os visitam para lhes pedir o voto. Quem hoje convive e conversa com os grupos sociais mais excluídos são muitas vezes as igrejas evangélicas neopentecostais quando não é o crime organizado”, diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos.

Por Boaventura de Sousa Santos - sociólogo português

10 de fevereiro de 2022, 11:02 h Atualizado em 10 de fevereiro de 2022, 11:13

Reproduzido a partir do site Brasil 247

As eleições gerais do passado dia 30 de janeiro em Portugal tiveram resultados surpreendentes. O Partido Socialista (PS) ganhou as eleições com maioria absoluta. Portugal será, a partir de agora, o único país europeu com um governo de maioria absoluta de um só partido de esquerda. Os dois partidos à esquerda do PS tiveram os piores resultados de sempre. O Partido Comunista (PCP), que tinha doze deputados no parlamento, passa a ter metade; e o Bloco de Esquerda (BE), que tinha 19 deputados, passa a ter cinco. O BE passa de terceira força política para quinta e o PCP, de quarta para sexta. As posições destes partidos passaram a ser ocupadas por forças de ultradireita, uma de inspiração fascista (Chega), agora terceira força política, da família da extrema-direita europeia e mundial; e outra de recorte hiper-neoliberal, darwinismo social puro e duro, ou seja, a sobrevivência do mais forte (Iniciativa Liberal), agora quarta força política. Os resultados eleitorais mostram que a esquerda à esquerda do PS perdeu a oportunidade histórica que granjeou depois de 2015 ao construir uma solução de governo de esquerda que ficou conhecida por geringonça (PS, BE, PCP), uma solução que travou a austeridade imposta pela solução neoliberal da crise financeira de 2008 e lançou o país numa recuperação econômica e social modesta mas consistente. Esta solução começou a precarizar-se em 2020 e colapsou em finais de 2021 com a rejeição do orçamento apresentado pelo governo. Foi isso que levou às eleições antecipadas de 30 de janeiro. A vitória esmagadora do PS depois de seis anos de governação e dois anos de pandemia é memorável e merece reflexão. Neste texto, proponho-me refletir sobre o outro fato importante destas eleições: a queda abrupta dos dois partidos de esquerda à esquerda do PS. Não pretendo aqui analisar a queda em si mesma; pretendo antes mostrar o abismo que nela se manifesta entre a esquerda que o BE e o PCP representam e a esquerda que, em meu entender, tem condições para prosperar nas próximas décadas. A diferença entre o que existe e o que proponho é tal que estamos perante a necessidade de reinventar as esquerdas.  Por agora não me refiro ao conteúdo programático. Refiro-me sobretudo às formas de organização. Apresento a minha proposta em dez teses. 

1. Não há cidadãos despolitizados; há cidadãos inseguros que não se sentem mobilizados pelas formas dominantes de politização, sejam elas partidos ou movimentos da sociedade civil organizada.

Parte inferior do formulário

A esmagadora maioria dos cidadãos não está filiada em partidos, não participa em movimentos sociais nem sai à rua para se manifestar, mas uma boa parte dela sente-se excluída, abandonada e sem esperança que a democracia realize as suas expectativas. A pandemia veio agravar a insegurança existencial. As forças de extrema-direita foram as primeiras a identificar aí a sua oportunidade para prosperarem. São exímios empreendedores do medo e da raiva. 

Depois de séculos de colonialismo (racismo, xenofobia, roubo de terra e de recursos naturais) e de hétero-patriarcado (sexismo, violência de gênero, feminicídio, homofobia, transfobia) e de mais de quarenta anos de  capitalismo neoliberal (concentração escandalosa da riqueza, sobreexploração do trabalho, erosão dos direitos sociais e econômicos e destruição  da natureza), as revoltas ou explosões sociais, quando ocorrem, tendem a  colher de surpresa os partidos e as organizações da sociedade civil  (associações e movimentos sociais). São muitas vezes movimentos espontâneos, presenças coletivas nas praças públicas.  

2. Não há democracia sem partidos, mas há partidos sem democracia.

Uma das antinomias da democracia liberal representativa reside em ela assentar cada vez mais nos partidos como forma exclusiva de agência política, ao mesmo tempo que os partidos são internamente cada vez menos democráticos. Os partidos vivem e reproduzem-se no interior de instituições que tendem a isolar-se da turbulência e da complexidade das dinâmicas sociais. O déficit democrático dos partidos traduz-se na incapacidade para  captar atempadamente e interpretar corretamente os anseios, as  inseguranças, as aspirações de cidadãos e cidadãs cada vez mais  armadilhados na ideologia dominante da autonomia e da liberdade, sem  terem condições materiais para serem efetivamente autônomos ou se  sentirem efetivamente livres. Sem ninguém os escravizar, sentem-se condenados a auto-escravizar-se. Enquanto empreendedores, colaboradores, trabalhadores autônomos, sentem-se na situação paradoxal de terem direito  a não ter direitos. Esta dissonância é particularmente acentuada entre os jovens e as classes sociais socialmente empobrecidas e vulneráveis, aquelas para cuja defesa se criaram os partidos de esquerda. Por exemplo, as ideologias dominantes nos partidos de esquerda tendem a ver nos jovens apenas trabalhadores precários. Eles são isso, mas são muito mais do que isso, são cidadãos e cidadãs preocupados com a sua sexualidade, com o racismo, com as dificuldades de relacionamento num mundo pandêmico e de comunicação virtual, com a perda de amizades intensas, com a exigência de altas qualificações acadêmicas destinadas ao desemprego ou ao emprego lixo, com o medo que a crise ecológica lhes roube mais facilmente o futuro que o capitalismo. A distância entre todas estas vivências e carências e os códigos de formulação e de gestão política dos partidos é cada vez mais preocupante. 

