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segunda-feira, 30 de março de 2020

CUBA SALVA


(Foto: reproduzido da Internet)
O grande paradoxo é que, enquanto os barcos com petróleo e alimentos contratados por Cuba são perseguidos pelos Estados Unidos, os barcos com os enfermos que ninguém quer em seus portos recebem solidariedade e respeito em Cuba.



Por Rosa Miriam Elizalde (*) – publicado em 20/03/2020 pelo portal Nodal – Notícias da América Latina e Caribe – Tradução: Jadson Oliveira (editor do Blog Evidentemente)



O navio cruzeiro MS Braemar, com cinco casos confirmados de Covid-19 e mais de mil pessoas a bordo, atracou pouco antes do amanhecer do último dia 18 no Porto de Mariel, a 40 quilômetros de Havana. O corredor de evacuação aeroportuária rumo à pista do Aeroporto Internacional José Martí, a partir do qual quatro aviões do Reino Unido transportaram os evacuados, funcionou com notável precisão.

Enquanto o mundo sentiu o alívio e ainda é impossível prever as consequências da pandemia, Cuba foi destaque pelo transbordo dos mais de mil passageiros e tripulantes do Braemar, os quais, desde 8 de março, estavam confinados num buque fantasma no Caribe.

A odisseia começou quando o cruzeiro da companhia britânica Fed Olsen chegou a Cartagena (Colômbia), onde desembarcou uma estadunidense diagnosticada pouco depois com coronavírus. A partir daí, cinco portos caribenhos negaram a entrada do navio e as famílias dos passageiros apelaram aos meios de comunicação para expressar temor pela sorte de seus seres queridos e a possibilidade de se verem obrigados a percorrer o longo caminho de regresso à Europa, expostos ao contágio massivo e talvez a uma morte em escala industrial antes que o navio pudesse chegar à Grã Bretanha.

O alarmismo e a morbidez midiática que predominam nestes dias em que se vive com o novo coronavírus converteram os passageiros e tripulantes numa espécie de empestados. Anthea Guthrie, de 68 anos, passageira britânica do Braemar, mostrou em sua página do Facebook um vídeo do momento em que o cruzeiro era abastecido a 25 milhas de um dos portos onde não pôde atracar. Um barco rebocou uma segunda barcaça rudimentar, sem motor nem tripulantes, para fazer chegar ao Braemar sacos de arroz e cachos de banana, que integrantes da tripulação britânica fizeram subir a bordo no meio da noite, como fugitivos de algum tipo de expedição pirata.

O testemunho desse momento foi divulgado por Anthea depois de conhecida a boa notícia de que Cuba os receberia. Ela postou outro vídeo em que os passageiros, já relaxados sobre a coberta, agradeciam o gesto solidário da ilha e faziam brindes à saúde dos cubanos. Como uma veterana nas redes sociais, não só reportou os fatos a partir do barco, como criou o hashtag #DunkirkSpirit (Espírito Dunkerque), que alude à evacuação de 330 mil soldados aliados – a maioria britânicos – das costas francesas em maio de 1940, no início da Segunda Guerra Mundial, quando Adolfo Hitler parecia invencível.

Para nós Dunkerque não fala apenas de heroísmo, mas também de humanidade. Significa que há saídas na pior das circunstâncias e, desta vez, temos que agradecer a Cuba, comentou Anthea, aliviada com a notícia de que o cruzeiro atracaria na ilha.

A decisão de Havana de permitir a entrada do MS Braemar, depois da solicitação dos governos de Reino Unido e Irlanda do Norte, não surpreendeu os cubanos, que têm uma longa tradição de colaboração médica e humanitária. Desde os inícios da década de 1960, milhares de trabalhadores da saúde têm colaborado com quase todos os países pobres do mundo. Mais de 35 mil estudantes de Medicina de 138 países formaram-se gratuitamente na ilha. Depois dos devastadores terremotos no Paquistão (2005) e Haiti (2010), ou durante a crise do ebola na África ocidental, em 2014, os médicos cubanos foram os primeiros a chegar aos territórios marcados pela devastação.

A colaboração cubana na área da saúde e seus indiscutíveis resultados científicos, particularmente no campo da biotecnologia, têm provocado a ira venenosa nos privilegiados de sempre e a simpatia e afeto nos carentes de sempre. A verdade, porém, é que Cuba, tábua salvadora para muitos durante a pandemia do Covid-19, vem sendo distinguida com expressões de carinho dirigidas ao exército dos coletes brancos. Os governos latino-americanos que sob pressão de Washington expulsaram os médicos, hoje vivem o duplo calvário do coronavírus e da reclamação de seus povos por tal ato de soberba e estupidez. Uma fila de nações reclama a colaboração médica e os medicamentos da ilha, que demonstraram eficiência no tratamento dos enfermos.

