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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

JESSÉ SOUZA: “É IDIOTA A NOÇÃO DE QUE EXISTIRIA UM JEITINHO BRASILEIRO”


Sociólogo Jessé Souza (Foto: Internet)
A classe média brasileira não se comove com a morte ou mesmo o massacre de milhares de pobres, os quais são vistos como “gente inferior”.



Quem consome cachaça ou cerveja barata e come bife gorduroso no almoço é percebido como sendo “menos gente” por todos das classes privilegiadas.



Por Jessé Souza (sociólogo) – Extraído do livro ‘A classe média no espelho’ (editora Estação Brasil), páginas 64/65 (título e destaques acima são da edição deste blog)



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O consumo de vinhos caros, roupas elegantes, iguarias requintadas, acompanhado de formas específicas de comportamento social, expressas no modo de andar, de falar ou de se dirigir às outras pessoas, criam os vínculos mais sólidos de solidariedade de classe, conferindo uma sensação de superioridade àqueles que participam desse estilo de vida. A classe do privilégio pode se reconhecer facilmente na rua ou num evento social, constituindo uma espécie distante e, sobretudo, superior de ser humano.



As amizades, os casamentos – 99% das pessoas casam dentro de sua classe social -, os relacionamentos pessoais e de negócio, tudo será facilitado pela percepção imediata do compartilhamento de um mesmo estilo de vida, baseado num gosto comum. Essa sensação de pertencimento de classe social não é consciente nem explícita. É uma sensação prática, que transmite a certeza emotiva de se estar diante de um igual, “gente como a gente”, o que gera simpatia e empatia imediatas.



A classe média brasileira não se comove com a morte ou mesmo o massacre de milhares de pobres, os quais são vistos como “gente inferior”. Mas se comove muito com o drama humano de um único indivíduo de sua classe, quando é sequestrado ou morto.



Esse tipo de solidariedade e empatia imediata entre os membros de uma classe se contrapõe ao preconceito em relação aos que não fazem parte do mesmo mundo social. Assim, quem consome cachaça ou cerveja barata, come bife gorduroso no almoço, veste camiseta regata e bermuda e fala com erros de português, sem demonstrar o menor senso estético, é percebido como sendo “menos gente” por todos das classes privilegiadas. Isso não exclui o contato social, quando, por exemplo, entram nas casas de classe média para fazer a faxina ou consertar algo. Mas com essa gente não se travam amizades reais, não se casam, não se fazem negócios.



É assim que o mundo social se mantém desigual apesar da pretensão formal de igualdade jurídica entre as pessoas. É assim que o pertencimento de classe efetivamente atua em nosso cotidiano. E isso acontece em todas as atuais sociedades capitalistas, seja na periferia do sistema, como no México e no Brasil, seja no centro, como nos Estados Unidos e na França.



Aqui se nota como é idiota – não há termo melhor, pois faz de imbecis aqueles que nisso acreditam – a noção de que existiria um jeitinho brasileiro, só nosso, um planeta vira-lata e verde-amarelo só dos brasileiros. Em todas as sociedades modernas, são essas ligações emotivas e personalíssimas que estão por trás de todo tipo de privilégio.



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