DELÍRIOS DE SÁBADO À TARDE NOS ANOS 60



(Para ser lido ao som de Wanderley Cardoso: “o piquenique foi bom, mas a volta é que foi tão triste, briguei com meu amor na estação...”)

Todo mundo já foi jovem e bonito um dia. Só eu, Juventino, não passei por essa fase gloriosa. Lembro que sempre fui feio. Como aquele antigo comediante paulista, minha mãe dizia: meu filho não é feio, tem os olhos bonitos, a boca bonita, os cabelos bonitos, um nariz bem feito, o conjunto é que não agrada. Pois é, feio e sozinho, aqui nesta mesa de bar, sábado à tarde, todo sábado à tarde, sentado diante de uma cerveja, um barzinho pobre como eu, sozinho, minha sina é essa, diante de um copo de cerveja, uma cerveja começada, posso tomar duas, no máximo, no Relógio de São Pedro, depois de uma semana, na Florensilva, marcando peça de tecido, vendendo, vendendo... Ah, grande Florensilva de seo Florentino, bem que seria diferente se eu tirasse na próxima semana um Simca Chambord no programa de César de Alencar, seria bem diferente... Mas agora tá tudo bem, minha grande viagem todo sábado à tarde, e vai surgir um amor um dia, eu sei que vai, essa minha pele já flácida é que não ajuda muito, olho minhas mãos, vislumbro o esqueleto futuro, será que ela não vem um dia? Moreninha como eu, miúda como eu, mas com belos cabelos corridos, a mulher que quase comi, acho que comi numa noite de farra, não sei bem, outros comeram, ele comeu, oh! meu Deus, ele comeu, com certeza, ele mesmo me disse, queria perguntar a ela, mas nunca tive coragem, também não adiantava, se ela confirmasse ia ficar com mais raiva ainda, filha da puta ainda tem coragem de me contar, podia muito bem mentir, me enganar, pelo menos ainda ficava na dúvida, merda...

Depois eu fugi de barco pelo Rio Amazonas, ou foi o São Francisco? Juventino já está na segunda cerveja e as recordações se anuviam como em sonhos, uma colcha de retalhos me envolvendo, aquele cheiro dela, de sexo, nas mãos, o gosto na boca de prazeres proibidos, a ressaca, o medo, “por que não fica comigo, tem medo de que?” Ah! tempo demais, não estou seguro se foi assim mesmo, devem ser delírios de sábado à tarde, quando estou vendendo tecido não lembro essas besteiras... mas ela me amava, disso tenho certeza, será mesmo!? 

Porra, Juventino, que porre! a mulher fazia tudo pra encontrar com você, apesar do marido violento e valentão, você é que sempre foi um frouxo, tinha medo, acho que nem comer você comeu, mas ele não queria saber de polêmicas, não combinava com seu jeito manso, preferia lembrar, só lembrar, ternamente, a primeira vez que apertou sua mão, escondido, as mãos atrás do espaldar da cadeira, ai, vou morrer lembrando este momento, depois tantos olhares, tantos momentos, aquela noite de lua, junto das águas do grande rio, minha mão nas suas coxas... quanta felicidade, e foi, foi, tanta coisa boa, e foi, foi, depois a fuga e nunca mais, chega Juventino... sossega Juventino... sábado que vem tem mais Juventino...

(Crônica publicada no blog Pilha Pura em 27/02/2012)

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