O grande paradoxo é que, enquanto os barcos com petróleo e alimentos contratados por Cuba são perseguidos pelos Estados Unidos, os barcos com os enfermos que ninguém quer em seus portos recebem solidariedade e respeito em Cuba. O regime de Trump, por certo, se negou a receber o Braemar, segundo noticiou o jornal inglês The Independent.

As duas palavras mais repetidas logo depois do socorro ao MS Braemar no Twitter foram ‘Cuba salva’. Nenhuma casualidade.


(*) Jornalista cubana, editora do site Cubadebate.

sábado, 7 de março de 2020

“NÃO MATAMOS GENTE. MATAMOS JUDEUS, CIGANOS E INIMIGOS DA PÁTRIA E DO FÜHRER”


(Foto da Internet: usada na edição deste blog)
“Lá em Auschwitz, os que matavam judeus eram tão racionais, tão brilhantes, tão inteligentes, professor Müller, como aqueles que, dentre eles o senhor, lecionavam nas universidades”.



“Dizíamos a eles que teriam de tomar uma chuveirada. Nós os colocávamos em galpões. Em vez de água, o que saía dos chuveiros era gás. Morriam aos milhares”.



Por José Pablo Feinmann (filósofo argentino) – trecho do livro ‘A sombra de Heidegger’, editora Planeta, pág. 153/4/5/6 (título e destaques acima são da edição deste blog).



(...)



Não matamos gente. Matamos judeus, ciganos e inimigos da pátria e do Führer. Dez mil por dia? Esse número lhe parece impraticável ou aterrador?



Por ora, impraticável.



Não é assim. Veja, nossa glória reside em nossa eficiência. Não fomos monstros irracionais nem desumanos. Monstros assim não teriam conseguido planejar as coisas com tão extraordinária  precisão. Lá em Auschwitz, os que matavam judeus eram tão racionais, tão brilhantes, tão inteligentes, professor Müller, como aqueles que, dentre eles o senhor, lecionavam nas universidades. Apenas a inteligência pode levar a cabo semelhante façanha. Tínhamos uma ordem: matar. Matar milhões de pessoas. Como fazê-lo? Nossa racionalidade de alemães, nossa tradição de povo instruído, nossa esmerada inteligência, professor, encontrou uma saída para tanto. Outro povo não o teria conseguido. Não por convenções morais, mas pela formação intelectual deficiente. Serei breve: dizíamos a eles que teriam de tomar uma chuveirada. Nós os colocávamos em galpões. Em vez de água, o que saía dos chuveiros era gás. Morriam aos milhares. O problema era outro. O problema que obrigou nossa razão, nossa inteligência, a elevar-se acima do irrealizável foi outro: como eliminar os cadáveres? Também resolvemos isso. Devo contar?



Posso imaginar.



Não, não pode. O senhor não consegue imaginar. O senhor foi um homem de ideias. As ideias requerem a ação. E a ação requer homens como eu. O senhor e eu fomos partes de uma mesma causa. No entanto, a parte mais árdua, a que mais requereu nosso patriotismo, coube a mim e aos meus. Por isso esperamos por Eichmann. O melhor de todos nós. Quanto aos números que talvez o atormentem, professor, evite-os. Vez por outra, lembre-se do que eu lhe disse: não eram gente.

(Foto da Internet)


Os chuveiros.



A foto que tenho diante de mim mostra um homem ao ser levado para lá. Não o arrastam. Não o empurram. Vai, sozinho e nu, para a morte. Vê-se seu membro viril. Um ponto branco no púbis excessivo, superdimensionado pela má qualidade da foto, que acentua o preto e o cinza – sobretudo, o preto. É um homem tão magro, tão descarnado, que, em rigor, já não o é. É uma coisa. Werner Rolfe se equivocava. Não matavam judeus, ciganos nem inimigos do Reich. Era impossível decifrar a condição do homem da foto. Seus olhos eram enormes. Fato que induzia a erro. A achar que ele olhava com terror. Não, já não olhava. A dilatação daqueles olhos – produzida pela fome e pelo sofrimento – era uma forma de cegueira. As maçãs do rosto também eram enormes, brotando do rosto esquelético. Lembro-me (com brutalidade, subitamente) de uma frase de Gabriel Marcel: “A cada dia nos parecemos mais com o cadáver que seremos”. Esse homem, esse que agora caminha para o chuveiro de gás, era já o cadáver que seria.