3. Os partidos do futuro serão partidos-movimento.

Se é verdade que os partidos tradicionais esgotaram o seu tempo histórico, isso é particularmente verdade no caso dos partidos de esquerda. A solução reside em transformar os partidos em entidades mais intensamente democráticas. Os partidos do futuro têm de combinar a democracia representativa com a democracia participativa no modo como se organizam, como definem os seus programas, como escolhem os seus líderes, como tomam decisões políticas importantes, como prestam contas e afirmam a transparência. A participação cidadã nos partidos não se pode esgotar no exercício do direito de voto de quatro em quatro anos. Deve exercer-se no decurso do mandato dos eleitos, e não apenas quando o mandato termina.  Esta participação não se pode reduzir a receber informações regulares.  Devem plasmar-se na constituição de círculos de cidadania militante e simpatizante, organizados por local de residência ou por tipo de ocupação, com capacidade deliberativa e não apenas consultiva. Esta vigilância e co-criação política é particularmente decisiva no caso dos partidos de esquerda por duas razões principais. As classes e os grupos sociais que as esquerdas se propõem representar e cujos interesses dizem defender vivem em condições sociais e universos culturais diferentes dos das lideranças políticas e têm menos tempo e menos proximidade social para se manifestarem ou para se fazerem entender. A política de proximidade é a chave da política do futuro. Essa proximidade não pode ser mero artefato virtual da sociedade de informação porque os corpos vivos têm densidades e emoções que fogem à lógica binária da comunicação virtual. Além do mais, a comunicação virtual não entende os silêncios e as ausências, embora uns e outras sejam fundamentais para entender o sofrimento dos que mais sofrem e as injustiças a que estão sujeitos os mais injustiçados.  

A segunda razão prende-se com a tradição do marxismo-leninismo que por vezes ao centralismo democrático nos partidos vindos da tradição comunista. Esta tradição teve o seu mérito no seu tempo, mas está hoje ultrapassada pelas condições de vida e comunicação contemporâneas.  Mantê-la nos dias de hoje, ainda que de forma matizada, significa por vezes cair na tentação do espírito de seita (sectarismo), na busca de unanimidades através do policiamento antidemocrático de opiniões divergentes para que não vinguem e, finalmente, na oscilação brusca entre unanimidade e silenciamento, suspensão de direitos, demonização na praça pública. Este tipo de gestão das diferenças é cada vez mais incompatível com a visão que os cidadãos têm da convivência e da deliberação democráticas. 

4. Os partidos-movimento de esquerda não precisam de ser inventados a partir do zero; devem conhecer e valorizar as suas origens.

As esquerdas nasceram na convivência com as classes e grupos sociais excluídos. Ajudaram a minorar a exclusão e o silenciamento, não apenas dando voz às suas reivindicações, mas também promovendo a sua autoestima, através da educação e da cultura populares, dos grupos teatrais, das atividades de convívio e de lazer. As esquerdas têm de voltar às suas origens, ao convívio de proximidade com os grupos sociais excluídos, discriminados, empobrecidos. Paradoxalmente, estes grupos são os que sofrem mais com a ideologia dominante e os que mais facilmente se sentem seduzidos por ela, expostos como estão à indústria do entretenimento massivo e às redes sociais reconfortantes. As esquerdas partidárias deixaram de viver onde vivem os seus eleitores, deixaram de conviver e de conversar com eles, exceto quando os visitam para lhes pedir o voto. Quem hoje convive e conversa com os grupos sociais mais excluídos são muitas vezes as igrejas evangélicas neopentecostais quando não é o crime organizado. O ativismo militante de esquerda parece limitar-se a participar em reuniões do partido para fazer (quase sempre ouvir quem faz) uma análise da conjuntura. Os partidos de esquerda, tal como existem hoje, não são capazes de falar com as vozes silenciadas e excluídas em termos que estas entendam. Para mudar isso, as esquerdas devem reinventar-se. 

5. Não há democracia, há democratização.

A responsabilidade das esquerdas reside em que elas servem hoje à democracia mais genuinamente que quaisquer outras. A democracia liberal representativa sempre teve o medo das maiorias sociais. Basta lembrar que a democracia representativa esteve na sua origem limitada aos proprietários, uma pequena minoria de cidadãos. Mas nos últimos sessenta anos passou por períodos em que, com maior verossimilhança, foi o regime dos governos das maiorias para benefícios das maiorias. Hoje em dia, a democracia liberal está cada vez mais capturada por poderosos interesses econômicos. À medida que isso ocorre e é mais conhecido, vai germinando a ideia de que a democracia está a ser desfigurada e é hoje muitas vezes um regime de governos de minorias para benefício das minorias. Em muitos países, as forças políticas de direita dependem cada vez mais de interesses econômicos poderosos. Para poder servi-los, não podem servir à democracia; apenas se servem dela. As forças políticas de esquerda estão, por esta razão, em melhor posição para servir à democracia e defendê-la dos antidemocratas. Mas, para isso, têm de romper com a lógica de organização interna típica dos partidos de direita. 

As esquerdas são as mais bem posicionadas para entender que a democracia não se pode limitar ao espaço-tempo da cidadania. As sociedades politicamente democráticas são frequentemente sociedades em que as maiorias não têm condições de viver democraticamente por estarem expostas a quotidianos de autoritarismo que tenho designado como fascismo social. A luta democrática tem de existir também no espaço da família, da comunidade, da produção, das relações sociais, das relações com a natureza e das relações internacionais. Cada espaço-tempo convoca um tipo específico de democracia. Nisto consiste a democracia de alta intensidade.  Comparada com ela, a democracia liberal representativa é uma democracia de baixa intensidade.  

6. Os partidos-movimento devem lutar contra o fundamentalismo da exclusividade da representação.

Os partidos convencionais sofrem de um fundamentalismo anti-sociedade civil organizada (associações e movimentos sociais). Consideram que têm o monopólio da representação política e que esse monopólio é legítimo, precisamente porque as organizações sociais não são quantitativamente representativas. Por isso, os únicos meios de se articular com elas são a cooptação ou a infiltração. É assim que os partidos só reconhecem “os seus movimentos”, as “suas associações”, sejam elas sindicatos ou ordens profissionais. Este fundamentalismo da exclusividade da representação e o que dele decorre levam a deslegitimar as organizações da sociedade civil, a sujeitá-las a lógicas partidárias com prejuízo para os interesses reais dos seus associados.  

A luta contra o fundamentalismo tem ainda uma outra dimensão. Os partidos privilegiam a ação institucional, a mobilização das instituições, tais como, o parlamento, os tribunais e a administração pública. Pelo contrário, as organizações da sociedade civil e sobretudo os movimentos sociais, embora utilizem também a ação institucional, recorrem muitas vezes à ação direta, aos protestos e manifestações nas ruas e nas praças, aos sit-ins, à divulgação de agendas por via da arte (o artivismo). O fundamentalismo da exclusividade da representação tende a desvalorizar estas importantes formas de mobilização social e a fomentar a tentação de as instrumentalizar. Os partidos tendem a homogeneizar as suas bases sociais (é-se socialista, comunista, conservador, democrata cristão). Pelo contrário, as organizações e movimentos sociais concentram-se em lealdades temáticas mais específicas: a habitação, a imigração, a violência policial, o racismo e o sexismo, a diversidade cultural, a diferença sexual, a ecologia, o território, o regionalismo, a economia popular, etc. Trabalham com linguagens e conceitos distintos dos que são usados pelos partidos. Essa diversidade enriquece a convivência democrática.

