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sábado, 22 de fevereiro de 2020

A MAIORIA DA CLASSE MÉDIA PERDE COM O DOMÍNIO DO CAPITAL FINANCEIRO


“Como saúde e educação são bens que todos precisam e valorizam, o capital financeiro vai sucatear a prestação pública de serviços de qualidade precisamente nessas áreas a fim de vender saúde e educação pelos olhos da cara”.



Por Jessé Souza (sociólogo) – do livro ‘A classe média no espelho’, editora Estação Brasil, páginas 158/59/60 (título e destaque acima são da edição deste blog)



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A sociedade não é inteligível a olho nu. Sua compreensão é complexa e desafiadora para qualquer um, sobretudo para os leigos que nunca a estudaram, embora imaginem, apenas porque dela participam, que entendem seus mecanismos complexos. Sem um projeto alternativo claro e de longo prazo, fica-se refém das conjunturas e dos acordos de conveniência, como ocorreu com o PT em diversas ocasiões.



Nesse contexto, a questão real não é por que houve o golpe, e sim por que ele não aconteceu antes. Foi essa fragilidade simbólica que facilitou o golpe de 2016. O moralismo postiço da Rede Globo e da Lava Jato campeou praticamente sem oposição discursiva e articulada que pudesse denunciar a trama no seu nascedouro. Como foi dito, no próprio Ministério da Justiça da presidenta depois deposta montou-se o arcabouço legal que funcionaria como cortina de fumaça para o ataque à democracia.



Boa parte da classe média entrou no jogo de cartas marcadas da corrupção seletiva. A alta classe média, alguns poucos milhões de brasileiros nos grandes centros, sobretudo na comparativamente mais rica cidade de São Paulo, entrou na trama, em parte por motivos racionais, ou seja, economicamente compreensíveis. Afinal, como se viu, ela ganha com o rentismo e a nova configuração flexível do mundo social e participa do saque econômico ao lado da elite de proprietários. Nesse estrato, a imbricação com a elite e seus interesses é real.



A situação da massa da classe média é distinta, pois ela tem muito a perder com o ataque ao intervencionismo estatal como mitigador de um mercado financeiro que rapina a economia popular e destrói a frágil rede de serviços públicos em construção. Cerca de 40% da desigualdade social deve-se ao acesso diferencial a serviços públicos – e isto nada tem a ver com a renda familiar. Para a massa da classe média, a investida do capitalismo financeiro contra o SUS, a fim de vender planos de saúde de bancos e fundos de investimento, tem consequências importantes. O serviço é pior e o custo é maior.



O mesmo acontece com o ataque às universidades e ao sistema de ciência e tecnologia. A massa da classe média precisa da universidade pública de qualidade para que seus filhos tenham condições de competir no mercado de trabalho. A alta classe média pode mandar e, na verdade, já manda seus filhos para universidades estrangeiras.



Isso sem contar o aumento da violência e da desigualdade, a degradação das condições de vida social em todas as dimensões e o empobrecimento e o desemprego estrutural que passam a atingir em peso também a massa da classe média. Como saúde e educação são bens que todos precisam e valorizam, o capital financeiro vai sucatear a prestação pública de serviços de qualidade precisamente nessas áreas a fim de vender saúde e educação pelos olhos da cara. A Emenda Constitucional 95 (a “PEC do teto dos gastos públicos”, de dezembro/2016, depois do golpe), por exemplo, veio para realizar este serviço sujo.



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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A MENTALIDADE ESCRAVISTA ESTÁ NA RAIZ DO ANTIPETISMO


Os adversários do PT estimularam um sentimento generalizado de ódio, enquanto os poderosos de verdade continuam invisíveis, controlando nossos destinos e desumanizando nossa existência.

