Páginas

sexta-feira, 24 de junho de 2022

QUE CRIME ASSANGE COMETEU?

 

Foto: Reuters/Henry Nicholls

Ao aprovar a extradição de Assange, o governo britânico avança na consumação de um ataque à liberdade de imprensa em escala mundial.

"Que crime Assange cometeu?", perguntou Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, durante um evento em Maceió. Lula prosseguiu: "É o crime de falar a verdade..."


Por Paulo Moreira Leite (jornalista) - Reproduzido do site Brasil 247, com o título Depois de Assange, a próxima vítima pode ser você, datado de 18/junho/2022.

 

Não é difícil compreender o que está em jogo na perseguição inclemente do governo dos Estados Unidos a Julian Assange, que já completa mais de dez anos, numa ação de Estado, que une republicanos e democratas num mesmo processo. 

"Que crime Assange cometeu?", perguntou Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, durante um evento em Maceió. Lula prosseguiu: "É o crime de falar a verdade, mostrar que os Estados Unidos, estavam grampeando muitos países do mundo, inclusive grampeando a presidente Dilma Rousseff". 


A reação de Lula está em linha com entidades democráticas do planeta, a começar pela Anistia Internacional, celebrada há décadas. "Permitir que Assange seja extraditado para os EUA o colocaria em grande risco, numa mensagem assustadora para jornalistas de todo mundo", denunciou a entidade.  Fundador do Wikileaks, Julian Assange utilizou as modernas tecnologias de informação para desvendar bastidores jamais investigados do império norte-americano, que puderam ser retratados em sua intimidade e crueza, inclusive momentos de crime e horror. Divulgou informações chocantes, diálogos vergonhosos e mesmo cenas repulsivas de tortura de prisioneiros sempre apoiado em documentos -- vídeos, fotos, gravações -- cuja autenticidade jamais seria negada. Num cotidiano onde jornalistas do mundo inteiro costumam ser processados e condenados pela divulgação de notícias falsas, ou relatos que não podem ser sustentados em provas, a situação aqui é outra. Assange é processado em função de informações verdadeiras e comprovadas. A tentativa é condená-lo por divulgar a verdade. A cada passo destinado a conduzir Assange aos Estados Unidos, onde o aguarda um julgamento em corte militar, o direito de cada um de nós ter conhecimento real a respeito de verdades ocultas sobre as forças que governam o planeta fica diminuído e até ameaçado. Não se trata de um caso individual. 

Em 1971, quando o New York Times divulgou documentos ultra-secretos sobre a atuação do governo Richard Nixon na guerra do Vietnã, o caso virou um escândalo universal mas foi tratado na esfera adequada, como liberdade de expressão.  Responsável pelo vazamento, o analista militar Daniel Ellsberg foi julgado pela Suprema Corte, onde enfrentou uma acusação que pretendia condená-lo a 115 anos. 

Apoiado pela juventude que fora as ruas lutar contra a guerra, Ellsberg assumiu suas responsabilidades pela divulgação dos papéis, alegando que, "como cidadão americano, não poderia manter essas informações escondidas do público". Acabou absolvido.

Meio século depois, o debate mudou de lugar -- e de sentido, obviamente. Num tratamento diferente daquele recebido por Daniel Ellsberg, o civil australiano Julian Assange será julgado por denúncias que envolvem a invasão do Iraque -- mas num tribunal militar, onde vigoram outras regras, outra disciplina e, acima de tudo, outros princípios. 

Para a humanidade, a questão é a mesma -- liberdade de expressão -- mas o cenário é outro. O horizonte também. A militarização do debate sobre a liberdade de imprensa não é uma iniciativa inocente. O custo é pago pela democracia, isto é, por todos nós. 

Alguma dúvida? 

(Cabe observar que o Brasil de Bolsonaro já possui -- todas as diferenças guardadas -- um caso semelhante. A anulação dos julgamentos da Lava Jato, que trouxe Lula de volta à vida pública e à campanha presidencial, só foi possível graças a Operação Spoofing, alimentada pelos diálogos entre figurões da Lava Jato. As conversas foram grampeadas pelo hacker Walter Delgatti Neto, fonte das denúncias do Intercept, que se tornaram manchete mundial. Delgatti foi investigado por várias acusações, inclusive de "organização criminosa". Nada se provou que contra ele mas segue tratado como se tivesse feito alguma coisa errada).

sábado, 18 de junho de 2022

#DOMEBRUNOPRESENTES – AS DIGITAIS DO MANDANTE

 


(O mandante) está no incentivo à violência, no descaso na apuração, no desmonte aos órgãos responsáveis pelas políticas públicas, na perseguição à imprensa, na impunidade... Quem incentiva o crime também aperta o gatilho.