As organizações e movimentos sociais sabem que as formas de opressão tanto vêm do Estado como das relações sociais (às vezes familiares) e econômicas. Os sindicatos, por exemplo, têm uma experiência notável de luta contra atores privados: os patrões e as empresas. É por esta razão que o neoliberalismo lhes tem feito um ataque cerrado. A sociedade civil organizada em associações, movimentos sociais e sindicatos está hoje marcada por uma experiência muito negativa: os partidos de esquerda descumprem frequentemente as suas promessas eleitorais quando chegam ao poder. Esse descumprimento leva a prazo à deslegitimação dos partidos. Se a legitimação democrática não for recuperada pelos partidos-movimento democráticos, os partidos antidemocráticos e de vocação fascizante encontram aí um terreno fértil para prosperarem. Apresentam-se, em geral, como o antissistema, a nova/velha extrema-direita. 

7. A revolução da informação eletrônica e as redes sociais não constituem, em si, um instrumento incondicionalmente favorável ao desenvolvimento da democracia participativa. 

Pelo contrário, podem contribuir para manipular a tal ponto a opinião pública que o processo democrático pode ser fatalmente desfigurado (o mundo das fake news e do discurso do ódio). O exercício da democracia participativa necessita hoje, mais do que nunca, de reuniões presenciais e discussões face a face. A tradição das células partidárias, dos círculos de cidadãos, dos círculos de cultura, das comunidades eclesiais de base tem de ser reinventada. Não há democracia participativa sem interação de proximidade. A pandemia tornou mais difícil a política de proximidade, mas ela deve ser retomada logo que possível. 

8. Os partidos-movimento de esquerda estão abertos a juntar forças com outros partidos de esquerda com base no princípio das pluralidades despolarizadas e das teorias da transição.

Tradicionalmente, as forças políticas de esquerda foram vítimas de faccionismo e de oportunismo. Em ambos os casos, esses desvios deveram-se à distância que criaram com as suas bases sociais. No caso das forças de tradição comunista e anarquista, o faccionismo foi o desvio mais frequente, decorrente quase sempre da ansiedade identitária e do purismo ideológico.  Fracionaram-se com frequência e transformaram os companheiros de ontem nos inimigos de hoje. No caso das forças de tradição socialista, o desvio mais frequente foi o do oportunismo, o ecletismo ideológico que tornou mais fácil coligar-se com forças de direita do que com outras forças de esquerda. Tanto o faccionismo como o oportunismo contribuem para desarmar as forças de esquerda e frustrar as suas bases sociais. Isto é particularmente preocupante num contexto de época de crescimento de forças de extrema-direita, apostadas em usar a democracia para chegar ao poder, mas prontas para a descartar à medida que isso for possível. 

Contra esta dupla tradição devem contrapor-se dois princípios. O primeiro é o princípio das pluralidades despolarizadas. Consiste em distinguir entre o que separa e o que une as organizações políticas e promover as articulações entre estas com base no que as une, sem perder a identidade do que as separa. O que as separa apenas fica em suspenso por razões pragmáticas. As diferenças só se despolarizam quando as concessões são recíprocas, quando os processos e resultados da negociação são transparentes e as bases sociais das organizações participantes os consideram benéficos depois de devida e adequadamente consultadas. Esta é a primeira chave para acordos entre os partidos de esquerda. 

A segunda chave consiste na consideração dos tempos e dos ritmos das políticas defendidas. O socialismo não pode ficar na gaveta para sempre, mas também não pode atingir-se amanhã. Há que pensar em períodos de transição, nos quais as reformas devem ser medidas pela capacidade de consolidar avanços sem abrir as portas para retrocessos abruptos. O neoliberalismo tornou tão evidente e grave a transferência de riqueza dos pobres e das classes médias para os ricos e para as velhas e novas elites que as forças de direita tradicionais vivem hoje mais das oportunidades que as esquerdas lhes dão pelos erros que cometem do que por mérito próprio.  

9. A cultura e a educação populares são uma das chaves para sustentar a democracia e travar o avanço dos autoritarismos.

Os meios de luta mais eficazes contra o velho/novo fascismo, o autoritarismo e o obscurantismo são a cultura e a educação. A cultura é a prática da diversidade e da imaginação democráticas por excelência. A educação é essencial para promover a difusão da convivência democrática e do interconhecimento entre diferenças políticas, sociais e culturais. As novas formas de educação política popular incluem rodas de conversa, círculos de cidadania, universidades populares, teatro do oprimido, poesia slam, cultura hip-hop, com vista a criar ecologias de saberes que potenciem a participação política em que se deve plasmar a democracia participativa do futuro: orçamentos participativos, consultas populares, conselhos sociais ou de gestão de políticas públicas, sobretudo nas áreas da saúde e da educação.

A história do país, de tudo o que há nela de luminoso e de tenebroso, é uma dimensão essencial da cultura e da educação. O passado foi um passado de lutas onde houve vencedores e houve vencidos. Por razões óbvias, as classes dominantes preferem a história dos vencedores contada pelos vencedores (seus antecessores). As forças políticas de esquerda devem, ao contrário, promover a divulgação da história dos vencidos contada pelos vencidos (os antecessores dos grupos sociais que se propõem defender).  Histórias plurais são as mais eficazes para lutar contra a falsa contingência do presente e o carácter instantâneo e sem raízes da contemporaneidade monolítica. Uma sociedade que não conhece o seu passado está condenada a ter só o futuro dos outros. 

10. Vivemos um período de lutas defensivas

A ideologia de que não há alternativa ao capitalismo – o qual é, de fato, uma tríade: capitalismo, colonialismo (racismo) e hétero-patriarcado (sexismo) – acabou por ser interiorizada por muito do pensamento de esquerda. O neoliberalismo conseguiu combinar o fim supostamente tranquilo da história com a ideia da crise permanente (por exemplo, a crise financeira, a crise ecológica e, mais recentemente, a crise sanitária). Por esta razão, vivemos hoje sob o domínio do curto prazo. É preciso atender às suas exigências porque quem está com fome ou é vítima de violência policial ou de gênero não pode esperar pelo socialismo para comer ou ser libertado.

