AS MÚLTIPLAS FACES DA GREVE DA PM BAIANA


Por Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, de 09/02/2012


Ainda que pareça impossível devido ao acirramento de ânimos, a greve da Polícia Militar baiana e os fatos recentes que a envolveram precisam ser analisados com serenidade. Infelizmente, a política, que deveria ser meio de solucionar conflitos pacificamente, vem bloqueando qualquer resquício de bom senso.


Em um primeiro momento não se entendia a razão de só a Polícia Militar baiana ter se levantado por aumento de salários. Afinal, os soldos, naquele Estado, estão longe de ser os piores do país, ficando pouco abaixo dos de São Paulo e quilometricamente acima dos soldos no Rio de Janeiro, os piores do país.


Uma observação: os soldos da PM no Rio explicam muita coisa sobre a corrupção policial naquele Estado.


Enfim, após matéria do Jornal Nacional que trouxe à tona gravações de conversas entre lideranças do movimento grevista em que se percebe planejamento do que, pura e simplesmente, pode ser qualificado como terrorismo, percebeu-se também que há uma orquestração nacional do movimento paredista da qual ainda não se enxerga bem a origem.


Como o movimento dos policiais militares baianos está sendo desfechado contra um governo petista, quem logo vem à mente são tucanos e demos. Todavia, as gravações do JN mostraram que há planos de lideranças grevistas de estender esse movimento a São Paulo ou Paraná, o que dispensa explicações sobre por que tucanos e demos não devem estar envolvidos.


Se os partidos que polarizam a disputa política nacional estiverem descartados como insufladores da greve, então, as atenções se voltam aos partidos mais à esquerda. Entre esses, o que está apoiando mais abertamente os grevistas é o PSOL.


O deputado do PSOL carioca Jean Wyllys é um político moderado – dentro do quanto se pode ter esse perfil em um partido como PSOL, o qual não faz questão nenhuma de ser visto como moderado. Por exemplo: enquanto seus correligionários apoiaram entusiasticamente as marchas contra a corrupção, ano passado, Wyllys não hesitou em enxergar o que eram: uma impostura tucana.


Por isso entrei em contato com ele, para ver o que uma pessoa que respeito tinha a dizer sobre posição do PSOL nesse processo que me parece injustificável, sobretudo à luz das revelações do Jornal Nacional, que mostrou uma gravação em que o líder grevista Marco Prisco e um interlocutor decidem promover atos para aterrorizar a população a fim de pressionar o governo do Estado, e outra em que liderança do movimento prega que não se faça acordo com o governo visando levantar outra greve, agora no Rio de Janeiro.


Wyllys faz duras críticas ao PT e acusa-o de, quando na oposição, ter feito o mesmo que o PSOL faz hoje em apoio a greves;


Julga o movimento justo e repudia a sua sufocação inspirado pelo instituto do direito de greve e pelas aspirações legítimas que todos os policiais brasileiros têm;


Duvida de que a população baiana esteja acuada como dizem;


Entende que o aumento da criminalidade e até das mortes são responsabilidade do governo baiano e não dos grevistas;


E nega, terminantemente, que o PSOL esteja fazendo mais do que apoiar um movimento que julga legítimo, pois rejeita que confundam os que agem criminosamente com milhares de outros grevistas que não agem assim.


Particularmente, devo dizer que acredito na honestidade de intenções do deputado.


Se o PSOL, então, não insufla o movimento, como me parece ser, a insuflação pode provir de um movimento nacional em que lideranças equivocadas e até mal-intencionadas estariam manipulando milhares de trabalhadores para que pratiquem atos que poderão lhes causar danos irreparáveis sem lhes propiciar vitória alguma.


Os excessos na Bahia acabaram com o movimento, a meu ver. O governo baiano não tem como negociar diante do que foi praticado. Poucos grevistas prejudicaram a todos. Todo o povo baiano está acuado, sim. É absurdo que uma categoria imponha tal situação a toda uma sociedade.


O caso, aliás, já saiu da esfera estadual porque o governo federal, através de suas tropas, assumiu as funções de uma polícia que o governador Jacques Wagner já não controla.


E o mais trágico é que, até o momento, os governos (federal e estaduais) não disseram um A sobre desmilitarização e unificação das polícias civil e militar, medida que nove entre dez especialistas consideram vital para impedir que prossiga esse caos na Segurança Pública, seja em São Paulo, no Rio ou na Bahia.

Observação do Evidentemente: o articulista acima, conhecido pelos chamados blogueiros progressistas como Edu, de São Paulo, entre considerações sempre sensatas, busca entender onde estão os “insufladores” da greve na Bahia.


Creio que, entre tais “insufladores”, não se pode esquecer a demonstrada insatisfação dentro da PM baiana, especialmente devido ao não cumprimento da tão badalada GAP (Gratificação por Atividade Policial), instituída por lei desde 1997 e nunca paga por todos os governantes baianos desde aquela data (só agora, depois da queda-de-braço, o governo baiano se dispõe a fazê-lo - conforme proposta ainda não aceita pelos grevistas - a partir de novembro deste ano, de forma escalonada, até 2015).


Sem tal insatisfação, como entender a extraordinária adesão e força do movimento, aspecto subestimado pelo governo baiano nos primeiros dias da greve?


Tais “detalhes”, aliás, são sempre omitidos na extensa cobertura feita pela grande e velha mídia.

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