quinta-feira, 24 de setembro de 2015

PAPA FRANCISCO: ESPONTANEIDADE SIM, IMPROVISAÇÃO NUNCA – POR WASHINGTON URANGA

(Foto: Página/12)
Cada passo está previsto, calculado e meditado. Tem consciência de que todos os olhos estão postos nele e que isso acrescenta as possibilidades de êxito no que se proponha. Não está disposto a perder a oportunidade.

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Por Washington Uranga (jornalista uruguaio vivendo na Argentina) – no jornal argentino Página/12, edição impressa de 22/09/2015

O papa Francisco transmite imagem de espontaneidade em cada um de seus gestos. Também se ufana disso, como o fez agora em Cuba especialmente durante o encontro com os religiosos e religiosas e com os jovens. Nas reuniões com as autoridades ele é visto bem à vontade e alegre. Mas seria um erro confundir tudo isso com improvisação. Bergoglio é um homem sumamente inteligente que pensa cada movimento como um hábil jogador de xadrez. Nada está a depender do acaso. Tampouco os gestos, as palavras e até os silêncios. A isso se agrega, como parte fundamental da estratégia, a discreção em torno de cada movimiento. Tal como  admitiu o cardeal cubano Jaime Ortega numa entrevista concedida à televisão cubana, este também é um ingrediente “que lhe permite alcançar os objetivos” a que se propõe.
A visita que está realizando a Cuba tem, tal como o próprio Bergoglio assinalou, um objetivo indiscutivelmente “pastoral”. Quer dizer, terminar de reinstalar a Igreja Católica na vida dos cubanos, tarefa iniciada por seus predecessores João Paulo II e Bento XVI despois de anos de ostracismo durante a etapa mais ortodoxa da revolução. Mas as condições hoje são outras. Porque mudou o momento histórico para os cubanos e porque este papa conta com o prestígio e a legitimidade de haver colaborado efetivamente no restabelecimento das relações entre a ilha caribenha e os Estados Unidos. Este é um enorme saldo a favor que aumenta seu crédito tanto ante o povo como frente às autoridades cubanas. Assim o admitem todos os atores e até as críticas dos dissidentes – que reclamam que o Papa não os escute – perdem significação neste contexto. Ontem (dia 21) em Holguín o Papa reconheceu “o esforço” da Igreja Católica cubana. Francisco quer deixar como saldo de sua visita uma Igreja fortalecida tanto no institucional como em relação a seus fiéis.
Mas o “pastoral” não exclui o político. Nem tudo o que acontece é o que se vê e se divulga. Junto a concentrações multitudinárias há também diálogos reservados que estão ocorrendo de forma simultânea durante a visita e que apontam no sentido de facilitar o fim do bloqueio. E o que resulta mais curioso é que tanto as autoridades norte-americanas como as cubanas confiam em que o Papa “convença” a outra parte a ceder a certas condições ou a facilitar determinadas questões que farão mais possível ir derrubando todas as barreiras existentes. Em outras palavras: uns e outros aspiram a que Bergoglio se converta em porta-voz e embaixador de seus pontos de vista. Mas não menos certo é que uns e outros também consideram que Francisco é a garantia e o impulsor da aproximação e ninguém se atreveria a lhe impor uma condição. Tampouco o Papa o permitiria. Enquanto isso Francisco espera chegar nos próximos dias aos Estados Unidos com uma pasta recheada de seus diálogos com os cubanos, onde se incluem pedidos e também propostas e concessões. Com esses argumentos tentará, ante Obama e os seus, dar um novo passo significativo rumo à total normalização das relações entre os dois países.
Mas este propósito tampouco é uma jogada isolada de sua estratégia a respeito da busca pela paz no mundo. Em Havana disse que o processo de aproximação entre Cuba e os Estados Unidos é um “exemplo de reconciliação para o mundo inteiro”, em meio à atual atmosfera “de terceira guerra mundial por etapas que estamos vivendo”. Esta é a ideia que o Papa tem sobre o que está ocorrendo no mundo. E está convencido de que a Igreja Católica, em geral, e ele, de forma particular, têm um aporte a fazer nesse sentido.
Por isso também insiste em que o conseguido entre Cuba e os Estados Unidos depois de tantos anos de enfrentamentos é um exemplo que pode servir para outros. “É um sinal da vitória da cultura do encontro, do diálogo... sobre o sistema, morto para sempre, de dinastia e de grupos”, disse o Papa. Por esse mesmo motivo fez também um pedido em favor dos diálogos de paz entre o governo colombiano e a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), intercâmbios que se vêm realizando precisamente em Havana. “Não podemos nos permitir outro fracasso”, disse o Papa a respeito. O presidente colombiano Juan Manuel Santos se apressou a agradecer as palavras de Francisco.
Também disse Francisco que “nunca o serviço é ideológico, já que não se serve a ideias, e sim que se serve às pessoas”. Esse é o lugar onde quer se concentrar. Numa perspectiva humanista e à margem das disputas políticas. Não porque não as reconheça ou porque não valorize a política. Sim porque entende que é o compromisso com o homem o lugar a partir do qual a Igreja Católica e, em geral, as religiões, podem fazer suas melhores contribuições ao mundo. O cardeal Jaime Ortega, na mencionada entrevista concedida à televisão cubana pouco antes da viagem de Francisco, afirmou que “a Igreja não está no mundo para mudar governos. A Igreja está no mundo para penetrar com o Evangelho o coração dos homens. E os homens mudarão o mundo”. A frase foi atribuída pelo próprio Ortega ao papa emérito Bento XVI mas, segundo relatou, foi a ideia que ele transmitiu a Bergoglio no mesmo dia em que foi proclamado como papa Francisco. Ortega assegura que Francisco faz sua essa perspectiva: uma Igreja que incide, que alenta, que ajuda mas, ao mesmo tempo, deixa as soluções finais nas mãos dos dirigentes. Esse é o sentido da estratégia político-institucional de Bergoglio.
O Papa que se dá espaço para a espontaneidade, que se apresenta como o homem que não poupa franqueza e jovialidade, não deixa nada a depender da improvisação. Cada passo está previsto, calculado e meditado. Tem consciência de que todos os olhos estão postos nele e que isso acrescenta as possibilidades de êxito no que se proponha. Não está disposto a perder a oportunidade.

Tradução: Jadson Oliveira

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