Por Mônica Bichara (jornalista)  junho 16, 2022 (Reproduzido do blog Pilha Pura)

Quem não está com um choro entalado na garganta hoje, no Brasil, está do lado do mandante. E seja lá quem for o mandante oficial dessa barbárie que abateu, num só golpe, um jornalista e um indigenista, a digital do verdadeiro culpado está espalhada por todos os lugares (pouco importa quem puxou o gatilho). Está no incentivo à violência, no descaso na apuração, no desmonte aos órgãos responsáveis pelas políticas públicas, na perseguição à imprensa, na impunidade... Quem incentiva o crime também aperta o gatilho.

Desde a primeira notícia sobre o sumiço dos dois, o "chefe supremo" botou a carapuça: “Se arriscaram numa aventura não recomendável”. Não! Não era, nem nunca foi uma aventura. Muito menos não recomendável. Estavam cumprindo suas missões. Culpar as vítimas sempre foi a saída preferida dos covardes. E para isso nem fingem um mínimo de preocupação. Não colaria mesmo. 

É sintomático que essa monstruosidade tenha vitimado justamente um jornalista, além do indigenista. Somos o alvo principal, e declarado, do atual governo. 

E justo o britânico Dom Phillips, correspondente do The Guardian no Brasil, autor da suprema ousadia de questionar o todo poderoso, em junho de 2019, sobre o crescimento dos desmatamentos na Amazônia e a falta de ações de preservação. Citou, inclusive, a parceria do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (o que queria passar a boiada), com madeireiros da região. Sem sequer olhar no rosto do entrevistador, sentado ao seu lado, nem disfarçar o ódio que espumava pela boca imunda, o incentivador de toda essa onda de violência que se instalou no país vomitou essa pérola: “Primeiro você tem que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês”.

O choro coletivo, que continua entalado, vem se acumulando desde outro maldito golpe, o que permitiu essa múltipla tragédia brasileira. E foram inúmeros os atentados, sob forma de declarações desastrosas, tecendo a crônica das mortes anunciadas. Alguns exemplos:

“Se eu assumir a Presidência do Brasil, não terá mais um centímetro para terra indígena”, disse em 8 de fevereiro de 2018;

“Em 2019 vamos desmarcar a Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil e armas a todos os fazendeiros”, na Câmara Federal, em 2016;

"As reservas indígenas sufocam o agronegócio”, em 2015;

“Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, dia 3 de abril de 2017, no Estadão;

“Se eleito eu vou dar uma foiçada na Funai, mas uma foiçada no pescoço. Não tem outro caminho”, promessa de campanha cumprida com “louvor” – reduziu pela metade a estrutura do órgão de apoio aos povos indígenas. O próprio Bruno Pereira já tinha sido vítima desse desmonte, quando perdeu o cargo de coordenador de povos isolados na Funai, vingança promovida na gestão do ex-ministro Sérgio Moro na Justiça.

 

Que essas mortes não sejam em vão

 

E para que as mortes de Dom Phillips e Bruno Pereira não sejam em vão, o Brasil e o mundo precisam acordar e ir para as ruas, soltar o grito coletivo que está nos entalando. Exigir punição, exigir demarcação, respeito aos povos indígenas, aos territórios tradicionais, ao meio ambiente, à democracia. À dor que estamos sentindo. Difícil mensurar a aflição das famílias, amigos, colegas. Mais ainda a dos indígenas, que depositam ESPERANÇA na "aventura", ou "excursão", dos ativistas em defesa da Amazônia, 

Está cada vez mais difícil respirar nesse país, onde raposas foram colocadas para tomar conta de galinheiros. Um racista na Palmares, uma fundamentalista nos Direitos Humanos, um madeireiro na Funai, um latifundiário na Agricultura....

Não basta mais apenas chorar ou se revoltar com a confirmação das mortes. Que a repercussão internacional desse caso, por envolver um jornalista britânico, branco, representante de um dos mais importantes veículos de comunicação do mundo, não esmoreça. É o mínimo que podemos fazer, e exigir, para que Dom e Bruno não tenham perdido suas vidas em vão. Que, ao contrário, eles virem semente de um Brasil mais justo. Como a memória de Marielle Franco vem ajudando a semear a luta pela redemocratização do país.