Mas não se pode perder de vista o debate civilizatório que põe a questão das lutas de médio prazo. A pandemia, ao mesmo tempo que tornou o curto prazo em urgência máxima, criou a oportunidade para pensar que há alternativas de vida e que, se não queremos entrar num período de pandemia intermitente, temos de atender aos avisos que a natureza nos está a dar. Se não alterarmos os nossos modos de produzir, de consumir e de viver, caminharemos para um inferno pandêmico. 

Num momento em que os fascistas estão cada vez mais perto do poder, quando não estão já no poder, uma das lutas mais importantes é a luta pela democracia. A democracia liberal representativa é de baixa intensidade, porque aceita ser uma ilha relativamente democrática num arquipélago de despotismos sociais, econômicos e culturais. Por isso, não se sabe defender eficazmente das forças antidemocráticas. A democracia liberal representativa é um essencial ponto de partida, mas não pode ser o ponto de chegada. O ponto de chegada é uma profunda articulação entre a democracia liberal, representativa, e a democracia participativa, deliberativa. Neste momento de lutas defensivas, é particularmente importante defender a democracia liberal, representativa, para neutralizar os fascistas e para, a partir dela, radicalizar a democratização da sociedade e da política. As forças políticas de esquerda devem ter isto particularmente presente porque sabem que serão elas os primeiros alvos e as primeiras vítimas da violência fascista. 

sábado, 25 de julho de 2020

“NOM OMNE QUOD LICET HONESTUM EST” (Nem tudo que é legal é honesto)

Valdimiro Lustosa: "Pensemos melhor e tenhamos ação" (Foto: Facebook)

“As instituições políticas, religiosas e educativas contribuem para gerar a ideologia que confunde o interesse da classe capitalista dominante com o interesse geral”.

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical bancário, bacharel em Direito

Em determinados momentos da conjuntura de um país, as instituições perdem totalmente a sua importância. Elas passam a existir somente para referendar o que os donos do poder querem. Vejamos a situação do Brasil: para que serve mesmo o legislativo? Para fazer leis, dirão os deputados e senadores. Mas, que leis? A formação da lei já vem com defeito de origem. É a elite que faz a lei. Escreve-a a seu gosto, voltada para seus principais interesses.

Para tanto, banca a eleição dos seus deputados e senadores. Por isso é que se ouve falar da bancada ruralista ou bancada do boi, da bancada evangélica ou bancada da bíblia, da bancada da bala etc. Da mesma forma, pergunta-se: para que serve o judiciário? Para julgar à luz das leis elaboradas por um legislativo corrupto e representante da elite. Ora, na realidade o judiciário serve mesmo é para referendar os interesses da burguesia. Assim também se pode dizer do mesmo papel que exercem a Polícia Federal e o Ministério Público. Todos atendem aos interesses dos homens do dinheiro.

Quando o cidadão comum procura a justiça, ela não atende ou leva anos a fio para dizer, invariavelmente, NÃO ao pleito do suplicante. Claro que existem exceções. Há juiz e juiz ou como diz a frase: ainda há juízes em Berlim, frase atribuída ao moleiro que havia herdado do seu pai o moinho de vento intitulado moinho de Sans-Souci (episódio ocorrido na Prússia no Século XVIII, quando o Rei Frederico II tentou remover o moleiro das suas terras para ampliar o palácio).
   
O segmento da justiça que ainda atendia um pouco melhor os anseios do hipossuficiente era a Justiça do Trabalho, logo ajustada aos interesses do patronato (vide reforma trabalhista).  É só olharmos a redução de processos demandados nos TRTs Brasil afora. Por conta disso, centenas de escritórios de advocacia trabalhista encerraram suas atividades. Quantos ficaram desempregados! E o povo o que diz de tudo isto? Nada, absolutamente nada. Por quê? No meu entendimento, vários fatores contribuem para tanto. Primeiro, a mídia alimenta o discurso do governo ao apoiar os seus projetos, a exemplo das reformas trabalhista e previdenciária, porque os jornais e TVs são pagos para isto; por outro lado, o governo usa as igrejas concedendo-lhes benefícios (isenções fiscais) para que elas defendam  a política do governo.

Assim, elas avocam o nome de Deus para amortecer uma possível revolta das pessoas.  E os fiéis podem até passar fome, mas não deixam de pagar o dízimo porque são iludidos pelos pregadores do evangelho que prometem o reino do céu. Uma pregação que já faz mais de 2.000 anos e ninguém conhece ninguém que tenha alcançado o reino do céu e que viesse aqui na Terra dizer como é o reino do céu aqui prometido.

A burguesia se delicia com tudo isso. Aliás, ela nunca vem de cara limpa falar diretamente com o povão. A História demonstra que a classe poderosa nunca se apresenta de cara descoberta tal como é. Cobre-se com as bandeiras da religião ou do patriotismo. Acontece que, apenas reconhece e proclama como bom para todos, aquilo que é bom para ela. Por detrás do Estado existe toda uma malha doutrinal, de valores, mitos, instituições e outras tantas formas de iludir.

As instituições políticas, religiosas e educativas contribuem para gerar a ideologia que confunde o interesse da classe capitalista dominante com o interesse geral, justificando as relações de classe existentes como as únicas naturais e, portanto, perpétuas e inalteráveis. Todas essas instituições se conjugam na criação de uma consciência uniforme, para conferir unidade ao pensamento burguês.

Para preservar o sistema que os favorece, os ricos e poderosos investem muito na persuasão. É nesse contexto geral que intervêm nos meios de comunicação de massa e na capacidade dos pregadores do evangelho que têm um poder de persuasão muito eficiente. O governo, que é representante da burguesia, faz “dobradinha” com as igrejas e até usa o espaço físico religioso como comitê de um futuro partido político. Enquanto isso, a promessa do reino do céu continua nas pregações das igrejas. Até quando não se sabe. O reino do céu fica parecendo as tabuletas dos armazéns e bares do interior do nosso país: FIADO SÓ AMANHÃ! Haja paciência!

Baudelaire em um dos seus textos, assim se expressou:

É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

O poeta tinha razão. Como enfrentar tamanha perversidade? Acho que temos que nos embriagar mesmo de virtude, de coragem e fazermos como fez o povo do Chile que já nos apontou o caminho. Pensemos melhor e tenhamos ação. O que  estamos  vendo no Brasil é algo assustador. Não sabemos quando isto terá fim. Alea jacta est!

terça-feira, 21 de julho de 2020

“AUTORITARISMO FURTIVO” (OU “DEMOCRACIA HÍBRIDA”)

André Singer, cientista político (Foto: da Internet)

“É muito difícil para a sociedade perceber o que está acontecendo, porque aparentemente as instituições estão funcionando, existe uma fachada legal...”

