sábado, 13 de fevereiro de 2016

ZYGMUNT BAUMAN: “NUNCA FOMOS TÃO LIVRES E TÃO INCAPAZES PARA MUDAR AS COISAS”

O noticiário dos blogueiros nas redes sociais é olhado com desconfiança (Foto: Correio do Brasil)
SHEILA SACKS: O IMPÉRIO DA OPINIÃO
A imprensa escrita tem a confiança de 58% dos leitores, enquanto a desconfiança é grande com relação aos blogs e as redes sociais, na base de 68 a 71%.

Por Sheila Sacks, do Rio de Janeiro – reproduzido do jornal digital Correio do Brasil, de 11/02/2016 (o título principal acima é da edição deste blog)

Na série de TV americana Good Wife, ambientada nos tribunais de Chicago, uma das magistradas possui determinada característica que desarma os bacharéis que recorrem à sua jurisdição. Dependendo do viés interpretativo adotado pelos advogados de defesa ou de acusação em relação ao tema em julgamento, a juíza interrompe a argumentação com o bordão “na sua opinião”, sinalizando aos contendores e aos membros do júri que o raciocínio expresso pelo profissional em questão representa um ponto de vista pessoal e não necessariamente uma visão verdadeira ou correta dos fatos em exame.

Diferente dos tribunais, cujos parâmetros legais dificultam e restringem eventuais manipulações na construção de um raciocínio, a imprensa é um campo aberto a observações pessoais especulativas pela própria natureza de seu serviço voltado à livre difusão da informação e por extensão ao livre exercício da opinião. Ainda que o comentário afronte conceitos éticos e apresente visões distorcidas da realidade, o jornal lhe confere visibilidade e, essencialmente, o crédito da confiabilidade. O historiador americano Christopher Lash (1932-1994), crítico dos processos de disseminação da informação no mundo globalizado, teve essa percepção ao enunciar em seu livro “Cultura do Narcisismo” (de 1979), que “para algo ser aceito como real, basta que apareça como crível ou plausível, ou como oferecido por alguém confiável”.
Imprensa em alta
Consulta divulgada pelo Ibope, em dezembro de 2014, apontou que 58% dos entrevistados confiam “muito ou sempre nos jornais impressos”, percentual superior a outros meios de comunicação como televisão, rádio e internet. Em relação às novas mídias, a pesquisa indicou que 71% dos entrevistados confiam pouco ou nada nas notícias veiculadas pelas redes sociais. O percentual de desconfiança chegou a 69% em relação aos blogs e 67% no que se refere aos sites.
O trabalho foi encomendado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) e se constituiu no maior levantamento dos hábitos de informação dos brasileiros. Foram consultadas mais de 18 mil pessoas acima de 16 anos em 848 municípios. Entre os vários itens pesquisados, ficou patente que o jornal é o meio de comunicação que recebe maior nível de atenção exclusiva, ou seja, metade dos leitores não faz nenhuma outra atividade durante a sua leitura. Outro ponto positivo está no fato de que a grande maioria dos leitores (84%) lê jornais para se informar e se inteirar das notícias (Relatório “Pesquisa Brasileira da Mídia-PBM 2015”, no site da Secom, em 19.12.2014).
Com a credibilidade em alta, aumenta naturalmente a responsabilidade daqueles que dispõem de espaços em jornais para emitir, formar e direcionar opiniões. Seguindo a lógica, é presumível que depois da leitura das notícias, o interesse do leitor irá convergir provavelmente para o editorial, que enuncia a posição ideológica do jornal, e também para os habituais colunistas que repercutem os temas políticos nacionais e internacionais que impactam a vida do cidadão e da sociedade.
Sabe-se que o texto opinativo visa o assentimento às ideias, teorias e juízos apresentados, e que cabe ao leitor a nem sempre fácil tarefa de separar o que se enquadra efetivamente no real daquilo que se configura em um ideário de aparências e enganos. Como uma haste de madeira parcialmente mergulhada na água se faz curva à nossa visão e é reta ao toque, as aparências iludem, confundem e muitas vezes se opõem. No livro “A arte de argumentar”, o professor Bernard Meyer da Universidade de Rouen, na França, destaca que a argumentação age basicamente sobre os indivíduos e não sobre conceitos como o da verdade. E explica: “Ela (a argumentação) não procura determinar se uma tese é verdadeira ou falsa, mas influenciar outra pessoa, logo, ela nunca será automática ou obrigatoriamente aceitável, como o é a demonstração matemática.” De acordo com Meyer, a argumentação é bem sucedida quando convence o destinatário e não, como muitos pensam, atinge a verdade.
Conceito semelhante ao manifestado pelo autor do clássico “Tratado da Argumentação: a nova Retórica” (1958), o filósofo de Direito e catedrático da Universidade Livre de Bruxelas (ULB) Chaim Perelman (1912-1984). No livro, escrito em parceria com Lucie Olbrechts-Tyteca, ele assinala que toda a argumentação visa à adesão dos espíritos. Dessa forma, cada discurso caminha no sentido da formulação de determinadas conclusões ideológicas subjacentes, com o intuito de orientar a opinião do leitor na construção de um juízo de valor a respeito de fatos, situações e ideias conflitantes. Mais que persuadir o leitor, o que se busca é o convencimento através da razão.
Para isso, a intencionalidade associada à abordagem (aspectos linguísticos) funcionaria como base estratégica do texto opinativo, buscando interagir e interferir nas convicções do leitor. “Diante desse ponto de vista, a opinião não é, como se costuma dizer, ‘manipulada’ – ao contrário, ela é a grande manipuladora”, questiona o sociólogo francês Eric Landowiski na obra “A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica” (1989).
Artistas opinativos
Na última década, ampliando a influência subjetiva das páginas opinativas que interferem na formação e avaliação da realidade, a imprensa vem agregando a esse plantel de profissionais de jornalismo uma plêiade de personalidades do mundo artístico, aparentemente em prol da diversidade de ideias e conceitos que balizam a liberdade de expressão nas democracias. Se antes, cineastas, compositores, músicos e outros astros populares “bons de escrita” se expressavam nos suplementos de cultura ou “segundo caderno” sobre a sua arte, agora migraram para as páginas reservadas à prática e observação jornalísticas das cenas político-sociais, concorrendo em igualdade de espaço e mérito com os textos do “pessoal da casa”. O cineasta Cacá Diegues e os compositores Nelson Motta e Aldir Blanc, por exemplo, ocupam regularmente as páginas de opinião de “O Globo”, emitindo conceitos, análises, avaliações e críticas sobre temas que envolvem políticos, diretrizes de governo, relações internacionais etc.
A seu favor, os próprios currículos festejados pela imprensa e a admiração dos leitores-fãs, dois referenciais de peso a embasar pontos de vista individuais e impositivos que caracterizam “a superioridade bem informada” conceituada pelo filósofo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969). Na obra “Minima Moralia: reflexões a partir da vida lesada” (1951), Adorno então em seu exílio nos Estados Unidos chama a atenção para a responsabilidade que deve prevalecer entre a elite formadora de opinião – “os inteligentes” – quando se propõe a expressar suas ideias e opiniões valendo-se de um meio de comunicação de massa. “Nenhum pensamento é imune à comunicação e proferi-lo no lugar errado e por meio de entendimento errado é suficiente para solapar sua verdade”, escreveu.
Acrescentando que à responsabilidade que se requer consciente e justa na formulação de conceitos e interpretações críticas soma-se uma carga de poder bastante presente dado o alto grau de influência que essas opiniões produzem. Para o professor de Ciências da Comunicação da Universidade Nova Lisboa, João Pissarra Esteves, aqueles que têm acesso à mídia estão investidos de um poder extraordinário, “porque impõem a sua própria realidade perante os outros, de acordo com os seus valores e interesses próprios” (“A Ética da Comunicação e os Media Modernos”, de 1998).
Legisladores invisíveis”
Maior contundência mostra o autor de “Nossa Cultura ou o que restou dela” (2005), o psiquiatra e escritor inglês Theodore Dabrymple, de 65 anos, um implacável analista da sociedade globalizada com uma dezena de livros publicados. Ele credita aos artistas, diretores de cinema, romancistas, dramaturgos, jornalistas e até cantores populares – além de economistas e filósofos sociais – o poder de indução e controle das sociedades. “São eles os legisladores invisíveis do mundo e devemos prestar muita atenção àquilo que dizem e como dizem”, assinala no prefácio do livro.
Sobra ao leitor consciente, diante de certas leituras nitidamente comprometidas com dogmas ideológicos, a desagradável sensação de impotência diante da leitura de textos bem articulados, produzidos por uma elite inteligente respaldada por veículos de comunicação de grande tiragem e influência social. Nesse caso soa perfeita a observação do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, de 89 anos, quando afirma que “nunca fomos tão livres e tão incapazes para mudar as coisas”.
Sheila Sacks, jornalista formada pela PUC-RJ sempre trabalhou em assessoria de imprensa.Tem artigos publicados nos sites Observatório da Imprensa e Rio Total. Desde 2009 mantém o blog “Viajantes do tempo”.

Direto da Redação é um fórum de debates, publicado diariamente, editado pelo jornalista Rui Martins.

Nenhum comentário: