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segunda-feira, 13 de julho de 2020

A IRONIA DA FOLHA DE S.PAULO

Jair Bolsonaro: eleito com a ajuda da chamada grande imprensa (Foto: Internet)

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018.

Por Valdimiro Lustosa – ex-dirigente sindical, bacharel em Direito

Há poucos dias li nas páginas do jornal da família Frias, o chamamento apelativo: “Use amarelo pela democracia”! Seria uma réplica do movimento das diretas já de 1983/1984? Seja como for, sabemos que a Folha de S.Paulo, até mesmo nas diretas já só veio a se manifestar a favor quando o movimento já estava forte. Até lá o jornal ficou omisso. Quando viu que a onda era crescente não hesitou e apoiou. Oportunismo?

Agora, decorridos 36 anos, vem com a campanha do “Use amarelo pela democracia”! Cheira à ironia. Um jornal que apoiou o golpe  de 1964, compactuou com o regime militar, fez campanha cerrada para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, foi linha de frente na campanha de Bolsonaro contra Haddad e agora, porque a maré não lhe está sendo favorável, deita falação contra o presidente, deixando a entender que foi enganado e que não era isto que esperava da sua política econômico-social. A imprensa brasileira sempre agiu assim. Sabia perfeitamente, quem era Bolsonaro, mas por ódio, por capricho ou por interesses outros, apoiou o modelo que está aí.

Usar amarelo em nome da democracia é mais uma manobra da elite para que o povo possa esquecer o apoio maciço que a imprensa brasileira deu a Jair Bolsonaro em 2018. A imprensa que sempre defendeu os projetos da burguesia quer vestir o povo de amarelo com um novo slogan: “Um jornal a serviço da democracia”. Em 1961 o slogan era “Um jornal a serviço do Brasil”.
A elite que depôs Dilma Rousseff do poder em 2016 foi quem colocou o Bolsonaro na presidência com o apoio irrestrito da mídia. Todos se lembram do pato amarelo da FIESP, órgão ultrarreacionário que patrocinou as campanhas do desmonte da CLT que albergava direitos dos trabalhadores, retirando praticamente todos os direitos trabalhistas, bem como apoiou firmemente a reforma da previdência que restringiu o direito de aposentadoria. Ora, depois de tanta perversidade, veste-se de amarelo para enganar os incautos, pregando um nacionalismo manjado. Que nacionalismo é este que entrega de mão beijada as empresas nacionais, que queima a floresta amazônica para vender madeira e plantar capim para criar gado? Ora, quem comprou seu carvão molhado que o abane! Eu não comungo desse tipo de nacionalismo. Nacionalismo na essência seria preservar nossas riquezas, investir em pesquisas científicas, na educação, na geração de empregos para o nosso povo, não essa manobra oportunista das cores nacionais.

A mesma mídia que critica OPORTUNISTICAMENTE, o governo Bolsonaro é a mesma que apoia as reformas trabalhista e previdenciária; que apoia a política de desmonte da riqueza nacional com a venda, ou melhor, com a entrega das nossas empresas ao capital estrangeiro a preço de banana. Uma lástima! Conclamar o povo para vestir amarelo e liderar um futuro governo sem a participação popular. Esse é o projeto. Já assisti a esse filme. A campanha das diretas já gorou! O que sobrou para o povo? Nem o bagaço da laranja. Não entro mais nessa. Os tempos são outros, mas parece que ainda continuamos iludidos. Qualquer mudança na política institucional do país só beneficia a classe dominante que, em associação com as igrejas, espolia os trabalhadores. Seria muito bacana se o povo entendesse essas manobras para, no momento certo, dar o troco, votando em seus verdadeiros representantes e não nos representantes dos segmentos burgueses da sociedade.

Se tomarmos como exemplo a Revolução Francesa, estribada no lema “Liberté, Égalité, Fraternité”, podemos ver que sempre a plebe fica a ver navios, ou seja, na hora da luta, a massa vai à frente, mas na hora de repartir os benefícios... Na França foram criados três estados:  o Primeiro Estado representado pelo clero e câmaras diocesanas; o Segundo Estado representado pela nobreza; o Terceiro Estado era, conforme Eric Hobsbaum, representado por uma entidade fictícia destinada a todos os que NÃO eram nobres e nem membros do clero, ou seja, a plebe. O Terceiro Estado, que era a maioria, sustentava os outros dois! Assim é o capitalismo. O Primeiro Estado e o Segundo Estado não pagavam impostos e tinham uma série de privilégios, enquanto a plebe tinha que se virar para ter seus representantes.

Assim é como tudo funciona no capitalismo. Há pouco tempo quiseram destruir o Partido dos Trabalhadores. A elite não aceita de jeito nenhum que os trabalhadores tenham seus representantes, mas ela banca a campanha dos seus parlamentares para fazerem leis que atendam os seus desejos. Desta forma a burguesia se perpetua no comando das nações, seja aqui, ali, alhures, sempre foi assim, até um dia, até talvez, até quem sabe.

Um comentário:

Sérgio Guerra disse...

Valeu, Lustosa. Um abraço, Jadson. E vamos fazer o "livro de Quitério".