(Meus amigos me sacaneiam porque não uso Whatsapp e ainda uso e-mail. Mas o que eu quero mesmo é voltar a usar cartas).

Por Jadson Oliveira – jornalista/blogueiro – editor deste Blog Evidentemente

Caro companheiro Lustosa (Valdimiro Lustosa, também chamado Guri),

Há dias tento escrever alguma coisa sobre ‘A tão falada democracia... uma falácia”, espicaçado por seu artigo (‘reflexões’) aqui publicado no último dia 24/junho.

(É pena que este meu Blog Evidentemente é pouco visitado. Seu artigo teve apenas 91 acessos até hoje. Merecia mais).

Mas esse Corona, com o flagelo do confinamento mal feito e o genocídio anunciado, tem me deixado de saco cheio e me tirado a parca inspiração.

A verdade é que sempre tive pouca consideração pela tal da democracia. Um substantivo difícil de digerir. Me falta sempre um adjetivo para temperá-la.

Nos velhos tempos de militante comunista, era mais fácil. A gente tascava logo a “democracia burguesa” e estava consumada a condenação perpétua à dita cuja. Navegávamos em ilusões, utopias, escudando-nos nas certezas com as quais a juventude nos brindava. Éramos militantes, otimistas, mais alegres e mais felizes.

Agora, em se falando de Brasil, já entrando no declinar do lavajatismo – arrastando para a lama da história o bolsonarismo, seu filho dileto -, continuamos a nos debater em busca dum adjetivo.

Às vezes, também, dum substantivo: é o caso da mídia hegemônica (monopólios tradicionais dos meios de comunicação, Globo & Cia). Para eles, os monopólios, é mais simples: se os governantes são contra o império estadunidense, trata-se duma ditadura. Estão aí Venezuela, Cuba, Irã, China, Coreia do Norte;

Se são alinhados com o império, trata-se duma democracia: Brasil, Israel, Colômbia, Arábia Saudita, pra não falar no próprio Estados Unidos, “a maior (ou melhor?) democracia do mundo”.

RESSURGE A DEMOCRACIA: manchete de O Globo anunciando a vitória do golpe de 1964

Há ainda fascismo, viés fascista, autoritarismo, neoliberalismo, liberal fascista. Uns tresloucados por aí (extrema-direita, terraplanistas?) ainda falam, atualmente, no Brasil, da existência de comunismo no Estado brasileiro (certamente implantado ou incrementado pelo petismo). Santa ignorância! nesses tempos de notícias mentirosas aos milhões, instantâneas (fake news).

E mais: a conexão com o capitalismo. Você mesmo, companheiro,  no seu artigo referido acima, destaca “os escandalosos lucros dos bancos brasileiros ou dos estrangeiros que operam no Brasil”, ao falar da nossa cruel realidade marcada pela desigualdade.

Destaca ainda no seu segundo artigo aqui postado no último dia 13 – ‘A ironia da Folha de S.Paulo’ -, ao se referir à Revolução Francesa. Você lembra que o “Terceiro Estado (a plebe), que era a maioria, sustentava os outros dois” (o primeiro e o segundo – o clero católico e a nobreza, respectivamente). “Assim é o capitalismo”, arremata.

Tal conexão está também em comentários de companheiros nossos/leitores do blog: Osvaldo Laranjeira: “Como alguém disse: "precisamos desmistificar um caminhão de ilusões da democracia capitalista". Creio que o problema está no adjetivo "capitalista". Pois enquanto o capitalismo vigorar jamais teremos uma democracia participativa e que mereça a velha formulação: do povo, pelo povo e para o povo. Também nunca veremos o tal Estado democrático de direito”.

Irenio Viana: “A democracia, verdadeiramente, é uma falácia mesmo, é a moneycracia”; Rubia Oliveira: “Democracia SÓ para os ricos. Pobre só tem O VOTO, mesmo assim, ERROU feio”; e Téo Chaves observa que “a democracia está submissa às armas, à ignorância, à desigualdade...”

Isso bate com uma reflexão que sempre me ocorre: não seria mais justo, mais esclarecedor, se ressaltar a vigência do sistema capitalista, ao invés do desgastado sistema democrático? Lembremos da memorável manchete do jornal O Globo, logo após o golpe militar de 31 de março de 1964: RESSURGE A DEMOCRACIA (foi dia 1º de abril ou 2 de abril?).

Mas, porém, todavia, companheiro Lustosa, volto aos adjetivos. (Não esquecer que, oficialmente, vivemos na chamada “democracia representativa”, doente terminal há décadas. Característica central: os eleitores votam e escolhem seus representantes de quatro em quatro anos. E adeus: na próxima eleição, nos vemos novamente).

Confesso ter uma simpatia especial pela chamada “democracia participativa” (ou “direta” – alô, companheiro Laranjeira). Conheci-a, um pouco, nas duas temporadas que passei em Caracas, 2008 (três meses) e 2012 (cinco meses): eleição todos os anos, dispositivo constitucional revogatório de mandato presidencial, povo nas ruas permanentemente, milícias populares, comunas populares, mídia contra-hegemônica a todo vapor contra os monopólios privados de comunicação.

Autoritarismo incremental, aplicado por dentro das leis e conduzido por líderes democraticamente eleitos

Centrando na conjuntura atual brasileira: golpe contra Dilma, governos Temer/Bolsonaro e, principal, descalabro  resultante do genocídio sanitário e da crise econômica e política. Com o agravante: incapacidade da esquerda (ou centro-esquerda) – baleada pela campanha do suposto combate à corrupção - de interagir com as massas populares.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos cunhou uma conceituação que, pelo que entendi, é bem esclarecedora para nossos dias: “democracia híbrida”. É uma meia democracia e meia ditadura. Com as características da alternativa abaixo, acho que dá pra entender (queria deixar um link aqui, mas não consegui localizar pelo Google. Vale a pena ler).

Outra, que achei espetacular, é dum grupo de estudiosos brasileiros, conforme um deles, o cientista político André Singer. Chama-se “autoritarismo furtivo”. Segue o resumo do próprio Singer (baseado em postagem do site Brasil247):

1 – “O autoritarismo furtivo é incremental, ele vai se dando continuamente, pouco a pouco. Todos os dias o Poder Executivo vai tentando alargar seus poderes e suprimir os contrapoderes. Vai tentando se sobrepor até o momento em que você imperceptivelmente cai em uma ditadura.