Por Fabiano Viana Oliveira (professor na área de Ciências Sociais) - nas conclusões (de 04/06/2018) do livro ‘Em busca da verdade II – Bioética, Hipocrisia e Antipetismo’, páginas 102/103/104 (título e destaque acima são da edição deste blog)

Recentemente um trabalho tem causado bastante debate na sociologia, antropologia e história brasileiras: A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza. O debate versa em torno da crítica sobre a noção de patrimonialismo como a principal causa do atraso e da corrupção no Estado brasileiro. Tratamos um pouco disto nesta última parte do livro e de certo modo reproduzimos a crença construída de este patrimonialismo, isto é, a privatização da coisa pública, ser a causa e justificativa para o Brasil ser como é. O elemento novo que Jessé Souza traz é a do escravismo como verdadeiro molde do pensamento nacional, que torna todas as pessoas em potenciais humilhadores do outro, apenas pelo outro ser mais fraco, mais pobre ou negro.

Tento ver desse novo aprendizado que tanto o antipetismo, o antiesquerdismo e a hipocrisia por conhecimento parecem servir ao mesmo propósito, no Brasil (talvez também na América escravista), de manter essa mentalidade de submissão. Se por um lado somos submissos como povos que de fato nunca alcançaram real independência (hoje a dependência do mercado é o que conta), por outro lado ansiamos nos tornar senhores, isto é, aqueles que submetem os outros. Essa forma de pensar e de agir parece bastante condizente com o suposto espírito competitivo do capitalismo, que apresentamos como inviabilizador da bioética no primeiro capítulo. O discurso apologético da pura meritocracia serve ao propósito de esconder as desigualdades históricas inerentes de sociedades com esse espírito escravista. A competição livre real não existe. O que existe são os poucos poderosos de sempre por cima e logo abaixo um monte de servos se agarrando na fé de um dia estar realmente junto dos poderosos, assim não se identificando (não tendo empatia) com a grande massa de excluídos que está lá embaixo dessa pirâmide. O próprio David Ricardo, economista liberal clássico, colocava essa visão para o futuro do capitalismo.

Assim, no caso do antipetismo, suas origens estão nessa mentalidade escravista por duas razões: um produto do próprio PT ao promover governos de parca inclusão social despertou o ressentimento dos semi-privilegiados; outra, produto dos seus adversários que estimularam esse ressentimento latente no momento mais apropriado, criando um sentimento generalizado de ódio, que agora, aparentemente fora de controle, faz parte do nosso dia a dia, enquanto os poderosos de verdade continuam invisíveis, controlando nossos destinos e desumanizando nossa existência, tornando-nos meros recursos para um sistema produtivo fadado à obsolescência.

A hipocrisia serve como uma proteção, pois não vemos essa nossa situação, mas apontamos para os erros dos outros. E forçando um pouco a barra vemos que o esforço da bioética em vigiar a biotecnociência é inviável, já que a decisão final está nos poderosos e não nos agentes: pesquisadores, cientistas ou filósofos.

São conclusões um tanto tristes, mas são as que consegui chegar ao final desse processo de argumentação, reflexão e contra argumentação, mantendo ao máximo a honestidade de meus propósitos, que não estão livres de opiniões e ideologias. Espero que você leitor tenha aprendido algo com essa leitura, mesmo que seja para discordar, de repente podendo até me apresentar uma visão mais otimista ou apontar erros no meu argumento que possam aprimorar o mesmo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

“VENHAM FALAR-ME NO COLONIALISMO SUAVEZINHO DOS PORTUGUESES...”


A autora é branca, filha dum colono português racista. Nasceu e viveu na cidade de Maputo (antiga Lourenço Marques), em Moçambique, até a idade de 11 anos, indo embora então para Portugal (em 1974, quando se iniciou o processo de independência)
Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade será para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai.



Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada mais a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos negros.



Por Isabela Figueiredo – do livro ‘Caderno de memórias coloniais’, editora portuguesa Todavia, páginas 164/165 (título e destaques acima são da edição deste blog)



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Eu quero estar sozinha no mundo. Não me saturem com as palavras brutais que tive de escutar a vida inteira sem poder protestar.