#ForaBolsonaroGenocida

#domebrunopresentes

#MariellePresente

sábado, 4 de junho de 2022

É PRECISO COMPREENDER O PROCESSO HISTÓRICO PARA NELE INTERVIR

 

Ex-ministro Roberto Amaral

Cobra-se do Partido dos Trabalhadores um projeto revolucionário que não está no horizonte de seu programa

(Ironia da História: são os “subversivos” que, hoje, defendem a democracia no país, contra as ameaças totalitárias dos partidos da ordem.) 

O pior desatino comete o pretenso revolucionário que supõe poder alterar a realidade ignorando os limites de seu papel como sujeito histórico.

A urgência histórica é a questão democrática, que se materializará na derrota do projeto continuísta do bolsonarismo.

O programa fascistóide tem raízes em ponderáveis segmentos da sociedade brasileira, sua existência guarda coerência com nossa formação de sociedade

Por Roberto Amaral - cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia em 2003/2004 - 28/maio/2022 (Reproduzido do site Brasil 247)

Ponderáveis setores da esquerda brasileira, novos e antigos companheiros das lutas democráticas, cobram de Luiz Inácio Lula da Silva o anúncio de um projeto socialista para o Brasil de hoje – embora a revolução, sempre desejada, não esteja  posta pelo processo histórico. Lamentavelmente. De Lula, um dos mais avançados quadros da centro-esquerda brasileira, como certificam seus oito anos de governo, o que havemos de esperar é a construção e liderança de uma nova maioria política, fiadora da continuidade democrática, fundamental para a luta dos trabalhadores no Estado burguês. Não é um fim, em si, mas processo sem o qual não retomaremos o projeto de uma sociedade sem classes.

 

(Ironia da História: são os “subversivos” que, hoje, defendem a democracia no país, contra as ameaças totalitárias dos partidos da ordem.)    

Cobra-se do Partido dos Trabalhadores – o maior e o mais sólido partido da socialdemocracia brasileira – um projeto revolucionário que não está no horizonte de seu programa. Sob o comando de Lula, o PT lidera uma coalizão partidária de centro-esquerda, ampla, que mais e mais procura afastar-se das teses encampadas na saudosa campanha eleitoral de 1989, porque de lá para cá o mundo mudou, o país mudou e mudou o próprio PT, tanto quanto mudaram as perspectivas da esquerda brasileira, com a crise do “socialismo real” e as seguidas “diásporas”; e consequentemente as condições de luta pioraram. O PT mudou para vencer as eleições em 2002, e volta a mudar, desta feita para poder liderar uma frente ainda mais ampla, em condições de derrotar o projeto protofascista governante, que nos ameaça com anunciadas expectativas de continuidade.

O pior desatino comete o pretenso revolucionário que supõe poder alterar a realidade ignorando os limites de seu papel como sujeito histórico.

 

Como lembrava há mais de um século conhecido pensador alemão, o homem faz sua história, mas não a faz segundo os caprichos de sua vontade, de seus sonhos e de sua utopia; ele a faz segundo as circunstâncias com as quais se defronta (Cf. Marx, Karl. O 18 brumário de Luis Bonaparte). Dois mil anos antes, Sun Tzu recomendava aos generais em guerra conhecer previamente o inimigo e o terreno em que pretendiam lutar.

Mudando a conjuntura, as formas de luta também mudam.

Independentemente do PT e de seu líder, nos defrontamos com o recesso das lutas sociais, implicando o remanso da denúncia da luta de classes. A conjuntura internacional vê-se pontuada pela fragilização das organizações revolucionárias, socialistas e trabalhistas, pari passu com o crescimento de apoio popular a movimentos de direita e extrema-direita (vide França, Itália, EUA, Hungria, Polônia), como o que se revelou contundente nas eleições brasileiras de 2018. Entre nós a extrema-direita empalmou o poder cavalgando eleições livres, pela primeira vez. Não se trata de um fenômeno menosprezável, mas de um indicador do nível de consciência das massas.  