2 - A segunda característica é que ele justamente se dá por dentro das leis, não rompendo com as leis. Um exemplo bem fácil para nós aqui no Brasil é o impeachment da ex-presidente Dilma, porque eles usaram uma brecha que existia dentro das leis. O que esse processo gerou foi uma ruptura de democracia por dentro das leis.

3 - A terceira característica é que esse processo de autoritarismo furtivo é conduzido por líderes democraticamente eleitos, então não vem com uma força de fora do sistema político, como as Forças Armadas.

O resultado é que é muito difícil para a sociedade perceber o que está acontecendo, porque aparentemente as instituições estão funcionando, existe uma fachada legal, uma fachada de normalidade que é feita de propósito”.

É isso aí, Lustosinha, um forte abraço. Espero ajudar no seu esforço de reflexão. Agradeço por manter respirando este meu blog nesse malfadado confinamento. O qual, infelizmente, deve romper no tempo, pois o tal do distanciamento social segue capenga, sob os auspícios do (des)governo Bolsonaro/Guedes. 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A IRONIA DA FOLHA DE S.PAULO

Jair Bolsonaro: eleito com a ajuda da chamada grande imprensa (Foto: Internet)

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018.

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical, bacharel em Direito

Há poucos dias li nas páginas do jornal da família Frias, o chamamento apelativo: “Use amarelo pela democracia”! Seria uma réplica do movimento das diretas já de 1983/1984? Seja como for, sabemos que a Folha de S.Paulo, até mesmo nas diretas já só veio a se manifestar a favor quando o movimento já estava forte. Até lá o jornal ficou omisso. Quando viu que a onda era crescente não hesitou e apoiou. Oportunismo?

Agora, decorridos 36 anos, vem com a campanha do “Use amarelo pela democracia”! Cheira à ironia. Um jornal que apoiou o golpe  de 1964, compactuou com o regime militar, fez campanha cerrada para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, foi linha de frente na campanha de Bolsonaro contra Haddad e agora, porque a maré não lhe está sendo favorável, deita falação contra o presidente, deixando a entender que foi enganado e que não era isto que esperava da sua política econômico-social. A imprensa brasileira sempre agiu assim. Sabia perfeitamente, quem era Bolsonaro, mas por ódio, por capricho ou por interesses outros, apoiou o modelo que está aí.

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018. A imprensa que sempre defendeu os projetos da burguesia quer vestir o povo de amarelo com um novo slogan: “Um jornal a serviço da democracia”. Em 1961 o slogan era “Um jornal a serviço do Brasil”.
A elite que depôs Dilma Rousseff do poder em 2016 foi quem colocou o Bolsonaro na presidência com o apoio irrestrito da mídia. Todos se lembram do pato amarelo da FIESP, órgão ultrarreacionário que patrocinou as campanhas do desmonte da CLT que albergava direitos dos trabalhadores, retirando praticamente todos os direitos trabalhistas, bem como apoiou firmemente a reforma da previdência que restringiu o direito de aposentadoria. Ora, depois de tanta perversidade, veste-se de amarelo para enganar os incautos, pregando um nacionalismo manjado. Que nacionalismo é este que entrega de mão beijada as empresas nacionais, que queima a floresta amazônica para vender madeira e plantar capim para criar gado? Ora, quem comprou seu carvão molhado que o abane! Eu não comungo desse tipo de nacionalismo. Nacionalismo na essência seria preservar nossas riquezas, investir em pesquisas científicas, na educação, na geração de empregos para o nosso povo, não essa manobra oportunista das cores nacionais.

A mesma mídia que critica OPORTUNISTICAMENTE, o governo Bolsonaro é a mesma que apoia as reformas trabalhista e previdenciária; que apoia a política de desmonte da riqueza nacional com a venda, ou melhor, com a entrega das nossas empresas ao capital estrangeiro a preço de banana. Uma lástima! Conclamar o povo para vestir amarelo e liderar um futuro governo sem a participação popular. Esse é o projeto. Já assisti a esse filme. A campanha das diretas já gorou! O que sobrou para o povo? Nem o bagaço da laranja. Não entro mais nessa. Os tempos são outros, mas parece que ainda continuamos iludidos. Qualquer mudança na política institucional do país só beneficia a classe dominante que, em associação com as igrejas, espolia os trabalhadores. Seria muito bacana se o povo entendesse essas manobras para, no momento certo, dar o troco, votando em seus verdadeiros representantes e não nos representantes dos segmentos burgueses da sociedade.

Se tomarmos como exemplo a Revolução Francesa, estribada no lema “Liberté, Égalité, Fraternité”, podemos ver que sempre a plebe fica a ver navios, ou seja, na hora da luta, a massa vai à frente, mas na hora de repartir os benefícios... Na França foram criados três estados:  o Primeiro Estado representado pelo clero e câmaras diocesanas; o Segundo Estado representado pela nobreza; o Terceiro Estado era, conforme Eric Hobsbaum, representado por uma entidade fictícia destinada a todos os que NÃO eram nobres e nem membros do clero, ou seja, a plebe. O Terceiro Estado, que era a maioria, sustentava os outros dois! Assim é o capitalismo. O Primeiro Estado e o Segundo Estado não pagavam impostos e tinham uma série de privilégios, enquanto a plebe tinha que se virar para ter seus representantes.

Assim é como tudo funciona no capitalismo. Há pouco tempo quiseram destruir o Partido dos Trabalhadores. A elite não aceita de jeito nenhum que os trabalhadores tenham seus representantes, mas ela banca a campanha dos seus parlamentares para fazerem leis que atendam os seus desejos. Desta forma a burguesia se perpetua no comando das nações, seja aqui, ali, alhures, sempre foi assim, até um dia, até talvez, até quem sabe.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A TÃO FALADA DEMOCRACIA... UMA FALÁCIA!

