segunda-feira, 31 de agosto de 2015

OS INOMINÁVEIS – POR FRANCIEL CRUZ

3ª Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro (Foto: Alex Hercog)
As narrativas nas grandes mídias, cotidianamente, arrancam a pele, o nome dos desvalidos, matando-os mesmo depois de já mortos, pelo escondimento, pela deliberada sonegação deste seu direito básico.
Por Franciel Cruz – reproduzido do portal Sul21, de 27/08/2015
Filho do cirurgião Ivo Pitanguy está internado em estado grave após acidente com morte no Rio”.

Esta manchete da Globo News da última sexta-feira, dia 21, causou uma barulhenta reclamação nas (mal) ditas redes sociais. Muito justo. Era mesmo preciso bradar contra a torpeza do título formulado pela TV, até porque o fato principal era o seguinte: Ivo Nascimento, o filho do cirurgião, dirigia bêbado e acabava de cometer um assassinato. E a emissora dos Marinhos quase que tentava transformar o criminoso em vítima.

Porém, para não ficarmos só nas superfícies das manchetes, ouçamos a matéria na íntegra, lida por um Sidney Rezende sisudo, quase compungido.

“É grave o estado de saúde de um dos filhos do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Ele se envolveu nesta madrugada em um acidente de carro em que um homem morreu, na zona sul do Rio de Janeiro. Ivo Nascimento Campos Pitanguy perdeu a direção do carro no bairro da Gávea e atropelou um operário das obras do metrô que não resistiu e morreu. O filho do cirurgião plástico está internado em um hospital da zona sul da cidade. A polícia afirmou que ele foi preso em flagrante por homicídio culposo e embriaguez ao volante. Ivo Nascimento também tem mais de 240 pontos na carteira de motorista”.

Tudo na matéria é vileza. Desde a escolha do uso do verbo “envolver” para designar o acidente até mesmo o final do texto quando a emissora parece fazer uma concessão informativa falando sobre os tais 240 pontos na carteira. Mas isso é algo bem menos incriminador do que destacar que o assassino possuía 70 multas só nos últimos 5 anos.

Porém, no texto televisivo, há algo muito mais infame. Ali, o morto é tratado apenas como um “homem” ou “operário das obras do Metrô”. Pena que a indignação com a reportagem não tenha se centrado também nesta questão. Deveria. Afinal, tão grave quanto a vil e vã tergiversação sobre o assassinato é a ocultação do cadáver, é a macabra tentativa de tornar a vítima invisível. Ele, José Ferreira dos Santos, de 44 anos, não teve direito nem a seu próprio nome, bem intrínseco assegurado até mesmo pelos códigos civis da vida.

É óbvio que o respeito ao nome não pode apenas ficar restrito ao mundo do juridiquês, às recomendações das leis. Esta é uma questão ancestral. Mais do que uma mera identificação pessoal, é uma referência de identidade. É também nossa pele. A propósito, quando sofria chacotas do teólogo Johann Gottfried von Herder em relação ao tema, Goethe respondeu da seguinte forma.

O nome de um homem não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem“.

Eis a sacanagem fundamental. As narrativas nas grandes mídias, cotidianamente, arrancam a pele, o nome dos desvalidos, matando-os mesmo depois de já mortos, pelo escondimento, pela deliberada sonegação deste seu direito básico.

Exemplo, há à mancheia. No ano passado, a auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira transformou-se apenas na “mulher arrastada”. Mas há casos piores. A Cláudia, ao menos, a mídia ainda “concedeu” a identificação com um trabalho, uma função. Já os que foram assassinados no Carandiru entraram para a história somente como um número: 111. Para que se importar se lá existiam um Jovemar, um Grimário, um Jesuíno ou mesmo alguns Josés e Joões?

Nesta seara, aliás, o abismo parece nunca ter fim. Existem casos ainda piores. Basta recordar que os massacrados no Morro do Alemão não tiveram, na cobertura jornalística da época, direito nem mesmo a um número exato. Na ocasião, em 2007, o Globo dizia que foram 19; o Estadão, 13; o Portal do Uol informava que morreram 18, enquanto o Terra chegou a garantir que eram 20. A tragédia brasileira não respeita nem a matemática, que, no tempo de minha mudernagem, ainda era uma ciência exata.

Por falar em inexatidões, existem momentos em que os papéis se invertem. Se um pobre for visto com uma ou duas trouxinhas de maconha tem exposto não só seu nome como toda a sua árvore genealógica. Já os do andar de cima, quando flagrados traficando, perdem seus nomes e são tratados iguais aos desvalidos nos noticiários, pelo menos neste aspecto da ocultação.

Eis três rápidos exemplos de matérias de empresas ligadas à Globo sobre a sonegação dos nomes dos afortunados, para nos centrarmos apenas na construção da narrativa deste império midiático dos Marinhos.

Polícia Federal prende homem com 22kg de cocaína em prédio de luxo”. Prendeu um homem, não um traficante.


Jovens que amarraram menor infrator são detidos por tráfico”. Eles são jovens, não traficantes.


Universitários são presos com lsd, ecstasy e maconha”. Estudantes foram detidos, não traficantes.


Nem nos títulos nem no corpo de nenhuma destas matérias é citada um nome sequer. Há o respeito à privacidade. Quem terá coragem de nomeá-los?

Talvez esta nomeação dos criminosos da classe alta continue fora da pauta dos grandes meios de comunicação, que são especialistas em c(des) construir brutais invisibilidades. Porém, enquanto eles assim procedem, há segmentos que buscam uma reparação para os que habitam o andar de baixo.

Nesta última segunda-feira, dia 24, por exemplo, no centro de Salvador, que sangra e resiste, ocorreu a 3ª Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Lá, a todo instante, os milhares de manifestantes gritavam nas ruas e no carro de som os nomes e os sobrenomes dos mortos pelos aparelhos estatais e que são assassinados novamente pelas narrativas midiáticas. De forma brava, firme e altiva, eles mostraram que os desvalidos não são e não devem ser inomináveis. Todos os que sofrem, morrem e vivem estavam ali, presentes, com seus nomes e suas histórias.


Franciel Cruz é um burrocrata quase feliz e torcedor do Vitória, assim como Marighella.

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