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domingo, 1 de março de 2020

“SERÁ QUE NÃO TEM UM GENERAL DE VERRRRGONHA PRA DAR UM JEITO NESTE PAÍS!?”


Corina, Fabrício e Adelino: irmãos dos Oliveira dos Fabrício de Seabra
A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: a década de 1950 tem um recorte especial na mente do cronista.



Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor deste Blog Evidentemente



Perguntava indignado Adelino Oliveira, lá pela segunda metade da década de 1960, em Seabra, então uma cidadezinha menor e mais atrasada que as vizinhas Palmeiras e Lençóis. Hoje – graças ao empurrão da BR-242 (Bahia-Brasília) – é considerada a capital da Chapada.



“Será que não tem um general de verrrrgonha pra dar um jeito neste país!?” – se indignava seo Adelino, ex-escrivão de Coletoria estadual, caçula do clã dos Oliveira dos Fabrício. (Irmão de Fabrício d’Oliveira, rábula e chefe político, neto do irmão do afamado coronel Manuel Fabrício de Oliveira, de Campestre/Seabra).



O general aí vem por conta da vigência da ditadura militar. Mas não só. A família Oliveira dos Fabrício, liderada por Fabrício d’Oliveira, lá pela década de 1950, era oposição na política seabrense. E, então, ligada à velha UDN (União Democrática Nacional), nacionalmente sempre pobre de votos e chegada aos militares e aos golpes (ou tentativas de).



Não era à toa que seo Adelino ansiava por um “general de verrrrgonha” (nunca passaria pela cabeça dele a possibilidade do protagonismo popular). O candidato a presidente dos sonhos da família, nesses tempos de hegemonia do getulismo/trabalhismo, era o brigadeiro Eduardo Gomes, nunca emplacado no veredito das urnas.



E sua grande estrela, como não poderia deixar de ser, o famigerado Carlos Lacerda, ex-comunista que “costeou o alambrado” (expressão ao gosto do velho Brizola, virou a casaca, passou para o lado do inimigo) e tornou-se virulento líder direitista, a serviço do império estadunidense.



Na Bahia, a família seguia o general Juracy Magalhães, tenente interventor da Revolução de 30 que tomou gosto pelo poder e virou chefe político. Tornou-se superconhecido nacionalmente como chanceler da ditadura, quando disparou a célebre sentença: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” (Bolsonaro tem aí um notável precedente).



Mas, pelo menos na visão do clã dos Fabrício, localmente nós éramos os “bons”: sérios, bem intencionados, oposicionistas, pobres. Eles eram os “maus”, os donos do poder, representados entre as autoridades locais pelo prefeito e o delegado de polícia.



Os seus líderes: Manoel Teixeira Leite (pai do ex-prefeito Dálvio Leite), Sílvio Almeida, Jorge Alves de Oliveira (de Jatobá/Baraúnas, pai do querido companheiro Jorginho Oliveira), Aloísio Rocha (pai de Aloisinho, jornalista, cantor/compositor, mora em Belo Horizonte), Walter Coutinho (de Parnaíba/Iraporanga/Iraquara, pai do hoje vice-prefeito de Iraquara Nino Coutinho) e o jovem (na época) deputado Osvaldo Teixeira (filho de Sílvio Almeida), do PR (Partido Republicano), velho partido do cacique Manoel Novaes.



(Osvaldo é um dos poucos que podem confirmar ou contestar as informações disseminadas por aqui: dos protagonistas citados, é o único vivo).



Pela década de 1950, Waldemar Santos (“Preto” de Zé de Cabocla) circulava pelas ruas da pequenina cidade, durante as campanhas eleitorais, alardeando pelo serviço de alto-falante instalado num jeep: era a voz da “coligação PSD/PTB/PR” em disputa com a UDN (PSD – Partido Social Democrata e PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, ambos fundados a partir da liderança de Getúlio).



