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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

“VENHAM FALAR-ME NO COLONIALISMO SUAVEZINHO DOS PORTUGUESES...”


A autora é branca, filha dum colono português racista. Nasceu e viveu na cidade de Maputo (antiga Lourenço Marques), em Moçambique, até a idade de 11 anos, indo embora então para Portugal (em 1974, quando se iniciou o processo de independência)
Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade será para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai.



Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada mais a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos negros.



Por Isabela Figueiredo – do livro ‘Caderno de memórias coloniais’, editora portuguesa Todavia, páginas 164/165 (título e destaques acima são da edição deste blog)



(...)



Eu quero estar sozinha no mundo. Não me saturem com as palavras brutais que tive de escutar a vida inteira sem poder protestar.



(...)



As pessoas não mudam. Quando as reencontramos, muitos anos depois, percebemos por que nos afastámos (português de Portugal).



“Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes, não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, meu cabrão. E não me assaltas porque eu sou branca e estrangeira; e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda”.



Ouvi isto toda a vida.



Venham falar-me no colonialismo suavezinho dos portugueses... Venham contar-me a história da carochinha.



As pessoas não mudam. Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade será para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.



Os carniceiros foram todos tão bonzinhos que quando matavam o cabrito davam as vísceras aos pretos. A tripa. A pele. Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada mais a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos negros; e se os faziam trabalhar sete dias por semana, sem horário, era apenas o legítimo tratamento de que precisavam os preguiçosos. Um favor que o branco lhes fazia. Civilizar os macacos.



E agora, no Maputo, uma falta de respeito. “Faltamos lá nós. Têm saudades. Um branco é constantemente assaltado. Na rua. Em casa. Roubam-nos tudo, os cabrões. E estragaram aquela terra. Queimaram-na”.



(...)

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