Valdimiro Lustosa (Foto: da página do autor no Facebook)

“Era de se esperar um mundo mais humano em busca do bem-estar social, da harmonia entre os povos, de uma distribuição de renda menos perversa, em busca de dias mais felizes.” (Como brinde, ‘Números’, uma preciosidade do poeta italiano Trilussa)

REFLEXÕES

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical, bacharel em Direito (título principal e destaque acima são da edição deste blog)

Tenho aproveitado o período de isolamento social para me dedicar um pouco à leitura e fazer reflexões sobre o momento da pandemia e o momento político brasileiro. Assim, deparei-me com textos altamente esclarecedores, dignos de análises profundas do porquê estamos passando por momentos tão cruéis. Não que em outras eras o mundo tenha sido uma maravilha. Em absoluto. Vivemos momentos tão desastrosos com guerras, crises, escravidão etc. Todavia estamos no Século XXI e parece que ainda não saímos do Século XIX.  Era de se esperar um mundo mais humano em busca do bem-estar social, da harmonia entre os povos, de uma distribuição de renda menos perversa, em busca de dias mais felizes. No entanto o que vemos é a correria pela maximização do lucro (vide os escandalosos lucros dos bancos brasileiros ou dos estrangeiros que operam no Brasil). Os trabalhadores perderam seus direitos que foram arrancados por uma LEI CRIADA para, segundo os magnatas do poder, gerar mais empregos. O que vimos e estamos a assistir é um verdadeiro massacre com perdas de empregos que já somam no momento mais de 24 milhões de pessoas desempregadas. Que reforma é esta?!! O que vimos foi a destruição da previdência para ninguém poder se aposentar como antes. Depois falam em DEMOCRACIA. É UMA FALÁCIA! Aliás, sobre o tema democracia, gostaria de falar a posteriori. Vendem-se as empresas brasileiras e assim não teremos mais empregos. Esta é a proposta dos homens do dinheiro que bancam candidaturas e têm seus representantes no Congresso Nacional para elaboração de leis que interessem somente a eles. Pedem e pregam o NEOLIBERALISMO, ou seja, o Estado deve ficar fora das decisões econômicas, contudo, quando há uma crise como a que estamos passando e que afeta em cheio a economia notadamente, as pequenas empresas e os mais pobres, a burguesia não contribui com um real para salvar os mais necessitados. Todos esperam e cobram do governo. Neste momento ninguém quer ser liberal!

O que é a liberdade

Nas democracias o povo parece fazer o que quer, mas a liberdade política não consiste nisso. Num Estado, isto é, numa sociedade em que há leis, a liberdade não pode consistir senão em poder fazer o que se deve querer e em não ser constrangido a fazer o que não se deve desejar.
Deve-se ter em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem: se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder.

Os versos de Trilussa

Trilussa, poeta italiano cujo verdadeiro nome era Carlo Alberto Salustri, viveu no tempo de Mussolini e ousou escrever fábulas criticando ferinamente o regime fascista. Segundo Paulo Duarte, tradutor de sua obra, Trilussa reuniu cinquenta poemas em Libro muto (Livro mudo), cuja edição logo se esgotou: “O fascismo, como sempre acontece em momentos tais, só descobriu que o Livro mudo era um protesto violento escarnecedor e mordente quando o livro já estava na rua”. Mas também explica que Mussolini, no seu tempo de socialismo e boêmia, foi amigo de Trilussa, o que talvez justifique sua complacência com o poeta. Se bem que não se pode negar um certo oportunismo perante tão ilustre personalidade, famosa no mundo inteiro. Quando um escritor perguntou a Mussolini a respeito da censura rigorosa que fazia calar toda crítica, ele teria retrucado: “Abolição da liberdade? E Trilussa?...”

                                    Números

Eu valho muito pouco, sou sincero,
Dizia o Um ao Zero,
No entanto, quanto vales tu? Na prática
És tão vazio e inconcludente
Quanto na matemática.
Ao passo que eu, se me coloco à frente
De cinco zeros bem iguais
A ti, sabes acaso quanto fico?
Cem mil, meu caro, nem um tico
A menos nem um tico a mais,
Questão de número. Aliás é aquilo
Que sucede com todo ditador
Que cresce em importância e em valor
Quanto mais são os zeros a segui-lo.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

“VOU SER FUZILADO DAQUI A POUCO (...) NÃO QUERO QUE O FRIO ME FAÇA TREMER”

A execução aí na foto (da Internet) não tem relação com a da carta abaixo

“Assumi meu lugar no Exército de Libertação, e morro quando a luz da vitória já começa a brilhar”.
Por Spartaco Fontanot – soldado voluntário da luta antifascista na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial.
“Querida mamãe: De todas as pessoas que conheço, a senhora é a única que vai sentir mais, por isso meus pensamentos são para a senhora. Não culpe ninguém mais por minha morte, porque eu mesmo escolhi minha sorte.
Não sei como lhe escrever, porque, mesmo tendo a cabeça clara, não consigo encontrar as palavras certas. Assumi meu lugar no Exército de Libertação, e morro quando a luz da vitória já começa a brilhar (...) Vou ser fuzilado daqui a pouco com 23 outros camaradas.
Depois da guerra a senhora deve exigir seus direitos a uma pensão. Eles lhe entregarão minhas coisas na prisão, só que estou ficando com o colete de papai, porque não quero que o frio me faça tremer (...) Mais uma vez, digo adeus. Coragem!
Seu filho,
Spartaco”.
Spartaco Fontanot, metalúrgico, 22 anos, membro do grupo resistente de Misak Manouchian, 1944, in Lettere (1954, p.306)
PS: Transcrito do livro ‘Era dos Extremos – O breve século XX – 1914-1991’, autor Eric Hobsbawm, página 144, editora Companhia das Letras.
Conforme pesquisa na Internet, Spartaco Fontanot nasceu na Itália em 1922 e foi fuzilado no Forte Mont-Valérien, na França, em fevereiro de 1944, quando a Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. Participava como voluntário da resistência contra o fascismo/nazismo na França ocupada.
Misak (ou Missak, como encontrei na Internet) Manouchian, o nome do grupo de resistência, foi um poeta e militante comunista do povo armênio, nascido na Turquia.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

“HERÓI NÃO É SOMENTE AQUELE QUE DERRAMA SEU SANGUE NO CAMPO DE BATALHA”

(Foto: da Internet)

A década de 1950 não sai da memória daquele menino. Nem os “intelectuais” que faziam sua cabeça, a partir dos ensinamentos do Instituto Ponte Nova: Raimundo Viana, Jeová Queiroz e outros e outras.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente

Eram os nossos intelectuais. Para os que ficavam na terra, pobres mortais! e os viam ora partir ora chegar, sentados nos bancos do caminhão pau de arara, rapazes e moças cheios de juventude e beleza, cantando canções alegres, boleros – “eu também me perdi, vou vagando passo a passo, na esperança de um dia encontrar uma nova ilusão...” -, restava uma pontinha de inveja. Será que um dia também chego lá?