A memória infantil é inesgotável, embora seletiva e arbitrária: ainda na década de 1950 (exatamente 1958), seo Adelino foi candidato a prefeito e “quase ganha”, dizem;



Em 1952, quando da morte de Eva Perón, a fada dos “descamisados” argentinos, ele teve relevante papel na cobertura “jornalística” da trágica perda popular, pelo menos a nível local: instalou um rádio (daqueles radjão de madeira, com um grande “olho mágico” verde) numa das janelas da frente de sua casa, a todo volume. De modo que os seabrenses que passavam por ali puderam acompanhar, “ao vivo”, os lances do fascinante velório de repercussão internacional;



Em 1954, quando do suicídio de Getúlio, um outro membro do clã, conhecido como Zeno (Naziozeno José de Oliveira), foi visto pelas ruas da cidade, chorando, secando as lágrimas com um lenço e lastimando: “Um homem tão bom...” (contraditoriamente, porque não eram chegados ao getulismo/trabalhismo).



Seo Adelino se foi aos 81 anos. E o ansiado “general de verrrrgonha”, pelo jeito, ainda não apareceu. Para consolo, resta incensar com o comentário lisonjeiro de um conterrâneo: “Seo Adelino é um homem de sabença” (Na verdade, o elogio foi motivado pela suposta excelência dos nomes que escolheu para os primeiros filhos: Stimson, Jadson, Esthônia e Smitson).



PS 1: Quem merece mesmo uma crônica (de fato, várias) é o chefe político da família, Fabrício d’Oliveira, um genuíno humanista, defensor dos direitos humanos. E um respeitado rábula, com quem tive o privilégio de aprender o sábio preceito jurídico: In dubio pro reo (‘Na dúvida, em favor do réu’, a valiosa presunção da inocência, estuprada pelo lavajatismo).



PS 2: Um pouco antes do período focado, foram destaques na política de Seabra: Tito Luna Freire, primeiro prefeito eleito (1948/1951), pai do nosso cantor/compositor Hugo Luna; e o tenente Silvino Pires (com sua mulher, dona Santinha), juracisista roxo, aliado dos Fabrício.



PS 3: No próximo 2 de maio (um sábado), os descendentes dos Fabrício farão seu segundo encontro de confraternização em Seabra. O primeiro, realizado no ano passado (9/fevereiro), foi um sucesso. (ESTE ENCONTRO DO DIA 2 DE MAIO FOI CANCELADO DEVIDO À CRISE DO CORONAVÍRUS).

Um comentário:

jadson oliveira disse...

Transcrevo comentários feitos no Facebook:

Suzana Alice Pereira Que maravilha, Jadson! A lembrança da frase de Juracy muito oportuna, o velório de Eva Peron, o In dubio pro reo.... Riqueza.

Artur Bagues Filho Nem precisaram frequentar faculdade para expressarem a realidade sa politica brasileira : A mais suja e sordida do mundo. Dificil ,senao quase impossivel ver-mos um prefeito como Fabricio d'Oliveira.
Lembro de uma cerimonia dw posse em que o mesmo estava sendo empossado como prefeito da nossa Seabra, e no discurso, seu filho IOVANE, num trecho do discurso lembrou da humildade do pai.: "O bolso do paletó marron , um dos bolsos externos costurado á mao, com linha branca, distorcendo da cor marron do tecido.
Salientava o total despreendimento do cidadao, entao prefeito recem- empossado de Seabra. Nao que fosse um empoderamento forçado ,a. titulo de maquiavélica demonstraçao de humildade. Mas como disse acima, total despreendimento , meio que avesso às formalidades convencionais.
Como bem salientou seu filho Iovane, aquela figura singular nao entrara na politica pela vaidade nem pelo que lhe rendia pecuniariamemte. Mas por um dever civico à sya cidade natal.

Rubia Oliveira Acho q hj meu pai repetiria a frase e acrescentaria: Um general que se dê respeito, um general nacionalista?
Qto a Fabrício, já me perguntei o q ele diria ao saber desse novo golpe, das armações desse juiz/ministro "capanga de milícia" e do fim dos direitos humanos.

Deta Almeida Boas histórias!

Zilar Missias Saudades!!

Artur Bagues Filho Como sou pessimo digitador em tel.celular como devem ter notado algumas palavras mal digitadas. Um erro entretanto ficou mais evidenciado com o duplo e da palavra "desprendimento" ( saiu com ee.) .Fora os acentos que o meu teclado esconde. Rs.

Lena Massard Boas memórias!