sábado, 19 de setembro de 2015

BLOQUEIO CONTRA CUBA: GUERRA DIÁRIA CONTRA A POPULAÇÃO CIVIL - POR DARÍO PIGNOTTI

(Foto: Reprodução/Carta Maior)

Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático com o restabelecimento das relações com os EUA, a hostilidade no campo do comércio ainda vigora.

Por Darío Pignotti, enviado especial a Havana - reproduzido do portal Carta Maior, de 18/09/2015

O milagre cubano, sem a ajuda de deus: viver sob bloqueio econômico durante mais de meio século e manter a revolução de pé é uma façanha inquestionável. Faltando menos de 24 horas para a chegada do papa Francisco a Cuba, não pode haver outro assunto no país que não seja a visita do pontífice argentino, sua colaboração para o restabelecimento do diálogo com os Estados Unidos, a expectativa sobre o seu discurso e o que ele dirá sobre o bloqueio.
 
Os postes das principais avenidas e alguns edifícios públicos estão decorados com faixas amarelas e brancas, as cores da bandeira do Vaticano, que também se reproduzem nas lonas que cobrem o tablado montado na Praça da Revolução, onde Francisco celebrará a missa de domingo, abençoado pela famosa imagem de seu compatriota, Ernesto Che Guevara.
 
O chanceler Bruno Rodríguez declarou que seu governo aguarda com atenção esse discurso, no qual realmente se espera que o papa fale a respeito do bloqueio. “Escutaremos tudo o que ele tem que dizer, com profundo respeito, sabendo que o Santo Padre tem uma extraordinária autoridade, não só religiosa, mas também ética, e uma influência a escala mundial”.
 
Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático, com o restabelecimento das relações com os Estados Unidos, a hostilidade no campo das relações comerciais continua de pé, afirmou Rodríguez, em entrevista para os correspondentes estrangeiros.
 
“Nos últimos anos, inclusive durante o período de diálogo e de conversas confidenciais com o governo dos Estados Unidos – ocorridas nos anos de 2014 e 2015 – o bloqueio continuou se fortalecendo, com um claro e crescente caráter extraterritorial, em particular no âmbito financeiro”.
 
O governo de Cuba, segundo o seu chanceler, valoriza e reconhece a atitude positiva do presidente Barack Obama, ao se abrir a uma recomposição das relações diplomáticas, mas agrega que isso não acabou com o acosso representado por uma “violação massiva, flagrante e sistemática dos direitos dos cubanos”.
 
Citou como exemplos as travas financeiras que impedem Cuba de comprar medicamentos oncológicos, o que afeta a um grande número de pacientes – inclusive empresas brasileiras, que exportam produtos com insumos norte-americanos, e que deixaram de vender para a ilha, explicou Rodríguez.
 
Traduzindo a valores atuais, pode-se dizer que o bloqueio causou um impacto estimado de 121 bilhões de dólares.
 
Cuba denunciará novamente o bloqueio no final deste mês, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde insistirá em que esta guerra econômica continua sendo o maior obstáculo para normalizar as relações de forma definitiva, apesar da reabertura das embaixadas em Washington e em Havana, que ocorreram em julho, com a presença do secretário de Estado John Kerry.
 
Ao comentar o informe “Cuba contra o bloqueio”, que será a base da proposta de resolução que Cuba levará às Nações Unidas, o chanceler confirmou que haverá uma menção sobre a nova conjuntura e o vínculo com a Casa Branca, e que Obama conta com atribuições constitucionais que lhe permitiriam atuar para mitigar a guerra comercial e financeira.
 
O bloqueio no “meu carro cor-de-rosa”
 
David Hernández é um jovem taxista, tem menos de 40 anos e me espera na parada em frente ao Hotel Nacional, ao dado do mítico Malecón de Havana.
 
Começou a chover, Hernández fechou o teto conversível de lona branca, antes de iniciar a viagem em direção ao bairro da Havana Velha, em seu Ford Victoria 1953 – “V8, oito cilindros, meu compadre” – pintado de um furioso tom rosado. “A pintura é novinha, eu coloquei há dois anos, o carro é velho mas continua aguentando, o único problema desses carros é que consomem muito combustível, são carros norte-americanos, eles fazem os carros para consumir combustível porque lá eles têm de sobra, mas aqui nos falta”.
 
