quinta-feira, 3 de setembro de 2015

FRANCIEL CRUZ: O TRUQUE DO INVENTOR E A CIDADE INVISÍVEL

O mandatário desta província lambuzada de dendê e de exclusão age com um autoritarismo ancestral, herdado de sua opressiva árvore genealógica. 

Por Franciel Cruz (jornalista baiano) – reproduzido (inclusive fotos) do jornal online Passa Palavra, de 16/08/2015

Com argúcia e mania de grandeza, que lhe são peculiares, Luiz Inácio Lula da Silva decidiu marcar seu período na Presidência da República com um slogan que deveria servir ao início de uma nova era, o marco inaugural de um projeto de nação. Assim, diante de qualquer ato, ele jogava para a plateia o indefectível “nunca antes na história deste país”.

Simbolizado por este bordão de animador de auditório, o “inventivo” projeto neodesenvolvimentista (que propiciou muita inclusão social, mas também foi (ir)responsável pela manutenção e ampliação dos benefícios para o grande capital) encontra-se agora num momento de esgotamento. Não é o caso aqui de se debruçar se a encruzilhada foi decorrência de pecado original, de barbeiragens internas, da conjuntura internacional ou tudo junto e misturado. Já há farto material sobre o tema.

Na verdade, estes prolegômenos têm como objetivo apenas fazer um paralelo com a situação de Salvador e dizer que o atual alcaide da cidade, ACM Neto, usa a mesma estratégia de Lula. Qual seja. O prefeito de Soterópolis também tenta se apresentar como inventor de algo novo, no caso ser o criador da velhaca capital da Bahia. É obvio que, por uma questão de justiça, faz-se mister realçar a diferença de estatura entre os dois personagens (não riam, amigos de infortúnios, pois aqui não se trata de fita métrica, mas sim de tamanho histórico de cada um, seja para o bem e/ou para o mal).

Mas derivo, não ao ponto de esquecer que outra diferença fundamental, e impossível de ser olvidada, é que, além de argúcia e mania de grandeza, o mandatário desta província lambuzada de dendê e de exclusão age com um autoritarismo ancestral, herdado de sua opressiva árvore genealógica. Não é à toa que, em todas as intervenções feitas na cidade, sempre fica patente a mão pesada do modo de governar arbitrário.

Arbitrário e inventador. É como se até a mais simples borra de asfalto, que será levada pelas tradicionais chuvas que sempre castigam Salvador, fosse a primeira e única na história da cidade. É fato que, ao contrário de Lula, ACM Neto ainda não achou nem criou um bordão para chamar de seu. No entanto, tem algo muito mais forte e poderoso para se inserir na “estória” como o grande mito inovador: um massacrante império de comunicações que, dia sim e outro também, vive a lhe engrandecer e amplificar todo e qualquer feito.

Ao ver a fantasiosa narrativa cotidiana da mídia local parece que a capital baiana tem, atualmente, o primeiro governo sob inspiração inaudita. Pelo que é vendido, literalmente, pelo noticiário, a impressão que se tem é que o carlismo (nome dado pelo jornalista Ivan de Carvalho à corrente política comandada por ACM – Antônio Carlos Magalhães) nunca esteve na prefeitura.

O problema é que a história, esta menina traquina, está aí para mostrar que não há nada de novo no front. Nos últimos 50 anos, os carlistas mandaram e desmandaram de modo efetivo (a maior parte do tempo) ou participaram dos (des)governos de plantão. Aliás, até na nefasta gestão do ex-prefeito João Henrique os carlistas estavam lá. As raras exceções apenas confirmam a regra.
Porém, o prefeito e seus asseclas, nos mais variados segmentos, são persistentes. E continuam a apregoar e a se comportarem como se estivessem criando algo novo, quando apenas seguem o caminho aberto pelo patriarca há alguns outonos.

Exemplo?

No final da década de 1960, mais precisamente em 1968, quando ocupava a mesma cadeira no Palácio Tomé de Sousa, ACM, o avô, idealizou a Lei da Reforma Urbana de Salvador, desfazendo-se de 25 milhões de metros quadrados, o equivalente a 10% da área da cidade, com o pretexto de obter recursos para a fazenda municipal.

