quarta-feira, 15 de julho de 2015

PAPA FALA AOS POVOS: TRABALHO, TETO E TERRA. NÃO SE APEQUENEM! – POR WASHINGTON URANGA

(Foto: AFP/Página/12)
Papa Francisco: “Insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança das estruturas. Este sistema já não se aguenta, não o aguentam os camponeses, não o aguentam os trabalhadores, não o aguentam as comunidades, não o aguentam os povos... E tampouco o aguenta a Terra, a irmã mãe terra, como dizia São Francisco”.
Por Washington Uranga (jornalista uruguaio vivendo na Argentina) – no jornal argentino Página/12, edição impressa de 12/07/2015
Francisco não deixa de surpreender a todos. O Papa se pronuncia frente à injustiça no mundo, toma posição e convoca à luta. No Brasil em 2013 construiu uma frase (“Façam confusão”) hoje convertida em slogan para muitos católicos e para os que, sem sê-lo, compreendem o sentido da mensagem. Agora, em seu primeiro giro latino-americano, Francisco pediu que “não se apequenem!” diante da magnitude da tarefa que têm os que lutam pela mudança das estruturas injustas. Aos representantes de movimentos sociais de todo o mundo lhes disse que “vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito (...) nos grandes processos de mudança, nacionais, regionais e mundiais”. Incentivou-os a se organizarem porque “me atrevo a lhes dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos”. Convidou-os à “participação protagonista” e a “promover alternativas criativas”, na busca cotidiana dos “três T... trabalho, teto e terra”. Tudo isso diante dum auditório muito diverso e sem maioria católica. Foi quase uma pregação num giro que teve um forte tom político.
Dada a densidade conceitual, política e doutrinária de muitos dos discursos pronunciados por Francisco durante sua visita ao Equador, Bolívia e Paraguai resulta difícil fazer uma síntese que expresse realmente tudo o que foi dito. Quem escreve o tentará, mas não sem deixar aberto o convite aos leitores para que repassem a íntegra dos textos papais. Vale a pena. Vários deles incluem perspectivas que até não faz muito tempo eram impensadas na boca da máxima autoridade da Igreja Católica mundial. Do mesmo modo que apenas três ou quatro anos atrás tampouco teria sido possível imaginar esses mesmos ditos em palavras do então cardeal Jorge Bergoglio. Mas estas especulações perderam relevância diante da contundência dos fatos e dos gestos papais e do que isso significa como aporte em busca de uma sociedade mais justa a nível planetário. Uma lúcida reflexão num sentido análogo escreveu Atilio Boron ontem (dia 11) nestas mesmas páginas.
Como “locatário”: com os pés em sua terra
O dito e feito pelo Papa nestes dias não rompe com a linha de seu magistério anterior, mas a reforça no conceitual e no simbólico. Alguém poderia dizer com muita razão que Jorge Bergoglio escolheu seu primeiro giro latino-americano para aprofundar o posicionamento político-ideológico-cultural-evangélico com o qual vem surpreendendo a sociedade quase desde o primeiro dia em que assumiu como máxima autoridade da Igreja Católica em 13 de março de 2013.
Equador, Bolívia e Paraguai se contam entre os países mais pobres da região. Nesse contexto o Papa escolheu falar. Também com o marco da igreja latino-americana que lhe serve de inspiração e que o catapultou para o papado especialmente depois de sua participação muito protagonista na Conferência Geral dos Bispos Latino-americanos em Aparecida (Brasil) no ano de 2007. Francisco costuma definir a si mesmo como “o Papa que veio do Sul”.
Papa Francisco, em Santa Cruz de la Sierra/Bolívia, encorajou os movimentos populares: "O destino está em vossas mãos" (Foto: AFP/Voz do Vaticano)
Atuando como “locatário”, Bergoglio se sentiu em melhores condições de dizer e afirmar o que já havia sustentado, num tom mais doutrinal, em suas duas encíclicas Evangelii gaudium de 2013 e Laudato si de 2015. Ainda que os conceitos sejam similares são poucos os que acessam os documentos pontifícios. Outra coisa é dizer o mesmo em linguagem menos complexa diante de centenas de milhares de pessoas e em meio dum banho de fervor popular. Também porque se faz mais difícil ocultar tais definições por parte dos que, a partir da política ou dos meios de comunicação, dizem venerar o Papa mas fazem o impossível cada dia mais para desconhecer suas denúncias diante das injustiças crescentes da sociedade que “exclui” e “descarta”.
Fenômeno de silenciamento que ocorre tanto por fora como por dentro da Igreja. Muitos dos dirigentes políticos e sociais que se “entusiasmaram” há pouco mais de dois anos com a eleição de Bergoglio como Papa hoje admitem estar “desconcertados” quando não “decepcionados”. Esperavam um Bergoglio “opositor” que de Roma “colocaria na roda” Cristina Fernández e o governo criticando suas decisões políticas e econômicas. Como não aconteceu preferiram falar da “utilização do Papa” por parte do governo. Algo similar ocorreu no Equador e na Bolívia. A oposição esperava diatribes de Bergoglio contra Correa e Francisco agradeceu ao presidente equatoriano “sua consonância com meu pensamento”. E lhe devolveu a gentileza “com meus melhores desejos para que possa lograr o que quer para o bem de seu povo”. Diante de Evo, que não tem uma boa relação com a Igreja Católica local, Bergoglio reconheceu que “a Bolívia está dando passos importantes para incluir amplos setores na vida econômica, social e política do país” e “conta com uma Constituição que reconhece os direitos dos indivíduos, das minorias, do meio ambiente, e com umas instituições sensíveis a estas realidades”.
E mais além dos países visitados, ampliou sua referência para assinalar que nestes últimos anos, “os governos da região envidaram esforços para fazer respeitar sua soberania, a de cada país, a do conjunto regional, que tão lindamente, como nossos pais de antanho, chamam a Pátria Grande”. As palavras são eloquentes... mesmo para aqueles que estão decididos a não entender.