David, como bom cubano, esbanja senso de humor: “espero que este papa nos ajude a derrubar o bloqueio, meu carro é mais velho que o bloqueio, mas não sei quanto tempo mais vai aguentar, já está velhinho, e as ruas estão cheias de buracos”.
 
O mundo está com os olhos sobre Cuba: mil jornalistas estrangeiros solicitaram credenciamento aos dois ministérios de relações exteriores, para acompanhar a visita do Papa, segundo informou o chefe de imprensa do organismo cubano, Alejandro González.
 
“Nós gostamos de falar com a imprensa, porque queremos que as pessoas de fora de Cuba saibam que aqui nós estamos lutando, todos os dias, esperando que as coisas melhorem, que haja mais prosperidade, e temos fé em que este Papa nos trará uma boa mensagem. Veja, eu disse que tenho fé, mas não sou religioso, sou ateu, mas tenho meu próprio deus” conta David, que me deixa na esquina da estreita e bonita Rua Campanilla, um local que preserva a arquitetura colonial, onde ele se despede com um cordial “quando quiser, conta com a minha ajuda”.
 
Raúl, Fidel e Malcolm X em Nova York
 
O chanceler Rodríguez anunciou a viagem do presidente Raúl Castro à Assembleia Geral das Nações Unidas, no que será sua primeira visita aos Estados Unidos desde 1959, quando integrou a comitiva encabeçada por Fidel Castro, poucos meses depois do triunfo da Revolução.
 
Raúl fará seu discurso na sede da entidade, em um dia em que, provavelmente, Francisco e Barack Obama estarão presentes.
 
O fato do trio Raúl, Francisco e Obama comparecerem em um mesmo evento, no edifício sede da ONU, despertou uma série de especulações entre os jornalistas que já estão trabalhando na sala de imprensa do Hotel Nacional, decorado com imagens de Che e Fidel durante seus anos de combatentes em Sierra Maestra.
 
Alguns colegas comentaram, entre tantas dessas especulações, que poderia haver um encontro entre os três, o que seria, certamente “a foto do ano”. Por enquanto, a única certeza é que o chefe de Estado cubano viajará aos Estados Unidos avivado por um clima de aproximação que ontem foi celebrado pelo chanceler, quando conversou com os correspondentes estrangeiros.
 
Os acontecimentos que nos esperam em Nova York serão reflexo das movidas diplomáticas discretas que sucedem estes dias em Cuba, no Vaticano e nos Estados Unidos. Contatos que devem se intensificar a partir do sábado quando o Papa desembarca no aeroporto internacional José Martí. Sabe-se que o atual sumo pontífice é um “animal político”, habituado à negociação cara a cara, um estilo muito pessoal que ele consolidou no ano passado, durante seus encontros privados que manteve com Raúl e com Obama, separadamente, na Santa Sé.
 
Mas independente do novo encontro entre Raúl e Obama, reeditando o ocorrido em abril, na Cúpula das Américas do Panamá, a visita do mandatário cubano a Nova York traz à memória outras viagens legendárias.
 
Como aquela de Fidel Castro, há mais de meio século, quando se alojou em um modesto hotel do Harlem, logo após abandonar outro, onde o proprietário temia que sua imagem fosse contaminada pela reputação de “comunista”. Depois do incidente, Fidel e sua comitiva foram grandiosamente acolhidos pela comunidade do bairro negro da cidade, e foram os próprios vizinhos os que estabeleceram um cordão de segurança em torno do hotel, onde o líder da Revolução foi visitado pelo presidente soviético Nikita Kruschev, o mandatário egípcio Nasser e por Malcolm X, o líder dos “Panteras Negras”. Fidel literalmente revolucionou os novaiorquinos, fascinados com o guerrilheiro que havia derrubado a ditadura de Fulgêncio Batista, figura sobre a qual pairava mil perguntas na época. Uma delas era justamente se Fidel era mesmo comunista.
 
Quem respondeu a pergunta foi o próprio Kruschev, dizendo que conversou com Fidel e quis saber se ele era comunista, e que ele teria respondido: “o que sei é que sou fidelista”.
 
Tradução: Victor Farinelli

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