domingo, 22 de novembro de 2015

VENEZUELA: ESTADOS UNIDOS E ALEMANHA FINANCIAM O IMAGINÁRIO DA FRAUDE

(Foto: Dorwis Gómez/Flickr/Carta Maior)
500 mil dólares: este é o financiamento estrangeiro à oposição, cujo único fim é criar um imaginário de fraude eleitoral através do terrorismo midiático.

Por Álvaro Verzi Rangel(*) – reproduzido do portal Carta Maior, de 20/11/2015

A Unasul já começou os trabalhos de acompanhamento das eleições parlamentares da Venezuela, no dia 6 de dezembro, feito por especialistas de onze países, encabeçados pelo ex-presidente dominicano Leonel Fernández. Apesar desses esforços, a oposição continua clamando pela ingerência de políticos e observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia e de ex-presidentes conservadores não só da América Latina.
 
Mas o interesse não é só dos membros da coalizão direitista Mesa de Unidade Democrática (MUD), que aglutina os setores da oposição. A necessidade de criar um imaginário de fraude eleitoral – como vem se repetindo em cada fracasso nas urnas – vem do Norte, e tem um amplo financiamento germano-estadunidense.
 
No dia 29 de setembro, a sede do Comitê de Relações Internacionais da MUD foi palco de uma reunião sigilosa, com o objetivo de coordenar com diferentes ONGs internacionais a presença de “observadores” especiais vindos de outros países.
 
Outro ponto abordado nessa reunião foi a necessidade da oposição venezuelana receber maior apoio financeiro, que permita desenvolver maiores e melhores ações, além do dinheiro necessário para alimentar as campanhas dos candidatos, para maior publicidade e mobilização de eventos, que visam não só promover a oposição como trabalhar na deterioração da imagem do governo nacional e internacionalmente – e para isso os fundos sempre estão disponíveis.
 
Embora os principais líderes da MUD se encontrassem no recinto, o encontro foi dirigido por Eduardo Semtei e Lilian Tintori, a esposa de Leopoldo López.
 
Também estavam presentes os “patrocinadores convidados”, os financiadores estrangeiros da desestabilização: Henning Suhr, representante da Fundação alemã Konrand Adenauer na Venezuela, Lee Mclenny, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, e Samuel David Sipes, funcionário do escritório político da mesma sede diplomática, e sucessor de Phililp Laidlaw na direção da sede da CIA na capital venezuelana.
 
Os opositores venezuelanos e os financiadores alemães e estadunidenses concordaram em promover a presença de mais de 200 observadores membros das fundações alemãs Adenauer e Frederick Ebert, da Internacional Socialista (social-democrata), da União Europeia e da Federação Interamericana de Advogados (FIA) – tais organismos não são reconhecidos pelas autoridades eleitorais da Venezuela. Além desses grupos, também seriam trazidos ao país grupos de parlamentares e ex-presidentes da região, talvez alguns intelectuais – todos ultradireitistas.
 
O essencial neste encontro foi desenhar a estratégia para que os observadores dessas ONGs selecionadas pudessem ter acesso ao processo eleitoral, segundo o mecanismo pelo qual os partidos políticos podem convidar alguns dos observadores, os quais o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) chama de “acompanhadores do processo”.
 
A missão principal dessa manobra, segundo explicou Semtei, é conseguir que a campanha midiática internacional pressione o governo para aceitar a observação eleitoral de diferentes atores internacionais, capazes de semear uma matriz de opinião que reflita a possibilidade de uma fraude.
 
Os financiadores pedem ordem
 
As conclusões da reunião não ficaram nas mãos dos dirigentes da MUD. Se tornaram missões encarregadas a Suhr, Mclenny e Sipes, que deram prioridade à necessidade imediata de que a oposição alcance uma maior organização sobre os diversos projetos e ações previstas para os dias prévios, para o dia das eleições e também para as jornadas posteriores.
 
Conscientes de que para pedir ordem deveriam mostrar seu poder de persuasão, os patrocinadores convidados falaram na distribuição de meio milhão de dólares como apoio solidário, para serem distribuídos através de transferências bancárias, provenientes principalmente desde a Alemanha, passando por contras já existentes na República Dominicana, em Curaçau e nos Estados Unidos.
 