Rolfe não se equivocava: não matavam pessoas, matavam coisas. Matavam mortos. Antes, muito antes, de metê-los sob os chuveiros de gás, eles os haviam esmigalhado como pessoas. Eles os tinham submetido à tarefa essencial do campo: extirpar a identidade. Matar a subjetividade. Matá-los como sujeitos.



Esse homem, com seus olhos enormes, me olha. Porque viu a câmera. Viu o carrasco que se dedicou a registrar essa nova façanha de nosso país. E o olhou. Sei que não viu nada. Sei que já nada via.



Agora, porém, vê a mim.



Olha-me.



Não tenho nem uma só resposta para dar-lhe.



Sei que não somos os únicos monstros deste mundo. Sei que os bolcheviques matam milhões em seus campos gelados. Sei que os americanos se saíram como carniceiros em Hiroshima e Nagasaki com tanta eficácia quanto nós em nossos campos. Sei que Mussolini, no final, nos entregou judeus aos milhares. Sei que os franceses foram dóceis ao ponto da cumplicidade. Sei que Churchill foi um carrasco em Dresden. Sei, portanto, que ninguém pode julgar-nos. O deserto cresce, apropria-se da terra, e nada terá sentido.



Não tenho a quem pedir perdão.



Mas preciso fazê-lo.



Peço perdão a ele. A essa ruína humana que caminha para a câmara de gás. A esse morto que vai morrer. A esse ser de olhos imensos que nada vêem. A esse pobre cego. A essa vítima eu peço perdão. Sei que algumas coisas que fiz ou que não fiz, que disse ou que não disse, que soube mas preferi ignorar, sei que certas ideias que apoiei covardemente, sem questioná-las, sem medir as consequências, sem perguntar a que serviam, levaram-te até aí, onde estás agora, só, nu, a poucos passos de uma morte premeditada com feroz racionalidade, só, sem identidade possível, pois não sei nem é possível saber quem és, se és um judeu, um polonês, um cigano, um inimigo do Reich ou um cão magro, sujo, maltratado e comido pelas pulgas da peste. Nu entre homens de uniforme. Aí estás. A eles o uniforme dá identidade, poder. Tua nudez é anônima. Tua identidade não existe. Tu és lixo e morrerás em meio ao lixo. A ti peço perdão. Diante de ti sou culpado. Sou o que fizeram de ti. Sou o lixo que és. Ou sou pior. Porque sou um cúmplice, que se achava inocente, que preferia não saber, ignorar, o que faziam de ti em meu nome, em nosso nome, em nome da Alemanha. Portanto morrerei contigo, como lixo e no lixo, sem redenção.



(...)

domingo, 1 de março de 2020

“SERÁ QUE NÃO TEM UM GENERAL DE VERRRRGONHA PRA DAR UM JEITO NESTE PAÍS!?”


Corina, Fabrício e Adelino: irmãos dos Oliveira dos Fabrício de Seabra
A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: a década de 1950 tem um recorte especial na mente do cronista.



Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente



Perguntava indignado Adelino Oliveira, lá pela segunda metade da década de 1960, em Seabra, então uma cidadezinha menor e mais atrasada que as vizinhas Palmeiras e Lençóis. Hoje – graças ao empurrão da BR-242 (Bahia-Brasília) – é considerada a capital da Chapada.



“Será que não tem um general de verrrrgonha pra dar um jeito neste país!?” – se indignava seo Adelino, ex-escrivão de Coletoria estadual, caçula do clã dos Oliveira dos Fabrício. (Irmão de Fabrício d’Oliveira, rábula e chefe político, neto do irmão do afamado coronel Manuel Fabrício de Oliveira, de Campestre/Seabra).



O general aí vem por conta da vigência da ditadura militar. Mas não só. A família Oliveira dos Fabrício, liderada por Fabrício d’Oliveira, lá pela década de 1950, era oposição na política seabrense. E, então, ligada à velha UDN (União Democrática Nacional), nacionalmente sempre pobre de votos e chegada aos militares e aos golpes (ou tentativas de).



Não era à toa que seo Adelino ansiava por um “general de verrrrgonha” (nunca passaria pela cabeça dele a possibilidade do protagonismo popular). O candidato a presidente dos sonhos da família, nesses tempos de hegemonia do getulismo/trabalhismo, era o brigadeiro Eduardo Gomes, nunca emplacado no veredito das urnas.