Como já não existem mais tantas áreas a serem doadas para exploração dos especuladores imobiliários, o neto desafeta 62 imóveis públicos pertencentes à coletividade, um total de 587 mil metros quadrados,leiloando parte da cidade também com o argumento de obter recursos.

Outra política que não mudou nos governos da família ACM foi a de remoção dos desvalidos na região do Centro Antigo. Tanto na reforma do Pelourinho, na década de 1990, quanto agora, o demolidor método continua igual: limpeza da área para que os aquinhoados possam ocupá-la (ver aqui e aqui).
Já as invasões de colarinho branco continuam alvíssimas, limpas e impunes, tanto ontem quanto hoje.

Por falar em impunidade e limpeza, é neste campo que a atual gestão mais se aplica. O principal projeto é o da reforma da orla. E novamente a ideia é que a cidade está sendo criada, fundada. Desde a malamanhada obra do “mirante” na sereia em Itapuã até a cinza cimentaria sem fim na Barra, tudo aparece sob o signo do novo, do “nunca antes”.

Para que não se diga que não há nada efetivamente novo, existe a, digamos assim, novidade na vacilação referente aos valores dos investimentos nestas obras da orla. 
Tomemos como exemplo o caso do Rio Vermelho, última etapa da destruição, digo, requalificação da orla.

No dia 20 de maio de 2013, o próprio prefeito anunciou que seriam investidos 10 milhões no bairro. Dinheiro de contrapartida que seria “dado por empresários”, conforme mancheteava o jornal de propriedade de sua família. Pouco tempo depois, na peça de propaganda para divulgar todas as obras na orla, a prefeitura garantia que ia investir 5 milhões, agora, com recursos próprios. Vale salientar que nesta peça publicitária, as obras estariam prontas no primeiro semestre de 2014. Mas não sejamos tão pontuais assim, afinal uma característica fundamental da Bahia é não ligar para o relógio. Não seria o prefeito que desta lei da natureza iria ter isenção. Voltemos aos investimentos.

No início de 2014, o valor estimado para o investimento, anunciado pelo prefeito (e tome-lhe propaganda), já era da ordem de 30 milhões.
Em setembro do mesmo ano, com pompa e circunstância e aquele jeitinho de quem está criando uma nova cidade, ACM Neto garante que seriam investidos mais do que o dobro, 70 milhões. E com recursos do município.

Talvez este valor suba mais um pouco, já que a prefeitura retirou, mas já se comprometeu e recolocar novamente as tais pedras portuguesas (nem brigo por elas. Quem era apaixonado pelas referidas é Caetano Veloso, que num tem dado nenhum pio sobre o tema nem sobre o prefeito que “deve saber o que está fazendo”).
Por falar em refazer, o prefeito decidiu “requalificar” o Mercado do Peixe, reformado há pouco tempo na última gestão. Aliás, a sanha reformista e inovadora é tão grande que não poupa nem mesmo as obras que ele “criou”. Já em sua gestão, ACM fez intervenções na rua da Fonte do Boi, que serão desfeitas e refeitas neste plano novo, criador, original, como tudo que ele tem feito.

Nesta corrida insana pela invenção de um novo município, há espaço também para esquecimentos. Em relação às encostas, por exemplo, numa cidade em que só este ano morreram mais de 20 pessoas em decorrência da chuva, nenhum centavo, nem palavra. No programa de governo do referido, inclusive, não existia uma única menção. Mas esta é uma parte (grande) da cidade que não precisa ser inventada. Afinal, aos olhos do prefeito, ela não existe.

Por fim, recorro às indignadas palavras que ouvi ontem no glorioso buzu Sussuarana R-2, quando comentei com um senhor sobre este processo de invenção/destruição da cidade. “Ah, meu filho, ACM Neto é igual a um cupim: só rói madeira fraca”.


P.S.: O prefeito é tão inovador que na primeira vez que se candidatou se autodenominou ACM Neto, depois Neto. E agora quer ser Netinho. Mas uma parte da cidade que resiste teima em chamá-lo de Grampinho.

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