domingo, 3 de janeiro de 2016

COMPRAR OU AMAR: QUE VERBO CONJUGAR NUM NATAL?

(Foto: Internet)
Comprem e ostentem luxo e riqueza, cristãos hipócritas! - poderia invectivar Jesus Cristo se aqui voltasse -, mas metam a mão na consciência e saibam que vim trazer o amor e a espada pela justiça social.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do Blog Evidentemente – reproduzido do site Dia e Noite no Ar, de 29/12/2015

É praxe se dizer que na época de Natal e passagem de ano é o momento de reflexão e mudança. Na prática, porém, não se vê nem uma coisa nem outra. Muito ao contrário.

Mesmo porque os modernos templos do consumo, com aquele burburinho infernal em que se transmutam os shoppings centers, não são locais adequados para qualquer reflexão. São locais construídos e ampliados a cada ano para comprar, comprar e comprar.

E mudança, que mudança? Se a parcela da população que tem dinheiro pra comprar está tão feliz! E afinal, na sociedade do deus Mercado, do deus Consumo, é a única parcela que conta. O resto é o resto. E tome ostentação e intolerância, tão celebradas pelos monopólios dos meios de comunicação.

Daí que o papa Francisco, que tem demonstrado ser um homem sensível, tenha se esmerado na última Missa do Galo em defender a sobriedade e a simplicidade numa “sociedade frequentemente ébria de consumo e prazeres, de abundância e luxo”.

O Papa pede aos católicos que cultivem o sentimento de justiça. Eu explicitaria: de justiça social, de inconformidade diante das injustiças sociais, de rebeldia – esse sentimento tão próprio da juventude – diante das desigualdades sociais.

Porque é disso que se trata quando se fala de Jesus: rebeldia. Que diria o “companheiro Jesus” se aqui voltasse e verificasse que os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%?

Tais dados são citados por Guilherme Boulos, coordenador do movimento dos sem-teto em São Paulo, num artigo que publiquei ontem no meu blog Evidentemente (Natal sem hipocrisia). Ele acrescenta: “Os donos do poder, via de regra, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la”.

Boulos cita também uma reflexão crucial do nosso Frei Betto: Jesus Cristo não morreu de hepatite numa cama, nem foi atropelado por um camelo numa esquina de Jerusalém. Ele foi um preso político caído nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Foi torturado, condenado a morrer na cruz e executado juntamente com dois delinquentes “comuns” – a crucificação era uma pena usual na cultura local da época.

Se Jesus voltasse hoje por aqui e mantivesse a postura combativa frente às injustiças sociais que lhe é atribuída nas escrituras seria por certo tachado de comunista, se seu retorno ocorresse durante a chamada Guerra Fria, no século passado.

Se aparecesse depois da derrubada das Torres Gêmeas, em 2001, poderia ser catalogado como terrorista. Mas se a aparição se desse aqui na América Latina, na nossa Pátria Grande, no decorrer deste início de século 21, não há dúvida: seria estigmatizado como bolivariano.

Mas, com certeza, não seria condenado ao suplício da cruz: poderia ser executado com um tiro de fuzil, como fizeram com Che Guevara na Bolívia em 1967; ou ser emboscado por um grupo de policiais chefiados por Sérgio Fleury numa rua de São Paulo em 1969, durante a última ditadura brasileira, como o foi o baiano Carlos Marighella;

Ou ser assassinado sob torturas infligidas por repressores da ditadura, como o foram no início da década de 70 – mais dois exemplos dentre milhares - os revolucionários Carlos Danielli, dirigente do PCdoB, e Mário Alves, jornalista baiano (quando morreu era dirigente do PCBR).

Homens que, assim como Jesus, arriscaram a própria vida por ideais cujo pano de fundo era um só: amor pelas pessoas, pela humanidade, humanistas corajosos que arremeteram contra os poderosos do seu tempo, sequiosos de justiça, igualdade, liberdade, fraternidade, solidariedade, paz – talvez hoje possamos abranger tudo isso na filosofia do “buen vivir” dos indígenas da América Latina, incluindo a busca da harmonia entre o homem e a natureza.


Então, ensaiando um pouco de ficção, poderíamos imaginar uma invectiva de Jesus se aqui voltasse: comprem e ostentem luxo e riqueza, cristãos hipócritas! Mas metam a mão na consciência e saibam que vim trazer o amor e a espada pela justiça social.

Um comentário:

Militão disse...

Grande artigo Jadson.! Vamos divulgá-lo. Grande abraço -Militão