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segunda-feira, 6 de abril de 2020

“HERÓI NÃO É SOMENTE AQUELE QUE DERRAMA SEU SANGUE NO CAMPO DE BATALHA”

(Foto: da Internet)

A década de 1950 não sai da memória daquele menino. Nem os “intelectuais” que faziam sua cabeça, a partir dos ensinamentos do Instituto Ponte Nova: Raimundo Viana, Jeová Queiroz e outros e outras.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente

Eram os nossos intelectuais. Para os que ficavam na terra, pobres mortais! e os viam ora partir ora chegar, sentados nos bancos do caminhão pau de arara, rapazes e moças cheios de juventude e beleza, cantando canções alegres, boleros – “eu também me perdi, vou vagando passo a passo, na esperança de um dia encontrar uma nova ilusão...” -, restava uma pontinha de inveja. Será que um dia também chego lá?

Eram um rasgo de alegria e futuro. Estudar no Instituto Ponte Nova (na hoje cidade de Wagner), lá pela década de 1950, era o grande sonho da classe média e elite de Seabra – então uma  cidadezinha, hoje pomposamente chamada “a capital da Chapada”. De Seabra e também de muitas outras cidades da região e até de mais longe, até de Santa Maria da Vitória, lá no Sudoeste do estado – que o diga nosso companheiro Valdimiro Lustosa Soares, o popular Guri, que lá estudou e depois foi pra Lençóis estudar (e jogar bola).

Não sei se soa muito grandiloquente chamá-los de intelectuais. Na nossa cabeça, dos pobres mortais, eram sim, enchiam nossos olhos, corações e mentes. Não quero nem falar nos talvez (na minha cabeça) mais proeminentes: Ivan e Iovane, dos Oliveira dos Fabrício.

Guardei na memória a bela frase que dá título a esta crônica: “Herói não é somente aquele que derrama seu sangue no campo de batalha”. Foi a abertura dum discurso de Raimundo Viana, de Iraquara, então estudante de Ponte Nova, filho de seo Zezinho e dona Guió, neto do velho Honório e dona Pianga, sobrinho de Prisa, irmão de Rui e Reinaldo (doutor Reinaldo), além de outros e outras mais.
Raimundo Viana, na faixa dos 50 anos, com sua mãe Dona Guió (Guiomar Azevedo) (Foto: do arquivo de familiares)

O aluno Raimundo Viana discursava numa solenidade em Seabra (certamente relacionada com alguma homenagem ao Instituto Ponte Nova), no prédio principal da cidade de então (hoje, creio, é sede do gabinete do prefeito). Ele fazia o elogio ao chefe da missão presbiteriana estadunidense (Dr. Baker? Fundação Baker?), dirigente da instituição mantenedora do Instituto (me parece que o tradicional Colégio 2 de Julho, hoje Faculdade, em Salvador, também foi cria dos mesmos presbiterianos).

O contexto da frase de Raimundo é óbvio: herói era também o missionário, que não derramou o sangue numa guerra, mas desbravou os rincões sertanejos da Bahia para implantar uma escola que traria a luz da educação para os baianos.

Outro dos que chamo intelectuais: Jeová Queiroz (filho de seo Franklin e dona Donana, irmão do nego Robério e da professora Marilande, além de outros e outras mais).

Tão “intelectual” que, certa vez, sentado no batente do bar de Osvaldo Sales (o mais importante da cidadezinha), com uma rapaziada de nós, pobres mortais, caiu na temeridade de usar o termo “contusão” durante trivial papo sobre um jogador machucado durante algum jogo (certamente do Flamengo ou Vasco, times pelos quais a rapaziada torcia, graças às emissoras de rádio do Rio de Janeiro, nossos únicos meios de comunicação de massa: Mayrink Veiga, Nacional e Globo).

Contusão?! – espantamos nós. Todos na roda desconheciam tal palavra. O nosso amigo, apesar da áurea de estudante de Ponte Nova, devia estar equivocado: não seria “confusão”? Confusão! - não tem nada a ver, o jogador está contundido, explicou Jeová meio perplexo. Mas, diante da incredulidade geral, desistiu. Fez uma cara assim como pensando (sem falar): “São uns bocós, imbecis...” (ou coisa parecida).
Jeová Queiroz, já com 68/69 anos, na praia de Porto de Galinhas (Pernambuco) (Foto: do arquivo de familiares)

Foi Jeová que, certa vez, me revelou a existência dum troço importante do organismo humano: o sistema imunológico. Me disse que era bom a gente usar uma pomada, por exemplo, quando tinha algum ferimento, porque iria fortalecer o “exército” de defensores do corpo. Eu achei uma novidade simplesmente espetacular. (O assunto foi badaladíssimo quando do auge do HIV e volta à berlinda agora nestes tempos do coronavírus).

Foi Jeová, também, que ensinou a mim e a meu irmão um pouco mais velho (Stimison) a jogar futebol de salão. Com uma particularidade: a gente achava que Jeová, com aquela cara de  gozador, estava nos enrolando e nunca conseguiríamos ganhar dele, pois a todo momento, a depender do lance do jogo, ele “inventava” uma regra que o favorecia.

Já falei em outras crônicas sobre Ponte Nova (lembranças da década de 1950) e tenho muito a falar ainda. Por enquanto, registro logo que o Ginásio Municipal de Seabra, que começou a funcionar em 1958, foi uma consequência, mais ou menos natural, da existência do Instituto Ponte Nova.

É bastante lembrar as primeiras (e queridas) professoras (e um querido professor) que iniciaram o ginásio, todas saídas de Ponte Nova: Marilande Queiroz (diretora), Darcy Queiroz (secretária), Iovane Oliveira (professor de Matemática), Dilcinha Abreu (Português), Nog Sena (Francês), Zenilde Moreira (Geografia).

Será que esqueci alguém deste grande time?

PS: O Instituto Ponte Nova foi criado por presbiterianos dos Estados Unidos, em 1906, na hoje cidade de Wagner, a 390 quilômetros de Salvador (era Itacira, distrito de Lençóis). Além dos serviços prestados à educação, em especial na região da Chapada, teve papel relevante na área da saúde (a missão incluía um hospital). Teve influência também na cultura: além do aparecimento dos “protestantes” (ou “crentes”), lembro, por exemplo, com certa nostalgia, que a gente jogava beisebol.

Apesar de ter ficado na minha memória o nome “Dr. Baker”, vi no Wikipédia que o missionário presbiteriano norte-americano chamava-se William Alfred Waddell. Ainda segundo o Wikipédia, a escola foi subsidiada pelos estadunidenses até 1971.

Pela década de 1950, época de minhas recordações, o diretor do Instituto era “doutor Jaime”, como era conhecido entre nós. Trata-se do pastor presbiteriano Jaime Wright, que tornou-se conhecido nacionalmente como defensor dos direitos humanos. Nos anos 1970/1980, colaborou com a equipe do arcebispo Dom Evaristo Arns na feitura do dossiê sobre os crimes da ditadura militar (tortura e assassinato de oposicionistas), trabalho que resultou no livro ‘Brasil: Nunca Mais’.

O “professor Jairo” (de Educação Física) era muito badalado pelos estudantes por ser o organizador do time de futebol do colégio. Um time respeitadíssimo na região. Havia inclusive um craque famosíssimo chamado Pedro Hora, o qual, na sua opinião, jogava mais do que Pelé. “Não é brincadeira, não”, me advertiu ele próprio um dia, muito seriamente (isso é tema para outra crônica).