A divisão, dólar por dólar
 
A tabela de distribuição dos fundos foi apresentada no final da reunião: de um total de 500 mil dólares, cerca de 91 mil seriam destinados ao apoio aos candidatos opositores nas eleições parlamentares, fundamentalmente naqueles circuitos onde existem maiores possibilidades de abstenção e muitos eleitores indecisos. Timoteo Zambrano, coordenador de assuntos internacionais da MUD, foi quem assumiu o compromisso de administrar sua distribuição.
 
Outros 98 mil dólares foram investidos no lobby internacional através de viagens, conferências, pronunciamentos e encontros com representantes dos governos. Obviamente, essa verba será controlada pela esposa pop star de López, Lilian Tintori, para turnês na Europa (Espanha, Bélgica e Suíça) e na América Latina (Uruguai, Brasil, Argentina, México, Colômbia e Chile). Os patrocinadores convidados também investiram 32 mil dólares para a promoção à grande escala de projetos, conferências, entrevistas (televisão, publicidade digital, rádio, redes sociais), assim como encontros com figuras de realce internacional, para o qual se destinaram mais 35 mil dólares.
 
Para o apoio logístico e a preparação da imagem para as eleições parlamentares serão usados 30 mil dólares, cifra que alguns dirigentes da MUD consideraram baixa.
 
Um montante de 50 mil dólares será para a campanha em favor da liberação dos que eles qualificam como presos políticos venezuelanos e contra as supostas violações de direitos humanos contra eles – dos quais, cerca de 20 mil irão para os meios jornalísticos audiovisuais, gráficos e portais cibernéticos, e quem os administrará é o diretor do diário El Nacional, Miguel Enrique Otero.
 
O acordo também prevê uma maior ênfase na figura de Leopoldo López durante a campanha, tarefa para a qual estarão comprometidos os demais 30 mil dólares, para garantir que não faltarão as ferramentas necessárias, como telefones, tablets, laptops, baterias e outros equipamentos.
 
Financiar a subversão
 
Mas a maior cifra, cerca de 250 mil dólares, serão para o desenvolvimento de projetos, programas, cursos de capacitação que abordem temas de liderança juvenil, governabilidade social, sociedade civil e direitos humanos. Para isso, se selecionou um grupo de ONGs na Venezuela, encarregadas de estruturar as redes necessárias para inserir neste plano subversivo os setores juvenis, estudantis e demais, capazes de mobilizar a “sociedade civil” para enfrentar o governo.
 
Dessa verba, cerca de 24 mil dólares foram entregues à Rede Venezuelana de Organizações para o Desenvolvimento Social (Redsoc), 26 mil para as atividades da ONG Anistia Internacional Venezuela e 20 mil para a Corporação Venezuelana de Televisão (Venevisión), especializada em campanhas de degradação do governo.
 
Mas há outros beneficiários: 18 mil foram para o Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico para a Liberdade (Cedice) e 38 mil para fortalecer o acionar dos jovens do Centro de Direitos Humanos da Universidade Católica Andrés Bello.
 
Na lista divulgada no dia 29 de setembro, 22 mil dólares foram destinados para a promoção do trabalho da Fundação Reflexos da Venezuela, 17 mil para incrementar o trabalho realizado pela ONG Transparência Venezuela, além de 16 mil para os jesuítas da Fundação Centro Gumilla.
 
Ainda assim, 34 mil dólares serão para o trabalho da ONG Venezuela Diversa, e outros 22 mil para continuar com a capacitação de jovens através do Programa Venezuelano de Educação (Provea). Finalmente, 22 mil a mais para assegurar o apoio da associação civil Controle Cidadão, “para a segurança, a defesa e a força armada nacional”.
 
Essas são as cifras do financiamento estrangeiro à oposição, cujo único fim é a desestabilização do país, e criar um imaginário de fraude eleitoral através do terrorismo midiático cartelizado.
 
(*)Sociólogo, investigador do Observatório da Comunicação e da Democracia.

Tradução: Victor Farinelli

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