quarta-feira, 25 de novembro de 2015

“TODOS NÓS SABEMOS QUEM SÃO REALMENTE OS GRANDES DONOS DO PODER... E ESTES NUNCA SÃO CANDIDATOS A NADA”

O ex-presidente se abre: “Sou a favor da reeleição... para mim, mas não para os outros; o povo tem despertado para exigir seus direitos, mas muito lentamente, e a mídia corporativa ajuda muito na manutenção da desinformação. Isso foi até favorável para nós...”

Nunca se viu tanta sinceridade. Mas, atenção, o ex-presidente está drogado e, apesar de certas aparências, trata-se duma obra de ficção.

Por Fabiano Oliveira – trecho extraído do seu livro Num quarto escuro no Palácio da Alvorada (o título e o destaque acima são deste blog)

Label estava sendo tratado por Dr. Marques e chamava o ex-presidente de “presidente”. Assim que se sentaram frente à frente, Label acionou o aparelho exalador. Sabia que a substância logo tomaria conta do ambiente e aos poucos faria seu efeito. Precavido, tomou o seu supressor de efeito antes. Não podia arriscar ficar totalmente relaxado durante a entrevista e se perder do seu propósito.

Fez uma primeira pergunta teste para ver se o efeito já estava acontecendo. “O senhor é a favor ou contra a reeleição para presidente da república?” - Sou a favor... para mim, mas não para os outros. - Aquela resposta era claramente excessivamente honesta para ser dada a um desconhecido. Label poderia começar a verdadeira entrevista.

“O senhor lembra da votação do projeto de lei que criava a reeleição no país?” - Claro, foi meu projeto favorito. - “Houve compra de votos para a aprovação do projeto pelos parlamentares?” – Eu não tenho certeza. Acredito que sim. Lembro do Mota e do Luís falarem sobre como poderiam trazer para o nosso lado alguns dos desgarrados da época. - “Então o senhor não aprovou tal ação?” - Não, mas também não impedi... Acho que a finalidade maior justificava os meios. - “O senhor não vê nenhum paralelo disso com o mensalão?” - Bom, é o que tem que ser feito para as coisas andarem... Azar o deles que foram pegos. Nós não fomos e ficou tudo bem, isso é o que importa.

Novamente na história da humanidade, os fins justificam os meios é o termo chave para explicar as ações na política, na economia e nos negócios. Label conhece bem a filosofia e a história para saber que o que o ex-presidente falara é a mais pura e simples verdade, mas as pessoas comuns não querem saber disso. No fim ser pego ou não faz mais diferença do que o aspecto moral da ação. Se foi bem sucedida e levou a finalidade maior última, então a ação está justificada... e até mesmo recomendada.

“E quanto à violação do painel de votação do congresso? O senhor teve algum conhecimento a respeito daquele processo?” - Tive sim, através do que os meus assessores me anteciparam. O senador baiano e o Arruda tinham a intenção de ajudar na aprovação de leis importantes, mas escolheram o caminho errado. - “E quanto à crise cambial de janeiro de 1999? Será que o senhor sabia o que estava para acontecer? Qual o motivo daquilo ter sido feito de maneira tão abrupta, prejudicando tanta gente?” - Ah, isso foi por razões eleitorais. Toda a equipe econômica já estava preparada para a liberação do câmbio desde 1997. Era a ação correta, pois segurar o câmbio no mercado demanda muitas reservas. Tínhamos o suficiente por causa das privatizações, que deu para segurar o câmbio e assegurar a nossa reeleição. Mas depois não dava mais, as reservas tinham se acabado e por isso tivemos de contrair novos empréstimos.

Ele demonstrava ciência e até aprovação diante das ações durante seu governo. Podia ser também um efeito da droga inalada, já que a mesma inibe qualquer traço de preocupação ou reserva. Label estava quase convencido de que o nível de conhecimento do ex-presidente era amplo, porém falta uma intencionalidade maior. No espírito expresso por ele como motivador das ações estava uma consciência de que nada de errado tinha sido de fato feito, apenas moralmente questionável, mas que as finalidades justificavam os meios para atingi-las.

“O senhor acha que os governos posteriores foram piores ou melhores que os seus?” Essa pergunta não estava no roteiro de Label, mas quis testar o nível de honesta percepção do ex-presidente uma última vez antes de ir para o questionamento final: - Eu acho que eles foram mais felizes em muito mais coisas que eu nos meus governos. Fico até com ciúmes pela sorte que eles tiveram em muitas das coisas que não tivemos a oportunidade de fazer. Na verdade, eu gostaria muito que tivéssemos sido mais aliados que adversários, mas é a natureza da política.

“Acredito no senhor... Uma última pergunta: a corrupção que vem sendo exposta agora no governo da presidenta é realmente o ápice da corrupção no país? Ou era a mesma coisa em seu governo e não havia instituições fortes o suficiente para combatê-la?”

- Eu não sei te dizer, dr. Marques. Com certeza ainda não havia instituições independentes o suficiente para o combate, como não acredito que haja hoje, pois o patrimonialismo ainda é muito grande nas entranhas do poder público. Você deve saber bem que apesar do quanto evoluímos como nação democrática, nossa mentalidade política ainda é a mesma de fins do século 19. O povo tem despertado para exigir seus direitos, mas muito lentamente, e a mídia corporativa ajuda muito na manutenção da desinformação. Isso foi até favorável para nós por um tempo, pois facilitava o trabalho no meu governo de promover a estabilidade da economia e garantir as metas acertadas com o mercado internacional. No entanto isso nos manteve muito dependentes. Acho que a situação   agora é mais favorável para um desenvolvimento sustentável e de longo prazo. Resta saber se as dificuldades políticas poderão ser superadas e o interesse público se tornar maior que o interesse dos partidos.

“Uma confirmação apenas agora antes de encerrarmos...  Para o  senhor, então, há um grande processo de continuidade entre os seus governos e os três seguintes?” - Sem dúvida. Todos nós envolvidos na trama do poder sabemos quem são os grandes donos do poder realmente... E estes nunca são candidatos a nada, nunca são eleitos por ninguém e não têm nenhuma obrigação com ninguém mais que com eles próprios.

Fabiano Oliveira é publicitário e professor. Escreveu e publicou obras de ficção entre os anos de 1995 e 2000. Teve duas biografias publicadas pela Assembleia Legislativa da Bahia, parte da série Gente da Bahia (Dom Timóteo e Nelson Carneiro). Tem diversas publicações acadêmicas nas áreas de Comunicação, Filosofia, Sociologia e Administração.


Nenhum comentário: