quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

STELLA CALLONI: O GOLPISMO DO SÉCULO XXI

Ramos Allup (Foto: Prensa Latina)
No plano da guerra psicológica assistimos a absoluta desculturalização de nossas sociedades, mediante entretenimentos e ofertas que têm desconscientizado milhões daqueles que o poder hegemônico considera "escravos midiáticos".

Por Stella Calloni (intelectual argentina) – reproduzido da agência de notícias Prensa Latina, de 05/02/2016

Buenos Aires - O que aconteceria se uma maioria republicana dos Estados Unidos dissesse que seria "irresponsável" deixar concluir seu período de governo ao presidente do Partido Democrata Barack Obama? O que aconteceria se a maioria parlamentar argentina dissesse que seria "irresponsável" deixar continuar um governo como o de Mauricio Macri, que funciona por Decretos de Necessidade e Urgência (DNU), arrasando a lei e as instituições, reprimindo um povo para o qual mentiu impunemente na campanha eleitoral?

No dia 29 de janeiro passado, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Henry Ramos Allup, afirmou que seria "irresponsável" permitir que o presidente Nicolás Maduro conclua seu mandato, e não só isto, advertiu que se o chefe de Estado continuar no governo seu sucessor herdará um "cemitério", ante o qual afirmou - sem nenhum limite - que no mês de junho a oposição elegerá uma figura legal para mudar o Governo.

Encorajado pelo amparo imperial com o qual conta afirmou: "A verdade é que eu não quero que isto dure mais três anos, assim de pior a péssimo, porque isso vai terminar. Se você pode usar remédio para uma doença antes que te leve à morte, utilizar o remédio parece óbvio". O que dirão os civilizados europeus que tanto apoiam os seus "democráticos" amigos venezuelanos golpistas? 

As perguntas iniciais são mais que válidas ante as novidades dos últimos tempos, quando assistimos a novos esquemas de golpes de Estado mais que brandos e encobertos, de forma aberta, como se está vendo na Argentina com a constituição de um verdadeiro governo de fato (ditatorial) surgido de eleições e na Venezuela, onde a oposição majoritária na Assembleia Nacional tem um presidente que "canta o golpe" com a brutalidade que caracteriza as "novas direitas".

Ramos Allup sustenta que estão propondo acabar com o governo de Maduro antes de seis meses sem que nada diga o secretário-geral da Organização de Estados Americanos, Luis Almagro, sobre este golpismo aberto e descarnado.

Dias antes, o mesmo Ramos Allup assegurou que frente à gravidade da crise econômica não vislumbra Maduro concluindo seu mandato. "Eu o vejo muito mal, não sei se para o final do ano, porque também não é possível estabelecer um dia preciso, mas eu, ao final do período constitucional, a este ritmo, não o vejo chegar", manifestou.

É a confissão pública de que chegaram à Assembleia Nacional exclusivamente para impedir Maduro de governar, pedindo o respaldo às novas leis que apresentará a maioria opositora para tentar dar um golpe final, sobre as ações desde o golpe de 2002.

Curiosa situação de golpismo permanente na Venezuela, que passou das ruas afligidas com morte e destruição, após aquela declaração pública de Leopoldo López - que não é um preso político - no início de uma nova tentativa de golpe de Estado chamada "A Saída" com manifestações violentas, supostamente estudantis (encobrindo os paramilitares colombianos que participaram ativamente) no início de 2014, quando disse que não sairiam das ruas até "tirar Maduro", declaração golpista há.

Um total de 43 mortos, quase mil feridos, milhões de pesos em destruição de edifícios, universidades e outros mais, foi o saldo criminoso de "A saída". Os eternos golpistas que desabasteceram o país, roubaram milhões de dólares em gasolina, em alimentos, medicamentos e outros artigos, em cumplicidade com os paramilitares colombianos, que além de matar em seu país, assassinam sem piedade na Venezuela, como ocorreu com o assassinato do jornalista Ricardo Durán.

O jornalista Durán trabalhava para o canal estatal Venezuelana de Televisão (VTV), era chefe de imprensa do governo no Distrito Capital. Trabalhou como diretor de Comunicação e Informação da Assembleia Nacional e ganhou o Prêmio Nacional de Jornalismo em 2009.

O periódico opositor El Universal sustentou que foi um dos jornalistas chave em comunicar "o que ocorreu durante os dias de abril de 2002, a partir das próprias instalações do canal, em tempos nos quais reinou a confusão quando o então presidente Hugo Chávez foi retirado do cargo".

Que delicadeza do El Universal usando a palavra "retirado do cargo", quando Chávez foi sequestrado em meio a um brutal golpe de Estado civil-militar.

Vale recordar o fato (outubro de 2014) com o assassinato, e torturas prévias, do jovem deputado do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV) Robert Serra e María Herrera sua companheira, além de outros crimes brutais da "oposição democrática" e das sabotagens contra o país que mais tinha avançado na recuperação social de sua população, como admitiam os organismos internacionais.

Estes crimes são parte do golpismo e da ingerência dos Estados Unidos, que há muito tempo ameaça invadir esse país, financia, assessora e dirige uma oposição mercenária e o paramilitarismo midiático que lhe serve. Milhões de dólares foram repartidos na Venezuela e na Argentina para "orientar" as campanhas eleitorais. Isto é ingerência e corrupção e é a maior fraude contra nossos governos e povos. A ofensiva avança sobre Brasil, Bolívia, Equador.

MACRI, A INVENÇÃO DE UM PRESIDENTE 

Na Argentina, o "modelo democrático" de Mauricio Macri empreendeu uma demolição brutal de tudo o que o país havia recuperado, essencialmente o Estado, que em 2001 desabou na crise econômica e política mais dura da história nacional.

Governando desde o dia 10 de dezembro passado por Decretos de Necessidade e Urgência (DNU), violando as leis e a Constituição, levando o país para um caminho que significa não só a destruição do que custou anos para construir, com mortes e sacrifícios. Macri começa seu governo entregando a Argentina ao poder hegemônico mundial, aos sinistros organismos como o Fundo Monetário Internacional, do qual se gaba o ministro da Fazenda Alfonso Prat Gay, um agradecido empregado de bancos e instituições estrangeiras.

Macri não só apoia o golpismo contra a Venezuela, como também se converteu hipocritamente em um "defensor dos direitos humanos nesse país". É o mesmo presidente que está arrasando com todos os direitos do povo argentino, violando os direitos humanos, sociais e políticos, tentando voltar atrás em todas as medidas tomadas contra os responsáveis por crimes de lesa humanidade durante a ditadura passada, algo tão valorizado no mundo.

"Rápido e furioso" arremete contra todo vestígio de defesa e direito conquistado pelo povo, após a campanha midiática terrorista encabeçada pelo grupo monopólico Clarín, dono de todos os espaços mais importantes de comunicação a nível nacional e o mais favorecido pelo governo de Macri.

A perseguição do monopólio Clarín contra a ex-presidenta Cristina Fernández Kirchner não tem comparação na história.

O golpismo atual na Argentina começou no mesmo dia da posse de Macri, um empresário de extrema-direita, que desde 2007 (de acordo com o Wikileaks) ofereceu seus serviços à embaixada dos Estados Unidos aqui. A ofensiva golpista começou com decretos que determinaram a intervenção de instituições, medidas absolutamente ilegais, como a nomeação de dois de "seus" juízes por decreto na Corte Suprema. Todas as medidas econômicas favorecem aos poderosos e marcam um caminho de exclusão para o povo.

As demissões em massa com métodos brutais - que é uma forma de fazer "desaparecer" um ser humano - desconhecendo o Congresso, a perseguição político-ideológica, abertamente, com a impunidade que lhe dá o poder midiático, desde que era um intendente da Cidade de Buenos Aires.

Assumiu a presidência com dois processos abertos, por reprimir os pobres e espionar trabalhadores, políticos e até seus próprios familiares.

Enquanto os Estados Unidos e sua rede de sócios "e empregados locais" apoiam os decretos anticonstitucionais de Macri, aplaudidos pelo poder hegemônico, na Venezuela o decreto de "emergência econômica" assinado pelo presidente Nicolás Maduro foi rechaçado pela oposição legislativa com a complacência desse mesmo poder.

Maduro tem uma razão patriótica, de defesa nacional, para pedir a aprovação deste decreto de emergência em um país petroleiro, no marco da maior queda dos preços desse produto a cifras jamais imaginadas.

Ramos Allup e os seus, que apoiam o governo de Macri, golpeiam o coração da Venezuela, obstaculizando qualquer medida do governo de Maduro, que tem a obrigação de agir com urgência ante um problema nacional e econômico. A negativa opositora no Congresso é parte do golpismo contínuo que os Estados Unidos e seus fantoches locais executam contra a Venezuela.

OFENSIVA IMPERIAL 

Estamos assistindo a uma investida, uma ofensiva de verdadeira "demolição" dos governos populares da América Latina, para a qual destinaram-se milhões de dólares interferindo em processos eleitorais, depreciando para terminar de golpear a unidade regional, que é a única possibilidade de resistir ao projeto de expansão global e de recolonização continental do império.

É também a única possibilidade de enfrentar as estratégias contra-insurgentes que supõe esta Guerra de Baixa Intensidade (GBI), que é aplicada em toda a região contra os governos que conseguiram mudar o paradigma da submissão colonial.

De fato estamos invadidos pelas Fundações como a National Endowment Foundation (suposta Fundação para o Desenvolvimento da Democracia) que conhecemos como NED. Além da velha Agência Internacional para o Desenvolvimento (USAID), os Institutos Internacionais tanto Republicano quanto Democrata e sua enorme rede de Organizações Não Governamentais, o que permite a ocupação antecipada de território e facilita o terrorismo midiático que nos é aplicado. E não esqueçamos a rede de bases militares, as tropas de mobilização rápida, a IV Frota e as demais.

No plano de guerra psicológica assistimos a absoluta desculturalização de nossas sociedades, mediante entretenimentos e ofertas que têm desconscientizado milhões daqueles que o poder hegemônico considera "escravos midiáticos".

É imprescindível comparar a dupla moral dos supostos democratas da oposição venezuelana e argentina, e as direitas - em todos os casos as mais medíocres na história da América Latina - que são o aríete com que o governo dos Estados Unidos tenta retornar ao seu "quintal" para seu projeto de recolonização.

Para isto está planejado - e tem que seguir os acontecimentos na Argentina e Venezuela - demolir tudo o que haja de possível resistência futura e avançar no controle absoluto da população, como está fazendo o atual "modelo argentino" e o golpista bloco opositor venezuelano.

Na Argentina, o governo foi ocupado por figuras impostas por Washington, já que este país por uma parte, e Israel seu sócio, têm colocado "seus" bispos nos ministérios estratégicos, sem dissimulação.

Estes ministros e secretários de área pertencem há muito tempo às Fundações dos Estados Unidos, como Pensar, Crecer, Libertad, UnoAmérica, e uma lista de outras que se instalaram na escala mais alta do poder em apenas 40 dias. Tomaram-se os meios (de comunicação) - certamente muito poucos - que não controlavam, já que o monopólio do Grupo Clarín impôs a anulação da Lei de Comunicação Audiovisual (chamada Ley de Medios), votada em 2009, reconhecida no mundo como um enorme esforço de democratização informativa e recuperação cultural.

Como se sabe, não pode existir um monopólio midiático, que como o Clarín, controle todo o país, o papel imprensa e agora, graças aos decretos de Macri, a posição monopólica se expandiu em horas até o controle das telecomunicações e outras mais.

Para fazer isso em somente 40 dias demitiram milhares de trabalhadores, centenas de jornalistas e ampliaram suas poderosas manobras da justiça, o que permitiu a este Grupo monopólico burlar - através de juízes amigos - a Lei de Meios durante seis anos. Agora esses juízes "são o poder judicial", uma verdadeira corporação do poder econômico, golpista. Isto viola todas as leis e os direitos dos povos e os direitos humanos.

Foi tomado um dos países mais importantes para a unidade regional, como um severo golpe à integração. É um golpe de Estado "rápido e furioso", um choque cujas consequências são inevitavelmente graves para a região.

E para assegurá-lo, ante a evidente resistência na Argentina que, à medida que sigam tomando ações cada vez mais antipopulares e regressivas continuará crescendo, introduzem dois temas que são o cavalo de batalha dos argumentos do império. Advertem sobre o terrorismo e o narcotráfico, instalando o medo na população e sem dúvida - como estamos vendo aqui - pedirão "ajuda" militar aos Estados Unidos para combater estes "males".

Ninguém deverá se espantar com atentados de falsa bandeira, como fazem em todo mundo, instalando o medo irracional, que significa o domínio emocional de uma população aterrorizada que aceita tudo. Para isso têm os meios, o parajornalismo, muito bem pago - como se paga aos mercenários - e o trabalho de escavação da desconscientização social "para nos dominar melhor".

Só a resistência inteligente, a unidade e solidariedade instaladas pelo empoderamento dos povos de seus direitos nos fará enfrentar o retorno colonial, e recuperar a liberdade e a independência definitiva. Temos a força da razão, a dignidade e o futuro.


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