domingo, 10 de janeiro de 2016

TERRORISMO MIDIÁTICO: A VERDADE MUITAS VEZES É APENAS UMA VERSÃO


Emissoras brasileiras de rádio e TV usam concessões, que são propriedade do poder público, para envenenar mentes e corações com visões de mundo cheias de ódio e intolerância e para disseminar versões parcializadas como se fossem verdades absolutas. Apesar disso, a esperança está no ar.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro)Editor do Blog Evidentemente – reproduzido do site Dia e Noite no Ar, de 05/01/2016

Há cerca de três meses li um artigo do sociólogo brasileiro Emir Sader e o guardei nos meus arquivos. Ele falava do genocídio da juventude negra como o maior escândalo da conjuntura brasileira e defendia a necessidade de se “reconquistar a opinião pública para uma visão de paz e de convivência entre as pessoas”.

E arrematava: “Devemos fazer um grande mutirão nacional contra a violência, contra a ação brutal da polícia contra os jovens negros no Brasil de hoje”. Fiquei com esta proposta do nosso pensador social engatilhada na mente e resolvi comentá-la aqui nesta tribuna aberta  pelo velho companheiro de redação Vicente de Paula, no seu site – eminentemente plural – Dia e Noite no Ar.

Eu poderia usar uma metáfora simpática: “Com que roupa? – meu caro Emir – com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?” (grande Noel Rosa!). Mas prefiro ser cru, “como couro cru” (como diria meu poeta predileto Antônio Brasileiro):

Com que armas, meu caro Emir, vamos a essa batalha da comunicação que você nos convidou? Faltou esse fundamental detalhe: com que meios de comunicação vamos lutar para “reconquistar a opinião pública para uma visão de paz e de convivência entre as pessoas”?

Por acaso teríamos espaço nos monopólios da mídia hegemônica para disseminar uma visão de amor e solidariedade entre as pessoas? Em emissoras de rádio e TV, as quais, apesar de concessões públicas, disseminam todo dia e toda hora os “valores” do ódio e da intolerância contra pobres e pretos, contra os que são diferentes, contra os que pensam diferente? Emissoras que envenenam mentes e corações com suas versões parcializadas como se fossem verdades absolutas?

Creio que, infelizmente, as forças políticas que atuam no Brasil mais afinadas com o que poderíamos denominar movimento popular, democrático e de esquerda nunca compreenderam a necessidade de investir na construção duma mídia contra-hegemônica (além da luta pela democratização das concessões de rádio e TV).

Uma mídia de massa, forte, de alcance nacional, de conteúdo crítico, fundamentada em critérios jornalísticos, plural, não partidária e, ao mesmo tempo, comprometida com os interesses nacionais e populares. (Quem tenta suprir esta lacuna hoje, com dificuldades e sacrifícios, são os chamados blogueiros progressistas e os “guerrilheiros” das redes sociais, além dumas poucas publicações, como a Carta Capital, Brasil de Fato e Caros Amigos).

Me lembro dum amigo jornalista, petista, me contando ter participado dum encontro do PT nos inícios do primeiro mandato de Lula. Ao se falar do tema, o dirigente partidário do setor disse que não havia o que se debater no tocante à comunicação.

Há o episódio contado por Roberto Requião, que mostra o quanto a direção do PT é (ou era) obtusa na questão: o senador sugeriu a Lula, então presidente, investir na construção dum potente canal de TV para enfrentar a TV Globo e demais monopólios. Lula o mandou conversar com José Dirceu, seu então chefe da Casa Civil. Então, Dirceu disse a Requião que o governo não precisava duma TV, simplesmente porque já tinha uma: era a TV Globo. (É até uma coisa louca pensar numa ingenuidade deste tamanho da parte dum cara como José Dirceu!)

Conclusão: Lula, apesar dele próprio um genial comunicador, não parece ter sensibilidade para a questão. A presidenta Dilma, definitivamente, não é do ramo: é bastante recordar aquela babaquice que ela dizia sobre regular a mídia através do controle remoto. Nesses dias de passagem para o Ano Novo, ela fez mais uma besteira: publicou um artigo assinado por ela, com exclusividade, na Folha de S.Paulo, jornalão conservador decadente que usa tais expedientes para chancelar sua suposta pluralidade.

Apesar de tudo, a esperança está no ar

Felizmente, os monopólios da mídia podem muito, mas não podem tudo. Em São Paulo, o ano de 2015, um ano marcado pela ascensão de forças obscurantistas e intolerantes, fechou com um raio de luminosidade e esperança - o movimento de rebeldia da juventude secundarista.

A meninada se insurgiu contra o chamado projeto de reorganização do sistema educacional do estado, ocupou 216 escolas (segundo dados da liderança sindical dos professores) e forçou o governador tucano Geraldo Alckmin a voltar atrás. A façanha dos estudantes ganha tons surpreendentes e alvissareiros se lembrarmos da desavergonhada cumplicidade da imprensa com o governo paulista, além da violência da repressão policial.


(Me regozijo em publicar acima uma bela foto duma das guerreiras paulistas em luta, de autoria de Sato do Brasil, do site Jornalistas Livres).

Um comentário:

Militão disse...

Muito bem Jadson. Como sempre brilhante seu artigo. Grande abraço