Porém como entre os últimos, por distraídos ou por incomodados, também estão parte dos católicos e dos próprios bispos, o Papa disse em outro momento que “a Igreja não pode nem deve estar alheia a este processo (de mudança) no anúncio do Evangelho”.
Mudança das estruturas
No discurso de maior conteúdo político, escrito do próprio punho e lido para evitar qualquer imprecisão, Bergoglio começou dizendo ante os movimentos sociais em Santa Cruz que “comecemos reconhecendo que necessitamos uma mudança”. E para evitar a manipulação do termo se apressou a assinalar: “Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, também de toda a humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que hoje nenhum Estado pode resolver por si mesmo”.
O Papa se dá um banho de multidões a caminho da igreja de Caacupé, no segundo dia de sua visita ao Paraguai (Foto: Télam/Página/12)
E seguiu esgrimindo argumentos que bem poderiam estar na plataforma de muitos partidos de esquerda da região. “Insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança das estruturas. Este sistema já não se aguenta, não o aguentam os camponeses, não o aguentam os trabalhadores, não o aguentam as comunidades, não o aguentam os povos... E tampouco o aguenta a Terra, a irmã mãe terra, como dizia São Francisco”. Essa mudança, disse Bergoglio, tem que atender a nossa realidade mais próxima (“o pagamento pequeno”) mas tem que ser uma mudança que também “toque o mundo inteiro porque hoje a interdependência planetária requer respostas globais aos problemas locais”. E agregou que “quando o capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema sócio-econômico, arruina a sociedade, condena o homem, o converte em escravo, destrói a fraternidade interhumana, coloca povo contra povo e, como vemos, inclusive coloca em risco esta nossa casa comum, a irmã e mãe terra”. Falando na catedral de La Paz, já havia sentenciado que “se a política se deixa dominar pela especulação financeira ou a economia se guia unicamente pelo paradigma tecnocrático e utilitarista da máxima produção, não poderão nem sequer compreender, e menos ainda resolver, os grandes problemas que afetam a humanidade”.
Não só foram pronunciamentos teóricos. Bergoglio fixou também rumos. “A primeira tarefa é por a economia a serviço dos povos. Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e iniquidade onde o dinheiro reina ao invés de servir. Essa economia mata. Essa economia exclui. Essa economia destrói a mãe terra.”
E continuou. “A segunda tarefa é unir nossos povos no caminho da paz e da justiça. Os povos do mundo querem ser artífices de seu próprio destino. Querem transitar em paz sua marcha para a justiça. Não querem tutelagens nem ingerências onde o mais forte subordina o mais fraco. (...) Nenhum poder de fato ou constituído tem o direito de privar os países pobres do pleno exercício de sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e de justiça”. Por isso exortou: “Digamos NÃO, então, às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Felizes os que trabalham pela paz”.
E para fechar, a “terceira tarefa, talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a mãe terra. A casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, vilipendiada impunemente”.
Por isso “é imprescindível que, junto à reivindicação de seus legítimos direitos, os povos e movimentos sociais construam uma alternativa humana à globalização excludente” porque “não fazê-lo é um pecado grave”.
Em meio a todos esses pronunciamentos houve espaço para criticar “a concentração monopólica dos meios de comunicação social”, para dizer que “o destino universal dos bens não é um adorno discursivo da doutrina social da Igreja” porque “é uma realidade anterior à propriedade privada”, para reconhecer que “se cometeram muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus” e pedir “humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América”, para recordar na Bolívia o jesuíta Luis Espinal, assassinado em 1980 pela ditadura de García Meza e para reconhecer, no Paraguai, as Mães da Praça de Maio. Tampouco perdeu a oportunidade para afirmar que “a Igreja, seus filhos e filhas, são uma parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que, tanto aqui como em outros países, alguns poderes se empenham em apagar, talvez porque nossa fé é revolucionária, porque nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”.
Tradução: Jadson Oliveira

2 comentários:

Irênio Viana Filho disse...

A esquerda brasileira está sem discurso consonante com a verdade do contexto atual, sem teoria revolucionária. Ela está, ou no passado como PSTU e PCO, ou acomodada ao sistema capitalista como PC do B e PT. Nesse aspecto,as falas do papa Francisco estão a anos-luz à frente da mesma, entretanto, para se construir uma nova realidade social é necessário a elaboração de um programa de empoderamento das classes dominadas, não de programas de governo nos quais o leitmotiv é a ascensão de um grupo ao poder. Precisamos diluir a apropriação privada da riqueza socialmente produzida.Isso através de instrumentos legais horizontalizados que dispensem a garantia do locus central de poder, este sempre sujeito à queda, à distorção, à corrupção, e haja ãos negativos.

Jadson disse...

Sábias observações do nosso companheiro Irênio Filho, antigo militante contra a ditadura na década de 70 (teve militância no movimento sindical dos petroquímicos baianos). São debates com tal nível que nossa esquerda está carecendo e bem que o companheiro poderia desenvolver mais seus pensamentos. Este Evidentemente está à disposição.