E sua grande estrela, como não poderia deixar de ser, o famigerado Carlos Lacerda, ex-comunista que “costeou o alambrado” (expressão ao gosto do velho Brizola, virou a casaca, passou para o lado do inimigo) e tornou-se virulento líder direitista, a serviço do império estadunidense.



Na Bahia, a família seguia o general Juracy Magalhães, tenente interventor da Revolução de 30 que tomou gosto pelo poder e virou chefe político. Tornou-se superconhecido nacionalmente como chanceler da ditadura, quando disparou a célebre sentença: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” (Bolsonaro tem aí um notável precedente).



Mas, pelo menos na visão do clã dos Fabrício, localmente nós éramos os “bons”: sérios, bem intencionados, oposicionistas, pobres. Eles eram os “maus”, os donos do poder, representados entre as autoridades locais pelo prefeito e o delegado de polícia.



Os seus líderes: Manoel Teixeira Leite (pai do ex-prefeito Dálvio Leite), Sílvio Almeida, Jorge Alves de Oliveira (de Jatobá/Baraúnas, pai do querido companheiro Jorginho Oliveira), Aloísio Rocha (pai de Aloisinho, jornalista, cantor/compositor, mora em Belo Horizonte), Walter Coutinho (de Parnaíba/Iraporanga/Iraquara, pai do hoje vice-prefeito de Iraquara Nino Coutinho) e o jovem (na época) deputado Osvaldo Teixeira (filho de Sílvio Almeida), do PR (Partido Republicano), velho partido do cacique Manoel Novaes.



(Osvaldo é um dos poucos que podem confirmar ou contestar as informações disseminadas por aqui: dos protagonistas citados, é o único vivo).



Pela década de 1950, Waldemar Santos (“Preto” de Zé de Cabocla) circulava pelas ruas da pequenina cidade, durante as campanhas eleitorais, alardeando pelo serviço de alto-falante instalado num jeep: era a voz da “coligação PSD/PTB/PR” em disputa com a UDN (PSD – Partido Social Democrata e PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, ambos fundados a partir da liderança de Getúlio).



A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: ainda na década de 1950 (exatamente 1958), seo Adelino foi candidato a prefeito e “quase ganha”, dizem;



Em 1952, quando da morte de Eva Perón, a fada dos “descamisados” argentinos, ele teve relevante papel na cobertura “jornalística” da trágica perda popular, pelo menos a nível local: instalou um rádio (daqueles radjão de madeira, com um grande “olho mágico” verde) numa das janelas da frente de sua casa, a todo volume. De modo que os seabrenses que passavam por ali puderam acompanhar, “ao vivo”, os lances do fascinante velório de repercussão internacional;



Em 1954, quando do suicídio de Getúlio, um outro membro do clã, conhecido como Zeno (Naziozeno José de Oliveira), foi visto pelas ruas da cidade, chorando, secando as lágrimas com um lenço e lastimando: “Um homem tão bom...” (contraditoriamente, porque não eram chegados ao getulismo/trabalhismo).



Seo Adelino se foi aos 81 anos. E o ansiado “general de verrrrgonha”, pelo jeito, ainda não apareceu. Para consolo, resta incensar com o comentário lisonjeiro de um conterrâneo: “Seo Adelino é um homem de sabença” (Na verdade, o elogio foi motivado pela suposta excelência dos nomes que escolheu para os primeiros filhos: Stimson, Jadson, Esthônia e Smitson).



PS 1: Quem merece mesmo uma crônica (de fato, várias) é o chefe político da família, Fabrício d’Oliveira, um genuíno humanista, defensor dos direitos humanos. E um respeitado rábula, com quem tive o privilégio de aprender o sábio preceito jurídico: In dubio pro reo (‘Na dúvida, em favor do réu’, a valiosa presunção da inocência, estuprada pelo lavajatismo).



PS 2: Um pouco antes do período focado, foram destaques na política de Seabra: Tito Luna Freire, primeiro prefeito eleito (1948/1951), pai do nosso cantor/compositor Hugo Luna; e o tenente Silvino Pires (com sua mulher, dona Santinha), juracisista roxo, aliado dos Fabrício.



PS 3: No próximo 2 de maio (um sábado), os descendentes dos Fabrício farão seu segundo encontro de confraternização em Seabra. O primeiro, realizado no ano passado (9/fevereiro), foi um sucesso. (ESTE ENCONTRO DO DIA 2 DE MAIO FOI CANCELADO DEVIDO À CRISE DO CORONAVÍRUS).