Cresce o imperialismo como força política, econômica e militar, e esse crescimento pesa sobre o processo social. A agudização do militarismo é uma de suas evidências. É seu o monopólio da informação, de que resulta a unipolaridade ideológica, uma modalidade de ditadura nas sociedades de massas. Limitada em suas opções revolucionárias, a esquerda optou pelo ingresso na institucionalidade, que, lhe dando sobrevida, congelou sua capacidade de intervir na realidade, visando a modificá-la. Perdida a revolução, seu projeto passou a ser modificar por dentro as estruturas, tornando-se, assim, inevitavelmente, um fator da ordem. É uma nova socialdemocracia, substituta daquela que transitou para a direita, no mundo e no Brasil.

Combater qualquer alteração do status quo, qualquer ameaça de mudança de rumo, mesmo dentro da legalidade, qualquer sugestão de reforma social, passou a ser o projeto retrógrado da casa-grande brasileira, que não convive com alterações, quaisquer, da ordem baseada na superexploração da classe trabalhadora. Daí o combate que travou contra os governos Lula e Dilma, daí seu apoio ao quadro político consequente, daí suas ameaças ao processo eleitoral de 2022, à posse e ao futuro governo Lula, quando o candidato promete colocar o pobre no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda.  Essa resistência não conhece limite e explica o esforço do Lula candidato de construir, ainda no processo eleitoral, uma coalizão que lhe assegure, além da eleição e da posse, condições de governar, negadas a Jango e a Dilma Rousseff. 

Nesta quadra histórica, está reservado às classes populares, organizadas, garantir a continuidade democrática e uma governança que possibilite a retomada do desenvolvimento, a recuperação das conquistas sociais e a preeminência do interesse nacional. 

Para avançar, sempre a depender do que seremos e faremos no pós-2022, precisaremos alterar a atual correlação de forças, ampliando, para além de nosso campo, o arco político-social que garantirá a governabilidade a partir de 2023. Somente amparados em uma grande mobilização popular estaremos em condições de promover alterações significativas na estrutura do Estado brasileiro atual, sem as quais será impossível a um governo de raízes sociais descartar os entraves ao desenvolvimento nacional e remover a viciada, para além de nociva, ingerência da caserna atrasada sobre as instituições republicanas.

Tantos anos passados da Constituinte, retorna a discussão essencial sobre o caráter do Estado de que necessitamos para promover o progresso social, tantas vezes contestado pela casa-grande e seu braço armado.

A urgência histórica é a questão democrática, que se materializará na derrota do projeto continuísta do bolsonarismo. É, ao mesmo tempo, a tarefa mais consequente ao nosso alcance, e aquela que mais amplia na sociedade, daí o caleidoscópio de alianças que o ex-presidente intenta costurar com paciência de cesteiro. Porque é necessário ganhar e é necessário ter forças para poder governar e, principalmente, governar sabendo que contará com a resistência da casa-grande.

Nada obstante essas considerações, que aos quadros mais experientes podem tangenciar o óbvio, é preciso ter sempre em conta que a ainda difícil (tanto quanto necessária) eleição de Lula e o retorno do PT ao governo – ainda longe da hegemonia do poder – significarão um grande avanço político (ao qual se associa a esquerda socialista), por representar o avanço possível nas condições concretas. Este avanço possível das esquerdas está abraçado ao sucesso que promete a candidatura Lula. 

As limitações óbvias de uma candidatura que, para viabilizar-se, carece de amplas alianças, mesmo ultrapassando as fronteiras de seu arco ideológico, não podem, porém, ser arguidas como inibidoras da ação e do proselitismo das esquerdas, a quem incumbe, na campanha eleitoral, a defesa das teses de nosso campo. Em síntese, compete à esquerda fazer a campanha da esquerda, jamais delegá-la a uma frente ampla cujo núcleo é a socialdemocracia.  Toda campanha eleitoral é uma oportunidade de proselitismo. No caso concreto, os socialistas terão de associar a pedagogia ideológica à ação, o encontro ideal de teoria e prática, retornando à organização popular. Organização em todo e qualquer nível, para a ação e o proselitismo e, para, amanhã, responder aos desafios que lhe serão forçosamente impostos pelo processo social.

A deposição de Dilma e o que a partir dessa violência se seguiu não podem ser entendidos como frutos do acaso, nem muito menos pensados como “chuvas de verão”. O programa fascistóide tem raízes em ponderáveis segmentos da sociedade brasileira, sua existência guarda coerência com nossa formação de sociedade (em busca da nação) e país escravocrata, racista e autoritário, governado por uma elite alienada e forânea, descomprometida com os destinos do país e de sua gente. É preciso compreender o caráter do processo histórico para nele poder intervir consequentemente.

*Com a colaboração de Pedro Amaral