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As pessoas não mudam. Quando as reencontramos, muitos anos depois, percebemos por que nos afastámos (português de Portugal).



“Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes, não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, meu cabrão. E não me assaltas porque eu sou branca e estrangeira; e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda”.



Ouvi isto toda a vida.



Venham falar-me no colonialismo suavezinho dos portugueses... Venham contar-me a história da carochinha.



As pessoas não mudam. Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade será para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.



Os carniceiros foram todos tão bonzinhos que quando matavam o cabrito davam as vísceras aos pretos. A tripa. A pele. Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada mais a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos negros; e se os faziam trabalhar sete dias por semana, sem horário, era apenas o legítimo tratamento de que precisavam os preguiçosos. Um favor que o branco lhes fazia. Civilizar os macacos.



E agora, no Maputo, uma falta de respeito. “Faltamos lá nós. Têm saudades. Um branco é constantemente assaltado. Na rua. Em casa. Roubam-nos tudo, os cabrões. E estragaram aquela terra. Queimaram-na”.



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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

JESSÉ SOUZA: NOSSA INTELIGÊNCIA NEM PERCEBE A ESCRAVIDÃO COMO A NOSSA SEMENTE SOCIAL MAIS IMPORTANTE


“Nossa classe média não apenas explora economicamente as classes abaixo dela, ela humilha covardemente os mais frágeis...”



“Alguém viu a classe média em massa nas ruas, protestando contra a corrupção de partidos de elite?”



Por Jessé Souza (sociólogo) – trecho do livro ‘A classe média no espelho’, editora Estação Brasil, páginas 72/73/74 (título e destaques acima são da edição deste blog)



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A classe média brasileira herda o abuso e o sadismo de seus avós, e um dos motivos para isso é que nossa inteligência cooptada e colonizada nem sequer percebe a escravidão como a nossa semente social mais importante. A balela do patrimonialismo, e da corrupção como se fosse atributo apenas do Estado e da política, assume o lugar principal e subordina, relega ao esquecimento e torna supérflua essa herança maior. Mais uma vez: quem não sabe quem é nunca pode se autocriticar, e quem não se critica nunca aprende nada. Nossa classe média não apenas explora economicamente as classes abaixo dela, ela humilha covardemente os mais frágeis, os esquecidos e abandonados tanto por ela, classe média, quanto pela “elite do atraso”.



Pior ainda, extrai tanto prazer dessa opressão que sai às ruas toda vez que a política pretende diminuir a abissal distância entre as classes, ainda que com o pretexto do moralismo de fachada contra a “corrupção seletiva” só da política e só da “esquerda”. Somente contra os partidos das classes populares a classe média revoltada sai às ruas, nunca contra os partidos da elite dos proprietários. É isso que a faz tão dócil e manipulável.



Outras sociedades, como a francesa após a Comuna de Paris, em 1871, decidiram incluir, por meio do sistema escolar republicano, a parcela da sua população abandonada à própria sorte ou azar. A inclusão dos humilhados sempre é uma decisão política e moral, e nunca consequência apenas do desenvolvimento econômico, como se comprova no Brasil. Entre nós, a elite e a classe média preferem ignorar essa situação secular e continuar explorando e humilhando os mais frágeis.



A causa de todos os golpes de Estado, em especial o de 2016, nunca teve nada a ver com a corrupção. Por que apenas a suposta corrupção petista incomoda a classe média, e não a dos outros partidos, mesmo quando comprovada em gravações exibidas na TV? Alguém viu a classe média em massa nas ruas, protestando contra a corrupção de partidos de elite? Nunca vi ninguém mostrar sua revolta nas ruas pela corrupção, por todos sabida, por exemplo, do PSDB. E você, leitor ou leitora, já viu?



Então vamos ter a coragem de assumir que o que de fato incomoda a classe média escandalizada não é e nunca foi a corrupção. Um dos objetivos centrais deste livro será precisamente explicar o que incomoda de verdade a classe média.



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