segunda-feira, 3 de agosto de 2015

PARAGUAI: JUIZ DO CASO CURUGUATY CONFESSA JULGAMENTO-FARSA CONTRA CAMPONESES – POR LEONARDO WEXELL SEVERO

Presidente do tribunal Ramón Trinidad Zelaya durante julgamento (Foto: Agência EFE/Opera Mundi)
30 ANOS DE PRISÃO: “A MÍDIA PARAGUAIA QUER A SENTENÇA”

Imagens editadas de soldados da polícia chegando ao assentamento de Marina Cue e sendo teoricamente “emboscados” por “camponeses covardes” são repetidas à exaustão (em todas as emissoras de rádio e TV do país), para que a população embarque na campanha desinformativa, julgue e condene.

Por Leonardo Wexell Severo, no portal Opera Mundi, de 29/07/2015

“A mídia quer a sentença”. O anúncio do juiz Ramón Trinidad Zelaya, responsável pelo julgamento dos camponeses de Marina Cue, no município de Curuguaty, evidenciou nesta terça-feira o jogo de cartas marcadas do mais do que viciado processo. Para o governo paraguaio, os latifundiários e sua mídia, que utilizaram o confronto ocorrido no dia 15 de junho de 2012 para justificar o impeachment do presidente Fernando Lugo, a meta é penalizar os trabalhadores sem-terra com até 30 anos de prisão.

Ao negar aos advogados que recém assumiram o caso o direito a um estudo pormenorizado de mais de 7.200 páginas dos autos do processo e marcar para a próxima segunda-feira, 3 de agosto, o reinício do julgamento, Ramón Zelaya expôs as vísceras do judiciário paraguaio, intimamente ligado aos poderes político e econômico. Afinal, disse, é preciso atender aos meios de comunicação. E eles têm “pressa”.

“Esta é uma confissão expressa da total ausência de independência do judiciário paraguaio”, declarou o juiz brasileiro Jonatas Andrade, membro da Associação dos Juízes pela Democracia e um dos observadores internacionais do caso Curuguaty, que vieram a Assunção acompanhar o processo. Em geral, ressaltou Jonatas, “o judiciário é contra as maiorias de ocasião, pois precisa estar apegado ao Estado de direito, à Constituição, à legislação. Nunca vi um juiz assumir desta forma que sua decisão é para atender a imprensa, isso é estupendo. No Brasil até ocorre, mas não se diz”.

Os jornais ABC Color, Última Hora e Extra, assim como todas as principais emissoras de rádio e televisão do Paraguai voltaram à carga desde segunda-feira com “o julgamento sobre a matança que tirou Lugo”. Imagens editadas de soldados da polícia chegando ao assentamento de Marina Cue e sendo teoricamente “emboscados” por “camponeses covardes” são repetidas à exaustão, para que a população embarque na campanha desinformativa, julgue e condene. Como se fosse crível que 60 camponeses, 25 deles crianças e mulheres, pudessem fazer frente a mais de 320 militares fortemente armados e contando, inclusive, com helicópteros.

Rubens Villalba, Felipe Martínez, Luis Olmedo, Adalberto Castro, Arnaldo Quintana, Néstor Castro, Lucía Aguero, Fani Oledo e Dolores López Peralta são acusados por tentativa de assassinato, invasão de imóvel alheio e associação criminosa. Alcides Ramón Ramírez e Juan Carlos Tílleria de associação criminosa e invasão de móvel, e Felipe Nery Urbina responde por fugir da perseguição penal. A jovem Raquel, que tinha então 17 anos, é acusada de invasão de imóvel alheio, associação criminosa e cumplicidade de assassinato. O caso de Felipe é uma boa demonstração da violação dos direitos humanos: ao tentar ajudar a um dos feridos, foi preso e torturado durante três dias. Outros camponeses não tiveram tanta sorte e foram assassinados pelas costas, a sangue frio.

“Enfrentamento” pré-fabricado

Há três anos, 17 pessoas morreram depois do “enfrentamento” iniciado por franco-atiradores, com projéteis de armas privativas das Forças Armadas. Após tiros dispersos, ouvem-se nove segundos de disparos de armas semiautomáticas. O cenário lembra Ponte Laguno, na Venezuela, onde atiradores de elite da CIA assassinaram tanto apoiadores do presidente Hugo Chávez como oposicionistas, provocando uma sangrenta confrontação. A atuação dos profissionais da morte em Caracas e em Curuguaty teve por objetivo fomentar o caldo de cultura para a derrubada dos dois presidentes e sua substituição por nomes mais palatáveis a Washington. Com a mobilização popular, Chávez resistiu e venceu. Lugo foi derrubado menos de uma semana após a matança. O plano neoliberal de concessões e privatizações chegou logo em seguida.


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