Eram um rasgo de alegria e futuro. Estudar no Instituto Ponte Nova (na hoje cidade de Wagner), lá pela década de 1950, era o grande sonho da classe média e elite de Seabra – então uma  cidadezinha, hoje pomposamente chamada “a capital da Chapada”. De Seabra e também de muitas outras cidades da região e até de mais longe, até de Santa Maria da Vitória, lá no Sudoeste do estado – que o diga nosso companheiro Valdimiro Lustosa Soares, o popular Guri, que lá estudou e depois foi pra Lençóis estudar (e jogar bola).

Não sei se soa muito grandiloquente chamá-los de intelectuais. Na nossa cabeça, dos pobres mortais, eram sim, enchiam nossos olhos, corações e mentes. Não quero nem falar nos talvez (na minha cabeça) mais proeminentes: Ivan e Iovane, dos Oliveira dos Fabrício.

Guardei na memória a bela frase que dá título a esta crônica: “Herói não é somente aquele que derrama seu sangue no campo de batalha”. Foi a abertura dum discurso de Raimundo Viana, de Iraquara, então estudante de Ponte Nova, filho de seo Zezinho e dona Guió, neto do velho Honório e dona Pianga, sobrinho de Prisa, irmão de Rui e Reinaldo (doutor Reinaldo), além de outros e outras mais.
Raimundo Viana, na faixa dos 50 anos, com sua mãe Dona Guió (Guiomar Azevedo) (Foto: do arquivo de familiares)

O aluno Raimundo Viana discursava numa solenidade em Seabra (certamente relacionada com alguma homenagem ao Instituto Ponte Nova), no prédio principal da cidade de então (hoje, creio, é sede do gabinete do prefeito). Ele fazia o elogio ao chefe da missão presbiteriana estadunidense (Dr. Baker? Fundação Baker?), dirigente da instituição mantenedora do Instituto (me parece que o tradicional Colégio 2 de Julho, hoje Faculdade, em Salvador, também foi cria dos mesmos presbiterianos).

O contexto da frase de Raimundo é óbvio: herói era também o missionário, que não derramou o sangue numa guerra, mas desbravou os rincões sertanejos da Bahia para implantar uma escola que traria a luz da educação para os baianos.

Outro dos que chamo intelectuais: Jeová Queiroz (filho de seo Franklin e dona Donana, irmão do nego Robério e da professora Marilande, além de outros e outras mais).

Tão “intelectual” que, certa vez, sentado no batente do bar de Osvaldo Sales (o mais importante da cidadezinha), com uma rapaziada de nós, pobres mortais, caiu na temeridade de usar o termo “contusão” durante trivial papo sobre um jogador machucado durante algum jogo (certamente do Flamengo ou Vasco, times pelos quais a rapaziada torcia, graças às emissoras de rádio do Rio de Janeiro, nossos únicos meios de comunicação de massa: Mayrink Veiga, Nacional e Globo).

Contusão?! – espantamos nós. Todos na roda desconheciam tal palavra. O nosso amigo, apesar da áurea de estudante de Ponte Nova, devia estar equivocado: não seria “confusão”? Confusão! - não tem nada a ver, o jogador está contundido, explicou Jeová meio perplexo. Mas, diante da incredulidade geral, desistiu. Fez uma cara assim como pensando (sem falar): “São uns bocós, imbecis...” (ou coisa parecida).
Jeová Queiroz, já com 68/69 anos, na praia de Porto de Galinhas (Pernambuco) (Foto: do arquivo de familiares)

Foi Jeová que, certa vez, me revelou a existência dum troço importante do organismo humano: o sistema imunológico. Me disse que era bom a gente usar uma pomada, por exemplo, quando tinha algum ferimento, porque iria fortalecer o “exército” de defensores do corpo. Eu achei uma novidade simplesmente espetacular. (O assunto foi badaladíssimo quando do auge do HIV e volta à berlinda agora nestes tempos do coronavírus).

Foi Jeová, também, que ensinou a mim e a meu irmão um pouco mais velho (Stimison) a jogar futebol de salão. Com uma particularidade: a gente achava que Jeová, com aquela cara de  gozador, estava nos enrolando e nunca conseguiríamos ganhar dele, pois a todo momento, a depender do lance do jogo, ele “inventava” uma regra que o favorecia.

Já falei em outras crônicas sobre Ponte Nova (lembranças da década de 1950) e tenho muito a falar ainda. Por enquanto, registro logo que o Ginásio Municipal de Seabra, que começou a funcionar em 1958, foi uma consequência, mais ou menos natural, da existência do Instituto Ponte Nova.

É bastante lembrar as primeiras (e queridas) professoras (e um querido professor) que iniciaram o ginásio, todas saídas de Ponte Nova: Marilande Queiroz (diretora), Darcy Queiroz (secretária), Iovane Oliveira (professor de Matemática), Dilcinha Abreu (Português), Nog Sena (Francês), Zenilde Moreira (Geografia).

Será que esqueci alguém deste grande time?

PS: O Instituto Ponte Nova foi criado por presbiterianos dos Estados Unidos, em 1906, na hoje cidade de Wagner, a 390 quilômetros de Salvador (era Itacira, distrito de Lençóis). Além dos serviços prestados à educação, em especial na região da Chapada, teve papel relevante na área da saúde (a missão incluía um hospital). Teve influência também na cultura: além do aparecimento dos “protestantes” (ou “crentes”), lembro, por exemplo, com certa nostalgia, que a gente jogava beisebol.

Apesar de ter ficado na minha memória o nome “Dr. Baker”, vi no Wikipédia que o missionário presbiteriano norte-americano chamava-se William Alfred Waddell. Ainda segundo o Wikipédia, a escola foi subsidiada pelos estadunidenses até 1971.

Pela década de 1950, época de minhas recordações, o diretor do Instituto era “doutor Jaime”, como era conhecido entre nós. Trata-se do pastor presbiteriano Jaime Wright, que tornou-se conhecido nacionalmente como defensor dos direitos humanos. Nos anos 1970/1980, colaborou com a equipe do arcebispo Dom Evaristo Arns na feitura do dossiê sobre os crimes da ditadura militar (tortura e assassinato de oposicionistas), trabalho que resultou no livro ‘Brasil: Nunca Mais’.

O “professor Jairo” (de Educação Física) era muito badalado pelos estudantes por ser o organizador do time de futebol do colégio. Um time respeitadíssimo na região. Havia inclusive um craque famosíssimo chamado Pedro Hora, o qual, na sua opinião, jogava mais do que Pelé. “Não é brincadeira, não”, me advertiu ele próprio um dia, muito seriamente (isso é tema para outra crônica).